A Abadia de Northanger

Jane Austen · Capítulo 20 de 66

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A Abadia de Northanger

Capítulo 19

Poucos dias se passaram , e Catherine, em bora não se perm itindo

suspeitar de sua am iga, não pôde deixar de vigiá-la bem de perto. O resultado de suas observações não foi agradável. Quando ela a via, de certo, cercada apenas pelas am igas im ediatas em Edgar’s Buildings ou em Pulteney Street, a m udança de seus m odos era tão insignificante que, se não tivesse ido m ais além , teria passado despercebida. Algum a coisa de lânguida indiferença, ou daquela apregoada ausência de espírito que Catherine nunca tinha ouvido falar antes, ocasionalm ente lhe vinha, m as nada pior tinha aparecido que pudesse apenas ter espargido um novo encanto e inspirado um interesse m ais caloroso. Porém , quando Catherine a via em público adm itindo as atenções do capitão Tilney, tão prontam ente quanto eram oferecidas e lhe concedendo quase um a porção igual a de Jam es em sua atenção e em seus sorrisos, a alteração se tornava m uito evidente para ser ignorada. O significado de tal conduta vacilante, que sua am iga tinha, estava além de sua com preensão. Isabella não estava ciente da dor que ela estava causando, m as era um grau de voluntariosa negligência com o qual Catherine não podia deixar de se ressentir. Jam es era quem sofria. Ela o via grave e intranquilo e, em bora indiferente de seu presente conforto pudesse ficar a m ulher que lhe dera seu coração, para ela isso sem pre foi m otivo de obj eção. Tam bém estava m uito preocupada com pobre capitão Tilney. Em bora seus olhares não lhe agradassem , seu nom e era um passaporte para o bem -estar dela. Era o que ela achava com sincera com paixão de seu im inente desapontam ento, pois, apesar do que ela m esm a acreditava ter ouvido na casa de bom bas, seu com portam ento era tão incom patível com o conhecim ento do noivado de Isabella, que ela não podia, depois de refletir, im aginar que ele estivesse ciente disso. Ele podia ter ciúm es do irm ão dela, com o um rival, m as, se m ais parecesse im plícito, a culpa deveria recair sobre o m al-entendido dela. Ela desej ava, por um a gentil reprim enda, lem brar Isabella de sua situação e fazê-la ciente desta dupla crueldade, m as, quanto à reprim enda, tanto a oportunidade quanto a com preensão estavam sem pre contra ela. Se fosse capaz de dar um a deixa, Isabella nunca poderia com preendê-la. Nesta agonia, a planej ada partida da fam ília Tilney se tornou seu m aior consolo. Sua j ornada até Gloucestershire deveria ocorrer dentro de poucos dias, e a ausência do capitão Tilney ao m enos restauraria a paz a cada coração, m enos ao dele próprio. Porém , o capitão Tilney não tinha, no m om ento, intenção de partir. Ele não deveria se integrar ao grupo que iria a Northanger. Ele deveria continuar em Bath. Quando Catherine soube disso, sua decisão foi im ediatam ente tom ada. Ela conversou com Henry Tilney sobre o assunto, lam entando a evidente inclinação do irm ão dele para com a senhorita Thorpe, e rogando para que ele com unicasse ao capitão o prévio com prom etim ento dela.

“Meu irm ão sabe disso”, foi a resposta de Henry. “Sabe? Então por que ele perm anecerá aqui?” Ele não respondeu e estava com eçando a falar de outra coisa, m as ela

ansiosam ente continuou, “Por que você não o convence a ir em bora? Quanto m ais ele ficar, pior será para ele, ao final. Por favor, aconselhe o que for m elhor para ele e para todos. Aconselhe para que ele deixe Bath im ediatam ente. A ausência fará com que, pelo tem po, ele fique confortável novam ente, m as ele não terá esperanças aqui, e, perm anecendo, ficará infeliz”.

Henry sorriu e disse, “Estou certo de que m eu irm ão não desej aria

fazer isso”.

“Então você o convencerá a partir?”

“Persuasão não está ao com ando; porém desculpe-m e se eu nem

m esm o tentar convencê-lo. Eu m esm o j á lhe disse que a senhorita Thorpe j á está com prom etida. Ele sabe o que faz e deve ser seu próprio guia”.

“Não, ele não sabe o que faz”, exclam ou Catherine; “ele não sabe a dor

que causa ao m eu irm ão. Não que Jam es m e tenha dito, m as estou certa de que ele está m uito desconfortável”.

“E você está certa de que isso é decorrência do que m eu irm ão está

fazendo?”

“Sim , bem certa”.

“São as atenções de m eu irm ão à senhorita Thorpe, ou a aceitação

delas pela senhorita Thorpe, que causam a dor?”

“Não são a m esm a coisa?”

“Acho que o senhor Morland reconheceria a diferença. Nenhum

hom em é ofendido pela adm iração de outro hom em à m ulher que ele am a. É apenas a m ulher que pode fazer disso um a torm enta”.

Catherine corou pela sua am iga e disse, “Isabella está errada. Mas

estou certa de que ela não quer atorm entar, pois ela é m uito ligada ao m eu irm ão. Ela está apaixonada por ele desde o prim eiro dia em que se conheceram e, enquanto o consentim ento de m eu pai era incerto, ela se perturbou tanto a ponto de quase ter febre. Você sabe que ela deve ser ligada a ele”.

“Com preendo; ela está apaixonada por Jam es e flerta com Frederick”. “Oh! Não, não flerta. Um a m ulher apaixonada por um hom em não

pode flertar com outro”.

“É provável que ela nem am e tão bem , nem flerte tão bem , quanto

poderia fazer solteira. Os cavalheiros devem , cada um , ceder um pouco”.

Depois de um a curta pausa, ela retom ou com , “Então você não

acredita que Isabella sej a tão ligada ao m eu irm ão?”

“Não posso ter opinião algum a sobre este assunto”. “Mas o que pode seu irm ão querer? Se ele sabe do noivado dela, o que

ele quer com seu com portam ento?”

“Você é um a inquiridora persistente”.

“Sou? Apenas pergunto o que quero que sej a dito”. “Mas você só pergunta o que eu devo falar?”

“Sim , acho que sim , pois você deve conhecer o coração de seu irm ão”. “Do coração de m eu irm ão, com o você diz, no presente m om ento, só

posso adivinhar, asseguro-lhe”

“Bem ?”

“Bem ! Não, se for adivinhação, vam os adivinhar nós m esm os. Ser

guiado por um a hipótese usada é doloroso. As prem issas estão diante de você. Meu irm ão é j ovem rapaz vívido e, talvez, às vezes, im pensante. Ele conheceu sua am iga por um a sem ana e soube do noivado dela quase ao m esm o tem po em que a conheceu”.

“Bem ”, disse Catherine depois de considerar por alguns m om entos,

“você pode ser capaz de adivinhar as intenções de seu irm ão disso tudo, m as estou certa de que eu não. Mas seu pai não está desconfortável com tudo isso? Ele não desej a que o capitão Tilney se vá? Claro, se seu pai falasse com ele, ele obedeceria”.

“Minha querida senhorita Morland”, disse Henry, “neste am ável pedido

pelo conforto de seu irm ão, será que você não está um pouco equivocada? Você não foi um pouco longe dem ais? Será que ele lhe agradeceria, tanto por ele quanto pela senhorita Thorpe, por supor que a afeição dela, ou ao m enos seu bom com portam ento, devesse ser garantida som ente quando ela não visse o capitão Tilney ? Ficará ele seguro apenas na solidão? Ou será que o coração dela é fiel a ele apenas quando deixado de lado por todos? Ele não pode achar isso, e você pode estar certa de que ele não acha que você ache isso. Eu não direi, ‘Não fique preocupada, porque sei que você está assim neste m om ento, m as fique o m enos preocupada que puder. Não tenha dúvida da ligação m útua entre seu irm ão e sua am iga; confie nisso, portanto, que o verdadeiro ciúm e nunca poderá existir entre eles. Confie que nenhum a discórdia entre eles poderá durar. Seus corações estão abertos um ao outro, com o nenhum coração pode estar para você. Eles sabem exatam ente o que é necessário e o que deve ser suportado. E você pode estar certa de que nenhum provocará o outro além do que se sabe ser agradável”.

Percebendo que ela ainda parecia em dúvida e preocupada, ele

adicionou, “Em bora Frederick não deixe Bath conosco, ele provavelm ente ficará por pouco tem po, talvez poucos dias depois de nós. Sua perm issão de ausência logo expirará e ele deverá voltar para seu regim ento. E o que será então da am izade deles? A cantina irá em bebedar Isabella Thorpe por quinze dias e ela rirá, com seu irm ão, da paixão do pobre Tilney por um m ês”.

Catherine não m ais lutava contra o conforto. Ela tinha resistido às suas

abordagens durante toda a duração de um discurso, m as agora ela a seguia cativa. Henry Tilney deveria saber m elhor. Ela se culpou pela extensão de seus m edos e decidiu nunca m ais pensar tão seriam ente no assunto novam ente.

Sua decisão foi apoiada pelo com portam ento de Isabella na sua

despedida. Os Thorpe passaram a últim a noite no aloj am ento de Catherine, em Pulteney Street, e nada se passou entre os enam orados para levantar sua intranquilidade, ou deixá-la apreensiva. Jam es estava de ótim o hum or, e Isabella, m uito encantadoram ente plácida. Sua ternura para com sua am iga parecia bem o prim eiro sentim ento de seu coração, m as isso, naquele m om ento, era perdoável. Um a vez ela deu ao seu noivo um a m anifesta obj eção e, em outra, ela retirou sua m ão, m as Catherine se lem brou das recom endações de Henry e j ustificou tudo isso por um a j udiciosa afeição. Os abraços, lágrim as e prom essas da despedida entre as belas podem ser im aginados.