10% Humano

Alanna Collen · Capítulo 11 de 16

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10% Humano

Conclusão

 

A saúde no século XXI

 

Em 1917, o Rei George V, do Reino Unido, enviou telegramas a sete homens e

dezessete mulheres em reconhecimento e celebração de seu centésimo

aniversário. Assim começou uma tradição que dura até hoje, mas é a neta do Rei

George quem assina os cartões. Porém a Casa Real tem mais trabalho agora, pois

a Rainha Elizabeth II precisa assinar mais cartões de aniversário para centenários

por dia do que seu avô assinava por ano. Hoje o número de cidadãos no Reino

Unido que chegam à idade avançada de cem anos deixou de contar com dois

dígitos e atinge a marca de 10 mil pessoas.

No século XX, nossa espécie encontrou os meios para controlar nosso mais

velho e temido adversário. Com o advento das vacinações, das práticas médicas

higiênicas, do saneamento da água e dos antibióticos, estendemos nossa

expectativa de vida, que antes era de, em média, 31 anos. No mundo

desenvolvido, onde essas quatro inovações estão mais amplamente disponíveis, o

tempo de vida médio hoje se aproxima dos oitenta anos. Grande parte das

mudanças que adiaram nossa morte se concentrou num período de uns

cinquenta anos, da década final do século XIX ao fim da Segunda Guerra

Mundial.

Agora, no século XXI, estamos começando um novo capítulo na atenção à

saúde de nossa espécie. Viver muitos anos – como é costume no mundo

ocidental – não é o único indicador de saúde. Mesmo quem chega aos 80 ou mais

tem que conviver com a qualidade de vida que sua saúde física e mental permite.

Para criancinhas aprisionadas no tormento do autismo, para os milhões de

crianças sofrendo de irritações de pele, febre do feno, alergias alimentares e asma,

para adolescentes que recebem a notícia de que terão que tomar injeções de

insulina pelo resto da vida, para jovens adultos enfrentando a destruição

progressiva de seu sistema nervoso e para os muitos milhões que estão com excesso de peso e sofrem de depressão e ansiedade, sua qualidade de vida é pior

do que deveria.

A boa notícia é que, no mundo desenvolvido, já não temos que enfrentar a

varíola, a pólio ou o sarampo – fato que representa um grande salto à frente. Mas

as doenças do século XXI de que sofremos em lugar daquelas não são uma

alternativa necessária, como implicava a hipótese higiênica original. Nossa busca

por uma vida mais longa se transformou na busca por mais qualidade de vida. O

dogma da hipótese higiênica e seu princípio central que defende que as infecções

nos protegem de alergias e outros distúrbios inflamatórios precisam ser postos de

lado na mente do grande público e da comunidade médica. Não é das infecções

que estamos sentindo falta, mas dos Velhos Amigos. Agora sabemos que o

apêndice, antes considerado um vestígio inútil de nosso passado evolutivo, é na

verdade um refúgio microbiano, responsável por “educar” o sistema

imunológico do corpo. A apendicite, longe de ser um aspecto inevitável da vida,

é a consequência da perda de diversidade de nossa comunidade microbiana – dos

Velhos Amigos que deveriam protegê-lo de patógenos invasores. Está ao nosso

alcance redespertar essas antigas amizades, as mais velhas que nosso corpo

conhece.

No capítulo 1, adotei uma abordagem epidemiológica para tentar desvendar

a causa das doenças do século XXI, indagando onde ocorriam, quem afetavam e

quando começaram. As respostas a essas perguntas refletiram as mudanças em

nosso modo de vida proporcionadas pela riqueza e a engenhosidade do mundo

desenvolvido, onde tomamos antibióticos para tudo, do resfriado mais simples às

piores infecções. Onde a agroindústria depende desses mesmos medicamentos

para turbinar o crescimento de seus animais e permitir que quantidades enormes

de indivíduos geneticamente semelhantes fiquem apinhados em espaços

pequenos e, mesmo assim, resistam às doenças. Onde nossa ingestão de fibras é a

menor de que se tem registro. Onde, em vez de nascerem de maneira natural,

tantas crianças são cirurgicamente removidas do nosso corpo. E onde milênios

de leite materno foram abandonados a favor da fórmula infantil.

Essas mudanças se concentraram na década de 1940, quando os antibióticos

se tornaram disponíveis, o fim da Segunda Guerra Mundial transformou nossa

alimentação e as cesarianas e as mamadeiras se popularizaram. O que estava

invisível até agora era o impacto dessas mudanças no nível microscópico.

Milhares de gerações de evolução conjunta e cooperação com nossos parceiros

simbióticos chegaram a um fim involuntário no dia em que declaramos guerra

aos micróbios.

As doenças do século XXI afetam todos nós, de recém-nascidos a idosos,

tanto homens quanto mulheres de todas as etnias. As mulheres enfrentam o

impacto de muitas delas, sobretudo as doenças autoimunes, embora nunca tenha

ficado claro por quê. Um belo experimento mostra que mesmo essa diferença

entre os sexos está ligada à microbiota. Numa raça de camundongos

geneticamente propensa a contrair diabetes tipo 1 conhecida como

camundongos diabéticos não obesos (CDNOs), as fêmeas têm o dobro de chance

de desenvolver a doença. Essa diferença entre os sexos deve estar ligada ao

impacto dos hormônios no sistema imunológico. Castrar camundongos machos

deixa-os mais vulneráveis, por exemplo. Mas em CDNOs criados livres de

germes, a diferença entre os sexos desaparece. A microbiota parece controlar o

risco da doença. Transferir a microbiota de camundongos machos para fêmeas

protege-as de desenvolver diabetes, aparentemente por elevar seus níveis de

testosterona. Mas essas diferenças específicas aos sexos só são evidentes após a

puberdade, o que explica por que a diabetes tipo 1 nos seres humanos não tem

diferença entre os sexos, já que tende a se desenvolver antes desse período. Em

outras doenças autoimunes, como esclerose múltipla e artrite reumatoide, a

disparidade entre mulheres e homens declina quanto mais tarde na vida a doença

aparece.

Depois de onde, quem e quando, passei a perguntar por que e como as

doenças do século XXI surgiram. Resumindo: nós danificamos nossa microbiota.

Em termos simples, o desequilíbrio de nossas comunidades microbianas – em

particular as do intestino – causa inflamação, e inflamação causa doença crônica.

Esperávamos que o genoma humano se mostrasse uma mina de informações

sobre as causas dos nossos problemas de saúde, mas a pesquisa de nossos genes

revelou menos doenças determinadas pelos genes do que havíamos previsto. Pelo

contrário, estudos de associação ampla do genoma só revelaram genes que

afetam nossa predisposição a diferentes doenças. Essas variantes genéticas não

são necessariamente erros, mas variações naturais que sob circunstâncias

normais poderiam não levar a problemas de saúde. Mas num ambiente particular

as diferenças genéticas podem tornar algumas pessoas mais propensas do que

outras a desenvolverem uma doença específica. Foi revelador descobrir que

muitas das variantes genéticas associadas às doenças do século XXI dizem

respeito a genes ligados à permeabilidade da mucosa intestinal e à regulação do

sistema imunológico.

Em 1900, as três principais causas de morte no mundo desenvolvido,

ceifando a vida de um terço das pessoas, foram pneumonia, tuberculose e diarreia infecciosa. A expectativa média de vida era de aproximadamente 47

anos. Em 2005, as três principais causas de morte, tirando a vida de metade das

pessoas, foram doença cardíaca, câncer e derrame. A expectativa média de vida

estava em torno de 78 anos. Gostamos de pensar que essas são doenças típicas da

velhice, uma consequência inevitável de viver mais. Mas as pessoas que moram

em partes não ocidentalizadas do mundo, que sobreviveram às doenças

infecciosas, a acidentes e à violência e chegaram à idade avançada, não tendem a

morrer devido a essas três grandes categorias de doenças. O que estamos

percebendo agora é que o coração não enrijece, as células não se multiplicam

descontroladamente nem os vasos sanguíneos estouram só porque estão velhos.

A visão emergente entre os cientistas médicos é que não se trata de doenças

próprias da velhice, mas de uma consequência da inflamação crônica. Se existe

um efeito da idade avançada, é que os insultos modernos que lançamos contra o

nosso corpo tiveram o tempo necessário para gerar inflamação até o ponto da

catástrofe. Se este é o caso, é possível termos uma velhice maravilhosa, sem

décadas de inflamação acumulada.

Assim como a decodificação do genoma humano deu início a uma nova era

da biologia, o reconhecimento da microbiota como um órgão oculto anunciou

uma nova era na medicina. As doenças do século XXI trouxeram novos desafios

para pacientes que chegaram a uma idade avançada, médicos que desejam

oferecer cura e empresas farmacêuticas que estão criando drogas para consumo

crônico. As terapias convencionais estão num beco sem saída no que tange a

muitos distúrbios que nos afligem hoje. Tratamos a longo prazo, em vez de

encontrarmos uma solução abrangente: anti-histamínicos para alergias, insulina

para diabetes, estatinas para doença cardíaca e antidepressivos para doenças

mentais. A busca pela cura desses distúrbios crônicos nos desconcerta – porque

até recentemente não éramos capazes nem de localizar sua causa. Agora, com o

reconhecimento de que a microbiota não é um mero espectador no

funcionamento de nosso corpo, mas um participante ativo, temos uma nova

oportunidade de enfrentar as doenças do século XXI em sua origem.

 

Então o que devemos fazer? O relacionamento com nossos micróbios está sendo

ameaçado por três fatores: nosso consumo de antibióticos, a falta de fibras em

nossa alimentação e as mudanças na maneira como semeamos e cultivamos a

microbiota de nossos bebês. Podemos mudar cada um deles em termos coletivos

e individuais.

Mudanças sociais

 

O princípio central da ética médica é “Não prejudique”. Cada tratamento traz

o risco de efeitos colaterais indesejados, e os médicos precisam pesar esses riscos

em relação aos benefícios do medicamento. Até agora, as consequências

indesejadas do consumo de antibióticos eram vistas como pequenas e

insignificantes. Ao reconhecermos a importância da microbiota para a saúde

humana, precisamos aceitar também que tomar antibióticos às vezes pode fazer

mais mal do que bem. Mesmo quando tratam com sucesso alguma infecção,

podem causar danos que deveríamos evitar. Já temos um bom motivo para

reduzir o consumo de antibióticos: a questão da resistência. Apesar desse risco, o

problema não tem se mostrando suficientemente preocupante para persuadir

médicos e pacientes a fazerem esforços significativos para reduzi-lo. Mas, se

levarmos em conta as consequências profundamente pessoais do dano colateral à

microbiota, talvez possamos passar a tratar os antibióticos como tratamos a

quimioterapia: um conjunto de medicamentos com graves consequências para as

células saudáveis, a que só devemos recorrer quando os benefícios superem os

custos.

A sociedade pode tomar algumas providências para reduzir a dependência

dos antibióticos e o impacto desses medicamentos quando não houver

alternativa. Sabemos que os médicos os receitam em excesso, mesmo quando é

provável que a doença do paciente seja viral, não bacteriana. O problema é que,

em geral, um médico não tem como dizer quais pacientes estão doentes devido a

um vírus e quais devido a uma bactéria. Na situação atual, descobrir o patógeno

causador de uma infecção qualquer envolve enviar amostras para exame ou

cultura e esperar vários dias pelo resultado. Para muitos pacientes – e muitas

infecções –, isso é demorado demais. Portanto, o primeiro passo na redução do

consumo desnecessário de antibióticos seria desenvolver biomarcadores rápidos,

capazes de identificar a fonte de uma infecção em questão de minutos ou horas, a

partir de amostras de coleta fácil, como fezes, urina, sangue ou mesmo o hálito.

Atualmente, o fato de muitos antibióticos serem de amplo espectro é visto

como uma vantagem. Os médicos nem sequer precisam saber qual espécie

bacteriana é a responsável por uma infecção para poder tratá-la – é provável que

uma droga de amplo espectro já seja eficaz. Mas, num mundo ideal, seríamos

capazes de identificar depressa a bactéria por trás de uma infecção para poder

atacá-la usando um antibiótico preciso. Descobrindo moléculas específicas a

cada patógeno, poderíamos criar antibióticos que destruíssem somente aquele patógeno, poupando a microbiota benéfica que normalmente sofreria com os

danos colaterais. Justificar a despesa extra de desenvolver tais medicamentos –

um para cada patógeno – dependeria de uma mudança: deixaremos de pagar

mais à frente pelas consequências dos danos colaterais para pagar logo no início

por uma cura menos arriscada para as infecções.

Reconhecer a importância da microbiota não se resume à redução no

consumo de antibióticos. Poderíamos aproveitar alguns micróbios benéficos

como aliados na luta contra patógenos. Ao resistir à colonização por patógenos

como Staph. aureus, C. diff e Salmonella, nossa microbiota nos presta um grande

favor. Estimular suas defesas com o uso de probióticos melhores nos ajudaria a

combater infecções e reduzir inflamações.

Entender e manipular a microbiota de um indivíduo para melhorar os

resultados dos medicamentos seria o próximo passo na medicina personalizada.

O remédio digoxina, para problemas cardíacos, por exemplo, necessita de uma

abordagem individual. No momento, os médicos precisam fazer um jogo de

adivinhação para decidir que dose prescrever aos pacientes. Durante semanas ou

meses, precisam ajustar a dosagem de cada paciente tratado, equilibrando custo e

benefício. A variação na reação do paciente não se deve a diferenças genéticas,

mas à composição de sua flora intestinal. Pacientes que abrigam uma única cepa

da bactéria Eggerthella lenta reagem mal à digoxina, porque esse micróbio

comum do intestino desativa o medicamento, tornando-o ineficaz. Se os

cardiologistas soubessem quais pacientes portam E. lenta, poderiam recomendar

a eles o aumento da ingestão de proteína, já que o aminoácido arginina impede a

desativação da digoxina por essa bactéria.

As reações aos medicamentos estão longe de serem previsíveis. Os

4,4 milhões de genes extras da microbiota, em parte herdados e em parte

adquiridos, desempenham um papel importante na reação de um indivíduo a

uma medicação. Os micróbios conseguem ativar, desativar os remédios ou torná-

los tóxicos. Em 1993, a interferência do microbioma a tratamentos custou caro a

dezoito pacientes japoneses que haviam desenvolvido herpes-zóster enquanto

sofriam de câncer. Sua flora intestinal normal havia transformado o

medicamento contra herpes-zóster num composto químico que tornava seu

tratamento anticâncer letalmente tóxico. Os perigos da interação já eram

conhecidos quando o remédio contra herpes-zóster foi aprovado, e o rótulo dele

trazia uma advertência contra sua ingestão junto com remédios anticâncer.

Infelizmente, na época, os médicos japoneses costumavam não revelar o diagnóstico de câncer a seus pacientes e prescreviam remédios sem grandes

explicações.

É fácil imaginar que poderíamos começar o sequenciamento genético dos

micróbios dos pacientes, não apenas para ajudar no diagnóstico, mas também

para assegurar que recebam a medicação mais apropriada nas doses corretas.

Manipular a microbiota pelo acréscimo ou remoção de espécies específicas

poderia ajudar a reduzir os efeitos colaterais, melhorar os resultados e garantir a

segurança. Como o sequenciamento do DNA está ficando cada vez mais barato,

a ideia de que poderíamos monitorar o microbioma para avaliar os riscos à saúde

e mapear melhorias torna-se cada vez mais realista.

Nosso abuso dos antibióticos estende-se à agropecuária. Na União Europeia,

os fazendeiros não estão mais autorizados a usar antibióticos com o único intuito

de promover o crescimento do rebanho, mas acabam simplesmente utilizando-os

como “tratamento”. Os Estados Unidos estão bem atrás no que diz respeito à

proibição do uso de antibióticos para promover o crescimento, embora o Food

and Drug Administration tenha anunciado sua intenção de limitar seu uso. Não

são apenas os produtos animais que são afetados pelo uso de antibióticos, já que

o esterco contaminado por essas drogas pode ser usado legalmente para fertilizar

mesmo horticulturas orgânicas. No final, a agropecuária sem antibióticos (nem

pesticidas, hormônios ou outros medicamentos cuja segurança é questionável em

seres humanos) custará mais, mas onde você prefere pagar: no caixa do

supermercado ou dia após dia, com problemas de saúde, custos médicos extras e

altos impostos para manter os serviços de cuidado à saúde funcionando?

 

Quando se trata de nossa alimentação, estamos cercados de controvérsias. O que

é pior: manteiga ou óleo? Quantas calorias diárias deveríamos ingerir? Nozes

fazem bem ou mal? Devemos reduzir os carboidratos ou as gorduras se

queremos perder peso? Nem mesmo os especialistas conseguem concordar nas

respostas a essas perguntas, mas será difícil achar algum que diga que não

deveríamos comer mais fibras.

Na Grã-Bretanha, foi lançada a campanha Five-a-Day, para fazer com que as

pessoas comam ao menos cinco porções de frutas e verduras por dia, em 2003.

Ela agora está tão entranhada na consciência dos britânicos que as pessoas

brincam quando falam sobre vinho, geleia e doces com sabor de fruta,

chamando-os de “um dos meus cinco por dia”. Na Austrália, a mensagem de

saúde pública é “Go for 2&5”, ou seja, duas porções de frutas e cinco de legumes.

Parece que essas mensagens tiveram algum impacto sobre os hábitos alimentares das pessoas, mas o problema é que o foco tem recaído sobre vitaminas e

minerais, não sobre as fibras. Assim, os fabricantes de alimentos aproveitam a

oportunidade para divulgar seus produtos, alimentos diferentes como purê de

tomate e suco de fruta obtiveram o selo de aprovação como contribuintes para

essa quota. As frutas, muitas vezes em forma de suco ou passadas no

liquidificador, recebem mais atenção que os legumes, e outros alimentos vegetais

como cereais, sementes e nozes são totalmente ignorados. As fibras, ao que

parece, não ganharam o foco que deveriam. Uma mensagem melhor? Coma mais

plantas.

Talvez a maior dificuldade que enfrentamos coletivamente quando se trata de

alimentos seja o ritmo apressado da vida. A falta de tempo costuma ser

responsável pela falta de fibras. Quando o tempo de preparação é escasso, em

geral recorremos a refeições congeladas que não se destacam pelo alto teor de

legumes, requentadas às pressas em algum micro-ondas. Mesmo as frutas são

embaladas para a conveniência e rapidez – transformadas em suco ou passadas

no liquidificador e depois engarrafadas –, eliminando a necessidade de descascar

e cortar. Para uma cultura tão focada na comida, dedicamos muito pouco esforço

ao ato de comer.

 

Finalmente, chegamos aos bebês. Nos últimos cem anos, fizemos grandes

avanços nos cuidados pré-natais e na redução na mortalidade infantil, sobretudo

de bebês prematuros. E, após décadas de uma alimentação focada na mamadeira,

avançamos bastante, ao menos nos países desenvolvidos, para restabelecer o leite

materno como o principal alimento para os lactentes. Mas em outros sentidos

estamos retrocedendo. Depositamos muita confiança na ciência e na medicina, e

damos um valor enorme à liberdade de escolha. Como resultado, em muitas

cidades, as cesarianas são mais comuns do que os partos normais. Deveríamos

ser cuidadosos com essa intervenção: há pouca pesquisa sobre os impactos à

saúde das mulheres e crianças, particularmente em circunstâncias de “boa

saúde”, como durante a gravidez, o trabalho de parto e o nascimento.

Obstetras e parteiras precisam conhecer as consequências microbianas das

cesarianas e das fórmulas infantis – e as mães merecem conhecê-las. As técnicas

usadas para trazer os bebês ao mundo se baseiam em nosso conhecimento em

constante evolução do que é melhor para a mãe e o bebê. O resultado é que as

cesarianas demonstraram não ser tão seguras quanto julgávamos: a comunidade

microbiana alterada que um bebê recebe pode afetar sua saúde por dias, meses e

anos a fio.

A consequência é que transformamos uma geração inteira de crianças em

cobaias de um enorme experimento. O que acontece quando você retira bebês

cirurgicamente, muitas vezes dias ou semanas antes de estarem preparados para

nascer, em vez de deixar que eles determinem o momento certo de sua passagem

pelo canal vaginal? Micróbios à parte, o que acontece quando você priva um bebê

dos hormônios liberados durante o trabalho de parto ou da pressão de ser

empurrado para o mundo? O que acontece com o corpo de uma mãe quando ela

passa de grávida a não grávida pelo mero corte do bisturi de um cirurgião, em

vez das horas de preparação química e física do parto? Estamos apenas

começando a descobrir as respostas a essas perguntas. Em termos coletivos,

devemos reservar as cesarianas para bebês e mães que realmente precisem,

deixando a natureza seguir seu curso com os outros.

A geração anterior de crianças também serviu de cobaia em outro

experimento: o que acontece quando você alimenta os bebês com o leite da mãe

de um bezerro, em vez do seu próprio? Esse experimento persiste para cerca de

um quarto dos bebês nascidos nos países desenvolvidos atualmente. Claro que

existe um pequeno número de mulheres (segundo as estimativas, menos de 5%)

incapazes de produzir o leite necessário para satisfazer as necessidades de seus

bebês. Outras têm dificuldades reais em fazer a amamentação dar certo para si e

seu recém-nascido. Apoiar essas mulheres e fornecer alternativas de boa

qualidade ao leite materno direto do seio, seja por meio de leite extraído, leite

humano doado ou fórmula infantil, é crucial. Nossos conhecimentos crescentes

sobre os oligossacarídeos presentes no leite humano e os micróbios supridos pelo

leite materno são uma importante contribuição para o desenvolvimento de leites

em pó melhores, dando um verdadeiro apoio às mães incapazes de amamentar e

às que optam por não fazê-lo.

Se parteiras, obstetras e trabalhadores da área de saúde comunitária

estiverem atualizados sobre as mais recentes descobertas sobre leite materno,

poderão oferecer melhores conselhos e apoio aos pais no momento de avaliarem

as opções e equilibrarem as exigências da vida sobre eles e seus bebês.

 

Mudanças individuais

 

No mundo desenvolvido, temos a sorte de nossa saúde depender em grande

medida das escolhas que fazemos. Ao contrário dos genes que seus pais lhe

deram e das infecções a que o ambiente o expõe, você pode moldar, cultivar e

cuidar dos micróbios que abriga em seu corpo. Na idade adulta, a comida que você come e os medicamentos que toma determinam os micróbios que possui.

Trate-os bem que eles vão retribuir o favor. Se estiver planejando ter filhos, a

microbiota deles depende dos pais, especialmente se você vai ser mãe.

Sou a favor da liberdade de escolha – que ao mesmo tempo marca sua

presença e torna a liberdade possível. A escolha está no centro de uma sociedade

civilizada e capacita os indivíduos a melhorarem a própria vida. Mas não há

sentido em tomar decisões ignorando as informações disponíveis. As pesquisas

científicas dos últimos cinquenta anos sobre a microbiota revelaram uma nova

camada de complexidade e controle no corpo humano, oferecendo uma nova

visão sobre como nosso corpo – na verdade, um superorganismo – está

programado para funcionar. As opções que você faz com essas informações

cabem a você. Tudo o que sugiro é que você tome essas decisões de forma

consciente.

 

Estou defendendo que você assuma o controle consciente sobre sua alimentação.

Muitos de meus amigos médicos estão sobrecarregados e contam que uma

das maiores frustrações de seu dia a dia é a dificuldade em ajudar pacientes que

não querem se ajudar. O que com frequência gostariam de prescrever é um estilo

de vida ativo e uma dieta saudável – pobre em gorduras, açúcar e sal e rica em

fibras. Alguns pacientes não querem ouvir isso e simplesmente preferem resolver

seus problemas com remédios. Eles não entendem que a comida é um remédio.

Nós, os seres humanos, evoluímos para sermos onívoros. Nosso corpo espera

receber muitas plantas e um pouco de carne. Só que muitos de nós comemos um

monte de carne e umas poucas plantas – além de um montão de alimentos que

mal sabemos dizer se são de origem animal ou vegetal. Se você optar por

aumentar sua ingestão de fibras comendo mais alimentos vegetais, faça-o

devagar e de forma gradual, para dar à sua microbiota tempo de se adaptar. Uma

avalanche de fibras num intestino povoado por micróbios mais habituados a

uma dieta rica em gorduras, proteínas e carboidratos simples pode produzir

alguns efeitos indesejados. Lembre-se de que verduras, sementes e leguminosas

(ervilhas, feijões e assemelhados) tendem a conter mais fibra e menos açúcar do

que as frutas, e de que passá-las pelo liquidificador ou transformá-las em suco

pode reduzir o teor de fibra e aumentar o acesso a calorias digeríveis por enzimas

humanas que serão absorvidas no intestino delgado. Se você já sofre de algum

distúrbio gastrointestinal, fale com seu médico antes de mudar sua alimentação.

Ingerir alimentos de origem vegetal que estimulem um equilíbrio microbiano

benéfico será a base para uma boa saúde. Faça a escolha consciente de comer mais plantas.

 

Defendo que você tome uma decisão consciente sobre o uso de antibióticos.

Vou ser clara: os antibióticos são medicamentos capazes de salvar vidas e, em

muitas situações, seus benefícios ultrapassam seus riscos. Sim, precisamos levar a

microbiota em consideração em nossas escolhas sobre quando tomar

antibióticos, mas, sem eles, não poderíamos sequer nos dar ao luxo de cuidar de

nossos micróbios benéficos. A questão não é que os antibióticos sejam “ruins” –

eles são uma arma crucial em nosso arsenal contra bactérias patogênicas. Só não

precisamos usar granadas para matar uma barata.

Os médicos não são os únicos que devem ser responsabilizados pelo uso

excessivo de antibióticos. Com frequência, um clínico geral atenderá até vinte

pacientes antes de conseguir fazer uma pausa para o almoço. Com menos de dez

minutos para ouvir um relato, fazer um diagnóstico, aconselhar o paciente

preocupado e prescrever um remédio adequado, o médico muitas vezes acaba

receitando ao paciente insistente o que ele deseja apenas para conseguir passar

para a próxima consulta, igualmente importante, de dez minutos. Faça uma

escolha consciente: você quer ser esse paciente insistente?

Existem alguns passos para ajudá-lo a decidir se precisa de antibióticos.

Primeiro, considere esperar um ou dois dias para ver se seus sintomas melhoram.

Observe que eu disse considere – use o bom senso. Segundo, se seu médico

oferecer antibióticos, sugiro que faça estas perguntas a ele:

 

1. Com que grau de certeza você pode afirmar que esta infecção é bacteriana,

não viral?

2. Os antibióticos vão me deixar muito melhor ou farão com que minha

recuperação seja mais rápida?

3. Quais os riscos de não tomar o antibiótico e deixar meu sistema

imunológico combater a infecção por conta própria?

 

Com frequência não há uma resposta clara sobre qual alternativa deveríamos

escolher quando se trata de tomar antibióticos, mas tome uma decisão

consciente, sabendo que os antibióticos tanto podem fazer mal quanto ajudar.

Avaliar se os benefícios superam os custos é a função de um paciente informado

que vai se consultar com um médico igualmente informado.

Por fim, se o tratamento de sua doença pode incluir uma boa dieta capaz de

ajudar sua microbiota, pense em adotá-la. Isso sempre será uma boa base para melhorar sua saúde. Lembre-se de que não se trata de uma ciência exata. A

constituição de sua microbiota, sozinha, não é capaz (ao menos por enquanto) de

revelar quais doenças você pode ter.

Quer opte por tomar antibióticos ou não, faça sua escolha de maneira

consciente.

 

Defendo que você faça uma escolha consciente sobre como vai dar à luz e

alimentar seu bebê.

Recebemos tantas informações e conselhos sobre gravidez e criação dos filhos

hoje em dia que às vezes temos a sensação de que nossos instintos naturais foram

sufocados. A boa notícia é que nossa compreensão cada vez maior da microbiota

nos fornece uma base direta para tomarmos decisões quanto ao que é melhor

para nossos filhos: se tudo correr bem, fique com o que é natural. Se não correr

bem, cesarianas e mamadeiras estão aí para ajudar.

O melhor é estar preparado e atento. Faça uma escolha consciente sobre

como vai dar à luz, criando um plano de nascimento que inclua dotar seu bebê

com as sementes de uma microbiota saudável. A melhor forma de fazê-lo é por

meio de um parto normal. Se optar pela cesariana ou ela for inevitável, pense em

adotar as técnicas de transferência microbiana de Maria Gloria Dominguez-

Bello. Compartilhe seu plano com seu parceiro, seu médico e sua parteira.

Tome uma decisão consciente sobre como vai alimentar seu bebê, lembrando

que o leite materno fortalece as sementes de microbiota que ele recebeu durante

o nascimento. Se quiser amamentar, acumule conhecimentos, apoio e

determinação antecipadamente – várias dicas podem ser encontradas na

internet, inclusive no site da Organização Mundial da Saúde, que oferece, junto

com informações e conselhos, recomendações para a duração ideal da

amamentação que vai determinar a saúde e a felicidade dos bebês. Mas não se

desespere se não funcionar – existem várias maneiras de cultivar a microbiota de

seu filho.

Há mais boas notícias para você e sua prole. Podemos relaxar quanto aos

“germes”. A maioria dos micróbios que os bebês encontram no dia a dia não lhe

farão mal. Na verdade, vão contribuir para uma microbiota diversificada e ajudar

a educar o sistema imunológico das crianças. Usar sprays, sabonetes e lenços

antibacterianos provavelmente fará mais mal do que bem.

Quaisquer que sejam suas escolhas, faça-as de forma consciente.

 

Em 2000, alguns dos membros mais inteligentes de nossa espécie decifraram o código de DNA responsável por criar quatro novos seres humanos por segundo.

Foi um momento decisivo para a espécie, com uma importância toda especial

para mim, que embarcava na carreira da biologia. Passeando pela London’s

Wellcome Collection anos depois e observando os volumes impressos de As, Ts,

Cs e Gs que constituem o genoma humano, ainda sinto um arrepio pela natureza

grandiosa dessa realização. Fiquei encantada com o fato de aqueles 120 volumes

conterem a alma da humanidade e de termos sido capazes de captar essa essência

no papel, reforçando meu fascínio pela carreira que escolhera.

Difícil imaginar que a decifração do microbioma, mesmo representada numa

obra de arte tão icônica, pudesse ter o mesmo impacto mágico da decodificação

do genoma. Mas nossa percepção nos últimos dez ou vinte anos de que os

micróbios do corpo são parte de nós e de que seus genes fazem parte de nosso

metagenoma pode ser algo ainda mais significativo para a vida dos seres

humanos. A microbiota é um órgão – o órgão esquecido e oculto – do corpo

humano e contribui para nossa saúde e felicidade como qualquer outro. Mas esse

novo órgão não é imutável como os outros e, ao contrário dos nossos genes

humanos, os genes microbianos não são fixos. Tanto as espécies que abrigamos

quanto os genes que contêm são nossa propriedade – estão sob nosso controle.

Você não pode escolher seus genes, mas com certeza pode escolher seus

micróbios.

O conhecimento do relacionamento íntimo que temos com a nossa

microbiota joga uma nova luz sobre nosso corpo e nosso estilo de vida. Trata-se

de uma ligação inevitável com nosso passado evolutivo, que liga nossa vida

moderna em macroescala – rica em tecnologia e pobre em natureza – às suas

raízes. Desde que Darwin escreveu A origem das espécies, debatemos os papéis

desempenhados pela natureza e a criação sobre o estabelecimento de nossa

identidade. Um homem é alto porque seu pai também é alto ou porque cresceu

com uma abundância de comida saudável à sua disposição? Uma criança é

inteligente porque sua mãe é inteligente ou porque teve os melhores professores?

Uma mulher desenvolve câncer do seio por causa dos genes que possui ou

porque tomou hormônios sintéticos? Trata-se de uma falsa dicotomia, é claro.

Tanto a natureza quanto a criação influenciam a grande maioria dos nossos

traços distintivos e de nossas doenças. Se o Projeto Genoma Humano nos

ensinou algo, é que os genes – a natureza – podem nos predispor para uma série

de doenças, mas se vamos desenvolvê-las ou não é algo que depende de nosso

estilo de vida, da nossa alimentação e das coisas a que somos expostos. Em suma,

do nosso ambiente: a criação.

Agora temos um terceiro personagem, situado de forma incômoda entre

natureza e criação. Embora o microbioma a rigor seja uma força ambiental que

está agindo sobre nossas características finais, ele, ao mesmo tempo, é genético e

herdado. Não através de óvulos, espermatozoides e genes humanos, mas uma

boa parte do microbioma é transmitida pelos pais, especialmente pela mãe, à

prole. Muitos pais esperam transmitir o melhor de si aos seus filhos, além de

proporcionar a eles o ambiente mais feliz e saudável possível. O microbioma –

com sua influência genética e um controle ambiental – dá aos pais o poder de

fazer as duas coisas.

Apesar de toda a badalação, nosso genoma humano não correspondeu às

nossas expectativas de se tornar um projeto e uma filosofia de vida. “Está no

nosso DNA”, costumamos dizer ao lidarmos com nossa humanidade e nossas

idiossincrasias, mas na verdade sabemos que nosso próprio código genético

oferece poucas instruções para nossa vida diária. Aqueles outros 90%, porém –

aqueles outros 100 trilhões de células e 4,4 milhões de genes –, também fazem

parte de nós. Nós evoluímos lado a lado e não podemos viver sem eles. Pela

primeira vez, a teoria da evolução de Darwin e nossos outros 90% estão nos

mostrando como viver.

Acolher os micróbios que viajaram conosco por milhões de anos é o primeiro

passo para aprendermos a valorizar quem realmente somos e, no fim, nos

tornarmos 100% humanos.