10% Humano
4 O micróbio egoísta
QUATRO
O micróbio egoísta
Todos querem saber como melhorar o sistema imunológico. Digite “sistema
imunológico” no Google e uma das primeiras frases sugeridas, cheia de
otimismo, o combina com a palavra “fortalecer”. Num mundo perfeito, a
resposta à indagação de “como fortalecer seu sistema imunológico” seria um
superalimento docinho, de preferência uma fruta silvestre de algum local secreto
nos Andes. O custo exorbitante dessa frutinha só poderia significar uma coisa:
deve funcionar! Quase todo mundo quer evitar as rodadas incessantes de
resfriados e a gripe ocasional contraída pelo contato com as outras pessoas em
ônibus, metrôs, etc. Mas qual o verdadeiro segredo para um sistema imunológico
saudável e ativo?
Nossa grande tendência a contrair germes é uma consequência lastimável de
nossa supersociabilidade. Várias vezes por ano, passamos por dias desagradáveis,
em que não nos sentimos bem o suficiente para trabalhar, mas também não
estamos tão doentes assim para precisar passar o dia no sofá. Claro que, ao
resistirmos com bravura e nos arrastarmos para o escritório, fungando e
espirrando o dia inteiro, estamos fazendo exatamente o que a peste do micróbio
“deseja”: continuamos sendo sociais e, assim, o espalhamos por aí. Não-estar-
doente-o-suficiente-para-ficar-em-casa significa que o patógeno (o micro-
organismo causador da doença) conseguiu alcançar o equilíbrio perfeito entre
virulência e inocuidade. Eles são nocivos o suficiente para serem transmitidos –
tosses e espirros espalham doenças! – e inofensivos o bastante para garantirem
que você não morra antes de encontrar outras pessoas, que são potenciais
hospedeiras para eles. Uma das pequenas vantagens de doenças infecciosas
realmente terríveis, com taxas de mortalidade na casa dos 90%, como o ebola e o
antraz, é que são tão virulentas e matam tão rápido que mal têm a chance de
infectar outras pessoas. Os esforços terríveis do ebola em sustentar a epidemia que começou na África Ocidental em 2014 devem-se provavelmente ao fato de
ter se tornado menos nocivo, com uma taxa de mortalidade de cerca de 50% a
70% dos infectados. Essa queda na virulência e na mortalidade significa que as
vítimas podem sobreviver um pouco mais, dando ao vírus uma chance melhor
de contaminar um novo hospedeiro e perpetuar sua disseminação.
Muitos animais selvagens, por outro lado, não tendem a sofrer dessas
doenças incômodas, não porque tenham um sistema imunológico superior, mas
porque são necessários contatos entre indivíduos jovens e suscetíveis para que
haja um surto da doença. Algumas cabras solitárias dos Alpes franceses nunca se
encontram com seus primos nos Pireneus, de modo que infecções são raras. Algo
semelhante ocorre com espécies solitárias – leopardos, digamos –, entre as quais
as doenças infecciosas não conseguem se estabelecer em sua população.
Combine a supersociabilidade com o amor pelas viagens, e os patógenos
fazem a festa: contato constante e um suprimento ilimitado de sangue novo. Não
é por acaso que, ao lado dos humanos, os morcegos são um dos mais poderosos
transmissores de doenças no mundo inteiro (provavelmente incluindo Ebola).
Como nós, muitas espécies de morcegos vivem em grandes colônias, com
milhares ou milhões de indivíduos espremidos em espaços densamente
povoados. Com isso os patógenos têm ainda mais oportunidades para fixar
residência: espalham-se em ondas pelos morcegos, depois sofrem mutação e
fazem outra rodada após meses ou anos. Além disso, os morcegos sabem voar! À
medida que indivíduos de diferentes tocas se reúnem nos locais de alimentação,
o mesmo ocorre com seus micróbios, que assim podem vencer a distância entre
populações isoladas. Os seres humanos compartilham essas características –
supersociabilidade e hipermobilidade – com os morcegos num grau maior do
que seria desejável. Nós nos apinhamos em cidades e viajamos de avião ao redor
do mundo, compartilhando e espalhando micro-organismos – tanto os
patogênicos quanto os inofensivos.
A realidade para a maioria das pessoas é que, ao invés de ter um sistema
imunológico fraco, o delas funciona além da conta. Poderia parecer normal
sofrer um acesso de febre do feno a cada primavera e espirrar toda vez que você
pega o gato no colo, mas não é. Talvez seja “normal” no sentido de ser comum
que muitas pessoas no mundo desenvolvido sofram de alergias. Mas tente
pensar: que tipo de processo evolutivo por acaso deixaria 10% das crianças sem
fôlego e ofegando para respirar, como é o caso da asma? De que forma a
intolerância a algo tão corriqueiro quanto o pólen poderia ser benéfica para 40%
das crianças e 30% dos adultos, como no caso da febre do feno? Pessoas que sofrem de alergia raramente se consideram portadoras de uma disfunção
imunológica, mas é disso que se trata. Não é de “estímulo” que elas precisam –
muito pelo contrário. As alergias são o resultado de um sistema imunológico
hiperativo cujo objetivo é destruir substâncias que não representam nenhuma
ameaça real ao corpo. Na verdade, o tratamento dessas alergias em geral envolve
o uso de esteroides ou anti-histamínicos para diminuir a imunidade do doente.
Nos países desenvolvidos, as alergias já se estabeleceram. Na década de 1990,
a proporção da população afetada se estabilizou. Isso poderia indicar apenas que
todas as pessoas geneticamente suscetíveis à alergia agora já tenham sido
afetados por ela, não que a causa subjacente tenha se estabilizado. Mas longe da
multidão frenética, nas zonas rurais, pré-industriais, não ocidentalizadas do
mundo, as alergias não causam tantos transtornos. Em todos os outros lugares, o
aumento implacável persiste, arrastando cada vez mais pessoas para esse estado
de exagero imunológico anormal, à medida que as gerações se sucedem. Desde
que o aumento no número dos casos no Ocidente começou lá pela década de
1950, a pergunta sempre foi a mesma: qual é a causa subjacente?
Durante a maior parte do século passado, a teoria tradicionalmente aceita
defendia que as alergias seriam desencadeadas em crianças que passaram por
muitas infecções. Em 1989, um médico britânico chamado David Strachan
colocou essa ideia em xeque. Num artigo breve e objetivo, ele sugeria o exato
oposto: que as alergias eram resultado da falta de infecções. Strachan havia
analisado um banco de dados nacional que continha informações sociais e de
saúde sobre um grupo de mais de 17 mil crianças britânicas nascidas na mesma
semana de março de 1958 e cuja situação foi acompanhada até que atingissem 23
anos. De todos os dados coletados – classe social, riqueza, endereço, etc. – dois
fatores se destacaram no que diz respeito à chance de ser vítima da febre do feno.
O primeiro era o número de irmãos e irmãs da criança: um filho único tinha
uma chance muito maior de desenvolver febre do feno do que alguém com três
ou quatro irmãos. O segundo era a posição na família: crianças com irmãos mais
velhos tinham uma tendência menor a sofrer de febre do feno do que aquelas
com irmãos mais novos.
Como quem tem filhos sabe, crianças pequenas podem apresentar um fluxo
constante de resfriados. Elas são um viveiro ideal para bactérias e vírus, já que
seu sistema imunológico ainda está despreparado para o ataque diário dos
patógenos que os seres humanos precisam enfrentar. O hábito de colocar tudo na
boca faz com que o bebê espalhe micróbios – tanto bons quanto ruins – aonde
quer que vá. Quanto mais crianças, mais micro-organismos vão ficando para trás em trilhas de catarro e saliva. Para Strachan, as crianças em famílias maiores
estavam se beneficiando das infecções extras que seus irmãos – particularmente
os mais velhos – traziam para casa. De algum modo, pensou ele, essas infecções
nos primeiros anos da vida funcionavam como uma proteção contra a febre do
feno e outras alergias.
Logo denominada “hipótese higiênica”, a ideia de Strachan era respaldada
pelo fato de que o aumento na prevalência de alergias vinha acompanhado pela
melhoria gradual dos padrões de higiene. O banho semanal antes da igreja em
uma banheira morna se transformou numa ducha diária em água quente e
fumegante. A comida passou a ser refrigerada ou congelada, em vez de
conservada em salmoura e fermentada. O tamanho das famílias estava
encolhendo e a vida foi se tornando cada vez mais urbana e refinada. A hipótese
higiênica fazia sentido, especialmente porque, nos países em desenvolvimento,
que tinham altas taxas de doenças infecciosas, as alergias ainda eram raras.
Parecia que na Europa e na América do Norte as pessoas estavam limpas demais,
e o sistema imunológico delas, desesperado para ter alguma utilidade, ficava
louco para atacar mesmo as partículas mais inofensivas, como o pólen.
Embora a hipótese higiênica representasse um novo paradigma no campo da
imunologia, logo ganhou reconhecimento científico. Ela tem um apelo intuitivo:
com frequência as células imunológicas são personificadas e retratadas como
caçadoras agressivas, ávidas por perseguir e destruir. Nós imaginamos que elas
sejam implacáveis quando não se fazem úteis. E, assim, à medida que as doenças
infecciosas graves são eliminadas pelas vacinas e a limpeza se encarrega dos
germes mais benignos, as células imunológicas ficam nervosas, sem nada para
matar. Esse antropomorfismo torna fácil aceitar o resultado sugerido: as células
imunológicas voltam sua atenção para partículas inofensivas a fim de
continuarem na briga.
Essa ideia logo passou a incluir – além das infecções bacterianas e virais – os
parasitas, particularmente vermes, como tênias, oxiúros e ancilostomídeos.
Como acontece com os patógenos microscópicos, as chances de abrigar um
verme se tornaram quase nulas no mundo desenvolvido. Restou apenas a
suspeita entre os cientistas e o público em geral de que os vermes vinham
mantendo o sistema imunológico ocupado e que sua ausência o deixou com
excesso de pessoal e falta de trabalho.
A associação descoberta por David Strachan entre o tamanho das famílias e a
prevalência de alergias resistiu a dezenas de outros estudos. Imagine por um
momento que o sistema imunológico possui duas divisões: o exército e a marinha. Suponhamos que o exército lida com ameaças em terra e a marinha
com ameaças no mar. Uma diminuição das ameaças marítimas significa que
muitos daqueles que ingressariam na marinha agora são recrutados pelo exército
– mas a falta de ameaças adicionais em terra acaba deixando o exército com
excesso de contingente.
O mesmo aconteceria no corpo: uma divisão de células imunológicas
conhecidas como células T auxiliares 1 (Th1) costuma responder a ameaças de
bactérias e vírus. Uma segunda divisão – das células T auxiliares 2 (Th2) –
geralmente reage a parasitas, inclusive vermes. Se o fardo das doenças infecciosas
causadas por bactérias e vírus diminuiu devido a uma melhora geral na higiene, a
divisão Th1 fica reduzida. Assim, o pessoal da divisão Th2 vem preencher essa
lacuna, mas as células extras acabam ficando com quase nada para fazer. Por isso,
além de ficarem atentas para combater parasitas e vermes, começam a atacar
também partículas inofensivas, como pólen e células epiteliais, por exemplo.
Simples e elegante, não é? Mas será que essa teoria era realista?
O desafio seguinte de Strachan foi procurar uma ligação clara, não apenas
entre tamanho da família e alergias, mas entre infecções e alergias, para respaldar
sua hipótese. Alguns dados pareciam estar de acordo com a teoria: pessoas
infectadas com hepatite A ou sarampo não tinham alergias tão frequentes como
as não infectadas. Mas a dificuldade de encontrar indícios dessa associação para a
maioria das infecções comuns o intrigou. De fato, o próprio Strachan constatou
que bebês que passaram por uma infecção no primeiro mês de vida não tinham
menos chances de desenvolver alergias do que os outros. Mesmo nas
circunstâncias em que mais infecções significavam menos alergias, sempre
parecia haver uma explicação melhor para essa ligação.
Infelizmente, assim como minha analogia com exército e marinha, a divisão
simplista das tarefas antipatógenos do sistema imunológico entre células Th1 e
Th2 não se sustenta. Nenhum patógeno é combatido somente por células Th1 ou
apenas por células Th2 – isso sempre envolve células dos dois tipos. Além disso,
se o excesso de células Th2 fosse culpado pelo aumento da prevalência de
alergias, a ocorrência de diabetes infantil e a esclerose múltipla não deveria estar
aumentando também. Essas doenças são autoimunes, em que o corpo ataca suas
próprias células, e ambas envolvem um excesso não de células Th2, mas de Th1.
O elemento mais contraditório da hipótese higiênica, porém, é que, na
ausência de germes e vermes, resta às células imunológicas um alvo
aparentemente legítimo – que elas poderiam perseguir, em vez de se voltarem
contra o pólen e as células epiteliais. Embora hoje em dia os verdadeiros patógenos sejam visitantes relativamente raros no mundo ocidental, nosso corpo
está passando por uma invasão microbiana cujo tamanho intimidaria o sistema
imunológico mais voraz. Pesando uns 2 quilos no total, com seu centro de
controle no cólon, esse grupo de “germes” invasores – a microbiota – vive lado a
lado com a maior concentração de células imunológicas no corpo humano. No
entanto, sobrevive ilesa. Se o sistema imunológico estivesse mesmo tão agitado
assim, procurando inimigos para atacar, na certa aproveitaria a chance de atacar
esses intrusos, não é?
Mas como o sistema imunológico sabe o que atacar? Você deve achar óbvio:
tudo o que não faça parte do corpo. Tudo de não humano nos humanos, de não
gato nos gatos, de não rato nos ratos. Ele só precisaria, por um lado, reconhecer o
que é humano (ou gato ou rato) – eu – e não fazer nada; e, por outro, reconhecer
o que não é humano – não eu – e atacar. Esse dogma do eu/não eu tem servido
de base para a imunologia há mais de um século.
Mas pense no que aconteceria se o sistema imunológico realmente aplicasse
esse sistema de classificação e atacasse tudo que fosse não eu. Moléculas de
comida? Pólen? Poeira? Até mesmo a saliva de outra pessoa? Opor resistência a
essas coisas não só é inútil como é um completo desperdício de energia –, afinal,
são substâncias inofensivas. O fato de algo ser não eu não implica que seja
perigoso e deva ser eliminado.
Por outro lado, imagine o que aconteceria se o sistema imunológico não
destruísse nada que fosse eu. Isso é algo um pouco mais obscuro, mas não menos
importante, pois mais coisas que você poderia imaginar são indesejáveis mesmo
sendo eu. Para começo de conversa, não fosse a eliminação do eu pelo sistema
imunológico, todos teríamos dedos das mãos e pés colados por membranas,
como os dos patos. Por volta da nona semana de gravidez, o feto humano
começa a ter uma aparência humana, apesar de ser do tamanho de uma uva.
Nesse ponto, as células em torno dos dedos das mãos e dos pés “cometem
suicídio” – sofrendo uma morte celular programada para permitir que os dedos
se separem. A operação de limpeza é regida por fagócitos – um grupo de células
imunológicas que engole e desmonta as membranas descartadas.
O mesmo ocorre com as sinapses do cérebro. Para alcançar o equilíbrio
perfeito entre lembrar e esquecer precisamos destruir as ligações entre os
neurônios que não são mais úteis – tarefa realizada por um tipo especializado de
fagócito. O mesmo vale para células em risco de se tornarem cancerosas. Com
uma frequência maior do que você imagina (estamos provavelmente falando de
dezenas de vezes por dia), erros no processo de cópia do DNA ameaçam dar a alguma célula a chave da imortalidade: câncer. São as células do sistema
imunológico, patrulhando o corpo em busca de sinais de erros, que impedem
que isso aconteça quase todas as vezes. É tão importante tolerar algumas
substâncias não eu e atacar algumas que são eu quanto destruir patógenos
externos.
A microbiota claramente se encaixa na categoria não eu. Ela é formada por
organismos inteiros, que não apenas pertencem a espécies diferentes de nós, mas
a diferentes reinos biológicos. Além disso, são extremamente semelhantes às
criaturas que causam tantos problemas ao sistema imunológico – as variedades
patogênicas de bactérias, vírus e fungos. Além disso, os membros da microbiota
têm, revestindo sua superfície, o mesmo tipo de moléculas que o sistema
imunológico usa para detectar patógenos. Mas algo nesses micróbios instrui o
sistema imunológico a não atacá-los.
A hipótese higiênica de David Strachan é excelente, mas agora está passando
por uma revisão. Ele sugeriu que quanto mais infecções tivermos na infância,
menores serão as chances de desenvolvermos alergias. O problema é que os
dados não batem e os mecanismos não funcionam bem assim. Em certo sentido a
reformulação pela qual a teoria está passando é bem sutil. Embora não cause
doenças, a microbiota é, de certa forma, uma grande infecção. Esses micróbios
são intrusos, mas se intrometeram há muito tempo e trazem tantos benefícios
que o sistema imunológico aprendeu a aceitá-los. No entanto, como os micro-
organismos que vivem no nosso corpo escaparam da destruição? E o que
acontece com o nosso bem ajustado sistema imunológico em caso de
desequilíbrios?
Cheguei a um ponto em minha descoberta dos micróbios que habitam o corpo
humano em que parei de me ver como um indivíduo e comecei a me considerar
um receptáculo da minha microbiota. Agora meus micro-organismos e eu
formamos uma equipe. Mas, como em qualquer relacionamento, é dando que se
recebe. Eu sou provedora e protetora deles, que em troca me sustentam e
nutrem. Pego-me pensando se as minhas escolhas alimentares os deixariam
gratos ou não, e vejo minha saúde mental e física como indicadores que atestam
meu valor como sua anfitriã. Eles são minha colônia particular, e sua preservação
é tão valiosa para mim quanto o bem-estar das células do meu próprio corpo.
Apesar da habilidade unicamente humana de compreender essa parceria de
forma consciente, não se trata de uma aliança exclusivamente humana. Como
veremos no capítulo 6, sua colônia particular começa com uma Arca de Noé de espécies que sua mãe lhe transmite no nascimento. Os primeiros micróbios de
sua mãe vieram da sua avó, e os dela da sua bisavó, e assim ad infinitum. Em
algum ponto, 8 mil tataravós atrás, aquele presente microbiano foi sendo
transferido de mãe para filho em nossos ancestrais pré-Homo sapiens. Essa
transferência ocorreu há muito em nossa história evolutiva, está além da
humanidade, dos primatas, dos mamíferos, e remonta à alvorada do reino
animal.
Um dos truques favoritos dos professores de biologia é pedir que os alunos
abram bem os braços e tracem a biografia do planeta ao longo deles. Na ponta do
dedo médio da mão direta está a formação da Terra, 4,6 bilhões de anos atrás. A
ponta do dedo médio da mão esquerda representa a data de hoje. As rochas da
Terra esfriaram e a vida bacteriana começou só no cotovelo do braço direito.
Depois disso, demorou até um pouco antes do pulso esquerdo – outros 3 bilhões
de anos – para que os animais mais básicos evoluíssem. Os mamíferos, em toda a
sua glória peluda e ponderada, surgiram apenas no dedo médio da mão esquerda
e os seres humanos como nós entraram em cena somente no finalzinho da unha
desse mesmo dedo.
Uma história do planeta Terra
Portanto, os animais nunca conheceram a vida sem as bactérias. A existência
de cada um deles está tão interligada que, escondidas dentro de (quase) todas as
células animais, estão os fantasmas das bactérias mais simples. Envoltas por uma
célula maior, vale a pena hospedar essas bactérias, porque cada uma delas se especializou em obter energia de moléculas de alimento. Elas são as mitocôndrias
– as usinas de força das células –, que convertem comida em energia através da
respiração celular. Tão indispensáveis à vida multicelular agora quanto nos
primórdios do reino Animalia, essas ex-bactérias se tornaram tão arraigadas que
não as consideramos mais micróbios propriamente ditos. As mitocôndrias são
uma evidência evolutiva das primeiras alianças entre dois organismos. Desde
então, os menores organismos se unem aos maiores.
O padrão dessas alianças pode ser visto na árvore da vida. Uma comparação
entre a árvore evolutiva dos relacionamentos entre espécies de mamíferos e a
árvore das bactérias que habitam esses mamíferos revela que os dois grupos
viajaram juntos ao longo da evolução. As árvores se espelham – nos pontos em
que uma espécie de mamífero se divide em duas, os micróbios que ela abriga
também se dividem, evoluindo separadamente com seu novo hospedeiro a partir
desse ponto. Esse estreito relacionamento entre um hospedeiro e sua microbiota
levou a uma ideia nova e revolucionária que toca no ponto central do
funcionamento da evolução por seleção natural.
A evolução da mitocôndria
Assim como Darwin em A origem das espécies, começaremos não pela seleção
natural, mas pela seleção artificial. Darwin escreveu sobre a criação de pombos,
já que esse era o hobby favorito de alguns cavalheiros na época. Ilustrarei meu
argumento com cães em vez de pombos. Tanto um dogue alemão quanto um fox terrier descendem dos lobos e, mesmo assim, nenhum dos dois guarda qualquer
semelhança com seus ancestrais. Os dogues alemães foram criados para a caça de
veados, javalis e até ursos nas florestas da Alemanha. A cada geração, seus
criadores escolhiam cães com tamanho, velocidade e potência suficientes para se
tornarem os pais da geração seguinte. Gradualmente, esses traços se tornaram
mais pronunciados, já que as características mais apropriadas foram selecionadas
pelos criadores (de forma artificial, não natural). Os fox terriers, na outra
extremidade da escala, foram selecionados por seus criadores segundo a
velocidade, a agilidade e a capacidade de se enfiar numa toca de raposa.
A seleção natural funciona da mesma maneira, só que, em vez de um criador
escolher quais características selecionar, o ambiente natural cumpre esse papel.
Um guepardo precisa ter pernas poderosas o bastante para correr e caçar,
coração e pulmões suficientemente grandes para ter mais fôlego que sua presa,
uma visão aguçada para distinguir o filhote no meio de um bando de gazelas.
Cada um desses traços é selecionado pelo clima, pelo habitat, pelos
competidores, pelas presas ou pelos predadores desse organismo.
O que os biólogos evolucionistas discutem é o que exatamente está sendo
selecionado. Pode parecer óbvio: o indivíduo com músculos poderosos é aquele
que vai viver e procriar. Ele foi selecionado pelas circunstâncias para se
reproduzir. Mas então por que as leoas ajudariam seus filhotes? Por que abelhas
operárias ajudariam a rainha? Por que a jovem galinha-d’água ajudaria os pais?
E, o que é ainda mais intrigante, por que um morcego vampiro iria regurgitar
uma refeição de sangue para outro que não conseguiu se alimentar, sem que os
dois sequer sejam parentes? Se tudo que importa para um indivíduo é seu
próprio sucesso reprodutivo, por que ajudar os outros? Essas indagações levaram
os biólogos a discutirem a seleção acima do nível individual. Se a cooperação
ajuda os membros de uma comunidade a se reproduzirem, especialmente
quando não têm laços de parentesco, o ambiente não está selecionando apenas
indivíduos, mas grupos inteiros.
Richard Dawkins viria nos lembrar de que tanto a ideia de seleção individual
quanto a de grupo estão errando o alvo. Em seu livro de 1976, O gene egoísta, ele
defendeu a perspectiva de vários biólogos evolucionistas proeminentes – de que a
seleção natural escolhe genes. Os corpos, ele diz, são meros veículos para os
genes, permitindo que sejam imortais. Eles, assim como os indivíduos, variam,
podem ser replicados e são transmitidos de uma geração para a outra. O fato é
que os genes são os responsáveis por determinar as chances reprodutivas de um
indivíduo e, portanto, são eles – não o indivíduo – que são selecionados. Claro que um gene não consegue agir sozinho. Mesmo o gene mais vivificante e
produtor de bebês que a mutação pudesse conceder a um indivíduo é limitado
pelas virtudes de seus vizinhos. O que nos traz de volta ao início – o indivíduo –,
mas talvez com uma maior compreensão da complexidade da seleção natural.
A evolução conjunta das espécies hospedeiras e sua microbiota acrescenta
mais uma camada a esta rede emaranhada de favores evolutivos. Tomemos como
exemplo um herbívoro – um bisão –, para imaginar a tarefa da seleção natural na
ausência da microbiota. O bisão seria grande o bastante para espantar os lobos,
peludo o suficiente para se manter aquecido no inverno e teria força para
percorrer longas distâncias em busca de boas pastagens. Mas essas, e muitas
outras características vivificantes e produtoras de bebês do bisão, seriam inúteis
sem um conjunto satisfatório de micróbios. Sozinho, o bisão não é capaz de
digerir a grama. Com a barriga cheia de grama intocada, não conseguiria
absorver as moléculas do alimento nem produzir energia. Sem energia, não
poderia crescer, se locomover, se reproduzir nem permanecer vivo. Seria inútil.
O bisão e sua microbiota evoluíram juntos. Os dois foram selecionados. O
bisão precisa ser grande, peludo e forte, mas também deve ter um processo de
digestão eficiente para conseguir o apoio da seleção natural. Precisa ser
microbiano o suficiente. A combinação do hospedeiro (o bisão, o peixe, o inseto
ou o ser humano) e seus micróbios é conhecida como “holobionte”. Essa
codependência e essa inevitabilidade evolutiva levaram Eugene e Ilana
Rosenberg, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, a proporem outro nível de
ação da seleção natural. Os holobiontes, assim como indivíduos e grupos,
também são escolhidos por seus méritos reprodutivos. Como nenhum animal
consegue viver de forma independente de sua microbiota e nenhuma microbiota
sem seu hospedeiro, selecionar apenas um deles seria impossível. Portanto, a
seleção natural age sobre ambos, escolhendo as combinações mais fortes,
adequadas e aptas a sobreviverem e se reproduzirem.
Em última análise, como Dawkins deixa claro, é sobre os genes que a seleção
atua, sejam animais ou microbianos. Assim, a ideia dos Rosenbergs ficou
conhecida como “teoria hologenômica”: a seleção atua sobre o genoma do
hospedeiro combinado ao do microbioma.
O fato é que o sistema imunológico humano não evoluiu de forma isolada.
Nunca se tratou de um conjunto estéril de nodos, tubos e células itinerantes, à
espera do ataque de um inimigo desconhecido. Pelo contrário, ele “cresceu” com
micróbios de todos os tipos – tanto os que nos deixam claramente doentes
quanto os que nos mantêm saudáveis. Devido a essa associação milenar, o sistema imunológico conta com a presença de micro-organismos. Quando eles
não estão lá, o equilíbrio desaparece. É como se você tivesse aprendido a dirigir
com o freio de mão permanentemente puxado. Depois de ter dominado a
pressão exata que deve aplicar ao acelerador para vencer o freio e fazer o carro
andar, de repente vem alguém, após décadas de direção segura, e solta o freio,
fazendo com que sua direção fique louca e descontrolada enquanto você luta
para seguir em frente.
É claro que mesmo as pessoas menos saudáveis não estão totalmente livres de
microbiota, de modo que não podemos prever ao certo a confusão que o sistema
imunológico poderia causar em sua ausência. Na história da humanidade, apenas
uma pessoa viveu sem microbiota – ou quase. Para isso, esse menino passou a
vida numa bolha em um hospital de Houston. Conhecido pela mídia como o
“Menino da Bolha”, David Vetter sofria de Imunodeficiência Combinada Severa
(SCID), o que significava que ele era completamente incapaz de se defender de
patógenos. Os pais de David haviam perdido o primeiro filho devido a essa
doença, que é hereditária, mas os médicos confiavam que a cura logo seria
encontrada, de modo que a mãe de David resolveu levar sua gravidez adiante.
David nasceu em 1971 de cesariana, numa bolha de plástico esterilizada. Era
manuseado com luvas plásticas e alimentado com fórmula infantil esterilizada.
Jamais conheceu o cheiro da pele da mãe ou o toque da mão do pai. Nunca
brincou com outra criança sem uma proteção de plástico impedindo o
compartilhamento de brinquedos e risadas. Para tirar David da bolha, seria
necessário um transplante da medula de sua irmã. Havia a esperança de que isso
pudesse ativar seu sistema imunológico e libertá-lo da doença. Mas sua irmã não
era compatível e David não teve escolha senão permanecer em sua bolha pelo
resto da vida.
Apesar da doença devastadora, David levou a vida em relativa saúde e nunca
esteve doente até sua morte aos 12 anos. O intrigante é que, apesar de ter uma
memória espacial ruim, ele era hipersensível à passagem do tempo – talvez
porque seu cérebro não precisasse se orientar no espaço, apenas no tempo.
Durante seu isolamento, muitos estudos da saúde física e mental de David foram
realizados, mas os benefícios de uma microbiota saudável ainda não eram
conhecidos. Pensava-se que seu papel se limitasse à sua participação na síntese de
vitaminas, e o impacto de estar livre de germes nunca foi investigado. No final,
na ausência de um doador compatível, decidiu-se que David deveria receber um
transplante de medula óssea da irmã, apesar dos riscos. Um mês após a cirurgia,
ele morreu de linfoma – um tipo de câncer no sistema imunológico. O câncer foi provocado pelo vírus de Epstein-Barr, que estava escondido na medula da irmã e,
sem que os médicos percebessem, foi transferido para David.
Apesar de todos os esforços para manter David livre de germes, desde o
nascimento seu intestino já havia sido colonizado por cada vez mais espécies de
bactérias. Os médicos sabiam disso e periodicamente faziam cultura dos
micróbios nas fezes de David, mas a colônia simples que ele havia adquirido não
parecia estar provocando qualquer dano. Se o menino estivesse mesmo livre de
germes, o legista em sua autópsia teria encontrado um sistema digestivo muito
desproporcional. A primeira porção do intestino grosso que tem o tamanho de
uma bola de tênis – o ceco – ao qual o apêndice está ligado poderia estar do
tamanho de uma bola de futebol. A superfície dobrada do intestino delgado
provavelmente teria uma área bem menor que a normal, sendo suprida por
menos vasos sanguíneos. No entanto, o sistema digestivo de David era como o de
qualquer outra criança.
Essas diferenças gastrointestinais são típicas de animais livres de germes,
embora não esteja claro por quê. Uma pesquisadora me contou que, na primeira
vez em que dissecou um camundongo livre de germes, ficou horrorizada com o
tamanho do ceco, que ocupava quase todo o abdômen. Mais tarde ela descobriu
que todos os camundongos livres de germes têm um ceco superdimensionado.
Seu sistema imunológico também é muito diferente do de animais normais; é
como se nunca tivesse amadurecido após o nascimento. O intestino delgado de
mamíferos colonizados – inclusive os seres humanos – normalmente é salpicado
de aglomerados de células chamados Placas de Peyer que agem como postos de
patrulha de fronteira. Em cada placa há uma fileira de minicentros de controle,
para onde são levadas as partículas não eu que estejam passando por ali. Elas
então são “entrevistadas” por células imunológicas sobre suas intenções. As que
são suspeitas desencadeiam uma caçada a outras partículas similares dentro do
intestino e, ocasionalmente, no resto do corpo. Em animais livres de germes,
porém, há poucos postos de controle; eles ficam muito espaçados e os “guardas”
são mal treinados e lentos na hora de alertar seus colegas de que houve uma
violação da fronteira. Com um sistema imunológico assim, as perspectivas de um
animal livre de germes fora da segurança de sua bolha de isolamento não são
boas. De fato, quando libertados do casulo, os animais livres de germes logo se
tornam presa de alguma infecção e morrem.
Dessa forma, fica claro que a microbiota tem uma grande influência sobre o
desenvolvimento do sistema imunológico, e isso tem um efeito poderoso sobre
sua capacidade de combater doenças. Quando infectados com bactérias do gênero Shigella – que causa diarreia grave em seres humanos –, porquinhos-da-
índia normais não são afetados, mas os livres de germes invariavelmente
morrem. Mesmo acrescentar apenas uma espécie da microbiota normal aos
porquinhos-da-índia já é suficiente para protegê-los dos efeitos fatais da Shigella.
Mas esse efeito não se verifica só em animais sem germes. Antibióticos que
alteram o equilíbrio normal da microbiota dos animais também levam a mais
infecções. Se inserirmos o vírus da gripe na narina de camundongos tratados
com antibióticos, eles não serão capazes de combatê-lo e acabarão ficando
doentes, enquanto aqueles que não estão tomando antibióticos não adoecem. As
células imunológicas e os anticorpos – que marcam os patógenos que devem ser
destruídos – não são produzidos em número suficiente para impedir que a
infecção se espalhe e chegue a seus pulmões.
Parece paradoxal, afinal os antibióticos existem para tratar infecções, não
causá-las. No entanto, apesar de um tratamento com antibióticos poder curar
uma infecção, pode também nos deixar expostos a outras. A explicação óbvia é
que, sem os micróbios protetores, o corpo fica sujeito ao ataque de seus colegas
patogênicos. Mas os antibióticos raramente reduzem o número total de
micróbios protetores presentes. Em vez disso, há uma alteração na composição
das diferentes espécies. Parece que a verdadeira mudança é no modo como o
sistema imunológico se comporta de acordo com quais membros da microbiota
estejam presentes.
A primeira linha de defesa do intestino é uma grossa camada de muco. Perto
das células da mucosa intestinal, o muco está livre de micróbios, mas muitos
membros de sua flora “moram” em sua camada mais externa. O tratamento com
o antibiótico metronidazol, por exemplo, mata apenas as bactérias anaeróbicas –
aquelas que vivem sem oxigênio. Essa mudança na composição da microbiota
altera o comportamento do sistema imunológico, interferindo diretamente em
nossos genes humanos e reduzindo a produção de mucina – proteína necessária
à formação da camada de muco. Com uma camada de proteção mais fina,
micróbios de todos os tipos têm acesso mais fácil à mucosa intestinal. Se eles, ou
seus componentes químicos, conseguem chegar à corrente sanguínea do outro
lado, o sistema imunológico é mobilizado.
Você pode estar se perguntando: se os antibióticos mudaram o
funcionamento do sistema imunológico, será que não ficaríamos ainda mais
doentes ao tomá-los? Em um estudo com 85 mil pacientes, os que tomavam
antibióticos de longo prazo para o tratamento de acne tinham duas vezes mais
chances de contrair resfriados e outras infecções do trato respiratório superior do que pacientes de acne que não tomavam antibióticos. Outro estudo com
estudantes universitários descobriu que tomar antibióticos quadruplicava o risco
de pegar um resfriado.
Mas e o efeito dos antibióticos sobre as alergias? Em 2013, uma equipe de
cientistas da Universidade de Bristol, no Reino Unido, fez a mesma pergunta.
Eles tomaram como base um extenso projeto de pesquisa conhecido como
Crianças dos Anos Noventa, que coletou uma enorme quantidade de
informações de saúde e sociais de crianças nascidas de 14 mil mulheres que
engravidaram no início dos anos 1990. Os dados incluíram registros sobre o uso
de antibióticos na infância. Descobriu-se que aqueles que receberam antibióticos
antes dos 2 anos – com a surpreendente porcentagem de 74% – tiveram em
média duas vezes mais chances de desenvolver asma ao chegarem aos 8 anos.
Quanto mais tratamentos com antibióticos as crianças receberam, maiores foram
as chances de desenvolverem asma, irritações na pele e febre do feno.
Mas correlação nem sempre significa causa. O pesquisador-chefe do estudo
dos antibióticos havia descoberto, quatro anos antes, que quanto mais tempo as
crianças passavam na frente da televisão, maiores eram as suas chances de
desenvolver asma. Claro que, apesar da semelhança dos resultados com o estudo
dos antibióticos, ninguém realmente acreditou que ver televisão pudesse
desencadear uma disfunção imunológica nos pulmões. Na verdade, o número de
horas diante da TV estava sendo usado como um reflexo da quantidade de
exercícios que a criança praticava. Mas o argumento continua válido: como
podemos nos certificar de que a quantidade de antibióticos que uma criança
recebeu não é também um reflexo de alguma outra coisa? Por exemplo, do grau
de superproteção dos pais, ou, o que seria mais pertinente, da possibilidade de
que os antibióticos tenham sido ministrados para tratar sintomas prematuros da
asma para início de conversa. Mas os pesquisadores recalcularam as
probabilidades levando em conta esse dado – dessa vez excluindo qualquer
criança que tivesse apresentado respiração ofegante antes dos 18 meses – e a
correlação se manteve forte.
Claro que o objetivo de qualquer tratamento com antibióticos é livrar o
corpo de alguma infecção, de modo que a hipótese higiênica se sustenta à luz do
vínculo entre antibióticos e alergias. Mas o paradoxo continua: por que o sistema
imunológico iria atacar alergênicos inofensivos, e não a ameaça aparentemente
mais alarmante dos micróbios presentes no corpo? E se o aumento nas alergias
estivesse mesmo ligado à queda nas infecções, por que as pessoas que tiveram
menos infecções não são as que têm mais alergias?
Em 1998, a professora Agnes Wold, da Universidade de Gothenburg, na
Suécia, foi a primeira a oferecer uma alternativa à hipótese higiênica. As
pesquisas sobre a importância da microbiota estavam começando a ganhar força,
e a ausência de correlação entre infecções e alergia havia começado a pôr em
xeque a ideia de Strachan. Além da correlação entre uso de antibióticos e
alergias, havia uma associação mais direta. A pesquisadora Ingegerd Adlerberth,
que era colega de Wold, já havia comparado os micro-organismos de bebês
nascidos em hospitais da Suécia e do Paquistão.
Os bebês nascidos na Suécia, onde a prevalência de alergias é alta, tinham
uma diversidade de bactérias bem menor que os bebês nascidos no Paquistão,
especialmente de um grupo chamado enterobactérias. Claro que o nível de
higiene da Suécia excedia em muito o do Paquistão, mas aqueles bebês não
estavam ficando doentes – não sofriam de infecções. Eles apenas estavam sendo
colonizados por uma maior diversidade de micróbios, sobretudo desse grupo de
bactérias encontradas no ambiente em geral e no intestino adulto – portanto, nas
fezes da mãe. Os protocolos de obstetrícia na Suécia – que em alguns casos
incluíam a limpeza dos genitais da mulher antes do parto – podiam estar
alterando completamente quais micro-organismos se instalariam no intestino
vazio dos recém-nascidos.
Wold achou que era essa mudança na composição da microbiota – e não a
exposição direta às infecções – o que estava causando o aumento nas alergias. Ela
organizou um grande estudo com bebês da Suécia, da Grã-Bretanha e da Itália, e
rastreou as mudanças em sua microbiota ao longo do tempo. Conforme era
esperado, esses bebês ultra-higiênicos haviam sido colonizados por menos
espécies – sobretudo de enterobactérias. Em seu lugar havia mais membros de
um gênero de bactérias tipicamente encontradas na pele, não no intestino – os
estafilococos. Nenhuma espécie isolada ou grupo de micróbios pôde ser
associado ao desenvolvimento de alergias mais tarde na vida, mas a diversidade
geral dos micro-organismos encontrados no intestino dos bebês, sim. Os bebês
que desenvolveram alergias tinham uma diversidade bem menor de bactérias no
intestino do que os que permaneceram saudáveis.
A reformulação da hipótese higiênica original de Strachan ganhou terreno
entre os imunologistas e microbiologistas. Após duas décadas de pesquisas sobre
a microbiota humana, nossa compreensão sobre o que faz com o sistema
imunológico se desenvolva de forma saudável ganhou mais uma camada de
complexidade. Um ambiente superlimpo detém não apenas as doenças
infecciosas, mas também a colonização pelos micróbios que às vezes são chamados de “Velhos Amigos”. Esses Velhos Amigos evoluíram ao nosso lado,
envolvendo-se num diálogo profundo com o sistema imunológico nesse
processo. A hipótese higiênica se transformou na hipótese dos Velhos Amigos –
um novo ponto de vista sobre uma ideia antiga. O que exatamente a microbiota
está informando ao corpo humano – ou ao corpo de qualquer animal? Como o
corpo sabe em quais micro-organismos confiar e quais são os verdadeiros
impostores?
O sistema imunológico lidera uma equipe de diferentes tipos de células, cada
uma com um papel específico na hora de detectar e destruir ameaças. Enquanto
os macrófagos são soldados de infantaria que rapidamente engolem bactérias
ameaçadoras e os linfócitos B de memória são franco-atiradores treinados para
atacar um alvo específico, as células auxiliares T (como Th1 e Th2) são os oficiais
de comunicações, encarregados de alertar a tropa em caso de invasão. Essas
reações começam pelos antígenos, pequenas moléculas na superfície de um
patógeno que o identificam como um inimigo. São como pequenas bandeiras
vermelhas que o sistema imunológico automaticamente reconhece como sinais
de perigo, quer já tenha deparado com aquele patógeno particular antes, quer
não. Como todos os patógenos carregam esses sinais de perigo, eles sempre serão
detectados se entrarem no corpo.
Na época em que a imunologia se baseava no conceito de eu e não eu,
pensava-se que eram os antígenos presentes na superfície de suas células que
traíam a presença dos patógenos. Mas o que os pesquisadores não reconheciam
na época era que os micróbios benéficos também carregam esses sinais de perigo,
enviando ao sistema imunológico a mesma mensagem que os patógenos. Os
sinais de perigo apenas os identificavam como micro-organismos, mas não
informavam ao corpo se eram amigos ou inimigos. A microbiota não estava
simplesmente sendo ignorada por um sistema imunológico esclarecido. Pelo
contrário, nossos micróbios benéficos devem ter encontrado um meio de
persuadir o sistema imunológico a deixá-los ficar.
Você poderia pensar que todas as células imunológicas estão prontas a
destruir alvos e sair à caça de ameaças. Mas, como com todos os sistemas do
corpo, é preciso que haja um equilíbrio. Mensagens pró-inflamatórias (ataque!)
precisam contrabalançar mensagens anti-inflamatórias (retire-se!). O lado anti-
inflamatório da equação fica a cargo de uma célula imunológica recém-
descoberta, a célula T reguladora, que age como um coordenador das reações
imunológicas em geral. Conhecidas como T , essas células acalmam os regs
linfócitos agressivos e sedentos de sangue do sistema imunológico. Quanto mais Tregs, menos reativo será o sistema; e quanto menos, com mais agressividade ele
vai reagir.
Porém, dados novos e surpreendentes indicam que o comandante das Tregs
anti-inflamatórias não é um tipo superior de célula humana agindo apenas de
acordo com os interesses do corpo. Pelo contrário, a microbiota é quem dá as
ordens, usando as T como peões. Ao manipular os números dessas células regs
“calmantes”, ela assegura sua própria sobrevivência, já que um sistema
imunológico calmo e tolerante significa uma vida fácil, sem medo de ataque ou
eliminação. A ideia de que nossa microbiota evoluiu de forma a suprimir nosso
sistema imunológico em seu próprio benefício é um tanto assustadora. Mas não
precisamos nos preocupar – nossa longa história de evolução lado a lado com
nossa microbiota ajustou perfeitamente o equilíbrio imunológico, e, assim, todos
saem ganhando.
Mais preocupante é a perda da diversidade que atingiu a microbiota dos seres
humanos que têm um estilo de vida ocidentalizado. Quais são as implicações
disso para as T ? Uma equipe de cientistas que incluía Agnes Wold fez essa regs
mesma pergunta. Para chegar a uma conclusão, resolveram usar o velho favorito
dos laboratórios: os camundongos livres de germes. Eles mediram a eficácia das
T de camundongos livres de germes e a compararam com a de camundongos regs
normais. Nos primeiros, foi necessária uma maior quantidade de T em relação regs
às células atacantes para suprimir a reação imunológica agressiva, mostrando que
essas células, quando produzidas na ausência de uma microbiota, eram muito
menos poderosas que aquelas presentes em um camundongo normal. Em outro
experimento, acrescentaram a microbiota de um intestino normal a um
camundongo livre de germes, e isso aumentou o número de T produzidas pelo regs
animal, acalmando o comportamento agressivo do sistema imunológico.
Então como os membros da microbiota são capazes disso? A superfície de
suas células está coberta de sinais de perigo – iguais aos dos micro-organismos
patogênicos. No entanto, em vez de irritar o sistema imunológico, eles
conseguem acalmá-lo. Parece que, para que isso seja possível, cada espécie
benéfica deve ter sua própria senha, conhecida apenas por ela e pelo sistema
imunológico. O professor Sarkis Mazmanian, do Instituto de Tecnologia da
Califórnia, descobriu a senha de uma bactéria chamada Bacteroides fragilis. Essa
espécie é uma das mais numerosas em nossa microbiota e com frequência fixa
residência no intestino logo após o nascimento. Ela produz uma substância
química chamada polissacarídeo A, ou PSA, que é liberada em cápsulas minúsculas. Uma vez engolidas pelas células imunológicas do intestino grosso,
essas cápsulas desencadeiam a ativação de T , que, por sua vez, enviam regs
mensagens químicas calmantes às outras células imunológicas e as impedem de
atacarem a B. fragilis.
Usando o PSA como senha, a B. fragilis converte a reação pró-inflamatória
do sistema imunológico em seu oposto. É provável que o PSA e as outras senhas
produzidas por essas bactérias que colonizam o intestino no início da vida sejam
importantes para acalmar a reação imunológica e impedir o surgimento de
alergias. Muitas variedades dessas senhas devem ter evoluído para serem
produzidas por grupos específicos de micróbios que ganharam aceitação como
membros do clube exclusivo que é o corpo humano. Animais com alergias são
deficientes em T e parece que, sem sua influência calmante, o freio de mão fica regs
solto e o sistema imunológico avança em velocidade máxima, atacando até
mesmo a mais inócua das substâncias.
Permitam que eu fale agora sobre o cólera – a doença por trás dos litros de
diarreia aquosa esbranquiçada que contaminaram o suprimento de água do Soho
em 1854 e ainda hoje causa surtos terríveis nos países em desenvolvimento. Ela é
provocada por uma bacteriazinha desagradável chamada Vibrio cholerae – que
coloniza o intestino delgado. Mas esse patógeno não pretende ficar por muito
tempo. Enquanto a maioria das bactérias infecciosas tenta enganar o sistema
imunológico até estar forte o suficiente para resistir ao ataque e causar uma
infecção persistente, a V. cholerae anuncia sua presença desde o momento de
chegada. Na primeira fase da missão, ela se prende à parede intestinal e se
reproduz o mais rápido possível. Só que em vez de querer permanecer ali para
causar uma infecção permanente, essa bactéria tem outro objetivo. Ela sai, e faz
isso em grandes números, misturada com a diarreia aquosa que drena do corpo
de seu hospedeiro.
A diarreia é uma estratégia tanto dessa bactéria quanto do sistema
imunológico. A bactéria a emprega como uma oportunidade para sair e infectar
novos hospedeiros, enquanto o sistema imunológico se utiliza dela para se livrar
de patógenos e suas toxinas. O mecanismo funciona mais ou menos assim: a
parede intestinal é parecida com uma parede de tijolos – com várias células
juntas, uma ao lado da outra. Mas, em vez de cimento, elas permanecem ligadas
por proteínas semelhantes a cadeias. Isso torna a parede um pouco mais flexível.
Na maior parte do tempo, tudo que tenta atravessar do intestino para a corrente
sanguínea é forçado a passar diretamente por uma célula, onde está sujeito a todo tipo de interrogatório. Mas, às vezes, as cadeias de proteínas podem se afrouxar
um pouco, permitindo que substâncias passem do sangue ao intestino e vice-
versa. Caso seja necessário, a água do sangue pode passar entre as células da
mucosa intestinal, penetrando no intestino e causando diarreia. Algo útil quando
o corpo precisa se livrar de um patógeno.
Dois fatos são notáveis sobre a estratégia de saída da V. cholerae, um deles
está ligado ao impacto de nossas colônias microbianas específicas e ao
funcionamento de nosso sistema imunológico. O outro, pelo qual começarei, é
apenas interessante.
As bactérias V. cholerae conversam umas com as outras antes de partirem.
Não estou sendo antropomórfico aqui. Essas, e muitas outras bactérias,
realmente conversam. Sua estratégia infecciosa é mais ou menos assim. Fase um:
infectar o intestino delgado e se reproduzir feito coelhos. Fase dois: quando a
população atingir um determinado tamanho e o hospedeiro estiver à beira da
morte, sair em uma torrente de diarreia, pronta para infectar dez novos
hospedeiros. A dificuldade dessa lógica é como “saber” que a população atingiu o
tamanho suficiente para abandonar o barco. A solução se chama percepção de
quorum. Cada indivíduo constantemente libera uma quantidade ínfima de uma
substância química. No caso da V. cholerae, chama-se Autoindutor 1 do Cólera,
ou CAI-1. Quanto mais bactérias na população, maior a concentração de CAI-1
ao seu redor. E então, a certa altura, o “quorum” é alcançado – ou seja, o número
mínimo de membros está presente para votar. Com isso, eles sentem que está na
hora de partir.
A forma como fazem tudo isso funcionar é igualmente ágil. A concentração
de CAI-1, junto com outro autoindutor, o AI2, faz com que a V. cholerae mude a
expressão de seus genes. Coletivamente, os indivíduos desligam os genes que os
ajudam a ficarem presos à parede intestinal e depois ligam um conjunto de genes
que produzem substâncias que forçam a parede intestinal a abrir as comportas.
Um desses genes codifica uma toxina chamada zonula occludens (Zot), que foi
descoberta pelo cientista e gastrenterologista italiano Alessio Fasano, que
trabalha no Hospital Geral Infantil de Boston. Essa toxina afrouxa as cadeias que
mantêm as células intestinais juntinhas, permitindo que a água entre e a V.
cholerae saia pelos intestinos, ganhando a liberdade.
A descoberta de Fasano levou-o a pensar: essa toxina é uma chave viral que se
encaixa em uma fechadura humana, mas o que essa fechadura está fazendo ali?
Será que já existia uma chave humana, feita para aquela fechadura, que foi
copiada pela V. cholerae? Como era de esperar, Fasano descobriu uma nova proteína humana semelhante à Zot, que chamou de “zonulina”. Assim como a
outra, a zonulina interfere nas cadeias que mantêm as células intestinais coladas
umas nas outras, controlando assim a permeabilidade da parede intestinal.
Quanto mais zonulina, mais as cadeias se afrouxam e as células se afastam,
permitindo que moléculas maiores entrem no sangue e saiam dele.
A descoberta da zonulina nos traz à parte pertinente à imunidade. Na
presença de uma microbiota normal e saudável, as cadeias ficam fechadas e as
células, rigidamente ligadas. Nada de grande ou perigoso pode alcançar a
corrente sanguínea. Mas quando a microbiota entra em desequilíbrio, passa a
agir um pouco como uma versão mais branda da V. cholerae, irritando o sistema
imunológico. Em reação, ele tenta se defender liberando zonulina para soltar as
cadeias, separar as células das paredes intestinais e “dar descarga” no sistema.
Assim, a mucosa do intestino deixa de ser uma barreira impenetrável que repele
tudo exceto minúsculas moléculas de alimento e começa a ter vazamentos. Pelas
lacunas entre as células, todo tipo de invasor pode entrar, abrindo caminho para
a terra prometida do corpo.
Ora, isso nos leva a um tema polêmico. O intestino poroso é um dos favoritos
da indústria da saúde alternativa – que pode ser tão gananciosa e mentirosa
quanto sua irmã dominante, a grande indústria farmacêutica. Alegações de que a
“síndrome do intestino permeável” seria a raiz de todas as doenças e de muitos
outros males são tão velhas quanto o campo dos tratamentos alternativos. Mas só
recentemente a compreensão científica de suas causas, mecanismos ou
consequências se tornou mais clara. Embora a grande indústria farmacêutica
tenha suas próprias falhas, poderíamos dizer que a “medicina alternativa” usa
dois tipos de tratamentos: aqueles que não funcionam suficientemente bem para
merecerem o título de “remédio” e aqueles ainda não foram respaldados por
evidências clínicas e científicas. Talvez uma terceira categoria de tratamento
mereça ser mencionada: os que não podem ser patenteados e vendidos, como o
repouso e uma dieta saudável.
A comunidade científica e médica desconfia do conceito de intestino
permeável – que, no entanto, oferece uma explicação plausível a pacientes
cansados de não obter respostas sobre fadiga persistente, dor, problemas no
estômago, dores de cabeça, etc. É um diagnóstico que tanto adeptos bem-
informados e bem intencionados da saúde alternativa quanto charlatões que
entraram na onda podem facilmente dar aos pacientes, e cuja cura conta com um
conjunto razoável de recomendações de estilo de vida. Existem até testes que os
pacientes podem fazer e que, quando aplicados de maneira correta, medem o grau de “vazamento”, permitindo ao adepto da saúde alternativa não apenas dar
uma medida do problema, mas buscar melhorias. Porém, para os médicos,
poucos indícios passam pelo crivo dos departamentos de saúde e das faculdades
de medicina em apoio ao conceito – e sua credibilidade permanece baixa. O site
do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido desencoraja os pacientes que
pretendem explorar a ideia:
Os defensores da “síndrome do intestino permeável” – na maior parte
nutricionistas e praticantes da medicina complementar e alternativa –
acreditam que a mucosa do intestino pode ficar irritada e “porosa” como
resultado de um conjunto de fatores bem mais amplo, que incluem o
crescimento excessivo de fungos ou bactérias no intestino, uma dieta
ruim e o uso exagerado de antibióticos. Eles acreditam que partículas não
digeridas dos alimentos, toxinas bacterianas e germes possam atravessar a
parede “permeável” do intestino e penetrar na corrente sanguínea,
acionando o sistema imunológico e causando uma inflamação persistente
pelo corpo. Isso, dizem, estaria associado a uma série bem mais ampla de
problemas de saúde e doenças. Esta teoria é vaga e em grande parte ainda
não foi comprovada.
No entanto, esse ponto de vista está ficando rapidamente ultrapassado. A
relutância em se alinhar com a medicina alternativa e se arriscar a perder a
credibilidade talvez venha desencorajando cientistas e médicos envolvidos na
pesquisa da permeabilidade intestinal e da inflamação crônica. Por medo de tirar
meus leitores mais céticos de sua zona de conforto, hesito em trazer esse tema à
tona num livro rigorosamente baseado em pesquisas científicas. Mas a base de
pesquisas vem crescendo e os mecanismos de funcionamento vêm sendo
revelados. Antes de decidir se isso é charlatanismo ou realidade, permita que eu
recapitule as evidências.
Tudo começou com Alessio Fasano e a zonulina. Embora sua intenção fosse
aprender mais sobre as táticas de invasão do vibrião do cólera, ele acabou
percebendo que tinha encontrado respostas para outro problema, bem mais
próximo de casa. Na década de 1990, Fasano tinha acabado de chegar da Itália e
era gastrenterologista pediátrico nos Estados Unidos. Entre seus pacientes havia
crianças com doença celíaca – relativamente incomum até então. A doença nem
sequer fora mencionada num grande relatório de 800 páginas sobre doenças
digestivas publicado em 1994. As crianças de que Fasano vinha tratando ficavam muito mal se consumissem mesmo uma quantidade ínfima de uma proteína
encontrada nos grãos de trigo, centeio e cevada: o glúten. Na doença celíaca, essa
proteína provoca uma reação autoimune. As células imunológicas tratam-na
como um invasor, produzindo anticorpos contra ela. Esses anticorpos também
atacam as células intestinais, causando danos, dor e diarreia.
A doença celíaca é uma doença autoimune muito especial. É a única cujo
responsável por desencadeá-la é conhecido. Essa informação deixou os
imunologistas contentes: eles já sabiam o que a estava causando. Os geneticistas
também ficaram satisfeitos: vários genes que tornam algumas pessoas mais
suscetíveis à doença celíaca do que outras haviam sido identificados. Genes ruins
somado a um gatilho ambiental é igual a doença, eles pensaram. Mas Fasano não
estava satisfeito. Para o glúten causar a doença, precisava entrar em contato com
as células imunológicas. Só que, para isso, teria que atravessar a mucosa do
intestino. Pela mesma razão que obriga os diabéticos a injetar insulina, em vez de
engoli-la, o glúten não é capaz disso. Simplesmente é uma proteína grande
demais para conseguir passar pela parede intestinal.
A descoberta da toxina do cólera, Zot, e de seu equivalente humano, a
zonulina, revelou-se a pista de que ele precisava. Mas apenas o glúten e uma série
de genes ruins não são suficientes para fazer com que as pessoas desenvolvam a
doença celíaca, quer tenham 8 ou 80 anos. Algo tem que deixar o glúten passar.
Como sabia que as paredes intestinais ficavam permeáveis na doença celíaca,
Fasano teve um palpite. Talvez a zonulina tivesse algo a ver com tudo aquilo. Ao
examinar o tecido intestinal de crianças com doença celíaca e sem a doença, suas
suspeitas se comprovaram: aquelas com a doença tinham níveis de zonulina bem
maiores. Sua parede intestinal estava se abrindo e deixando as proteínas de
glúten passarem para a corrente sanguínea, onde desencadeavam uma reação
autoimune. Atualmente, cerca de 1% da população ocidental sofre dessa doença.
Os celíacos não são os únicos que têm um intestino permeável e altos níveis
de zonulina. Os diabéticos Tipo 1 também têm um intestino particularmente
poroso, e Fasano descobriu que a zonulina estava por trás disso mais uma vez.
Numa espécie de rato usado para a pesquisa da diabetes, o intestino permeável
sempre antecede a doença em várias semanas, indicando que também é um
estágio necessário no desenvolvimento dessa doença autoimune. Quando uma
droga para bloquear a ação da zonulina foi dada aos ratinhos, isso impediu que
dois terços deles ficassem diabéticos. E quanto às outras doenças do século XXI?
Será que em alguma delas também se encontram intestinos permeáveis ou níveis
elevados de zonulina?
Vamos começar pela obesidade. Como mencionei no capítulo 2, o ganho de
peso estava associado a altos níveis de um composto químico chamado
lipopolissacarídeo, ou LPS, na corrente sanguínea. É como se fossem células
epiteliais das bactérias. Elas mantêm as entranhas da bactéria no lado de dentro,
e as ameaças externas do lado de fora. Assim como as células da pele, elas
também se soltam, num processo constante de renovação. As moléculas de LPS
revestem a superfície das bactérias Gram-negativas. Trata-se de um agrupamento
que tem mais a ver com a identificação e a função do micro-organismo do que
com dados rígidos de espécie, gênero ou filo. Tanto bactérias Gram-negativas
quanto Gram-positivas vivem no intestino, e nenhuma delas é inerentemente
“boa” ou “má”. Mas os altos níveis de LPS das bactérias Gram-negativas
encontrados no sangue de pessoas obesas são nocivos e suscitam uma pergunta:
como é que eles foram parar lá?
O LPS é uma molécula relativamente grande, que, sob circunstâncias
normais, não é capaz de atravessar a mucosa do intestino. Mas quando a
permeabilidade aumenta – ou seja, quando o intestino começa a “vazar” – o LPS
se esgueira entre as células da parede intestinal, entrando no sangue. No
caminho, acaba acionando receptores – guardas posicionados para assegurar que
ninguém rompa a barreira e passe para o outro lado. Sua reação ao deparar com
o LPS é alertar o sistema imunológico, que libera mensageiros químicos
chamados citocinas para percorrerem o corpo soando o alarme e incitando as
tropas.
No processo, o corpo inteiro pode ficar inflamado. Células imunológicas
chamadas fagócitos inundam as células adiposas – responsáveis por armazenar a
gordura –, forçando-as ficarem cada vez maiores, em vez de se dividirem em
duas. Até 50% do conteúdo dessas células em uma pessoa obesa pode não ser
formado por gordura, mas por fagócitos. O corpo das pessoas com excesso de
peso e obesas se encontra num estado de inflamação leve, mas crônica. Além de
encorajar o aumento do peso, o LPS no sangue também interfere com o
hormônio insulina, provocando diabetes tipo 2 e doença cardíaca.
O excesso de LPS no sangue também foi associado ao surgimento de doenças
mentais. Pacientes deprimidos, crianças autistas e esquizofrênicos costumam ter
intestinos permeáveis e inflamação crônica. O intrigante é que acontecimentos
traumáticos – como ser separado da mãe quando bebê e perder um ente querido
– podem tornar o intestino poroso. Ainda não está claro se esse é o elo biológico
perdido entre o estresse e o desenvolvimento de depressão, mas, assim como no
caso do eixo intestino-microbiota-cérebro, os indícios estão cada vez mais fortes. A depressão com frequência acompanha problemas de saúde, da obesidade à
síndrome do intestino irritável e à acne, mas costuma ser atribuída ao tormento
das próprias doenças. A ideia de que um intestino permeável leva à inflamação
crônica e desencadeia problemas de saúde físicos e mentais é bastante
promissora para a ciência médica.
O intestino permeável pode não ser a causa de todas as doenças – menos
ainda dos males políticos e sociais que alguns gostariam de lhe atribuir. Mas o
conceito precisa ser repensado e renomeado em face do ceticismo que suscita
atualmente. Um trabalho científico de boa qualidade sobre a importância dele na
gênese de uma série de distúrbios vem sendo eclipsado por seu passado suspeito.
Obesidade, alergias, doenças autoimunes e mentais mostram um aumento
significativo na permeabilidade do intestino, seguida por uma inflamação
crônica. O sistema imunológico fica hiperativo e reage aos invasores que
transpõem a fronteira do intestino corpo adentro: de moléculas de alimentos
como o glúten e a lactose até produtos bacterianos como o LPS. Às vezes as
células do próprio corpo são pegas no fogo cruzado, e o resultado disso são as
doenças autoimunes. Uma microbiota equilibrada e saudável parece agir como
uma força de defesa, como guardas que reforçam a integridade do intestino e
protegem a inviolabilidade do corpo.
Não apenas os alergênicos e as células do próprio corpo são pegos na linha de
fogo, mas também certos membros da microbiota, como parece ocorrer com
uma doença quase onipresente no mundo civilizado: a acne. Em nome da
pesquisa científica, visitei alguns dos locais mais isolados do planeta. Grande
parte de meu tempo longe da fria e úmida metrópole de Londres foi gasta em
habitats e culturas totalmente diferentes da minha. Selvas onde as pessoas caçam
gambás ou outros roedores para o jantar. Desertos onde o meio de transporte
mais rápido é um camelo. Comunidades nômades com aldeias inteiras flutuando
em balsas no mar. Em todas elas, o dia a dia é diferente da vida no meu país. A
comida é capturada, morta e consumida, sem necessidade de supermercados ou
embalagens. O anoitecer traz as trevas, rompidas apenas pelo lampião a óleo ou
uma fogueira. Uma doença sempre vem acompanhada da possibilidade bem real
de morte iminente. Existem lugares onde uma criança dormindo pode perder
um olho para uma galinha, um acidente de trabalho seria cair de uma árvore
durante a coleta de mel e a falta de chuva significaria nada de jantar. Ou seja, as
refeições são o que você consegue cultivar ou capturar e a assistência médica se
limita a alguma erva e uma oração.
O que você não vê nos planaltos de Papua-Nova Guiné, a dezenas de
quilômetros da estrada mais próxima, ou nas aldeias do mar de Sulawesi na
Indonésia, são pessoas com acne. Nem mesmo adolescentes. No entanto, na
Austrália, na Europa, nos Estados Unidos, no Japão, todo mundo tem. Eu digo
todo mundo – e isso é quase verdade. Mais de 90% das pessoas no mundo
industrializado sofreram com as espinhas em algum ponto da vida. Os
adolescentes são os mais atingidos, mas nas últimas décadas parece que a acne se
espalhou para além deles. Agora os adultos, principalmente as mulheres,
continuam tendo acne quando chegam à casa dos 20 e dos 30 – e às vezes além.
Cerca de 40% das mulheres entre 25 e 40 anos ainda têm espinhas, e muitas delas
nem sequer sofreram com esse problema quando eram adolescentes. A acne leva
mais pessoas ao dermatologista do que qualquer outro problema de pele. Como a
febre do feno, espinhas parecem parte da vida, sobretudo na adolescência. Mas,
se isso é verdade, por que as pessoas das sociedades pré-industriais não sofrem
de acne também?
Um pouco de reflexão denuncia que o fato de tantas pessoas terem acne é
absurdo. Ainda mais absurdo é que há poucas pesquisas para desvendar sua
causa, apesar do aumento inexorável dos casos, sobretudo entre adultos, que há
muito tempo já passaram pela puberdade. Viemos insistindo na mesma velha
explicação por mais de meio século: hormônios “masculinos” hiperativos, sebo
em excesso, um frenesi de Propionibacterium acnes levando a uma reação
imunológica feia, com vermelhidão, inchaço e glóbulos brancos (pus). Mas essa
explicação não resiste a uma inspeção cuidadosa. As mulheres com níveis mais
elevados de andrógenos – os hormônios masculinos considerados responsáveis
pela acne – não são os casos mais severos da doença. E os homens, que têm níveis
de andrógenos muito mais elevados, não sofrem de acne tanto quanto as
mulheres.
Então, o que está acontecendo? Novas pesquisas indicam que estávamos
procurando no lugar errado. A ideia de que a P. acnes causa a acne já existe há
décadas. Parece óbvio. Quer saber o que vem causando espinhas? Então olhe
dentro de uma espinha e veja quais micróbios estão por lá. Não importa que
essas mesmas bactérias também sejam encontradas na pele saudável de vítimas
de acne e na de pessoas sem nenhuma acne. Não importa que algumas espinhas
simplesmente não contenham nenhuma P. acnes. A densidade de P. acnes não
está relacionada à gravidade da acne, e níveis de sebo e hormônios masculinos
não prognosticam a presença da doença.
O fato de que antibióticos, tanto os aplicados diretamente no rosto quanto os
ministrados em comprimidos, costumam melhorar a acne tem reforçado essa
teoria. Os antibióticos são o tipo de medicamento mais prescrito para espinhas, e
muitas pessoas permanecem em tratamento durante meses ou anos. Mas eles não
atingem apenas as bactérias que vivem na pele. As do intestino também são
afetadas. Vimos anteriormente que os antibióticos alteram o comportamento do
sistema imunológico. Seria esse o verdadeiro motivo de sua ação contra a acne?
O que está ficando claro é que a presença de P. acnes não é determinante para
o desenvolvimento da acne. Ainda há debates sobre qual seria o verdadeiro papel
desempenhado por essa bactéria da pele, mas estão surgindo novas ideias sobre a
contribuição do sistema imunológico para essa doença. A pele dos pacientes com
acne contém células imunológicas extras, mesmo em áreas aparentemente
saudáveis. Parece que a espinha é só mais uma manifestação da inflamação
crônica. Alguns chegam a cogitar a hipótese de que o sistema imunológico tenha
se tornado hipersensível à P. acnes e talvez outros micróbios da pele, deixando de
tratá-los como amigos.
O mesmo vale para as doenças inflamatórias intestinais: a doença de Crohn e
a colite ulcerativa. Possivelmente devido a uma mudança na composição normal
da microbiota, as células imunológicas do intestino parecem perder o respeito
que costumam ter pela colônia do intestino. Pode ser porque as células T , com regs
sua influência calmante, tenham desistido de controlar os membros mais
agressivos do pelotão imunológico. Assim, em vez de tolerarem e encorajarem a
presença dos micro-organismos benéficos, elas decidem atacá-los. Trata-se
menos de autoimunidade – dirigida contra o eu – do que de coimunidade –
ataques imunológicos contra os micróbios “comensais” que normalmente vivem
numa relação de mutualismo benéfica para o nosso corpo.
As vítimas de doença inflamatória intestinal têm uma chance muito maior de
desenvolver cânceres colorretais, e isso aponta para uma ligação mais profunda
entre disbiose e saúde. Há muito se sabe que certas infecções podem provocar
câncer. O papilomavírus humano (HPV), por exemplo, está por trás da maioria
dos casos de câncer cervical, e a bactéria Helicobacter pylori, que causa úlceras
estomacais, pode também provocar câncer no estômago. A disbiose que
acompanha a doença inflamatória intestinal parece aumentar ainda mais o risco.
A inflamação causada por esse desequilíbrio da flora bacteriana de algum modo
danifica o DNA das células humanas que revestem a parede do intestino,
permitindo o desenvolvimento de tumores.
O papel desempenhado pela microbiota no câncer não se limita aos tumores
do sistema digestivo. Como a disbiose pode aumentar a permeabilidade do
intestino e desencadear um processo inflamatório, cânceres em outros órgãos
também podem ser causados por uma microbiota em desequilíbrio. O câncer no
fígado oferece o melhor exemplo de como isso acontece. Num experimento para
descobrir como a obesidade e uma dieta rica em gordura poderiam estar
envolvidas no surgimento de tumores, pesquisadores expuseram camundongos
magros e obesos a substâncias químicas cancerígenas. A maioria dos
camundongos magros resistiram, mas um terço dos camundongos obesos
desenvolveram câncer do fígado. Sem entenderem como uma dieta rica em
gorduras poderia provocar um câncer fora do intestino, os pesquisadores
compararam o sangue dos dois grupos de camundongos. Os camundongos
obesos tinham níveis mais altos de um composto químico prejudicial chamado
ácido deoxicólico (DCA), que sabidamente causa danos ao DNA.
O DCA é produzido por ácidos da bile – substâncias produzidas para ajudar
na digestão de gorduras na dieta. Mas os ácidos da bile se convertem em DCA –
que precisa depois ser decomposto no fígado – apenas na presença de um grupo
particular de micróbios do gênero Clostridium. Os camundongos obesos tinham
níveis muito maiores de clostrídios no intestino do que os magros, o que os
tornava especialmente suscetíveis a desenvolver câncer no fígado. Atacar os
clostrídios nos camundongos obesos com antibióticos reduziu suas chances de
contraírem câncer.
Todo mundo sabe que fumar e beber eleva o risco de câncer, mas o que
pouca gente sabe é que temos uma chance muito maior de contrair câncer se
estivermos com excesso de peso. Nos homens, estima-se que 14% das mortes por
câncer estejam ligadas ao excesso de peso. Nas mulheres, essa cifra é ainda maior:
20%. Acredita-se que muitos casos de câncer do seio, do útero, do cólon ou do
rim estejam associados ao sobrepeso e que a microbiota “obesa” tenha alguma
culpa na história.
O grande paradoxo da saúde no século XXI, agora que o domínio das
doenças infecciosas chegou ao fim, é que nossa saúde pode depender de termos
mais micróbios, não menos. Está na hora de passarmos da hipótese higiênica
para a hipótese dos Velhos Amigos: o que está em falta não são as infecções, mas
os micro-organismos benéficos que treinam e acalmam nosso sistema
imunológico em desenvolvimento.
No capítulo 1, perguntei qual seria a conexão entre as doenças do século XXI,
aparentemente tão díspares – obesidade, alergias, doenças autoimunes e mentais. A resposta é o que todas elas têm em comum: a inflamação. Nosso sistema
imunológico, longe de ter entrado de férias agora que as doenças infecciosas
foram vencidas, está mais ativo do que nunca. Agora ele enfrenta uma guerra
incessante, não porque existam mais inimigos, mas porque, por um lado,
baixamos a guarda e abrimos as fronteiras para os micro-organismos que
deveriam ser nossos aliados e, por outro, perdemos a força pacificadora que esses
micróbios treinam.
Portanto, se você quer mesmo fortalecer seu sistema imunológico, desista das
frutinhas caras e dos sucos especiais. Em vez disso, ponha sua microbiota em
primeiro lugar, e o resto virá naturalmente.