A Correspondência de Fradique Mendes

Eça de Queirós · Capítulo 20 de 27

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A Correspondência de Fradique Mendes

Capítulo IX

A CLARA...

(Trad.)

Paris, junho.

 

Minha adorada amiga.—Não, não foi na Exposição dos Aguarellistas, em março, que eu tive comsigo o meu primeiro encontro, por mandado dos Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi ahi que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante d'uma console, cujas luzes, entre os molhos de orchideas, punham nos seus cabellos aquelle nimbo d'ouro que tão justamente lhe pertence como «rainha de graça entre as mulheres». Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir cançado, o vestido preto com relevos côr de botão d'ouro, o leque antigo que tinha fechado no regaço. Passei; mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a meditar em silencio a sua belleza, que me prendia pelo esplendor patente e comprehensivel, e ainda por não sei quê de fino, de espiritual, de dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. E tão intensamente me embebi n'essa contemplação, que levei commigo a sua imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos seus cabellos ou uma ondulação da sêda que a cobria, e corri a encerrar-me com ella, alvoroçado, como um artista que n'algum escuro armazem, entre poeira e cacos, descobrisse a Obra sublime d'um Mestre perfeito.

E, porque o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao principio, meramente um Quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada dôce momento olhava—mas para lhe louvar apenas, com crescente surpreza, os encantos diversos de Linha e de Côr. Era sómente uma rara tela, posta em sacrario, immovel e muda no seu brilho, sem outra influencia mais sobre mim que a d'uma fórma muito bella que captiva um gosto muito educado. O meu sêr continuava livre, attento ás curiosidades que até ahi o seduziam, aberto aos sentimentos que até ahi o solicitavam;—e só quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d'uma occupação mais pura, regressava á Imagem que em mim guardava, como um Fra Angelico, no seu claustro, pousando os pinceis ao fim do dia, e ajoelhando ante a Madona a implorar d'ella repouso e inspiração superior.

Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta contemplação perdeu para mim valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha alma, perdido na admiração da Imagem que lá rebrilhava—até que só essa occupação me pareceu digna da vida, no mundo todo não reconheci mais que uma apparencia inconstante, e fui como um monge na sua cella, alheio ás coisas mais reaes, de joelhos e hirto no seu sonho, que é para elle a unica realidade.

Mas não era, minha adorada amiga, um pallido e passivo extasi diante da sua Imagem. Não! era antes um ancioso e forte estudo d'ella, com que eu procurava conhecer através da Fórma a Essencia, e (pois que a Belleza é o esplendor da Verdade) deduzir das perfeições do seu Corpo as superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surprehendi o segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabello descobre, tão clara e lisa, logo me contou a rectidão do seu pensar: o seu sorriso, d'uma nobreza tão intellectual, facilmente me revelou o seu desdem do mundanal e do ephemero, a sua incansavel aspiração para um viver de verdade e de belleza: cada graça de seus movimentos me trahiu uma delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n'elles tão adoravelmente se confunde, luz de razão, calor de coração, luz que melhor aquece, calor que melhor alumia... Já a certeza de tantas perfeições bastaria a fazer dobrar, n'uma adoração perpetua, os joelhos mais rebeldes. Mas succedeu ainda que, ao passo que a comprehendia e que a sua Essencia se me manifestava, assim visivel e quasi tangivel, uma influencia descia d'ella sobre mim— uma influencia estranha, differente de todas as influencias humanas, e que me dominava com transcendente omnipotencia. Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cella, comecei a aspirar á santidade, para me harmonisar e merecer a convivencia com a Santa a que me votára. Fiz então sobre mim um aspero exame de consciencia. Investiguei com inquietação se o meu pensar era condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha idéa da vida era tão alta e séria como aquella que eu presentira na espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se o meu coração não se dispersára e enfraquecera de mais para poder palpitar com parallelo vigor junto do seu coração. E tem sido em mim agora um arquejante esforço para subir a uma perfeição identica áquella que em si tão submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha educadora. E tão dependente fiquei logo d'esta direcção, que já não posso conceber os movimentos do meu sêr senão governados por ella e por ella ennobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor, idéa ou sentimento, é obra d'essa educação que a sua alma dá á minha, de longe, só com existir e ser comprehendida. Se hoje me abandonasse a sua influencia—devia antes dizer, como um asceta, a sua Graça—todo eu rolaria para uma inferioridade sem remissão. Veja pois como se me tornou necessaria e preciosa... E considere que, para exercer esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se impôr sobre as minhas—bastou que eu a avistasse de longe, n'uma festa, resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce á borda d'um fôsso, porque lá em cima nos remotos céos fulge um grande sol, que não o vê, não o conhece, e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma... Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que a Planta, se tivesse consciencia, sentiria pela Luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo, nenhum bem imploro de quem tanto póde e é para mim dona de todo o bem. Só desejo que me deixe viver sob essa influencia, que, emanando do simples brilho das suas perfeições, tão facil e dôcemente opéra o meu aperfeiçoamento. Só peço esta permissão caridosa. Veja pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida humildade d'uma adoração que até receia que o seu murmurio, um murmurio de prece, roce o vestido da imagem divina...