10% Humano
5 A guerra dos germes
CINCO
A guerra dos germes
Em 2005, Jeremy Nicholson, professor de química biológica do Imperial
College de Londres, apresentou uma ideia polêmica: de que os antibióticos
estavam por trás da epidemia da obesidade. Os experimentos anteriores de
Fredrik Bäckhed, mostrando que a microbiota desempenhava um papel
importante na absorção e no armazenamento de energia provinda dos alimentos,
abriram a mente dos cientistas para a possibilidade de que o aumento de peso
pudesse ser controlado pelos micróbios. Se os micróbios do intestino podiam
fazer os camundongos ganharem peso, será que a alteração na composição de sua
flora intestinal provocada pelos antibióticos poderia estar ligada à obesidade
humana?
Embora apenas na década de 1980 o número de pessoas acima do peso e
obesas tenha aumentado de verdade, a tendência rumo à epidemia atual
começou na década de 1950. Nicholson se perguntou se a época da introdução
dos antibióticos para uso público em 1944 – apenas poucos anos antes do início
do aumento inexorável nos casos de obesidade – foi mais do que mera
coincidência. Suas suspeitas não se deveram simplesmente à correlação
cronológica. Ele já sabia que havia décadas os fazendeiros vinham usando
antibióticos para engordar o gado.
No fim da década de 1940, cientistas americanos descobriram por acidente
que ministrar antibióticos a frangos aumentava seu crescimento em até 50%. Os
tempos eram difíceis, e a crescente população urbana dos Estados Unidos estava
farta do alto custo de vida. Eles já haviam sofrido privações demais, e carne mais
barata estava no alto de sua lista de desejos do pós-guerra. Os efeitos dos
antibióticos nos frangos pareciam nada menos que milagrosos, e os fazendeiros
esfregaram as mãos, satisfeitos ao descobrirem que bois, porcos, carneiros e perus apresentavam a mesma reação a pequenas doses diárias desses
medicamentos: um enorme aumento de peso.
Embora não tivessem ideia de como os antibióticos promoviam o aumento
nem de quais poderiam ser as consequências, a comida estava em falta e os
preços andavam altos. Era espetacular alcançar ganhos de produção daquela
magnitude pelo custo de ração de frango. Desde então, a chamada dosagem
subterapêutica de antibióticos tem sido uma parte essencial da agropecuária. As
estimativas são vagas, mas é possível que, nos Estados Unidos, até 70% desses
medicamentos sejam usados em animais de fazenda. Além disso, o benefício
adicional de mais animais poderem ficar espremidos em um espaço menor sem
sucumbirem a infecções apenas aumentou seu uso. Sem esses artifícios, esse país
teria que criar 452 milhões de frangos, 23 milhões de bois e 12 milhões de porcos
extras a cada ano para produzir o mesmo peso de carne.
A preocupação de Nicholson foi que, se os antibióticos podiam deixar os
animais muito mais gordos, que prova tínhamos de que não estavam fazendo o
mesmo conosco? O sistema digestivo humano não é tão diferente assim do dos
porcos. Tanto porcos quanto seres humanos seguem uma dieta onívora, têm um
estômago simples e um grande cólon, cheio de micróbios que se utilizam das
sobras do nosso próprio processo digestivo no intestino delgado. Os antibióticos
podem aumentar as taxas de crescimento dos leitões em cerca de 10% ao dia.
Para os fazendeiros, isso significa que podem abatê-los com dois ou três dias de
antecedência – um grande ganho se levarmos em conta criações de milhares de
animais. Será possível que os humanos também estejam sendo engordados pelo
consumo voraz de antibióticos?
O maior desejo de muitas pessoas que lutam contra o excesso de peso é
emagrecer, mas, por mais que tentem, elas não conseguem. Esse desejo é tão
poderoso que, em um estudo, pacientes obesos mórbidos que perderam muito
peso declararam que preferiam perder uma perna ou ficar cegos a retornar à
obesidade. Todos os 47 pacientes disseram que preferiam ser magros a obesos
multimilionários.
Se as pessoas estão tão desesperadas para emagrecer, por que é tão fácil
ganhar peso e tão difícil perdê-lo e se conservar assim? Mesmo as estimativas
mais otimistas indicam que apenas 20% das pessoas com excesso de peso
conseguem perdê-lo e mantê-lo assim por mais de um ano a certa altura da vida.
Além disso, algumas pessoas que conseguiram perder peso relataram que, para se
conservarem magras, passaram a ingerir um quantidade muito menor de calorias
do que seria o normal numa dieta típica de manutenção de peso para sua altura. Emagrecer é tão difícil que algumas campanhas do governo desistiram de tentar
fazer com que as pessoas percam peso. Elas simplesmente pedem que evitemos
engordar ainda mais. A campanha americana “Mantenha, não ganhe” segue esse
princípio. Muitos locais de trabalho agora oferecem cursos e orientações para
ajudar os funcionários a não engordarem durante épocas tradicionais de
comilança, como as férias e o Natal.
Trata-se de uma suspeita que está de acordo com nossa compreensão
crescente da obesidade como doença. Se, como expliquei no capítulo 2, o
Professor Nikhil Dhurandhar está certo ao pensar que não se trata de uma
simples questão de desequilíbrio entre calorias ingeridas e calorias gastas, mas de
uma doença complexa com muitas causas possíveis, os antibióticos poderiam se
revelar um importante fator que estaria contribuindo para a epidemia. Isso
forneceria uma boa explicação para alguns dados extraordinários associados à
obesidade. O mero fato de 65% da população de certos países desenvolvidos
apresentarem sobrepeso ou obesidade seria suficiente para nos apresentar uma
visão desconcertante do comportamento humano. Será que somos mesmo tão
preguiçosos, tão gulosos, tão ignorantes e tão desmotivados assim a ponto de
existirem mais membros de nossa espécie com excesso de peso do que magros?
Ou será que as razões para nosso excesso de peso são mais profundas do que
havíamos pensado?
Uma epidemia de obesidade induzida ou facilitada por antibióticos não
apenas nos absolveria de parte da responsabilidade por nosso excesso de peso,
como também poderia nos oferecer um meio de derrotá-lo sem recorrer a tantas
dietas aparentemente inúteis.
Em 1999, Anne Miller, ex-enfermeira nascida em Nova York, morreu aos 90
anos, tendo vivido 57 anos a mais do que deveria. Em 1942, quando tinha 33
anos, Miller sofreu um aborto. Ela então desenvolveu uma infecção
estreptocócica que a deixou à beira da morte num leito de hospital em
Connecticut. Quando a temperatura de Miller se aproximou dos 42oC, seu
médico pediu à família permissão para uma medida drástica, numa tentativa de
salvar sua vida.
O médico queria testar um novo medicamento, nunca testado em paciente
algum, que vinha sendo desenvolvido por uma empresa farmacêutica de Nova
Jersey: a penicilina. Miller estava delirando de febre havia um mês, quando, às
três e meia da tarde de 14 de março, recebeu a injeção de uma colher de chá do
remédio – metade de todo o antibiótico que havia no mundo. Às sete e meia da noite sua febre tinha baixado e sua doença se estabilizara. Alguns dias depois, já
estava plenamente recuperada. A vida de Anne Miller foi a primeira a ser salva
pelos antibióticos.
Desde então, os antibióticos impediram a morte de milhões e milhões de
pessoas, começando pelos soldados da Segunda Guerra Mundial feridos nas
praias da Normandia no Dia D, em 1944. À medida que os relatos das
recuperações milagrosas alcançavam o público, a demanda pelo medicamento
cresceu. Em março de 1945, o ritmo da produção da penicilina se acelerara e, nos
Estados Unidos, qualquer pessoa podia comprar um tratamento completo na
farmácia local. Em 1949, o preço caíra de US$20, por 100 mil unidades de
penicilina, para apenas 10 centavos. Nos 65 anos desde então, outras vinte
variedades de antibióticos foram desenvolvidas, cada uma combatendo as
bactérias de forma diferente. Entre 1954 e 2005, a produção de antibióticos nos
Estados Unidos disparou, passando de 900 toneladas anuais para 23 mil
toneladas. Essas drogas maravilhosas mudaram o modo como vivemos e
morremos. Sua invenção é um dos maiores triunfos da humanidade, impedindo
o sofrimento e a morte nas mãos de nosso mais velho e mortal inimigo. É difícil
imaginar agora, mas os antibióticos já foram considerados um remédio
milagroso. Seu uso estava reservado para os casos mais desesperadores – e
literalmente salvava vidas.
Agora, para o bem ou para o mal, seu uso é pandêmico. Eu o desafio a
encontrar um único adulto num país desenvolvido que não tenha tomado
antibiótico ao menos uma vez na vida. Na Grã-Bretanha, as mulheres fazem, em
média, setenta tratamentos com antibióticos no decorrer da vida. Setenta. Isto
não está muito longe de um tratamento por ano. O homem médio, talvez por sua
relutância em ir ao médico ou devido a diferenças em seu sistema imunológico,
passa por cinquenta tratamentos. Na Europa, 40% das pessoas tomaram
antibióticos nos últimos doze meses. Na Itália, a cifra é de 57%, equilibrada por
proporções menores na Suécia (22%). Os americanos empatam com os italianos:
cerca de 2,5% deles estão tomando antibióticos em um dado momento.
Na verdade, encontrar uma criança com menos de 2 anos que já não tenha
tomado antibiótico se mostrará uma tarefa difícil. Cerca de um terço das crianças
recebem antibióticos aos seis meses, e esse número aumenta para quase metade
com 1 ano, e três quartos com 2 anos. Aos 18 anos, as pessoas nos países
desenvolvidos já terão feito de dez a vinte tratamentos com antibióticos em
média. Cerca de um terço de todos os antibióticos prescritos por médicos são
consumidos por crianças. Nos Estados Unidos, há uma taxa anual de novecentos tratamentos com antibiótico para cada mil crianças. As crianças espanholas
tomam assustadoras 1.600 séries de antibioticoterapia por cada mil crianças ao
ano.
Cerca de metade dessas prescrições infantis são indicadas para infecções do
ouvido, às quais as crianças pequenas estão particularmente propensas. O
pequeno canal que liga o ouvido à garganta – aquele que entope com a mudança
de pressão – é quase horizontal nos bebês e vai se inclinando com a idade. Por
isso, nas crianças, o catarro não é tão facilmente drenado para a garganta, e o
canal tende a entupir com detritos. Crianças que chupam chupeta têm uma
chance duas vezes maior de contrair infecções no ouvido – ou seja, quase todas.
Essas infecções são levadas a sério pelos médicos graças a dois riscos, ambos bem
pequenos: o primeiro é que crianças com infecções repetidas podem ter
dificuldade de audição, numa idade crucial para aprenderem a falar, e o segundo
é que essas infecções podem se agravar caso penetrem mais fundo e afetem o
osso mastoide atrás do ouvido. Conhecida como mastoidite, essa infecção
bacteriana pode causar danos permanentes à audição ou mesmo levar à morte.
Embora sejam ínfimos, esses dois riscos são suficientes para persuadirem muitos
médicos a adotarem a abordagem que consideram mais segura.
Como seria fácil prever, nem todo esse consumo de remédios é estritamente
necessário. O instituto de saúde pública norte-americano – o Centro para o
Controle e Prevenção de Doenças – estima que metade dos antibióticos
prescritos no país são desnecessários ou inapropriados. Muitas dessas prescrições
são feitas para pessoas que estão passando por um resfriado ou gripe,
desesperados por uma cura, e concedidas por médicos exaustos demais para lhes
negar algo que possa acalmá-los. Isso sem mencionar que tanto resfriados quanto
gripes são causados não por bactérias, mas por vírus, que não são afetados por
antibióticos, ou que a maioria dos resfriados desaparece sozinho em dias ou
semanas, sem grandes consequências.
Com o agravamento gradual do problema da resistência aos antibióticos, a
pressão recai sobre os médicos para que se tornem mais sensatos em seus hábitos
de prescrição. Há muito que melhorar. Nos Estados Unidos, em 1998, três
quartos de todos os antibióticos prescritos pelos clínicos gerais foram indicados
para cinco tipos de infecções respiratórias: infecções do ouvido, sinusite, faringite
(garganta inflamada), bronquite e infecções do trato respiratório superior
(ITRS). Dos 25 milhões de pessoas que procuraram um médico para tratar
alguma ITRS, 30% delas receberam antibióticos. Não é tão ruim, você pode
pensar, até perceber que apenas 5% dessas infecções são causadas por bactérias. O mesmo vale para gargantas inflamadas. Quatorze milhões de pessoas foram
diagnosticadas com faringite, e 62% receberam antibióticos. Somente 10% das
infecções eram bacterianas. No todo, cerca de 55% das prescrições de
antibióticos naquele ano foram desnecessárias.
Como guardiões dos produtos farmacêuticos, parece que a responsabilidade
pelo uso excessivo de antibióticos em última análise acaba recaindo sobre os
médicos, mas a ignorância dos pacientes pode representar uma pressão
esmagadora. Numa pesquisa realizada em toda a Europa, em 2009, com 27 mil
participantes, 53% acreditavam falsamente que os antibióticos matavam vírus, e
47% acreditavam que fossem eficazes contra resfriados e gripe – que são
causados por vírus. Para muitos médicos, o medo de mandar um paciente doente
embora de mãos abanando, correndo o risco de voltar depois com uma
complicação grave de uma infecção bacteriana, é suficiente para persuadi-los a
prescrever antibióticos como medida de segurança. Sobretudo os bebês podem
ser assustadores para um médico inexperiente: podem estar chorando porque
querem carinho ou porque estão com muita dor; podem estar quietos e
indiferentes graças a algum remédio que provoca sonolência ou por estarem
gravemente doentes. Para um médico jovem, o seguro morreu de velho. Mas será
que vale a pena?
Em alguns casos, vale. Infecções do tórax, por exemplo, muitas vezes acabam
se transformando em pneumonia, especialmente em pessoas mais velhas. Para
cada idoso com sintomas a quem um tratamento com antibióticos vai evitar uma
pneumonia, cerca de quarenta pessoas terão sido tratadas sem qualquer
benefício. Mas em várias outras doenças os antibióticos são desperdiçados em
muitos pacientes para impedir uma complicação grave em apenas um. Mais de 4
mil pessoas com a garganta inflamada e infecções do trato respiratório superior
receberão antibióticos sem motivo, para evitar complicações que atingiriam
apenas um paciente. O risco é ainda menor para crianças com infecções no
ouvido. Estima-se que cerca de 50 mil crianças precisem ser tratadas com
antibióticos para impedir um único caso de mastoidite. Mesmo assim, a maioria
das crianças que chega a desenvolver mastoidite se recupera sem problemas, e o
risco é de cerca de uma morte em 10 milhões. A resistência aos antibióticos que
se desenvolve como resultado do tratamento de todas essas crianças é sem
dúvida mais perigosa à saúde pública que o risco ínfimo da própria infecção.
Está claro que nos países desenvolvidos tomamos grandes quantidades de
antibióticos – na maioria das vezes desnecessários. O contraste com o uso desses
medicamentos no mundo em desenvolvimento, onde doenças infecciosas ainda são comuns e eles são capazes de salvar vidas, foi vivamente ilustrado numa
entrevista da Rádio 4 da BBC com o professor Chris Butler, médico de família e
professor de Atenção Primária à Saúde na Universidade de Cardiff, no País de
Gales. Ele diz:
Antes de vir para o Reino Unido eu trabalhava num grande hospital rural
na África do Sul, onde o fardo das doenças infecciosas era pesado e
pessoas normalmente aptas e saudáveis chegavam com pneumonia e
meningite em grande quantidade. Elas estavam à beira da morte e, se
ministrássemos o antibiótico certo em tempo hábil, em poucos dias
costumavam se pôr de pé e sair andando. Estávamos fazendo os mortos
se levantarem e caminharem com o milagre dos antibióticos. Quando
vim para o Reino Unido, comecei a trabalhar como clínico geral. Aqui,
estávamos usando os mesmos antibióticos que haviam salvado tantas
vidas na África do Sul, mas para tratar o que eram efetivamente apenas
crianças com nariz escorrendo.
Então por que não tomar antibióticos assim mesmo? Que dano poderiam
causar? A preocupação de Butler com o uso desses remédios para tranquilizar
pacientes ligeiramente doentes se baseia sobretudo no desenvolvimento da
resistência aos antibióticos. Ele, como muitos outros cientistas e médicos, prevê
que logo chegaremos a uma era pós-antibióticos – bem parecida com a era pré-
antibióticos, em que as cirurgias representavam um alto risco de vida, e até os
menores ferimentos podiam matar. Essa previsão é tão antiga quanto os próprios
antibióticos. Sir Alexander Fleming, após descobrir a penicilina, alertou repetidas
vezes que usar uma dose pequena demais por um tempo curto demais ou sem
um bom motivo iria provocar a resistência aos antibióticos.
Ele estava certo. Vez por outra, as bactérias desenvolvem resistência aos
antibióticos. As primeiras resistentes à penicilina foram descobertas poucos anos
após seu lançamento. É simples assim: os indivíduos suscetíveis morrem,
deixando para trás aqueles que, por acaso, têm uma mutação que os torne
resistentes. Então as bactérias resistentes se reproduzem, dando origem a toda
uma população imune ao antibiótico. Na década de 1950, a Staphylococcus
aureus se tornou resistente à penicilina. Alguns membros dessa espécie tinham
um gene que produzia uma enzima chamada penicilinase, que quebra a
penicilina, tornando-a inócua. Como todas as bactérias sem esse gene eram
mortas, aquelas que o possuíam logo se tornaram dominantes.
Em 1959, um antibiótico novo – a meticilina – foi lançado no Reino Unido
para tratar as infecções de Staph. aureus resistentes à penicilina. Mas apenas três
meses depois, uma nova cepa dessa espécie surgiu num hospital em Kettering.
Resistente não apenas à penicilina, mas à meticilina também, ela é agora
conhecida como Staphylococcus aureus resistente à meticilina (SARM). Essa
infecção mata dezenas ou centenas de milhares de pessoas por ano, e não é a
única bactéria resistente a antibióticos.
As consequências são não apenas sociais, mas também individuais: “Sabemos
que o maior fator de risco para contrair uma infecção resistente é ter tomado
antibióticos recentemente.” Como diz Chris Butler:
Portanto, se você tomou antibióticos, ao contrair sua próxima infecção as
chances de que esteja resistente são bem maiores. E isso é um problema,
porque mesmo as infecções comuns como as do trato urinário, se forem
causadas por um organismo resistente, se estendem por mais tempo, as
pessoas precisam tomar mais antibióticos adicionais, o custo aumenta
para o sistema público de saúde e os sintomas dos pacientes ficam muito
piores. Dessa forma, o uso desnecessário de antibióticos afeta não apenas
a sensibilidade futura das bactérias, mas também a qualidade de vida dos
pacientes.
A resistência aos antibióticos, porém, parece não ser o único ponto negativo
de nosso uso excessivo desses medicamentos. Chris Butler levanta outra
preocupação: os efeitos colaterais nocivos. Ele e sua equipe realizaram um grande
teste clínico para avaliar os benefícios dos antibióticos no tratamento de pessoas
com tosse de início súbito.
Descobrimos que tínhamos que tratar trinta pacientes para que um se
beneficiasse em termos de evitar um sintoma novo ou pior, mas ao
mesmo tempo, para cada 21 pessoas tratadas, uma foi prejudicada. Assim
você vê que o número de pessoas tratadas que alcançam benefícios é mais
ou menos contrabalançado pelo número daquelas que são prejudicadas
pelo mesmo tratamento.
Esses efeitos colaterais desagradáveis costumam assumir a forma de erupções
cutâneas e diarreia.
Nos setenta anos desde o desenvolvimento da penicilina, vinte novos tipos de
antibióticos já foram sintetizados. Eles estão na lista dos medicamentos mais
prescritos, e os esforços para descobrir ainda mais compostos químicos de ação
antibiótica para combater a ameaça sempre renovada das bactérias em evolução
prossegue. Porém, nosso triunfo sobre nosso maior adversário natural – as
bactérias – tem ocorrido à custa dos danos colaterais que os antibióticos vêm
causando ao longo do caminho. Pois esses poderosos medicamentos destroem
não apenas as bactérias que nos fazem adoecer, mas também aquelas que nos
mantêm saudáveis.
Os antibióticos não conseguem mirar em uma única cepa de bactéria. Como
a maioria é de “amplo espectro”, mata uma grande variedade de espécies, o que é
muito útil para os médicos, pois significa que as pessoas podem receber
tratamento para todo tipo de infecções sem que se saiba exatamente qual bactéria
está causando o problema. Ser mais preciso significaria ter que fazer uma cultura
e identificar o culpado, um processo lento, caro e às vezes impossível. Até os
antibióticos mais restritos, de “espectro reduzido”, não destroem apenas a cepa
bacteriana causadora da doença. Quaisquer outras bactérias pertencentes à
mesma família sofrerão o mesmo destino. As consequências desse bactericídio
em massa são bem mais profundas do que qualquer um previu – inclusive Sir
Alexander Fleming.
Essas duas desvantagens do uso de antibióticos – resistência e danos
colaterais – combinam suas forças em uma doença terrível: a infecção por
Clostridium difficile. Essa bactéria, mais conhecida como C. diff, se tornou um
grave problema na Inglaterra em 1999, quando matou quinhentas pessoas –
muitas delas após o tratamento com antibióticos. Em 2007, cerca de 4 mil
pacientes morreram pelo mesmo motivo.
Não é uma forma agradável de morrer. A C. diff vive no intestino, onde
produz uma toxina que causa uma diarreia contínua, fedorenta e aquosa. Com
ela vem a desidratação, uma terrível dor abdominal e a rápida perda de peso.
Ainda que as vítimas da C. diff escapem da insuficiência renal, talvez tenham que
sobreviver também ao megacólon tóxico. Um megacólon é isso mesmo que a
palavra diz: o excesso de gases produzidos no intestino faz o cólon inchar e
atingir proporções muito acima de seu tamanho normal. À semelhança da
apendicite, o risco é de que estoure, com consequências ainda mais mortais. Com
a matéria fecal e todo tipo de bactérias liberadas para dentro do ambiente estéril
da cavidade abdominal, as chances de sobrevivência caem drasticamente.
A incidência crescente da C. diff e sua taxa de mortalidade resultam em parte
da resistência aos antibióticos. Na década de 1990, essa espécie desenvolveu uma
cepa nova e perigosa que se tornou cada vez mais comum em hospitais. Além de
mais resistente, era mais tóxica. Mas uma causa subjacente coloca nosso uso
excessivo de antibióticos sob uma perspectiva assustadora. A C. diff vive no
intestino de algumas pessoas, não causando grandes problemas, mas tampouco
trazendo benefícios. No entanto, ela se torna nociva quando tem a menor
oportunidade – que fica a cargo dos antibióticos. Normalmente, quando a flora
intestinal está saudável e em equilíbrio, a C. diff é mantida sob controle, ficando
restrita a pequenos bolsões onde não pode causar nenhum dano. Com o uso de
antibióticos, porém, sobretudo os de amplo espectro, a microbiota normal é
perturbada e essa espécie consegue se estabelecer.
Se os antibióticos são capazes de permitir o florescimento da C. diff, a
pergunta é: será que a ingestão de antibióticos muda a composição de nossa
microbiota? E, se muda, quanto tempo esse efeito dura? A maioria das pessoas
terá experimentado o inchaço e a diarreia decorrentes de um tratamento com
antibióticos. Trata-se do dano colateral mais comum do uso desses
medicamentos, a perturbação da microbiota: a disbiose. Em geral, esses sintomas
desaparecem alguns dias depois do fim do tratamento. Mas como ficam os
micróbios sobreviventes? Será que eles recuperam seu equilíbrio normal?
Uma equipe de pesquisadores na Suécia fez essa mesma pergunta em 2007.
Estavam particularmente interessados no que acontece com as espécies do
gênero Bacteroides, que são especializadas em digerir os carboidratos vegetais e,
como vimos no capítulo 2, têm grande impacto sobre o metabolismo humano.
Os pesquisadores dividiram alguns voluntários saudáveis em dois grupos, dando
à metade deles o antibiótico clindamicina por sete dias e deixando a outra
metade sem nenhum tratamento. Os micróbios do intestino dos pacientes que
receberam clindamicina foram drasticamente afetados logo após a medicação. A
diversidade das Bacteroides em particular caiu muito. A microbiota dos dois
grupos foi avaliada a intervalos de poucos meses, mas, ao final do estudo, as
populações de Bacteroides do grupo da clindamicina ainda não haviam
retornado à sua composição original. O tratamento havia acabado dois anos
antes.
A ingestão de ciprofloxacina – um antibiótico de amplo espectro que pode
ser usado para tratar infecções do trato urinário e sinusite – durante apenas cinco
dias tem um efeito semelhante. Ele tem um impacto “profundo e rápido” sobre a
microbiota, alterando a composição da flora intestinal em apenas três dias. A diversidade bacteriana cai e o tamanho de cerca de um terço das populações
presentes muda com o tratamento. Essa mudança persiste por semanas – e
algumas espécies jamais se recuperam. As consequências do uso de antibióticos
em crianças pequenas podem ser ainda mais drásticas. Num estudo para avaliar
as mudanças na microbiota de crianças ao longo do tempo, um tratamento com
antibióticos deixou um bebê com tão poucas bactérias que os pesquisadores
sequer conseguiram detectar qualquer DNA.
Esse impacto de longo prazo na flora intestinal tem sido observado em ao
menos meia dúzia de nossos antibióticos mais comuns, cada um apresentando
um efeito diferente. Mesmo o tratamento mais curto e a menor dose podem ter
consequências que em muito superam o problema original. Talvez isso não deva
ser tão ruim, afinal, uma mudança não necessariamente é para pior. Mas pense
na ascensão das doenças do século XXI. Diabetes tipo 1 e esclerose múltipla na
década de 1950, alergias e autismo no final da década de 1940. A epidemia de
obesidade tem sido atribuída ao advento dos supermercados de autosserviço e
aos prazeres sem culpa associados do consumo anônimo. Mas quando foi que
esses males começaram a se proliferar? Nos anos 1940 e 1950. Essas datas
coincidem com outro acontecimento importante: a recuperação de Anne Miller,
ou, mais precisamente, os desembarques do Dia D em 1944, quando os
antibióticos se tornaram disponíveis em grandes quantidades.
Seu emprego nesse dia histórico foi logo seguido pela liberação de seu uso
público. A sífilis foi o alvo principal, já que afetava 15% dos adultos em algum
ponto de suas vidas. Em pouco tempo, a produção de antibióticos ficou barata e
esse medicamento passou a ser prescrito com frequência. A penicilina
permaneceu um grande favorito, mas cinco outras classes de antibióticos foram
lançadas no espaço de uma década, cada uma tendo como alvo um ponto fraco
específico de alguma bactéria.
No entanto, houve uma ligeira demora entre 1944 e o início da ascensão das
doenças do século XXI, o que pode sugerir um desencontro. Mas esse intervalo é
previsível. Levou tempo até que o uso de antibióticos se tornasse generalizado,
que novos tipos de antibiótico fossem desenvolvidos, que as crianças crescessem
sob a influência desses remédios em seu corpo e que as doenças crônicas se
desenvolvessem. Também levou tempo para os efeitos se tornarem evidentes em
populações, países e continentes inteiros. Se o lançamento dos antibióticos em
1944 é de algum modo responsável por nosso estado de saúde atual, os anos 1950
são o período exato em que devemos esperar notar o surgimento de seu impacto.
Mas não vamos nos precipitar. Como qualquer cientista se apressaria em
observar, correlação nem sempre significa causa. A relação entre o momento da
introdução dos antibióticos e o aumento das doenças crônicas pode ser tão irreal
quanto a ideia de que os supermercados de autosserviço são responsáveis pelo
aumento da obesidade. Associações isoladas, embora funcionem como guias
úteis, nem sempre proporcionam um vínculo causal.
Para encontrarmos um real vínculo causal, precisamos de duas coisas. A
primeira são indícios de que essa ligação seja real. Será verdade que o uso de
antibióticos é responsável por um risco maior de desenvolver alguma doença do
século XXI? A segunda é a criação de um mecanismo que explique como o
primeiro fato poderia causar o segundo. Como tomar antibióticos provoca
alergias, autoimunidade ou obesidade? A ideia de que antibióticos são capazes de
alterar a microbiota, mudar o metabolismo (obesidade), atrapalhar o
desenvolvimento do cérebro (autismo) e afetar o sistema imunológico (alergias e
doenças autoimunes) precisa ser respaldada por mais do que a mera coincidência
temporal.
Desde a década de 1950 sabemos que, além do impacto na engorda do gado, os
antibióticos também podem causar aumento de peso em seres humanos. Naquela
época – antes do início da epidemia da obesidade –, os antibióticos eram
intencionalmente usados em seres humanos por suas propriedades de promoção
do crescimento. Alguns médicos pioneiros, conhecedores do impacto recém-
descoberto dos antibióticos no crescimento dos animais, experimentaram tratar
bebês prematuros e desnutridos. Para os recém-nascidos, os resultados foram
espetaculares – eles se beneficiaram com um aumento no peso que os resgatou
das garras da morte. Mas da perspectiva das massas atuais de pessoas obesas,
esses experimentos deveriam ter soado como um alerta.
Os resultados não se limitavam aos bebês. Em 1953, um tratamento
experimental com antibiótico conduzido pela Marinha americana começou
como um teste para descobrir se a aureomicina profilática era capaz de reduzir a
ocorrência de infecções por estreptococos. Com a meticulosidade militar típica, a
altura e o peso dos recrutas que iriam participar foram registrados, o que levou a
equipe de pesquisadores a uma observação surpreendente. Aqueles que
receberam antibióticos estavam ganhando bem mais peso do que os que
ingeriram um placebo com a mesma embalagem. Como no caso dos bebês, o
resultado inesperado do tratamento foi visto em termos do valor nutricional que
poderia oferecer, não como um indicador alarmante dos tempos modernos.
Com a epidemia da obesidade a pleno vapor e nossa nova compreensão do
banquete microbiano oferecido em nosso intestino, aqueles experimentos
pioneiros apresentam uma visão alternativa do papel dos antibióticos no ganho
de peso. É chocante que um efeito tão conhecido sobre animais e até seres
humanos tenha sido negligenciado como uma via de pesquisa dadas as
proporções dessa epidemia hoje. Sabíamos que os antibióticos causavam
aumento de peso porque fizemos uso deles para engordar o gado e melhorar a
nutrição das pessoas que mais precisavam, mas ignoramos esse efeito colateral
no contexto de uma catástrofe de saúde global.
Com certeza a nossa população de micro-organismos desempenha um papel
importante no aumento de peso, mas será que os antibióticos são capazes de
transformar uma microbiota “magra” em “obesa”?
Essa é uma pergunta difícil: dar antibióticos a grandes números de pessoas
saudáveis para ver se elas engordam é algo que passa longe da ética, de modo que
os cientistas precisam depender de suas observações e de um ou outro
camundongo. No entanto, alguns pesquisadores em Marselha, na França,
reconheceram a oportunidade de testar a teoria de que os antibióticos estão
engordando as pessoas, usando adultos que vinham sofrendo de uma perigosa
infecção nas válvulas cardíacas. Esses pacientes precisavam desesperadamente de
grandes quantidades de antibióticos para melhorarem, o que proporcionava uma
ótima chance para os cientistas examinarem o ganho de peso associado. Os
pesquisadores compararam mudanças em seu Índice de Massa Corporal (IMC)
no ano seguinte com as de um conjunto de pessoas saudáveis que não receberam
antibióticos. Os pacientes ganharam bem mais peso do que as pessoas saudáveis,
mas apenas aqueles com uma combinação específica de antibióticos –
vancomicina + gentamicina – foram afetados. Os que tomaram outras variedades
de antibióticos foram poupados, não ganhando mais peso do que o grupo de
controle.
Examinando a flora intestinal dos dois grupos, os pesquisadores teriam a
chance de ver se alguma espécie particular poderia ser responsável pelo aumento
de peso. Descobriram que uma bactéria, chamada Lactobacillus reuteri (um
membro do filo Firmicutes), era bem mais abundante no intestino dos pacientes
que haviam recebido vancomicina. Como é resistente a esse antibiótico, ela podia
se espalhar feito erva daninha, enquanto outras espécies eram dizimadas pelas
drogas. Através da guerra biológica, os antibióticos tinham dado uma vantagem
injusta ao inimigo. Além disso, a própria L. reuteri produz algumas substâncias
químicas antibacterianas. Conhecidos como bacteriocinas, esses compostos podem impedir que outras bactérias voltem a crescer, assegurando o domínio da
L. reuteri no intestino. Espécies semelhantes de lactobacilos vêm sendo dadas ao
gado há décadas: elas também fazem os animais ganharem peso.
Outro estudo aproveitou o tesouro de informações da Coorte Nacional de
Nascimentos da Dinamarca. Os pesquisadores analisaram dados de saúde de
quase 30 mil pares de mãe-filho e descobriram que os antibióticos tinham
diferentes efeitos nos bebês, dependendo do peso da mãe. Os filhos de mães
esguias se tornavam mais passíveis de ficarem com excesso de peso, enquanto as
crianças de mães obesas ou com sobrepeso tiveram o efeito inverso: um risco
reduzido de desenvolver excesso de peso. É difícil saber ao certo por que os
antibióticos estão tendo o resultado contrário nesses bebês, mas é intrigante
pensar que talvez estejam, por um lado, “corrigindo” uma microbiota obesa e,
por outro, destruindo uma microbiota magra. Em outro estudo, descobriu-se que
40% das crianças com excesso de peso receberam antibióticos em seus primeiros
seis meses – número que, nas crianças cujo peso é normal, cai para apenas 13%.
Por mais persuasivos que pareçam, esses experimentos não provam que os
antibióticos podem causar aumento de peso nem que isso seja consequência de
uma microbiota alterada, não um efeito direto do próprio medicamento. Uma
equipe da Universidade de Nova York liderada por Martin Blaser – médico
infectologista e diretor do Projeto Microbioma Humano – resolveu descobrir
precisamente o que os antibióticos podiam causar à microbiota e ao
metabolismo. Em 2012, a equipe havia demonstrado que doses baixas de
antibiótico perturbavam a composição da microbiota de camundongos jovens,
modificavam seus hormônios metabólicos e aumentavam sua massa de gordura,
embora não afetasse o ganho de peso em geral. Uma de suas suspeitas era de que
a idade fosse fundamental e de que quanto mais cedo dessem antibióticos aos
camundongos, mais substancial seria o efeito encontrado. Estudos
epidemiológicos já haviam mostrado que bebês humanos que receberam
antibióticos nos primeiros seis meses eram mais passíveis de desenvolver excesso
de peso do que os que chegavam ao primeiro aniversário sem terem sido
expostos ao medicamento. O mesmo vale para animais de fazenda: para obter o
melhor efeito de aumento do peso, é importante começar a ministrar os
antibióticos o mais cedo possível.
Num segundo conjunto de experimentos, o grupo de Blaser ministrou doses
baixas de penicilina em ratinhas grávidas pouco antes de darem à luz e
continuou com os medicamentos durante a amamentação. Como era de esperar,
durante o tempo em que eram amamentados, os camundongos machos que ingeriram penicilina cresceram bem mais rápido que os do grupo de controle.
Quando chegaram à fase adulta, tanto machos quanto fêmeas ficaram mais
pesados, com um percentual de gordura maior que os camundongos que não
receberam remédio algum.
A equipe ficou curiosa em saber o que aconteceria se, além da penicilina, os
camundongos fossem submetidos a uma dieta rica em gorduras. As fêmeas com
uma dieta normal desenvolveram cerca de 3 gramas de gordura dentro de seus
corpinhos até atingirem trinta semanas, independentemente de terem recebido
ou não o antibiótico. A massa gorda de um conjunto idêntico de fêmeas que
recebeu uma dieta rica em gorduras aumentou em cerca de 5 gramas – elas não
ficaram mais pesadas, mas tinham menos massa magra e mais massa gorda. Mas
incluir uma dose baixa de penicilina à dieta rica em gorduras fez com que outro
grupo de ratinhas desenvolvesse 10 gramas adicionais de massa gorda. De algum
modo, a penicilina havia amplificado os efeitos de uma dieta rica em gorduras,
fazendo as camundongas armazenarem uma parcela ainda maior das calorias a
mais que vinham ingerindo.
Para os camundongos machos, a dieta rica em gorduras teve um efeito maior,
elevando sua massa gorda de 5 gramas com uma dieta saudável (com ou sem
penicilina) para 13 gramas. Mais uma vez, a combinação de uma dieta rica em
gorduras com uma baixa dose de penicilina aumentou o ganho de gordura,
levando a uma massa gorda de 17 gramas. Fica claro que apenas a dieta rica em
gorduras já vinha causando obesidade nos camundongos, mas os antibióticos
estavam tornando uma situação ruim ainda pior.
O transplante da comunidade alterada de micróbios produzida pela baixa
dose de antibióticos em camundongos livres de germes induziu as mesmas
mudanças no peso e no percentual de gordura, indicando que a composição
microbiana era a responsável pelo aumento de peso nos camundongos, não os
próprios remédios. O preocupante foi que, embora a interrupção do tratamento
permitisse a recuperação da microbiota, seus efeitos metabólicos perduraram. A
penicilina é a classe de antibiótico mais receitada a crianças e, se podemos nos
basear nos camundongos, o tratamento muito precoce com esses medicamentos
poderia causar alterações permanentes em seu metabolismo.
Está cedo demais para sabermos ao certo se os antibióticos causam obesidade
ou quais variedades poderiam ser as responsáveis, mas dada a escala grande e
crescente da epidemia de obesidade, esses sinais tentadores de uma causa mais
profunda do que a gula e a preguiça deveriam nos deixar vigilantes contra o
abuso desses complexos e preciosos remédios. Martin Blaser alerta que entre 30% e 50% das mulheres americanas recebem antibióticos como procedimento de
rotina durante a gravidez ou no parto, na maior parte penicilina – como os
camundongos. Embora muitos deles sejam sem dúvida necessários, é importante
avaliarmos os custos e benefícios dessa prática à medida que novos dados vão
surgindo.
Quanto ao gado, evidências de que a resistência aos antibióticos dados aos
animais passavam para os seres humanos colocaram fim ao seu uso para
promover o crescimento – ao menos na Europa. Desde 2006, os fazendeiros na
União Europeia estão proibidos de usar antibióticos exclusivamente para
engordar o gado, embora continuem sendo permitidos para curar doenças, é
claro. Nos Estados Unidos e em muitos outros países, antibióticos promotores do
crescimento continuam sendo usados. Portanto, é normal que você se pergunte:
ainda que consiga evitar tomar antibióticos por conta própria, será que não está
sendo inadvertidamente drogado quando devora um bife ou bebe leite no café da
manhã? Afinal, muitos antibióticos são absorvidos pelo sangue, pelos músculos e
pelo leite de um animal, e alguns podem resistir ao processo de cozimento e
chegar ao seu intestino depois de ingeri-los. A boa notícia para quem vive nos
países desenvolvidos é que existem regras rigorosas proibindo as fazendas de
abaterem ou ordenharem animais recentemente tratados. Por outro lado, em
muitos lugares menos rigorosos, testes revelam alimentos contaminados por
resíduos de antibióticos que ultrapassaram os níveis seguros. Dependendo de
onde você mora e para onde viajou, há grandes chances de ter absorvido ao
menos alguns antibióticos por meio da alimentação.
Os veganos podem estar se considerando sortudos após lerem isto, mas,
apesar das virtudes de seu estilo de vida, não estão livres dessa ameaça específica.
Apesar de legumes, frutas e verduras não receberem doses diretas de antibióticos,
muitas vezes esses produtos crescem em solo fertilizado com esterco animal –
que não é apenas uma fonte rica de nutrientes, mas também de drogas: cerca de
75% dos antibióticos dados aos animais passam direto e saem nas fezes. Para
alguns tipos de antibióticos, pode haver até uma dose do medicamento para cada
litro de esterco. Isso equivale a borrifar o conteúdo de uma ou duas cápsulas de
antibióticos a cada 10 metros quadrados de terra cultivada.
Alguns desses antibióticos permanecem “ativos” quando penetram no solo –
mantendo a mesma capacidade de matar bactérias que teriam se estivessem na
embalagem. Isso significa que a concentração pode aumentar ainda mais a cada
aplicação de esterco. Tudo isso não importaria se os antibióticos permanecessem
no solo, mas não é o que acontece. Legumes, frutas e verduras, do aipo ao coentro e ao milho, contêm resíduos de antibiótico – quantidades ínfimas em
cada planta, mas que vão se acumulando no decorrer de semanas e anos. Existem
regras para ministrar antibióticos aos animais antes de serem mortos e levados
para a mesa de jantar, mas nenhuma regra determina a aplicação de esterco à
terra cultivada.
Apesar de sua forte ligação, ainda não se sabe ao certo se resíduos de
antibióticos na comida podem ser a causa subjacente da epidemia de obesidade,
mas essa questão suscita muitos debates científicos. Nossa cintura começou a
crescer na década de 1950, pouco depois que os antibióticos se tornaram
disponíveis para o público em geral. No entanto, a década de 1980 testemunhou
um grande aumento no número de pessoas com excesso de peso – a mesma
época em que as operações agropecuárias passaram a ser superintensivas.
Existem cerca de 19 bilhões de frangos vivos na Terra a qualquer dado momento
(são cerca de três por pessoa!), muitos deles espremidos em gaiolas de vários
andares. Muitos antibióticos são necessários para manter os frangos nessas
condições sem que adoeçam. O Dr. Lee Riley, especialista em saúde pública,
observa que, nos anos 1980 e 1990, o maior aumento dessas granjas modernas
ocorreu na região sudeste dos Estados Unidos – o epicentro exato da epidemia
da obesidade, onde a população americana é mais gorda.
Se os antibióticos podem nos engordar, por quais outros danos poderiam ser
responsáveis? Diversas outras doenças que parecem estar associadas à disbiose
no intestino já foram mencionadas aqui: alergias, autoimunidade e transtornos
mentais. Como os antibióticos são capazes de destruir a microbiota, em teoria,
todas essas doenças poderiam ser provocadas pelo tratamento com esses
medicamentos.
Você se lembra de Ellen Bolte, do capítulo 3, cujo filho Andrew desenvolveu
autismo quando bebê? Ellen atribuiu a regressão súbita de Andrew aos repetidos
tratamentos com antibióticos prescritos para o que parecia ser uma infecção do
ouvido da criança. Como a obesidade, o autismo também já foi raro, e sua
incidência vem aumentando desde os anos 1950, afetando hoje uma em cada 68
crianças. Os meninos são os mais atingidos, e cerca de 2% deles se encaixam em
algum ponto do espectro autista aos 8 anos. A culpa já foi atribuída a vários
fatores – entre os quais o mais polêmico foi a vacina combinada para sarampo,
caxumba e rubéola (MMR). Porém nunca foram encontradas evidências que
indiquem a validade desse vínculo causal, e a atenção das pesquisas se voltou
para a flora intestinal.
Crianças com autismo parecem abrigar uma comunidade desequilibrada de
micro-organismos. Essa disbiose afeta o cérebro em desenvolvimento dos
nenéns, tornando-os irritáveis, retraídos e repetitivos. Será que Ellen Bolte tem
razão sobre a causa do autismo de Andrew? Os antibióticos são claramente
capazes de alterar a microbiota, mas será que eles foram mesmo responsáveis por
deixar Andrew tão mal? Seu diagnóstico constante de infecções no ouvido nos
oferece uma pista. Acontece que 93% das crianças com autismo sofreram de
infecções no ouvido antes de completarem 2 anos, em comparação com 57% das
crianças saudáveis. Como mencionei, nenhum médico está disposto a deixar
uma infecção de ouvido infantil sem tratamento, com medo de que o bebê não
aprenda a falar ou seu quadro piore e se torne algo perigoso como febre
reumática. Assim, acaba recorrendo aos antibióticos – o seguro morreu de velho.
A associação entre infecções no ouvido e antibióticos resiste. Um estudo
epidemiológico mostrou que crianças com autismo normalmente receberam três
vezes mais antibióticos do que aquelas sem o distúrbio. As que recebem
antibióticos antes dos 18 meses parecem correr o maior risco. Além disso, esta é
uma conexão real. Não podemos culpar um estado precário da saúde em geral,
que tenha levado a mais doenças, entre as quais o autismo, porque antes desse
diagnóstico, as crianças autistas nesse estudo não haviam visitado o médico nem
tomado mais medicamentos do que as que apresentaram desenvolvimento
normal. Ainda são necessários novos estudos com mais crianças para termos
certeza dessa ligação, além de ser crucial decifrarmos um mecanismo claro que
explique seu funcionamento. Mas, como já estamos sendo alertados para reduzir
o consumo de antibióticos, a ameaça de que esse medicamento aumenta o risco
de autismo só torna essas advertências mais pertinentes.
Um vínculo bem mais claro, e talvez mais intuitivo, é o que pode ser visto
entre antibióticos e alergias. Já vimos no capítulo anterior que crianças tratadas
com antibióticos antes dos 2 anos têm o dobro de chance de desenvolver asma,
irritações de pele e febre do feno. Quanto mais medicamentos receberam,
maiores são as chances de se tornarem alérgicas. Quatro ou mais tratamentos
significam o triplo de chance.
A trama se complica quando levamos em conta as doenças autoimunes. Elas
também aumentaram ao mesmo tempo que o uso de antibióticos, mas até
recentemente as infecções levavam a culpa por essas doenças. A diabetes tipo 1 é
um clássico. Por décadas, os médicos têm visto um padrão: um adolescente vai a
uma consulta com um resfriado ou gripe, para voltar semanas depois com uma
sede desesperadora e um cansaço insuportável. As células beta de seu pâncreas começaram a falhar, recusando-se a continuar liberando insulina. Sem esse
hormônio crucial para convertê-la e armazená-la, a glicose no sangue aumenta.
Dentro de dias ou semanas, as coisas podem ficar graves, levando ao coma ou à
morte na falta de tratamento. Mas o intrigante é a associação entre um resfriado
ou uma gripe e a diabetes. Uma infecção viral costuma ser vista como o
desencadeador – não apenas da diabetes, mas de muitas outras doenças
autoimunes.
Mas um exame das estatísticas revela um quadro diferente. O risco de
contrair diabetes tipo 1 não é maior nas crianças que tiveram infecções. Além
disso, enquanto os casos de diabetes tipo 1 têm aumentado na ordem de 5% ao
ano nos Estados Unidos, a prevalência de doenças infecciosas diminuiu. Então
por que o vínculo aparente? Por que os médicos sistematicamente veem os
adolescentes desenvolverem diabetes depois de uma infecção?
Este é o ponto onde termina a ciência e começa a especulação. Já sabemos
que os médicos prescrevem antibióticos em excesso, mesmo para doenças que
provavelmente são causadas por vírus, não por bactérias. Seria possível que a
diabetes começasse não devido a uma infecção, mas como consequência do
tratamento para aquela infecção – antibióticos? Para as famílias e os médicos,
pareceria que um resfriado, uma gripe ou um surto de gastroenterite
desencadeou a diabetes. O antibiótico pareceria um personagem inocente, mas
seria possível que o próprio remédio – ou uma combinação das duas coisas –
tenha desencadeado a diabetes.
Infelizmente, por enquanto a resposta não está clara. Em um estudo
dinamarquês sobre antibióticos ministrados a crianças, não foi encontrado
qualquer vínculo com o risco de desenvolver diabetes depois. Mas, em outro
estudo que contou com a participação de mais de 3 mil crianças, houve uma
tendência de associação do uso de antibiótico com a diabetes. Além dessa, outras
doenças autoimunes mostram ligações mais claras com os antibióticos. Entre
adolescentes e adultos usando um antibiótico chamado minociclina por meses
ou anos a fio como tratamento da acne, o risco de desenvolver lúpus foi 2,5 vezes
maior do que para aqueles que não tomavam o remédio. Essa doença autoimune,
que afeta muitas partes do corpo, atinge sobretudo as mulheres, mas aquela cifra
incluía os homens, que não têm tendência a desenvolver lúpus. Examinando
apenas as mulheres, o risco de contrair lúpus após tomar minociclina (mas não
outros antibióticos do grupo das tetraciclinas) torna-se cinco vezes maior do que
para aquelas que não tomam antibióticos. O mesmo ocorre com a esclerose
múltipla – uma doença autoimune que causa danos aos nervos –, que tende mais a atingir aqueles que tomaram antibióticos recentemente. Mais uma vez, é difícil
saber se os antibióticos, as infecções ou uma combinação dessas duas coisas estão
na raiz dessas doenças.
Embora os problemas da resistência aos antibióticos e dos efeitos colaterais
nocivos à microbiota sejam graves, esses medicamentos não são de todo ruins.
Não podemos esquecer as incontáveis vidas que eles salvaram e o sofrimento que
impediram. Reconhecendo que têm tanto custos quanto benefícios, podemos
avaliar melhor seu valor em certas situações. Cabe a cada um de nós – médicos e
pacientes – reduzir nosso uso de antibióticos desnecessários, para o bem de nosso
ecossistema interno e de nosso próprio corpo.
Embora a ideia por trás da hipótese higiênica – que as infecções nos protegem de
alergias – tenha se revelado falsa, um elemento dela persiste. Somos uma
sociedade obcecada por higiene, e, como isso tem um impacto sobre os micróbios
benéficos que abrigamos, estamos nos prejudicando. A maioria das pessoas nos
países desenvolvidos lava o corpo inteiro ao menos uma vez por dia, cobrindo a
pele com sabão e água quente. Costuma-se dizer que a pele é a primeira linha de
defesa contra patógenos, mas não é bem assim. A microbiota da pele, seja uma
comunidade de Propionibacterium no nariz, seja uma de Corynebacterium nas
axilas, forma uma camada adicional de proteção na epiderme. Como no
intestino, essa camada benéfica expulsa patógenos potenciais e regula as reações
do sistema imunológico a possíveis invasores.
Se os antibióticos conseguem alterar drasticamente a composição da flora
intestinal, qual o efeito dos sabonetes sobre a microbiota da pele? Olhando as
estantes dos supermercados hoje em dia, é difícil achar um sabonete líquido ou
produto de limpeza que não contenha bactericidas. Somos assolados por
propagandas que dão a entender que germes mortais estão à solta em nossa casa
e recomendam que mantenhamos nossas famílias seguras usando sabonetes e
limpadores de superfícies contendo agentes antibacterianos – que matam 99,9%
das bactérias e vírus. O que esses anúncios não contam é que o sabonete normal
faz um serviço igualmente bom, sem prejudicar você nem o meio ambiente no
processo.
Quando você lava as mãos de maneira correta, com água quente e sabonete
normal, não está matando os micróbios potencialmente nocivos. Você os está
removendo. O sabão e o calor da água não os exterminam – apenas facilitam a
remoção das substâncias a que os micro-organismos estão agarrados: suco da
carne, gorduras, sujeira ou o próprio acúmulo de óleos e células mortas da pele. O mesmo vale para limpadores de superfícies – limpar a bancada da cozinha
remove os restos de alimentos que podem atrair bactérias nocivas. Não chega a
matar os micróbios nem precisa disso. Acrescentar bactericidas não faz diferença
alguma.
Quando produtos antibacterianos alegam matar 99,9% das bactérias, não
estão se referindo a testes nas mãos das pessoas nem em superfícies da cozinha,
mas em tubos de ensaio. Os examinadores põem um grande número de bactérias
direto no sabão líquido e, após um período de tempo – bem mais do que o sabão
ficaria em contato com a pele –, veem quantos continuam vivos. Alegar uma taxa
de morte de 100% é impossível, porque é impossível provar uma ausência
completa de algo com uma amostra tão pequena. Como dizem os cientistas:
ausência de evidências não é evidência de ausência. Ninguém nunca declara
exatamente quais cepas de bactérias esses sabonetes matam. Os 99,9% se referem
à proporção de indivíduos mortos, não que 99,9% das espécies bacterianas do
mundo possam ser eliminadas. Vale a pena lembrar que muitas bactérias
patogênicas conseguem formar esporos e hibernar até o perigo passar,
independentemente das substâncias químicas usadas.
Os produtos antibacterianos são um triunfo da publicidade e da
pseudociência. Como muitas substâncias químicas em nosso cotidiano, sua
segurança nunca foi examinada de verdade. As agências reguladoras, em vez de
exigirem que se prove a segurança e a eficiência dessas substâncias antes de
começarem a ser vendidas, como ocorre com os medicamentos, precisam provar,
depois de terem sido colocadas à disposição do público, que são perigosas para
que aí então sejam proibidas. Das 50 mil ou mais substâncias químicas que
usamos no Ocidente, apenas umas trezentas tiveram sua segurança testada.
Cinco tiveram seu uso restrito. Isso é 1,7% das que foram testadas. Supondo-se
que apenas 1% das outras 50 mil são nocivas, isto dá quinhentas outras que não
deveriam estar em nossa casa.
É fácil ficar indiferente – afinal, se essas substâncias fossem mesmo perigosas,
as pessoas não iriam adoecer? – mas a natureza traiçoeira da acumulação
química e os efeitos sutis e graduais que essas substâncias possam causar não são
necessariamente tão fáceis de captar. Além disso, as pessoas estão adoecendo.
Como a nossa memória é fraca e a rede de fatores potenciais, suficientemente
confusa, temos dificuldade em decifrar o que é perigoso ou não. Tomemos o
amianto, por exemplo. Essa substância química que existe na natureza era usada
na área da construção civil no mundo inteiro antes de ser proibida. Centenas de milhares de pessoas morreram em razão da exposição a essa substância química,
antes corriqueira, e continuam morrendo.
Não estou querendo dizer que os bactericidas sejam tão perigosos quanto o
amianto, mas que o fato de estarem em milhares de produtos – de produtos de
limpeza a tábuas de corte, de toalhas a roupas, de recipientes de plástico a
sabonetes líquidos – não garante que sejam seguros. Um composto químico
antibacteriano particularmente comum, conhecido como triclosan, entrou na
mira dos pesquisadores nos últimos anos. Seus efeitos são preocupantes o
suficiente para que o governador de Minnesota assinasse uma lei proibindo seu
uso em produtos de consumo a partir de 2017. Tenho quase certeza de que você
possui ao menos um produto em casa que contenha triclosan, se não dezenas.
Mas seria melhor não ter.
Para começo de conversa, não há nenhuma prova de que o triclosan seja mais
eficaz em reduzir a contaminação bacteriana em casa do que os sabonetes
comuns. Mas, enquanto as pessoas continuam a usá-lo, essa substância vem
contaminando nosso suprimento de água, onde, aí sim, consegue matar bactérias
e acabar com o equilíbrio dos ecossistemas de água doce. Como se isso não fosse
preocupante, o triclosan também impregna nosso corpo e pode ser encontrado
em tecido adiposo humano, no sangue do cordão umbilical de bebês recém-
nascidos, no leite materno e em quantidades significativas na urina de 75% das
pessoas.
A literatura científica ainda não foi capaz de chegar a uma conclusão sobre o
potencial nocivo do triclosan, mas o que sabemos até agora é que existe uma
correlação clara entre os níveis dessa substância na urina de uma pessoa e a
gravidade de suas reações alérgicas. Quanto mais triclosan no corpo, maiores as
nossas chances de termos febre do feno e outras alergias. Se esse é um efeito
direto do dano à microbiota, uma forma de toxicidade ou um reflexo da redução
da exposição aos micro-organismos benéficos, não se sabe.
Há até indícios de que o triclosan aumenta suas chances de contrair uma
infecção. Estamos literalmente impregnados dele: é encontrado até nas
“secreções nasais” – no catarro – dos adultos. Mas essa impregnação nasal com
antibacterianos não ajuda a combater as infecções. Descobriu-se que, quanto
maior a concentração dessa substância no catarro, maior a colonização pelo
patógeno oportunista Staphylococcus aureus. Ao usarmos esse bactericida, na
verdade estamos reduzindo a capacidade de nosso corpo de resistir à colonização
e facilitando a permanência dessa bactéria, que mata dezenas de milhares de
pessoas a cada ano (sob a forma do SARM).
Como se tudo isso não bastasse, descobriu-se também que o triclosan
interfere na ação dos hormônios da tireoide e bloqueia a ação do estrogênio e da
testosterona em células humanas em placas de Petri. Por enquanto, a Food and
Drug Administration (FDA), a agência reguladora norte-americana,
simplesmente desafiou os fabricantes a provarem a segurança da substância ou
enfrentarem sua proibição. Como mencionei, o governador de Minnesota tomou
a iniciativa, proibindo o uso do triclosan em produtos de consumo a partir de
2017, mas não por esses motivos que acabei de mencionar. Sua preocupação,
bem como a de muitos microbiologistas, é que expor bactérias a esse bactericida
permite que elas desenvolvam resistência. Embora ninguém queira remover
todas as bactérias benéficas vulneráveis de suas mãos, deixando apenas as
nocivas e resistentes, a preocupação se concentra na resistência aos antibióticos.
Pegue um nariz humano, soltando meleca embebida em triclosan – que
possivelmente propicia o desenvolvimento de resistência aos antibióticos –,
acrescente alguns Staphylococcus aureus, espere alguns dias, e o que você obtém?
Uma fábrica móvel de SARM completa, que já tem até um mecanismo de
dispersão eficaz.
E tem mais... Quando o triclosan se combina com a água clorada da torneira,
se converte no agente incapacitante favorito dos escritores de romances policiais,
que além de tudo é um composto cancerígeno: o clorofórmio. Espere pela
proibição se quiser ou, se preferir, leia sempre o rótulo.
Porém é importante lavar as mãos – com sabonete normal e água morna por
quinze segundos. Essa é a base da saúde pública e comprovadamente faz toda a
diferença quando se trata de impedir a transmissão de infecções, sobretudo as
gastrointestinais. Mas além de remover micróbios “temporários” – os não
residentes com que você entra em contato no ambiente –, esse hábito de higiene
também acaba com a microbiota das suas mãos. O intrigante é que diferentes
espécies têm uma capacidade diferente de resistir à lavagem ou se recuperar logo
depois. Membros dos gêneros estafilococos ou estreptococos, por exemplo, estão
em maioria imediatamente após a lavagem das mãos, mas gradualmente se
tornam menos dominantes entre as lavagens.
Digo que isso é intrigante porque traz à lembrança o transtorno obsessivo-
compulsivo. Em uma das manifestações desse distúrbio de ansiedade, as vítimas
se sentem contaminadas por germes e desenvolvem “obsessões” com limpeza e a
“compulsão” por lavar as mãos. As causas dessa afecção estranha, que ameaça a
qualidade de vida das pessoas afetadas, são difíceis de detectar, apesar das
diversas teorias. Um conjunto de pistas aponta para uma origem microbiana.
Quando a Primeira Guerra Mundial chegou ao fim, uma doença misteriosa
se espalhou pela Europa. No inverno de 1918, já havia alcançado os Estados
Unidos e, no ano seguinte, o Canadá. Nos anos seguintes, a doença varreu o
globo, atingindo Índia, Rússia, Austrália e América do Sul. A pandemia persistiu
por uma década inteira. Conhecida como encefalite letárgica, seus sintomas
incluíam letargia extrema, dores de cabeça e movimentos involuntários, um
pouco como no mal de Parkinson. Com frequência, a doença se manifestava
como um distúrbio psiquiátrico – muitas vítimas se tornavam psicóticas,
deprimidas ou hipersexualizadas. Entre 20% e 40% das vítimas morreram.
Muitos sobreviventes da pandemia de encefalite letárgica não se recuperaram
por completo, ficando com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) como
sequela. De repente, um distúrbio comportamental raro estava se espalhando
como se fosse uma infecção. Os médicos da época discutiam se a doença tinha
uma origem freudiana ou “orgânica”, mas seriam necessários setenta anos até
que a verdadeira causa fosse descoberta.
Na década de 2000, dois neurologistas britânicos se interessaram pela causa
da encefalite letárgica. O Dr. Andrew Church e o Dr. Russell Dale haviam tratado
um grupo de pacientes cujos sintomas se enquadravam no perfil dessa estranha
doença. A notícia se espalhou pela comunidade médica, e seus colegas passaram
a encaminhar casos semelhantes para Dale, até que ele tivesse vinte pacientes
diagnosticados com uma doença que supostamente havia desaparecido décadas
antes. Junto com Church, ele se pôs a buscar semelhanças entre os pacientes,
esperando encontrar pistas que os levassem a uma causa e, com sorte, a algum
tratamento. Felizmente, havia um padrão: muitos desses pacientes haviam
sofrido de infecção na garganta na fase aguda da doença.
Inflamações de garganta com frequência são causadas por bactérias do
gênero Streptococcus. Church e Dale acharam que essa espécie podia ser a
culpada. Ao examinarem os pacientes, descobriram que todos os vinte haviam
sido infectados por estreptococos, conforme esperavam. Em vez de se aquietarem
após algumas semanas, os estreptococos tinham desencadeado uma reação
autoimune que atacou um grupo de células no cérebro conhecidas como gânglios
basais. Como resultado, o que normalmente seria uma infecção respiratória se
transformou em distúrbio neuropsiquiátrico.
Os gânglios basais estão envolvidos na “seleção da ação”. Essa parte do
cérebro nos ajuda a decidir qual ação dentre várias possíveis devemos escolher
realizar. Eles parecem ser capazes de subconscientemente aprender quais ações
nos trarão uma recompensa: você deve frear ou acelerar? Deve pegar a xícara de chá ou coçar a cabeça? Continuar apostando ou desistir? Quanto maior sua
prática nessas coisas, de mais informações seus gânglios basais dispõem para
selecionar entre as alternativas que ocorrem à sua mente consciente.
Mas se essas células cerebrais são atacadas, o processo de seleção da ação se
complica. Os músculos, que deveriam seguir as instruções do cérebro de
imediato, parecem receber várias ordens diferentes, e, em vez de ações decisivas e
tranquilas, produzem tremores como o sintoma do Parkinson. As rotinas
também ficam prejudicadas: acender a luz, trancar a porta, lavar as mãos. Isso
leva a uma possibilidade intrigante para as vítimas de TOC que
compulsivamente lavam as mãos. Eu já mencionei que alguns grupos de
bactérias se tornam mais abundantes após a lavagem das mãos, talvez porque
aproveitem a oportunidade de florescer na ausência de seus colegas mais
vulneráveis. Entre eles estão os estreptococos. Não há nenhuma explicação
definitiva, mas talvez esses patógenos oportunistas ganhem terreno nas mãos e
no intestino de tal forma que, após uma boa lavagem das mãos, conseguem
persuadir o hospedeiro – por meio dos gânglios basais que reforçam hábitos e
oferecem recompensas – a não pararem de lavá-las.
Talvez não seja nenhuma surpresa que uma série de “distúrbios mentais” –
mais apropriadamente denominados distúrbios neuropsiquiátricos – estejam
ligados à disfunção dos gânglios basais e à presença de estreptococos. Pense nos
tiques vocais e físicos da síndrome de Tourette, que podem ser o resultado da
incapacidade dos gânglios basais de suprimir a ideia de uma travessura da mente
consciente. A infecção por estreptococos desempenha um papel nessa síndrome.
Crianças que sofreram várias infecções de uma cepa particularmente
desagradável de estreptococo no último ano têm uma chance quatorze vezes
maior de desenvolverem esse distúrbio. O mal de Parkinson, o TDAH e
transtornos de ansiedade também estão ligados aos estreptococos e a danos aos
gânglios basais.
Não estou sugerindo que, para evitar o domínio do estreptococo, não
devamos lavar as mãos. Um resultado bem pior seria transmitir micróbios
comuns dos lugares a que pertencem (as fezes, por exemplo) para lugares a que
não pertencem (boca ou olhos). Não se sabe se o sabonete antibacteriano piora o
domínio temporário de estreptococos nas mãos, mas, como um oportunista
tenaz acostumado a resistir ao ataque de outros micro-organismos, é bem
possível que tenha sido mais rápido em desenvolver resistência aos
antibacterianos do que os micróbios benéficos da pele. Existe, porém, uma
ocasião em que usar substâncias químicas para matar bactérias parece válido e eficaz – que é esfregar álcool nas mãos. O álcool destrói os micro-organismos
num nível tão fundamental que eles parecem não conseguir desenvolver
resistência. Além disso, pode ser eficaz contra cepas resistentes aos antibióticos,
como o SARM, e ser aplicado de maneira rápida e fácil tanto por profissionais de
saúde quanto por pessoas comuns.
Enquanto está ocupado conferindo todos os rótulos de seus produtos de
higiene pessoal, talvez você se impressione com o número de substâncias
químicas de que nunca ouviu falar que parecem necessárias para fazê-lo se sentir
limpo e cheiroso. Claro que sua pele cuidaria de si, mesmo sem gel para banho,
hidratantes e desodorantes. Se perambular por florestas tropicais ensina algo, é
que quem cheira mal são os forasteiros, que se lavam uma vez por dia e se
cobrem de antitranspirantes – não as pessoas locais. Embora não se lavem com
frequência e nunca usem desodorantes nem loções de limpeza, os povos tribais
que moram nos lugares mais rudimentares não sofrem de mau odor corporal.
Gita Kasthala, antropóloga e zoóloga que trabalha em áreas remotas de Papua
Ocidental e da África Oriental, observou que os habitantes de sociedades tribais
podem ser divididos em três grupos quando se trata da higiene pessoal. No
primeiro grupo estão aqueles que tiveram pouquíssimo contato com a cultura
ocidental. “Essas pessoas costumam incorporar a higiene pessoal a outras
atividades, digamos, quando vão pescar. Mas não usam sabonete, e muitos dos
tecidos que usam para se cobrir são naturais”, diz ela. O segundo grupo é
formado por pessoas de aldeias remotas que foram expostas à cultura ocidental
até certo ponto – muitas vezes por missionários religiosos – e tendem a usar
trajes ocidentais, em geral tecidos sintéticos de segunda mão dos anos 1980. “Este
grupo costuma ter um odor incrivelmente forte. Eles se lavam de vez em quando,
e usam sabonete, mas têm pouca compreensão de por que se lavar e usar roupas.
Apenas sabem que em certo momento isso deve ser feito, seja uma vez por
semana, por mês ou mais raramente.” O grupo final mergulhou na cultura
ocidental, talvez trabalhando numa base petrolífera ou para alguma madeireira, e
se lava diariamente com cosméticos. “Esse grupo não costuma ter cheiro, a não
ser que faça um trabalho pesado ou o dia esteja muito quente”, Kasthala explica.
“Mas o primeiro grupo, que nunca usa sabão, nunca fede, nem mesmo quando
faz um trabalho pesado.”
Então por que a maioria das pessoas nas sociedades urbanas fica malcheirosa
e sebenta após um ou dois dias sem se lavar, a ponto de se tornar socialmente
inaceitável, enquanto aquelas que vivem sem sabão nem água quente nos
trópicos conseguem permanecer limpas?
De acordo com a recém-criada empresa chamada AOBiome, a resposta está
num grupo bem sensível de micróbios. Seu fundador, David Whitlock, era
engenheiro químico e estudava os micro-organismos encontrados no solo. Ao
coletar amostras de solo de um estábulo em 2001, alguém lhe perguntou por que
os cavalos adoravam rolar na terra. Ele não sabia a resposta, mas a questão o
intrigou. Whitlock sabia que o solo e as fontes de água natural continham muitas
bactérias oxidantes de amônia (BOAs). Ele também sabia que o suor contém
amônia, e se perguntou se os cavalos e outros animais usavam as BOAs do solo
para controlar o nível de amônia na pele.
A maior parte do cheiro do suor humano não vem dos líquidos ricos em
amônia liberados por nossas glândulas écrinas, mas das glândulas apócrinas – ou
glândulas do odor. Confinadas às axilas e à virilha, elas são de natureza sexual e
só se tornam ativas na puberdade. Os cheiros que passam a produzir agem como
feromônios, informando ao sexo oposto sobre nosso estado de saúde e
fertilidade. Mas o suor liberado pelas glândulas apócrinas também não tem
cheiro – que só aparece quando os micróbios da pele entram em ação e o
convertem em toda uma série de compostos químicos voláteis fedorentos. Os
exatos odores produzidos dependem da composição da comunidade de micro-
organismos que você abriga.
Ao nos lavarmos e aplicarmos desodorantes, que tendem a funcionar
removendo ou mascarando as bactérias produtoras de odor, alteramos a
microbiota da pele. As BOAs são um grupo de bactérias particularmente
sensível, além de serem lentas na hora de restabelecer sua população, sendo
portanto as mais afetadas pelo furacão de substâncias químicas com que as
bombardeamos todos os dias. De acordo com Whitlock, o problema é que, sem
BOAs, a amônia que liberamos no suor não é convertida em nitrito e óxido
nítrico, substâncias que desempenham um papel fundamental não apenas na
regulação do funcionamento das células humanas, mas também no controle dos
micróbios da pele. Sem óxido nítrico, a população de corinebactérias e
estafilococos que se alimentam de nosso suor pode crescer descontroladamente.
Mudanças na quantidade de corinebactérias em particular parecem ser
responsáveis pelo mau cheiro corporal que tanto nos esforçamos por evitar.
O paradoxo é que, ao nos lavarmos com substâncias químicas e usarmos
desodorantes para garantir um cheiro agradável, desencadeamos um círculo
vicioso. O sabonete e o desodorante matam nossas BOAs. A ausência de BOAs
significa desequilíbrio de nossas outras bactérias da pele. A composição alterada
da microbiota faz com que nosso suor fique com mau cheiro. Assim, precisamos usar sabonete para limpar essa bagunça e desodorante para mascarar o odor. O
que a AOBiome sugere é que repor nossas BOAs poderia romper esse ciclo sem
fim.
Claro que você poderia conseguir isso rolando na lama ou nadando
diariamente em alguma fonte de água não tratada nem poluída (se conseguir
achá-la), mas o que Whitlock e o resto de sua equipe na AOBiome propõem é
que você se borrife diariamente com a Névoa Cosmética Refrescante AO+. A
aparência, o cheiro e o sabor são de água, mas esse produto contém
Nitrosomonas eutropha vivas – BOAs cultivadas do solo. No momento, o AO+ é
vendido como cosmético – portanto a AOBiome não tem obrigação de provar
sua eficácia, apesar de esse ser seu próximo objetivo. Mas no teste piloto, a
aparência, a maciez e a firmeza da pele de voluntários melhoraram em
comparação com aqueles que usaram um placebo.
Embora as pessoas que não se lavam não tenham o cheirinho de flores ou
sabonete que passamos a apreciar em nossa pele, muitos dos voluntários no teste
do AO+ acharam seu cheiro natural igualmente bom – até para as outras
pessoas. David Whitlock, fundador da AOBiome, deixou de se lavar doze anos
atrás e nos assegura de que não fede. Muitos outros membros da equipe da
AOBiome também reduziram o uso de sabonetes e desodorantes, e a maioria se
lava poucas vezes por semana ou mesmo poucas vezes ao ano.
A ideia de não se lavar com sabonete – ou ao menos de fazê-lo com menos
frequência – provavelmente parecerá repugnante à maioria das pessoas. Na
verdade, parece surreal que, por ser um hábito tão entranhado em nossa cultura,
seja quase um tabu admitir não usar sabonete todos os dias. É provável que seja
bem mais surreal que, após não nos lavarmos com sabonete por 250 mil anos da
história da nossa espécie, agora tenhamos que depender tanto de uma ducha e
um sabonete a ponto de não conseguir imaginar a vida sem eles.
Assim como os antibióticos, os bactericidas têm seu lugar. Mas esse lugar não
é o seu corpo. Já dispomos de um sistema de defesa contra micro-organismos:
chama-se sistema imunológico. Talvez seja bom tentar usá-lo.