A Abadia de Northanger
Capítulo 16
As expectativas de prazer de Catherine pela sua visita a Milson Street
eram tão altas que a frustração foi inevitável. Em bora fosse m uito educadam ente recebida pelo general Tilney e gentilm ente recepcionada por sua filha, em bora Henry estivesse em casa, e ninguém m ais do grupo, ela descobriu, por sua vez, sem gastar m uitas horas a exam inar seus sentim entos, que se dirigiu ao encontro preparando-se para um a felicidade que não poderia ser proporcionada. Em vez de se im aginar m ais próxim a da senhorita Tilney, com o decorrer do dia, ela parecia tão dificilm ente íntim a com ela quanto antes. Ao invés de ver Henry Tilney com m ais vantagem do que nunca, na tranquilidade de um grupo fam iliar, ele nunca falou tão pouco, ou foi tão pouco agradável. E, apesar da grande civilidade do pai para com ela e apesar dos seus agradecim entos, convites e elogios, foi um a libertação se ver longe dele. Ela se confundia ao atribuir algum a causa a isso. Não podia ser culpa do general Tilney. Que ele fosse perfeitam ente agradável e de boa natureza e, ao todo, um hom em m uito encantador, não se podia duvidar, pois ele era alto e bonito e pai de Henry. Ele não podia ser responsável pela falta de espírito de seus filhos ou pela sua falta de prazer na com panhia dele. Ela esperava que a prim eira fosse apenas circunstancial e a últim a ela só podia atribuir a sua própria estupidez. Isabella, ao ouvir os detalhes da visita, deu um a explicação diferente: “Era tudo orgulho, orgulho, insuportável arrogância e orgulho! Ela há m uito suspeitou de que a fam ília fosse convencida, e isso se provou certo. Ela nunca tinha ouvido falar, em sua vida, de tal insolência com o a da senhorita Tilney ! Não fazer as honras de sua casa com a com um boa índole! Com portar-se com sua convidada com tam anho atrevim ento! Nem m esm o quase falando com ela!”
“Mas não foi tão ruim assim , Isabella. Não houve atrevim ento. Ela foi
m uito cortês”.
“Oh! Não a defenda! E então o irm ão! Ele que parecia tão ligado a
você! Pelos céus! Bem , os sentim entos de algum as pessoas são incom preensíveis. E então ele m al olhou para você o dia inteiro?”
“Eu não disse isso, m as ele não parecia estar de bom hum or”. “Que desprezível! De todas as coisas no m undo, tenho aversão à
inconstância. Deixe-m e rogar-lhe que nunca m ais pense nele de novo, m inha querida Catherine. De fato, ele é indigno de você”.
“Indigno! Sequer suponho que ele pense em m im ”. “Isso é exatam ente o que eu digo. Ele nunca pensa em você. Quanta
instabilidade! Oh! Que diferença para seu irm ão e para o m eu! Eu realm ente acredito que John tenha o coração m ais estável”.
“Mas, quanto ao general Tilney, asseguro-lhe que seria im possível para
qualquer um se com portar com igo com m aior educação e atenção. Parecia que sua única preocupação era m e divertir e m e fazer feliz”.
“Oh! Nada sei de m al dele. Não suspeito que sej a orgulhoso. Acredito
que ele sej a um hom em bem cavalheiro. John gosta m uito dele, e o j ulgam ento de John...”
“Bem , verem os com o se com portam com igo nesta noite. Devem os
encontrá-los nos salões”.
“E eu devo ir?”
“Você não pretende? Pensei que j á estivesse tudo com binado”. “Bem , j á que você faz questão, nada posso lhe recusar. Mas não insista
para que eu sej a agradável, pois m eu coração, você sabe, estará a quase 65 quilôm etros de distância. E quanto a dançar, nem m encione, eu im ploro. Isso está totalm ente fora de discussão. Charles Hodges irá m e im portunar m uito, ouso dizer, m as devo cortá-lo logo. Aposto dez contra um que ele logo adivinhará o m otivo, e é j ustam ente o que quero evitar, então insisto para que ele guarde sua hipótese para si m esm o”.
A opinião de Isabella sobre os Tilney não influenciou sua am iga. Ela
estava certa de que não houve insolência nos m odos, tanto da irm ã quanto do irm ão, e ela não acreditava que houvesse um a ponta de orgulho em seus corações. A noite recom pensou sua confiança. Ela foi recepcionada por um a com a m esm a bondade, e pelo outro com a m esm a atenção, até então: a senhorita Tilney se acom odou em ficar perto dela, e Henry a tirou para dançar.
Tendo ouvido, no dia anterior, em Milson Street, que o irm ão m ais velho
deles, o capitão Tilney, era esperado a qualquer m om ento, ela j á conhecia o nom e de um j ovem hom em , de aparência bem m oderna e bonita, a quem ela nunca vira antes, e que agora evidentem ente pertencia ao seu grupo. Ela o olhava com m uita adm iração, e m esm o supôs que fosse possível que algum as pessoas o j ulgassem m ais bonito que seu irm ão, em bora, aos olhos dela, seu ar fosse m ais seguro e suas feições, m enos atraentes. Seus gostos e seus m odos eram indubitavelm ente inferiores, pois, pelo o que ela ouviu, ele não apenas protestou contra qualquer ideia de dançar, m as tam bém riu abertam ente de Henry, que achava possível. Desta últim a circunstância, pode-se inferir que, sej a qual fosse a opinião de nossa heroína sobre ele, a adm iração dele por ela não era a de um tipo perigoso, nem provável de produzir anim osidade entre os irm ãos, nem perseguições à dam a. Ele não podia ser o m esm o que instigou os três vilões em sobretudos de cavaleiros, por quem ela logo será forçada a entrar em um a carruagem de viagem , a qual partirá com inacreditável velocidade. Catherine, enquanto isso, sem se perturbar com pressentim entos de tam anho m al, ou m esm o de m al algum , exceto aquele de ter de ficar sentada por um curto conj unto de danças, apreciou sua costum eira felicidade com Henry Tilney, ouvindo com olhos faiscantes a tudo o que ele dizia e, ao achá-lo irresistível, assim ela se tornou tam bém .
Ao fim da prim eira dança, o capitão Tilney veio novam ente ao
encontro deles e, para a grande insatisfação de Catherine, puxou seu irm ão de lado e afastaram -se, sussurrando algo. Em bora a delicada sensibilidade dela não se alarm asse im ediatam ente e estabelecesse com o fato, que o capitão Tilney tivesse ouvido algum a m á falsidade sobre ela e apressava-se para contar ao irm ão, na esperança de separá-los para sem pre, ela não podia deixar de ver seu parceiro sem sensações bem preocupadas. Seu suspense durou cinco m inutos com pletos. Ela j á estava com eçando a pensar que eram quinze longos m inutos, quando am bos retornaram e um a explicação foi dada por Henry, ao perguntar se ela achava que sua am iga, a senhorita Thorpe, teria algum a obj eção em dançar, j á que seu irm ão ficaria m uito feliz em ser apresentado a ela. Catherine, sem hesitação, respondeu que estava certa de que a senhorita Thorpe não queria dançar. A cruel resposta foi passada ao outro e ele im ediatam ente se afastou.
“Seu irm ão não se im portará, eu sei”, ela disse, “porque eu o ouvi dizer
antes que odiava dançar, m as é prova de boa natureza dele pensar nisso. Suponho que ele tenha visto Isabella sentar-se e im aginou que ela desej ava um parceiro, m as ele está bem enganado, pois ela não dançaria por nada deste m undo”.
Henry sorriu e disse, “Com o você pode se esforçar tão pouco para
entender os m otivos das ações dos outros”.
“Por quê? O que você quer dizer?”
“Com você, não é “com o alguém será influenciado; qual será a
influência m ais provável para agir sobre os sentim entos, idade, situação e prováveis hábitos de vida de um a pessoa”, m as “com o serei influenciada, qual será a influência que m e levará a agir assim e assim ?””
“Não o com preendo”.
“Então estam os em term os desiguais, pois eu a entendo perfeitam ente
bem ”.
“Eu? Sim , não posso falar bem o suficiente para ser incom preensível”. “Bravo! Um a excelente ironia sobre a linguagem m oderna”. “Mas, por favor, explique-m e o que você quis dizer”. “Devo, m esm o? Você realm ente desej a isso? Mas você não está ciente
das consequências. Isso a envolverá em um constrangim ento m uito cruel e certam ente nos levará a um desacordo”.
“Não, não; isto não acontecerá; sem receio.”
“Bem , então, apenas quis dizer que você, ao atribuir o desej o de m eu
irm ão de dançar com a senhorita Thorpe som ente por boa natureza, convenceu-m e de que você m esm a é superior em boa natureza em relação ao resto do m undo”.
Catherine corou e negou, e as previsões do cavalheiro foram
confirm adas. Havia algo, porém , em suas palavras que a recom pensou pela dor da confusão. Isto ocupou tanto sua m ente que ela recuou por algum tem po, esquecendo-se de falar e de ouvir, e quase esquecendo onde ela estava, até que, despertada pela voz de Isabella, ela subiu o olhar, e a viu com o capitão Tilney, preparando para lhe dar as m ãos.
Isabella deu de om bros e sorriu, o que era a única explicação para esta
extraordinária m udança que poderia ser dada àquela hora. Mas, com o não estava m uito claro para a com preensão de Catherine, ela falou com surpresa e em term os m uito claros para seu parceiro.
“Não posso pensar em com o isso se deu! Isabella estava tão decidida a
não dançar”.
“E Isabella nunca m udou de ideia antes?”
“Oh! Mas com o! E seu irm ão! Depois de lhe repetir o que eu disse,
com o ele pôde convidá-la?”
“Não posso m e surpreender com isso. Você espera que eu m e
surpreenda com o que disse sua am iga, e assim estou. Mas quanto ao m eu irm ão, sua conduta em tudo isso, devo reconhecer, não foi m ais do que eu acreditei que ele fosse capaz de fazer. A beleza de sua am iga era um a clara atração. Sua firm eza, você sabe, pode ser com preendida apenas por você m esm a”.
“Você está rindo, m as, asseguro-lhe, Isabella é m uito decidida, em
geral”.
“Isso é tanto quanto deve ser dito de qualquer um . Deve-se, às vezes,
ser obstinado a sem pre ser firm e. Quando se relaxa com propriedade, fica-se a cargo de j ulgam ento e, sem referência ao m eu irm ão, realm ente acho que de m odo algum a senhorita Thorpe escolheu m al ao relaxar no presente m om ento”.
As am igas não foram capazes de se j untar para qualquer conversa
m ais íntim a até o fim da dança, m as, então, enquanto cam inhavam pela sala de braços dados, Isabella assim se explicou: “Não m e surpreendo com seu espanto. E estou, de fato, m uito cansada. Ele chacoalha bastante! Muito divertido, se a m inha m ente estivesse livre, m as eu teria dado o m undo para ficar quieta”.
“Então, por que não ficou?”
“Oh! Minha querida! Teria sido tão específico, e você sabe o quanto
abom ino fazer isso. Eu lhe recusei até o quanto m e foi possível, m as ele não aceitou m inha negativa. Você não tem ideia de com o ele insistiu. Im plorei-lhe para que m e perdoasse e buscasse outra parceira, m as não, não ele. Depois de aspirar pela m inha m ão, não havia ninguém na sala que ele pudesse suportar em pensar e, ele não queria apenas dançar, queria ficar com igo. Oh! Quanta besteira! Eu disse que ele tom ou um cam inho m uito im provável de m e convencer, pois, de todas as coisas no m undo, odeio belos discursos e elogios. Então descobri que não haveria paz se não m e levantasse. Além disso, pensei que a senhora Hughes, que foi quem m e apresentou, ficaria chateada se eu não dançasse com ele. E seu querido irm ão ficaria m uito triste se eu ficasse sentada a noite inteira, estou certa. Estou tão feliz que acabou! Meu hum or ficou cansado de ouvir tanta besteira. Agora, sendo um j ovem rapaz bem atraente, vi que todos os olhares estavam sobre nós”.
“De fato, ele é m uito bonito”.
“Bonito! Sim , suponho que sej a. Ouso dizer que as pessoas o adm iram ,
em geral. Mas ele não está de m odo algum em m eu estilo de beleza. Odeio com pleição rosada e olhos negros em um hom em . Porém , ele está m uito bem . Surpreendentem ente arrogante, estou certa. Eu o pus para baixo várias vezes, ao m eu m odo”.
Quando as j ovens dam as se reencontraram , tinham um assunto m uito
m ais interessante para discutir. A segunda carta de Jam es Morland foi então recebida, e as boas intenções de seu pai, com pletam ente explicadas. Um a renda, da qual o senhor Morland era tanto o patrão quanto o encarregado, de 400 libras anuais, seria passada ao seu filho assim que ele tivesse a idade suficiente. Nada que fosse um a insignificante dedução da renda da fam ília, nada que fosse um presente avarento a um dos dez filhos. Um a propriedade de pelo m enos o m esm o valor, além do m ais, foi garantida com o sua herança futura.
Jam es se expressou na ocasião com decente gratidão. A necessidade de
aguardar por dois ou três anos antes de se casarem , sendo, em bora indesej ada, não m ais do que ele esperava, foi suportada por ele sem descontentam ento. Catherine, cuj as expectativas eram tão vagas quanto suas ideias sobre a renda de seu pai, e cuj o j ulgam ento era agora totalm ente influenciado pelo seu irm ão, sentiu-se igualm ente bem satisfeita e felicitou Isabella com sinceridade, por tudo ter sido tão agradavelm ente aj ustado.
“De fato, é m uito encantador”, disse Isabella com um rosto grave. “O
senhor Morland se com portou im ensam ente bem , de verdade”, disse a gentil senhora Thorpe, olhando ansiosam ente para a sua filha. “Apenas queria fazer tanto quanto. Não se pode esperar m ais dele, sabe. Se ele achar que pode fazer m ais a respeito, ouso dizer que ele fará, pois estou certa de que é um hom em de excelente índole. Quatrocentas libras decerto é um a pequena som a para com eçar, m as seus desej os, m inha querida Isabella, são tão m oderados que você nem considera quão pouco irá precisar, m inha cara”.
“Não é por m im que desej o m ais, m as não posso suportar que isso sej a
o m eio de ferir m eu querido Morland, de fazê-lo assentar com um a renda que pouco dá para necessidades com uns da vida. Para m im , isso não é m otivo. Nunca penso em m im m esm a”.
“Sei que nunca, m inha cara. E sem pre encontrará sua recom pensa na
afeição que todos sentem por você. Nunca houve um a j ovem m ulher tão am ada com o você é por todos que a conhecem . E ouso dizer que, quando o senhor Morland a vir, m inha querida filha... m as não incom odarem os nossa querida Catherine ao falar sobre tais coisas. O senhor Morland se com portou m aravilhosam ente, você sabe. Sem pre soube que ele era um hom em excelente. Você sabe, m inha querida, não devem os supor nada. Além do que, se você tivesse um a fortuna adequada, ele teria surgido com algo m ais, pois estou certa de que ele deva ser um hom em de m ente m uito liberal”.
“Ninguém pode ter m elhor opinião sobre o senhor Morland do que eu,
estou certa. Mas todos têm suas falhas, você sabe, e todos têm o direito de fazer o que quiserem com seu próprio dinheiro”. Catherine ficou m agoada com tais insinuações. “Estou m uito certa”, disse ela, “que m eu pai prom eteu tudo o que poderia proporcionar”.
Isabella se recom pôs. “Quanto a isso, m inha doce Catherine, não pode
haver dúvida, e você m e conhece bem o suficiente para estar certa de que um dote m enor m e satisfaria. Não é o desej o por m ais dinheiro que m e faz, no m om ento, um pouco preocupada. Odeio dinheiro. Se nossa união pudesse ocorrer agora com 50 libras ao ano, seria um desej o m eu atendido. Ah! Minha Catherine, você m e descobriu. Eis o que m e incom oda: os longos, longos dois anos e m eio que devem se passar antes de seu irm ão obter a renda”.
“Sim , sim , m inha querida Isabella”, disse a senhora Thorpe, “vem os
isso perfeitam ente em seu coração. Você não disfarça. Entendem os perfeitam ente sua atual inquietação. Todos devem am á-la ainda m ais por tal nobre e honesta afeição”.
Os desconfortáveis sentim entos de Catherine com eçaram a am ainar.
Ela tentou acreditar que o atraso do casam ento fosse a única fonte do arrependim ento de Isabella e, quando ela a viu, no encontro seguinte, tão alegre e am igável com o sem pre, tentou esquecer que ela tinha pensado o contrário por um m inuto. Jam es retornou logo após e foi recebido com a m ais grata bondade.