A Correspondência de Fradique Mendes
Capítulo XIV
Não penses que estou compondo canticos em teu louvor. É em plena simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao contrario! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua magestade, seria impotente para exprimir o meu extase. Balbucio, como posso, a minha infinita oração. E n'esta desoladora insufficiencia do Verbo humano é como o mais inculto e o mais illetrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a unica verdade, melhor que todas as verdades—que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!... F .
XIV
(Trad.)
Lisboa, junho.
Minha querida madrinha.—N'aquella casa de hospedes da travessa da Palha, onde vive, atrellado á lavra angustiosa da Verdade, meu primo o Metaphysico, conheci, logo depois de voltar de Refaldes, um padre, o padre Salgueiro, que talvez a minha madrinha, com essa sua maliciosa paciencia de colleccionar Typos, ache interessante e psychologicamente divertido.
O meu distrahido e pallido Metaphysico affirma, encolhendo os hombros, que padre Salgueiro não se destaca por nenhuma saliencia de Corpo ou Alma entre os vagos padres da sua Diocese; —e que resume mesmo, com uma fidelidade de indice, o pensar, e o sentir, e o viver, e o parecer da classe ecclesiastica em Portugal. Com effeito, por fóra, na casca, padre Salgueiro é o costumado e corrente padre portuguez, gerado na gleba, desbravado e afinado depois pelo Seminario, pela frequentação das auctoridades e das Secretarias, por ligações de confissão e missa com fidalgas que têm capella, e sobretudo por longas residencias em Lisboa, n'estas casas de hospedes da Baixa, infestadas de litteratura e politica. O peito bem arcado, de folego fundo, como um folle de forja; as mãos ainda escuras, asperas, apesar do longo contacto com a alvura e doçura das hostias; o carão côr de couro curtido, com um sobre-tom azul nos queixos escanhoados; a corôa livida entre o cabello mais negro e grosso que pellos de clina; os dentes escaroladamente brancos—tudo n'elle pertence a essa forte plebe agricola de onde sahiu, e que ainda hoje em Portugal fornece á Egreja todo o seu pessoal, pelo desejo de se alliar e de se apoiar á unica grande instituição humana que realmente comprehende e de que não desconfia. Por dentro, porém, como miolo, padre Salgueiro apresenta toda uma estructura moral deliciosamente pittoresca e nova para quem, como eu, do Clero Lusitano só entrevira exterioridades, uma batina desapparecendo pela porta d'uma sacristia, um velho lenço de rapé posto na borda d'um confessionario, uma sobrepeliz alvejando n'uma tipoia atraz d'um morto...
O que em padre Salgueiro me encantou logo, na noite em que tanto palestramos, rondando pachorrentamente o Rocio, foi a sua maneira de conceber o Sacerdocio. Para elle o Sacerdocio (que de resto ama e acata como um dos mais uteis fundamentos da sociedade) não constitue de modo algum uma funcção espiritual—mas unicamente e terminantemente uma funcção civil. Nunca, desde que foi collado á sua parochia, padre Salgueiro se considerou senão como um funccionario do Estado, um Empregado Publico, que usa um uniforme, a batina (como os guardas da alfandega usam a fardeta), e que, em logar de entrar todas as manhãs n'uma repartição do Terreiro do Paço para escrevinhar ou archivar officios, vai mesmo nos dias santificados, a uma outra repartição, onde, em vez da carteira se ergue um altar, celebrar missas e administrar sacramentos. As suas relações portanto não são, nunca foram, com o céo (do céo só lhe importa saber se está chuvoso ou claro)—mas com a Secretaria da Justiça e dos Negocios Ecclesiasticos. Foi ella que o collocou na sua Parochia, não para continuar a obra do Senhor guiando docemente os homens pela estrada limpa da Salvação (missões de que não curam as secretarias do Estado), mas, como funccionario, para executar certos actos publicos que a lei determina a bem da ordem social—baptisar, confessar, casar, enterrar os parochianos.
Os sacramentos são, pois, para este excellente padre Salgueiro, meras ceremonias civis, indispensaveis para a regularisação do estado civil,—e nunca, desde que os administra, pensou na sua natureza divina, na Graça que communicam ás almas, e na força com que ligam a vida transitoria a um principio Immanente. Decerto, outr'ora no seminario, padre Salgueiro decorou em compendios ensebados a sua Theologia Dogmatica, a sua Theologia Pastoral, a sua Moral, o seu S. Thomaz, o seu Liguori—mas meramente para cumprir as disciplinas officiaes do curso, ser ordenado pelo seu bispo, depois provido n'uma parochia pelo seu ministro, como todos os outros bachareis que em Coimbra decoram as Sebentas de Direito natural e de Direito romano para «fazerem o curso», receber na cabeça a borla de doutor, e depois o aconchego de um emprego facil. Só o grau vale e importa, porque justifica o despacho. A sciencia é a formalidade penosa que lá conduz—verdadeira provação, que, depois de atravessada, não deixa ao espirito desejos de regressar á sua disciplina, á sua aridez, á sua canceira. Padre Salgueiro, hoje, já esqueceu regaladamente a significação theologica e espiritual do casamento:—mas casa, e casa com pericia, com bom rigor liturgico, com boa fiscalisação civil, esmiuçando escrupulosamente as certidões, pondo na benção toda a uncção prescripta, perfeito em unir as mãos com a estola, cabal na ejaculação dos latins, porque é subsidiado pelo Estado para casar bem os cidadãos, e, funccionario zeloso, não quer cumprir com defeitos funcções que lhe são pagas sem atrazo.
A sua ignorancia é deliciosa. Além de raros actos da vida activa de Jesus, a fuga para o Egypto no burrinho, os pães multiplicados nas bodas de Caná, o azorrague cahindo sobre os vendilhões do Templo, certas expulsões de Demonios, nada sabe do Evangelho— que considera todavia muito bonito. Á doutrina de Jesus é tão alheio como á philosophia de Hegel. Da Biblia tambem só conhece episodios soltos, que aprendeu certamente em oleographias—a Arca de Noé, Samsão arrancando as portas de Gaza, Judith degollando Holophernes. O que tambem me diverte, nas noites amigas em que conversamos na travessa da Palha, é o seu desconhecimento absolutamente candido das origens, da historia da Egreja. Padre Salgueiro imagina que o Christianismo se fundou de repente, n'um dia (decerto um domingo), por milagre flagrante de Jesus Christo:—e desde essa festiva hora tudo para elle se esbate n'uma treva incerta, onde vagamente reluzem nimbos de santos e tiáras de papas, até Pio IX. Não admira, porém, na obra pontifical de Pio IX, nem a Infallibilidade, nem o Syllabus:—porque se préza de liberal, deseja mais progresso, bemdiz os beneficios da instrucção, assigna o Primeiro de Janeiro.
Onde eu tambem o acho superiormente pittoresco, é cavaqueando ácerca dos deveres que lhe incumbem como pastor de almas—os deveres para com as almas. Que elle, por continuação de uma obra divina, esteja obrigado a consolar dôres, pacificar inimizades, dirigir arrependimentos, ensinar a cultura da bondade, adoçar a dureza dos egoismos, é para o benemerito padre Salgueiro a mais estranha e incoherente das novidades! Não que desconheça a belleza moral d'essa missão, que considera mesmo cheia de poesia. Mas não admitte que, formosa e honrosa como é, lhe pertença a elle padre Salgueiro! Outro tanto seria exigir de um verificador da alfandega que moralisasse e purificasse o commercio. Esse santo emprehendimento pertence aos Santos. E os Santos, na opinião de padre Salgueiro, formam uma Casta, uma Aristocracia espiritual, com obrigações sobrenaturaes que lhes são delegadas e pagas pelo Céo. Muito differentes se apresentam as obrigações de um parocho! Funccionario ecclesiastico, elle só tem a cumprir funcções rituaes em nome da Egreja, e portanto do Estado que a subsidia. Ha ahi uma criança para baptisar? Padre Salgueiro toma a estola e baptisa. Ha ahi um cadaver para enterrar? Padre Salgueiro toma o hyssope e enterra. No fim do mez recebe os seus dez mil reis (além da esmola)—e o seu bispo reconhece o seu zelo.
A idéa que padre Salgueiro tem da sua missão determina, com louvavel logica, a sua conducta. Levanta-se ás dez horas, hora classicamente adoptada pelos empregados do Estado. Nunca abre o breviario—a não ser em presença dos seus superiores ecclesiasticos, e então por deferencia gerarchica, como um tenente, que, em face ao seu general, se perfila, pousa a mão na espada. Emquanto a orações, meditações, mortificações, exames d'alma, todos esses pacientes methodos de aperfeiçoamento e santificação propria, nem sequer suspeita que lhe sejam necessarios ou favoraveis. Para que? Padre Salgueiro constantemente tem presente que, sendo um funccionario, deve manter, sem transigencias, nem omissões, o decoro que tornará as suas funcções respeitadas do mundo. Veste, por isso, sempre de preto. Não fuma. Todos os dias de jejum come um peixe austero. Nunca transpoz as portas impuras de um botequim. Durante o inverno só uma noite vai a um theatro, a S. Carlos, quando se canta o Polliuto, uma opera sacra, de purissima lição. Deceparia a lingua, com furor, se d'ella lhe pingasse uma falsidade. E é casto. Não condemna e repelle a mulher com colera, como os Santos Padres:—até a venéra, se ella é economica e virtuosa. Mas o regulamento da Egreja prohibe a mulher: elle é um funccionario ecclesiastico, e a mulher portanto não entra nas suas funcções. É rigidamente casto. Não conheço maior respeitabilidade do que a de padre Salgueiro.
As suas occupações, segundo observei, consistem muito logicamente, como empregado (além das horas dadas aos deveres liturgicos), em procurar melhoria de emprego. Pertence por isso a um partido politico:—e em Lisboa, tres noites por semana, toma chá em casa do seu chefe, levando rebuçados ás senhoras. Maneja habilmente eleições. Faz serviços e recados, complexos e indescriptos, a todos os directores geraes da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Com o seu bispo é incansavel:—e ainda ha mezes o encontrei, suado e afflicto, por causa de duas incumbencias de. S. exc.a uma relativa a queijadas de Cintra, outra a uma collecção do Diario do Governo.
Não fallei da sua intelligencia. É pratica e methodica—como verifiquei, assistindo a um sermão que elle prégou pela festa de S. Venancio. Por esse sermão, encommendado, recebia padre Salgueiro 20$000 reis—e deu, por esse preço, um sermão succulento, documentado, encerrando tudo o que convinha á glorificação de S. Venancio. Estabeleceu a filiação do Santo; desenrolou todos os seus milagres (que são poucos) com exactidão, exarando as datas, citando as auctoridades; narrou com rigor agiologico o seu martyrio; enumerou as egrejas que lhe são consagradas, com as épocas da fundação. Enxertou destramente louvores ao Ministro dos Negocios Ecclesiasticos. Não esqueceu a Familia Real, a quem rendeu preito constitucional. Foi, em summa, um excellente relatorio sobre S. Venancio.
Felicitei n'essa noite, com fervor, o reverendo padre Salgueiro. Elle murmurou, modesto e simples:
—S. Venancio infelizmente não se presta. Não foi bispo, nunca exerceu cargo publico!... Em todo o caso, creio que cumpri.
Ouço que vai ser nomeado conego. Larguissimamente o merece. Jesus não possue melhor amanuense. E nunca realmente comprehendi por que razão outro amigo meu, um frade do Varatojo, que, pelo extasi da sua fé, a profusão da sua caridade, o seu devorador cuidado na pacificação das almas, me faz lembrar os velhos homens evangelicos, chama sempre a este sacerdote tão zeloso, tão pontual, tão proficiente, tão respeitavel—«o horrendo padre Salgueiro!»
Ora veja, minha madrinha! Mais de trinta ou quarenta mil annos são necessarios para que uma montanha se desfaça e se abata até ao tamanhinho d'um outeiro que um cabrito galga brincando. E menos de dois mil annos bastaram para que o Christianismo baixasse dos grandes padres das Sete Egrejas da Asia até ao divertido padre Salgueiro, que não é de sete Egrejas, nem mesmo d'uma, mas sómente, e muito devotamente, da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Este baque provaria a fragilidade do Divino—se não fosse que realmente o Divino abrange as religiões e as montanhas, a Asia, o padre Salgueiro, os cabritinhos folgando, tudo o que se desfaz e tudo o que se refaz, e até este seu afilhado, que é todavia humanissimo.—F .