A Correspondência de Fradique Mendes
Capítulo X
Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a toda a recompensa terrestre, me permittisse desenrolar junto de si, n'um dia de solidão, a agitada confidencia do meu peito, decerto faria um acto de ineffavel misericordia—como outr'ora a Virgem Maria quando animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo n'uma nuvem e concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes cahir entre as mãos erguidas uma rosa do Paraiso. Assim, ámanhã, vou passar a tarde com Madame de Jouarre. Não ha ahi a santidade d'uma cella ou d'uma ermida, mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa, mas um sorriso, ficaria então radiosamente seguro de que este meu amor, ou este meu sentimento indescripto e sem nome que vai além do amor, encontra ante seus olhos piedade e permissão para esperar.—F .
X
(Trad.)
Lisboa, junho.
Minha excellente madrinha.—Eis o que tem «visto e feito», desde maio, na formosissima Lisboa, Ulyssipo pulcherrima, o seu admiravel afilhado. Descobri um patricio meu, das Ilhas, e meu parente, que vive ha tres annos construindo um Systema de Philosophia no terceiro andar d'uma casa de hospedes, na travessa da Palha. Espirito livre, emprehendedor e destro, paladino das Idéas Geraes, o meu parente, que se chama Procopio, considerando que a mulher não vale o tormento que espalha, e que os oitocentos mil reis de um olival bastam, e de sobra, a um espiritualista—votou a sua vida á Logica e só se interessa e soffre pela Verdade. É um philosopho alegre; conversa sem berrar; tem uma aguardente de muscatel excellente;—e eu trepo com gosto duas ou tres vezes por semana á sua officina de Metaphysica a saber se, conduzido pela alma dôce de Maine de Biran, que é o seu cicerone nas viagens do Infinito, elle já entreviu emfim, disfarçada por traz dos seus derradeiros véos, a Causa das Causas. N'estas piedosas visitas vou, pouco a pouco, conhecendo alguns dos hospedes que n'esse terceiro andar da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade, a doze tostões por dia, fóra vinho e roupa lavada. Quasi todas as profissões em que se occupa a classe-média em Portugal estão aqui representadas com fidelidade, e eu posso assim estudar, sem esforço, como n'um indice, as idéas e os sentimentos que no nosso Anno da Graça formam o fundo moral da nação.
Esta casa de hospedes offerece encantos. O quarto do meu primo Procopio tem uma esteira nova, um leito de ferro philosophico e virginal, cassa vistosa nas janellas, rosinhas e aves pela parede,—e é mantido em rigido asseio por uma d'estas creadas como só produz Portugal, bella moça de Traz-os-Montes, que, arrastando os seus chinelos com a indolencia grave d'uma nympha latina, varre, esfrega e arruma todo o andar; serve nove almoços, nove jantares e nove chás; escarolla as louças; prega esses botões de calças e de ceroulas que os portuguezes estão constantemente a perder; engomma as saias da Madama; reza o terço da sua aldeia; e tem ainda vagares para amar desesperadamente um barbeiro visinho, que está decidido a casar com ella quando fôr empregado na Alfandega. (E tudo isto por tres mil reis de soldada). Ao almoço ha dois pratos, sãos e fartos, de ovos e bifes. O vinho vem do lavrador, vinhinho leve e precoce, feito pelos veneraveis preceitos das Georgicas, e semelhante decerto ao vinho da Rethia—quo te carmine dicam, Rethica? A torrada, tratada pelo lume forte, é incomparavel. E os quatro paineis que ornam a sala, um retrato de Fontes (estadista, já morto, que é tido pelos portuguezes em grande veneração), uma imagem de Pio IX sorrindo e abençoando, uma vista da varzea de Collares, e duas donzellas beijocando uma rôla, inspiram as salutares idéas, tão necessarias, de Ordem Social, de Fé, de Paz campestre, e de Innocencia.
A patrôa, D. Paulina Soriana, é uma Madama de quarenta outonos, frescalhota e roliça, com um pescoço muito nedio, e toda ella mais branca que o chambre branco que usa por sobre uma saia de sêda roxa. Parece uma excellente senhora, paciente e maternal, de bom juizo e de boa economia. Sem ser rigorosamente viuva—tem um filho, já gordo tambem, que roe as unhas e segue o curso dos lyceus. Chama-se Joaquim, e, por ternura, Quinzinho; soffreu esta primavera não sei que duro mal que o forçava a infindaveis orchatas e semicupios; e está destinado por D. Paulina á Burocracia que ella considera, e muito justamente, a carreira mais segura e a mais facil.
—O essencial para um rapaz (affirmava ha dias a apreciavel senhora, depois do almoço, traçando a perna) é ter padrinhos e apanhar um emprego; fica logo arrumado; o trabalho é pouco e o ordenadosinho está certo ao fim do mez.
Mas D. Paulina está tranquilla com a carreira do Quinzinho. Pela influencia (que é toda-poderosa n'estes Reinos) d'um amigo certo, o snr. conselheiro Vaz Netto, ha já no Ministerio das Obras Publicas ou da Justiça uma cadeira de amanuense, reservada, marcada com lenço, á espera do Quinzinho. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos ultimos exames, já o snr. conselheiro Vaz Netto lembrou que, visto elle se mostrar assim desmazelado, com pouco gosto pelas letras, o melhor era não teimar mais nos estudos e no Lyceu, e entrar immediatamente para a repartição...
—Que ainda assim (ajuntou a boa senhora, quando me honrou com estas confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos. Não era pela necessidade, e por causa do emprego, como v. exc. a vê: era pelo gosto.
Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente garantida. De resto supponho que D. Paulina junta um peculio prudente. Na casa, bem afreguezada, ha agora sete hospedes—e todos fieis, solidos, gastando, com os extras, de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. O mais antigo, o mais respeitado (e aquelle que eu precisamente já conheço) é o Pinho—o Pinho brazileiro, o commendador Pinho. É elle quem todas as manhãs annuncia a hora do almoço (o relogio do corredor ficou desarranjado desde o Natal) sahindo do seu quarto ás dez horas, pontualmente, com a sua garrafa d'agua de Vidago, e vindo occupar á mesa, já posta, mas ainda deserta, a sua cadeira, uma cadeira especial de verga, com almofadinha de vento. Ninguem sabe d'este Pinho nem a idade, nem a familia, nem a terra de provincia em que nasceu, nem o trabalho que o occupou no Brazil, nem as origens da sua commenda. Chegou uma tarde de inverno n'um paquete da Mala Real; passou cinco dias no Lazareto; desembarcou com dois bahús, a cadeira de verga, e cincoenta e seis latas de dôce de tijolo; tomou o seu quarto n'esta casa de hospedes, com janella para a travessa; e aqui engorda, pacifica e risonhamente, com o seis por cento das suas inscripções. É um sujeito atochado, baixote, de barba grisalha, a pelle escura, toda em tons de tijolo e de café, sempre vestido de casimira preta, com uma luneta d'ouro pendente d'uma fita de sêda, que elle, na rua, a cada esquina, desemmaranha do cordão d'ouro do relogio para lêr com interesse e lentidão os cartazes dos theatros. A sua vida tem uma d'essas prudentes regularidades que tão admiravelmente concorrem para crear a ordem nos Estados. Depois de almoço calça as botas de cano, lustra o chapéo de sêda, e vai muito devagar até á rua dos Capellistas, ao escriptorio terreo do corretor Godinho, onde passa duas horas pousado n'um môcho, junto do balcão, com as mãos cabelludas encostadas ao cabo do guarda-sol. Depois entala o guarda-sol debaixo do braço, e pela rua do Ouro, com uma pachorra saboreada, parando a contemplar alguma senhora de sêdas mais tufadas ou alguma vittoria de librés mais lustrosas, alonga os passos para a tabacaria Sousa, ao Rocio, onde bebe um copo de agua de Caneças, e repousa até que a tarde refresque. Segue então para a Avenida, a gozar o ar puro e o luxo da cidade, sentado n'um banco; ou dá a volta ao Rocio, sob as arvores, com a face erguida e dilatada em bem-estar. Ás seis recolhe, despe e dobra a sobrecasaca, calça os chinelos de marroquim, enverga uma regalada quinzena de ganga, e janta, repetindo sempre a sopa. Depois do café dá um «hygienico» pela Baixa, com demoras pensativas, mas risonhas, diante das vitrines de confeitaria e de modas; e em certos dias sobe o Chiado, dobra a esquina da rua Nova da Trindade, e regateia, com placidez e firmeza, uma senha para o Gymnasio. Todas as sextas-feiras entra no seu banco, que é o London Brazilian. Aos domingos, á noitinha, com recato, visita uma moça gorda e limpa que mora na rua da Magdalena. Cada semestre recebe o juro das suas inscripcões.
Toda a sua existencia é assim um pautado repouso. Nada o inquieta, nada o apaixona. O universo, para o commendador Pinho, consta de duas unicas entidades—elle proprio, Pinho, e o Estado que lhe dá o seis por cento: portanto o universo todo está perfeito, e a vida perfeita, desde que Pinho, graças ás aguas de Vidago, conserve appetite e saude, e que o Estado continue a pagar fielmente o coupon. De resto, pouco lhe basta para contentar a porção d'Alma e Corpo de que apparentemente se compõe. A necessidade que todo o sêr vivo (mesmo as ostras, segundo affirmam os Naturalistas) tem de communicar com os seus semelhantes por meio de gestos ou sons, é em Pinho pouco exigente. Pelos meados d'abril, sorri e diz, desdobrando o guardanapo—«temos o verão comnosco»: todos concordam e Pinho goza. Por meados d'outubro, corre os dedos pela barba e murmura —«temos comnosco o inverno»: se outro hospede discorda, Pinho emmudece, porque teme controversias. E esta honesta permutação de idéas lhe basta. Á mesa, comtanto que lhe sirvam uma sopa succulenta, n'um prato fundo, que elle possa encher duas vezes— fica consolado e disposto a dar graças a Deus. O Diario de Pernambuco, o Diario de Noticias, alguma comedia do Gymnasio, ou uma Magica, satisfazem e de sobra essas outras necessidades de intelligencia e de imaginação, que Humboldt encontrou mesmo entre os Botecudos. Nas funcções do sentimento Pinho só pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo) «não apanhar uma doença». Com as coisas publicas está sempre agradado, governe este ou governe aquelle, comtanto que a policia mantenha a ordem, e que não se produzam nos principios e nas ruas disturbios nocivos ao pagamento do coupon. E emquanto ao destino ulterior da sua alma, Pinho (como elle a mim proprio me assegurou) —«só deseja depois de morto que o não enterrem vivo». Mesmo ácerca d'um ponto tão importante, como é para um commendador o seu mausoléo, Pinho pouco requer:—apenas uma pedra lisa e decente, com o seu nome, e um singelo orai por elle.
Errariamos porém, minha querida madrinha, em suppôr que Pinho seja alheio a tudo quanto seja humano. Não! Estou certo que Pinho respeita e ama a humanidade. Sómente a humanidade, para elle, tornou-se no decurso da sua vida excessivamente restricta. Homens, homens serios, verdadeiramente merecedores d'esse nobre nome, e dignos de que por elles se mostre reverencia, affecto, e se arrisque um passo que não cance muito—para Pinho só ha os prestamistas do Estado. Assim, meu primo Procopio, com uma malicia bem inesperada n'um espiritualista, contou-lhe ha tempos em confidencia, arregalando os olhos, que eu possuia muitos papeis! muitas apolices! muitas inscripções!... Pois na primeira manhã que voltei, depois d'essa revelação, á casa de hospedes, Pinho, ligeiramente córado, quasi commovido, offereceu-me uma boceta de dôce de tijolo embrulhada n'um guardanapo. Acto tocante, que explica aquella alma! Pinho não é um egoista, um Diogenes de rabôna preta, sêccamente retrahido dentro da pipa da sua inutilidade. Não. Ha n'elle toda a humana vontade de amar os homens seus semelhantes, e de os beneficiar. Sómente quem são, para Pinho, os seus genuinos «semelhantes»? Os prestamistas do Estado. E em que consiste para Pinho o acto de beneficio? Na cessão aos outros d'aquillo que a elle lhe é inutil. Ora Pinho não se dá bem com o uso da goiabada—e logo que soube que eu era um possuidor de inscripções, um seu semelhante, capitalista como elle, não hesitou, não se retrahiu mais ao seu dever humano, praticou logo o acto de beneficio, e lá veio, ruborisado e feliz, trazendo o seu dôce dentro d'um guardanapo.
É o commendador Pinho um cidadão inutil? Não, certamente! Até para manter em estabilidade e solidez a ordem d'uma nação, não ha mais prestadio cidadão do que este Pinho, com a sua placidez de habitos, o seu facil assentimento a todos os feitios da coisa publica, a sua conta do banco verificada ás sextas-feiras, os seus prazeres colhidos em hygienico recato, a sua reticencia, a sua inercia. D'um Pinho nunca póde sahir idéa ou acto, affirmação ou negação, que desmanche a paz do Estado. Assim gordo e quieto, collado sobre o organismo social, não concorrendo para o seu movimento, mas não o contrariando tambem, Pinho apresenta todos os caracteres d'uma excrescencia sebacea. Socialmente, Pinho é um lobinho. Ora nada mais inoffensivo que um lobinho: e nos nossos tempos, em que o Estado está cheio de elementos morbidos, que o parasitam, o sugam, o infeccionam e o sobreexcitam, esta inoffensibilidade de Pinho póde mesmo (em relação aos interesses da ordem) ser considerada como qualidade meritoria. Por isso o Estado, segundo corre, o vai crear barão. E barão d'um titulo que os honra a ambos, ao Estado e a Pinho, porque é n'elle simultaneamente prestada uma homenagem graciosa e discreta á Familia e á Religião. O pae de Pinho chamava-se Francisco—Francisco José Pinho. E o nosso amigo vai ser feito barão de S. Francisco.
Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de chuva! Desde o começo de junho e das rosas, que n'este paiz de sol sobre azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos a Phebo, está chovendo, chovendo em fios d'agua cerrados, continuos, imperturbados, sem sopro de vento que os ondule, nem raio de luz que os diamantise, formando das nuvens ás ruas uma trama molle de humidade e tristeza, onde a alma se debate e definha como uma borboleta presa nas teias d'uma aranha. Estamos em pleno versiculo XVII, do capitulo VII do Genesis. No caso d'estas aguas do céo não cessarem, eu concluo que as intenções de Jehovah, para com este paiz peccador, são diluvianas; e, não me julgando menos digno da Graça e da Alliança divina do que Noé, vou comprar madeira e betume, e fazer uma Arca segundo os bons modelos hebraicos ou assyrios. Se por acaso d'aqui a tempos uma pomba branca fôr bater com as azas á sua vidraça, sou eu que aportei ao Havre na minha Arca, levando commigo, entre outros animaes, o Pinho e a D. Paulina, para que mais tarde, tendo baixado as aguas, Portugal se repovoe com proveito, e o Estado tenha sempre Pinhos a quem peça dinheiro emprestado, e Quinzinhos gordos com quem gaste o dinheiro que pediu a Pinho. Seu afilhado do coração—F .