10% Humano
2 Todas as doençascomeçam no intestino
DOIS
Todas as doenças
começam no intestino
A espécie Sylvia borin é o maior desafio de identificação para o observador de
pássaros. Sua característica típica é, de fato, a falta absoluta de quaisquer traços
distintivos, tornando o reconhecimento desse pequeno pássaro através das lentes
de um binóculo trêmulo particularmente difícil. Mas esses pássaros não são nada
desinteressantes. Poucos meses após o nascimento, eles partem em uma
migração de 6.440 quilômetros, deixando seu lar de verão e atravessando a
Europa, para chegar à sua residência de inverno na África Subsaariana. É uma
rota que nunca percorreram antes, mas eles a tomam mesmo assim, sem a ajuda
de seus pais, mais experientes, nem de um mapa.
Antes de partirem nessa jornada incrível, esses passarinhos minúsculos
engordam para se preparar para o esforço do voo e a falta de comida no
percurso. Em poucas semanas, eles dobram de peso, passando de esguios 17
gramas para portentosos 37 gramas. Em termos humanos, é como se eles se
tornassem morbidamente obesos. A cada dia em seu banquete pré-migração, eles
ganham cerca de 10% de seu peso original – o equivalente a um homem de 60
quilos que ganhasse 6 quilos por dia até atingir 132 quilos. Então, depois de
ficarem rechonchudos o suficiente, os pássaros realizam uma façanha de
resistência além da imaginação da maioria dos atletas de elite e cruzam milhares
de quilômetros com apenas umas poucas refeições pelo caminho.
Claro que, para engordarem assim tão rápido, precisam se empanturrar com
a fartura do verão. Praticamente da noite para o dia, os pássaros abandonam sua
dieta de insetos e começam a comer frutinhas silvestres e figos. Embora as frutas
já estejam maduras várias semanas antes do início do banquete, eles não tocam nelas até a hora certa. É como se uma chavinha se virasse dentro deles, e de
repente passassem a comer sem parar.
Por muito tempo, os pesquisadores supuseram que o ganho de peso dessas e
outras aves migratórias resultasse simplesmente da hiperfagia – ou comilança
excessiva. Mas a rapidez incrível com que esses pássaros deixam de ser
magrinhos e se tornam morbidamente obesos sugere que deve haver mais
alguma coisa para ajudá-los a armazenar tanta gordura. Algo que tem menos a
ver com a quantidade de comida que ingerem do que com a forma como o
alimento é armazenado em seu corpo. Ao observarem quantas calorias extras os
pássaros ingeriam e quantas calorias saíam em suas fezes, os pesquisadores
perceberam que a quantidade adicional de comida que vinham consumindo não
era suficiente para explicar seu súbito ganho de peso.
O enigma continua, porque depois os pássaros perdem o excesso de peso.
Claro que, durante sua viagem através do mar Mediterrâneo e do deserto do
Saara, seus suprimentos de gordura vão diminuindo. No momento em que
chegam e se fixam em seu lar africano, já voltaram ao peso normal. Mas eis o fato
estranho: não é diferente com os passarinhos da espécie Sylvia borin criados em
cativeiro. Durante o período pré-migratório ao final do verão, esses pássaros,
mesmo engaiolados, começam a ganhar peso, tornando-se totalmente obesos em
preparação para uma viagem que jamais farão. Mais tarde, na época exata em
que seus colegas selvagens chegam ao destino, as aves em cativeiro perdem o
excesso de gordura. Apesar de não terem precisado voar 6.440 quilômetros e de
terem acesso limitado à comida, os pássaros em cativeiro perdem o peso extra
quando o período migratório chega ao fim.
É extraordinário que espécimes privados de pistas sobre mudanças no clima,
na duração do dia e nos suprimentos de comida ainda assim consigam ganhar
reservas enormes de gordura para o período migratório muito depressa e depois
voltem a emagrecer aparentemente sem esforço, numa sincronia perfeita com
seus primos selvagens. São aves cujo cérebro é do tamanho de uma ervilha. Não é
como se elas ganhassem peso e depois pensassem: “Nossa! Preciso começar uma
dieta.” Elas não fazem jejum nem malham loucamente. Sua ingestão de comida
volta a cair após a orgia alimentar, é claro, mas não o suficiente para explicar
uma tamanha perda de peso, tão rápido. Imagine ser capaz de perder 6 quilos
todo dia durante sete dias: essa é a taxa de emagrecimento desses pássaros após o
período migratório. Mesmo que um ser humano não comesse absolutamente
nada, não sofreria uma perda de peso tão significativa.
Embora ainda não saibamos ao certo como essa mudança de peso espantosa
é regulada no corpo dos passarinhos da espécie Sylvia borin, o fato de ocorrer
para além das modificações na ingestão calórica deixa claro que: manter o peso
estável nem sempre é uma simples questão de balancear o que entra e o que sai
em termos calóricos. Nos seres humanos, a explicação cientificamente aceita para
o aumento do peso é: “A causa fundamental da obesidade e do excesso de peso é
um desequilíbrio energético entre calorias ingeridas e calorias gastas.”
Parece óbvio: se comer de mais e se exercitar de menos, a energia extra vai
precisar ser armazenada e você vai ganhar peso. E se quiser perder peso, terá que
comer menos e se exercitar mais. Mas esses pássaros são capazes de acumular
rapidamente reservas de gordura que parecem ir bem além das calorias que
ingerem e depois esgotam essas reservas bem além das calorias que queimam.
Parece claro que outros fatores afetam a regulação do peso. Se o equilíbrio entre
calorias que entram e saem não se aplica à espécie Sylvia borin, talvez também
não se aplique aos humanos.
Na tentativa de tratar mais de 10 mil casos de obesidade, o médico indiano
Dr. Nikhil Dhurandhar fez essa mesma reflexão. Seus pacientes retornavam
repetidas vezes após recuperarem o pouco peso que haviam perdido ou nem
conseguiam perder peso algum. Apesar das dificuldades, Dhurandhar e seu pai –
que também era um médico especializado em obesidade –, dirigiam uma das
clínicas mais bem-sucedidas de tratamento de obesidade em Mumbai no fim dos
anos 1980. Mas após passar uma década tentando ajudar as pessoas a comerem
menos e se exercitarem mais, ele começou a sentir que seus esforços – e os de
seus pacientes – eram inúteis. “Após perder peso, você torna a ganhá-lo: eis o
grande problema. E essa tem sido minha frustração.” Dhurandhar queria saber
mais sobre os mecanismos que estão por trás da obesidade. Se comer menos e se
exercitar mais não trazem a cura permanente, talvez comer mais e se exercitar
menos não sejam suas únicas causas.
Trata-se de algo que precisamos desesperadamente descobrir. A nossa
espécie está passando por um ganho de peso coletivo parecido com o dos
passarinhos. E, como acontece com eles, a quantidade de peso que ganhamos não
corresponde exatamente às mudanças na relação entre “calorias ingeridas” e
“calorias gastas”. Até o maior e mais abrangente estudo sobre o assunto mostra
que a maior parte do peso que nossa espécie ganhou não se explica pela comida
extra que estamos comendo nem por nossa falta de atividade física. Algumas
pesquisas apontam inclusive que estamos comendo menos do que costumávamos
e nos exercitando tanto quanto. O debate científico para descobrir se a gulodice e a preguiça são suficientes para explicar por completo o aumento exponencial na
prevalência da obesidade nos últimos 60 anos prossegue discretamente. Será
apenas uma subcorrente científica que está ameaçando os fundamentos da
pesquisa vista como mais relevante? Quais dietas funcionam melhor?
Na época em que Dhurandhar estava mais frustrado, uma doença misteriosa
começou a se espalhar entre os frangos indianos, matando as aves e prejudicando
o ganha-pão dos criadores. Um cientista veterinário envolvido na busca da causa
e de uma cura para a doença contou a Dhurandhar que o culpado era um vírus.
As aves morriam com o fígado aumentado, a glândula timo encolhida e excesso
de gordura. Dhurandhar o interrompeu. “Os frangos mortos estão especialmente
gordos?”, perguntou. O veterinário confirmou.
Dhurandhar ficou curioso. Animais que morrem em decorrência de alguma
infecção viral normalmente ficam magros, não gordos. Seria possível que um
vírus induzisse o aumento de peso em galinhas? Seria essa a explicação por trás
das dificuldades que seus pacientes enfrentavam para perder peso? Dhurandhar,
doido por descobrir mais, realizou um experimento. Inoculou o vírus em um
grupo de frangos e deixou outro grupo em paz. Como previra, três semanas
depois, constatou que as aves infectadas estavam bem mais gordas do que as
saudáveis. Parecia que o vírus tinha feito com que ganhassem peso ao adoecer.
Seria possível que os pacientes de Dhurandhar e inúmeras outras pessoas ao
redor do mundo também tivessem sido infectados pelo vírus?
O que está acontecendo com a nossa espécie atingiu uma escala tão
gigantesca e sem precedente que, no futuro distante, quando a humanidade olhar
para o século XX, se lembrará dele não apenas pelas duas guerras mundiais e a
invenção da internet, mas como a era da obesidade. Um corpo humano de 50 mil
anos atrás e outro da década de 1950 são mais parecidos entre si do que com o
corpo humano atual. Em cerca de sessenta anos, nosso físico esguio e musculoso
de caçadores-coletores foi encerrado dentro de uma camada de gordura em
excesso. Trata-se de algo que nunca aconteceu com os seres humanos numa
escala tão expressiva, e nenhuma outra espécie animal – com exceção dos bichos
de estimação e do gado que criamos – sucumbiu a essa doença responsável por
modificar nossa anatomia.
Um entre cada três adultos no planeta tem excesso de peso. Um em cada
nove é obeso. Essa é a média de todos os países juntos, incluindo aqueles onde a
subnutrição é mais comum do que o excesso de peso. Se tomarmos só os países
mais gordos, os números são ainda mais inacreditáveis. No Pacífico Sul fica a ilha
de Nauru, onde cerca de 70% dos adultos são obesos e outros 23% apresentam excesso de peso. Apenas 10 mil pessoas vivem nesse país minúsculo, e somente
cerca de setecentas delas têm um peso saudável. Nauru é oficialmente a nação
mais gorda do mundo, mas é acompanhada de perto pela maioria das ilhas do
Pacífico Sul e por diversos estados do Oriente Médio.
No Ocidente, passamos de tão magros que ninguém comentava nem se
preocupava em contar o número de pessoas com excesso de peso, para tão
gordos que seria mais rápido contar os que continuaram magros. Cerca de dois
em cada três adultos têm excesso de peso, e metade deles são obesos. Os Estados
Unidos, apesar de sua reputação, está em 17o lugar no ranking mundial: apenas
71% dos habitantes têm excesso de peso ou estão obesos. Já o Reino Unido fica
em 39o lugar, com 62% dos adultos com excesso de peso (incluindo-se aí 25% de
obesos): as maiores cifras da Europa Ocidental. Mesmo entre crianças nos países
desenvolvidos, ser gordo demais é escandalosamente comum, com até um terço
dos menores de 20 anos acima do peso – e metade deles obesos.
A obesidade se desenvolveu entre nós de tal forma que quase a consideramos
normal. Sim, existe um fluxo constante de artigos e notícias sobre a “epidemia”
de obesidade para nos lembrar de que se trata de um problema, mas nos
adaptamos muito rápido a viver em uma sociedade onde a maioria das pessoas
tem excesso de peso. Somos rápidos em pressupor que a obesidade é a
consequência natural da gula e da preguiça, mas se isso for verdade, a natureza
humana está condenada. Só que, ao observar as outras realizações da espécie nos
últimos cem anos – a invenção dos celulares, a internet, aviões, medicamentos
que salvam vidas, etc. –, parece que não estamos paradões, nos empanturrando
de bolo. O fato de as pessoas esguias agora serem minoria no mundo
desenvolvido e de essa mudança ter ocorrido nos últimos cinquenta ou sessenta
anos, após milhares e milhares de anos de magreza humana, é chocante. O que
estamos fazendo conosco?
Em média, o peso dos ocidentais aumentou em cerca de um quinto nos
últimos cinquenta anos. Se você estivesse vivendo na década de 1960, em vez da
década de 2010, provavelmente seria bem mais leve. Pessoas com 70 quilos em
2015 poderiam pesar menos de 60 em 1965, sem esforço algum. Hoje em dia,
para recuperar o peso pré-anos 1960, dezenas de milhões de pessoas estão em
perpétua dieta, tentando se privar das comidas que mais desejam. Mas apesar dos
bilhões de dólares gastos nas dietas da moda, na academia e em pílulas, os níveis
de obesidade não param de crescer.
Esse aumento ocorreu apesar de sessenta anos de pesquisas científicas
buscando estratégias eficazes para manutenção e perda de peso. Em 1958, quando estar acima do peso ainda era algo relativamente raro, um dos pioneiros
da pesquisa sobre o assunto, o Dr. Albert Stunkard, disse: “A maioria das pessoas
obesas não permanecerá no tratamento contra obesidade. Daquelas que
permanecerem no tratamento, a maioria não perderá peso. E daquelas que
perderem peso, a maioria vai recuperar os quilos que perdeu.” Ele estava certo.
Mesmo meio século depois, as taxas de sucesso em tentativas de intervenção para
perda de peso são extremamente baixas. Com frequência, menos de metade dos
participantes consegue perder peso – e para a maioria são apenas uns poucos
quilos por um ano ou mais. Mas por que é tão difícil?
Até agora, entre os que buscam explicações – e talvez justificativas – para o
peso que têm, a tendência é jogar a culpa na genética. Mas diferenças no DNA
humano não se mostraram particularmente esclarecedoras no caso do aumento
do peso, já que apenas uma proporção minúscula de nossa suscetibilidade à
obesidade pode ser explicada pelos genes. Em 2010, um amplo estudo conduzido
por uma equipe de centenas de cientistas vasculhou os genes de 250 mil pessoas
na esperança de achar quais estavam associados ao peso. Para seu espanto,
descobriram apenas 32 em nosso genoma de quase 20 mil genes que parecem
desempenhar algum papel nesse processo.
A diferença média de peso entre as pessoas com uma leve tendência genética
à obesidade e aquelas com uma tendência mais alta foi de apenas 8 quilos. Para
aqueles que gostariam de culpar os pais, isso equivale a um risco extra de 1% a
10% de ter excesso de peso para os que têm a pior combinação dessas variantes
de genes.
Independentemente dos genes envolvidos, a genética jamais poderia ser a
explicação completa da epidemia de obesidade, porque, sessenta anos atrás,
quase todo mundo era magro, apesar de ter, na prática, as mesmas variantes
genéticas da população humana atual. É provável que o que mais importa seja o
impacto de um ambiente mutável – nossa dieta e estilo de vida, por exemplo – no
funcionamento dos nossos genes.
Nossa outra explicação favorita é a do “metabolismo lento”. “Não preciso
controlar o que como porque tenho um metabolismo acelerado” deve ser um dos
comentários mais irritantes que uma pessoa magra pode fazer. Só que isso não
tem qualquer base científica. Um metabolismo lento – ou, em termos mais
corretos, uma taxa metabólica basal baixa – significa que a pessoa gasta
relativamente pouca energia quando não está fazendo nada: não está se mexendo
nem assistindo à TV, nem fazendo contas de cabeça. As taxas metabólicas variam
de pessoa para pessoa, mas o metabolismo das que são obesas é mais rápido – e não mais devagar – do que as que são magras. É simples: é necessário gastar mais
energia para um corpo grande funcionar do que para um pequeno.
Assim, se a genética e as taxas metabólicas basais não estão por trás da
epidemia de obesidade e a quantidade de comida e exercício físico não explica
por completo o aumento coletivo de peso, qual a solução? Como muitas pessoas,
Nikhil Dhurandhar queria saber se algum fator desconhecido estaria em jogo. A
possibilidade de que um vírus pudesse estar causando ou aumentando a
obesidade em certas pessoas passou por sua cabeça. Ele submeteu 52 de seus
pacientes humanos a exames em busca de anticorpos ao vírus dos frangos –
queria encontrar algum sinal de que já tivessem sido infectados. Para sua
surpresa, os dez pacientes mais obesos haviam tido contato com o vírus.
Dhurandhar então se decidiu: em vez de tratar a obesidade, começaria a
pesquisar suas causas.
Alcançamos o ponto na história humana em que consideramos, ao menos no
Reino Unido, que remodelar e redirecionar o sistema digestivo que a evolução
nos deu é a melhor forma de nos impedir de comer até a morte. Parece que
bandas gástricas e cirurgias de redução do estômago, por impedirem que as
pessoas consumam tudo aquilo que seu cérebro e seu corpo pedem, são os meios
mais eficazes e baratos para determos a epidemia de obesidade e suas
consequências para a saúde coletiva.
Se dietas e exercícios são tão inúteis que a redução de estômago é nossa única
esperança para perder peso, o que isso nos diz sobre a aplicação direta das leis da
física – ingestão de energia menos energia gasta igual a energia armazenada – a
nós, animais governados pelas leis bioquímicas?
De acordo com o que estamos começando a descobrir, a questão não é tão
simples. Como mostram os pássaros da espécie Sylvia borin e muitos mamíferos
hibernantes, administrar o peso envolve mais do que contar calorias. Seguir um
sistema simples de “o que entra tem que sair” para atingir o equilíbrio energético
do corpo é ignorar as complexidades da nutrição, da regulação do apetite e do
armazenamento de energia. Como disse certa vez George Bray, um médico que
vem pesquisando a obesidade desde o início da epidemia: “Obesidade não é
ciência de foguetes – é algo bem mais complicado.”
Dois mil e quinhentos anos atrás, Hipócrates, o pai da medicina moderna,
acreditava que todas as doenças começavam no intestino. Pouco sabia ele sobre a
anatomia do intestino, quanto mais sobre os 100 trilhões de micróbios que vivem
ali, mas, como podemos constatar dois milênios depois, Hipócrates tinha descoberto algo importante. Naquela época, a obesidade era algo relativamente
incomum, assim como outra doença do século XXI que tem sua origem no
intestino: a síndrome do intestino irritável (SII). É com essa doença das mais
desagradáveis que nossos micróbios entram em cena.
Na primeira semana de maio de 2000, uma chuva fora de época inundou a
cidade rural de Walkerton, no Canadá. Passadas as tempestades, os moradores
do local começaram a adoecer às centenas. Com cada vez mais gente
desenvolvendo gastroenterite e diarreia sanguinolenta, as autoridades resolveram
examinar o suprimento de água e acabaram descobrindo o que a empresa de
abastecimento vinha ocultando havia dias: a água potável da cidade estava
contaminada por uma cepa mortal de E. coli.
Logo foi descoberto que os dirigentes da empresa sabiam havia semanas que
o sistema de cloração de um dos poços da cidade estava quebrado. Durante as
chuvas, a negligência deles permitiu que resíduos de esterco das fazendas
contaminassem o suprimento de água. Um dia depois de revelada a
contaminação, três adultos e um bebê morreram. Nas semanas seguintes, três
outras pessoas sucumbiram. No total, metade da população de 5 mil habitantes
de Walkerton foi infectada em poucas semanas.
Embora o suprimento de água tenha sido rapidamente saneado, a história
não terminou por aí para muitos dos que haviam adoecido. A diarreia e as
cólicas continuavam aparecendo. Dois anos depois, um terço dos afetados
continuava doente – haviam desenvolvido SII pós-infecciosa – e mais de metade
ainda sofria oito anos após o temporal.
Como novas vítimas da SII, esses desafortunados moradores de Walkerton se
juntaram à crescente legião de ocidentais cujo intestino governa a vida. Para a
maioria dos que têm esse distúrbio, dores abdominais fortes e surtos
imprevisíveis de diarreia limitam a liberdade de seus dias. Para outros, ocorre o
oposto: a prisão de ventre, e a dor que a acompanha, pode chegar a durar dias e
às vezes semanas seguidas. “Ao menos”, diz o gastrenterologista britânico Peter
Whorwell daqueles com prisão de vente, “esses pacientes podem sair de casa.”
Para uma minoria, a dupla dificuldade de ter que enfrentar tanto a diarreia
quanto a prisão de vente torna sua vida diária particularmente imprevisível.
O problema é que, embora quase um entre cada cinco ocidentais – na
maioria mulheres – tenha sua vida prejudicada por essa doença, não sabemos ao
certo em que ela consiste. Que não é normal, nós já temos certeza. A palavra
“irritável” oculta o impacto da SII no dia a dia de suas vítimas. A redução da
qualidade de vida costuma ser considerada ainda mais impactante do que a de pacientes em diálise renal e diabéticos insulino-dependentes. Talvez pelo
desespero de não saber o que está errado nem como consertar a situação.
A disseminação da SII é uma pandemia global silenciosa. Uma em cada dez
visitas ao médico está ligada à doença, e os gastrenterologistas vivem ocupados
pelo fluxo constante de vítimas – que constituem metade de seus pacientes. Nos
Estados Unidos, a SII leva a 3 milhões de visitas ao médico, 2,2 milhões de
receitas e 100 mil visitas a hospitais todos os anos. Mas nos calamos a respeito
disso. Afinal, ninguém quer falar sobre diarreia.
Sua causa, porém, permanece um mistério. Enquanto o cólon de uma vítima
de doença inflamatória intestinal estaria coberto de úlceras, o intestino de
pessoas com SII é tão rosado e normal quanto o de uma pessoa saudável. Essa
carência de sinais físicos fez com que a SII fosse tachada como um transtorno
puramente mental. Embora para a maioria das vítimas a doença se agrave
quando estão estressadas, é pouco provável que o estresse sozinho seja a única
causa de uma doença tão persistente. A proporção espantosa de pessoas com SII
merece uma explicação – não passamos por milhões de anos de evolução apenas
para termos que estar o tempo todo a 30 segundos de algum banheiro.
Uma pista pode ser encontrada na tragédia de Walkerton. As pessoas que
desenvolveram a SII após o incidente de contaminação da água não são as únicas
a relacionarem sua doença a algum tipo de infecção gastrointestinal. Cerca de um
terço dos pacientes atribui o início de seus problemas intestinais a algum
episódio de intoxicação alimentar, ou algo parecido, que aparentemente nunca
passava. A diarreia do viajante costuma ser o início – pessoas que contraem
alguma bactéria no exterior têm sete vezes mais chances de desenvolver a SII.
Mas fazer exames em busca do micro-organismo original costuma se revelar
infrutífero – essas pessoas já não estão sofrendo da gastroenterite propriamente
dita. É como se a infecção original tivesse desarranjado os moradores normais do
intestino.
Para outros, o início de sua SII coincide não com uma infecção, mas com um
tratamento à base de antibióticos. A diarreia é um efeito colateral comum da
ingestão de certos antibióticos que, para alguns pacientes, continua a
acompanhá-los bem depois de encerrada a medicação. Existe aí um paradoxo,
porém, já que antibióticos também podem ser usados para tratar a SII,
aparentemente adiando o retorno do problema por semanas ou meses.
Então o que está acontecendo? Essas pistas – a gastroenterite e os antibióticos
– apontam para um tema comum: que uma perturbação de curto prazo aos
micróbios do intestino pode ter efeitos duradouros na composição da microbiota. Imagine uma floresta virgem, verdejante e densa com vida: insetos
governam o subterrâneo e primatas saltam das copas das árvores. Observe os
lenhadores chegando, derrubando a infraestrutura folhosa da floresta, fixada há
milênios, com suas serras-elétricas e terraplenando o resto. Imagine que uma
erva invada o local, talvez tendo pegado carona nas rodas das escavadeiras, e
depois expulse as plantas nativas à medida que se estabelece. Após algum tempo,
a floresta voltará a crescer, mas não será mais o mesmo habitat virgem, complexo
e intacto de antes. A diversidade haverá diminuído, as espécies terão morrido. A
vegetação invasora terá se consolidado.
Para o ecossistema complexo do intestino, numa escala um milhão de vezes
menor, esse princípio continua valendo. As serras elétricas de antibióticos e
patógenos invasivos destroem a teia de vida que forjou um equilíbrio por meio
de incontáveis interações sutis. Se a destruição for suficientemente extensa, o
sistema não será capaz de se recuperar e, em vez disso, entrará em colapso. Na
floresta tropical, isso significa a destruição do habitat; no corpo, disbiose – um
desequilíbrio prejudicial da microbiota.
Antibióticos e infecções não são as únicas causas da disbiose. Uma dieta
pouco saudável ou um medicamento muito forte podem ter o mesmo efeito,
destruindo o equilíbrio entre as espécies microbianas e reduzindo sua
diversidade. A disbiose – sob qualquer forma – está no núcleo das doenças do
século XXI, tanto as que começam – e terminam – no intestino como a SII,
quanto aquelas que afetam órgãos e sistemas no corpo inteiro.
Na SII, o impacto dos antibióticos e da gastroenterite sugere que a diarreia e
a prisão de ventre crônicas podem ter suas raízes na disbiose do intestino.
Através do sequenciamento do DNA, você pode descobrir quais espécies vivem
no intestino de alguém e qual a prevalência de cada uma. Ao comparar vítimas
da SII com pessoas saudáveis, nota-se que a maioria dos portadores de SII
possuem uma microbiota bem diferente daquela de quem é saudável. Alguns
pacientes com SII, porém, possuem uma microbiota que não difere das outras
pessoas. Esses pacientes tendem a relatar que se sentem deprimidos, o que pode
indicar que, para um pequeno subgrupo de vítimas da SII, a doença psicológica é
sua causa, enquanto, para outras, a disbiose é a causa principal, e o estresse
apenas funciona como fator agravante.
Algumas pesquisas encontraram diferenças na composição da microbiota
dependendo do tipo de SII que as vítimas com disbiose sofrem. Pacientes que se
queixavam de se sentirem inchados e empanturrados rapidamente ao comer
possuíam níveis maiores de Cyanobacteria, enquanto aqueles que experimentavam muita dor tinham uma quantidade maior de Proteobacteria. No
intestino de pacientes com prisão de ventre, havia uma comunidade de dezessete
grupos bacterianos em quantidade maior do que o normal. Outros estudos
descobriram não apenas uma alteração na composição da microbiota, mas
também que ela é muito instável se comparada à de pessoas saudáveis, cujos
diferentes grupos de bactérias aumentam e diminuem ao longo do tempo.
Em retrospecto, pode parecer previsível que a SII seja uma consequência
provável de intestinos “irritados” pelos micróbios “errados”. Como um
desdobramento lógico, isto é altamente plausível: de um surto rápido de diarreia
causada por bactérias na água ou frango mal cozido à disfunção crônica do
intestino, tudo porque as bactérias do intestino se desequilibraram. Mas,
enquanto uma diarreia comum pode com frequência ser atribuída a uma bactéria
patogênica específica – por exemplo, Campylobacter jejuni no caso da
intoxicação alimentar por frango cru –, a SII não pode ser atribuída a um micro-
organismo maligno específico. Pelo contrário, essa condição parece estar ligada à
presença relativa das bactérias normalmente “amigáveis”. Talvez por números
insuficientes de uma variedade ou excesso de outra. Ou mesmo uma espécie que
se comporta bem sob circunstâncias normais, mas se torna malévola quando tem
a chance de assumir o controle.
Se a comunidade encontrada na flora intestinal de pacientes que sofrem de
SII não tem nenhum protagonista abertamente infeccioso, como a disbiose pode
causar tamanho tumulto no funcionamento do intestino? Os mesmos grupos de
bactérias presentes no intestino de uma pessoa com SII parecem estar presentes
no de pessoas saudáveis. Então como meras mudanças em suas quantidades
podem ser os responsáveis pela doença? No momento, os cientistas médicos
ainda não conseguem responder a essa questão, mas alguns estudos nos deram
pistas interessantes. Embora o intestino das vítimas da SII não tenham úlceras
em sua superfície, como acontece na doença inflamatória intestinal, eles estão
mais inflamados do que deveriam. É provável que o corpo esteja tentando
expulsar os micróbios do intestino, abrindo pequenos espaços entre as células
que revestem a parede intestinal e permitindo a entrada de água.
É fácil imaginar como o desequilíbrio de micro-organismos no intestino
poderia causar a SII. Mas e aquele outro problema intestinal: o aumento da
circunferência abdominal? Será que a microbiota poderia ser o elo perdido entre
as calorias ingeridas e as calorias gastas?
A Suécia é um país que leva a obesidade muito a sério. Embora seja apenas o 90o
país mais gordo do planeta e um dos mais magrinhos da Europa, registra a maior
taxa de cirurgias de redução do estômago do mundo. Os suecos cogitaram
implementar um “imposto sobre gorduras” para alimentos muito calóricos, e os
médicos podem prescrever exercícios físicos para pacientes com excesso de peso.
A Suécia também é o lar do homem que trouxe uma das maiores contribuições
ao avanço da ciência da obesidade desde o início da epidemia.
Fredrik Bäckhed é um professor de microbiologia na Universidade de
Gotemburgo, só que, em seu laboratório, você não vai encontrar placas de Petri e
microscópios, mas dezenas de camundongos. Como os humanos, eles abrigam
uma coleção impressionante de micro-organismos, sobretudo no intestino. No
entanto, os camundongos de Bäckhed são diferentes. Nascidos de cesariana e
depois mantidos em câmaras esterilizadas, não possuem quaisquer micróbios
dentro deles. Cada um é uma tábula rasa – “livre de germes”, o que significa que
a equipe de Bäckhed pode colonizá-los com as bactérias que desejar.
Em 2004, Bäckhed foi trabalhar com o maior especialista em microbiota do
mundo, Jeffrey Gordon, professor da Washington University em St. Louis,
Missouri. Ao observar que seus camundongos livres de germes eram
particularmente magros, Gordon e Bäckhed desconfiaram que isso se devesse à
falta de micróbios em seu intestino. Juntos, eles perceberam que não havia
estudos sobre a ação dos micro-organismos no metabolismo dos animais. Assim,
a primeira pergunta de Bäckhed foi simples: será que os micróbios do intestino
fazem os camundongos ganharem peso?
Para responder a essa pergunta, Bäckhed criou alguns camundongos livres de
germes até a fase adulta e depois salpicou sua pele com o conteúdo do ceco – a
parte inicial do intestino grosso – de camundongos que haviam nascido
normalmente. Depois que eles lamberam o material cecal em sua pele, seu
intestino adquiriu um conjunto de micróbios igual ao de qualquer outro
camundongo. Então algo extraordinário aconteceu: eles ganharam peso. Não
apenas um pouquinho, mas um aumento de 60% em seu peso corporal no espaço
de quatorze dias. E estavam comendo menos.
Parecia que não só os micróbios tinham saído ganhando ao receberem um
lar, mas os camundongos também. Todos já sabiam que os micro-organismos
que vivem no intestino estavam comendo as partes indigeríveis da dieta, mas
ninguém jamais tinha se dado conta de quanto essa segunda rodada de digestão
contribuía para a absorção de energia. Com micróbios os ajudando a ter acesso a
mais calorias em sua dieta, os camundongos podiam sobreviver com menos comida. No que diz respeito à nossa compreensão da nutrição, aquilo realmente
causou espanto. Se a microbiota determinava quantas calorias os camundongos
conseguiam extrair de seu alimento, será que ela estava envolvida na obesidade?
A microbiologista Ruth Ley – que também trabalhava na equipe do
laboratório de Jeffrey Gordon – quis então descobrir se os micróbios presentes
nos animais obesos e esguios diferiam. Para isso, usou uma cepa geneticamente
obesa de camundongos conhecidos como ob/ob. Com três vezes o peso de um
espécime normal, eles são praticamente redondos e não conseguem parar de
comer. Embora pareçam ser de uma espécie diferente, na verdade uma única
mutação em seu DNA faz com que se alimentem o tempo todo e se tornem
supergordos e insaciáveis.
Ao comparar a microbiota de camundongos obesos com a de esguios, Ley
descobriu que dois filos de bactérias eram predominantes em ambos os grupos:
Bacteroidetes e Firmicutes. Mas os obesos tinham metade da quantidade de
Bacteroidetes dos camundongos esguios e os Firmicutes estavam compensando
essa falta.
Entusiasmada com a possibilidade de que essa diferença na proporção entre
Firmicutes e Bacteroidetes pudesse estar na origem da obesidade, Ley em seguida
analisou a microbiota de humanos magros e obesos e encontrou a mesma
relação: as pessoas obesas tinham muito mais Firmicutes, enquanto as pessoas
esguias tinham uma proporção maior de Bacteroidetes. Tudo parecia simples
demais: será que a obesidade e a composição da microbiota do intestino estariam
associadas de forma tão direta? E o mais importante: será que os micróbios
presentes em camundongos e seres humanos obesos estariam causando a
obesidade ou seriam apenas uma consequência dela?
A descoberta ficou a cargo de um terceiro membro da equipe do laboratório
de Gordon: um doutorando chamado Peter Turnbaugh. Ele usou os mesmos
camundongos geneticamente obesos de Ley, mas transferiu os micro-organismos
deles para camundongos livres de germes. Ao mesmo tempo, transferiu os
micróbios de espécimes normais para um segundo conjunto de camundongos
livres de germes. Ambos os conjuntos de camundongos estéreis receberam
exatamente a mesma quantidade de comida, mas, quatorze dias depois, os que
tinham sido colonizados pela microbiota dos obesos haviam engordado,
enquanto os que haviam recebido a microbiota dos magrinhos, não.
O experimento de Turnbaugh mostrou não apenas que os micróbios do
intestino podem fazer os camundongos engordarem, mas também que podiam
ser passados de um indivíduo para outro. Poderíamos então transferir micro-organismos de pessoas esguias para pessoas obesas, fazendo com que percam
peso sem precisar de dieta. É claro que o potencial terapêutico – e lucrativo – da
ideia não passou despercebido a Turnbaugh e seus colaboradores, e eles
patentearam a alteração da microbiota como tratamento para a obesidade.
Mas antes de ficarmos empolgados demais com a cura em potencial da
obesidade, precisamos descobrir como isso tudo funciona. O que esses micróbios
estão fazendo para ficarmos mais gordos? Assim como antes, a microbiota dos
camundongos obesos de Turnbaugh continha menos Bacteroidetes e mais
Firmicutes – que pareciam lhes permitir extrair mais energia do alimento. Esse
detalhe é suficiente para derrubar um dos princípios básicos da equação da
obesidade. Contar calorias não se resume a controlar o que uma pessoa come – o
que importa é a quantidade de energia que ela absorve. Turnbaugh calculou que
os camundongos com a microbiota “obesa” eram capazes de absorver 2% mais
calorias de sua alimentação. Para cada cem calorias que os camundongos esguios
absorviam, os camundongos obesos absorviam 102.
Não parece muito, mas, no decorrer de um ano ou mais, faz diferença. Uma
mulher de 1,62 m, que pesa 62 kg e tem um Índice de Massa Corporal de 23,5,
consome 2 mil calorias por dia. Só que, com uma microbiota “obesa”, a absorção
de 2% mais calorias representa quarenta calorias a mais por dia. Sem despender
energia extra, essas quarenta calorias adicionais devem corresponder, ao menos
em teoria, a um aumento de peso de 1,9 kg no decorrer de um ano. Em dez anos,
são 19 quilos, elevando seu peso para 81 kg e seu IMC para obesos 30,7. Tudo
por causa de um aumento de 2% na absorção de calorias pelas bactérias do
intestino.
O experimento de Turnbaugh causou uma revolução em nossa compreensão
da nutrição humana. O valor calórico dos alimentos costuma ser calculado por
meio de tabelas de conversão padrão. Assim, considera-se que cada grama de
carboidrato contém quatro calorias; cada grama de gordura, nove, e assim por
diante. Isso nos leva a pensar que as calorias de um alimento têm um valor fixo.
“Este iogurte contém 137 calorias”, “Uma fatia deste pão contém 69 calorias”...
Porém, o trabalho de Peter Turnbaugh mostra que a coisa não é tão simples
assim. Aquele iogurte pode muito bem conter 137 calorias para uma pessoa de
peso normal, mas poderia também conter 140 calorias para alguém obeso que
tenha um conjunto diferente de micro-organismos presentes no intestino. De
novo, são números pequenos, mas que fazem diferença.
Se seus micróbios estão atuando a seu favor para extrair a energia do seu
alimento, a responsável por determinar quantas calorias você será capaz de absorver a partir do que come é a configuração específica de sua comunidade de
micróbios – não uma tabela de conversão padrão. Para todas as pessoas que
fizeram dieta sem sucesso, essa pode ser parte da explicação. Uma dieta com um
cuidadoso controle de calorias que resultasse em uma perda energética, todos os
dias, por um período prolongado, poderia levar à perda de peso. Mas se as
calorias ingeridas forem subestimadas, essa dieta poderia não apresentar
qualquer resultado ou mesmo ter como consequência um aumento do peso. Essa
ideia é respaldada por outro experimento realizado por Reiner Jumpertz, em
2011, no Instituto Nacional de Saúde em Phoenix, Arizona. Jumpertz deu uma
dieta de calorias fixas a voluntários e simplesmente mediu as calorias que saíam
em suas fezes após a digestão. Voluntários magros postos numa dieta rica em
calorias tiveram um aumento na proporção de Firmicutes em relação aos
Bacteroidetes. Essa mudança nos micróbios do intestino foi acompanhada por
uma redução gradual no número de calorias que saíam em suas fezes. Com a
mudança no equilíbrio das bactérias, sua microbiota passou a extrair, da mesma
dieta, 150 calorias extras por dia.
O conjunto particular de micróbios que abrigamos determina nossa
capacidade de absorver energia da alimentação. Depois que o intestino delgado
digeriu e absorveu o máximo de nutrientes do que comemos, o restante passa
para o intestino grosso, onde está a maioria dos micro-organismos. Ali, eles
funcionam como os operários de uma fábrica, cada um sendo responsável por
decompor suas moléculas preferidas e absorver o que pode. O resto é deixado na
forma mais simples possível para ser absorvida pela mucosa intestinal. Um grupo
de bactérias pode ter os genes necessários para quebrar as moléculas de
aminoácido que vêm da carne. Outro grupo talvez seja mais talhado para
decompor as moléculas dos carboidratos de cadeia longa que vêm de legumes,
frutas e verduras. E um terceiro poderia ser mais eficiente em quebrar as
moléculas de açúcar que não foram absorvidas no intestino delgado. A dieta de
cada um de nós afeta o tipo de grupos que vamos abrigar. Assim, por exemplo,
um vegetariano não deve ter muitos indivíduos especializados em lidar com
aminoácidos, já que eles não vão conseguir se proliferar sem um suprimento
constante de carne.
Bäckhed sugere que o conteúdo energético que conseguimos extrair da
comida depende do que nossa fábrica microbiana foi treinada a esperar. Se o
vegetariano se deleitasse com um assado de porco, provavelmente faltariam
micróbios apreciadores de aminoácidos em seu intestino para aproveitá-lo ao
máximo. Mas um onívoro regular teria uma boa coleção de micro-organismos adequados e extrairia mais calorias do mesmo assado de porco. O mesmo vale
para os outros nutrientes. Alguém que comesse pouquíssima gordura teria
poucos micróbios especializados em quebrar gorduras, e o docinho ou a barra de
chocolate ocasionais poderiam passar pelo intestino grosso sem que o restante de
seu valor calórico fosse absorvido. Já uma pessoa que tenha o hábito de comer
doces todos os dias na hora do lanche disporia de uma grande população de
bactérias especializada em quebrar gorduras, a postos para absorver as calorias
do próximo sonho de padaria – proporcionando ao nosso comilão a absorção de
sua dose completa de calorias.
Embora o número de calorias que absorvemos da alimentação seja sem
dúvida importante, não se trata apenas de quanta energia nossos micróbios
extraem para nós, mas do que levam nosso corpo a fazer com ela. Nós a
consumimos imediatamente para acionar nossos músculos e órgãos ou a
armazenamos para depois, para quando não tivermos nada que comer? Isso
depende dos nossos genes. Só que não daqueles que você recebeu dos seus pais,
mas de quais genes estão ativados ou não.
Nosso corpo desempenha a tarefa de ativar e desativar os genes usando todos
os tipos de mensageiros químicos. Esse controle permite que as células nos olhos
realizem tarefas diferentes das células no fígado, por exemplo, ou que células no
cérebro funcionem de forma distinta quando estamos trabalhando durante o dia
e quando estamos dormindo no meio da noite. Mas o corpo não é o único
senhor de nossa informação genética. Nossos micróbios também têm voz ativa,
fazendo com que alguns de nossos genes passem a se adaptar às suas
necessidades.
Membros da microbiota são capazes de ativar a produção de genes que
encorajam o armazenamento de energia em nossas células adiposas. E por que
não? Para nossa microbiota, é bom que o ser humano em que ela habita
sobreviva a um inverno rigoroso. Uma “microbiota obesa”, por sua vez, ativa
ainda mais a expressão desses genes, levando ao armazenamento da energia extra
de nossa comida na forma de gordura. Por mais incômodo que isso seja para
aqueles que têm dificuldade em manter o peso desejado, esse truque do controle
dos genes deveria ser algo benéfico, já que nos ajuda a aproveitar ao máximo o
que ingerimos e armazenar a energia extra para épocas de menos abundância.
No passado, era fundamental ter essa ajuda para atravessar longos períodos de
fartura e de escassez.
As “calorias que entram”, portanto, não dependem só do que você põe na
boca. Trata-se do que seus intestinos são capazes de absorver, incluindo o que seus micróbios oferecem a você. As “calorias que saem” também não se limitam à
quantidade de energia que você consome em atividades físicas. O que seu corpo
decide fazer com aquela energia também importa: se resolve armazená-la para
um dia chuvoso ou queimá-la imediatamente. Embora esses dois mecanismos
sejam suficientes para explicar como uma pessoa poderia absorver e armazenar
mais energia do que outra – dependendo dos micro-organismos que abriga –,
acabam levantando outra questão: então por que as pessoas que absorvem mais
energia e armazenam mais gordura simplesmente não se sentem saciadas mais
cedo? Por que, se já absorveram calorias bastantes e armazenaram gordura,
algumas pessoas continuam comendo?
Nosso apetite é governado por muitos fatores, da sensação física imediata de
um estômago cheio a hormônios que informam ao cérebro quanta energia já foi
armazenada em forma de gordura. A leptina é um desses hormônios. Produzida
diretamente pelo tecido adiposo, quanto mais células adiposas temos, mais
leptina é liberada no sangue. É um ótimo sistema: informa ao cérebro que
estamos saciados quando já acumulamos uma quantidade saudável de gordura, e
em seguida nosso apetite é suprimido.
Então por que as pessoas não perdem o interesse pela comida quando
começam a ganhar peso? Quando esse hormônio foi descoberto na década de
1990 – graças aos camundongos ob/ob, que são geneticamente incapazes de
produzir sua própria leptina –, houve um surto de entusiasmo. A injeção de
leptina em camundongos ob/ob levou a uma perda de peso bem rápida – eles
comiam menos, se exercitavam mais e seu peso corporal caiu para quase metade
no período de um mês. Mesmo camundongos normais, magros, perderam peso
ao receberem esse hormônio. Se funcionou com os camundongos, será que a
leptina poderia ser a cura para a obesidade humana?
A resposta, como fica óbvio pela epidemia de obesidade, foi negativa. Aplicar
injeções de leptina em pessoas obesas quase não surtiu efeito. Embora não deixe
de ser uma decepção, esse fracasso lançou luz sobre a verdadeira natureza da
obesidade. Ao contrário dos camundongos ob/ob, não é a falta de leptina que faz
as pessoas engordarem. Na verdade, quem tem excesso de peso apresenta níveis
particularmente altos de leptina porque tem mais tecido adiposo – responsável
por produzi-la. O problema é que seu cérebro se tornou resistente aos efeitos
dela. Numa pessoa magra, o aumento de peso leva à produção extra de leptina e à
redução do apetite. Por outro lado, o cérebro de uma pessoa obesa não consegue
detectar a presença de leptina – apesar de haver quantidade suficiente dessa
substância –, de modo que ela nunca se sente saciada.
Essa resistência à leptina indica algo importante. Na obesidade, os
mecanismos normais de regulação do apetite e armazenamento de energia foram
alterados. A gordura em excesso não é apenas um lugar para armazenar as
calorias que não queimamos – é mais um centro de controle do consumo de
energia, funcionando como uma espécie de termostato. Quando as células
adiposas do corpo estão confortavelmente cheias, o termostato desliga,
reduzindo o apetite e impedindo que mais comida ingerida seja armazenada.
Então, conforme os depósitos de gordura diminuem, o termostato volta a ligar,
aumentando o apetite e armazenando mais comida como gordura. Como
acontece com os passarinhos da espécie Sylvia borin, o aumento de peso não
envolve apenas comer mais, mas também mudanças bioquímicas na forma como
o corpo administra a energia. Isso derruba o pressuposto básico de que equilibrar
o que comemos com a quantidade de energia que gastamos nos exercitando é o
bastante para mantermos um peso estável. Se essa crença está equivocada, talvez
a obesidade não seja exatamente uma “doença de estilo de vida”, fruto de gula e
preguiça, mas uma doença cuja origem orgânica está além do nosso controle.
Essa afirmação parece radical demais? Pense nisto: há algumas poucas
décadas, “sabia-se” que as úlceras estomacais eram causadas por estresse e
cafeína. Como a obesidade, elas eram consideradas uma doença resultante do
estilo de vida dos afetados: mude seus hábitos e o problema desaparecerá. A
solução era simples: mantenha a calma e beba água. Mas esse tratamento não
funcionava e os pacientes viviam retornando com buracos de queimaduras no
estômago. Eles não conseguiam se recuperar por uma causa considerada óbvia:
os pacientes simplesmente não estavam aderindo a seu plano de tratamento e
deixavam que o estresse os impedisse de melhorar.
Até que, em 1982, os cientistas australianos Robin Warren e Barry Marshall
descobriram a verdade. Uma bactéria chamada Helicobacter pylori, que às vezes
colonizava o estômago, vinha causando úlceras e gastrite. O estresse e a cafeína
apenas as tornavam mais dolorosas. A resistência da comunidade científica à
ideia dos dois foi tão grande que Marshall chegou a beber uma solução de H.
pylori – ficando com gastrite no processo – para provar a ligação entre as úlceras
e essas bactérias. Foram necessários quinze anos para que a comunidade médica
passasse a adotar plenamente essa nova causa.
Hoje, os antibióticos são um meio barato e eficaz para curar úlceras de uma
vez por todas. Em 2005, Warren e Marshall ganharam um Prêmio Nobel de
Medicina por sua descoberta de que as úlceras estomacais não eram uma “doença de estilo de vida”, como se acreditava, mas apenas o resultado de uma
infecção.
De forma semelhante, com seu palpite sobre o vírus do frango, Nikhil
Dhurandhar estava desafiando o dogma de que a obesidade era uma doença
causada pelo estilo de vida – mais especificamente, pelo excesso. Para investigar a
possibilidade de que uma infecção viral pudesse causar aumento de peso em
seres humanos, ele precisou abandonar a prática da medicina e se dedicar à
pesquisa científica. Dhurandhar decidiu se mudar para os Estados Unidos com a
família, na esperança de conseguir financiamento e iniciar a pesquisa que
encontraria as respostas para suas perguntas. Em face da rígida oposição da
comunidade científica, era um tiro no escuro. Mas acabaria valendo a pena.
Dois anos após ter se mudado para lá, Dhurandhar ainda não havia
conseguido convencer ninguém a apoiar sua pesquisa sobre aquele vírus. Ele
estava prestes a desistir e retornar à Índia quando o professor Richard Atkinson,
cientista nutricional da Universidade de Wisconsin, lhe ofereceu um emprego.
Enfim Dhurandhar estava pronto para iniciar seus experimentos. Mas restava
um grande obstáculo: as autoridades americanas não autorizaram a importação
do vírus do frango para os Estados Unidos – afinal, ele poderia causar obesidade.
Juntos, Atkinson e Dhurandhar conceberam um plano novo. Estudariam
outro vírus – dessa vez, um vírus comum em americanos – na esperança de que
ele pudesse ser responsável pelo aumento de peso também. Seguindo o palpite de
que ele era semelhante ao dos frangos, selecionaram um vírus conhecido por
causar infecções respiratórias. Seu nome era Adenovirus 36, ou Ad-36.
Mais uma vez, Dhurandhar começou seus experimentos com um grupo de
galinhas, infectando metade das aves com Ad-36 e a outra metade com um
adenovírus diferente, mais comum em aves. Então ele e Atkinson esperaram.
Será que o Ad-36 deixaria as aves gordas, como havia acontecido com o vírus
indiano?
Se isso acontecesse, Dhurandhar estaria afirmando algo importante: que o
excesso de comida e a falta de atividade física não eram as únicas causas da
obesidade humana, que essa epidemia poderia ter outra origem, que poderia ser
uma doença infecciosa – não apenas falta de força de vontade. E – o que era
ainda mais polêmico – que a obesidade era contagiosa.
O exame de mapas da disseminação da epidemia de obesidade nos Estados
Unidos nos últimos 35 anos de fato dá a impressão de se tratar de uma doença
infecciosa espalhando-se pela população. A epidemia começa nos estados do
Sudeste e começa a se propagar depressa. À medida que cada vez mais pessoas vão ficando com excesso de peso no epicentro da doença, ela avança para o
Norte e Oeste, afetando áreas cada vez maiores do país. Áreas críticas afloram
nas grandes cidades, deflagrando novas bolhas de obesidade que se expandem
com o tempo. Embora alguns estudos científicos tenham notado esse padrão, que
lembra muito o de uma doença infecciosa, a obesidade em geral é atribuída à
disseminação de um “ambiente obesogênico”: mais restaurantes de fast food,
supermercados com comidas ricas em calorias e um estilo de vida cada vez mais
sedentário.
Um estudo em pessoas descobriu que a obesidade se espalha de uma forma
que mimetiza uma doença contagiosa mesmo em um nível individual. Ao
analisarem o peso e as relações sociais de mais de 12 mil pessoas ao longo de
mais de 32 anos, os pesquisadores constataram que as chances de um indivíduo
se tornar obeso estão fortemente associadas ao aumento de peso das pessoas mais
próximas a ele. Por exemplo, quando um dos cônjuges se tornou obeso, o risco
de o outro também engordar aumentava 37%. Você poderia pensar que isso é
óbvio, já que é muito provável que eles tenham a mesma dieta. Mas o mesmo
vale para irmãos adultos, que em geral não moram juntos. O mais
impressionante é que se um amigo próximo se tornou obeso, o risco de o outro
também engordar aumentava 171%. A causa não parecia ser a escolha de amigos
de peso semelhante – aquelas pessoas já eram próximas antes de ganharem peso.
Vizinhos que não eram considerados amigos estavam livres do maior risco de
obesidade, o que faz parecer menos provável que a causa do aumento de peso
conjunto entre grupos sociais seja a abertura de mais um restaurante de fast food
ou o fechamento de uma academia no bairro.
Claro que existem muitas razões sociais possíveis para esse fenômeno – uma
mudança na atitude em relação à obesidade ou o consumo conjunto de comidas
pouco saudáveis, por exemplo –, mas uma contribuição instigante à lista de
explicações é a transmissão microbiana, viral ou não. Ainda que o vírus de
Dhurandhar não seja o principal culpado, há muitos outros micróbios a serem
examinados. Talvez o compartilhamento de espécimes “obesogênicos” da
microbiota dentro de redes sociais contribua para o ambiente obesogênico que
outros pesquisadores percebem e facilite a disseminação da obesidade. Amigos
próximos tendem a passar mais tempo na casa uns dos outros, compartilhando
superfícies, alimentos, banheiros... e micro-organismos. Isso pode permitir que a
obesidade se espalhe um pouco mais facilmente.
O dia final do experimento de Dhurandhar com os frangos chegou. Para ele,
os resultados justificavam os sacrifícios que ele e sua família haviam feito, deixando suas vidas e entes queridos para trás, na Índia. Assim como o outro
vírus, o Ad-36 fez com que as aves infectadas engordassem, enquanto aquelas
que receberam o vírus alternativo permaneceram magras. Dhurandhar enfim
conseguiu publicar sua descoberta na literatura científica, mas com ela muitas
outras perguntas surgiram. Será que o Ad-36 funcionaria da mesma forma em
seres humanos? Será que um vírus estava engordando as pessoas?
Dhurandhar e Atkinson sabiam que não podiam infectar intencionalmente
seres humanos com o vírus – se ele fizesse mesmo as pessoas ganharem peso, não
haveria como curá-las depois. Em vez disso, teriam que seguir um plano B e
testar o vírus em outra espécie primata: um mico. Assim como com os frangos,
os micos infectados ganharam peso. Isso era uma descoberta importante. Para
ver se o vírus estava associado de alguma forma à obesidade nos humanos, ele
decidiu examinar o sangue de centenas de voluntários em busca de anticorpos
para o Ad-36. Conforme esperava, 30% dos voluntários obesos haviam tido
contato com o vírus, em comparação com apenas 11% dos voluntários magros.
O Ad-36 é um bom exemplo do efeito encontrado nos passarinhos da espécie
Sylvia borin. Ter o vírus não faz as galinhas comerem mais ou se exercitarem
menos, mas o corpo delas passa a armazenar mais energia na forma de gordura.
Como as bactérias vivendo em uma pessoa obesa, a Ad-36 está se intrometendo
no funcionamento normal do sistema de armazenamento de energia. A extensão
exata da contribuição desse vírus para a epidemia de obesidade continua
desconhecida, mas, assim como a história dos passarinhos, indica algo
importante: a obesidade nem sempre é uma doença associada ao estilo de vida
cuja causa é o excesso de comida e a falta de atividade física. Pelo contrário, é
uma disfunção no sistema de armazenamento de energia do corpo.
Em teoria, é possível calcular exatamente quanto peso uma pessoa deve
ganhar de acordo com o número de calorias extras em sua dieta. Para cada 3.500
calorias que consumimos além de nossas necessidades de energia, devemos
ganhar 450 g de gordura. Poderíamos comer esse excesso num só dia ou no
decorrer de um ano, mas o resultado deve ser o mesmo: engordarmos 450 g
naquele dia ou no decorrer daquele ano.
Na prática, porém, a coisa não funciona assim. Mesmo em alguns dos
primeiros estudos sobre o aumento de peso, os números não batiam. Em um
experimento, pesquisadores alimentaram doze pares de homens gêmeos
idênticos com mil calorias em excesso por dia, seis dias por semana, durante cem
dias. No total, cada homem comeu 84 mil calorias além de suas necessidades
físicas. De acordo com a teoria, cada voluntário deveria ter engordado exatamente 10,9 kg. Na realidade, a coisa não foi tão simples assim. Para começo
de conversa, até o ganho médio de peso foi inferior ao que a matemática diz que
deveria ter sido: 8,2 kg. Os ganhos de peso individuais revelam quão inadequado
é aplicar uma mera regra matemática à questão do peso. O homem que engordou
menos ganhou apenas 4,1 quilos – pouco mais de um terço do valor previsto. E o
gêmeo que engordou mais ganhou 13,2 kg – ainda mais que o esperado. Esses
valores não podem entrar na média de “mais ou menos 10,9 kg”, pois estão tão
longe do previsto que usá-los é inútil.
O simples fato de o aumento de peso poder se desviar tanto da marca
prevista pela clássica contagem das calorias mostra que o efeito encontrado nos
passarinhos da espécie Sylvia borin não se limita às aves migratórias e aos
mamíferos que hibernam. Em última análise, as leis da termodinâmica não
podem ser contrariadas – a energia que entra deve ser igual à energia que sai para
o peso permanecer estável. Mas o ponto crucial é este: alguns mecanismos do
corpo são responsáveis por regular as calorias que absorvemos e – mais
importante – a energia que vamos gastar ou armazenar, e isso vai além da mera
comparação entre o que comemos e quanto nos exercitamos.
O Ad-36 oferece um bom exemplo de como isso pode ser explicado. O tecido
adiposo que fica sob a pele e ao redor dos órgãos consiste em células que ficam
vazias, esperando para serem preenchidas com gordura quando chega a hora de
ter que armazenar energia. Em frangos infectados com Ad-36, o vírus força essas
células a se encherem, mesmo sem ter um excesso de energia grande o suficiente
para ser armazenado. As aves não precisaram comer mais para engordar – seu
corpo estava simplesmente depositando energia no tecido adiposo, em vez de
consumi-la em outro lugar.
Será que algo semelhante ocorre na obesidade humana? Será que pessoas
obesas e magras estão armazenando gordura de forma diferente? Patrice Cani,
professor de Nutrição e Metabolismo da Universidade Católica de Louvain, na
Bélgica, já sabia que as pessoas obesas, além de serem resistentes aos efeitos da
leptina, o hormônio da saciedade, também mostravam sinais de doença em seu
tecido adiposo. Ao contrário das pessoas magras, suas células adiposas estavam
inundadas de células imunes, como se estivessem lutando contra uma infecção.
Cani também sabia que, quando pessoas magras armazenavam energia, elas
produziam mais células adiposas, preenchendo cada uma com apenas uma
pequena quantidade de gordura. Mas em pessoas obesas, esse processo saudável
não estava acontecendo. Em vez de produzir mais células adiposas, o corpo delas
estava produzindo células adiposas maiores e abarrotando-as com cada vez mais gordura. Para Cani, a inflamação e a falta de células adiposas novas eram sinais
de que quem apresenta excesso de peso substituiu o processo saudável de
armazenamento de energia por um estado insalubre. Aquele não era o tipo de
aumento de peso que ajudaria alguém a sobreviver durante um inverno rigoroso.
Era, em si, uma espécie de doença, ele pensou.
A suspeita de Cani era de que a microbiota “obesa” estivesse causando a
inflamação e a mudança no processo de armazenamento de gordura. Ele sabia
que algumas bactérias presentes no intestino são envoltas por uma molécula
chamada lipopolissacarídeo ou LPS, que age como uma toxina caso entre na
corrente sanguínea. De fato, ele descobriu que pessoas obesas possuíam altos
níveis de LPS no sangue, responsáveis por desencadear a inflamação em suas
células adiposas. Cani concluiu algo ainda mais revelador: que o LPS estava
impedindo a formação de novas células adiposas, fazendo as que já existiam
ficarem abarrotadas.
Foi um grande avanço. A gordura das pessoas obesas não consistia em meras
camadas de energia armazenada, mas em tecido adiposo com um defeito
bioquímico que parecia ser causado pelo LPS. Mas como ele estava passando do
intestino para a corrente sanguínea?
Entre os micro-organismos que se encontram em quantidades diferentes no
intestino de pessoas magras e obesas, há uma espécie chamada Akkermansia
muciniphila, cuja presença na flora intestinal tem correlação com o peso de seu
hospedeiro: quanto menos Akkermansia tiver, maior será seu índice da massa
corporal. Cerca de 4% da população microbiana das pessoas magras pertence a
essa espécie, mas as obesas quase não têm bactérias desse tipo. Como seu nome
sugere, ela vive na superfície da grossa camada de muco que recobre a mucosa
intestinal (muciniphila significa “amiga do muco”). Esse muco forma uma
barreira que impede a microbiota de entrar na corrente sanguínea, onde pode se
tornar nociva. E a quantidade de Akkermansia não está apenas ligada ao IMC:
quanto menor a quantidade dessa bactéria, mais fina será a camada de muco da
pessoa e maior será a presença de LPS em seu sangue.
Poderia parecer que a Akkermansia é comum nos intestinos das pessoas
magras por colherem os benefícios de suas camadas de muco já serem grossas,
mas, na verdade, essa bactéria é responsável por “convencer” as células da
mucosa intestinal a produzirem mais muco. A Akkermansia envia solicitações
químicas que ativam os genes humanos produtores de muco. Assim, ela ganha
um lar e impede que o LPS passe para o sangue.
A mucosa intestinal
Se essa bactéria é capaz de aumentar a espessura da camada de muco, Cani
pensou que talvez pudesse também reduzir os níveis de LPS e impedir o ganho
de peso. Ele suplementou a dieta de um grupo de camundongos com
Akkermansia e, conforme esperava, os níveis de LPS dos espécimes caíram, o
tecido adiposo voltou a criar novas células saudáveis e – o mais importante – eles
perderam peso. Os camundongos que receberam Akkermansia também se
tornaram mais sensíveis à leptina, fazendo com que seu apetite diminuísse. Os
camundongos não haviam ganhado peso extra porque comeram demais, mas
porque o LPS estava forçando o corpo deles a armazenar energia em vez de
consumi-la. Como Dhurandhar suspeitara, essa mudança no processo de
armazenamento de energia sugere que as pessoas nem sempre são obesas por
comerem demais. Às vezes – talvez na maioria delas – pode ser que elas comam
demais porque estão doentes.
A descoberta de Cani de que Akkermansia protege os camundongos da
obesidade pode se revelar revolucionária. Ele está planejando testar seus efeitos
em seres humanos com sobrepeso na esperança de que possa ser oferecida como
um suplemento na luta contra a obesidade. Em última análise, precisaremos
saber o que está causando a redução na população de Akkermansia em pessoas
obesas e com excesso de peso. Existem algumas pistas: tornar camundongos obesos colocando-os em uma dieta rica em gorduras reduz os níveis de
Akkermansia, mas suplementar essa mesma dieta com fibras traz as bactérias de
volta aos níveis saudáveis.
A previsão é de que, em 2030, 86% da população americana será obesa ou
terá excesso de peso. Em 2048, todos os americanos estarão nesse grupo. Há
cinquenta anos tentamos lidar com a obesidade encorajando as pessoas a
comerem menos e se exercitarem mais. Não funcionou. Milhões de adultos e
crianças ficam obesos ou com excesso de peso a cada ano, apesar de
despenderem grandes quantias de dinheiro tentando perder peso. E nós
continuamos abordando o tratamento da obesidade como meio século atrás:
com quase nenhum progresso.
Agora nosso único tratamento sistematicamente eficaz para a obesidade é a
cirurgia de redução do estômago. Pacientes que tentaram sem sucesso perder
peso por meio de dieta estão condenados a ter o estômago reduzido ao tamanho
de um ovo para pararem de comer em excesso. O pressuposto é que, já que não
conseguiram seguir o regime, precisam tomar uma providência drástica para
diminuir sua ingestão calórica. Algumas semanas após a cirurgia, os pacientes já
perderam vários quilos.
Trata-se de uma intervenção que supostamente funcionaria eliminando a
necessidade da força de vontade, ao impedir de uma vez por todas que as pessoas
comam mais que uma porção infantil a cada refeição. Mas parece que esse
resultado envolve outros fatores. Uma semana após a cirurgia, a flora intestinal
muda, deixando de se parecer com a de uma pessoa obesa e passando a se
parecer com a de uma pessoa magra. A relação entre Firmicutes e Bacteroidetes
se inverte, e a população da boa e velha bactéria Akkermansia aumenta cerca de
10 mil vezes. Cirurgias de redução do estômago em camundongos mostram as
mesmas mudanças na composição da flora intestinal. Falsas cirurgias, porém, em
que incisões são feitas mas o estômago volta a ser costurado em seu tamanho
original, não têm o mesmo efeito. Até mesmo transferir a microbiota de um
camundongo que tenha passado por uma redução de estômago para um
camundongo livre de germes causa neste último uma súbita perda de peso.
Parece que o redirecionamento de nutrientes, enzimas e hormônios é que
promove essa mudança, levando então à perda de peso. Não são as porções
minúsculas a que os pacientes estão limitados que os ajudam a perder peso, mas
a alteração na regulação da energia graças à nova microbiota.
Vinte e cinco anos após o surto do vírus do frango em Mumbai, Nikhil
Dhurandhar foi nomeado presidente da Obesity Society nos Estados Unidos. Suas pesquisas sobre as causas virais da obesidade vêm ganhando cada vez mais
aceitação na comunidade científica e ele continua investigando as razões
subjacentes da obesidade.
Os micro-organismos, tanto virais quanto bacterianos, estão nos mostrando
que a obesidade envolve mais do que comer de mais e se exercitar de menos. A
energia que cada um de nós extrai da alimentação e o modo como essa energia é
usada e armazenada são fatores diretamente associados à configuração particular
da comunidade de micróbios a que servimos de anfitriões. Se queremos
realmente chegar ao cerne da epidemia da obesidade, precisamos olhar para
nossa microbiota e indagar o que estamos fazendo de errado para alterar a
dinâmica que as bactérias estabeleceram com o corpo humano em sua forma
mais esguia e saudável.