A hora do crime

Francisco Luís Coutinho de Miranda · Capítulo 12 de 26

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A hora do crime

Scena Iv

 

D. Emilio e D. Ramon

 

D. RAMON.

( A D. Emilio--do fundo ) É infelizmente assim, meu caro Castellar. Desde que aquelles hespanhoes, menos ciosos da velha dignidade castelhana, votaram na constituinte um rei estrangeiro, a minha fé continuou inabalavel; mas a minha esperança no futuro diminuiu consideravelmente!

 

D. EMILIO

E porque, estimavel D. Ramon?

 

D. RAMON

Porque o moço inexperiente; mas ambicioso de certo, que imprudentemente trocou o bem estar e socego, pelos espinhos agudissimos da corôa d'Hespanha, pode ser um bom rapaz, e é-o decerto; pode possuir um coração bem formado, e creio que o possue; pode mesmo desejar abrir na historia nossa patria uma era brilhante de beneficios, de liberdades, de tolerancias; mas é rei, e por mais digno que seja o seu sentir, por mais nobres que sejam as suas aspirações, hão de em pouco transformal-o em tyranno, em despota, em liberticida, os aulicos que hão de cercar-lhe o throno, as camarilhas que hão de insinuar-se no seu animo para lhe dominar a vontade, os maus cidadãos, emfim, que mais dão rasão de ser ao credo republicano, e que todos os dias, e a todas as horas, e em todos os instantes lhe conquistam adeptos, encaminhando os principes pela vereda fatal do erro, impellindo-os cynicamente para o plano inclinado onde se tem despenhado tantos, tantos!... arrastando comsigo as nações cujos destinos dirigiam!