A Correspondência de Fradique Mendes
Capítulo V
Com effeito, n'esta saudade de Fradique pelo Portugal antigo, havia amor do «pittoresco», estranho n'um homem tão subjectivo e intellectual: mas sobretudo havia o odio a esta universal modernisação que reduz todos os costumes, crenças, idéas, gostos, modos, os mais ingenitos e mais originalmente proprios, a um typo uniforme (representado pelo sujeito utilitario e sério de sobrecasaca preta)—com a monotonia com que o chinez apara todas as arvores d'um jardim, até lhes dar a fórma unica e dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.
Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo—o povo que não mudou, como não muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus caracteres graves e dôces. Amava-o pelas suas qualidades, e tambem pelos seus defeitos:—pela sua morosa paciencia de boi manso; pela alegria idyllica que lhe poetisa o trabalho; pela calma acquiescencia á vassallagem com que depois do Senhor Rei venera o Senhor Governo; pela sua doçura amaviosa e naturalista; pelo seu catholicismo pagão, e carinho fiel aos Deuses latinos, tornados santos calendares; pelos seus trajes, pelos seus cantos... «Amava-o ainda (diz elle) pela sua linguagem tão bronca e pobre, mas a unica em Portugal onde se não sente odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das Sebentas de de Direito Publico».
V
A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no Rato, lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. O antigo poeta das L tinha então cincoenta annos; e cada dia se prendia mais á quieta doçura dos seus habitos de Paris.
Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilára com um luxo sobrio e grave—tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias e estofos, onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os Seculos, e que, sob o barbaro e justo nome de bric-à-brac, tanto seduz os financeiros e as cocottes. Nobres e ricas tapeçarias de Paizagem e de Historia; amplos divans d'Aubusson; alguns moveis d'arte da Renascença Franceza; porcelanas raras de Deft e da China; espaço, claridade, uma harmonia de tons castos—eis o que se encontrava nas cinco salas que constituiam o «covil» de Fradique. Todas as varandas, de ferro rendilhado, datando de Luiz XIV, abriam sobre um d'esses jardins de arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico, formam retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de maio se arrisca a cantar um rouxinol.
A vida de Fradique era medida por um relogio secular, que precedia o toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga dança de côrte: e era mantida n'uma immutavel regularidade pelo seu creado Smith, velho escossez da clan dos Macduffs, já todo branco de pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta annos o acompanhava, com severo zêlo, através da vida e do mundo.
De manhã, ás nove horas, mal se espalhavam no ar os compassos gentis e melancolicos d'aquelle esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin, Smith rompia pelo quarto de Fradique, abria todas as janellas á luz, gritava:—Morning, Sir! Immediatamente Fradique, dando de entre a roupa um salto brusco que considerava «de hygiene transcendente», corria ao immenso laboratorio de marmore, a esponjar a face e a cabeça em agua fria, com um resfolgar de Trytão ditoso. Depois, enfiando uma das cabaias de sêda que tanto me maravilhavam, abandonava-se, estirado n'uma poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (affirmava Fradique) reunia a ligeireza macia de Figaro á sapiencia confidencial do velho Oliveiro de Luiz XI. E, com effeito, emquanto o ensaboava e escanhoava, Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em factos, dos telegrammas politicos do Times, do Standard e da Gazeta de Colonia!
Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vêr Smith, com a sua alta gravata branca á Palmerston, a rabona curta, as calças de xadrez verde e preto (côres da sua clan), os sapatos de verniz decotados, passando o pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita sciencia e perfeita consciencia:—«Não se realisa a conferencia do principe de Bismarck com o conde Kalnocky... Os conservadores perderam a eleição supplementar de York... Fallava-se hontem em Vienna d'um novo emprestimo russo...» Os amigos em Lisboa riam d'esta «caturreira»; mas Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso á tradição classica, que em todo o mundo latino, desde Scipião o Africano, instituira os barbeiros como «informadores universaes da coisa publica». Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noções politicas: e Fradique nunca dizia—«Li no Times»—mas «Li no Smith».
Bem barbeado, bem informado, Fradique mergulhava n'um banho ligeiramente tepido, d'onde voltava para as mãos vigorosas de Smith, que, com um jogo de luvas de lã, de flanella, d'estopa, de clina e de pelle de tigre, o friccionava até que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo, «roseo e reluzente». Tomava então o seu chocolate; e recolhia á bibliotheca, sala séria e simples, onde uma imagem da Verdade, radiosamente branca na sua nudez de marmore, pousava o dedo subtil sobre os labios puros, symbolisando, em frente á vasta mesa de ébano, um trabalho todo intimo á busca de verdades que não são para o ruido e para o mundo.
Á uma hora almoçava, com a sobriedade d'um grego, ovos e legumes:—e depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos de chá russo, percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d'arte, de litteratura, de theatro ou de sociedade, que não eram da competencia politica de Smith. Lia então tambem com cuidado os jornaes portuguezes (que chama algures «phenomenos picarescos de decomposição social»), sempre caracteristicos, mas superiormente interessantes para quem como elle se comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da mediocridade», e considerava Calino tão digno d'estudo como Voltaire. O resto do dia dava-o aos amigos, ás visitas, aos ateliers, ás salas d'armas, ás exposições, aos clubs—aos cuidados diversos que se cria um homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta civilisacão.
De tarde subia ao Bois conduzindo o seu phaeton, ou montando a Sabá, uma maravilhosa egoa das caudelarias de Aïn-Weibah que lhe cedera o Emir de Mossul. E a sua noite (quando não tinha cadeira na Opera ou na Comédie) era passada n'algum salão— precisando sempre findar o seu dia entre «o ephemero feminino». (Assim dizia Fradique).
A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e s A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e sobre todas as coisas, amava a Mulher.
A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por devoções de espiritualista, por curiosidades de critico, e por exigencias de sanguineo. Á maneira dos sentimentaes da Restauração, Fradique considerava-as como «organismos» superiores, divinamente complicados, differentes e mais proprios de adoração do que tudo o que offerece a Natureza: ao mesmo tempo, através d'este culto, ia dissecando e estudando esses «organismos divinos», fibra a fibra, sem respeito, por paixão de analysta; e frequentemente o critico e o enthusiasta desappareciam para só restar n'elle um homem amando a mulher, na simples e boa lei natural, como os Faunos amavam as Nymphas.
As mulheres, além d'isso, estavam para elle (pelo menos nas suas theorias de conversação) classificadas em especies. Havia a «mulher d'exterior», flôr de luxo e de mundanismo culto: e havia a «mulher d'interior», a que guarda o lar, diante da qual, qualquer que fosse o seu brilho, Fradique conservava um tom penetrado de respeito, excluindo toda a investigação experimental. «Estou em presença d'estas (escreve elle a Madame de Jouarre), como em face d'uma carta alheia fechada com sinete e lacre». Na presença, porém, d'aquellas que se «exteriorisam» e vivem todas no ruido e na phantasia, Fradique achava-se tão livre e tão irresponsavel como perante um volume impresso. «Folhear o livro (diz elle ainda a Madame de Jouarre), annotal-o nas margens assetinadas, critical-o em voz alta com independencia e veia, leval-o no coupé para lêr á noite em casa, aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto percorridas as melhores paginas—é bem permittido, creio eu, segundo a Cartilha e o Codigo».
Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão para o tornar litterariamente interessante? Não sei. O commentario mais instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma sala, entre «o ephemero feminino». Certas mulheres muito voluptuosas, quando escutam um homem que as perturba, abrem insensivelmente os labios. Em Fradique eram os olhos que se alargavam. Tinha-os pequenos e côr de tabaco: mas junto d'uma d'essas mulheres de exterior, «estrellas de mundanismo», tornavam-se-lhe immensos, cheios de luz negra, avelludados, quasi humidos. A velha lady Mongrave comparava-os «ás guelas abertas de duas serpentes». Havia alli com effeito um acto de alliciação e de absorpção—mas havia sobretudo a evidencia da perturbação e do encanto que o inundavam. N'essa attenção de beato diante da Virgem, no murmurio quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa, no humedecimento enleado dos seus olhos finos,—as mulheres viam apenas a influencia omnipotentemente vencedora das suas graças de Fórma e d'Alma sobre um homem esplendidamente viril. Ora nenhum homem mais perigoso do que aquelle que dá sempre ás mulheres a impressão clara, quasi tangivel—de que ellas são irresistiveis, e subjugam o coração mais rebelde só com mover os hombros lentos ou murmurar «que linda tarde!» Quem se mostra facilmente seduzido—facilmente se torna seductor. É a lenda india, tão sagaz e real, do espelho encantado em que a velha Maharina se via radiosamente bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto esplendor se reflecte a sua pelle engilhada—que peccados e que traições não commetterá a Maharina?...
Creio, pois, que Fradique foi profundamente amado, e que magnificamente o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sêr, raro entre os homens—um Homem. E para ellas Fradique possuia esta superioridade inestimavel, quasi unica na nossa geração—uma alma extremamente sensivel, servida por um corpo extremamente forte.
De maior duração e intensidade que os seus amores foram todavia as amizades que Fradique a si attrahiu pela sua excellencia moral. Quando eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno de 1867, julguei sentir na sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e metallica: e através da admiração que me deixára a sua arte, a sua personalidade, o seu viço, a sua cabaia de sêda—confessei um dia a J. Teixeira d'Azevedo que não encontrára no poeta das L aquelle tepido leite da bondade humana, sem o qual o velho Shakspeare (nem eu, depois d'elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade. A sua mesma polidez, tão risonha e perfeita, me parecera mais composta por um systema do que genuinamente ingenita. Decerto, porém, concorreu para a formação d'este juizo uma carta (já velha, de 1855) que alguem me confiou, e em que Fradique, com toda a leviana altivez da mocidade, lançava este rude programma de conducta:—«Os homens nasceram para trabalhar, as mulheres para chorar, e nós, os fortes, para passar friamente através!...»
Mas em 1880, quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do Bignon, Fradique tinha cincoenta annos: e, ou porque eu então o observasse com uma assiduidade mais penetrante, ou porque n'elle se tivesse já operado com a idade esse phenomeno que Fustan de Carmanges chamou depois le degel de Fradique, bem cedo senti, através da impassibilidade marmorea do cinzelador das L , brotar, tepida e generosamente, o leite da bondade humana.
A forte expressão de virtude que n'elle logo me impressionou foi a sua incondicional e irrestricta indulgencia. Ou por uma conclusão da sua philosophia, ou por uma inspiração da sua natureza—Fradique, perante o peccado e o delicto, tendia áquella velha misericordia evangelica que, consciente da universal fragilidade, pergunta d'onde se erguerá a mão bastante pura para arremessar a primeira pedra ao erro. Em toda a culpa elle via (talvez contra a razão, mas em obediencia áquella voz que fallava baixo a S. Francisco d'Assis e que ainda se não calou) a irremediavel fraqueza humana: e o seu perdão subia logo do fundo d'essa Piedade que jazia na sua alma, como manancial d'agua pura em terra rica, sempre prompto a brotar.
A sua bondade, porém, não se limitava a esta expressão passiva. Toda a desgraça, desde a amargura limitada e tangivel que passa na rua, até á vasta e esparsa miseria que com a força d'um elemento devasta classes e raças, teve n'elle um consolador diligente e real. São d'elle, e escriptas nos derradeiros annos (n'uma carta a G. F.) estas nobres palavras:—«Todos nós que vivemos n'este globo formamos uma immensa caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma natureza inconsciente, impassivel, mortal como nós, que não nos entende, nem sequer nos vê, e d'onde não podemos esperar nem soccorro nem consolação. Só nos resta para nos dirigir, na rajada que nos leva, esse secular preceito, summa divina de toda a experiencia humana—«ajudai-vos uns aos outros!» Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta se misturam—cada um ceda metade do seu pão áquelle que tem fome; estenda metade do seu manto áquelle que tem frio; acuda com o braço áquelle que vai tropeçar; poupe o corpo d'aquelle que já tombou; e se algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas sympathia d'almas, que as almas se abram para elle transbordando d'essa sympathia... Só assim conseguiremos dar alguma belleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a Morte».
Decerto Fradique não era um santo militante, rebuscando pelas viellas miserias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle conhecido, que d'elle não recebesse allivio. Sempre que lia por acaso, n'um jornal, uma calamidade ou uma indigencia, marcava a noticia com um traço a lapis, lançando ao lado um algarismo—que indicava ao velho Smith o numero de libras que devia remetter, sem publicidade, pudicamente. A sua maxima para com os pobres (a quem os Economistas affirmam que se não deve Caridade mas Justiça)—era «que á hora das comidas mais vale um pataco na mão que duas Philosophias a voar». As creanças, sobretudo quando necessitadas, inspiravam-lhe um enternecimento infinito; e era d'estes, singularmente raros, que encontrando, n'um agreste dia de inverno, um pequenino que pede, tranzido de frio—param sob a chuva e sob o vento, desapertam pacientemente o paletot, descalçam pacientemente a luva, para vasculhar no fundo da algibeira, á procura da moeda de prata que vai ser o calor e o pão d'um dia.
Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo que vive. Não conheci homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma occasião em Paris, correndo ambos a uma estação de fiacres para nos salvarmos d'um chuveiro que desabava, e seguir, na pressa que nos leváva, a uma venda de tapeçarias (onde Fradique cubiçava umas Nove Musas dançando entre loureiraes), encontrámos apenas um coupé, cuja pileca, com o sacco pendente do focinho, comia melancolicamente a sua ração. Fradique teimou em esperar que o cavallo almoçasse com socego—e perdeu as Nove Musas.
Nos ultimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miseria das classes —por sentir que n'estas Democracias industriaes e materialistas, furiosamente empenhadas na lucta pelo pão egoista, as almas cada dia se tornam mais sêccas e menos capazes de piedade. «A fraternidade (dizia elle n'uma carta de 1886 que conservo) vai-se sumindo, principalmente n'estas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e luctar; e, através do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades ruraes, o mundo vai rolando a um egoismo feroz. A primeira evidencia d'este egoismo é o desenvolvimento ruidoso da philantropia. Desde que a caridade se organisa e se consolida em instituição, com regulamentos, relatorios, comités, sessões, um presidente e uma campainha, e de sentimento natural passa a funcção official—é porque o homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescripções d'um estatuto. Com os corações assim duros e os invernos tão longos, que vai ser dos pobres?...»
Quantas vezes, diante de mim, nos crepusculos de novembro, na sua bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dôce da lenha no fogão, Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe perdiam ao longe, como afundados em horisontes de tristeza —para assim lamentar, com enternecida elevação, todas as miserias humanas! E voltava então a amarga affirmação da crescente aspereza dos homens, forçados pela violencia do conflicto e da concorrencia a um egoismo rude, em que cada um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante, homo homini lupus.
—Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia.
Fradique encolheu os hombros:
—Ha de vir; ha de talvez libertar os escravos; ha de ter por isso a sua igreja e a sua liturgia; e depois ha de ser negado; e mais tarde ha de ser esquecido; e por fim hão de surgir novas turbas de escravos. Não ha nada a fazer. O que resta a cada um por prudencia é reunir um peculio e adquirir um revolwer; e aos seus semelhantes que lhe baterem á porta, dar, segundo as circumstancias, ou pão ou bala.
Assim, cheios de idéas, de delicadas occupações e d'obras amaveis, decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, até que no inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella fórma que elle, como Cesar, sempre appetecera—inopinatam atque repentinam.
Uma noite, sahindo d'uma festa da condessa de La Ferté (velha amiga de Fradique, com quem fizera n'um yacht uma viagem á Islandia) achou no vestiario a sua pelissa russa trocada por outra, confortavel e rica tambem, que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes do general Terran-d'Azy. Fradique, que soffria de repugnancias intolerantes, não se quiz cobrir com o agasalho d'aquelle official rabugento e catarrhoso, e atravessou a praça da Concordia a pé, de casaca, até ao club da Rue Royale. A noite estava sêcca e clara, mas cortada por uma d'essas brizas subtis, mais tenues que um halito, que durante leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte, e já eram comparadas pelo velho André Vasali a «um punhal traiçoeiro». Ao outro dia acordou com uma tosse leve. Indifferente porém aos resguardos, seguro d'uma robustez que affrontára tantos ares inclementes, foi a Fontainebleau com amigos no alto d'um mail-coach. Logo n'essa noite, ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba mais dôcemente um bello dia d. Logo n'essa noite, ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba mais dôcemente um bello dia de verão.
O dr. Labert declarou que fôra uma fórma rarissima de pleuriz. E accrescentou, com um exacto sentimento das felicidades humanas: —«Toujours de la chance, ce Fradique!»
Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um céo cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de França nas coisas do saber e da arte. Lindos rostos, já pisados pelo tempo, o choraram, na saudade das emoções passadas. E, em pobres moradas, em torno a lares sem lume, foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas letras, que cuidava dos males humanos envolto em cabaias de sêda.
Jaz no Père-Lachaise, não longe da sepultura de Balzac, onde no dia dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de Parma que tanto amára em vida o creador da Comedia Humana. Mãos fieis, por seu turno, conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore simples que o cobre na terra.