A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 13 de 13 · parte 2/3

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A Montanha Mágica

– Eu queria ver meu falecido primo Joachim Ziemssen.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– de ter a sua carreira na ordem chegado a um fim prematuro. As virtudes do ar rarefeito das alturas em que se vivia ali em cima não conseguiam deter o andamento do mal. Também ele tinha de ir para a cama com muita freqüência, e a sua voz soava mais rachada do que nunca, cada vez que falava. E, à medida que a aumentava, tornava-se ainda mais loquaz, mais penetrante e mais cáustico. Aquela oposição idealista à doença e à morte, cuja derrota diante da superioridade esmagadora da natureza infame tanto afligia o Sr. Settembrini, tinha de ser alheia ao pequeno Naphta, e a sua maneira de reagir contra a piora do seu estado de saúde não consistia, por conseguinte, em mágoa e pesar, senão numa animação sarcástica, numa agressividade sem limite, numa necessidade maníaca de duvidar, de negar, de criar confusão, que irritava gravissimamente a melancolia do italiano e incitava cada vez mais as divergências intelectuais. Era claro que Hans Castorp só podia falar das discussões a que assistia. Mas o jovem tinha quase certeza de não perder nenhuma delas, pois a sua presença, ao tratar-se de um tema pedagógico, era indispensável para dar grandeza aos colóquios. E conquanto não se pudesse poupar ao Sr. Settembrini o desgosto de ver que Hans Castorp se interessava pelos ditos maliciosos de Naphta, era forçoso admitir que estes ultrapassavam nos últimos tempos todas as medidas e amiúde os próprios limites de um raciocínio são.

Esse enfermo não tinha nem a força nem a boa vontade de se elevar acima da doença, senão que via o mundo sob a imagem e o signo dela. Para desespero do Sr. Settembrini, que gostaria de mandar para fora do quarto o discípulo atento ou de tapar-lhe os ouvidos, declarava Naphta que a matéria era uma substância por demais imprestável para que o espírito pudesse completar-se numa habitação feita dela. Esforçar-se por conseguir isso não passava de tolice. Em que dava tal esforço? Numa caricatura! O resultado prático da tão elogiada Revolução Francesa era o Estado capitalista burguês – deveras um belo produto que alguns esperavam melhorar universalizando essa abominação! A república universal traria a felicidade, pois sim. O progresso?

Infelizmente podia-se comparar este com o famoso caso do enfermo que sempre estava mudando de posição porque nisso esperava encontrar algum alívio. Um desejo não confessado, mas muito difundido, secretamente, o de ver rebentar uma guerra, era a expressão dessa atitude.

Ela não deixaria de vir, essa guerra, e isso era bom, se bem que acarretasse efeitos bem diferentes daqueles que aguardavam seus autores. Naphta menosprezava o Estado burguês, preocupado exclusivamente com a sua segurança. Veio a falar nisso num dia de outono, durante um passeio pela rua principal, quando começava a chover e todo mundo de repente, como a uma ordem de comando, abriu os guarda-chuvas. Aquilo se lhe afigurava como um símbolo da covardia e da efeminação vulgar que a civilização produzia. Um incidente como o naufrágio do navio Titanic tinha um sentido atávico e todavia edificante. Depois reclamavam todos, em altos brados, maior segurança dos meios de transporte. Em geral reinava a mais violenta indignação sempre que a

“segurança” se via ameaçada. Isso era miserável, e essa moleza humanitária formava uma

harmonia curiosa com a crueldade perversa e bestial daquele campo de batalha econômica que constituía o Estado burguês. Guerra, guerra! Ele, por si, era a favor, e a impaciência com que todos a almejavam parecia-lhe relativamente honrosa.

Mas, quando o Sr. Settembrini introduziu na conversa a palavra “justiça” e recomendou esse sublime princípio como meio preventivo contra catástrofes políticas, tanto externas como internas, evidenciou-se que o mesmo Naphta que acabava de julgar o espírito por demais elevado para que fosse possível e desejável a sua encarnação numa forma terrena punha agora em dúvida precisamente o espírito e se empenhava em denegri-lo. Justiça? Era ela uma idéia digna de adoração? Uma idéia divina?Uma idéia de primeira categoria? Deus e a natureza eram injustos, tinham favoritos, selecionavam segundo as suas simpatias, concediam perigosas distinções a um e preparavam a outro uma sorte fácil e banal. E o homem dotado de vontade? Para ele, a justiça era, de um lado, uma franqueza paralisante, a dúvida em si, e de outro, uma fanfarra que o chamava para atos inescrupulosos. Desde que o homem, para manter-se dentro da esfera da moral, tinha de corrigir esta “justiça” por aquela – onde ficavam a incondicionalidade e o radicalismo da idéia? Ademais, era-se “justo” para com um ou outro dos dois pontos de vista. O

resto não passava de liberalismo, e com isso não se arranjava mais nada hoje em dia. Numa palavra, a justiça era um termo oco da retórica burguesa, e para chegar à ação era preciso saber de que justiça se tratava – daquela que desejava conceder a cada um o que lhe pertencia ou da outra que queria dar parte igual a todos. Escolhemos a esmo, das discussões sem fim, um exemplo para demonstrar a maneira como Naphta trabalhava por perturbar a razão. No entanto, era ainda pior o modo como falava da ciência, na qual não acreditava. Não tinha fé na ciência – dizia – visto o homem ter plena liberdade de crer ou não crer nela. Essa era uma crença como qualquer outra, apenas mais tola e mais prejudicial. A própria palavra “ciência” era a expressão do mais estúpido realismo que não se envergonhava de aceitar e gastar como moeda sonante os reflexos mais que duvidosos que os objetos sofriam do intelecto humano, e de preparar com eles a mais lamentável e a mais insossa doutrina que já se impingiu à humanidade. Não constituía, porventura, o conceito de um mundo material existente por si só a mais ridícula de todas as autocontradições? Ora, a ciência natural moderna, como dogma, baseava-se exclusivamente no postulado metafísico, segundo o qual o tempo, o espaço e a causalidade – a saber, as formas de conhecimento dentro das quais se passam os fenômenos do mundo – eram condições reais, existentes independentemente do nosso conhecimento. Essa afirmação monista era o mais berrante desaforo que já foi pespegado ao espírito. Em linguagem monista, o tempo, o espaço e a causalidade chamavam-se evolução, e com isso estava-se à frente do dogma central da pseudo-religião livre-pensadora e ateística, por meio da qual se tencionava abolir o primeiro Livro de Moisés e opor a sabedoria esclarecedora a uma fábula estultificante, como se Haeckel tivesse estado presente no momento em que nascia a Terra. Empirismo? O éter universal era, acaso, exato? O átomo, essa graciosa brincadeira matemática em torno da “parcela menor e indivisível” – existia uma prova que o demonstrasse?

A teoria do espaço e do tempo infinitos fundava-se certamente na experiência; ou talvez não?

Com efeito, qualquer pessoa que soubesse pensar logicamente seria levada a experiências curiosas e a resultados divertidos com esse dogma do espaço e do tempo infinitos e reais; obteria precisamente o resultado: nada. Perceberia que o tal realismo era genuíno niilismo. Por quê? Pela simples razão de a relação entre qualquer grandeza e o infinito ser zero. No infinito não existia medida, e na eternidade não havia nem duração nem modificação. No espaço infinito, onde todas as distâncias seriam matematicamente iguais a zero, não era possível conceber nem sequer dois pontos situados um ao lado do outro, e ainda menos dois corpos, para não falar de um movimento. Ele, Naphta, fazia questão de constatar isso, para contrariar o atrevimento com que a ciência materialista apresentava os disparates astronômicos e o seu palavrório frívolo acerca do universo como se fossem conhecimentos absolutos. Coitada da humanidade, que, em face de uma exposição ostensiva de cifras vazias, deixou que lhe impingissem o sentimento da sua própria nulidade e admitiu que a privassem do sentido patético da sua importância! Talvez fosse

ainda tolerável que a razão e o conhecimento humanos se mantivessem dentro da esfera terrena e nesse campo tratassem como reais as suas experiências na exploração do objetivo e do subjetivo.

Mas quando ultrapassassem esses limites e estendessem a mão para o enigma eterno, dedicando-se à chamada cosmologia ou cosmogonia, levariam a brincadeira um pouco longe, e a sua presunção chegaria ao cúmulo do grotesco. Que absurdo blasfemo querer calcular a “distância”

entre um astro e a Terra em trilhões de quilômetros ou também em anos-luz e imaginar que por meio dessas mentiras matemáticas se pudesse abrir ao espírito humano a vista para o infinito e o terreno, quando, em realidade, o infinito nada, absolutamente nada tinha que ver com grandezas, e a eternidade, nada com a duração e com os lapsos de tempo. Pelo contrário, o infinito e a eternidade, longe de serem conceitos da ciência natural, representavam justamente a abolição daquilo que chamamos natureza. A ingenuidade de uma criança que tomasse as estrelas por buracos no dossel celeste, através dos quais penetrasse a claridade eterna, lhe parecia mil vezes preferível a toda aquela lengalenga oca, disparatada, presunçosa, que a ciência monista produzia com respeito ao “universo”.

Settembrini perguntou se Naphta, por sua parte, partilhava dessa crença quanto às estrelas, ao que o jesuíta respondeu que se reservava o direito da humildade e da liberdade do ceticismo. Essas palavras davam mais um ensejo para formar uma idéia daquilo que ele entendia por “liberdade”, e deixavam entrever aonde conduziria esse conceito. Se ao menos o Sr.

Settembrini não tivesse motivos ponderáveis para recear que Hans Castorp achasse essas coisas dignas de serem ouvidas!

A malícia de Naphta ficava à espreita de oportunidade para descobrir as fraquezas do progresso dominador da natureza e para demonstrar que os seus pioneiros e campeões sofriam recaídas muito humanas no irracional. Os aviadores, dizia ele, eram na maioria uns indivíduos suspeitos, de pouco valor, e sobretudo muitíssimo supersticiosos. Costumavam levar consigo a bordo dos aviões mascotes ou uma gralha, cuspiam três vezes em todas as direções e calçavam as luvas dos seus predecessores afortunados. Tal insensatez primitiva era, porventura, compatível com a concepção do mundo em que se alicerçava a sua profissão?... A contradição que Naphta acabava de revelar divertia-o, causava-lhe prazer, de maneira que insistia nessa tecla por muito tempo. Mas todos esses exemplos não são senão casos isolados do sem-número de ditos hostis proferidos por Naphta. Abandonemo-los para contar fatos infelizmente muito reais.

Certa tarde de fevereiro, os cavalheiros se reuniram para uma excursão a Monstein, localidade situada a uma hora e meia de trenó da sua morada habitual. O grupo era formado por Naphta, Settembrini, Hans Castorp, Ferge e Wehsal. Foram em dois trenós, cada qual tirado por um só cavalo. No primeiro embarcaram Hans Castorp e o humanista, no segundo Naphta, Ferge e Wehsal, que se instalou na boléia, ao lado do cocheiro. Todos estavam bem agasalhados. Às três horas partiram do domicílio dos externos. Os guizos soavam simpaticamente através da paisagem silenciosa sob a sua coberta de neve, enquanto os trenós seguiam ao longo da encosta direita, passando por Frauenkirch e Glaris, rumo ao sul. Nuvens carregadas de neve aproximavam-se rapidamente, vindas dessa mesma direção, de modo que pouco depois desapareceu todo o azul do céu, salvo uma estreita nesga atrás deles, por cima da cordilheira Rética. O frio era intenso. As montanhas estavam envoltas em bruma. A estrada que percorriam, essa plataforma angusta, sem balaustrada, construída entre a parede e o abismo, subia uma vertente íngreme, coberta de abetos.

Os cavalos avançavam a passo. Freqüentemente vinham a seu encontro desportistas com trenós, deslizando pela encosta, e que desmontavam para dar-lhes passagem. Por detrás das curvas ressoavam em delicada advertência guizos estranhos. Trenós puxados por dois cavalos atrelados um atrás do outro passavam por eles, sendo então preciso esquivar-se com muita cautela. Perto da meta da viagem descortinava-se uma linda vista sobre um trecho rochoso da estrada de Zügen.

Defronte ao pequeno hotel de Monstein, que se chamava Kurhaus, desembrulharam-se dos cobertores e caminharam alguns passos para poder contemplar o Stulsergrat. A gigantesca escarpa, de três mil metros de altura, estava escondida na bruma. Só se via em alguma parte um pico alto como o céu, superterreno, por assim dizer, recordando um longínquo Valhala, sagrado e

inacessível. Hans Castorp estava cheio de admiração por esse espetáculo e exortou os outros a partilhar com ele desse sentimento. Foi ele quem, tomado de uma sensação de humildade, pronunciou a palavra “inacessível”, dando com isso ao Sr. Settembrini uma oportunidade para observar que aquele cume já havia sido escalado. Era, aliás, uma coisa que quase não existia mais, essa da inacessibilidade e dos lugares em que o homem ainda não houvesse posto o pé. Naphta retrucou que isso era um pequeno exagero e uma gabolice. E citou o monte Everest, que por enquanto opunha uma negativa glacial à arrogância dos homens e parecia querer obstinar-se nessa reserva. O humanista mostrou-se agastado. O grupo voltou ao Kurhaus, à frente do qual se achavam além dos seus próprios trenós mais alguns outros, desatrelados.

No primeiro andar havia quartos numerados, onde a gente podia hospedar-se. Era também ali que estava situada a sala de refeições, de aspecto rústico, bem aquecida. Os excursionistas encarregaram a hoteleira solícita de lhes trazer uma pequena refeição: café, mel, pão branco e bolo de peras, a especialidade do lugar. Mandaram servir vinho tinto aos cocheiros.

As outras mesas estavam ocupadas por turistas suíços e holandeses.

Gostaríamos de afirmar que em torno da mesa dos nossos cinco amigos o café quente, muito digno de elogios, houvesse originado uma conversa mais elevada. Mas isso seria inexato, uma vez que essa conversa era em realidade um solilóquio de Naphta, que a monopolizou depois de umas poucas palavras com que os outros haviam contribuído para ela, um monólogo pronunciado de forma bastante estranha, censurável do ponto de vista das convenções, visto o ex-jesuíta se dirigir exclusivamente a Hans Castorp, doutrinando-o com muita amabilidade, ao passo que voltava as costas a seu outro vizinho, que era o Sr. Settembrini, e também não prestava a menor atenção aos dois outros senhores.

Seria difícil definir qual era o tema das suas improvisações, que Hans Castorp acompanhava sacudindo a cabeça em sinal de meia aprovação. Não havia, em realidade, um assunto único. A palestra vagava livremente pela esfera do espírito, roçando isto e aquilo, empenhada, essencialmente, em demonstrar, de forma desanimadora, a ambigüidade dos fenômenos espirituais da vida, bem como a natureza irisante e a debilidade combativa das grandes idéias derivadas deles. Esforçava-se por tornar evidente que o absoluto se apresentava neste mundo em roupas muitíssimo cambiantes.

A rigor se poderia dizer que a sua conferência se ocupava do problema da liberdade, que ele tratava com o propósito de criar confusão. Entre outras coisas, mencionamos o Romantismo e o fascinante sentido duplo, inerente a esse movimento europeu de princípios do século XIX, em face do qual fracassariam conceitos como “reação” ou “revolução”, a não ser que se reunissem num conceito superior. Naturalmente era ridículo querer associar o conceito do

“revolucionário” apenas ao progresso e ao esclarecimento vitorioso. O Romantismo europeu tinha sido, antes de mais nada, um movimento libertador, de caráter anticlassicista e antiacadêmico, dirigido contra o gosto da França antiga, contra a velha escola da razão, cujos paladinos eram ridicularizados como cabeças de perucas empoadas.

E Naphta veio a falar das Guerras de Libertação, do entusiasmo fichteano, do levantamento delirante, poético, de um povo contra uma tirania insuportável, que, desgraçadamente (ah, ah!), era a encarnação da liberdade, quer dizer, das idéias da Revolução.

Que coisa divertida! Cantando a altas vozes, o povo erguera o braço para esmagar a tirania revolucionária em prol da opressão reacionária dos príncipes; e isso tinha sido feito em nome da liberdade!

Aí o jovem ouvinte podia notar a diferença ou talvez a oposição existente entre a liberdade exterior e a interior. E ao mesmo tempo achava-se diante da escabrosa questão de saber que forma de servidão era mais ou (ah, ah!) menos compatível com a honra de uma nação.

Em última análise, a liberdade era um conceito do Romantismo antes do que da Época das Luzes, pois com aquele tinha em comum o entrelaçamento inextricável dos impulsos de expansão coletiva e do ensimesmamento apaixonadamente individualístico. A sede individualística de liberdade originara o culto histórico-romântico do nacional, culto esse que era belicoso e que o liberalismo humanitário tachava de sinistro, posto que ele mesmo nada fizesse senão pregar o individualismo, somente de maneira um pouco diversa. O individualismo era romântico-medieval na sua concepção da infinita, da cósmica importância do indivíduo; dela resultavam a doutrina da imortalidade da alma, a teoria geocêntrica e a astrologia. Por outro lado, era o individualismo um aspecto do humanismo de tendências liberalísticas, que inclinava para a anarquia e queria, em todo caso, proteger o querido indivíduo contra o destino de ser imolado à coletividade. Um e outro aspecto eram individualismo, e esse termo servia para muita coisa.

Mas devia-se admitir que o entusiasmo libertador tinha produzido os mais brilhantes adversários da liberdade, os mais engenhosos campeões do passado, no combate ao progresso impiamente destrutor. Naphta citou Arndt, que amaldiçoara o industrialismo e enaltecera a nobreza; mencionou também Görres, o autor da Mística cristã. A mística, acaso, nada tinha que ver com a liberdade? Não fora ela antiescolástica, antidogmática, anticlerical? Embora fosse forçoso considerar a hierarquia uma potência libertadora, desde que opusera um dique à monarquia absoluta... A mística da última fase da Idade Média pusera à prova o seu caráter liberal como precursora da Reforma. Sim, da Reforma (ah, ah!), que, por sua vez, havia sido um amálgama indissolúvel de liberdade e de reação medieval...

E a obra de Lutero? Ah, sim, esta obra tinha o mérito de patentear com a mais crua nitidez a natureza dúbia da própria ação, da ação em geral. Sabia o ouvinte de Naphta o que era uma ação? Uma ação fora, por exemplo, o assassínio do Conselheiro de Estado Kotzebue pelo estudante Sand. Que fora aquilo que, para empregar a linguagem da criminologia, pusera a arma na mão do jovem Sand? O amor à liberdade, naturalmente! Mas, diante de uma observação mais detida, manifestava-se que, em realidade, não tinha sido esse amor, senão o fanatismo moral e o ódio à estrangeirice frívola. Por outro lado estivera Kotzebue a serviço dos russos, isto é, a serviço da Santa Aliança, de maneira que Sand talvez, apesar de tudo, o tivesse apunhalado em prol da liberdade... O que, no entanto, também parecia improvável, em face da circunstância de haver jesuítas entre os seus amigos mais íntimos. Em suma, fosse o que fosse a ação, em todo caso era um meio pouco adequado para expressar-se com clareza e contribuía pouco para resolver os problemas espirituais.

– Posso me permitir a pergunta: quando o senhor tenciona terminar com essas indecências?

Quem perguntara assim era o Sr. Settembrini, e isso num tom muito veemente.

Mantivera-se quieto na sua cadeira, tamborilando na mesa e torcendo os bigodes. Mas aquilo lhe enchia as medidas. Sua paciência estava esgotada. Empertigava-se, numa posição mais do que ereta, com o rosto empalidecido. Era como se, apesar de sentado, se colocasse nas pontas dos pés, de modo que apenas as coxas tocavam o assento. Com os olhos brilhantes encarava o inimigo que acabava de voltar-se para ele com fingida surpresa.

– Como houve por bem o senhor expressar-se? – foi a pergunta com que Naphta protestou.

– Eu houve por bem... – disse o italiano, engolindo em seco – eu hei por bem declarar que estou decidido a impedir que o senhor continue a importunar a juventude indefesa com suas palavras equívocas!

– Convido o senhor a ponderar o que diz.

– Senhor, dispenso tal convite. Estou acostumado a ponderar o que digo, e a minha expressão corresponde exatamente às circunstâncias, quando afirmo que o seu jeito de perturbar o espírito da juventude já de per si vacilante, de seduzi-la e de debilitar-lhe a moral, é uma infâmia e que palavras não são suficientes para castigá-lo devidamente...

Ao pronunciar a palavra “infâmia”, Settembrini golpeou a mesa com a palma da mão. A seguir empurrou a cadeira para trás e levantou-se, dando dessa forma aos outros o sinal para imitá-lo. As pessoas que se achavam nas outras mesas observavam a cena com perplexidade; eram os holandeses, visto os suíços já terem partido.

Todos os componentes do nosso grupo encontravam-se, pois, de pé, em atitude tensa, Hans Castorp e os dois adversários, e em frente deles Ferge e Wehsal. Todos os cinco estavam pálidos, com os olhos arregalados e as bocas crispadas. Não poderiam os três desinteressados ter feito uma tentativa para intervir num sentido conciliador, afrouxando a tensão por meio de uma piada e arranjando tudo mediante um apelo humano? Não fizeram tal tentativa. O seu estado de espírito opunha-se a isso. Quedavam-se de pé, trêmulos, e, sem querer, suas mãos se fechavam.

O próprio A. K. Ferge, que declaradamente nada entendia de quaisquer coisas sublimes e de antemão renunciava a imaginar o alcance da querela – também ele estava convencido de que desta vez não havia lugar para transigências e que as pessoas que, elas mesmas fascinadas, presenciavam a contenda, nada podiam fazer senão deixar as coisas tomarem seu curso normal.

Seu bigode hirsuto e bonachão subia e descia em movimentos rápidos.

Reinava completo silêncio, de forma que se podia ouvir como Naphta rangia os dentes.

Isso representava para Hans Castorp uma experiência semelhante àquela dos cabelos eriçados de Wiedemann. Pensara ele que “ranger os dentes” fosse somente uma locução e não um fato que se pudesse produzir. Mas, nesse momento, o rangido ressoava realmente através do silêncio, um ruído bastante desagradável, selvagem e fantástico, que, no entanto, dava a prova de um formidável domínio de si próprio; pois, longe de gritar, o jesuíta disse em voz baixa, apenas com uma quase risada ofegante:

– Infâmia? Castigar? Será que os burros virtuosos se metem a dar coices? Levamos a polícia pedagógica da civilização a desembainhar a espada? Eis o que chamo um êxito, facilmente obtido, logo de início, como acrescento com desdém, visto que uma ironia leve foi suficiente para mobilizar a virtude vigilante! Quanto ao resto, senhor, virá a seu tempo. Inclusive o tal castigo, sim, senhor! Espero que os seus princípios sociais não o impeçam de saber o que me deve. Caso contrário, ver-me-ei forçado a pôr esses princípios à prova por meios que...

Um gesto terminante de Settembrini fez com que Naphta continuasse:

– Ah, já vejo que isso não será necessário. Eu estou no seu caminho, o senhor está no meu. Muito bem, liquidemos essa pequena diferença num lugar adequado. De momento só quero dizer uma coisa: o seu temor devoto pela ideologia escolástica da revolução jacobina vê um crime pedagógico na minha maneira de induzir a juventude a duvidar, de derrubar as categorias e de privar as idéias da dignidade acadêmica da virtude. Esse temor é por demais compreensível, pois a sua humanidade saiu de moda – tenha certeza disso – saiu de moda, acabou-se! Hoje em dia já não passa de um rabicho, uma sensaboria classicista, um ennui espiritual que faz bocejar, e que a nova revolução, a nossa, senhor, está a ponto de abolir. Quando, na nossa função de educadores, semeamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais imaginou o seu modesto espírito esclarecido, sabemos perfeitamente o que estamos fazendo. Unicamente do ceticismo radical, do caos moral nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Isso lhe digo para justificar-me e para instruí-lo. O resto pertence a um outro capítulo. O senhor terá notícias minhas.

– Estou ansioso por recebê-las, senhor! – gritou Settembrini por trás de Naphta, que, abandonando a mesa, se encaminhava ao cabide para apanhar o seu casaco de pele. A seguir, o maçom deixou-se cair pesadamente na cadeira e apertou o coração com ambas as mãos.

– Distruttore! Cane arrabiato! Bisogna ammazzarlo! – sibilou arfando.

Os outros continuavam de pé em torno da mesa. Os bigodes de Ferge prosseguiam subindo e descendo. Wehsal deixava pender obliquamente a mandíbula inferior. Hans Castorp arremedava o jeito do avô quando escorava o queixo no colarinho, porque sentia a nuca tremer.

Todos estavam pensando no inesperado desfecho da sua excursão. Todos, sem exceção do Sr.

Settembrini, pensavam também na circunstância feliz de terem alugado dois trenós em vez de um em comum, o que pelo menos facilitava o regresso. Mas que haveria depois?

– Ele provocou o senhor para um duelo – disse Hans Castorp com o coração angustiado.

– Com efeito – respondeu Settembrini, erguendo o olhar para o jovem que se achava de pé à sua frente. Mas logo o desviou dele e descansou a cabeça na mão.

– O senhor aceita? – quis Wehsal saber.

– Que pergunta! – retrucou Settembrini, lançando também a ele um rápido olhar. –

Senhores – continuou então, levantando-se completamente controlado –, lastimo que o nosso passeio tenha chegado a este fim, mas, na vida que vivemos, todo homem deve andar preparado para essa espécie de incidentes. Teoricamente desaprovo o duelo. Por índole sou obediente à lei...

Na prática, porém, o caso é diferente, e existem situações onde... existiam contrastes que... Numa palavra, estou à disposição desse cavalheiro. Ainda bem que na minha juventude pratiquei um pouco de esgrima. Algumas horas de treino hão de me devolver a agilidade do punho. Vamos embora! A respeito de tudo o mais a gente se porá de acordo. Acho que aquele senhor já terá dado ordem para atrelar.

Durante o regresso e mais tarde, Hans Castorp teve momentos em que se sentia tomado de vertigens diante da monstruosidade daquilo que tinham à sua frente; sobretudo quando se manifestou que Naphta não queria saber de floretes ou de sabres, senão insistia num duelo a pistola, e que realmente lhe cabia escolher as armas, já que, segundo os conceitos do código de honra, era ele o ofendido. Houve, pois, momentos em que o jovem conseguiu até certo ponto libertar-se daquele espírito que lavrava no ambiente, envolvendo e perturbando a todos. Dizia-se então que aquilo era rematada loucura e devia ser evitado.

– Se, pelo menos, houvesse uma ofensa real! – exclamou numa conversa com os senhores Settembrini e Ferge, e com Wehsal, a quem Naphta, já durante a viagem de volta, escolhera para padrinho e que servia de intermediário entre as partes. – Um insulto de caráter meramente convencional! Se o nome honrado de um fosse enxovalhado pelo outro, se se tratasse de uma mulher ou de qualquer outro ponto vital, de uma situação em que não se visse nenhuma outra possibilidade de compensação! Bem, num caso desses existe o duelo como último recurso.

Depois, quando se lavou a honra, quando tudo terminou sem grandes danos e se verifica que “os adversários se separaram reconciliados”, pode-se até opinar que se trata de uma boa instituição, de uma coisa salutar e prática em certos casos complicados. Mas que fez Naphta, afinal?

Absolutamente não quero defendê-lo. Pergunto apenas: que fez ele para ofender o senhor? Ele derrubou as categorias. Privou, segundo a sua própria expressão, as idéias da sua dignidade acadêmica. O senhor sentiu-se ofendido por isso. Com razão, vamos admiti-lo...

– Admiti-lo? – repetiu o Sr. Settembrini, encarando-o.

– Com razão, com razão! Ele ofendeu o senhor com isso. Mas não o insultou. Aí está a diferença, permita-me que o diga! Trata-se de coisas abstratas, espirituais. Com coisas espirituais pode-se ofender, mas não insultar uma pessoa. Esse é um axioma que todos os tribunais de honra aceitariam, posso lhe garantir. E pelo mesmo motivo não há tampouco um insulto naquela resposta do senhor, em que falou de “infâmia” e de “castigar devidamente”, já que também esses termos estavam sendo empregados em sentido espiritual. Tudo se mantinha na esfera espiritual e nada tinha que ver com a esfera pessoal. O espiritual nunca pode ser pessoal; este é o complemento e a interpretação do axioma, e por isso...

– O senhor está enganado, caro amigo – replicou o Sr. Settembrini com os olhos fechados. – Está enganado em primeiro lugar ao afirmar que o espiritual não pode assumir caráter pessoal. O senhor não deveria pensar assim – continuou com um sorriso singularmente frouxo e doloroso. – Antes de tudo, porém, equivoca-se na apreciação que faz do espírito em geral, que evidentemente considera demasiado fraco para provocar conflitos e paixões da mesma intensidade daqueles que acarreta a vida real e que não toleram outra solução que não a luta armada. All’ incontro! O elemento abstrato, purificado, ideal, é ao mesmo tempo o absoluto, é o que há de realmente rigoroso e encerra em si possibilidades muito mais profundas e mais radicais de ódio, de oposição irrestrita e irreconciliável, do que a vida social. Admira-se o senhor ao ver que o abstrato conduz, por caminhos mais diretos e mais inelutáveis do que esta, à situação em que se trata de “um de nós dois, tu ou eu”, a situação propriamente radical, a do duelo, da luta corporal? O duelo, meu amigo, não é uma “instituição” como qualquer outra. É um último recurso, é a volta ao estado primevo da natureza, apenas levemente suavizada por certo código cavalheiresco que não deixa de ser superficial. O característico dessa situação é o seu cunho totalmente primitivo, a luta corporal, e cabe a todo homem, por mais que se distancie da natureza, manter-se preparado para essa emergência. Ela pode ocorrer a qualquer instante. Quem não é capaz de arriscar a vida, o braço, o sangue na defesa de um ideal não é digno dele. Em que pese a nossa espiritualização, cumpre sermos homens.

Dessa forma, Hans Castorp recebera uma lição. Que se podia opor a isso? O jovem permaneceu calado, meditando com o coração opresso. As palavras do Sr. Settembrini fingiam ser calmas e lógicas, e todavia soavam estranhas, pouco naturais na sua boca. Esses pensamentos não eram seus, como tampouco fora ele quem tivera a idéia do duelo, senão a aceitara daquele terrorista que era o pequeno Naphta. Eram, sim, a expressão da mentalidade reinante em toda parte, e que se apossara também de Settembrini, reduzindo a sua bela inteligência ao papel de seu servo e instrumento. Mas como? O espírito, por ser rigoroso, deveria conduzir, inexoravelmente, à bestialidade, à solução encontrada por meio da luta corporal? Hans Castorp.revoltava-se contra essa concepção, ou melhor, tentava revoltar-se; e para maior espanto seu, verificava que também ele era incapaz de fazê-lo. Também no seu próprio íntimo, ela se mostrava forte, essa mentalidade, e ele tampouco era talhado para distanciar-se dela. Daquela zona das suas recordações onde Wiedemann e Sonnenschein, desnorteados, se revolviam numa contenda bestial, vinha-lhe uma inspiração tremenda, definitiva, e com horror percebia Hans Castorp que ao fim de todas as coisas não restavam outros meios a não ser os do corpo, as unhas e os dentes.

Sim, sim, parecia necessário bater-se, porquanto assim se podia garantir aquela suavização do estado primevo por meio do código cavalheiresco... E o jovem ofereceu ao Sr. Settembrini seus serviços como padrinho.

Sua oferta foi rejeitada. Não, isso não convinha; não podia ser, foi a resposta que recebeu, primeiramente do próprio Settembrini com um sorriso macio e doloroso, e, a seguir, após um momento de reflexão, também de Ferge e de Wehsal, sem que ninguém justificasse essa opinião.

Achavam impossível Hans Castorp assistir ao duelo nessa função. Talvez pudesse ele comparecer ao campo de luta como árbitro, pois a presença de uma pessoa com esse encargo estava prevista nas regras cavalheirescas, destinadas a suavizar a bestialidade. O próprio Naphta, pela boca de Wehsal, seu representante em assuntos de honra, manifestou-se nesse sentido, e Hans Castorp conformou-se com isso. Padrinho ou árbitro, fosse o que fosse, em todo caso teria uma oportunidade para exercer influência sobre as modalidades do combate, coisa que se manifestou sumamente necessária.

As propostas de Naphta ultrapassavam todos os limites. Exigiu ele cinco passos de distância e três trocas de balas, no caso de se tornar preciso. Na mesma noite do incidente mandou transmitir essa loucura por Wehsal, que se identificava por completo com a tarefa de ser porta-voz e representante dos caprichos selvagens do jesuíta e se aferrava a tais condições ora porque recebera ordem de agir assim, ora porque correspondiam ao seu próprio gosto.

Settembrini, naturalmente, nada tinha que objetar, mas Ferge, como seu padrinho, e Hans Castorp, o árbitro, mostraram-se indignados. Este chegou mesmo a ralhar com o desgraçado Wehsal. Não tinha vergonha – perguntou – de trazer à baila essas sugestões desumanas e antipáticas, embora se tratasse de um duelo puramente convencional, sem base em nenhum insulto real? A exigência das pistolas já era muito forte, mas esses pormenores sanguinários eram o cúmulo. Aí não se podia mais falar em espírito cavalheiresco. Por que não atirariam logo à queima-roupa? Para Wehsal era fácil manifestar tamanha sede de sangue, porque não seria contra ele que se daria um tiro de cinco metros de distância. E assim por diante. Wehsal encolheu os ombros, indicando pelo seu silêncio que se achavam numa situação radical, e desarmando dessa forma os seus oponentes, inclinados a esquecer esse fato. Mesmo assim conseguiram estes, no decorrer das negociações do dia seguinte, reduzir as três trocas de tiros a uma única e chegar a um acordo na questão da distância: os combatentes ficariam separados um do outro por quinze passos e teriam o direito de avançar cinco passos antes de atirar. Mas também essa concessão não

foi obtida senão pela promessa de que não se fariam tentativas de reconciliação. Descobriram então que nenhum deles possuía pistolas.

O Sr. Albin, porém, tinha. Além do pequeno e lustroso revólver, com o qual gostava de assustar as senhoras, dispunha ainda de um par de pistolas de oficial, fabricadas na Bélgica e guardadas num estojo comum. Eram Brownings automáticas com coronhas de madeira marrom, que continham os depósitos das balas, com um mecanismo de aço azulado e com canos polidos, sobre cujas bocas se achavam as miras. Em outra ocasião, Hans Castorp vira essas armas nas mãos do fanfarrão, e contra as suas próprias convicções, por puro senso de imparcialidade, ofereceu-se para pedi-las emprestado. E assim fez, não escondendo a finalidade em si, mas envolvendo-a naquele segredo peculiar aos casos de honra e invocando, com êxito fácil, a discrição cavalheiresca do rapaz. O Sr. Albin mesmo lhe ensinou como carregar as armas e disparou-as diversas vezes ao ar livre, a título de experiência.

Tudo isso requereu tempo, e assim sucedeu que até a data do encontro transcorreram dois dias e três noites. O lugar do duelo tinha sido proposto por Hans Castorp: era aquele sítio pitoresco, que no verão se cobria de flores azuis, e onde o jovem costumava retirar-se para

“reinar”. Era ali que; na terceira manhã após a desinteligência, se liquidaria a querela, logo que houvesse bastante luz. Somente na véspera, a altas horas da noite, Hans Castorp, que andava muito nervoso, teve a idéia de que era necessário levar um médico ao campo de luta.

Foi imediatamente deliberar com Ferge sobre esse problema cuja solução se apresentou bem difícil. Verdade era que Radamanto pertencera a um grêmio de estudantes que mantinha o código de duelo, mas parecia impossível pedir ao chefe do estabelecimento que desse o seu apoio a semelhante ato ilegal, tanto mais que se tratava de doentes. De modo geral, havia pouca esperança de encontrar em Davos um médico que se dispusesse a assistir a um duelo a pistola entre dois homens gravemente enfermos. No que se referia a Krokowski, não se sabia ao certo se esse espírito refinado tinha muita prática na medicação de ferimentos.

Wehsal, igualmente consultado, declarou que Naphta já se opusera à presença de um médico, alegando que não ia ao lugar do duelo para ser untado e pensado, mas para bater-se e fazê-lo seriamente. Pouco se lhe dava o que acontecesse depois. Isso ficaria para mais tarde.

Embora essas palavras parecessem sinistras, Hans Castorp esforçou-se por interpretá-las no sentido de que Naphta era intimamente de opinião que não haveria necessidade de um médico.

Não respondera também Settembrini, interpelado por Ferge, que achava melhor abandonar a idéia, uma vez que não lhe interessava? Não era totalmente insensato esperar que os adversários, no fundo do coração, tivessem ambos a intenção de não causar derramamento de sangue.

Haviam dormido duas noites desde aquela rixa, e tinham à sua frente uma terceira. O tempo aclara o ambiente e arrefece os ânimos. Não há exaltação que resista à corrente das horas, sem sofrer alterações. Amanhã de madrugada, com a arma na mão, nenhum dos dois brigões seria o mesmo homem que fora na tarde do incidente. Agiriam automaticamente, sob o ditame da honra, e não por viva e espontânea vontade, como teriam feito se tivessem agido na própria ocasião.

Deveria ser possível evitar que renegassem o seu espírito atual, a favor daquilo que pertencia ao passado.

Hans Castorp não se enganava nessas suas reflexões; quer dizer que não se enganava num sentido que jamais poderia ter imaginado. Tinha até perfeitamente razão no que tocava ao Sr.

Settembrini. Porém, se houvesse previsto em que sentido Leo Naphta no decorrer do tempo ou no próprio momento decisivo modificaria os seus desígnios, nem sequer a situação íntima em que tudo isso tinha a sua origem teria sido capaz de induzi-lo a admitir o que estava se preparando.

Às sete horas da manhã, o sol estava longe de surgir atrás da sua montanha, mas o dia raiava penosamente por entre as brumas, quando Hans Castorp, após uma noite inquieta, saía do Sanatório Berghof, a fim de se encaminhar ao lugar do encontro. As criadas que limpavam o vestíbulo olharam-no com surpresa. No entanto achou aberto o portão principal. Ferge e Wehsal, juntos ou separadamente, já o tinham transposto, um para guiar Settembrini e o outro para

acompanhar Naphta ao campo de combate. Hans Castorp ia sozinho, visto a sua função de árbitro não lhe permitir associar-se a nenhuma das partes.

Ia maquinalmente, sob a coação da honra, forçado pelas circunstâncias. Era natural e necessário que ele assistisse ao duelo. Seria impossível manter-se afastado a aguardar o resultado na cama, em primeiro lugar porque... Mas o jovem, ao invés de desenvolver o primeiro motivo, logo acrescentou o segundo: não se devia deixar que as coisas chegassem a seu termo. Por enquanto não acontecera nada de grave, graças a Deus, e não era inevitável, era até mesmo inverossímil que algo de grave acontecesse. Tiveram de se levantar à luz artificial e de sair, sem terem tomado café, para reunir-se ao ar livre, no frio cortante da madrugada, já que assim havia sido combinado. Mas Hans Castorp pensava que depois, sob o influxo da sua própria presença, tudo tomaria rumos mais favoráveis e menos tristes, não se podia antever de que modo, e que era melhor não querer adivinhar, porquanto a experiência ensinava que mesmo os mais simples dos acontecimentos sempre transcorriam de forma diferente à antecipada pela imaginação.

Continuar: parte 3 de 3