A Correspondência de Fradique Mendes

Eça de Queirós · Capítulo 17 de 27

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A Correspondência de Fradique Mendes

Capítulo VI

De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples ha modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituaes. Um presenciei eu, deliciosamente puro e intimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vesperas de entrar em guerra com um chefe visinho, communicar com o seu Deus, com o seu Mulungú (que era, como sempre, um seu avô divinisado). O recado ou pedido, porém, que desejava mandar á sua Divindade, não se podia transmittir através dos Feiticeiros e do seu ceremonial, tão graves e confidenciaes matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo comprehendera, tudo retivera: e immediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquillamente—«parte!» A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e sellada, direita para o céo, ao Mulungú. Mas d'ahi a instantes o chefe bate uma palmada afflicta na testa, chama á pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rapidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra:—«Vai!»

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú... O segundo escravo era um post-scriptum.

Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu coração. Amigo do dito—F .

 

VI

Paris, abril.

 

Querido Ramalho.—No sabbado á tarde, na rue Cambon, avisto dentro d'um fiacre o nosso Eduardo, que se arremessa pela portinhola para me gritar: «Ramalho, esta noite! de passagem para a Hollanda! ás dez! no café da Paz!»

Fico dôcemente alvoroçado; e ás nove e meia, apesar da minha justa repugnancia pela esquina do café da Paz, Centro catita do Snobismo internacional, lá me installo, com um bock, esperando a cada instante que surja, por entre a turba baça e molle do boulevard, o esplendor da Ramalhal figura. Ás dez salta d'um fiacre com anciedade o vivaz Carmonde, que abandonára á pressa uma sobremesa alegre pour voir ce grand Ortigan! Começa uma espera a dois, com bock a dois. Nada de Ramalho, nem do seu viço. Ás onze apparece Eduardo, esbaforido. E Ramalho? Inedito ainda! Espera a tres, impaciencia a tres, bock a tres. E assim até que o bronze nos soou o fim do dia.

Em compensação um caso, e profundo. Carmonde, Eduardo e eu sorviamos as derradeiras fezes do bock, já desilludidos de Ramalho e das suas pompas, quando roça pela nossa mesa um sujeito escurinho, chupadinho, esticadinho, que traz na mão com respeito, quasi com religião, um soberbo ramo de cravos amarellos. É um homem d'além dos mares, da Republica Argentina ou Peruana, e amigo de Eduardo—que o retem e apresenta «o snr. Mendibal». Mendibal aceita um bock: e eu começo a contemplar mudamente aquella facesinha toda em perfil, como recortada n'uma lamina de machado, d'uma côr acobreada de chapéo côco inglez, onde a barbita rala, hesitante, denunciando uma virilidade frouxa, parece cotão, um cotão negro, pouco mais negro que a tez. A testa escanteada recua, foge toda para traz, assustada. O caroço da garganta esganiçada, ao contrario, avança como o esporão d'uma galera por entre as pontas quebradas do collarinho muito alto e mais brilhante que esmalte. Na gravata, grossa perola.

Eu contemplo, e Mendibal falla. Falla arrastadamente, quasi dolentemente, com finaes que desfallecem, se esvaem em gemido. A voz é toda de desconsolo:—mas, no que diz, revela a mais forte, segura e insolente satisfação de viver. O animal tem tudo: immensas propriedades além do mar, a consideração dos seus fornecedores, uma casa no Parc-Monceau, e «uma esposa adoravel». Como deslizou elle a mencionar essa dama que lhe embelleza o lar? Não sei. Houve um momento em que me ergui, chamado por um velho Inglez meu amigo, que passava, recolhendo da Opera, e que me queria simplesmente segredar, com uma convicção forte, que «a noute estava esplendida!» Quando voltei á mesa e ao bock, o Argentino encetára em monologo a glorificação da «sua senhora». Carmonde devorava o homemzinho com olhos que riam e que saboreavam, deliciosamente divertido. Eduardo, esse, escutava com a compostura pesada de um portuguez antigo. E Mendibal, tendo posto ao lado sobre uma cadeira, com cuidados devotos, o ramo de cravos, desfiava as virtudes e os encantos de Madame. Sentia-se alli uma d'essas admirações effervescentes, borbulhantes, que se não podem retrahir, que transbordam por toda a parte, mesmo por sobre as mesas dos cafés: onde quer que passasse, aquelle homem iria deixando escorrer a sua adoração pela mulher, como um guarda-chuva encharcado vai fatalmente pingando agua. Comprehendi, desde que elle, com um prazer que lhe repuxava mais para fóra o caroço da garganta, revelou que madame Mendibal era franceza. Tinhamos alli portanto um fanatismo de preto pela graça loira d'uma parisiensesinha, picante em seducção e finura. Desde que comprehendi, sympathisei. E o Argentino farejou em mim esta benevolencia critica—porque foi para mim que se voltou, lançando o derradeiro traço, o mais decisivo, sobre as excellencias de Madame: «Sim, positivamente, não havia outra em Paris! Por exemplo, o carinho com que ella cuidava da mamã (da mamã d'elle), senhora de grande idade, cheia de achaques! Pois era uma paciencia, uma delicadeza, uma sujeição... De cahir de joelhos! Então nos ultimos dias a mamã andára tão rabugenta!... Madame Mendibal até emmagrecera. De sorte que elle proprio, n'esse domingo, lhe pedira que se fosse distrahir, passar o dia a Versalhes, onde a mãe d'ella, madame Jouffroy, habitava por economia. E agora viera de a esperar na gare Saint-Lazare. Pois, senhores, todo o dia em Versalhes, a santa creatura estivera com cuidado na sogra, cheia de saudades da casa, n'uma ancia de recolher. Nem lhe soubera bem a visita á mamã! A maior parte da tarde, e uma tarde tão linda, gastára-a a reunir aquelle esplendido ramo de cravos amarellos para lhe trazer, a elle!»

—É verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos! Até consola. Olhe que para estas lembrancinhas, para estes carinhos, não ha senão uma franceza. Graças a Deus, posso dizer que acertei! E se tivesse filhos, um só que fosse, um rapaz, não me trocava pelo principe de Galles. Eu não sei se o senhor é casado. Perdôe a confiança. Mas se não é, sempre lhe direi, como digo a todo o mundo:—Case com uma franceza, case com uma franceza!...

Não podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante. Como V. não vinha, fugidio Ramalho, dispersamos. Mendibal trepou para um fiacre com o seu amoroso molho de cravos. Eu arrastei os passos, no calor da noite, até ao club. No club encontro Chambray, que V. conhece—o «formoso Chambray». Encontro Chambray no fundo d'uma poltrona, derreado e radiante. Pergunto a Chambray como lhe vai a Vida, que opinião tem n'esse dia da Vida. Chambray declara a Vida uma delicia. E, immediatamente, sem se conter, faz a confidencia que lhe bailava impacientemente no sorriso e no olho humedecido.

Fôra a Versalhes, com tenção de visitar os Fouquiers. No mesmo compartimento com elle ia uma mulher, une grande et belle femme. Corpo soberbo de Diana n'um vestido collante do Redfern. Cabellos apartados ao meio, grossos e apaixonados, ondeando sobre a testa curta. Olhos graves. Dois solitarios nas orelhas. Sêr substancial, solido, sem chumaços e sem blagues, bem alimentado, envolto em consideração, superiormente installado na vida.

E, no meio d'esta respeitabilidade physica e social, um geito guloso de molhar os beiços a cada instante, vivamente, com a ponta da lingua... Chambray pensa comsigo:—«burgueza, trinta annos, sessenta mil francos de renda, temperamento forte, desapontamentos d'alcova». E apenas o comboyo larga, toma o seu «grande ar Chambray», e dardeja á dama um d'esses olhares que eram outr'ora symbolisados pelas flechas de Cupido. Madame impassivel. Mas, momentos, depois, vem d'entre as palpebras um pouco pesadas, direito a Chambray (que vigiava de lado, por traz do Figaro aberto), um d'esses raios de luz indagadora que, como os da lanterna de Diogenes, procuram um homem que seja um homem. Ao chegar a Courbevoie, a pretexto de baixar o vidro por causa da poeira, Chambray arrisca uma palavra, atrevidamente timida, sobre o calor de Paris. Ella concede outra, ainda hesitante e vaga, sobre a frescura do campo. Está travada a Ecloga. Em Suresnes, Chambray já se senta na banqueta ao lado d'ella, fumando. Em Sevres, mão de Madame arrebatada por Chambray, mão de Chambray repellida por Madame:—e ambas insensivelmente se entrelaçam. Em Viroflay, proposta brusca de Chambray para darem um passeio por um sitio de Viroflay que só elle conhece, recanto bucolico, de incomparavel doçura, inaccessivel ao burguez. Depois, ás duas horas tomariam o outro trem para Versalhes. E nem a deixa hesitar —arrebata-a moralmente, ou antes physiologicamente, pela simples força da voz quente, dos olhos alegres, de toda a sua pessoa franca e mascula.

Eil-os no campo, com um aroma da seiva em redor, e a primavera e Satanaz conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes. Chambray conhece á orla do bosque, junto d'agua, uma tavernola que tem as janellas encaixilhadas em madresilva. Porque não irão lá almoçar uma caldeirada, regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade sente uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanaz, dando ao rabo, corre adiante, a propiciar as coisas na tavernola. Acham lá, com effeito, uma installação magistral: quarto fresco e silencioso, mesa posta, cortina de cassa ao fundo escondendo e trahindo a alcova. «Em todo o caso que o almoço suba depressa, porque elles têm de partir pelo trem das duas horas»—tal é o brado sincero de Chambray!

Quando chega a caldeirada, Chambray tem uma inspiração genial— despe o casaco, abanca em mangas de camisa. É um rasgo de bohemia e de liberdade, que a encanta, a excita, faz surgir a garota que ha quasi sempre no fundo da matrona. Atira tambem o chapéo, um chapéo de duzentos francos, para o fundo do quarto, alarga os braços, e tem este grito d'alma:

—Ah oui, que c'est bon, de se desembêter!

E depois, como dizem os hespanhoes—la mar. O sol, ao despedir-se da terra por esse dia, deixou-os ainda em Viroflay; ainda na tavernola; ainda no quarto;—e outra vez á mesa, diante d'um beefsteak reconfortante, como os acontecimentos pediam com urgencia e logica.

Versalhes, esquecido! Tratava-se de voltar á estação para tomar o trem de Paris. Ella aperta devagar as fitas do chapéo, apanha uma das flôres da janella que mette no corpete, fixa um olhar lento em redor pelo quarto e pela alcova, para todo decorar e retêr—e partem. Na estação, ao saltar para um compartimento differente (por causa da chegada a Paris), Chambray n'um aperto de mão, já apressado e frouxo, supplica-lhe que ao menos lhe diga como se chama. Ella murmura—Lucie.

—E é tudo o que sei d'ella, conclue Chambray accendendo o charuto. E sei tambem que é casada porque na gare Saint-Lazare, á espera d'ella, e acompanhado por um trintanario serio, de casa burgueza, estava o marido... É um rastacuero côr de chocolate, com uma barbita rala, enorme perola na gravata... Coitado, ficou encantado quando ella lhe deu um grande ramo de cravos amarellos que eu lhe mandára arranjar em Viroflay... Mulher deliciosa. Não ha senão as francezas!

Que diz V. a estas coisas consideraveis, meu bom Ramalho? Eu digo que, em resumo, este nosso Mundo é perfeito e não ha nos espaços outro mais bem organisado. Porque note V. como, ao fim d'este domingo de maio, todas estas tres excellentes creaturas, com uma simples jornada a Versalhes, obtiveram um ganho positivo na vida. Chambray passou por um immenso prazer e uma immensa vaidade—os dois unicos resultados que elle conta na existencia como proventos solidos, e valendo o trabalho de existir. Madame experimentou uma sensação nova ou differente, que a desenervou, a desafogou, lhe permittiu reentrar mais acalmada na monotonia do seu lar, e ser util aos seus com rediviva applicação. E o Argentino adquiriu outra inesperada e triumphal certeza de quanto era amado e feliz na sua escolha. Tres ditosos, ao fim d'esse dia de primavera e de campo. E se d'aqui resultar um filho (o filho que o Argentino appetece), que herde as qualidades fortes e brilhantemente gaulezas de Chambray, accresce, ao contentamento individual dos tres, um lucro effectivo para a sociedade. Este mundo portanto está superiormente organisado.