A Correspondência de Fradique Mendes
Capítulo IV
Em conclusão:—a mumia de Ramèzes II (unica face authentica do homem antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado impossivel uma vida humana vivida na sua maxima liberdade e na sua maxima força, sem outros limites que os do proprio querer— resultou perder-se para sempre, no typo physico do homem, a summa e perfeita expressão da grandeza. Já não ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bilis cava rugas por entre os recortes do pêllo. As unicas physionomias nobres são as das feras, genuinos Ramèzes no seu deserto, que nada perderam da sua força, nem da sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociaes, é um pobre Adão achatado entre as duas paginas d'um codigo.
Se V. acha todo isto excessivo e phantasista, attribua-o a que jantei hontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionario P., conselheiro d'estado, e muchas cosas más. Más em hespanhol; e más também em portuguez no sentido de pessimas. Esta carta é a reacção violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo, desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial d'um conselheiro? Eu tomo um banho por dentro—um banho lustral, immenso banho de phantasia, onde despejo como perfume idoneo um frasco de Shelley ou de Masset. Amigo certo et nunc et semper —F M .
IV
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Paris, fevereiro.
Minha cara amiga.—O hespanhol chama-se D. Ramon Covarubia, mora na Passage Saulnier, 12, e como é aragonez, e portanto sobrio, creio que com dez francos por lição se contentará amplamente. Mas se seu filho já sabe o castelhano necessario para entender os Romanceros, o D. Quichote, alguns dos «Piccarescos», vinte paginas de Quevedo, duas comedias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo quanto basta lêr na litteratura de Hespanha,—para que deseja a minha sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento, o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor? Vai assim o dôce Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe marcou para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna, do seu nome e da sua belleza, apenas concede, para esse abastecimento intellectual, sete annos, dos onze aos dezoito) —em quê? No luxo de apurar até a um requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de adquirir noções e idéas. Porque as linguas, minha boa amiga, são apenas instrumentos do saber— como instrumentos de lavoura. Consumir energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina e puramente que pareça que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e que por meio de cada uma se pediu o primeiro pão e agua da vida—é fazer como o lavrador, que em vez de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado n'um pau simples, se applicasse, durante os mezes em que a horta tem de ser trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e folhagens ao comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente occupado em alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os seus pomares Touraine?
Um homem só deve fallar, com impeccavel segurança e pureza, a lingua da sua terra:—todas as outras as deve fallar mal, orgulhosamente mal, com aquelle accento chato e falso que denuncía logo o estrangeiro. Na lingua verdadeiramente reside a nacionalidade;—e quem fôr possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma desnacionalisação. Não ha já para elle o especial e exclusivo encanto da falla materna com as suas influencias affectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo. Rue de Rivoli, Calle d'Alcalá, Regent Street, Wilhem Strasse—que lhe importa? Todas são ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falla ambiente lhe offerece um elemento natural e congenere onde o seu espirito se move livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem attritos. E como pelo Verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se póde fundir com todas—em todas sente e aceita uma Patria.
Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuina e exacta propriedade de construcção e de accento, em idiomas estranhos—isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que ellas têm de essencialmente caracteristico, o Verbo—apaga n'elle toda a individualidade nativa. Ao fim de annos esse habilidoso, que chegou a fallar absolutamente bem outras linguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espirito— porque as suas idéas forçosamente devem ter a natureza incaracteristica e neutra que lhes permitta serem indifferentemente adaptadas ás linguas mais oppostas em caracter e genio. Devem, de facto, ser como aquelles «corpos de pobre» de que tão tristemente falla o povo—«que cabem bem na roupa de toda a gente».
Além d'isso, o proposito de pronunciar com perfeição linguas estrangeiras constitue uma lamentavel sabujice para com o estrangeiro. Ha ahi, diante d'elle, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fundirmos n'elle, no que elle tem de mais seu, de mais proprio, o Vocabulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Fallemos nobremente mal, patrioticamente mal, as linguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota só inspira desconfiança, como sêr que não tem raizes, nem lar estavel—sêr que rola através das nacionalidades alheias, successivamente se disfarça n'ellas, e tenta uma installação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma. Com effeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes verá que o perfeito polyglotismo é um instrumento da alta escroquerie.
E aqui está como, levado pelo dilettantismo das idéas, em vez d'um endereço eu lhe forneço um tratado!... Que a minha garrulice ao menos a faça sorrir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho medonho de pronunciar Viva la Gracia! e Benditos sean tus ojos! exactissimamente como se vivesse a uma esquina da Puerta del Sol, com uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto todavia não impede que se utilisem os serviços de D. Ramon. Elle, além de Zorrillista, é guitarrista; e póde substituir as lições na lingua de Quevedo por lições na guitarra de Almaviva. O seu lindo Raul ganhará ainda assim uma nova faculdade de exprimir —a faculdade de exprimir emoções por meio de cordas de arame. E este dom é excellente! Convem mais na mocidade, e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas d'uma viola, desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n'ella tumultuam, do que poder, através das estalagens do mundo, reclamar com perfeição o pão e o queijo—em sueco, hollandez, grego, bulgaro e polaco.
E será realmente indispensavel mesmo para prover, através do mundo, estas necessidades vitaes d'estomago e alma—o trilhar, durante annos, pela mão dura dos mestres, «os descampados e atoleiros das grammaticas e pronuncias», como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel tia que fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafôgo e conforto. Esta senhora, risonha mas dyspeptica, comia simplesmente ovos—que só conhecia e só comprehendia sob o seu nome nacional vernaculo de ovos. Para ella huevos, oeufs, eggs, das ei, eram sons da Natureza bruta, pouco differençaveis do coaxar das rãs, ou d'um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscow, desejava os seus ovos —esta expedita senhora reclamava o famulo do Hotel, cravava n'elle os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma gallinha no chôco, e gritava ki-ki-ri-ki! kó-kó-ri-ki! kó-ró-kó-kó! Nunca, em cidade ou região intelligente do Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos—e superiormente frescos!