A hora do crime
Ao Publico
Á HORA DO CRIME
Á HORA DO CRIME
Phantasia dramatica em 1 acto
a proposito do assassinato do general Prim
por
Francisco Luiz Coutinho de Miranda
Lisboa
Typ. Livre--22, Rua da Padaria, 22
1871
AO PUBLICO
Nasci n'um anno em que o sangue dos cidadãos de Lisboa allagou as praças e as ruas da capital.
Foi uma carnificina monstruosa, o 13 de março de 1838!
As guardas nacionaes, colhidas á traição, fôram covardemente espingardeadas á ordem dos falsos interpretes das instituições, que a guarda nacional era chamada a zellar e defender!
Ainda se não sabe ao certo o numero dos martyres d'aquella tremenda hecatombe!
Eram pela rua aos montões os cadaveres dos populares e dos soldados, povo tambem, sacrificados n'aquelle dia aos caprichos e veleídades do governo pessoal!
E esses homens do povo, e esses guardas nacionaes, todas essas victimas innocentes da maldade e da ambição, eram na sua maior parte os valerosos companheiros do duque de Bragança; os que tinham amassado com o seu sangue generoso os alicerces do throno constitucional; os que tinham, pela sua coragem, pela sua dedicação, pelo seu civismo, conquistado para a filha do imperador-rei o throno de Portugal, na longa epopea que começou na ilha Terceira e terminou em Evora Monte!
Eu não havia ainda nascido; mas creio que minha santa mãe me concebeu então. Vi a luz do mundo em nove de dezembro d'esse mesmo anno, quasi precisamente nove mezes depois de tão amplo addicionamento ao livro immenso do martyriologio da liberdade!
Bafejou-me ao nascer o ar das revoluções!
D'ahi talvez a origem das tendencias revolucionarias do meu espirito!
Quasi que o meu primeiro vagido se confundiu com os gritos de dôr das victimas da tyrannia!
D'ahi por certo o meu amor pelo povo, e o meu horror pelos despotas!
Emballaram-me no berço as descripções detalhadas das acções homericas dos sitiados do Porto; educaram-me no respeito pelo principio santo da liberdade; desenvolveram-me a rasão, encaminhando-me sempre o espirito para as theorias, poeticas e patrioticas, do mais largo desenvolvimento dos foros e regalias do povo!
D'aqui indubitavelmente a minha crença sincera e firme na religião democratica!
Mas quem me diria, quando os primeiros alvores da rasão começaram a esclarecer-me a intellegencia; quando eu escutava com infantil respeito, no vivo enthusiasmo da creança que facilmente se exalta palas santas doutrinas da liberdade, a descripção singella que meu velho pae me fazia dos sacrificios e das privações, da fome e dos perigos, do sangue e das vidas, que a liberdade custara; quem me diria, repito, que aquelle honrado velho havia de ser victima dos falsos sacerdotes da sua religião politica; que eu proprio havia de ser constantemente torturado pelos depositarios infieis do thesouro riquissimo que meu pae ajudara a conquistar para o seu paiz!
E esta é, infelizmente, a verdade!
Tantas cazas arruinadas, tão ferteis campos tallados, tantas vidas preciosas offerecidas em holocausto á liberdade, de que serviram?
De bem pouco, na verdade!
Em vez da tyrannia, a falsa liberdade!
Em logar do despotismo brutal; mas franco, por que constituia a base do systema governativo, o despotismo hipocritamente encapotado no manto da liberdade, infamemente roubado á deusa dos povos, pelos falsos levitas da sua religião!
Em substituição do poder absoluto de um homem, o poder absoluto de muitos, que se dizem responsaveis, e que ainda não fizeram lei que torne effectiva a sua responsabilidade; que deveram ser filhos dos partidos, e que são oriundos de corrilhos e facções; que dão conta dos seus actos a parlamentos immoraes e ridiculos, que teem por base a viciação da urna, sanctuario da liberdade, e o principio heriditario no exercicio de legislar, que é um absurdo, ou a fornada, que pode ser um abuso!
E para isto fugiste tu ao lar paterno, meu pae!
E para isto abandonaste a mãe que te estremecia, e a irmã, que se finou, com saudades tuas!
E para isto foste ferido trez vezes em campanha, e alcançaste juz a essa medalha que tanto te ufanava, e que tão pouco vale aos olhos dos ignorantes, e dos preversos, que teem deixado crescer espinhos e abrolhos no campo formoso que tu e os teus companheiros d'armas arrotearam, para as futuras gerações gosarem!
Progresso! Liberdade! Tolerancia!
Termos mentidos! principios falsos! palavras sem significação, na pratica desgraçada de governos retrogrados, de ministros libertecidas, de homens que só respiram odios; e só aspiram vinganças!
O progresso para elles é a reacção!
A sua liberdade é a perseguição para os que mais livremente manifestam a sua opinião politica!
Para elles a tolerancia está nas cadeias em que encerram os adversarios ou aquelles que, fatigados dos seus desvarios, lançam mão do recurso extremo, do remedio fatal, da ultima rasão dos povos--a revolução; principio em nome do qual elles são poder; arma de que nenhum d'elles tem deixado de usar, no jogo abjecto d'essa politica miseravel, em que o paiz se tem arrastado ha mais de trinta annos!
Livre manifestação do pensamento!
Pois isto é por ventura principio pratico em Portugal?
Apregoam para ahi uns orgãos da imprensa, que é livre, liberrima, a manifestação do pensamento politico!
Mentira!
Poucos como eu podem mais desafogadamente responder a uma tal asserção:
--Mentira!
Poucos podem clamar, com mais documentado conhecimento da causa:
Mentira!
Sim, mentira, porque no meu paiz não existe liberdade para a manifestação do pensamento, e eu sou d'isso um exemplo vivo!
Fallei uma vez ao povo, dizendo-lhe verdades que elle deve conhecer, e perseguiram-me!
Nunca foi alterada a ordem publica nas pacificas reuniões em que eccoou a minha voz, e processaram-me!
Exercia um direito que meu pae me conquistara com o seu sangue, e vi cair na valla humilde do cimiterio, minado de desgostos, louco de rancor, desesperado de arrependimento, o velho honrado que me deu o ser, ao ver-me perseguido e homisiado pelo crime horrendo de fallar em publico!
Mais tarde, por que reincidi n'este crime nefando, os miseraveis roubaram-me o emprego, exercido durante; muitos annos com honra e zello, no desempenho do qual só recebera elogios, e nunca censuras, ou mesmo leves admoestações!
E a manifestação do pensamento é livre, liberrima!
Na imprensa o mesmo!
Ainda bem a minha penna não tem traçado um periodo vehemente de amarga censura, ou de pungente ironia, contra os que cynicamente antepõem á lei a sua vontade pessoal, e já os escrivães e os juizes, os delegados e os esbirros da justiça andam atarefados em levantar processos, que partam os bicos d'esta penna, que se não dobra á venalidade, e que prefere ser molhada no fel amargo do calix da perseguição, do que nas amphoras douradas da corrupção, em que innutilisam as suas os jornalistas devassos!
E a manifestação do pensamento é livre, liberrima!
Restava-me ainda um recurso!
Descobri um outro campo em que podesse evangelisar a minha idéa querida, sem offensa das idéas de ninguem!
Era o theatro!
O theatro, onde na velha e sabia Grecia se fazia a apologia da virtude politica, e se erguia o patibulo moral dos homens publicos menos fieis aos seus deveres de cidadãos!
O theatro, d'onde nos tempos do governo absoluto se dirigia a satyra pungente e a ironia mordaz, contra os que menos presavam a dignidade nacional, e se tornavam reus de leso patriotismo!
Nem essa tribuna me póde ser franqueada; e não obstante eu não a busquei sem levar vestido o habito da decencia; não me preparei para ella sem o mais escrupuloso commedimento na phrase; eu não pensei em fazer do palco estatua de Pasquino, nem cruz ignominiosa de nenhum homem publico!
E apesar d'isso conheço que me é deffeso pôr em scena as figuras com que mais sympathiso no grande theatro da politica universal!
Vejo que me não será permittido evangelisar á luz civilisadora da rampa as theorias do meu credo politico, como se proclamam ali as theorias scientificas, como se apregoam as doutrinas philosophicas, como se apostolisam os principios humanitarios!
Como se a sciencia, a philosophia e a humanidade não tivessem intimas relações com a politica em geral!
E é livre, liberrima, a manifestação do pensamento!
Mentira! Falsidade! Embuste!
Vi para ahi na scena uma peças, aliás bem urdidas, e correctamente escriptas, em que se relatavam scenas, mais ou menos exactas, da guerra barbara que tem assolado a França!
E pensei:
--Pois se é permittida a representação de peças, em que os auctores se apresentam manifestamente inclinados á causa da França, o que até certo ponto prejudica a neutralidade do paiz em presença da guerra; por que não ha de alguem, no campo altissimo das generalidades, tratar em these os mais altos principios politicos? Por essa occasião deu-se o tristissimo episodio da morte de Prim, que foi o fatal epilogo da revolução de Cadix, e o negro prologo da monarchia que o valente general ergueu sobre os destroços da monarchia bourbonica.
Na ignorancia dos pormenores d'aquella tragica scena, que não honra de certo os que a executaram; fervilharam os boatos a respeito da origem do crime.
Uns atribuiam-no aos partidos, outros a individuos despeitados, e alguns em especial ao honrado partido republicano.
Repugnaram-me todas estas hypotheses, e indignou-me a ultima.
Onde está a abnegação, não existe o crime!
Onde vive o amor da patria, não se demora o plano tenebroso de morte, contra uma gloria nacional!
As boccas que proclamam a liberdade para o escravo, e o principio da inviolabilidade da vida humana; não pronunciam a voz de fogo na encrusilhada covarde!
D'estas considerações nasceu a idéa d'escrever o--Á Hora do Crime.
Tracei-o, esforçando-me por guardar todas as conveniencias.
Puz em acção a idéa democratica; mas sem offensa para ninguem.
Advoguei o principio republicano, em these; sem que em nenhuma hypothese offensiva podesse ser ferido qualquer dos actores do grande drama tragico-festival, que nos ultimos dois mezes se representou em Hespanha.
E li depois o meu modesto trabalho a um amigo consciencioso, conhecedor dos segredos da scena, e habilissimo escriptor dramatico, pedindo-lhe a sua opinião franca, sincera, desapaixonada, acerca do meu pobre escripto.
Tive em resposta elogios immerecidos, que a sua amisade entendeu dever prodigalisar-me, e uma prophecia triste, que me calou todavia no espirito, pela experiencia que infelizmente me tem feito conhecer a intolerancia que, altiva e arrogante, domina no meu paiz!
A prophecia foi:
--A sua peça não pode ser representada, porque nenhum empresario, por mais liberal que seja, por mais desejo que tenha de dar ao seu trabalho a justa recompensa que merece, lh'o porá em scena. O sr. não sabe em que paiz vivemos?!
Acordei do lethargo em que me lançára o enthusiasmo pela minha idéa!
Conheci que o conselheiro que eu buscára cumpria o seu dever e era leal, porque me dizia verdade!
Resignei-me com a fatalidade que persegue o meu pensamento, quando tenta manifestar-se; e disse commigo:
--É atroz mentira, é pungente ironia, é refalsada falsidade, o principio que para ahi se proclama, asseverando que a manifestação do pensamento é livre em Portugal!
Não ha tal; em Portugal o pensamento vive agrilhoado á intollerancia! Só é livre para os que se entregam á politica mesquinha do soalheiro! Em a idéa se alargando pelos vastos horisontes da verdade eterna ha de ir forçosamente responder por ella, como criminoso, ao tribunal ou á cadêa, o que ousou manifestal-a!
E como é proverbio velho, que--contra a força não ha resistencia; não insisti no intuíto, e metti o trabalho na gaveta.
A pedido de alguns correligionarios que o conhecem, dou-o hoje á estampa.
N'esta tribuna não temo as responsabilidades, por que respondo eu pelo que escrevi.
No theatro pode o genio da oppressão embargar-me a voz; mas na imprensa e no comicio ha de ella soltar-se sempre livre e desembaraçada, em quanto m'a não asphyxiarem os algozes da liberdade!