A hora do crime

Francisco Luís Coutinho de Miranda · Capítulo 11 de 26

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A hora do crime

Izabel

( Tranquilisando-a ) E que tem isso? O rei vem; mas isso não quer dizer que conseguirá firmar solidamente uma dymnastia! Epoca virá, e talvez pouco distante, em que a nação lhe indique solemnemente o caminho da sua patria! Se Martinez vae hoje, como ajudante do general, que se disse democrata no exilio, e que tão mal comprehendeu no poder a sua brilhante posição, esperar o rei que é imposto á nação hespanhola; talvez que em breve, convertido á crença democratica, elle vá, general da republica, fazer embarcar no mesmo porto o desvairado mancebo, que tão facilmente se deixou fascinar peio brilhantismo de uma corôa, que não é sua, e que de certo é pesada de mais para cabeça tão jovenil!

 

IZABEL

( Com receio ) E se um tiro traiçoeiro, cortando o ar n'um ermo, vier feril-o, em vez de ferir Amadeu ou Prim?

 

D. CARLOS

( Sorrindo ) Que lembrança! Em Hespanha o partido mais forte é o republicano, por que é aquelle que tem mais crentes retemperados na fé do martyrio; e por isso o rei e o general, e todo o sequito de Amadeu, e toda a comitiva de Prim, passarão illesos por entre a indifferença publica! O assassinato é um crime, e os republicanos não ferem o adversario senão no campo convencional da honra, ou no campo franco e aberto da batalha leal!

 

IZABEL

Sinto que tens rasão; mas sinto tambem que se me comprime a coração nos horrores da duvida; apavoram-me os terriveis presentimentos que me assaltam o espirito!

 

D. CARLOS

( Offerecendo-lhe o braço ) Vem commigo destrair-te. É o amor que te faz delirar assim! Vem commigo! ( Izabel dá-lhe o braço, e saem ambos pela porta leteral ).