A Abadia de Northanger

Jane Austen · Capítulo 26 de 66

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A Abadia de Northanger

Capítulo 25

As visões de rom ance term inaram . Catherine estava com pletam ente

alvoroçada. O discurso de Henry, curto com o foi, tinha aberto com pletam ente seus olhos para a extravagância de suas últim as fantasias, m ais do que todos os vários desapontam entos tinham feito. Ela estava hum ilhada e m uito triste. Chorou com m uito am argor. Não era apenas por si m esm a que estava arrasada, m as por Henry. Sua fantasia, que agora parecia até m esm o crim inosa, tinha sido totalm ente exposta a ele, e ele deveria desprezá-la para sem pre. A liberdade com que a im aginação dela ousava tom ar o caráter de seu pai poderia ser perdoada? O absurdo da curiosidade e dos m edos dela poderia ser esquecido? Ela se odiava m ais do que poderia expressar. Ele tinha – ela pensou que tinha –, um a ou duas vezes antes desta m anhã fatal, m ostrado algo com o afeição por ela. Mas, agora, em resum o, ela se fez tão m iserável quanto possível por cerca de m eia hora, desceu quando o relógio deu cinco horas, com o coração partido, e m al podia dar um a resposta inteligível para Eleanor quando esta perguntou se ela estava bem . O form idável Henry logo a seguiu para a sala, e a única diferença em seu com portam ento para com ela é que ele agora lhe dava m ais atenção do que habitualm ente. Catherine nunca quis m ais conforto do que antes, e ele parecia estar ciente disso.

A noite se passou sem nenhum abatim ento a esta refrescante polidez, e

seus espíritos se ergueram gradualm ente para um a tranquilidade m odesta. Ela não sabia com o esquecer e nem defender o que tinha se passado, m as tinha esperança de que nunca se espalhasse, e de que, talvez, isso pudesse não custar toda a consideração de Henry. Estando seus pensam entos ainda fixados no que ela, com tanto terror, sem fundam ento, tinha sentido e feito, tudo estaria esclarecido tão logo se fosse um a ilusão voluntária e criada por ela m esm a, se cada insignificante circunstância não recebesse inform ações de um a im aginação baseada em alarm e. Tudo foi forçado a se inclinar a um propósito por um a m ente que, antes de adentrar na abadia, tinha sido cravada a ficar assustada. Ela se lem brava com quais sentim entos tinha se preparado para conhecer Northanger. Ela via que a paixão tinha sido criada, o engano estabelecido, m uito antes de deixar Bath, e parecia com o se tudo pudesse ser traçado à influência daquele tipo de leitura à qual ela havia se entregado.

Encantadores com o eram todos os trabalhos da senhora Radcliffe, e

encantadores m esm o com o eram os trabalhos de todos os seus im itadores, não estavam neles, talvez, o que a natureza hum ana, pelo m enos nos condados em Midland, na Inglaterra, deveria buscar. Dos Alpes e dos Pireneus, com seus pinheirais e seus vícios, eles podiam dar um a fiel delineação. A Itália, a Suíça e o sul da França poderiam ser fartos em horrores, com o eram representados. Catherine não ousava duvidar além de seu próprio país, e m esm o dele, se duram ente pressionada, cederia às extrem idades norte e oeste. Mas, na parte central da Inglaterra, certam ente haveria algum a segurança m esm o para a existência de um a esposa não am ada, nas leis da terra e nos m odos do tem po. O assassinato não era tolerado, criados não eram escravos, e nem venenos ou poções de dorm ir eram solicitados, com o o ruibarbo, para qualquer quím ico. Entre os Alpes e os Pireneus, talvez não existissem personagens prom íscuos. Lá, não haveria ninguém tão m anchado quanto um anj o que pudesse ter as disposições de um dem ônio. Mas, na Inglaterra, não era assim . Entre os ingleses, ela acreditava, em seus corações e em seus hábitos, havia um a m istura geral, se bem que desigual, entre bons e m aus. Com esta convicção, ela não se surpreenderia se m esm o em Henry e em Eleanor Tilney algum a pequena im perfeição pudesse, então, surgir. Por esta convicção, ela não precisaria tem er algum as verdadeiras m anchas no caráter do pai deles, o qual, em bora absolvido das repulsivas e insultantes suspeitas que ela sem pre se envergonharia de ter acalentado, ela acreditava, depois de séria consideração, não era perfeitam ente am igável.

Tendo se decidido sobre esses vários assuntos, e tom ado sua resolução

de sem pre j ulgar e agir com o m aior bom senso, ela nada m ais tinha a fazer senão se perdoar e ser m ais feliz do que nunca. A leniente m ão do tem po lhe fez m uito com as im perceptíveis gradações do decorrer do dia seguinte. A surpreendente generosidade e a nobreza da conduta de Henry em nunca aludir, de m odo algum , ao que tinha se passado eram de grande aj uda para ela. Mais rápido do que ela supunha ser possível ao com eço de sua agonia, seu hum or se tornou absolutam ente confortável e capaz, com o até então, de contínua m elhora por tudo o que ele dizia. Ainda havia alguns assuntos, de fato, sob os quais acreditava que deveria trem er, com o a m enção de um cofre ou de um arm ário, por exem plo; e ela não gostava da visão de laquê em nenhum form ato, m as concederia que, em um m om ento ocasional de passadas fantasias, em bora doloroso, não ficaria sem uso.

As ansiedades da vida com um logo se sucederam às preocupações do

rom ance. Seu desej o de saber com o estava Isabella crescia a cada dia. Ela estava m uito im paciente para saber com o o m undo de Bath ia e com o eram frequentados os salões. Em especial, estava ansiosa pela certeza de Isabella ter encontrado um pouco de bom algodão para coser, para o qual ela tinha deixado seu intento, e ter continuado em bons term os com Jam es. Sua única confiança de inform ação de qualquer tipo estava em Isabella. Jam es tinha protestado em escrever para ela até que voltasse para Oxford, e a senhora Allen não tinha lhe dado esperança algum a de carta até que retornasse para Fullerton. Mas Isabella prom eteu e prom eteu de novo. Quando ela prom etia algo, era tão escrupulosa em cum prir! Isso tornava o caso tão particularm ente estranho!

Por nove sucessivas m anhãs, Catherine se surpreendeu com a repetição de um desapontam ento, o que tornava m ais severa cada m anhã. Porém , na décim a, quando ela adentrou na sala de desj ej um , seu prim eiro obj eto era um a carta, a qual era segurada pela m ão caridosa de Henry. Ela lhe agradeceu tão sinceram ente com o se ele m esm o a tivesse escrito. “É de Jam es, apenas”, enquanto olhava ao rem etente. Ela a abriu. Era de Oxford, e com este propósito:

 

Querida Catherine,

 

Embora, Deus saiba, com pouca vontade de escrever, acho que é meu

dever lhe contar que tudo terminou entre a senhorita Thorpe e eu. Deixei-a, e

deixei Bath, ontem, para nunca mais vê-los novamente. Não entrarei em detalhe.

Eles apenas a machucarão mais. Logo você saberá o bastante, de outra parte,

para saber quem culpar. Espero que você isente seu irmão de tudo, além da

fantasia de pensar tão facilmente que sua afeição fosse retribuída. Graças a Deus!

Meus olhos se abriram em tempo! Mas foi um duro golpe! Depois que o

consentimento de meu pai foi dado tão bondosamente... mas, nada mais sobre isso. Ela me fez triste para sempre! Escreva-me logo, querida Catherine. Você é minha

única amiga. Sobre seu amor eu me apoio. Desejo que sua visita a Northanger

termine antes que o capitão Tilney comunique seu noivado, ou você passará por

constrangimentos. O pobre Thorpe está na cidade. Temo vê-lo. Seu honesto coração sentiria muito. Escrevi para ele e para meu pai. A traição dela me

machucou mais do que tudo. Até o último minuto, se eu pensasse com ela, ela se

declarava tão ligada a mim como nunca, e ria de meus medos. Tenho vergonha em pensar por quanto tempo suportei isso, mas se algum homem tivesse motivos para se acreditar amado, eu seria este homem. Não posso compreender ainda agora o

que ela pretendia, pois não haveria necessidade de brincar comigo para lhe

assegurar Tilney. Separamo-nos, finalmente, de mútuo acordo. Feliz estaria eu se

nunca nos encontrássemos! Não posso esperar nunca conhecer outra mulher

igual! Querida Catherine, cuidado como você dá seu coração. Acredite em mim

etc.

 

Catherine m al tinha lido três linhas, antes da súbita m udança de feição,

e curtas exclam ações de m agoadas surpresas declaravam que ela tinha recebido desagradáveis notícias. Henry, observando-a fixam ente durante a carta inteira, viu claram ente que ela tinha term inado nada m elhor do que com eçado. Porém , foi im pedido sequer de olhar para sua surpresa, por causa da entrada de seu pai. Seguiram im ediatam ente ao café da m anhã, m as Catherine m al podia com er qualquer coisa. Lágrim as enchiam seus olhos e corriam pelo seu rosto enquanto ela se sentava. A carta estava em um m om ento em suas m ãos, então, em seu colo, e depois, em seu bolso. Ela parecia sem saber o que fazer. O general, entre seu chocolate e seu j ornal, por sorte, não tinha tem po para notá-la, m as, para os outros dois, sua agonia era igualm ente visível. Assim que ela deixou a m esa, correu para seu quarto, m as as criadas estavam ocupadas nele, e ela foi forçada a descer novam ente. Ela se voltou para a sala de estar, pela privacidade, m as Henry e Eleanor se retiraram igualm ente para lá, e estavam , naquele m om ento, em profundas consultas sobre ela. Ela se retirou, tentando obter o perdão deles, m as foi, com gentil violência, forçada a voltar. Os outros saíram , depois de Eleanor afetuosam ente expressar seu desej o de lhe ser útil ou confortá-la.

Depois de se entregar livrem ente ao pesar e à reflexão por m eia hora,

Catherine se sentiu em condições de estar com seus am igos, m as se ela deveria contar sua agonia a eles, era outra consideração. Talvez, se perguntada com m inúcias, ela pudesse dar um a ideia, apenas um a deixa distante, porém , nada m ais. Expor um a am iga, um a am iga tal com o Isabella foi para com ela, e então, o próprio irm ão deles, tão intim am ente envolvido nisso! Ela acreditava que deveria evitar o assunto com pletam ente. Henry e Eleanor estavam sozinhos na sala de desj ej um . Cada um , assim que ela entrou, olhou para ela com ansiedade. Catherine ocupou seu lugar à m esa e, depois de um curto silêncio, Eleanor disse, “Espero que não tenha recebido nenhum a m á notícia de Fullerton. O senhor e a senhora Morland – seus irm ãos e irm ãs – espero que nenhum deles estej a doente”.

“Não, obrigada”, suspirando enquanto falava. “Estão todos m uito bem .

Minha carta era de m eu irm ão em Oxford”.

Nada m ais foi dito por alguns m inutos. E, então, falando por m eio de

suas lágrim as, ela acrescentou, “não acho que desej arei outra carta novam ente!”

“Ela continha algo pior do que qualquer um poderia supor! Pobre

Jam es, tão infeliz! Vocês logo saberão o porquê”.

“Ter um a irm ã tão generosa e tão afetuosa”, replicou Henry

calorosam ente, “deve ser um conforto para ele sob qualquer problem a”.

“Tenho um favor a pedir”, disse Catherine, logo depois, de m aneira

agitada, “que, se seu irm ão vier para cá, vocês m e avisem antes, para que eu possa partir”.

“Nosso irm ão! Frederick!”

“Sim ; estou certa de que sentiria m uito em deixá-los tão rápido, m as

algo aconteceu que faria estar na m esm a casa que o Capitão Tilney m uito difícil para m im ”.

Eleanor suspendeu seu trabalho enquanto olhava com crescente

surpresa. Mas Henry com eçou a suspeitar a verdade, e algo em que se incluiu o nom e da senhorita Thorpe passou pelos seus lábios.

“Com o você é rápido!”, exclam ou Catherine: “você adivinhou, eu

declaro! E, ainda, quando conversam os sobre isso em Bath, você m al pensou que term inaria assim . Isabella... sim , agora não m e surpreendo que não tenha m e escrito, abandonou m eu irm ão e irá se casar com o de vocês! Você acreditaria que houve tanta inconstância e instabilidade e tudo o que é ruim no m undo?”

“Espero, no que diz respeito ao m eu irm ão, que você estej a m al

inform ada. Espero que ele não tenha tido nenhum a participação m aterial no desapontam ento do senhor Morland. Seu casam ento com a senhorita Thorpe não é provável. Acho que, até agora, você está enganada. Lam ento m uito pelo senhor Morland. Lam ento que qualquer um que você am e estej a infeliz, m as m inha surpresa seria m aior com Frederick casando-se com ela, do que com qualquer outra parte da história”.

“Porém , isso é bem verdade. Leia você m esm o a carta de Jam es.

Aqui. Eis um a parte...”, lem brando-se, com um corar, a últim a linha.

“Você se incom oda em ler para nós as passagens que se relacionam ao

m eu irm ão?”

“Não, leia você m esm o”, exclam ou Catherine, com pensam entos

novos e m ais claros. “Não sei o que passou pela m inha cabeça” – corando novam ente por ter corado antes – “Jam es apenas desej a m e dar um bom conselho”.

Ele recebeu anim ado a carta e, tendo-a lido inteira com forte atenção,

devolveu-a dizendo, “Bom , se é para ser assim , apenas posso dizer que lam ento. Frederick não será o prim eiro hom em a escolher um a esposa com m enos senso do que sua fam ília esperava. Não invej o a situação dele, tanto com o um enam orado quanto com o um filho”.

A senhorita Tilney, por um convite de Catherine, agora lia a carta da

m esm a m aneira e, tendo tam bém expressado sua preocupação e sua surpresa, com eçou a perguntar pelas conexões e pela fortuna da senhorita Thorpe.

“Sua m ãe é de um bom tipo de m ulher”, foi a resposta de Catherine. “O que era o pai dela?”

“Um advogado, acho. Vivem em Putney ”.

“Eles são um a fam ília rica?”

“Não, não m uito. Não acho que Isabella tenha algum a fortuna, m as isso

não tem valor para sua fam ília. Seu pai é tão liberal! Ele m e disse, um dia desses, que apenas valorizava o dinheiro que o perm itisse prom over a felicidade de seus filhos”. O irm ão e a irm ã se entreolharam . “Mas”, disse Eleanor depois de um a curta pausa, “seria para prom over a felicidade dele, capacitar a casar com tal garota? Ela deve ser um a sem princípios, ou não teria usado seu irm ão assim . E com o é estranho! Um a paixão do lado de Frederick! Um a garota que, diante de seus olhos, está violando um noivado que ela com eçou voluntariam ente com outro hom em ! Não é inconcebível, Henry ? Frederick tam bém , que sem pre ostentou seu coração tão orgulhosam ente! Que não encontrou m ulher boa o suficiente para ser am ada!”

“Esta é a circunstância m enos prom issora, a m ais forte presunção contra ele. Quando penso em suas declarações passadas, eu desisto dele. Além do m ais, tenho um a boa opinião sobre a prudência da senhorita Thorpe para supor que ela se separaria com um cavalheiro, antes que o outro estivesse garantido. Está tudo acabado com Frederick tam bém ! Ele é um m orto. Um defunto de com preensão. Prepare-se para sua cunhada, Eleanor. Tal cunhada que você terá m uito prazer! Franca, cândida, inocente, sincera, com afeições fortes, porém sim ples, sem form ar am bições e sem saber disfarçar”.

“Com tal cunhada, Henry, eu teria m uito prazer”, disse Eleanor com

um sorriso.

“Mas, talvez”, observou Catherine, “em bora ela tenha se com portado

tão m al com a nossa fam ília – observou Catherine –, ela possa se com portar m elhor com a sua. Agora que ela tem de fato o hom em que ela quer, ela pode ser constante”.

“De fato, tem o que ela será”, replicou Henry ; “tem o que ela sej a

m uito constante, a m enos que um barão passe pelo cam inho dela; esta é a única chance de Frederick. Pegarei o j ornal de Bath e verei as chegadas”.

“Você acha que é tudo pela am bição, então? E, com a m inha palavra,

há algum as coisas que se parecem com isso. Não posso esquecer que, quando ela prim eiro soube o que m eu pai faria por eles, ela ficou bem desapontada por não ter sido m ais. Nunca fui tão enganada sobre o caráter de um a pessoa em m inha vida, antes”.

“Entre a grande variedade que você conheceu e estudou”. “Meu próprio desapontam ento e m inha perda com ela são m uito

grandes. Mas, quanto ao próprio Jam es, suponho que ele dificilm ente se recupere disso”.

“Seu irm ão está certam ente se lam entando m uito agora, m as não

devem os, na preocupação pelos sofrim entos dele, desvalorizar os seus. Você sente, suponho, que ao perder Isabella, você perca m etade de si m esm a. Você sente um vazio em seu coração que nada m ais pode ocupar. A com panhia se torna irritante. Quanto às diversões as quais você se habituou em Bath, a própria ideia delas, sem ela, é abom inável. Você não iria, por exem plo, a um baile por nada neste m undo. Você sente que não tem m ais am igas com quem possa conversar abertam ente, ou possa confiar algum a consideração, ou, ainda, em qualquer dificuldade, possa contar. Você sente tudo isso?”

“Não”, disse Catherine, depois de pensar por alguns m om entos, “não

sinto. Deveria? Para dizer a verdade, em bora estej a m achucada e m agoada, ainda que eu não possa am á-la, que eu nunca m ais saiba dela e, talvez, nunca m ais a vej a novam ente, não m e sinto tão aflita o quanto alguém pode pensar”.

“Você sente, com o sem pre, que é m ais coisa da natureza hum ana. Tais

sentim entos devem ser investigados para que se possa conhecê-los”.

Catherine, por algum acaso, descobriu seu hum or tão aliviado por esta conversa que não se arrependeria por ter sido levada, em bora tão irresponsavelm ente, a m encionar a circunstância que a tinha causado.