A Correspondência de Fradique Mendes

Eça de Queirós · Capítulo 26 de 27

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A Correspondência de Fradique Mendes

Capítulo XV

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Paris, outubro.

 

Meu caro Bento.—A tua idéa de fundar um jornal é damninha e execravel. Lançando, e em formato rico, com telegrammas e chronicas, uma outra «d'essas folhas impressas que apparecem todas as manhãs», como diz tão assustada e pudicamente o Arcebispo de Paris, tu vaes concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros, se exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerancia. Juizos ligeiros, Vaidade, Intolerancia—eis tres negros peccados sociaes que, moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os atiçar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas a morte. Já decerto o Diabo está atirando mais braza para debaixo da caldeira de pez, em que, depois do Julgamento, recozerás e ganirás, meu Bento e meu reprobo!

Não penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S. João Chrysostomo. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa, que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de todo affirmar, de tudo julgar, mais enraigou no nosso tempo o funesto habito dos juizos ligeiros. Em todos os seculos decerto se improvisaram estouvadamente opiniões: o grego era inconsiderado e garrulo; já Moysés, no longo Deserto, soffria com o murmurar variavel dos Hebreus; mas nunca, como no nosso seculo apressado, essa improvisação impudente se tornou a operação natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos escravisados pelo Methodo, e d'alguns devotos roidos pelo Escrupulo, todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluidas que formamos as nossas massiças conclusões. Para julgar em Politica o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, n'uma manhã de vento. Para apreciar em Litteratura o livro mais profundo, atulhado de idéas novas, que o amor de extensos annos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e além uma pagina, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condemnar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—«Este é uma besta! Aquelle é um maroto!» Para proclamar—«É um genio!» ou «É um santo!» offerecemos uma resistencia mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz d'um céo de maio nos inclinam á benevolencia, tambem concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a corôa ou a aureola, e ahi empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bemdito dia a estampar rotulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não ha acção individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos promptos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquelle pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou n'um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um caracter: por um caracter avaliamos um povo. Um inglez, com quem outr'ora jornadeei pela Asia, varão douto, collaborador de Revistas, socio de Academias, considerava os francezes todos, desde os senadores até aos varredores, como «porcos e ladrões»... Porquê, meu Bento? Porque em casa de seu sogro houvera um escudeiro, vagamente oriundo de Dijon, que não mudava de collarinho e surripiava os charutos. Este inglez illustra magistralmente a formação escandalosa das nossas generalisações.

E quem nos tem enraizado estes habitos de desoladora leviandade? O jornal—o jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na vespera, á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que rompem pela redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dois rabiscos da penna sobre todas as coisas da Terra e do Céo. Que se trate d'uma revolução do Estado, da solidez d'um Banco, d'uma Magica, ou d'um descarrillamento, o rabisco da penna, com um traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo, nenhum documento, nenhuma certeza. Ainda, este domingo, meu Bento, um alto jornal de Paris, commentando a situação economica, e politica de Portugal, affirmava, e com um aprumado saber, que «em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregam como carregadores da alfandega, e ao fim de cada mez mandam receber as soldadas pêlos seus lacaios!» Que dizes tu aos herdeiros das casas historicas de Portugal, carregando pipas de azeite no caes da alfandega, e conservando criados de farda para lhes ir receber o salario? Estas pipas, estes fidalgos, estes lacaios dos carregadores, formam uma deliciosa e chimerica alfandega que é menos das Mil e Uma Noites, que das Mil e Uma Asneiras. Pois assim o ensinou um jornal consideravel, rico, bem provido de Encyclopedias, de Mappas, de Estatisticas, de Telephones, de Telegraphos, com uma redacção muito erudita, pinguemente remunerada, que conhece a Europa, pertence á Academia das Sciencias Moraes e Sociaes, e legisla no Senado! E tu, Bento, no teu jornal, fornecido tambem de Encyclopedias e de Telephones, vaes com penna sacudida lançar sobre a França e sobre a China, e sobre o desventuroso Universo que se torna assumpto e propriedade tua, juizos tão solidos e comprovados como os que aquella bemdita gazeta archivou definitivamente ácerca da nossa alfandega e da nossa fidalguia...

Este é o primeiro peccado, bem negro. Considera agora outro, mais negro. Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua funcção e a sua força, tu desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! A reportagem, bem sei, é uma util abastecedora da Historia. Decerto importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra, pois que do feitio d'esse nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a Actium, os destinos do Universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora bisbilhotice dos reporters revelar sobre o snr. Renan, e os seus moveis, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos possuirá o seculo XX para reconstruir com segurança a personalidade do auctor das Origens do Christianismo, e, através d'ella, comprehender a obra. Mas, como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negocios do Mundo ou nas direcções do Pensamento, do que, como diz a Biblia, sobre toda a «sorte e condições de gente van», desde os jockeys até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da historia, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propagação das vaidades!

O jornal é com effeito o folle incansavel que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chamma. De todos os tempos é ella, a vaidade do homem! Já sobre ella gemeu o gemebundo Salomão, e por ella se perdeu Alcibiades, talvez o maior dos gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso damnado seculo XIX, o motor offegante do pensamento e da conducta. N'estes estados de civilisação, ruidosos e ôcos, tudo deriva da vaidade, tudo tende á vaidade. E a fórma nova da vaidade para o civilisado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa commentada no jornal! Vir no jornal! eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimens aristocraticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do Principe. Nas nossas democracias a ancia da maioria dos mortaes é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas bemditas, os homens praticam todas as acções—mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento! O «nosso generoso amigo Z...» só manda os cem mil reis á Creche, para que a gazeta exalte os cem mil reis de Z..., nosso amigo generoso. Nem é mesmo necessario que as sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome em evidencia, bem negro, n'essa tinta cujo brilho é mais appetecido que o velho nimbo d'ouro do tempo das Santidades. E não ha classe que não ande devorada por esta fome morbida do reclamo. Ella é tão roedora nos sêres de exterioridade e de mundanidade, como n'aquelles que só pareciam amar na vida, como a sua fórma melhor, a quietação e o silencio... Entrámos na quaresma (é entre as cinzas, e com cinzas, que te estou moralisando). Agora, n'estas semanas de peixe, surdem os frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, a prégar nos pulpitos de Paris. E porquê esses sermões sensacionaes, d'uma arte profana e theatral, com exhibicões de psychologia amorosa, com affectações de anarchismo evangelico, e tão creadores de escandalo que Paris corre mais gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano, do que á Comedia-Franceza em noite de Coquelin? Porque os monges, filhos de S. Domingos, querem setenta linhas nos jornaes do Boulevard, e toda a celebridade dos histriões. O Jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquellas duas azas com que os iconographistas do seculo XV representavam a Luxuria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas azas que o levem á gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E é por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Politicos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravagancia esthetica, e os Sabios alardeiam theorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda ululante dos charlatães... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!...) Mas é a verdade, meu Bento! Vê quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O proprio mal appetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para apparecerem no jornal, ha assassinos que assassinam. Até o velho instincto da conservação cede ao novo instincto da notoriedade: e existe tal maganão, que ante um funeral convertido em apotheose pela abundancia das corôas, dos coches e dos prantos oratorios, lambe os beiços, pensativo, e deseja ser o morto.

N'este verão, uma manhã, muito cedo, entrei n'uma taberna de Montmartre a comprar phosphoros. Rente ao balcão de zinco, diante de dois copos de vinho branco, um meliante, que pelas ventas chatas, o bigode hirsuto e pendente, o barrete de pelle de lontra, parecia (e era) um Huno, um sobrevivente das hordas d'Alarico,— gritava triumphalmente para outro vadio imberbe e livido, a quem arremessára um jornal:

—É verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda columna, logo em cima, onde diz:—Hontem um infame e ignobil bandido... Sou eu! O nome todo!

E espalhou lentamente em redor um olhar que triumphava. Eis-ahi, como agora se diz tão alambicadamente, um «estado d'alma»! Tu, Bento, vaes crear d'estes estados.

 

Depois considera o derradeiro peccado, negrissimo. Tu fundas, com o teu novo jornal, uma nova escola de Intolerancia. Em torno de ti, do teu partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miuda e bem cimentada: dentro d'esse murosinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado lemma de imparcialidade, desinteresse, etc., só haverá, segundo Bento e o seu jornal, intelligencia, dignidade, saber, energia, civismo; para além d'esse muro, segundo o jornal de Bento, só haverá necessariamente sandice, vileza, inercia, egoismo, traficancia! É a disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu sentido mais amplo, abrangendo a Litteratura, a Philosophia, etc.) que te impõe fatalmente esta divertida separação das virtudes e dos vicios. Desde que penetras na batalha, nunca poderás admittir que a Razão ou a Justiça ou a Utilidade se encontrem do lado d'aquelles contra quem descargas pela manhã a tua metralha silvante de adjectivos e verbos—porque então a decencia, se não já a consciencia, te forçariam a saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que elles são maleficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo com que os trespassas. Das solas dos pés até aos teus raros cabellos, meu Bento, desde logo te atolas na Intolerancia! Toda a idéa que se eleve, para além do muro, a condemnarás como funesta, sem exame, só porque appareceu dez braças adiante, do lado dos outros, que são os Reprobos, e não do lado dos teus, que são os Eleitos. Realisam esses outros uma obra? Bento não poupará prosa nem musculo para que ella pereça: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrevê n'ella certa belleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua demolição, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma coisa de util ou de bello nascesse dos seus inimigos—e vivesse. Nos homens que vagam para além do teu muro, tu só verás peccadores; e quando entre elles reconhecesses S. Francisco d'Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porciuncula, taparias a face para que tanta santidade te não amollecesse, e gritarias mais sanhudamente:—«Lá anda aquelle malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!»

Assim tu serás no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o adoptam lentamente e moralmente se fazem á tua imagem. Todo o jornal distilla intolerancia, como um alambique distilla alcool, e cada manhã a multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso. É pela acção do jornal que se azedam todos os velhos conflictos do mundo—e que as almas, desevangelisadas, se tornam mais rebeldes á indulgencia. A sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergencias humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que n'elle rolam: e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente sociavel, tenderia a uma suprema pacificação—se cada manhã o jornal não avivasse os odios de Principios, de Classes, de Raças, e, com os seus gritos, os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e mordam. O jornal exerce hoje todas as funcções malignas do defuncto Satanaz, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pae da Mentira, mas o Pae da Discordia. É elle que por um lado inflamma as exigencias mais vorazes—e por outro fornece pedra e cal ás resistencias mais iniquas. Vê tu quando se alastra uma gréve, ou quando entre duas nações bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, dois credos se confrontam em hostilidade: o instincto primeiro dos homens, que o abuso da Civilisação material tem amollecido e desmarcialisado, é murmurar paz! juizo! e estenderem as mãos uns para os outros, n'aquelle gesto hereditario que funda os pactos. Mas surge logo o jornal, irritado como a Furia antiga, que os separa, e lhes sopra na alma a intransigencia, e os empurra á batalha, e enche o ar de tumulto e de pó.