A hora do crime

Francisco Luís Coutinho de Miranda · Capítulo 13 de 26

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A hora do crime

D. Emilio

Tem rasão em seus receios, D. Ramon; mas não a tem na sua descrença! Mau é que um rei venha matar as esperanças mais fagueiras que o povo hespanhol concebeu, quando, ao grito do triumpho magestoso da revolução de Cadix, viu cahir a pedaços o throno apodrecido d'essa mulher, que tanto sangue custou á nossa nobre terra! E peior é que esse rei, imposto á livre e orgulhosa Hespanha, seja um estrangeiro! O nosso proverbial orgulho, esse orgulho indomavel, que tornou sempre respeitados os cavalheirosos filhos d'Hespanha, sente-se ferido de morte na mais vulneravel das suas manifestações! Mas que importa isso? Quanto mais o justo orgulho, a nobre altivez de um povo se sente abatida e humilhada, tanto mais violento é o esforço supremo que deve dar-lhe a desaffronta, e com a desaffronta a liberdade! Tenha fé no futuro, D. Ramon!

 

D. RAMON

Fé!... Sei que a sua é viva e sincera, Castellar; não ignoro quanto a patria deve á sua dedicada abnegação e ás suas profundas convicções; sou o mais enthusiastico admirador desse talento collossal, que assombra a patria, e a Europa, e o mundo; mas sou velho, e na friesa que dão os sessenta annos, e na impassibilidade filha de uma longa experiencia, vejo as cousas por um prisma tristissimo, fatal! Vejo que quando o italiano fôr o senhor d'este paiz, por mais altivo e orgulhoso que o povo hespanhol seja, o jugo ferreo do despotismo ha de vir em seguida comprimil-o nas cadeias de escravo, e a emancipação da patria ficará por isso longamente addiada, porque as hecatombes e as carnificinas hão de levar o desanimo onde hoje existe o enthusiasmo, hão de levar a indifferença onde hoje vive o amor da patria!