A Correspondência de Fradique Mendes
Capítulo III
Mas a hora chegára: abracei Fradique com singular emoção. A vela fôra içada á briza suave que arripiava a folhagem das mimosas. Á prôa o arraes, espalmando as mãos para o céo, clamou:—«Em nome de Allah que nos leve, clemente e misericordioso!» Ao redor, d'outras barcas, vozes lentas murmuraram:—«Em nome de Allah que vos leve!» Um dos remadores, sentado á borda, feriu as cordas da dourbaka, outro tomou uma flauta de barro. E entre bençãos e cantos a vasta barca fendeu as aguas sagradas, levando para Thebas o meu incomparavel amigo.
III
Durante annos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrára as suas jornadas dentro da Europa Occidental— emquanto eu errava pela America, pelas Antilhas, pelas republicas do golfo do Mexico. E quando a minha vida emfim se aquietou n'um velho condado rural de Inglaterra, Fradique, retomado por essa «bisbilhotice ethnographica» a que elle allude n'uma carta a Oliveira Martins, começava a sua longa viagem ao Brazil, aos Pampas, ao Chili e á Patagonia.
Mas o fio de sympathia, que nos unira no Cairo, não se partiu; nem nós, apesar de tão tenue, o deixámos perder por entre os interesses mais fortes das nossas fortunas desencontradas. Quasi todos os tres mezes trocavamos uma carta—cinco ou seis folhas de papel que eu tumultuosamente atulhava de imagens e impressões, e que Fradique miudamente enchia de idéas e de factos. Além d'isto, eu sabia de Fradique por alguns dos meus camaradas, com quem, durante uma residencia mais intima em Lisboa, do outono de 1875 ao verão de 1876, elle creára amizades onde todos encontraram proveito intellectual e encanto.
Todos, apesar das dissimilhanças de temperamentos ou das maneiras differentes de conceber a vida—tinham como eu sentido a seducção d'aquelle homem adoravel. D'elle me escrevia em novembro de 1877 o auctor do Portugal Contemporaneo:—«Cá encontrei o teu Fradique, que considero o portuguez mais interessante do seculo XIX. Tem curiosas parecenças com Descartes! É a mesma paixão das viagens, que levava o philosopho a fechar os livros «para estudar o grande livro do Mundo»; a mesma attracção pelo luxo e pelo ruido, que em Descartes se traduzia pelo gosto de frequentar as «côrtes e os exercitos»; o mesmo amor do mysterio, e das subitas desapparições; a mesma vaidade, nunca confessada, mas intensa, do nascimento e da fidalguia; a mesma coragem serena; a mesma singular mistura de instinctos romanescos e de razão exacta, de phantasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida um fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excellentes concorressem a realisar. E receio que em logar do Discurso sobre o Methodo venha só a deixar um vaudeville». Ramalho Ortigão, pouco tempo depois, dizia d'elle n'uma carta carinhosa:—«Fradique Mendes é o mais completo, mais acabado producto da civilisação em que me tem sido dado embeber os olhos. Ninguem está mais superiormente apetrechado para triumphar na Arte e na Vida. A rosa da sua botoeira é sempre a mais fresca, como a idéa do seu espirito é sempre a mais original. Marcha cinco leguas sem parar, bate ao remo os melhores remadores de Oxford, mette-se sósinho ao deserto a caçar o tigre, arremette com um chicote na mão contra um troço de lanças abyssinias:—e á noite n'uma sala, com a sua casaca do Cook, uma perola negra no esplendor do peitilho, sorri ás mulheres com o encanto e o prestigio com que sorrira á fadiga, ao perigo e á morte. Faz armas como o cavalleiro de Saint-Georges, e possue as noções mais novas e as mais certas sobre Physica, sobre Astronomia, sobre Philologia e sobre Metaphysica. É um ensino, uma lição de alto gosto, vêl-o no seu quarto, na vida intima de gentleman em viagem, entre as suas malas de couro da Russia, as grandes escovas de prata lavrada, as cabaias de sêda, as carabinas de Winchester, preparando-se, escolhendo um perfume, bebendo golos de chá que lhe manda o Gran-Duque Vladimir, e dictando a um creado de calção, mais veneravelmente correcto que um mordomo de Luiz XIV, telegrammas que vão levar noticias suas aos boudoirs de Paris e de Londres. E depois de tudo isto fecha a sua porta ao mundo—e lê Sophocles no original».
O poeta da Morte de D. João e da Musa em Ferias chamava-lhe «um Sainte-Beuve encadernado em Alcides». E explicava assim, n'uma carta d'esse tempo que conservo, a sua apparição no mundo: «Deus um dia agarrou n'um bocado de Henri Heine, n'outro de Chateaubriand, n'outro de Brummel, em pedaços ardentes d'aventureiros da Renascença, e em fragmentos resequidos de sabios do Instituto de França, entornou-lhe por cima champagne e tinta de imprensa, amassou tudo nas suas mãos omnipotentes, modelou á pressa Fradique, e arrojando-o á Terra disse: Vai, e veste-te no Poole!» Emfim Carlos Mayer, lamentando como Oliveira Martins que ás multiplas e fortes aptidões de Fradique faltasse coordenação e convergencia para um fim superior, deu um dia sobre a personalidade do meu amigo um resumo sagaz e profundo: «O cerebro de Fradique está admiravelmente construido e mobilado. Só lhe falta uma idéa que o alugue, para vivar e governar lá dentro. Fradique é um genio com escriptos!»
Tambem Fradique, n'esse inverno, conheceu o pensador das Odes Modernas, de quem, n'uma das suas cartas a Oliveira Martins, falla com tanta elevação e carinho. E o ultimo companheiro da minha mocidade que se relacionou com o antigo poeta das L foi
J. Teixeira d'Azevedo, no verão de 1877, em Cintra, na quinta da Saragoça, onde Fradique viera repousar da sua jornada ao Brazil e ás republicas do Pacifico. Tinham ahi conversado muito, e divergido sempre. J. Teixeira d'Azevedo, sendo um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperavel antipathia pelo que elle chamava o lymphatismo critico de Fradique. Homem todo de emoção não se podia fundir intellectualmenle com aquelle homem todo de analyse. O extenso saber de Fradique tambem não o impressionava. «As noções d'esse guapo erudito (escrevia elle em 1879) são bocados do Larousse diluidos em agua de Colonia». E emfim certos requintes de Fradique (escovas de prata e camisas de sêda), a sua voz mordente recortando o verbo com perfeição e preciosidade, o seu habito de beber champagne com soda-water, outros traços ainda, causavam uma irritação quasi physica ao meu velho camarada da Travessa do Guarda-Mór. Confessava porém, como Oliveira Martins, que Fradique era o portuguez mais interessante e mais suggestivo do seculo XIX. E correspondia-se regularmente com elle—mas para o contradizer com acrimonia.
Em 1880 (nove annos depois da minha peregrinação no Oriente), passei em Paris a semana da Paschoa. Uma noite, depois da Opera, fui cear solitariamente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e uma chronica do Temps, quando por traz do jornal que eu encostára á garrafa assomou uma larga mancha clara, que era um collete, um peitilho, uma gravata, uma face, tudo de incomparavel brancura. E uma voz muito serena murmurou: «Separámo-nos ha annos no caes de Boulak...» Ergui-me com um grito, Fradique com um sorriso;—e o maitre-d'hotel recuou assombrado diante da meridional e ruidosa effusão do meu abraço. D'essa noite em Paris datou verdadeiramente a nossa intimidade intellectual—que em oito annos, sempre igual e sempre certa, não teve uma intermissão, nem uma sombra que lhe toldasse a pureza.
Determinadamente lhe chamo intellectual, porque esta intimidade nunca passou além das coisas do espirito. Nas alegres temporadas que com elle convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa copiosa correspondencia d'esses annos privei sempre, sem reserva, com a intelligencia de Fradique—e interrompidamente assisti e me misturei á sua vida pensante: nunca porém penetrei na sua vida affectiva de sentimento e de coração. Nem, na verdade, me atormentou a curiosidade de a conhecer— talvez por sentir que a rara originalidade de Fradique se concentrava toda no sêr pensante, e que o outro, o sêr sensivel, feito da banal argilla humana, repetia sem especial relevo as costumadas fragilidades da argilla. De resto, desde essa noite de Paschoa em Paris que iniciou as nossas relações, nós conservámos sempre o habito especial, um pouco altivo, talvez estreito, de nos considerarmos dois puros espiritos. Se eu então concebesse uma Philosophia original, ou preparasse os mandamentos d'uma nova Religião, ou surripiasse á Natureza distrahida uma das suas secretas Leis—de preferencia escolheria Fradique como confidente d'esta actividade espiritual; mas nunca, na ordem do Sentimento, iria a elle com a confidencia d'uma esperança ou d'uma desillusão. E Fradique igualmente manteve commigo esta attitude de inaccessivel recato—não se manifestando nunca aos meus olhos senão na sua funcção intellectual.
Muito bem me lembro eu d'uma resplandecente manhã de maio em que atravessavamos, conversando por sob os castanheiros em flôr, o jardim das Tulherias. Fradique, que se encostára ao meu braço, vinha vagarosamente desenvolvendo a idéa de que a extrema democratisação da Sciencia, o seu universal e illimitado derramamento através das plebes, era o grande erro da nossa civilisação, que com elle preparava para bem cedo a sua catastrophe moral... De repente, ao transpôrmos a grade para a praça da Concordia, o Philosopho que assim lançava, por entre as tenras verduras de maio, estas predicções de desastre e de fim— estaca, emmudece! Diante de nós, ao trote fino d'uma egoa de luxo, passára vivamente, para os lados da rua Royale, um coupé onde entrevi, na penumbra dos setins que o forravam, uns cabellos côr de mel. Vivamente tambem, Fradique sacode o meu braço, balbucia um «adeus!», acena a um fiacre, e desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do cães d'Orsay. «Mulher!», pensei eu. Era, com effeito, a mulher e o seu tormento; e como se deprehende d'uma carta a Madame de Jouarre (datada de «Maio, sabbado», e começando: «Hontem philosophava com um amigo no jardim das Tulherias...») Fradique corria n'esse fiacre a uma desillusão bem rude e mortificante. Ora n'essa tarde, ao crepusculo, fui (como combinára) buscar Fradique á rua de Varennes, ao velho palacio dos Tredennes, onde elle installára desde o Natal os seus aposentos com um luxo tão nobre e tão sobrio. Apenas entrei na sala que denominavamos a «Heroica», porque a revestiam quatro tapeçarias de Luca Cornelio contando os Trabalhos de Hercules, Fradique deixa a janella d'onde olhava o jardim já esbatido em sombra, vem para mim serenamente, com as mãos enterradas nos bolsos d'uma quinzena de sêda. E, como se desde essa manhã nenhum outro cuidado o absorvesse senão o seu th cuidado o absorvesse senão o seu thema do jardim das Tulherias:
—Não lhe acabei de dizer ha pouco... A Sciencia, meu caro, tem de ser recolhida como outr'ora aos Santuarios. Não ha outro meio de nos salvar da anarchia moral. Tem de ser recolhida aos Santuarios, e entregue a um sacro collegio intellectual que a guarde, que a defenda contra as curiosidades das plebes... Ha a fazer com esta idéa um programma para as gerações novas!
Talvez na face, se eu tivesse reparado, encontrasse restos de pallidez e de emoção: mas o tom era simples, firme, d'um critico genuinamente occupado na deducção do seu conceito. Outro homem que, como aquelle, tivesse soffrido horas antes uma desillusão tão mortificante e rude, murmuraria ao menos, n'um desafogo generico e impessoal:—«Ah, amigo, que estupida é a vida!» Elle fallou da Sciencia e das Plebes,—desenrolando determinadamente diante de mim, ou impondo talvez a si mesmo, os raciocinios do seu cerebro, para que os meus olhos não penetrassem de leve, ou os seus não se detivessem demais, nas amarguras do seu coração.
N'uma carta a Oliveira Martins, de 1883, Fradique diz:—«O homem, como os antigos reis do Oriente, não se deve mostrar aos seus semelhantes senão unica e serenamente occupado no officio de reinar—isto é, de pensar». Esta regra, d'um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a um Kant, dirigia severamente a sua conducta. Pelo menos commigo assim se comportou immutavelmente, através da nossa activa convivencia, não se abrindo, não se offerecendo todo, senão nas funcções da Intelligencia. Por isso talvez, mais que nenhum outro homem, elle exerceu sobre mim imperio e seducção.