A Abadia de Northanger

Jane Austen · Capítulo 22 de 66

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A Abadia de Northanger

Capítulo 21

O relancear de um m om ento foi o bastante para com provar a

Catherine que seu quarto era bem diferente daquele com que Henry tinha tentado assustá-la pela sua descrição. Não era, de m odo algum , irracionalm ente grande e não continha nem tapeçarias ou veludo. As paredes eram revestidas de papéis e o chão era acarpetado. As j anelas não eram m enos perfeitas ou m ais obscuras do que aquelas da sala de estar abaixo. Os m óveis, em bora não da últim a m oda, eram bonitos e confortáveis, e o tom da sala, em seu conj unto, estava longe de ser triste. Com seu coração instantaneam ente tranquilo com isso, ela decidiu não perder tem po com um exam e detalhado de coisa algum a, pois tem ia m uito irritar o general com qualquer atraso. Suas roupas, portanto, foram retiradas com a m aior pressa, e ela se preparava para abrir a m ala de linho, sendo que um a poltrona lhe proporcionava rápido uso, quando seus olhos caíram subitam ente em um grande e alto cofre, recuado em profundo recesso, em um lado da lareira. A visão daquilo a fez pular e, esquecendo-se de todo o resto, ela ficou a encará-lo com im óvel surpresa, enquanto os pensam entos lhe ocorriam : “Isso é m uito estranho! Não esperava ver algo com o isso! Um cofre im enso e pesado! O que ele pode conter? Por que deveria ser colocado aqui? E recuado tam bém , com o se fosse para escondê-lo! Vou olhar dentro dele, custe o que custar, vou olhar, e im ediatam ente, tam bém , à luz do dia. Se eu perm anecer até a noite, m inha vela se apagará”. Ela avançou e o exam inou de perto. Era de cedro, curiosam ente ornado com algum a m adeira escura, e suspenso, quase a um pé do chão, por um apoio entalhado igual. A fechadura era de prata, em bora m anchada pelo tem po. A cada extrem idade havia os restos im perfeitos de um a m açaneta, tam bém de prata, quebrada talvez prem aturam ente por algum a estranha violência. E, ao centro da porta, havia um código m isterioso, no m esm o m etal. Catherine se inclinou sobre ele com curiosidade, m as sem ser capaz de distinguir nada com certeza. Ela não podia, em qualquer direção que o olhasse, acreditar que a últim a letra fosse um T. E, ainda que pudesse ser qualquer coisa m ais naquela casa, era um a circunstância a suscitar algum grau com um de surpresa. Se não fosse originalm ente deles, por quais estranhos eventos teria caído em posse da fam ília Tilney ?

Sua tem erosa curiosidade crescia a cada m om ento e, agarrando com

m ãos trêm ulas o ferrolho da fechadura, ela resolveu, contra todos os riscos, satisfazer-se quanto ao seu conteúdo. Com dificuldade, pois algo parecia resistir aos seus esforços, ela abriu a porta por algum as polegadas. Mas, naquele m om ento, um a súbita batida na porta a fez, com um pulo, soltar a porta, que se fechou com alarm ante violência. A inconveniente intrusa era a am a da senhorita Tilney, enviada pela sua patroa para aj udá-la. Em bora Catherine a tenha dispensado im ediatam ente, voltou-lhe o senso de o que ela deveria fazer, forçando-a, apesar de seu ansioso desej o de penetrar nesse m istério, a continuar a se vestir sem m ais atrasos. Seu progresso não foi rápido, pois seus pensam entos e seus olhos estavam ainda voltados ao obj eto tão bem calculado a interessar e assustar. Em bora ela não ousasse perder um m om ento com um a segunda tentativa, ela não podia perm anecer a m uitos passos do cofre. Por fim , porém , tendo deslizado um braço por entre seu vestido, sua preparação parecia quase term inada a ponto de que a im paciência de sua curiosidade não pudesse ser m ais com batida. Certam ente um m om ento podia ser poupado. Tão desesperado deveria ser o uso de sua força que, a m enos que fosse protegido por forças sobrenaturais, a porta deveria ser escancarada a qualquer m om ento. Com este espírito, ela se j ogou adiante e sua confiança não a enganou. Seu esforço decidido fez a porta ceder e deu a seus olhos surpresos a visão de um a colcha branca de algodão, devidam ente dobrada, repousando em um canto do cofre livre para ser apoderada!

Ela a fitava com o prim eiro corar da surpresa quando a senhorita

Tilney, ansiosa para que sua am iga estivesse pronta, entrou no quarto e, à vergonha crescente por ter acalentado um a expectativa absurda por alguns m inutos, acrescentou-se a vergonha de ser pega em um a busca inútil. “Este é um cofre velho e curioso, não é?”, perguntou a senhorita Tilney, enquanto Catherine o fechava apressadam ente e se virava para a j anela. “É im possível dizer há quantas gerações está aqui. Nem sei com o veio parar aqui, m as não o m udei de lugar porque achei que poderia ser útil, às vezes, para colocar chapéus e gorros. O pior dele é que seu peso o faz difícil de abrir. Neste canto, porém , pelo m enos fica fora do cam inho”.

Catherine não tinha tem po para falar, pois, de um a só vez, ela corava,

am arrava seu vestido e tom ava sábias decisões com a m ais violenta pressa. A senhorita Tilney deu a entender, gentilm ente, seu m edo por estar atrasada e, em m eio m inuto, correram pelas escadas j untas, em um alarm e não totalm ente infundado, pois o general Tilney estava andando pela sala de estar, relógio em punho, e tendo, no instante em que elas entravam , puxado a sineta com violência, ordenando “O j antar na m esa, im ediatam ente!”

Catherine trem eu com a ênfase a qual ele falou, e sentou-se pálida e

sem respirar, de m odo bem hum ilde, preocupada com os filhos dele, e detestando cofres velhos. O general, recuperando sua polidez enquanto olhava para ela, passou o resto de seu tem po ralhando com sua filha por tolam ente apressar sua bela am iga, a qual estava com pletam ente sem fôlego pela afobação, quando não havia a m enor ocasião para pressa nesse m undo. Mas Catherine não podia, de m odo algum , superar o incôm odo duplo de ter envolvido sua am iga em um a bronca e ter sido ela m esm a um a sim plória, até que todos se sentaram felizes à m esa de j antar, e os sorrisos com placentes do general e o bom apetite dela m esm a devolveram -lhe a paz. A sala de j antar era nobre, adequada em suas dim ensões para um a sala de estar bem m ais larga do que aquela em uso com um , e com um a decoração em um estilo de luxo e de gostos, a qual se perdeu aos olhos sem prática de Catherine, que via pouco m ais que seu espaço e o núm ero de habitantes. Sobre o prim eiro, ela pronunciou em voz alta sua adm iração, e o general, com um rosto m uito gracioso, reconheceu que não era, de m odo nenhum , um a sala de tam anho inadequado e, depois, confessou que, em bora tão indiferente em tais assuntos quanto à m aioria das pessoas, ele considerava que um a sala de j antar razoavelm ente grande era um a necessidade da vida. Ele supunha, porém , “que ela devesse estar acostum ada com côm odos de tam anho m uito m elhor na casa do senhor Allen”.

“Não, de fato”, foi a garantia honesta de Catherine; “a sala de j antar do

Senhor Allen não é nem m etade da sua”, e ela nunca vira um a sala tão grande quanto aquela em toda a sua vida. O bom hum or do general aum entou. Ora, com o tinha tantos quartos, ele pensou que seria sim ples não fazer uso de todos, m as, pela sua honra, ele acreditava que poderia haver m ais conforto em salas som ente com a m etade daquele tam anho. A casa do senhor Allen, ele estava certo, deveria ser do tam anho verdadeiro da felicidade racional.

A noite transcorreu sem m ais inconveniências e, na ausência ocasional

do general Tilney, com m uito m ais alegria, decerto. Era apenas na presença dele que Catherine sentia a m enor fadiga pela viagem , e, m esm o assim , em m om entos de abatim ento ou contenção, um senso de felicidade geral prevalecia, e ela podia pensar em seus am igos em Bath, sem desej o algum de estar com eles.

A noite foi chuvosa. O vento tinha se acentuado aos poucos, pela tarde

inteira. E, ao horário em que o grupo se desfez, ventava e chovia violentam ente. Catherine, enquanto atravessava o corredor, ouvia a tem pestade com sensação de pavor. Quando ela ouviu a chuva fustigar um canto do velho edifício e fechar com súbita fúria um a porta distante, Catherine sentiu pela prim eira vez que realm ente estava em um a abadia. Sim , aqueles eram sons característicos. Traziam , até ela, lem branças de incontáveis variedades de terríveis situações e cenas horríveis que tais edifícios haviam testem unhado e que tais tem pestades haviam levado. Ardorosam ente ela se regozij ou com as circunstâncias m ais felizes de entrar e estar protej ida por paredes tão solenes! Ela nada tinha a tem er sobre assassinos da m eia-noite ou galãs bêbados. Certam ente Henry estava apenas zom bando sobre tudo o que havia dito naquela m anhã. Em um a casa tão fornida e tão guardada, ela nada teria a explorar ou fazer, e podia ir para cam a tão segura quanto se estivesse em sua própria câm ara em Fullerton. Assim , fortificando sabiam ente sua m ente enquanto subia as escadas, ela teve condições, especialm ente ao perceber que a senhorita Tilney dorm ia a apenas duas portas dela, de entrar em seu quarto com um coração razoavelm ente coraj oso, e seu hum or foi im ediatam ente aj udado pelo alegre brilhar de um a lareira acesa. “Com o isso é m uito m elhor”, ela disse, enquanto cam inhava até a grade da lareira. “Com o é m uito m elhor encontrar o fogo j á aceso do que ter de trem er de frio até que toda a fam ília se deite, com o m uitas garotas pobres têm sido obrigadas a fazer, ou então ter um fiel e velho criado assustando alguém ao entrar com um pacote! Com o estou feliz por Northanger ser o que é! Se fosse com o em outros lugares, im agino que, num a noite com esta, eu não poderia garantir a m inha coragem . Mas agora, certam ente, não há nada com que m e alarm ar”.

Ela olhou ao redor do quarto. As cortinas da j anela pareciam se m over.

Não podia ser nada além da violência do vento penetrando por entre as divisões das persianas. Ela avançou resoluta, assobiando indiferentem ente um a m elodia para assegurar sua resolução, espiou com coragem atrás de cada cortina, nada viu no parapeito da j anela baixa que a assustasse e, ao colocar um a m ão sobre a persiana, sentiu a m ais forte convicção da força do vento. Um olhar de relance ao velho cofre, enquanto se voltava deste exam e, não foi de todo inútil. Ela desdenhou os m edos infundados de um a fantasia tola e com eçou, com a m ais feliz indiferença, a se preparar para dorm ir. “Ela deveria se dar um tem po. Ela não deveria se apressar. Ela não se im portava se fosse a últim a pessoa a despertar na casa. Mas ela não acenderia o fogo. Isso pareceria covardia, com o se quisesse a proteção da luz depois de se deitar”. O fogo, portanto, esm aeceu, e Catherine, tendo passado boa parte da hora em seus preparativos, estava com eçando a pensar em se deitar quando, ao dar um relance de despedida ao quarto, surpreendeu-se com a aparição de um alto e antiquado arm ário negro que, em bora em um a situação bastante evidente, nunca tinha cham ado sua atenção. As palavras de Henry e sua descrição do arm ário de ébano, o qual deveria escapar de sua percepção im ediata, logo vieram à m em ória de Catherine. Em bora não pudesse realm ente haver algo nele, havia algo fantástico. Era certam ente um a coincidência m uito notável! Ela pegou sua vela e olhou o arm ário de perto. Não era todo de ébano e ouro, m as era de laquê, preto e am arelo, m as do m ais belo laquê e, enquanto segurava sua vela, o am arelo ganhava em m uito o efeito do ouro. A chave estava na porta, e ela teve a estranha fantasia de olhar dentro dele. Não, porém , com a m enor expectativa de encontrar algo, m as era m uito estranho depois do que Henry havia dito. Em resum o, ela não dorm iria enquanto não o inspecionasse. Assim , colocando a vela com grande cuidado sobre um a cadeira, ela agarrou a chave com a m ão bem trêm ula e tentou girá-la, m as a chave resistiu ao seu esforço m ais extrem o. Alarm ada, m as não frustrada, ela tentou de outra m aneira. A trava se m oveu e ela acreditou ter conseguido. Mas que estranho m istério! A porta ainda estava im óvel. Ela parou por um m om ento em um a surpresa sem fôlego. O vento se despej ava pela cham iné, a chuva batia em torrentes contra as j anelas, e tudo parecia pronunciar o pavor de sua situação. Voltar para a cam a, porém , insatisfeita com aquilo, seria em vão, j á que o sono seria im possível sabendo que um arm ário tão m isteriosam ente fechado estava perto dela. Novam ente, portanto, ela tentou virar a chave e, depois de m ovê-la de todos os m odos possíveis por alguns instantes, com a celeridade determ inada da esperança pelo últim o esforço, a porta subitam ente cedeu à sua m ão. Seu coração pulou de contentam ento por tal vitória e, tendo aberto cada porta, sendo que a segunda estava presa apenas por parafusos de construção, m enos m aravilhosos que a trava, em bora nisso seus olhos nada pudessem perceber de diferente, um a dupla fileira de gavetas se m ostrou, com algum as gavetas m ais largas acim a e abaixo dela. Ao centro, um a pequena porta, tam bém fechada com um a trava e com um a chave, assegurava, entre todas as probabilidades, um recôndito de im portância.

O coração de Catherine bateu acelerado, m as sua coragem não lhe

faltou. Com o rosto corado pela esperança e os olhos pulsando de curiosidade, seus dedos agarraram o puxador de um a gaveta e o puxaram . Estava totalm ente vazia. Com m enos alarm e e m aior ansiedade, ela abriu um a segunda, um a terceira, um a quarta. Cada um a igualm ente vazia. Nenhum a foi deixada sem investigação, e em nenhum a algo foi encontrado. Bem entendida na arte de ocultar um tesouro, a possibilidade de revestim entos falsos nas gavetas não lhe escapou, e ela apalpou cada um a delas com ansiosa precisão, m as em vão. Apenas aquele lugar ao m eio perm anecia inexplorado. Em bora ela “nunca, desde o com eço, tivesse a m enor ideia de encontrar algo em parte algum a do arm ário, e não estava nem ao m enos desapontada com seu fracasso até então, seria tolo não exam iná-lo com pletam ente, enquanto ela estava nisso”. Levou algum tem po, porém , até que pudesse destrancar a porta, com a m esm a dificuldade ocorrendo no cuidado com a trava interna, quanto com a externa. Mas por fim ela a abriu, e não em vão, com o era sua busca, até então. Seus olhos rápidos logo se deitaram sobre um rolo de papéis em purrados para o fundo da cavidade, aparentem ente por esconderij o, e seus sentim entos naquele m om ento foram indescritíveis. Seu coração palpitou, seus j oelhos trem eram e seu rosto em palideceu. Com m ãos incertas ela pegou o precioso m anuscrito, pois m eio relance garantiu que havia letras escritas. Enquanto reconhecia com terríveis sensações esta surpreendente coincidência com o que Henry tinha previsto, ela resolveu ler atenciosam ente cada linha antes de dorm ir.

A fraqueza da luz que sua vela em itia fez com que ela se voltasse com

alarm e. Mas não havia perigo de que se apagasse subitam ente. Ainda queim aria por algum as horas. Para que não tivesse m aior dificuldade em distinguir a escrita m ais do que sua antiga data poderia ocasionar, ela apressadam ente cortou o que j á havia queim ado do seu pavio. Pronto! Isso foi feito e a vela im ediatam ente se apagou. Um a lam parina não poderia ter expirado com efeito ainda m ais terrível. Catherine, por alguns m om entos, ficou im óvel de horror. Apagou-se com pletam ente. Nem um resto de luz no pavio poderia dar esperança a sua respiração vacilante. A escuridão im penetrável e im óvel preencheu o quarto. Um violento j orro de vento, erguendo-se com inesperada fúria, acrescentou novo terror ao m om ento. Catherine trem eu dos pés à cabeça. Na pausa que se sucedeu, um som com o passos se afastando e o bater de um a distante porta chegaram aos seus ouvidos assustados. A natureza hum ana não podia m ais aguentar. O frio suor surgiu em sua testa, o m anuscrito caiu de suas m ãos e, buscando seu cam inho para a cam a, pulou nela apressadam ente e buscou suspender sua agonia ao trem er debaixo das cobertas. Ela sentia que fechar seus olhos para dorm ir naquela noite estava inteiram ente fora de questão. Com a curiosidade tão recentem ente despertada e os sentim entos agitados de todo j eito, repousar seria absolutam ente im possível. A tem pestade lá fora estava terrível! Ela não acostum ava se alarm ar com o vento, m as agora cada raj ada parecia carregada com terríveis inform ações. O m anuscrito, tão surpreendentem ente encontrado, cum priu exem plarm ente com a predição da m anhã. Com o isso deveria ser explicado? O que ele conteria? A quem foi escrito? De que j eito ele foi por tanto tem po escondido? E com o era singularm ente estranho que coubesse a ela descobri-lo! Até que ela se tornasse dona de seu conteúdo, porém , ela não teria nem repouso ou conforto. E com os prim eiros raios do sol, ela estava determ inada a lê-lo. Porém , m uitas ainda eram as horas tediosas que deveriam se suceder. Ela trem eu, virou-se em sua cam a e invej ou cada um que dorm ia tranquilo. A torm enta ainda caía pesada e vários eram os ruídos. Mais terrível ainda era o vento que se chocava interm itentem ente em seu ouvido assustado. As próprias cortinas de sua cam a pareciam se m over em um m om ento, e em outro, a tranca da sua porta era agitada, com o se alguém tentasse entrar. Murm úrios ocos pareciam crepitar ao longo da galeria e, m ais de um a vez, seu sangue gelara com o som de gem idos longínquos. As horas se passaram um a a um a, e a cansada Catherine ouviu todos os relógios baterem três horas, antes que a tem pestade dim inuísse, ou ela caísse inconscientem ente no sono.