A Correspondência de Fradique Mendes

Eça de Queirós · Capítulo 11 de 27

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A Correspondência de Fradique Mendes

Capítulo VII

 

Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro proposito de abstenção e silencio—eu, publicando as suas Cartas, pareço lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte, n'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida probidade de espirito. E assim seria—se eu não possuisse a evidencia de que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a um livro que me acompanhára e me encantára, a Correspondencia de Xavier Doudan—um d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua Correspondencia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do seu pensamento.

Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenéos onde gastára o verão, accrescentava n'um post-scriptum:—«A Correspondencia de Doudan é realmente muito legivel; ainda que através d'ella apenas se sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, cahido em solidão e doença, só pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo o caso essas cartas—como leio todas as collecções de Correspondencias, que, não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de historia. Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um homem que eu afoutamente approvo—publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa vantagem:—que o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquelle que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além d'isso uma Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e isto é inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta o peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da documentação historica. Temos depois que as cartas d'um homem, sendo o producto quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua philosophia—que é apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao immenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo accessivel ao esforço intellectual. E finalmente como cartas são palestras escriptas (assim affirma não sei que classico), ellas dispensam o revestimento sacramental da tal prosa como não ha... Mas este ponto precisava ser mais desembrulhado—e eu sinto parar á porta o cavallo em que vou trepar ao pico de Bigorre».

Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada, que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle camarada adoravel, a reunir as suas cartas para que os homens alguma coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu tão estreitamente amára e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um anno—porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de continentes», era a mais preferida das suas occupacões, apresenta a vastidão e a copiosidade da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de Proudhon, e d'outros poderosos remexedores de idéas.

Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do papel—esplendidas folhas de Whatman, eburneas bastante para que a penna corresse n'ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa idéa; fortes bastante, na sua consistencia de pergaminho, para que não prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das minhas cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 reis. Ora suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas contêm uma idéa —resulta que cada idéa me fica por cento e vinte e cinco mil reis. Este méro calculo bastará para que o Estado, e a economica Classe-Média que o dirige, empeçam com ardor a educação— provando, como inilludivelmente prova, que fumar é mais barato que pensar... Contrabalanço pensar e fumar, porque são, ó Carlos, duas operações identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».

Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de Fradique—F. M.—minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa; ora hesitante e demorada, com riscos, separações, como n'aquelle esforço tão seu de tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e rapida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava le dégel de Fradique, e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n'um esvoaçar de flammula ao vento.

Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez. Existem assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação—Paris, Julho; Lisboa, Fevereiro... Frequentemente, tambem, restituia aos mezes as alcunhas naturalistas do kalendario republicano—Paris, Floreal; Londres, Nivoze. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com esta bucolica data— Florença, primeiras violetas (o que indica fins de fevereiro); Londres, chegada dos Chrysanthemos (o que indica começos de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data atroz—Lisboa, primeiros fluxos da verborreia parlamentar! (Isto denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e bachareis em cima bolsando, por entre injurias, fézes de velhos compendios).

Não é portanto possivel dispôr a Correspondencia de Fradique por uma ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu não edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia continua e intima das suas idéas. Em cartas que não são d'um auctor e que não constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e constante commentario que acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a personalidade—o conjunto de idéas, gostos, modos, em que tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, n'estes pesados maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as que mostram traços de caracter e relances da existencia activa; d'entre as que deixam entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de coração; d'entre as que, revolvendo noções geraes sobre a litteratura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as que se referem a coisas de Portugal, como as suas «impressões de Lisboa», transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame de Jouarre.

Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A correspondencia de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste—c'est son genie qui mousse. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma radiante e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente interessante em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de acção.

 

Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que tanto amei—eu obedeço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um intuito de puro e seguro patriotismo.

Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est. A Força e a Riqueza não bastam para provar que uma nação vive d'uma vida que mereça ser glorificada na Historia—como rijos musculos n'um corpo e ouro farto n'uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino d'Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e incontaveis diamantes nas suas collinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilisação, os Civilisados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e, através de uma serena legião de homens geniaes, incessantemente educassem o mundo—nenhuma nação, mesmo n'esta idade de ferro e de força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das Idéas e das Fórmas.

Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema, a Sciencia, a Litteratura, as Artes, dão grandeza aos Povos, attrahem para elles universal reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de verdades e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo sacrosantos. Que differença ha, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e productivas cidades—onde os palacios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque fórma pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente fascina a humanidade—e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris, além dos palacios, das instituições e das riquezas de que Chicago tambem justamente se gloría, possue a mais um grupo especial de homens —Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguieres, Gounod, Massenet—que pela incessante produccão do seu cerebro convertem a banal cidade que habitam n'um centro de soberano ensino. Se as Origens do Christianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, os marmores de Falguieres, nos viessem d'além dos mares, da nova e monumental Chicago—para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o sol, os espiritos e os corações da Terra.

Se uma nação, portanto, só tem superioridade porque tem pensamento, todo aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que a tornará respeitada, a unica belleza que a tornará amada;—e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castello.

Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de Quental:—«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor das Odes Modernas, Portugal continúa a ser um grande paiz vivo...» O mestre da Historia de França com isto significava—que emquanto viver pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a nossa patria não é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio Politico:—mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas valiosos ainda, da graça, da vivaz invenção, da transcendente ironia, da phantasia, do humorismo e do gosto...