A Correspondência de Fradique Mendes

Eça de Queirós · Capítulo 14 de 27

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A Correspondência de Fradique Mendes

Capítulo III

 

Paris, maio.

 

Querido amigo.—Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida das Aguas-Ferreas, n'aquella manhã de Março em que conversavamos ao sol sobre o caracter dos Antigos,—e remetto, como documento, a photographia da mumia de Ramèzes II (que o francez banal, continuador do grego banal, teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos sarcophagos reaes de Medinet-Abou pelo professor Maspero.

Caro Oliveira Martins, não acha V. picarescamente suggestivo este facto—Ramèzes photographado?... Mas ahi está justificada a mumificação dos cadaveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e tanta despeza, para que os homens gozassem na sua fórma terrena, segundo diz o Escriba, «as vantagens da Eternidade!» Ramèzes, como elle acreditava e lhe affirmavam os metaphysicos de Thebas, resurge effectivamente «com todos os seus ossos e a pelle que era sua» n'este anno da Graça de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona dynastia, mil e quatrocentos annos anterior a Christo, representa muito decentemente a Eternidade e a Vida-Futura. E eis-nos agora podendo contemplar as «proprias feições» do maior dos Ramezidas, tão realmente como Hokem seu Eunuco-Mór, ou Pentaour seu Chronista-Mór, ou aquelles que outr'ora em dias de triumphos corriam a juncar-lhe o caminho de flôres, trazendo «os seus chinós de festa e a cutis envernizada com oleos de Segabai». Ahi o tem V. agora diante de si, em photographia, com as palpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que humilhantes reflexões não provoca ella sobre a irremediavel degeneração do homem! Onde ha ahi hoje um, entre os que governam povos, que tenha essa soberana fronte de calmo e incommensuravel orgulho; esse superior sorriso de omnipotente benevolencia, d'uma ineffavel benevolencia que cobre o mundo; esse ar de imperturbada e indomavel força; todo esse esplendor viril que a treva de um hypogeo, durante tres mil annos, não conseguiu apagar? Eis-ahi verdadeiramente um Dono de homens! Compare esse semblante augusto com o perfil sôrno, obliquo e bigodoso d'um Napoleão III; com o focinho de bull-dog acorrentado d'um Bismarck; ou com o carão do Czar russo, um carão parado e affavel que podia ser o do seu Copeiro-Mór. Que chateza, que fealdade tacanha d'estes rostos de poderosos!

D'onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino:—e hoje, nas nossas civilisações, não ha logar para que uma alma se affirme e se produza na absoluta expansão da sua força. Outr'ora um simples homem, um feixe de musculos sobre um feixe d'ossos, podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza. Bastava ter o illimitado querer— para d'elle tirar o illimitado poder. Eis-ahi em Ramèzes um sêr que tudo quer e tudo póde, e a quem Phtah, o Deus sagaz, diz com espanto: «a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá a morte!» Elle impelle a seu bel-prazer as raças para norte, para sul ou para leste; elle altera e arraza, como muros n'um campo, as fronteiras dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para elle nascem todos os fructos da terra, e para elle se volta toda a esperança dos homens; o logar para onde volve os seus olhos é bemdito e prospéra, e o logar que não recebe essa luz benefica jaz como «o torrão que o Nilo não beijou»; os deuses dependem d'elle, e Amnon estremece inquieto quando, diante dos pylones do seu templo, Ramèzes faz estalar as tres cordas entrançadas do seu latego de guerra! Eis um homem—e que seguramente póde affirmar no seu canto triumphal:—«Tudo vergou sob a minha força: eu vou e venho com as passadas largas d'um leão; o rei dos deuses está á minha direita e tambem á minha esquerda; quando eu fallo o céo escuta; as coisas da terra estendem-se a meus pés, para eu as colher com mão livre; e para sempre estou erguido sobre o throno do mundo!»

«O mundo», está claro, era aquella região, pela maior parte arenosa, que vai da cordilheira Libyca á Mesopotamia: e nunca houve mais petulante emphase do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem é, ou suppõe ser, inigualavelmente grande. E esta consciencia da grandeza, do incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na physionomia e dar essa altiva magestade, repassada de risonha serenidade, que Ramèzes conserva mesmo além da vida, resequido, mumificado, recheado de betume da Judêa.

Veja V. por outro lado as condições que cercam hoje um poderoso do typo Bismarck. Um desgraçado d'esses não está acima de nada e depende de tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistencia d'um obstaculo. A sua acção no mundo é um perpetuo bater de craneo contra espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenções, de tradições, de direitos, de preceitos, de interesses, de principios, se lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um artigo de jornal fal-o estacar, hesitante. A rabulice d'um legista obriga-o a encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. Dez burguezes nedios e dez professores guedelhudos, votando dentro d'uma sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins dentro d'um sacco tornam-se o tormento das suas noites. É-lhe tão impossivel dispôr d'um cidadão como d'um astro. Nunca póde avançar d'uma arrancada, erecto e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. A vigilancia ambiente impõe-lhe a necessidade vil de fallar baixo e aos cantos. Em vez de «recolher as coisas da terra, com mão livre»—surripia-as ás migalhas, depois de escuras intrigas. As irresistiveis correntes de idéas, de sentimentos, de interesses, trabalham por baixo d'elle, em torno d'elle: e parecendo dirigil-as, pelo muito que braceja e ronca d'alto, é na realidade por ellas arrastado. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em apparencia no cimo das grandes coisas;—mas como a boia solta vai no cimo da torrente.

Miseravel omnipotencia! E o sentimento d'esta miseria não póde deixar de influenciar a physionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio contrafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo amolgado que se nota na cara de Napoleão, do czar, de Bismarck, de todos os que reunem a maior somma de poder contemporaneo— o feitio amolgado d'uma coisa que rola aos encontrões, batendo contra muralhas.