A Correspondência de Fradique Mendes

Eça de Queirós · Capítulo 24 de 27

Páginas do PDF

A Correspondência de Fradique Mendes

Capítulo XIII

Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae... Mau latim—grata verdade.

Seu grato e mau afilhado—F .

 

XIII

...

(Trad.)

 

Paris, novembro.

 

Meu amor.—Ainda ha poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei n'um fiacre desolador desde a nossa Torre de Marfim) eu sentia o rumor do teu coração junto do meu, sem que nada os separasse senão uma pouca de argilla mortal, em ti tão bella, em mim tão rude—e já estou tentando recontinuar anciosamente, por meio d'este papel inerte, esse ineffavel estar comtigo que é hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e unica vida. É que, longe da tua presença, cesso de viver, as coisas para mim cessam de ser—e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome—recomeço a aspirar desesperadamente para ti como para uma resurreição!

Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva—que era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. Mas tu vieste, dôce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permittir que eu bradasse tambem triumphalmente o meu—«amo, logo existo!» E não foi só a minha realidade que me desvendaste—mas ainda a realidade de todo este Universo, que me envolvia como um inintelligivel e cinzento montão de apparencias. Quando ha dias, no terraço de Savran, ao anoitecer, te queixavas que eu contemplasse as estrellas estando tão perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer das collinas junto ao calor dos teus hombros—não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando nas coisas a belleza inesperada que tu sobre ellas derramas por uma emanação que te é propria, e que, antes de viver a teu lado, nunca eu lhes percebera, como se não percebe a vermelhidão das rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu, minha bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha Iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo Iniciado, posso affirmar:—«Tambem fui a Eleusis; pela larga estrada pendurei muita flôr que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei—e vi e senti a verdade!...»

E accresce ainda, para meu martyrio e gloria, que tu és tão sumptuosamente bella e tão ethereamente bella, d'uma belleza feita de Céo e de Terra, belleza completa e só tua, que eu já concebera— que nunca julgára realizavel. Quantas vezes, ante aquella sempre admirada e toda perfeita Venus de Milo, pensei que se debaixo da sua testa de Deusa podessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lagrimas; se os seus labios, só talhados para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmurio de uma prece submissa; se, sob esses seios, que foram o appetite sublime dos Deuses e dos Heroes, um dia palpitasse o Amor e com elle a Bondade; se o seu marmore soffresse, e pelo soffrimento se espiritualisasse, juntando ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade; se ella fosse do nosso tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dôr—então não estaria collocada n'um museu, mas consagrada n'um santuario, porque os homens, ao reconhecer n'ella a alliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto a teriam acclamado in eternum como a definitiva Divindade. Mas quê! A pobre Venus só offerecia a serena magnificencia da carne. De todo lhe faltava a chamma que arde na alma e a consome. E a creatura incomparavel do meu scismar, a Venus Espiritual, Cytherêa e Dolorosa, não existia, nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu te comprehendo! Eras a encarnação do meu sonho, ou antes d'um sonho que deve ser universal—mas só eu te descobri, ou, tão feliz fui, que só por mim quizeste ser descoberta!

Vê, pois, se jámais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo que és a minha Divindade,—para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam ás lages dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens dos seus Baals. Assim te quero tambem, acorrentada dentro do templo avaro que te construi, só Divindade minha, sempre no teu altar,—e eu sempre diante d'elle rojado, recebendo constantemente n'alma a tua visitação, abysmando-me sem cessar na tua essencia, de modo que nem por um momento se descontinue essa fusão ineffavel, que é para ti um acto de Misericordia e para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que fosses invisivel para todos e como não existente— que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rigida mudez occultasse a tua intelligencia. Assim passarias no mundo como uma apparencia incomprehendida. E só para mim, de dentro do involucro escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo—que te queria entrouxada n'um rude, vago vestido de merino, com um ar quêdo, inanimado... Perderia assim o triumphal contentamento de vêr resplandecer entre a multidão maravilhada aquella que em segredo nos ama. Todos murmurariam compassivamente—«Pobre creatura!» E só eu saberia da «pobre creatura», o corpo e a alma adoraveis!

Quanto adoraveis! Nem comprehendo que, tendo consciencia do teu encanto, não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio, coberto de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo e por mim e por ti! A tua belleza, na verdade, attinge a altura de uma virtude:—e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. Por isso ha em mim um incessante desespero de não te saber amar condignamente—ou antes (pois desceste de um céo superior) de não saber tratar, como ella merece, a hospeda divina do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda n'uma felicidade immaterial, seraphica, calma infinitamente como deve ser a Bemaventurança—e assim deslisarmos enlaçados através do silencio e da luz, muito brandamente, n'um sonho cheio de certeza, sahindo da vida á mesma hora e indo continuar no além o mesmo sonho estatico. E outras vezes desejaria arrebatar-te n'uma felicidade vehemente, tumultuosa, fulgurante, toda de chamma, de tal sorte que n'ella nos destruissemos sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanaz, ainda em toda a refulgencia da belleza archangelica, arrastando nos braços para o Abysmo uma freira, uma Santa, cujos derradeiros véos de penitencia se vão esgaçando pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, através do horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e paixão, tão intensas—que eu as appeteceria para ti, oh minha Santa roubada! Mas de nenhum d'estes modos te sei amar, tão fraco ou inhabil é o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente d'esta eternidade. Ainda hontem me perguntavas:—«No calendario do seu coração, quantos dias dura a eternidade?» Mas considera que eu era um morto—e que tu me resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo que em mim sente e comprehende, são o meu amor por ti—e se elle me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu sepulchro. Só posso deixar de te amar—quando deixar de ser. E a vida comtigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bella! É a vida de um Deus. Melhor talvez:—e se eu fosse esse pagão que tu affirmas que sou, mas um pagão do Lacio, pastor de gados, crente ainda em Jupiter e Apollo, a cada instante temeria que um d'esses Deuses invejosos te raptasse, te elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina. Assim não receio:—toda minha te sei e para todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um Paraiso para nós creado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da gloria, oh minha tres vezes bemdita, Rainha da minha graça.