10% Humano

Alanna Collen · Capítulo 12 de 16

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10% Humano

Epílogo

 

100% humano

 

No inverno de 2010, quando sentia uma dor quase constante e lutava para

permanecer acordada por mais de dez horas ao dia, eu estava disposta a tentar

qualquer coisa para ficar boa. A possibilidade de que antibióticos pudessem me

curar das infecções que vinham infernizando a minha vida era um sonho que eu

mal podia acalentar. Sempre serei grata por essas drogas poderosas terem

devolvido minha saúde e a plenitude da vida.

Elas me deram algo mais: a consciência dos 100 trilhões de amigos com os

quais compartilho meu corpo. Aprender sobre a contribuição que eles dão à

minha saúde e à minha felicidade me deu uma perspectiva inteiramente nova,

tanto sobre a minha vida quanto sobre a vida no sentido biológico: a existência e

coexistência de seres vivos. Na raiz de minha pesquisa para este livro estava uma

busca pessoal. Eu queria saber se havia involuntariamente danificado minha

saúde ao causar danos à minha comunidade de micróbios, porém, mais que isso,

eu queria saber se seria capaz de reconstruir uma microbiota que pudesse me

ajudar a ter uma saúde melhor.

A beleza da microbiota é que, ao contrário de nossos genes, temos certo

controle sobre ela. Quando comecei minha pesquisa para este livro, enviei uma

amostra dos micróbios do meu intestino para o American Gut Project. Ao

sequenciarem seções do DNA de minhas bactérias, os pesquisadores do projeto

puderam me informar quais espécies eu abrigava. Embora eu tenha ficado

satisfeita por saber que restavam ao menos alguns micro-organismos após tantos

antibióticos, fiquei preocupada com a predominância de dois filos –

Bacteroidetes e Firmicutes – em detrimento dos outros. Parecia que a diversidade

era algo importante. Eu me perguntei se conseguir alguns micróbios adicionais

poderia ser bom para mim e se comer bem poderia me ajudar a obtê-los.

Entre os grupos detectados em minha amostra, fiquei fascinada ao constatar

uma proporção excepcionalmente alta de um gênero chamado Sutterella.

Durante a doença, eu havia desenvolvido uma tendência a apresentar “tiques

nervosos” quando ficava cansada: os músculos do rosto e do pescoço se

contraíam de forma involuntária. Aquilo era irritante e um tanto perturbador.

Descobri que bactérias desse gênero também eram abundantes em pessoas com

autismo – das quais muitas sofrem de tiques bastante parecidos com os meus.

Será que as Sutterella extras eram responsáveis por meus tiques? Por enquanto, é

impossível saber ao certo, já que restam ainda muitas pesquisas por fazer, mas

aquilo com certeza foi instigante. Claro que vale a pena lembrar que esse campo

da ciência ainda está engatinhando. Levaremos um tempo para descobrir

exatamente quais papéis os genes, as espécies e as comunidades microbianas

desempenham em nossa saúde e felicidade, além de ainda não dispormos dos

conhecimentos necessários para diagnosticar problemas de saúde a partir da

configuração de nosso microbioma.

Antes de tomar conhecimento da existência da microbiota – da minha

microbiota – eu pensava pouco no que comia. Eu não acreditava na ideia de que

“você é o que come” e era cética em relação à noção de que os alimentos

pudessem ter um impacto de curto prazo na minha saúde e em meu bem-estar.

Eu me alimentava de forma relativamente saudável, nunca exagerava no fast food

ou nos doces, mas não estava muito interessada nos legumes, frutas e verduras,

comendo apenas uma ou duas porções diárias. Além disso, não tinha ideia do

escasso teor de fibras de minhas refeições. Sempre fui magra, o que considerava

um sinal de que minha alimentação era saudável. Agora, porém, penso na

comida de forma totalmente diferente. Penso não apenas na nutrição que as

células humanas podem extrair, mas também no que minhas células microbianas

vão comer.

Não precisei fazer muitas mudanças para me adaptar à minha microbiota –

minhas refeições continuam parecidas, apenas com um maior teor de fibras. Meu

desjejum, por exemplo, deixou de ser uma tigela de cereal matinal – embalado,

com conservantes, açucarado e pobre em fibras – e se transformou numa tigela

de aveia, trigo e cevada integrais misturados com nozes, sementes, frutas

vermelhas frescas, iogurte natural vivo e leite. É mais gostoso, mais barato e uma

festa para os meus micróbios. Continuo comendo uma fritura ou outra nos fins

de semana, mas me certifico de que venham acompanhadas de feijões ou uma

porção de cogumelos. O arroz branco deu lugar ao integral. Lentilhas substituem

as massas de vez em quando. Pão de centeio denso, com nozes, ocasionalmente substitui as fatias torradas de pão branco macio. E, qualquer que seja a comida

no almoço, acrescento uma tigela de ervilhas descongeladas no micro-ondas ou

espinafre ao vapor. Pelos meus cálculos, aumentei meu consumo de fibras de uns

15 gramas diários para cerca de 60, e foi surpreendentemente fácil. O desjejum

sozinho costumava conter apenas 2 gramas de fibras e agora vem abarrotado

com 16 gramas – a mesma quantidade que eu comia em um dia inteiro antes.

Então o que essas mudanças alimentares fizeram com minha microbiota?

Mandei uma segunda amostra para ser sequenciada depois que passei a ter uma

dieta mais amigável com os micróbios. Pode não ser muito científico, mas

definitivamente é gratificante ver meus esforços refletidos na minha população

microbiana. No topo da lista de mudanças está um florescimento de ninguém

menos que nosso velho amigo Akkermansia, cuja associação com a magreza foi

mostrada no capítulo 2. A segunda amostra continha uma quantidade sessenta

vezes maior dessa espécie. Consigo até imaginá-las gentilmente persuadindo

minha mucosa intestinal a produzir uma bela e espessa camada de muco,

protegendo meu corpo da invasão das moléculas de LPS que perturbam o

sistema imunológico e alteram a regulação de energia.

A equipe responsável por produzir butirato, formada por Faecalibacterium e

Bifidobacterium, também ficou muito mais numerosa após minha intervenção

dietética. Gosto de pensar nelas ajudando as células da mucosa intestinal a

permanecerem coesas, acalmando meu sistema imunológico. Até aqui tudo bem,

mas houve algum impacto sobre a minha saúde? Parece que as coisas estão

melhorando – minha fadiga diminuiu e minhas erupções cutâneas cessaram, ao

menos por ora. O tempo dirá se foi por sorte, efeito placebo ou um resultado

genuíno de passar a comer mais fibra, mas não é algo de que eu vá desistir. É

claro que as mudanças em minha microbiota após adotar uma dieta rica em

fibras não são permanentes. Para sustentar indefinidamente os micróbios que ela

alimenta, tenho que manter o teor de fibra das minhas refeições no nível

apropriado.

Agora, comer de modo a beneficiar minha microbiota tem uma relevância

que vai além da minha própria saúde. Ao considerar a ideia de me tornar mãe,

acho que tenho mais motivos do que nunca para cuidar de todas as minhas

células, tanto humanas quanto microbianas. Supondo que os antibióticos

mudaram para pior minha microbiota, devo recuperá-la ao máximo antes de

transmiti-la aos meus futuros filhos. Se comer plantas me ajuda a conseguir isso,

então essa é a escolha consciente que faço.

Até recentemente, eu tinha poucas convicções no tocante ao nascimento e à

criação de bebês. Eu apenas confiava que a medicina moderna forneceria os

melhores cuidados para mim e meu filho. Hoje continuo confiando – mas

somente se as coisas derem errado. Se não – se tudo correr bem – fico com a

natureza: o processo de parto usado pelos mamíferos por milhões de anos e o

leite que evoluiu de forma a ser perfeito para aquele humano em crescimento.

Transmitir uma microbiota que não consista nos micróbios da pele de minha

barriga e das mãos dos obstetras e enfermeiros é agora uma prioridade para mim.

Se a cesariana for a única opção, pretendo imitar a natureza, esfregando meu

bebê com micróbios vaginais como sugere Maria Gloria Dominguez-Bello.

Quanto à amamentação, sinto-me preparada para conseguir o máximo de

informações, força e apoio para enfrentar dias difíceis de dor, exaustão e

inexperiência com um novo bebê. E espero ser capaz de dar de mamar de acordo

com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde: seis meses de amamentação

exclusiva, com amamentação adicional até os dois anos ou além. Este é meu

objetivo e minha escolha consciente.

Finalmente chegamos aos antibióticos. Essas drogas extraordinárias me

fizeram dar uma volta completa, deixando para trás um passado de doença

infecciosa e passando a um presente de doenças do século XXI. Elas me

devolveram uma qualidade de vida que eu temia jamais recuperar, mas ao longo

do caminho me levaram a um território novo que eu nunca antes experimentara.

A lição não é que os antibióticos sejam ruins. Eles são preciosos, imperfeitos e

cobram um preço. Desde a última dose do meu tratamento, tive a sorte de não

precisar mais tomá-los. Se eu, ou meus filhos, precisássemos deles de novo – se

precisássemos mesmo – eu não hesitaria. Eu os tomaria junto com probióticos,

na esperança de reduzir o risco e os danos colaterais. Mas se tivesse a opção de

esperar para ver se meu sistema imunológico conseguiria enfrentar a infecção

sozinho, essa seria a minha escolha consciente.

Quanto a mim e meus micróbios, estamos reconstruindo nossa relação aos

poucos. Sem antibióticos, minha vida seria bem diferente, mas, agora que estou

recuperada, de uma coisa eu sei: meus micróbios devem vir em primeiro lugar.

Afinal, sou apenas 10% humana.