A Correspondência de Fradique Mendes

Eça de Queirós · Capítulo 27 de 27

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A Correspondência de Fradique Mendes

Capítulo XVI

O jornal matou na terra a paz. E não só atiça as questões já dormentes como borralhos de lareira, até que d'ellas salte novamente uma chamma furiosa—mas inventa dissensões novas, como esse anti-semitismo nascente, que repetirá, antes que o seculo finde, as anachronicas e brutas perseguições medievaes. Depois é o jornal...

Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras estão dançando, no meu velho relogio, o minuete de Gluck. Ora esta carta já vai, como a de Tiberio, muito tremenda e verbosa, verbosa et tremenda epistola; e eu tenho pressa de a findar, para ir, ainda antes do almoço, lêr os meus jornaes, com delicia.—Teu F .

 

XVI

(Trad.)

 

Paris, outubro.

 

Minha muito amada Clara.—Toda em queixumes, quasi rabugenta, e mentalmente tarjada de luto, me appareceu hoje a tua carta com os primeiros frios de outubro. E porquê, minha dôce descontente? Porque, mais féro de coração que um Trastamara ou um Borgia, estive cinco dias (cinco curtos dias de outomno) sem te mandar uma linha, affirmando essa verdade tão patente e de ti conhecida como o disco do sol—«que só em ti penso, e só em ti vivo!...» Mas não sabes tu, oh super-amada, que a tua lembrança-me palpita na alma tão natural e perennemente como o sangue no coração? Que outro principio governa e mantem a minha vida senão o teu amor? Realmente necessitas ainda, cada manhã, um certificado, em letra bem firme, de que a minha paixão está viva e viçosa e te envia os bons dias? Para que? Para socego da tua incerteza? Meu Deus! Não será antes para regalo do teu orgulho? Sabes que és Deusa, e reclamas incessantemente o incenso e os canticos do teu devoto. Mas Santa Clara, tua padroeira, era uma grande santa, de alta linhagem, de triumphal belleza, amiga de S. Francisco de Assis, confidenta de Gregorio IX, fundadora de mosteiros, suave fonte de piedade e milagres—e todavia só é festejada uma vez, cada anno, a 27 de agosto!

Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha fé! Não! não mandei essa linha superflua, porque todos os males bruscamente se abateram sobre mim:—um defluxo burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros; um confuso duello, de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um ramo secco d'olaia soffreu, cortado por uma bala; e, emfim, um amigo que regressou da Abyssinia, cruelmente Abyssinisante, e a quem tive de escutar com resignado pasmo as caravanas, os perigos, os amores, as façanhas e os leões!... E ahi está como a minha pobre Clara, solitaria nas suas florestas, ficou sem essa folha, cheia das minhas letras, e tão inutil para a segurança do seu coração como as folhas que a cercam, já murchas decerto e dançando no vento.

Porque não sei como se comportam os teus bosques;—mas aqui as folhas do meu pobre jardim amarellaram e rolam na herva humida. Para me consolar da verdura perdida, accendi o meu lume:—e toda a noite de hontem mergulhei na muito velha chronica d'um Chronista medieval da minha terra, que se chama Fernam Lopes. Ahi se conta d'um rei que recebeu o debil nome de Formoso, e que, por causa d'um grande amor, desdenhou princezas de Castella e de Aragão, dissipou thesouros, affrontou sedições, soffreu a desaffeição dos povos, perdeu a vassallagem de castellos e terras, e quasi estragou o reino! Eu já conhecia a chronica—mas só agora comprehendo o rei. E grandemente o invejo, minha linda Clara! Quando se ama como elle (ou como eu), deve ser um contentamento esplendido o ter princezas da christandade, e thesouros, e um povo, e um reino forte para sacrificar a dois olhos, finos e languidos, sorrindo pelo que esperam e mais pelo que promettem... Na verdade só se deve amar quando se é rei—porque só então se póde comprovar a altura do sentimento com a magnificencia do sacrificio. Mas um méro vassallo como eu (sem hoste ou castello), que possue elle de rico, ou de nobre, ou de bello para sacrificar? Tempo, fortuna, vida? Mesquinhos valores. É como offertar na mão aberta um pouco de pó. E depois a bem amada nem sequer fica na historia.

E por historia—muito approvo, minha estudiosa Clara, que andes lendo a do divino Budha. Dizes, desconsoladamente, que elle te parece apenas um Jesus muito complicado. Mas, meu amor, é necessario desentulhar esse pobre Budha da densa alluvião de Lendas e Maravilhas que sobre elle tem acarretado, durante seculos, a imaginação da Asia. Tal como ella foi, deprendida da sua mythologia, e na sua nudez historica,—nunca alma melhor visitou a terra, e nada iguala, como virtude heroica, a Noite do Renunciamento. Jesus foi um proletario, um mendigo sem vinha ou leira, sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galiléa, aconselhando aos homens a que abandonassem como elle os seus lares e bens, descessem á solidão e á mendicidade, para penetrarem um dia n'um Reino venturoso, abstracto, que está nos Céos. Nada sacrificava em si e instigava os outros ao sacrificio— chamando todas as grandezas ao nivel da sua humildade. O Budha, pelo contrario, era um Principe, e como elles costumam ser na Asia, de illimitado poder, de illimitada riqueza: casára por um immenso amor, e d'ahi lhe viera um filho, em quem esse amor mais se sublimára:—e este principe, este esposo, este pae, um dia, por dedicação aos homens, deixa o seu palacio, o seu reino, a esposada do seu coração, o filhinho adormecido no berço de nacar, e, sob a rude estamenha de um mendicante, vai através do mundo esmolando e prégando a renuncia aos deleites, o aniquilamento de todo o desejo, o illimitado amor pelos sêres, o incessante aperfeiçoamento na caridade, o desdem forte do ascetismo que se tortura, a cultura perenne da misericordia que resgata, e a confiança na morte...

Incontestavelmente, a meu vêr (tanto quanto estas excelsas coisas se podem discernir d'uma casa de Paris, no seculo XIX e com defluxo) a vida do Budha é mais meritoria. E depois considera a differença do ensino dos dois divinos Mestres. Um, Jesus, diz:—«Eu sou filho de Deus, e insto com cada um de vós, homens mortaes, em que pratiqueis o bem durante os poucos annos que passaes na terra, para que eu depois, em premio, vos dê a cada um, individualmente, uma existencia superior, infinita em annos e infinita em delicias, n'um palacio que está para além das nuvens e que é de meu Pae!» O Budha, esse, diz simplesmente:—«Eu sou um pobre frade mendicante, e peço-vos que sejaes bons darante a vida, porque de vós, em recompensa, nascerão outros melhores, e d'esses outros ainda mais perfeitos, e assim, pela pratica crescente da virtude em cada geração, se estabelecerá pouco a pouco na terra a virtude universal!» A justiça do justo, portanto, segundo Jesus, só aproveita egoistamente ao justo. E a justiça do justo, segundo o Budha, aproveita ao sêr que o substituir na existencia, e depois ao outro, que d'esse nascer, sempre durante a passagem na terra, para lucro eterno da terra. Jesus cria uma aristocracia de santos, que arrebata para o céo onde elle é Rei, e que constituem a côrte do céo para deleite da sua divindade;—e não vem d'ella proveito directo para o Mundo, que continua a soffrer da sua porção de Mal, sempre indiminuida. O Budha, esse, cria, pela somma das virtudes individuaes, santamente accumuladas, uma humanidade que em cada cyclo nasce progressivamente melhor, que por fim se torna perfeita, e que se estende a toda a terra d'onde o Mal desapparece, e onde o Budha é sempre, á beira do caminho rude, o mesmo frade mendicante. Eu, minha flor, sou pelo Budha. Em todo o caso, esses dois Mestres possuiram, para bem dos homens, a maior porção de Divindade que até hoje tem sido dado á alma humana conter. De resto, tudo isto é muito complicado; e tu sabiamente procederias em deixar o Budha no seu Budhismo, e, uma vez que esses teus bosques são tão admiraveis, em te retemperar na sua força e nos seus aromas salutares. O Budha pertence á cidade e ao collegio de França: no campo a verdadeira Sciencia deve cahir das arvores, como nos tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina mais que todas as folhas dos livros. Sobretudo do que eu—que aqui estou pontificando, e fazendo pedantescamente, ante os teus lindos olhos, tão finos e meigos, um curso escandaloso de Religiões Comparadas.

Só me restam tres pollegadas de papel,—e ainda te não contei, oh doce exilada, as novas de Paris, acta Urbis. (Bom, agora latim!) São raras, e pallidas. Chove: continuamos em Republica; Madame de Jouarre, que chegou da Rocha com menos cabellos brancos, mas mais cruel, convidou alguns desventurados (dos quaes eu o maior) para escutarem tres capitulos d'um novo attentado do barão de Fernay sobre a Grecia; os jornaes publicam outro prefacio do snr. Renan, todo cheio do snr. Renan, e em que elle se mostra, como sempre, o enternecido e erudito vigario de Nossa Senhora da Razão; e temos, emfim, um casamento de paixão e luxo, o do nosso esculptural visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave, aquella nariguda, magrinha e de maus dentes, que herdou, milagrosamente, os dois milhões do cervejeiro, e que tem tão lindamente engordado e ri com dentes tão lindos. Eis tudo, minha adorada... E é tempo que te mande, em montão, n'esta linha, as saudades, os desejos e as coisas ardentes e suaves e sem nome de que meu coração está cheio, sem que se esgote por mais que plenamente as arremesse aos teus pés adoraveis, que beijo com submissão e com fé.—F .

 

Notas:

[1] Estas cartas constituem verdadeiros Ensaios Historicos, que, pelas suas proporções, não poderiam entrar n'esta collecção. Reunidas as notas e fragmentos dispersos, devem formar um volume a que o seu compilador dará, penso eu, o titulo de Versos e Prosas de Fradique Mendes.

[2] Muitas das cartas de Fradique Mendes, aqui publicadas, são naturalmente escriptas em francez. Todas essas vão acompanhadas da indicação abreviada trad. (traduzida).

[3] O velho creado de quarto de Fradique Mendes.

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