A Abadia de Northanger

Jane Austen · Capítulo 4 de 66

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A Abadia de Northanger

Capítulo 3

Toda m anhã trazia agora seus deveres norm ais: loj as que deveriam ser

visitadas; algum a nova parte da cidade que deveria ser observada; a casa de

bom bas[1], onde cam inhavam para cim a e para baixo por um a hora, olhando para todo m undo e não falando com ninguém . O desej o das num erosas am izades em Bath era ainda forte na senhora Allen, e ela o sentia a cada nova prova trazida pela m anhã, pois lá ela não conhecia ninguém .

As duas fizeram sua aparição nos Salões Baixos e, aqui, o destino foi

m ais favorável à nossa heroína. O m estre de cerim ônias a apresentou a um j ovem m uito cavalheiro para parceiro. Seu nom e era Tilney. Ele parecia ter 24, 25 anos, era bem alto, tinha feições agradáveis, olhos m uito inteligentes e lívidos e, se não era m uito bonito, estava perto disso. Sua abordagem era boa, e Catherine se sentiu com m uita sorte. Havia pouco tem po livre para falar enquanto dançavam , m as quando se sentaram para o chá, ela o descobriu tão agradável quanto acreditava que ele fosse. Ele conversava com fluência e espírito, e havia um a m alícia e um a graça em seus m odos que cham avam atenção, em bora dificilm ente fossem com preendidas por ela. Depois de conversar por algum tem po sobre aqueles assuntos que surgiram naturalm ente dos obj etos ao redor deles, ele subitam ente se dirigiu a ela com – “Até então fui m uito negligente, m adam e, quanto às atenções apropriadas a um parceiro; ainda não lhe perguntei há quanto tem po está em Bath; se j á esteve aqui antes; se j á foi aos Salões Superiores, ao teatro e ao concerto; e se gostou do lugar. Fui m uito negligente – m as, está disposta a m e satisfazer com tais detalhes? Se estiver, com eçarei im ediatam ente”.

“Não precisa se dar ao trabalho, senhor”.

“Nenhum trabalho, eu lhe asseguro, m adam e”. Então, usando seus

traços para construir um sorriso pronto, e artificialm ente suavizando sua voz, ele acrescentou, com um ar afetado, “Está há m uito tem po em Bath, m adam e?”

“Cerca de um a sem ana, senhor”, replicou Catherine, tentando não rir. “Sério?”, perguntou com falsa surpresa.

“Por que a surpresa, senhor?”

“Sim , é verdade! Por que...?”, ele disse em seu tom natural. “Mas,

algum a em oção deveria ser provocada por sua resposta, e a surpresa é a m ais facilm ente aceitável, e não m enos racional que qualquer outra. Agora, prossigam os. Nunca esteve aqui antes, m adam e?”

“Nunca, senhor”.

“Ora! Você j á honrou os Salões Superiores?”

“Sim senhor, estive lá na últim a segunda-feira”. “Já foi ao teatro?”

“Sim , senhor, estive na peça de terça-feira”.

“Ao concerto?”

“Sim senhor, na quarta-feira”.

“E você está gostando de Bath, com o um todo?”

“Sim , gosto m uito”.

“Agora devo sorrir falsam ente, e então poderem os ser racionais

novam ente”. Catherine virou sua cabeça, sem saber se poderia se aventurar a rir. “Vej o o que você pensa de m im ”, ele disse, gravem ente – “Deverei ser nada além de um a triste figura em seu diário, am anhã”.

“Meu diário?!”

“Sim , sei exatam ente o que você dirá: Sexta-feira, fui aos Salões

Inferiores. Vesti m eu roupão de seda enfeitado de ram os com detalhes azuis, sapatos pretos lisos que pareceram cair m uito bem , m as fui estranham ente incom odada por um hom em pouco genial e esquisito, que m e fez dançar com ele e m e agoniou com suas besteiras”.

“Na verdade, não devo dizer tais coisas”.

“Devo lhe dizer o que você diria?”

“Se quiser”.

“Dancei com um j ovem m uito agradável, apresentado pelo senhor

King. Conversei m uito com ele e m e pareceu ser um gênio dos m ais extraordinários. Espero que eu conheça m ais dele. Isso, m adam e, é o que desej o que escreva”.

“Mas, talvez, eu não tenha diário algum ”.

“Talvez você não estej a sentada nesta sala, e eu não estej a sentado com

você. Estes são pontos em que a dúvida é igualm ente possível. Não m anter um diário! Com o suas prim as ausentes vão entender o tom de sua vida em Bath, sem um diário? Com o as civilidades e os feitos de cada dia serão relatados com o devem , a m enos que sej am anotados a cada noite em um diário? Com o serão relem brados seus vários vestidos e o estado particular de seu sem blante e os cachos de seus cabelos, descritos em toda a sua diversidade, sem recorrer constantem ente a um diário? Querida m adam e, não sou tão ignorante dos m odos das j ovens dam as com o você supõe acreditar. É este delicioso hábito de m anter um diário que em m uito contribui para form ar o fácil estilo de escrever pelo qual as dam as são geralm ente celebradas. Todos concordam que o talento de escrever agradáveis cartas é peculiarm ente fem inino. A natureza pode ter feito algo, m as estou certo de que deve ter sido essencialm ente aj udada pela prática de m anter um diário”.

“Penso, às vezes”, disse Catherine hesitante, “se as dam as realm ente

escrevem cartas m elhor do que os cavalheiros! Quero dizer, eu não diria que a superioridade estej a sem pre ao nosso lado”.

“Pelo que tive oportunidade de j ulgar, parece-m e que o estilo habitual

de redigir cartas entre as m ulheres é perfeito, exceto por três detalhes”.

“E quais são eles?”

“Um a deficiência geral de assunto, um a total falta de atenção à

pontuação e um a ignorância m uito frequente de gram ática”.

“Realm ente! Não preciso tem er o elogio. Você não tem um a ideia

m uito boa de nós, nesse sentido”.

“Não deverei m ais estabelecer com o regra geral que as m ulheres

escrevem m elhores cartas que os hom ens, que elas cantam m elhores duetos ou desenham m elhores paisagens. Em cada poder, no qual o gosto é a base, a excelência é m uito bem dividida entre os sexos”.

Foram interrom pidos pela senhora Allen: “Minha querida Catherine”,

disse ela, “retire este alfinete de m inha capa. Tem o que j á tenha feito um furo. Ficarei m uito triste se for o caso, pois este é m eu vestido favorito, em bora não custe m ais do que nove xelins a j arda”.

“Era exatam ente isso o que eu teria achado, m adam e”, disse o senhor

Tilney, olhando para a seda.

“Você entende de seda, senhor?”

“Particularm ente bem . Sem pre com pro m inhas próprias gravatas, e

m e perm ito ser um excelente j uiz. E m inha irm ã, às vezes, confia-m e a escolha de um vestido. Com prei um para ela outro dia, e m e disse que foi um a com pra prodigiosa por todas as dam as que o viram . Não dei m ais que cinco xelins por j arda por ele, e era um a verdadeira seda indiana”.

A senhora Allen estava bastante surpresa com o seu gênio. “Os hom ens

geralm ente dão tão pouca atenção a estas coisas”, disse ela; “Não consigo fazer com que o senhor Allen distinga um vestido de outro. Você deve ser um grande conforto para sua irm ã, senhor”.

“Espero que sim , m adam e”.

“E, por favor, senhor, o que acha do vestido da senhorita Morland?”

“É m uito bonito, m adam e”, disse ele, exam inando-o gravem ente. “Mas

não acho que a lavagem o fará bem . Tem o que ele desfie”.

“Com o pode”, disse Catherine, rindo, “ser tão...”. Ela quase disse

“estranho”.

“Sou bem da m esm a opinião, senhor”, replicou a senhora Allen; “e foi

o que eu disse quando a senhorita Morland o com prou”.

“Mas você sabe, m adam e, que a seda sem pre pode se transform ar em

um a coisa ou outra. A senhorita Morland terá o suficiente para um lenço, um chapéu ou um a capa. Não se pode dizer que a seda é desperdiçada. Tenho ouvido m inha irm ã dizer isso um as quarenta vezes, quando ela foi extravagante ao com prar m ais do que ela queria, ou descuidada em retalhá-la”.

“Bath é um lugar encantador, senhor. Há tantas loj as boas aqui.

Infelizm ente, estam os afastadas no cam po. Não que não haj a boas loj as em Salisbury, m as ficam m uito longe. Quase 13 quilôm etros é m uito cam inho. O senhor Allen diz que são quase 15 quilôm etros, porém estou certa de que não pode ser m ais que treze. Mas é um castigo. Volto extrem am ente cansada. Agora, aqui, pode-se sair de casa e com prar algo em cinco m inutos”.

O senhor Tilney foi educado o suficiente para parecer interessado no

que ela disse, e ela o m anteve no assunto de seda até que as danças recom eçaram . Catherine tem eu, enquanto ouvia a conversa, que ele fosse por dem ais indulgente consigo m esm o, quanto aos pontos fracos dos outros. “O que você está pensando tão seriam ente?”, disse ele, enquanto voltavam para o salão de baile; “não de seu parceiro, espero, pois, pelo balançar de sua cabeça, suas m editações não são satisfatórias”.

Catherine se ruborizou e disse, “Eu não pensava em nada”. “Isso é astucioso e profundo, estou certo; m as preferia que dissesse que

não iria m e contar”.

“Está bem , não contarei”.

“Obrigado; pois agora serem os am igos em breve, j á que estou

autorizado a lhe provocar com este assunto sem pre que nos encontrarm os, e nada no m undo apressa tanto a intim idade”.

Dançaram e, quando o grupo fechou, separaram -se. No entanto, do

lado da dam a, pelo m enos, houve um a forte inclinação para continuar a am izade. Se ela pensava nele enquanto bebia seu vinho com água, ou enquanto se preparava para dorm ir, a ponto de sonhar com ele, isso não se podia garantir. Mas espero que não m ais do que em um sono leve, ou em um cochilo m atinal, no m áxim o. Pois, se for verdade, com o um celebrado escritor tem afirm ado, que nenhum a j ovem dam a pode se apaixonar antes que o am or do cavalheiro sej a

declarado[2]*, deve ser m uito im próprio que um a j ovem dam a venha a sonhar com um cavalheiro antes que se saiba se o cavalheiro sonhou com ela prim eiro. Com o o senhor Tilney – sej a um sonhador, sej a um enam orado – não foi apresentado ao senhor Allen, este se convenceu, ao perguntar sobre o j ovem rapaz, de que ele era um a am izade com um para o j ovem encargo dele. Então, logo no início da noite, o senhor Allen quis saber quem era o parceiro de Catherine, e lhe foi assegurado que o senhor Tilney era um clérigo e de um a respeitável fam ília em Gloucestershire.

 

[1] Tam bém conhecido com o spa. Bath é um a estância term al ao sudoeste da

Inglaterra. “Pum p-Room ”s é um conj unto de piscinas de águas term ais, construído no com eço do século XVIII.

[2]* Ver carta do senhor Richardson, núm ero 97, Vol. II, Ram bler.