A Correspondência de Fradique Mendes

Eça de Queirós · Capítulo 23 de 27

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A Correspondência de Fradique Mendes

Capítulo XII

Será este o teu feito—e o fim da lenda christã.

Adeus, monstro!—F .

 

XII

Quinta de Refaldes (Minho).

 

Minha querida madrinha.—Estou vivendo pinguemente em terras ecclesiasticas, porque esta quinta foi de frades. Agora pertence a um amigo meu, que é, como Virgilio, poeta e lavrador, e canta piedosamente as origens heroicas de Portugal emquanto amanha os seus campos e engorda os seus gados. Rijo, viçoso, requeimado dos soes, tem oito filhos, com que vai povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros. E eu justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do Norte para ser padrinho do derradeiro, um famoso senhor de tres palmos, côr de tijolo, todo roscas e regueifas, com uma careca de melão, os olhinhos luzindo entre rugas como vidrilhos, e o ar profundamente sceptico e velho. No sabbado, dia de S. Bernardo, sob um azul que S. Bernardo tornára especialmente vistoso e macio, ao repicar dos sinos claros, entre aromas de roseira, e jasmineiro, lá o conduzimos, todo enfeitado de laçarotes e rendas, á Pia, onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida crosta de Peccado Original, que desde a bolinha dos calcanhares até á moleirinha o cobria todo, pobre senhor de tres palmos que ainda não vivera da alma, e já perdera a alma... E desde então, como se Refaldes fosse a ilha dos Latophagios, e eu tivesse comido em vez da couve-flôr da horta a flôr do Lotus, por aqui me quedei, olvidado do mundo e de mim, na doçura d'estes ares, d'estes prados, de toda esta rural serenidade, que me affaga e me adormece.

O casarão conventual que habitamos, e onde os conegos Regrantes de Santo Agostinho, os ricos e nedios Cruzios, vinham preguiçar no verão, prende por um claustro florido de hydrangeas e a uma egreja lisa e sem arte, com um adro assombreado por castanheiros, pensativo, grave, como são sempre os do Minho. Uma cruz de pedra encima o portão, onde pende ainda da corrente de ferro a vetusta e lenta sineta fradesca. No meio do pateo, a fonte, de boa agua, que canta adormecidamente cahindo de concha em concha, tem no topo outra cruz de pedra, que um musgo amarellento reveste de melancolia secular. Mais longe, n'um vasto tanque, lago caseiro orlado de bancos, onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber pelas tardes de frescura e repouso, a agua das regas, limpida e farta, brota dos pés de uma santa de pedra, hirta no seu nicho, e que é talvez Santa Rita. Adiante ainda, na horta, outra santa franzina, sustentando nas mãos um vaso partido, preside, como uma nayade, ao borbulhar de outra fonte, que por quelhas de granito vai luzindo e fugindo através do feijoal. Nos esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma cruz gravada, ou um coração sagrado, ou o monogramma de Jesus. Toda a quinta, assim santificada por signos devotos, lembra uma sacristia onde os tectos fossem de parra, a relva cobrisse os soalhos, por cada fenda borbulhasse um regato, e o incenso sahisse dos cravos.

Mas, com todos estes emblemas sacros, nada ha que nos môva; ou severamente nos arraste, aos renunciamentos do mundo. A quinta foi sempre, como agora, de grossa fartura, toda em campos de pão, bem arada e bem regada, fecunda, estendida ao sol como um ventre de Nimpha antiga. Os frades excellentes que n'ella habitaram amavam largamente a terra e a vida. Eram fidalgos que tomavam serviço na milicia do Senhor, como os seus irmãos mais velhos tomavam serviço na milicia d'El-rei—e que, como elles, gozavam risonhamente os vagares, os privilegios e a riqueza da sua Ordem e da sua Casta. Vinham para Refaldes, pelas calmas de julho, em seges e com lacaios. A cozinha era mais visitada que a egreja—e todos os dias os capões alouravam no espeto. Uma poeira discreta velava a livraria, onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido nas almofadas da sua cella mandava buscar o D. Quichote, ou as Farças de D. Petronilla. Espanejada, arejada, bem catalogada, com rotulos e notas traçadas pela mão erudita dos Abbades—só a adega...

Não se procure pois, n'esta morada de monges, o precioso sabor das tristezas monasticas; nem as quebradas de serra e valle, cheias de ermo e mudez, tão dôces para n'ellas se curtirem deliciosamente as saudades do céo; nem as espessuras de bosque, onde S. Bernardo se embrenhava, por n'ellas encontrar melhor que na sua cella a «fecunda solidão»; nem os claros de pinheiral gemente, com rochas núas, tão proprias para a choça e para a cruz do ermita... Não! Aqui, em torno do pateo (onde a agua da fonte todavia corre dos pés da cruz) são solidas tulhas para o grão, fofos eidos em que o gado medra, capoeiras abarrotadas de capões e de perús reverendos. Adiante é a horta viçosa, cheirosa, succulenta, bastante a fartar as panellas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um jardim, com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas ensombram, copadas de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e alisada, rijamente construida para longos seculos de colheitas, com o seu espigueiro ao lado, bem fendilhado, bem arejado, tão largo que os pardaes voam dentro como n'um pedaço de céo. E por fim, ondulando ricamente até ás collinas macias, os campos de milho, e de centeio, o vinhedo baixo, os olivaes, os relvados, o linho sobre os regatos, o matto florido para os gados... S. Francisco de Assis e S. Bruno abominariam este retiro de frades e fugiriam d'elle, escandalisados, como de um peccado vivo.

A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. As cellas espaçosas, de tectos apainelados, abrem para as terras semeadas, e recebem d'ellas, através da vidraçaria cheia de sol, a perenne sensação de fartura, de opulencia rural, de bens terrenos que não enganam. E a sala melhor, traçada para as occupações mais gratas, é o refeitorio, com as suas varandas rasgadas, onde os regalados monges podessem, ao fim do jantar, conforme a veneravel tradição dos Cruzios, beber o seu café aos golos, galhofando, arrotando, respirando a fresquidão, ou seguindo nas faias do pateo o cantar alto d'um melro.

De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda, quando de religiosa passou a secular. Estava já sabiamente preparada para a profanidade;—e a vida que n'ella então se começou a viver, não foi differente da do velho convento, apenas mais bella, porque, livre das contradicções do Espiritual e do Temporal, a sua harmonia se tornou perfeita. E, tal como é, deslisa com incomparavel doçura. De madrugada, os gallos cantam, a quinta acorda, os cães de fila são acorrentados, a moça vai mungir as vaccas, o pegureiro atira o seu cajado ao hombro, a fila dos jornaleiros mette-se ás terras—e o trabalho principia, esse trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa sempre incansavel, porque é todo feito a cantar. As vozes vêm, altas e desgarradas, no fino silencio, d'além, d'entre os trigos, ou do campo em sacha, onde alvejam as camisas de linho crú, e os lenços de longas franjas vermelhejam mais que papoulas. E não ha n'este labor nem dureza, nem arranque. Todo elle é feito com a mansidão com que o pão amadurece ao sol. O arado mais acaricia do que rasga a gleba. O centeio cae por si, amorosamente, no seio attrahente da foice. A agua sabe onde o torrão tem sêde, e corre para lá gralhando e refulgindo. Ceres n'estes sitios bemditos permanece verdadeiramente, como no Lacio, a Deusa da Terra, que tudo propicia e soccorre. Ella reforça o braço do lavrador, torna refrescante o seu suor, e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. Por isso os que a servem, mantêm uma serenidade risonha na tarefa mais dura. Essa era a ditosa feição da vida antiga.

Á uma hora é o jantar, serio e pingue. A quinta tudo fornece prodigamente:—e o vinho, o azeite, a hortaliça, a fructa têm um sabor mais vivo e são, assim cabidos das mãos do bom Deus sobre a mesa, sem passar pela mercancia e pela loja. Em palacio algum, por essa Europa superfina, se come na verdade tão deliciosamente como n'estas rusticas quintas de Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panellas de barro e quatro achas a arder no chão, estas caseiras de aldeia, de mangas arregaçadas, guizam um banquete que faria exultar o velho Jupiter, esse transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais comeu, e mais nobremente soube comer, desde que ha Deuses no céo e na terra. Quem nunca provou este arroz de caçoula, este anho paschal candidamente assado no espeto, estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que enchem a alma, não póde realmente conhecer o que seja a especial bemaventurança tão grosseira e tão divina, que no tempo dos frades se chamava a comezaina. E a quinta depois, com as suas latadas de sombra macia, a dormente susurração das aguas regantes, os ouros claros e foscos ondulando nos trigaes, offerece, mais que nenhum outro paraiso humano ou biblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e risonho, d'este arroz e d'este anho!

Se estes meios-dias são um pouco materiaes, breve a tarde trará a porção de poesia de que necessita o Espirito. Em todo o céo se apagou a refulgencia d'ouro, o esplendor arrogante que se não deixa fitar e quasi repelle; agora apaziguado e tratavel, elle derrama uma doçura, uma pacificação que penetra na alma, a torna tambem pacifica e dôce, e cria esse momento raro em que céo e alma fraternisam e se entendem. Os arvoredos repousam n'uma immobilidade de contemplação, que é intelligente. No piar velado e curto dos passaros ha um recolhimento e consciencia de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos, cançada e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde o gotejar da agua sob a cruz é mais preguiçoso. Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casaes se está murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de matto, geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo e simples e terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sente, fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tão em harmonia com ella, que não ha n'esta alma, toda encrostada das lamas do mundo, pensamento que não podesse contar a um santo...

Verdadeiramente estas tardes santificam. O mundo recua para muito longe, para além dos pinhaes e das collinas, como uma miseria esquecida:—e estamos então realmente na felicidade de um convento, sem regras e sem abbade, feito só da religiosidade natural que nos envolve, tão propria á oração que não tem palavras, e que é por isso a mais bem comprehendida por Deus.

Depois escurece, já ha pyrilampos nas sebes. Venus, pequenina, scintilla no alto. A sala, em cima, está cheia de livros, dos livros fechados no tempo dos Cruzios—porque só desde que não pertence a uma ordem espiritual é que esta casa se espiritualisou. E o dia na quinta finda com uma lenta e quieta palestra sobre idéas e letras, emquanto na guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal, longo em saudades e em ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde, como a escutar, por detraz dos negros montes.