10% Humano
Epílogo
100% humano
No inverno de 2010, quando sentia uma dor quase constante e lutava para
permanecer acordada por mais de dez horas ao dia, eu estava disposta a tentar
qualquer coisa para ficar boa. A possibilidade de que antibióticos pudessem me
curar das infecções que vinham infernizando a minha vida era um sonho que eu
mal podia acalentar. Sempre serei grata por essas drogas poderosas terem
devolvido minha saúde e a plenitude da vida.
Elas me deram algo mais: a consciência dos 100 trilhões de amigos com os
quais compartilho meu corpo. Aprender sobre a contribuição que eles dão à
minha saúde e à minha felicidade me deu uma perspectiva inteiramente nova,
tanto sobre a minha vida quanto sobre a vida no sentido biológico: a existência e
coexistência de seres vivos. Na raiz de minha pesquisa para este livro estava uma
busca pessoal. Eu queria saber se havia involuntariamente danificado minha
saúde ao causar danos à minha comunidade de micróbios, porém, mais que isso,
eu queria saber se seria capaz de reconstruir uma microbiota que pudesse me
ajudar a ter uma saúde melhor.
A beleza da microbiota é que, ao contrário de nossos genes, temos certo
controle sobre ela. Quando comecei minha pesquisa para este livro, enviei uma
amostra dos micróbios do meu intestino para o American Gut Project. Ao
sequenciarem seções do DNA de minhas bactérias, os pesquisadores do projeto
puderam me informar quais espécies eu abrigava. Embora eu tenha ficado
satisfeita por saber que restavam ao menos alguns micro-organismos após tantos
antibióticos, fiquei preocupada com a predominância de dois filos –
Bacteroidetes e Firmicutes – em detrimento dos outros. Parecia que a diversidade
era algo importante. Eu me perguntei se conseguir alguns micróbios adicionais
poderia ser bom para mim e se comer bem poderia me ajudar a obtê-los.
Entre os grupos detectados em minha amostra, fiquei fascinada ao constatar
uma proporção excepcionalmente alta de um gênero chamado Sutterella.
Durante a doença, eu havia desenvolvido uma tendência a apresentar “tiques
nervosos” quando ficava cansada: os músculos do rosto e do pescoço se
contraíam de forma involuntária. Aquilo era irritante e um tanto perturbador.
Descobri que bactérias desse gênero também eram abundantes em pessoas com
autismo – das quais muitas sofrem de tiques bastante parecidos com os meus.
Será que as Sutterella extras eram responsáveis por meus tiques? Por enquanto, é
impossível saber ao certo, já que restam ainda muitas pesquisas por fazer, mas
aquilo com certeza foi instigante. Claro que vale a pena lembrar que esse campo
da ciência ainda está engatinhando. Levaremos um tempo para descobrir
exatamente quais papéis os genes, as espécies e as comunidades microbianas
desempenham em nossa saúde e felicidade, além de ainda não dispormos dos
conhecimentos necessários para diagnosticar problemas de saúde a partir da
configuração de nosso microbioma.
Antes de tomar conhecimento da existência da microbiota – da minha
microbiota – eu pensava pouco no que comia. Eu não acreditava na ideia de que
“você é o que come” e era cética em relação à noção de que os alimentos
pudessem ter um impacto de curto prazo na minha saúde e em meu bem-estar.
Eu me alimentava de forma relativamente saudável, nunca exagerava no fast food
ou nos doces, mas não estava muito interessada nos legumes, frutas e verduras,
comendo apenas uma ou duas porções diárias. Além disso, não tinha ideia do
escasso teor de fibras de minhas refeições. Sempre fui magra, o que considerava
um sinal de que minha alimentação era saudável. Agora, porém, penso na
comida de forma totalmente diferente. Penso não apenas na nutrição que as
células humanas podem extrair, mas também no que minhas células microbianas
vão comer.
Não precisei fazer muitas mudanças para me adaptar à minha microbiota –
minhas refeições continuam parecidas, apenas com um maior teor de fibras. Meu
desjejum, por exemplo, deixou de ser uma tigela de cereal matinal – embalado,
com conservantes, açucarado e pobre em fibras – e se transformou numa tigela
de aveia, trigo e cevada integrais misturados com nozes, sementes, frutas
vermelhas frescas, iogurte natural vivo e leite. É mais gostoso, mais barato e uma
festa para os meus micróbios. Continuo comendo uma fritura ou outra nos fins
de semana, mas me certifico de que venham acompanhadas de feijões ou uma
porção de cogumelos. O arroz branco deu lugar ao integral. Lentilhas substituem
as massas de vez em quando. Pão de centeio denso, com nozes, ocasionalmente substitui as fatias torradas de pão branco macio. E, qualquer que seja a comida
no almoço, acrescento uma tigela de ervilhas descongeladas no micro-ondas ou
espinafre ao vapor. Pelos meus cálculos, aumentei meu consumo de fibras de uns
15 gramas diários para cerca de 60, e foi surpreendentemente fácil. O desjejum
sozinho costumava conter apenas 2 gramas de fibras e agora vem abarrotado
com 16 gramas – a mesma quantidade que eu comia em um dia inteiro antes.
Então o que essas mudanças alimentares fizeram com minha microbiota?
Mandei uma segunda amostra para ser sequenciada depois que passei a ter uma
dieta mais amigável com os micróbios. Pode não ser muito científico, mas
definitivamente é gratificante ver meus esforços refletidos na minha população
microbiana. No topo da lista de mudanças está um florescimento de ninguém
menos que nosso velho amigo Akkermansia, cuja associação com a magreza foi
mostrada no capítulo 2. A segunda amostra continha uma quantidade sessenta
vezes maior dessa espécie. Consigo até imaginá-las gentilmente persuadindo
minha mucosa intestinal a produzir uma bela e espessa camada de muco,
protegendo meu corpo da invasão das moléculas de LPS que perturbam o
sistema imunológico e alteram a regulação de energia.
A equipe responsável por produzir butirato, formada por Faecalibacterium e
Bifidobacterium, também ficou muito mais numerosa após minha intervenção
dietética. Gosto de pensar nelas ajudando as células da mucosa intestinal a
permanecerem coesas, acalmando meu sistema imunológico. Até aqui tudo bem,
mas houve algum impacto sobre a minha saúde? Parece que as coisas estão
melhorando – minha fadiga diminuiu e minhas erupções cutâneas cessaram, ao
menos por ora. O tempo dirá se foi por sorte, efeito placebo ou um resultado
genuíno de passar a comer mais fibra, mas não é algo de que eu vá desistir. É
claro que as mudanças em minha microbiota após adotar uma dieta rica em
fibras não são permanentes. Para sustentar indefinidamente os micróbios que ela
alimenta, tenho que manter o teor de fibra das minhas refeições no nível
apropriado.
Agora, comer de modo a beneficiar minha microbiota tem uma relevância
que vai além da minha própria saúde. Ao considerar a ideia de me tornar mãe,
acho que tenho mais motivos do que nunca para cuidar de todas as minhas
células, tanto humanas quanto microbianas. Supondo que os antibióticos
mudaram para pior minha microbiota, devo recuperá-la ao máximo antes de
transmiti-la aos meus futuros filhos. Se comer plantas me ajuda a conseguir isso,
então essa é a escolha consciente que faço.
Até recentemente, eu tinha poucas convicções no tocante ao nascimento e à
criação de bebês. Eu apenas confiava que a medicina moderna forneceria os
melhores cuidados para mim e meu filho. Hoje continuo confiando – mas
somente se as coisas derem errado. Se não – se tudo correr bem – fico com a
natureza: o processo de parto usado pelos mamíferos por milhões de anos e o
leite que evoluiu de forma a ser perfeito para aquele humano em crescimento.
Transmitir uma microbiota que não consista nos micróbios da pele de minha
barriga e das mãos dos obstetras e enfermeiros é agora uma prioridade para mim.
Se a cesariana for a única opção, pretendo imitar a natureza, esfregando meu
bebê com micróbios vaginais como sugere Maria Gloria Dominguez-Bello.
Quanto à amamentação, sinto-me preparada para conseguir o máximo de
informações, força e apoio para enfrentar dias difíceis de dor, exaustão e
inexperiência com um novo bebê. E espero ser capaz de dar de mamar de acordo
com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde: seis meses de amamentação
exclusiva, com amamentação adicional até os dois anos ou além. Este é meu
objetivo e minha escolha consciente.
Finalmente chegamos aos antibióticos. Essas drogas extraordinárias me
fizeram dar uma volta completa, deixando para trás um passado de doença
infecciosa e passando a um presente de doenças do século XXI. Elas me
devolveram uma qualidade de vida que eu temia jamais recuperar, mas ao longo
do caminho me levaram a um território novo que eu nunca antes experimentara.
A lição não é que os antibióticos sejam ruins. Eles são preciosos, imperfeitos e
cobram um preço. Desde a última dose do meu tratamento, tive a sorte de não
precisar mais tomá-los. Se eu, ou meus filhos, precisássemos deles de novo – se
precisássemos mesmo – eu não hesitaria. Eu os tomaria junto com probióticos,
na esperança de reduzir o risco e os danos colaterais. Mas se tivesse a opção de
esperar para ver se meu sistema imunológico conseguiria enfrentar a infecção
sozinho, essa seria a minha escolha consciente.
Quanto a mim e meus micróbios, estamos reconstruindo nossa relação aos
poucos. Sem antibióticos, minha vida seria bem diferente, mas, agora que estou
recuperada, de uma coisa eu sei: meus micróbios devem vir em primeiro lugar.
Afinal, sou apenas 10% humana.