10% Humano
Introdução: Os outros 90%
INTRODUÇÃO
Os outros 90%
Em maio de 2000, semanas antes do anúncio do primeiro esboço do genoma
humano, um caderno começou a circular entre alguns cientistas sentados no bar
em frente ao Laboratório Cold Spring Harbor, no estado de Nova York. Todos
estavam muito entusiasmados com a próxima fase do Projeto Genoma Humano,
em que a sequência de DNA seria dividida em suas partes funcionais: os genes. O
caderno continha uma aposta em bolão, os palpites do grupo mais bem
informado no planeta sobre uma questão intrigante: de quantos genes se
constitui o ser humano?
A cientista veterana Lee Rowen, que liderava um grupo trabalhando na
decodificação dos cromossomos 14 e 15, bebericava sua cerveja enquanto refletia
sobre a questão. Os genes produzem proteínas, os “tijolos” da vida, e a mera
complexidade do ser humano tornava provável que o número fosse alto. Maior
que o do camundongo, com certeza, que possui 23 mil genes. Provavelmente
também maior que o do trigo, que tem 26 mil genes. E, sem dúvida, bem maior
que o do verme C. elegans, uma das espécies favoritas dos biólogos de
laboratório, com seus 20.500 genes.
Os palpites em média superavam os 55 mil genes e chegavam a 150 mil, mas
os conhecimentos de Rowen a levaram a um palpite mais modesto. Ela apostou
em 41.440 genes naquele ano e, no seguinte, arriscou que teríamos 25.947 genes.
Em 2003, com a divulgação do número real de genes e a conclusão do
sequenciamento do genoma humano, Rowen ganhou o bolão. Seu palpite fora o
mais baixo dentre todas as 165 apostas, e a contagem de genes era inferior ao que
qualquer cientista havia previsto.
Com quase 20 mil genes, o genoma humano nem chega a superar o do verme
C. elegans. Tem metade dos genes de um pé de arroz, e até a humilde pulga-
d’água ultrapassa esse número, com 31 mil genes. Nenhuma dessas espécies é capaz de falar, criar ou ter pensamentos inteligentes. Você pode pensar, assim
como os cientistas que participaram do bolão, que o ser humano deveria ter
muito mais genes que gramíneas, vermes e pulgas. Afinal, genes constroem
proteínas, e proteínas constroem corpos. Com certeza um corpo tão complexo e
sofisticado quanto o humano precisaria de mais proteínas e, portanto, de mais
genes do que um verme.
Mas esses 20 mil genes não controlam nosso corpo sozinhos. Não estamos
sós. Cada pessoa é um superorganismo, uma coletividade de espécies vivendo
lado a lado, em cooperação, para controlar o corpo que nos sustenta. Nossas
células, embora bem maiores em volume e peso, são superadas à razão de dez
para uma pelas células dos micróbios que moram dentro da gente e sobre nosso
corpo. Esses 100 trilhões de micro-organismos – conhecidos como a microbiota
– são predominantemente compostos por bactérias: seres microscópicos
constituídos de uma só célula. Junto com elas, há outros: vírus, fungos e arqueias.
Os vírus são tão pequenos e simples que colocam em xeque o conceito do que
seria necessário para constituir “vida”, pois dependem das células de outras
criaturas para se replicarem. Os fungos que vivem em nós em geral são levedos,
organismos mais complexos do que bactérias, mas ainda assim unicelulares. As
arqueias formam um grupo semelhante às bactérias, mas suas diferenças, em
termos evolutivos, são tão significativas quanto as que separam as plantas dos
animais. Juntos, os micro-organismos vivendo no corpo humano somam 4,4
milhões de genes – esse é o microbioma: o genoma coletivo de nossa microbiota.
Esses genes cumprem seu papel no controle de nosso corpo junto com nossos 20
mil genes humanos. Segundo esses números, você é apenas 0,5% humano.
Agora já sabemos que o genoma humano deve sua complexidade não
somente ao número de genes que contém, mas também às muitas combinações
de proteínas que esses genes são capazes de produzir. No caso dos humanos e de
algumas outras espécies, eles são capazes de desempenhar mais funções do que
poderíamos pensar à primeira vista. Além disso, os genes de nossos micróbios
acrescentam ainda mais complexidade a essa mistura, oferecendo com maior
facilidade ao corpo humano serviços que evoluíram rapidamente.
Uma árvore da vida simplificada, mostrando os três domínios e os
quatro reinos do Domínio Eukaria
Até recentemente, para estudar esses micro-organismos, tínhamos que
cultivá-los em placas de Petri cheias de componentes sanguíneos, tutano ósseo
ou açúcares, suspensos em geleia. Só que essa era uma tarefa difícil, pois já vimos
que a maioria das espécies que moram no intestino humano morre quando é
exposta ao oxigênio. Além disso, para que os micro-organismos das placas
crescessem, precisávamos adivinhar quais eram os nutrientes, a temperatura e os
gases necessários à sua sobrevivência. Se não descobríssemos isso tudo, não era
possível aprender mais sobre a espécie em questão. Era mais ou menos como
conferir quem faltou à aula fazendo uma chamada – se você não chama algum
nome, não tem como saber se a pessoa está ali. Felizmente, os avanços da
tecnologia hoje permitem o sequenciamento do DNA de forma rápida e barata –
graças aos esforços dos cientistas do Projeto Genoma Humano –, e mesmo
aqueles componentes que você não estava esperando encontrar podem ser
detectados.
Conforme o Projeto Genoma Humano ia chegando ao fim, as expectativas
aumentavam. O Projeto era visto como a chave para a nossa humanidade, a
maior obra de Deus, e uma biblioteca contendo o segredo de todas as doenças.
Quando o primeiro esboço ficou pronto em junho de 2000, vários anos adiantado e sob um orçamento de 2,7 bilhões de dólares, o presidente norte-
americano Bill Clinton declarou:
Hoje estamos aprendendo o idioma em que Deus criou a vida. Estamos
ficando cada vez mais impressionados pela complexidade, beleza,
maravilha do dom mais divino e sagrado de Deus. Com esse profundo
conhecimento novo, a humanidade está à beira de ganhar um imenso e
novo poder de cura. A ciência do genoma terá um impacto real sobre a
nossa vida – e, ainda mais, sobre a vida de nossos filhos. Ela vai
revolucionar o diagnóstico, a prevenção e o tratamento da maioria, senão
de todas, as doenças humanas.
Mas, nos anos que se seguiram, jornalistas científicos do mundo inteiro
começaram a expressar sua decepção com a contribuição que o conhecimento da
sequência completa do nosso DNA tinha dado à medicina. Embora decodificar
nosso livro de instruções tenha sido uma realização indiscutível que fez diferença
para o tratamento de diversas doenças importantes, isso não foi suficiente para
revelar o que esperávamos descobrir sobre a causa de muitas delas. Buscar
diferenças genéticas comuns a pessoas que têm uma enfermidade específica não
se mostrou útil para identificar vínculos diretos entre os genes e as doenças,
como se esperava. Com frequência, algumas doenças foram associadas a dezenas
ou centenas de variantes de genes, mas raras vezes uma dada variante genética
determinou diretamente o aparecimento de dada doença.
O que deixamos de perceber na virada do século foi que aqueles 20 mil genes
não são a história toda. A tecnologia de sequenciamento do DNA inventada
durante o Projeto Genoma Humano tornou possível outro grande projeto de
sequenciamento genético que recebeu bem menos atenção da mídia: o Projeto
Microbioma Humano. Em vez de examinar o genoma de nossa própria espécie, o
PMH foi criado para identificar as espécies presentes no corpo humano – no
microbioma – através de seu DNA.
A dependência de placas de Petri e a superabundância de oxigênio já não
seriam obstáculos à pesquisa de nossos coabitantes. Com um orçamento de 170
milhões de dólares e um programa de cinco anos de sequenciamento de DNA, o
PMH deveria interpretar o código genético de micro-organismos vivendo em
dezoito habitats diferentes no corpo humano – o que equivalia a processar
dezenas de vezes mais dados que o PGH. Era uma pesquisa bem mais abrangente
dos genes tanto humanos quanto microbianos que constituem uma pessoa. Na conclusão da primeira fase de pesquisas do Projeto Microbioma Humano em
2012, nenhum líder mundial fez qualquer declaração triunfante e apenas um
punhado de jornais tocou no assunto. Mas o PMH viria a revelar mais sobre o
que significa ser humano atualmente do que nosso genoma jamais foi capaz.
Desde o início da vida, as espécies exploram umas às outras, e os micróbios têm
se mostrado particularmente eficientes em sobreviver nos lugares mais
esquisitos. Dado seu tamanho microscópico, o corpo de outro organismo –
sobretudo de uma grande criatura vertebrada como o ser humano – representa
não apenas um nicho individual, mas todo um mundo de habitats, ecossistemas e
oportunidades. Tão variável e dinâmico quanto nosso planeta Terra, o corpo
humano possui um clima químico que vai e vem com marés hormonais e
paisagens complexas que mudam conforme envelhecemos. Para os micro-
organismos, isso é o Paraíso.
Evoluímos lado a lado com bactérias e fungos desde bem antes de sermos
humanos. Antes mesmo de nossos ancestrais serem mamíferos. Cada animal, da
menor das moscas drosófilas à maior das baleias, é um mundo para os micróbios.
Apesar da imagem negativa de germes causadores de doenças com que muitos
deles foram tachados, pode ser extremamente recompensador servir de abrigo a
essas formas de vida em miniatura.
A lula havaiana – que tem olhos grandes e é colorida como um personagem
de animação – conseguiu diminuir uma grande ameaça à sua vida quando
convidou apenas uma espécie de bactéria bioluminescente para viver em uma
cavidade especial embaixo de sua barriga. Nesse local, a bactéria conhecida como
Aliivibrio fischeri converte alimento em luz, de modo que, ao ser vista de baixo, a
lula brilha. Isso oculta sua silhueta em contraste com a superfície do oceano
iluminada pela lua, camuflando-a de predadores que se aproximem por baixo. A
lula deve essa proteção aos seus habitantes bacterianos, que por sua vez devem a
ela seu lar.
Embora servir de casa a uma fonte de luz microbiana possa parecer uma
forma especialmente inventiva de aumentar as chances de sobrevivência, a lula
está longe de ser a única espécie animal que deve sua vida aos micróbios que
abriga em seu corpo. As estratégias de vida são muitas e variadas, e a cooperação
entre macro e micro-organismos tem sido uma força propulsora da evolução
desde que os seres vivos com mais de uma célula surgiram pela primeira vez, 1,2
bilhão de anos atrás.
Quanto mais células compõem um organismo, mais micróbios podem viver
nele. De fato, animais grandes como as vacas são conhecidos por sua
hospitalidade às bactérias. Bovinos comem grama, e, se precisassem confiar
apenas em seus próprios genes, conseguiriam extrair pouquíssimo valor
nutricional de sua dieta fibrosa. Para digerir esse tipo de alimento, são
necessárias proteínas especializadas – chamadas enzimas –, capazes de decompor
as moléculas duras das membranas celulares da grama. Como as mutações
genéticas dependem de mudanças aleatórias no código do DNA que só podem
ocorrer a cada geração de organismos, esse processo levaria milênios se as vacas
tivessem que desenvolver sozinhas os genes que formam essas enzimas.
Um jeito mais rápido de adquirir a capacidade de absorver os nutrientes da
grama seria terceirizar a tarefa para especialistas: os micróbios. As quatro
câmaras do estômago bovino abrigam populações na casa dos trilhões de micro-
organismos cuja função é quebrar as fibras das plantas. O bolo alimentar – uma
bola sólida de fibra vegetal – viaja para lá e para cá, entre a moagem mecânica da
ruminação da vaca e a decomposição química realizada pelas enzimas
produzidas pelos micro-organismos que vivem em seu intestino. Para os
micróbios, é rápido e fácil adquirir os genes necessários para fazer isso, já que seu
tempo de geração – e portanto as oportunidades de mutações e evolução –
costuma ser inferior a um dia.
Se a lula havaiana e as vacas podem se beneficiar ao se aliarem aos micróbios,
por que nós, humanos, não poderíamos fazer o mesmo? Não comemos grama
nem temos um estômago dividido em quatro câmaras, mas temos nossas
próprias especializações. Nosso estômago é pequeno e simples, e existe apenas
para misturar a comida, adicionar algumas enzimas para a digestão e um pouco
de ácido para matar os micro-organismos indesejados. Mas, ao final do intestino
delgado – onde a comida é decomposta por ainda mais enzimas e incorporada ao
sangue por uma espécie de tapete de protuberâncias semelhantes a dedos que lhe
dão uma área equivalente à de uma quadra de tênis –, atinge-se uma cavidade,
semelhante a uma bola, que marca o início do intestino grosso. Esse anexo que
parece uma bolsa e fica no canto inferior direito do tronco, é chamado de ceco e
é o centro da comunidade microbiana do corpo humano.
Do ceco pende um órgão que tem a fama de só existir para causar dor e
infecções: o apêndice. Seu nome completo – apêndice vermiforme – refere-se à
sua aparência, semelhante a um verme, mas poderia ser igualmente comparado
com uma larva ou uma cobra. O apêndice varia de comprimento, de diminutos 2
cm a longos 25 cm, e às vezes uma pessoa pode ter dois deles – ou nenhum. Segundo a opinião popular, estaríamos melhor sem ele, já que há cem anos se diz
que esse órgão não tem nenhuma função. Na verdade, o homem que enfim
enquadrou a anatomia dos animais em um esquema evolutivo elegante é
aparentemente responsável pela persistência desse mito. Charles Darwin, em A
descendência do homem, uma continuação de A origem das espécies, incluiu o
apêndice em uma discussão sobre órgãos “rudimentares”. Após compará-lo com
apêndices maiores em muitos outros animais, Darwin chegou à conclusão de que
o apêndice era um vestígio evolutivo, gradualmente definhando à medida que a
alimentação dos seres humanos mudava.
Com poucos indícios contrários, a condição residual do apêndice
praticamente não foi questionada nos cem anos que se seguiram, e a ideia de sua
inutilidade foi crescendo devido a sua tendência a causar transtornos. A
comunidade médica passou a considerá-lo tão inútil que, na década de 1950, a
remoção do apêndice de tornou um dos procedimentos cirúrgicos mais
realizados no mundo desenvolvido. Uma apendectomia costumava até ser
oferecida como bônus durante outras cirurgias abdominais. A certa altura, um
homem tinha uma chance em oito de ter seu apêndice removido durante a vida,
enquanto para as mulheres essa chance era de uma em quatro. Cerca de 5% a
10% das pessoas sofrem de apendicite em certo estágio da vida, geralmente antes
de terem filhos. Sem tratamento, metade delas morreria.
Surge assim um paradoxo. Se a apendicite fosse uma doença que ocorresse
naturalmente, levando à morte com frequência em uma idade prematura, o
apêndice teria sido eliminado pela seleção natural. Aqueles com apêndices
suficientemente grandes para serem infectados morreriam, não raro antes de se
reproduzir, deixando portanto de transmitir seus genes formadores de apêndices.
Com o tempo, cada vez menos pessoas teriam apêndice, e esse órgão acabaria se
perdendo. A seleção natural teria preferido as pessoas sem apêndice.
A suposição de Darwin de que o apêndice era uma relíquia de nosso passado
poderia ter sido convincente se as consequências de possuí-lo não fossem muitas
vezes fatais. No entanto, existem duas explicações para a persistência desse órgão
que não são mutuamente exclusivas. A primeira sugere que a apendicite é um
fenômeno moderno, acarretado pela mudança ambiental. Assim, mesmo um
órgão inútil pode ter persistido no passado apenas por haver se mantido longe de
problemas. A outra é que o apêndice, longe de ser um vestígio maligno de nosso
passado evolutivo, na verdade oferece à saúde benefícios que superam seu lado
negativo, fazendo sua presença valer a pena apesar do risco de apendicite. Ou
seja, a seleção natural prefere aqueles que têm apêndice. A questão é: por quê?
A resposta está em seu conteúdo. O apêndice, com um comprimento médio
de 8 cm e largura de 1 cm, forma um tubo protegido do fluxo da comida – na
maior parte já digerida – que passa por sua entrada. Mas em vez de ser só um
filamento atrofiado de carne, na verdade ele está repleto de células e moléculas
imunes especializadas que não são inertes; pelo contrário, são parte integrante do
sistema imunológico, protegendo, cultivando e se comunicando com uma
coletividade de micróbios. Dentro do apêndice, esses micro-organismos formam
um “biofilme” – uma camada de indivíduos que se apoiam mutuamente,
deixando de fora bactérias que possam causar dano. Portanto o apêndice, longe
de não ter função, parece ser o refúgio proporcionado pelo corpo humano a seus
habitantes microbianos.
Como um pé de meia guardado para uma emergência, esse estoque
microbiano vem a calhar em tempos de dificuldades. Após um episódio de
intoxicação alimentar ou uma infecção gastrointestinal, o intestino pode ser
repovoado por seus habitantes normais, que estavam escondidos no apêndice.
Pode parecer uma apólice de seguro corporal meio exagerada, mas as infecções
intestinais, como disenteria, cólera e giardíase, só foram eliminadas no mundo
ocidental nas últimas décadas. Medidas de saneamento básico, com sistemas de
esgoto e estações de tratamento de água, acabaram com essas doenças nos países
desenvolvidos, mas, no mundo, uma dentre cada cinco mortes na infância ainda
é causada por diarreia infecciosa. Para aqueles que resistem e sobrevivem, é
provável que possuir um apêndice acelere sua recuperação. Só no contexto de
uma condição de saúde relativamente boa é que passamos a acreditar que o
apêndice não tem nenhuma função. Na verdade, as consequências negativas da
retirada do apêndice têm sido mascaradas pelo estilo de vida moderno e
higienizado.
Ao que se revela, a apendicite é mesmo um fenômeno moderno. Na época de
Darwin, era algo extremamente raro, causando pouquíssimas mortes, de modo
que podemos talvez perdoá-lo por pensar que o apêndice era uma simples sobra
da evolução que não ajudava nem atrapalhava. A apendicite tornou-se comum
no fim do século XIX, com os casos em um hospital britânico disparando de uma
taxa estável de três ou quatro pessoas por ano antes de 1890 para 113 casos por
ano em 1918 – um aumento verificado em todo o mundo industrializado. O
diagnóstico nunca foi um problema – a forte cólica, seguida de uma rápida
autópsia se o paciente não sobrevivesse, revelava a causa da morte mesmo antes
que a apendicite se tornasse tão comum.
Muitas explicações foram oferecidas para esse aumento, do consumo
exagerado de carne, manteiga e açúcar ao bloqueio dos seios paranasais e dentes
cariados. Naquela época, chegou-se à conclusão de que a redução da quantidade
de fibras em nossa dieta era a causa principal, mas outras hipóteses ainda
existem, inclusive uma que responsabiliza a maior pureza da água e a melhoria
nas condições higiênicas – justamente o desenvolvimento que pareceu tornar o
apêndice inútil. No entanto, qualquer que seja a resposta, a partir da Segunda
Guerra Mundial, nossa memória coletiva esquecera o aumento dos casos de
apendicite, dando-nos a impressão de que isso é esperado, embora indesejável,
da vida normal.
Mesmo no mundo moderno, desenvolvido, conservar o apêndice ao menos
até a fase adulta pode se mostrar benéfico, protegendo-nos de infecções
gastrointestinais recorrentes, de disfunções imunológicas, câncer no sangue,
algumas doenças autoimunes e até ataques cardíacos. De algum modo, seu papel
como santuário da vida microbiana nos traz todos esses benefícios.
Além de mostrar que está longe de ser inútil, a presença revela algo ainda
maior: os nossos micróbios são importantes para o nosso corpo. Parece que não
estão apenas pegando carona, mas prestando um serviço importante o suficiente
para que, na evolução de nosso intestino, tenha sido reservado um espaço para
servir de refúgio e mantê-los em segurança. A questão é: que micro-organismos
estão lá e o que exatamente fazem por nós?
Embora saibamos há várias décadas que os micróbios em nosso corpo nos
oferecem certos benefícios – como sintetizar algumas vitaminas essenciais e
decompor fibras duras de plantas –, o grau de interação entre nossas células e as
deles só foi descoberto recentemente. No final da década de 1990, usando as
ferramentas da biologia molecular, os microbiologistas deram um grande salto e
descobriram mais sobre nosso estranho relacionamento com nossa microbiota.
As novas tecnologias de sequenciamento do DNA são capazes de nos
informar quais micróbios estão presentes em nossa microbiota, e assim podemos
situá-los em seu local apropriado na árvore da vida. Nessa hierarquia, do
domínio para o reino, depois filo, classe, ordem, família, gênero, espécie e cepa,
os indivíduos vão ficando cada vez mais intimamente relacionados entre si. De
baixo para cima, nós, os humanos (gênero Homo e epíteto específico sapiens),
somos grandes antropoides (família Hominidae) situados junto com os macacos
e alguns outros animais na categoria dos primatas (ordem Primatas). Todos nós,
primatas, pertencemos, com nossos colegas peludos bebedores de leite, ao grupo
dos mamíferos (classe Mammalia), que se enquadram então no grupo que contém os animais vertebrados (filo Chordata) e, finalmente, entre todos os
animais, vertebrados ou não (pense na lula, por exemplo), no reino Animalia,
domínio Eukaria. As bactérias e outros micro-organismos (excetuando-se os
vírus, que desafiam qualquer categoria) se enquadram nos outros grandes ramos
da árvore da vida, pertencendo não ao Animalia, mas ao seu próprio reino e
domínio.
Um segmento de DNA particularmente útil, o gene 16S rRNA, é tipo um
código de barras para as bactérias, fornecendo uma rápida identificação sem a
necessidade de sequenciar um genoma bacteriano inteiro. Quanto mais os
códigos dos genes 16S rRNA se assemelham, mais intimamente relacionadas
estão essas espécies, e mais ramos e galhos da árvore da vida compartilham.
O sequenciamento do DNA, porém, não é a única ferramenta que temos à
disposição para responder às perguntas sobre nossos micróbios, especialmente
no tocante ao que cada micro-organismo faz. Quando deparamos com esses
mistérios, costumamos nos voltar para os camundongos – em particular, os
“livres de germes”. As primeiras gerações desses seres indispensáveis aos
laboratórios nasceram de cesariana e foram mantidas em câmaras de isolamento
para que não fossem colonizadas por micro-organismos benéficos nem
prejudiciais. Dali em diante, a maioria dos camundongos livres de germes
nascem simplesmente em isolamento, de mães livres de germes, numa linhagem
esterilizada de roedores livres de micróbios. Mesmo sua comida e suas
instalações são expostas à radiação e embaladas em recipientes esterilizados, para
evitar qualquer contaminação dos camundongos. Transferi-los entre suas gaiolas
que mais parecem bolhas é uma grande operação que envolve vácuos e
substâncias químicas antimicrobianas.
Ao comparar camundongos livres de germes com camundongos
“convencionais” dotados de seu pleno complemento de micróbios, os
pesquisadores conseguem avaliar os exatos efeitos de se possuir uma microbiota.
Eles podem até colonizar camundongos livres de germes com uma única espécie
de bactéria, ou um pequeno conjunto de espécies, para ver como cada grupo
contribui para a biologia de um camundongo. Do estudo desses camundongos
“gnotobióticos” (que abrigam “vida conhecida”), obtemos uma ideia da ação dos
micro-organismos em nosso corpo também. Claro que eles não são iguais a nós,
e às vezes resultados de experimentos em camundongos são radicalmente
diferentes daqueles em seres humanos, mas são uma ferramenta de pesquisa
muito útil e com frequência nos oferecem pistas cruciais. Sem modelos roedores,
a ciência médica iria progredir a um milionésimo de sua velocidade.
Foi usando camundongos livres de germes que o maior expoente da ciência
do microbioma, o professor Jeffrey Gordon da Universidade de Washington em
St. Louis, Missouri, descobriu um indício notável de quão fundamental é a
microbiota para a manutenção de um corpo saudável. Ele comparou o intestino
de camundongos livres de germes com o de camundongos convencionais e
descobriu que, sob a orientação das bactérias, as células que revestem a parede do
intestino dos camundongos estavam liberando uma molécula que “alimentava”
os micróbios, encorajando-os a fixar residência ali. A presença de uma
microbiota não altera apenas a química do intestino, mas também sua
morfologia. As protuberâncias semelhantes a dedos crescem mais por insistência
dos micro-organismos, tornando a área de sua superfície grande o suficiente para
captar a energia necessária dos alimentos. Estimou-se que os ratos precisariam de
cerca de 30% a mais de alimentos se não fossem os micróbios.
E não são somente nossos coabitantes que se beneficiam em viver em nosso
corpo, nós também. Nosso relacionamento com eles não é só de tolerância, mas
de encorajamento. Essa descoberta, combinada com as potencialidades do
sequenciamento do DNA e estudos de camundongos livres de germes, deu início
a uma revolução na ciência. O Projeto Microbioma Humano, dirigido pelos
Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos, junto com muitos outros
estudos em laboratórios no mundo inteiro, revelaram que dependemos
radicalmente de nossos micróbios para sermos saudáveis e felizes.
O corpo humano, tanto por dentro quanto por fora, forma uma paisagem de
habitats tão diversificados como quaisquer outros na Terra. Assim como os
ecossistemas do planeta são povoados por diferentes espécies de plantas e
animais, os habitats do corpo humano abrigam diferentes comunidades de
micróbios. Somos, como todos os animais, um tubo sofisticado. O alimento entra
por uma extremidade e sai pela outra. Vemos que a pele cobre nossa superfície
“externa”, mas a superfície interna de nosso tubo também é “externa” –
igualmente exposta ao ambiente. Enquanto as camadas da pele nos protegem de
intempéries, micro-organismos invasores e substâncias nocivas, as células do
trato digestivo também precisam nos manter em segurança. Nosso verdadeiro
“interior” não é o trato digestivo, mas os tecidos e órgãos, músculos e ossos que
estão armazenados entre o interior e o exterior de nossos eus tubulares.
A superfície de um ser humano, então, não é apenas sua pele, mas as voltas,
sulcos e dobras de seu tubo interior também. Mesmo os pulmões, a vagina e o
trato urinário contam como “ lado de fora” – como partes da superfície – quando você vê o corpo dessa forma. Não importa se na parte de dentro ou de fora, toda
essa superfície é uma moradia em potencial para os micróbios. Alguns locais são
mais valorizados que outros, e comunidades densas como cidades se formam em
lugares nobres, ricos em recursos, como os intestinos, enquanto grupos mais
esparsos de espécies ocupam áreas mais “rurais” ou hostis, como os pulmões e o
estômago. O Projeto Microbioma Humano teve como intuito caracterizar essas
comunidades, recolhendo amostras de micro-organismos de dezoito locais nas
superfícies interna e externa do corpo humano, em centenas de voluntários.
Durante os cinco anos do PMH, microbiologistas moleculares
supervisionaram algo que foi a versão biotecnológica da era dourada da
descoberta de espécies, dos armários impregnados de formol e repletos de
coleções de aves e mamíferos descobertos e nomeados por exploradores-biólogos
nos séculos XVIII e XIX. O corpo humano é, ao que se revela, um tesouro de
grupos e espécies novas para a ciência, muitas delas presentes em apenas um ou
dois dos voluntários participantes no estudo. Cada pessoa está longe de abrigar
um mesmo conjunto de micróbios. Pelo contrário, pouquíssimos grupos de
bactérias são comuns a todo mundo. Cada um de nós contém comunidades de
micro-organismos tão singulares quanto nossas impressões digitais.
Embora os detalhes mais sutis de nossos habitantes sejam específicos a cada
um de nós, todos abrigamos micróbios semelhantes nos níveis hierárquicos
maiores. As bactérias que moram no seu intestino, por exemplo, se assemelham
mais às bactérias no intestino da pessoa sentada ao seu lado do que às que
habitam nas articulações de seus dedos. Além disso, apesar de termos
comunidades diferentes, as funções que elas desempenham costumam ser
indistinguíveis. O que a bactéria A faz por você, a bactéria B pode fazer pelo seu
melhor amigo.
Das planícies áridas e frescas da pele dos antebraços às florestas úmidas e
quentes da virilha e à acidez e ao ambiente quase desprovido de oxigênio do
estômago, cada parte do corpo oferece um lar para os micróbios capazes de
evoluir de forma a explorá-la. Mesmo dentro de um mesmo habitat, nichos
diferentes abrigam espécies diferentes. A pele, com seus dois metros quadrados,
contém tantos ecossistemas quanto as paisagens das Américas – mas em
miniatura. Os ocupantes da pele rica em sebo da face e das costas são tão
diferentes daqueles dos cotovelos secos e expostos quanto as florestas do Panamá
diferem das rochas do Grande Canyon. Se o rosto e as costas são dominados por
espécies pertencentes ao gênero Propionibacterium, que se alimentam das
gorduras liberadas pelos poros densamente comprimidos nessas áreas, os cotovelos e os antebraços abrigam uma comunidade bem mais diversificada. As
áreas úmidas, incluindo o umbigo, as axilas e as virilha, são o lar das espécies
Corynebacterium e Staphylococcus, que adoram a umidade e se alimentam do
nitrogênio no suor.
Essa segunda pele microbiana proporciona uma dupla camada de proteção
para o verdadeiro interior do corpo, reforçando a inviolabilidade da barreira
formada pelas células da pele. Bactérias invasoras com intenções maldosas lutam
para conquistar seu lugar nessas cidades fronteiriças fortemente protegidas e
enfrentam um ataque de armas químicas enquanto isso. Talvez ainda mais
vulneráveis à invasão sejam os tecidos moles da boca, que precisam resistir à
colonização por uma enxurrada de intrusos que vêm contrabandeados na
comida e flutuando no ar.
Da boca de seus voluntários, pesquisadores do Projeto Microbioma Humano
extraíram não apenas uma amostra, mas nove, cada uma de um local
ligeiramente diferente. Esses nove locais, com poucos centímetros de distância
entre eles, ao que se revelou, abrigavam comunidades perceptivelmente distintas
constituídas de cerca de oitocentas espécies de bactérias dominadas pela espécie
Streptococcus e um punhado de outros grupos. O Streptococcus tem má fama,
devido às muitas espécies que causam doenças, da faringite estreptocócica à
fasciite necrosante, uma infecção devoradora da carne. Mas muitas outras
espécies nesse gênero apresentam um comportamento impecável, expulsando os
seres malignos que atacam essa vulnerável entrada para o corpo. Claro que essas
distâncias minúsculas entre os locais das amostras dentro da boca podem parecer
insignificantes para nós, mas para os micróbios são como vastas planícies e
cadeias de montanhas com climas tão diversos quanto o do norte da Escócia e o
do sul da França.
Imagine, então, o salto climático da boca até as narinas. A piscina viscosa de
saliva sobre um leito de rocha escarpado substituída por uma floresta cabeluda
de muco e poeira. As narinas, como seria de esperar do seu papel de porteiro na
entrada para os pulmões, abriga uma grande variedade de grupos bacterianos,
alcançando umas novecentas espécies, incluindo grandes colônias de
Propionibacterium, Corynebacterium, Staphylococcus e Moraxella.
Descendo pela garganta rumo ao estômago, a enorme diversidade de espécies
se reduz de forma drástica. Por ser muito ácido, o estômago mata muitos dos
micro-organismos que entram junto com a comida, e só se conhece uma espécie
que com certeza reside ali permanentemente em algumas pessoas: Helicobacter
pylori, cuja presença pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição. Desse ponto em diante, o percurso pelo trato digestivo vai revelando uma densidade – e
diversidade – cada vez maior de micróbios. O estômago se abre para o intestino
delgado, onde o alimento é rapidamente digerido por nossas próprias enzimas e
incorporado à corrente sanguínea. Mas ainda existem micro-organismos aqui: há
cerca de 10 mil indivíduos em cada mililitro de conteúdo no início do intestino
delgado. Esse número chega a incríveis 10 milhões por mililitro em sua porção
final, onde o intestino delgado encontra o ponto inicial do intestino grosso.
O intestino humano
Fora do abrigo criado pelo apêndice, há uma metrópole fervilhante de micro-
organismos, no núcleo da paisagem microbiana do corpo humano: o ceco, ao
qual o apêndice está ligado. Esse é o epicentro da vida microscópica, onde
trilhões de indivíduos de pelo menos 4 mil espécies aproveitam ao máximo o
alimento parcialmente digerido que passou pela primeira rodada do processo de extração de nutrientes no intestino delgado. As partes duras – fibras vegetais –
são deixadas para os micróbios atacarem na segunda rodada.
O cólon, que constitui a maior parte do intestino grosso, sobe pelo lado
direito do tronco, sob a caixa torácica, e desce de volta pelo lado esquerdo. Esse
local oferece moradia para cerca de 1 trilhão (1.000.000.000.000) de indivíduos
por mililitro em suas dobras e nas reentrâncias de suas paredes. Ali, eles
recolhem os refugos de alimento e os convertem em energia, deixando os
resíduos para serem absorvidos pelas células das paredes do cólon. Enquanto a
maioria das células do corpo são alimentadas pelo açúcar transportado no
sangue, a principal fonte de energia das do cólon são os resíduos da microbiota.
Por isso, sem os micróbios do intestino, essas células estariam fadadas a definhar
e morrer. O ambiente úmido, quentinho e pantanoso do cólon, em algumas
partes totalmente desprovido de oxigênio, proporciona não apenas uma fonte de
alimento para seus habitantes, mas uma camada de muco rica em nutrientes,
capaz de sustentar sua população em épocas de escassez.
Como os pesquisadores do PMH teriam que realizar uma cirurgia em seus
voluntários se quisessem coletar amostras dos diferentes habitats do trato
intestinal, eles encontraram uma forma bem mais prática de recolher
informações sobre seus habitantes: sequenciar o DNA dos micróbios
encontrados nas fezes. Em sua passagem pelo intestino, o alimento que
ingerimos é quase completamente digerido e absorvido, tanto por nós quanto
por nossos micro-organismos, restando somente uma pequena quantidade que
deve sair na outra extremidade. As fezes, longe de serem os resíduos de nossa
comida, são na maior parte bactérias – algumas mortas, outras vivas. Elas
respondem por cerca de 75% do peso úmido das fezes, enquanto as fibras
vegetais constituem cerca de 17%.
A qualquer momento, seu intestino abriga cerca de 1,5 kg de bactérias – mais
ou menos o peso do fígado –, cuja vida útil varia de meros dias a semanas. As 4
mil espécies de bactérias encontradas nas fezes nos dão mais dados sobre o corpo
humano do que amostras de todos os outros locais reunidos. Essas bactérias são
um indicador de nosso estado de saúde e da qualidade da nossa alimentação –
não apenas enquanto espécie, mas como sociedade e como indivíduo. O grupo
de bactérias mais comum nas fezes é formado de Bacteroides, mas, como as
bactérias de nosso intestino comem o mesmo que nós, a comunidade bacteriana
intestinal varia de pessoa para pessoa.
Entretanto, os micróbios do intestino não são só coletores, aproveitando
nossas sobras. Nós também tiramos proveito deles, especialmente quando se trata de terceirizar funções que levaríamos muito tempo para desenvolver
sozinhos. Afinal, por que se dar o trabalho de ter um gene para sintetizar a
proteína que produz a vitamina B , essencial ao funcionamento do cérebro, 12
quando as bactérias Klebsiella podem fazer isso para você? E quem precisa de
genes para moldar as paredes do intestino, quando as Bacteroides já os possuem?
É bem mais barato e fácil que desenvolvê-los do zero. Mas, como veremos
adiante, o papel dos micro-organismos que moram em nosso intestino vai bem
além de ajudar na síntese de umas poucas vitaminas.
No início, o Projeto Microbioma Humano examinou apenas a microbiota de
indivíduos saudáveis. A partir do estabelecimento desse referencial, o PMH
resolveu indagar quais são as alterações encontradas na microbiota de pessoas
cujo estado de saúde é ruim, se as doenças modernas poderiam ser uma
consequência dessas alterações e, em caso positivo, o que estaria causando esse
dano. Será que distúrbios da pele, como acne, psoríase e dermatite, seriam
indicação de transtornos no equilíbrio dos micróbios da pele? Será que a doença
intestinal inflamatória, o câncer do trato digestivo e até a obesidade poderiam se
dever a alterações nas comunidades de micro-organismos que moram no
intestino? E, o que seria mais extraordinário: será que distúrbios aparentemente
distantes dos centros de população microbiana, como alergias, doenças
autoimunes e mesmo problemas mentais, poderiam ser causados por danos à
microbiota?
O palpite de Lee Rowen no bolão em Cold Spring Harbor apontava para uma
descoberta bem mais profunda. Não estamos sozinhos, e nossos “caronas”
microbianos desempenham um papel bem maior em nossa humanidade do que
jamais pensamos. Nas palavras do Professor Jeffrey Gordon:
Essa percepção do nosso lado microbiano está trazendo uma nova visão
de nossa individualidade. Uma nova noção de nossa ligação com o
mundo microbiano. O reconhecimento do legado de nossas interações
pessoais com nossa família e o ambiente no princípio da vida. Está
fazendo com que paremos e reflitamos sobre o fato de que poderia haver
mais uma dimensão em nossa evolução humana.
Passamos a depender de nossos micróbios, e sem eles seríamos uma mera
fração de quem somos. Mas o que significa ser apenas 10% humano?