A nova razão do mundo
II A nova racionalidade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
não poderia funcionar sem essas virtudes da sociedade civil; é o Estado que
corrói as molas da moralidade individual. Como mostrou Albert O. Hirschman, o argumento não era novo: tratava-se de um dos três esquemas
fundamentais da “retórica reacionária”, o que ele chama de “efeito
perverso”. Buscar o bem da maioria por meio de políticas de proteção e
redistribuição resulta infalivelmente em fazer sua desgraça[38]. Essa foi a
tese amplamente difundida por Charles Murray em Losing Ground
[Perdendo terreno], obra lançada em plena era Reagan[39]. A luta generosa
contra a pobreza fracassou porque dissuadiu os pobres de tentar progredir, o
contrário do que fizeram várias gerações de imigrantes. Manter os
indivíduos em categorias desvalorizadas, fazê-los perder dignidade e
autoestima, homogeneizar a classe pobre são alguns dos efeitos não
desejados do auxílio social. Para Murray, existe apenas uma solução: a
supressão do welfare State e a recuperação da solidariedade entre parentes e
vizinhos, que obriga o indivíduo a assumir suas responsabilidades, a
recuperar certo status, certo orgulho, para manter a honra.
Uma das constantes do discurso neoliberal é a crítica da “dependência à
assistência” gerada pela cobertura generosa dos riscos concedida pelos
sistemas de assistência social. Os reformadores neoliberais não só se
serviram do argumento da eficácia e do custo, como também alegaram a
superioridade moral das soluções dadas ou inspiradas pelo mercado.
Essa crítica repousa sobre um postulado que diz respeito à relação do
indivíduo com o risco. O “Estado de bem-estar”, querendo promover o
bem-estar da população por meio de mecanismos de solidariedade, eximiu
os indivíduos de suas responsabilidades e dissuadiu-os de procurar trabalho,
estudar, cuidar de seus filhos, prevenir-se contra doenças causadas por
práticas nocivas. A solução, portanto, é pôr em ação, em todos os domínios
e em todos os níveis, sobretudo no nível microeconômico do
comportamento dos indivíduos, os mecanismos do cálculo econômico
individual. O que deveria ter dois efeitos: a moralização dos
comportamentos e uma maior eficiência dos sistemas sociais. Foi assim
que, nos anos 1970, nos Estados Unidos, o auxílio às famílias com filhos
dependentes (Aid to Families with Dependent Children) tornou-se o
símbolo dos efeitos nefastos do welfare State, por encorajar a dissolução
dos laços familiares, multiplicar as famílias assistidas e desestimular as
welfare mothers de trabalhar. O que será confirmado, no registro acadêmico, pela demonstração de Gary Becker em A Treatise on Family,
baseada no cálculo dos custos e das vantagens para as jovens mães em
permanecer solteiras[40]. O “Estado de bem-estar” tem o efeito perverso de
incitar os agentes econômicos a preferir o ócio ao trabalho. Essa
argumentação, repetida até fartar, associa a segurança dada aos indivíduos à
perda do senso de responsabilidade, ao abandono dos deveres familiares, à
perda do gosto pelo esforço e do amor ao trabalho. Em uma palavra, a
proteção social destrói valores sem os quais o capitalismo não poderia
funcionar [41].
O ensaísta norte-americano George Gilder, no best-seller Wealth and
Poverty, publicado no momento em que Reagan chegava ao poder, foi sem
dúvida quem insistiu com mais eloquência na relação entre valores e
capitalismo[42]. Para ele, o futuro repousa sobre a fé no capitalismo, tal
como é expressa por Walter Lippmann em The Good Society:
A fé no homem, no futuro, a fé no retorno cada vez maior do dom, a fé nas vantagens
mútuas do comércio, a fé na providência de Deus são fundamentais para o êxito do
capitalismo. Todas são necessárias para encorajar a paixão no trabalho e o espírito de
empresa contra todos os fracassos e as frustrações inevitáveis de um mundo perdido;
para inspirar a confiança e a solidariedade numa economia em que elas muitas vezes
serão traídas; para encorajar a renúncia aos prazeres imediatos em nome de um futuro
que corre o risco de virar fumaça; e, finalmente, para estimular o gosto pelo risco e
pela iniciativa num mundo em que os lucros evaporam quando os outros se recusam a
entrar no jogo.[43]
Se a riqueza repousa sobre essas virtudes, a pobreza é encorajada por
políticas duplamente dissuasivas em relação ao trabalho e à fortuna: “A
ajuda social e outras subvenções apenas prejudicam o trabalho. Os pobres
escolhem o ócio não por fraqueza moral, mas porque são pagos para
escolhê-lo” [44]. E tirar dos ricos para dar aos pobres por meio dos impostos
é dissuadir os ricos de enriquecer: “O imposto progressivo é o principal
perigo que ameaça esse sistema e desencoraja os ricos a arriscar seu
dinheiro”[45].
O remédio que se deve dar a essa situação é evidente: diminuir as
transferências de uns para os outros. A única guerra contra a pobreza que se sustenta é a volta aos valores tradicionais: “Trabalho, família e fé são os
únicos remédios para a pobreza”[46]. Esses três meios estão ligados, já que é
a família que transmite o sentido do esforço e a fé. Casamento
monogâmico, crença em Deus e espírito de empresa são os três pilares da
prosperidade, uma vez que nos livramos da ajuda social, que apenas destrói
a família, a coragem e o trabalho.
Milton Friedman e sua esposa, Rose, vão no mesmo sentido,
considerando que “a expansão do Estado ao longo das últimas décadas e o
crescimento da criminalidade no mesmo período constituem duas faces de
uma mesma evolução”[47]. Isso acontece porque a intervenção do Estado
repousa sobre uma concepção do indivíduo como “produto de seu meio,
logo, não podendo ser considerado responsável por seus atos”. É preciso
inverter essa representação e considerar o indivíduo plenamente
responsável. Responsabilizar o indivíduo é responsabilizar a família[48].
Esse será, entre outros, o objetivo da livre escolha da escola pelos pais e da
liberdade que terão de financiar em parte a escolaridade dos filhos. Se o
enriquecimento deve ser um valor supremo, é porque é visto como a razão
mais eficaz para incentivar os trabalhadores a aumentar o esforço e o
desempenho, da mesma forma que a propriedade privada da residência dos
trabalhadores ou da empresa é vista como condição para a responsabilidade
individual. Por isso, deve-se vender os conjuntos habitacionais para
favorecer uma “democracia de proprietários” e um “capitalismo popular”.
Da mesma forma, deve-se submeter a direção das empresas aos acionistas
por intermédio da privatização, porque eles serão exigentes com a gestão de
seu patrimônio. De modo mais geral, é preciso pôr o cliente na posição de
árbitro entre vários operadores para que pressione a empresa e seus agentes
a servi-lo melhor. A concorrência introduzida pelos consumidores é a
principal alavanca para a “responsabilização”, portanto, para o bom
desempenho dos assalariados nas empresas.
Um novo discurso de valorização do “risco” inerente à vida individual e
coletiva tenderá a fazer pensar que os dispositivos do Estado social são
profundamente nocivos à criatividade, à inovação, à realização pessoal. Se
o indivíduo é o único responsável por seu destino, a sociedade não lhe deve
nada; em compensação, ele deve mostrar constantemente seu valor para merecer as condições de sua existência. A vida é uma perpétua gestão de
riscos que exige rigorosa abstenção de práticas perigosas, autocontrole
permanente e regulação dos próprios comportamentos, misturando
ascetismo e flexibi lidade. A palavra-chave da sociedade de risco é
“autorregulação”. Essa “sociedade de risco” tornou-se uma daquelas
evidências que acompanham as mais variadas propostas de proteção e
seguro privados. Um imenso mercado de segurança pessoal, que vai do
alarme doméstico aos planos de aposentadoria, desenvolveu-se
proporcionalmente ao enfraquecimento dos dispositivos de seguros
coletivos obrigatórios, reforçando por um efeito de circuito-fechado o
sentimento de risco e a necessidade de se proteger individualmente. Por
uma espécie de ampliação dessa problemática do risco, algumas atividades
foram reinterpretadas como meios de proteção pessoal. É o caso, por
exemplo, da educação e da formação profissional, vistas como escudos que
protegem do desemprego e aumentam a “empregabilidade”.
Para compreender essa nova moral, devemos ter em mente a
“revolução” que os economistas norte-americanos pretenderam fazer a
partir dos anos 1960. A razão econômica aplicada a todas as esferas da ação
privada e pública permite eliminar as linhas de separação entre política,
sociedade e economia. Sendo global, deve estar na base de todas as
decisões individuais, permite a inteligibilidade de todos os comportamentos
e deve ser a única a estruturar e legitimar a ação do Estado [49].
É o que mostram os chamados “novos” economistas. Eles tentaram
estender o campo de análise da teoria padrão a novos objetos. Não se trata
aqui, como era o caso com os teóricos austro-americanos, de dar novas
bases à ciência econômica por uma teoria do empreendedorismo; para eles,
trata-se – e já é muito – de sair dos domínios tradicionais da análise
econômica para generalizar a análise de custo-benefício a todo o
comportamento humano. Obviamente, há muitas pontes entre essas
correntes, mas as lógicas são heterogêneas. O próprio Von Mises
ambicionava uma ciência total da escolha humana. Mas acreditava que
tinha de elaborá-la refundando os conceitos e os métodos da economia.
Tentava desse modo distinguir a ação humana em geral como criação de sistemas meios-fins (estudada pela praxeologia) e a economia monetária e
comercial específica (que é da ordem da catalaxia).
Os economistas norte-americanos adeptos da economia padrão querem
estabelecer que as ferramentas mais tradicionais de análise podem ser
amplamente estendidas em seus usos, mostrando desse modo que se pode
fazer a economia de uma revolução paradigmática e conservar as velhas
ferramentas do cálculo de maximização. A família, o casamento, a
delinquência, o desemprego, mas também a ação coletiva, a decisão política
e a legislação tornam-se objetos do raciocínio econômico. É assim que Gary
Becker formula uma nova teoria da família, considerando-a uma firma que
emprega certa quantidade de recursos em moeda e tempo para produzir
“bens” de diferentes naturezas: competências, saúde, autoestima e outras
“mercadorias”, como filhos, prestígio, cobiça, prazer sensorial etc.[50].
O fundamento da iniciativa de Becker consiste em estender a função de
utilidade empregada na análise econômica de modo que o indivíduo seja
considerado um produtor e não um simples consumidor. Ele produz
mercadorias que vão satisfazê-lo, utilizando bens e serviços comprados nos
mercados, tempo pessoal e outros “inputs” que possuem valor, preços
ocultos, mas calculáveis. Em resumo, trata-se de escolher entre diferentes
“funções de produção”, supondo que todo bem é “produzido” pelo
indivíduo, que por sua vez mobiliza recursos variados: dinheiro, tempo,
capital humano e até mesmo as relações sociais assimiladas a um “capital
social” [51]. O que coloca, evidentemente, o problema da identificação dos
“inputs”, mas também o da quantificação de todos os aspectos não
monetários que entram no cálculo e levam a uma decisão.
A questão principal, nesse reinvestimento das regiões externas do
campo classicamente delimitado da ciência econômica, é dar, ou melhor,
devolver consistência teórica à antropologia do homem neoliberal, não só,
como diz Becker, com a intenção de perseguir um objetivo científico
desinteressado, mas para fornecer apoios discursivos indispensáveis à
governamentalidade neoliberal da sociedade. Por mais influente que tenha
sido por si só essa concepção do homem como capital – o que é
propriamente o significado do conceito de “capital humano” –, ela não
conseguiu produzir as mutações subjetivas de massa que se podem constatar hoje. Para isso, foi necessário que ela tomasse corpo
materialmente pela instauração de dispositivos múltiplos, diversificados,
simultâneos ou sucessivos, que moldaram duradouramente a conduta dos
sujeitos.
Disciplina (1): um novo sistema de disciplinas
O próprio conceito de governamentalidade, como ação sobre as ações
de indivíduos supostamente livres em suas escolhas, permite redefinir a
disciplina como técnica de governo próprio das sociedades de mercado. O
termo disciplina poderá surpreender nesse caso. Ele implica, ao menos
aparentemente, certa inflexão com relação ao sentido que Foucault lhe dá
em Vigiar e punir[b], quando o aplica às técnicas de distribuição espacial,
classificação e adestramento dos corpos individuais. O modelo da disciplina
era, para ele, o panóptico benthamiano. Contudo, longe de opor
“disciplina”, “normalização” e “controle”, como defendem certas exegeses,
a reflexão de Foucault fez transparecer de modo cada vez mais nítido a
matriz dessa nova forma de “conduta das condutas”, que pode diversificar-
se, conforme o caso, desde o encarceramento dos prisioneiros até a
vigilância da qualidade dos produtos vendidos no mercado [52]. Se “governar
é estruturar o campo de ação eventual dos outros”, então a disciplina pode
ser redefinida, de forma mais ampla, como um conjunto de técnicas de
estruturação do campo de ação que variam conforme a situação em que se
encontra o indivíduo [53].
Desde a era clássica das disciplinas, portanto, o poder não pode exercer-
se por pura coerção sobre um corpo; ele deve acompanhar o desejo
individual e orientá-lo, pondo em ação aquilo que Bentham chama de
“influência”. O que pressupõe que ele penetre no cálculo individual – e até
participe dele – para agir sobre as antecipações imaginárias dos indivíduos:
para reforçar o desejo (pela recompensa), para enfraquecê-lo (pela punição),
para desviá-lo (pela substituição de objeto).
Essa lógica que consiste em dirigir indiretamente a conduta é o
horizonte das estratégias neoliberais de promoção da “liberdade de escolher”. Nem sempre distinguimos a dimensão normativa que
necessariamente lhes pertence: a “liberdade de escolher” identifica-se com a
obrigação de obedecer a uma conduta maximizadora dentro de um quadro
legal, institucional, regulamentar, arquitetural, relacional, que deve ser
construído para que o indivíduo escolha “com toda a liberdade” o que deve
obrigatoriamente escolher para seu próprio interesse. O segredo da arte do
poder, dizia Bentham, é agir de modo que o indivíduo busque seu interesse
como se fosse seu dever, e vice-versa.
Devemos distinguir três aspectos das disciplinas neoliberais. A
liberdade dos sujeitos econômicos pressupõe, em primeiro lugar, a
segurança dos contratos e o estabelecimento de um quadro estável. A
disciplina neoliberal conduz a estender o campo de ação que se deve
estabilizar mediante regras fixas. A constituição de um quadro não somente
legal, mas também orçamentário e monetário, deve impedir os sujeitos de
prever variações de política econômica, isto é, fazer dessas variações
objetos de antecipação. Isso significa que o cálculo individual deve poder
apoiar-se numa ordem de mercado estável, o que exclui fazer do próprio
quadro um objeto de cálculo.
A estratégia[54] neoliberal consistirá, então, em criar o maior número
possível de situações de mercado, isto é, organizar por diversos meios
(privatização, criação de concorrência dos serviços públicos,
“mercadorização” de escola e hospital, solvência pela dívida privada) a
“obrigação de escolher” para que os indivíduos aceitem a situação de
mercado tal como lhes é imposta como “realidade”, isto é, como única
“regra do jogo”, e assim incorporem a necessidade de realizar um cálculo
de interesse individual se não quiserem perder “no jogo” e, mais ainda, se
quiserem valorizar seu capital pessoal num universo em que a acumulação
parece ser a lei geral da vida.
Por fim, dispositivos de recompensas e punições, sistemas de estímulo e
“desestímulo” substituirão as sanções do mercado para guiar as escolhas e a
conduta dos indivíduos quando as situações mercantis ou quase mercantis
não são inteiramente realizáveis [55]. Serão construídos sistemas de controle
e avaliação de conduta cuja pontuação condicionará a obtenção das
recompensas e a evitação das punições. A expansão da tecnologia avaliativa como modo disciplinar repousa sobre o fato de que quanto mais livre para
escolher é supostamente o indivíduo calculador, mais ele deve ser vigiado e
avaliado para obstar seu oportunismo intrínseco e forçá-lo a conjuntar seu
interesse ao da organização que o emprega.
Friedman é um dos principais pensadores dessa nova forma de
disciplina. Falamos anteriormente do papel que ele teve na difusão de
massa dos ideais do livre mercado e da livre empresa. Muito mais
conhecido do público que Hayek e, sem dúvida, mais influente que ele nas
políticas norte-americanas, Friedman fez conjuntamente uma carreira
acadêmica – consagrada com um prêmio Nobel de Economia como figura
principal da Escola de Chicago e fundador do monetarismo – e uma carreira
de propagandista dos benefícios da liberdade econômica.
Friedman distinguiu-se fazendo do princípio monetarista o
correspondente, no plano estritamente econômico, das regras formais tais
como foram pensadas pelos neoliberais nos anos 1930. Esse princípio
particular pode ser enunciado da seguinte maneira: para coordenar suas
atividades no mercado, os agentes econômicos devem conhecer de antemão
as regras simples e estáveis que presidem suas trocas. O que é verdadeiro
em matéria jurídica deve ser verdadeiro a fortiori no plano das políticas
econômicas. Estas devem ser automáticas, estáveis e perfeitamente
conhecidas[56]. A moeda faz parte dessa estabilidade indispensável aos
agentes econômicos para que possam desenvolver suas atividades. Contudo,
estabelecer esse quadro estável significa que os agentes econômicos terão
de se adaptar a ele e modificar seu comportamento. O intervencionismo de
Friedman consiste em implantar coerções de mercado que forçam os
indivíduos a adaptar-se a ele. Em outras palavras, trata-se de pôr os
indivíduos em situações que os obriguem à “liberdade de escolher”, isto é, a
manifestar na prática sua capacidade de cálculo e governar a si próprios
como indivíduos “responsáveis”. Esse intervencionismo especial consiste
em abandonar um grande número de instrumentos antigos de gestão
(despesas orçamentárias ativas, política de renda, controle de preços e
câmbio) e ater-se a uns poucos indicadores-chave e a objetivos limitados,
como taxa de inflação, taxa de crescimento da massa monetária, déficit
orçamentário e endividamento do Estado, a fim de restringir os atores da economia a um sistema de coerções que os obriga a comportar-se como
exige o modelo.
Seguindo Friedman, cuja teoria monetária se fundamenta no princípio
da ineficácia das políticas monetárias ativas, economistas norte-americanos
desenvolveram nos anos 1970 a ideia de que as políticas de regulação
macroeconômicas somente perderiam eficácia em consequência dos
comportamentos de aprendizado dos agentes econômicos. A tentativa de
retomada da economia por uma diminuição das taxas de juros ou por um
incentivo orçamentário tem êxito cada vez menor à medida que é utilizada,
porque os agentes econômicos “aprendem” que essas medidas não têm os
efeitos reais proclamados. A “teoria das expectativas racionais” é um caso
particular da explicação pelos efeitos não desejados. As intenções políticas
são frustradas em seu resultado em razão da não consideração das
capacidades de cálculo sofisticado dos agentes, que, ao cabo de uma série
de experiências das consequências dessas políticas, não se deixam mais
enganar pelas ilusões da moeda abundante ou das diminuições de impostos.
Disso resulta que o governo não pode mais considerá-los seres passivos,
que reagem por reflexo aos stimuli monetários e orçamentários. De certo
modo, o cálculo maximizador incorpora as próprias políticas como um dos
parâmetros que devem ser levados em consideração. Essa “interiorização”
da política no cálculo individual permite repensarmos a forma como
evoluiu progressivamente o próprio neoliberalismo.
O monetarismo, tal como foi teorizado por Friedman, teve uma difusão
rápida, à altura da situação criada pelo colapso do sistema monetário
internacional após a guerra, através da implantação de taxas de câmbio
flutuantes e do papel dos capitais voláteis, que podiam ameaçar qualquer
divisa que não fosse gerida de acordo com as novas normas de disciplina
monetária. Esta última tornou-se, em suma, uma disciplina imposta pelos
mercados financeiros, como se viu na Grã-Bretanha em 1976, na França em
1991 e na Suécia em 1994. Assim, a luta contra a inflação constituiu a
prioridade das políticas governamentais, enquanto a taxa de desemprego
transformava-se em simples “variável de ajuste”. A luta pelo pleno emprego
tornou-se suspeita de ser um fator de inflação sem efeito duradouro. A teoria friedmaniana da “taxa de desemprego natural” foi amplamente aceita
por autoridades políticas de todas as cores.
O próprio orçamento tornou-se um instrumento de disciplina dos
comportamentos. A diminuição dos impostos sobre empresas e rendas mais
elevadas foi apresentada muitas vezes como um meio de reforçar o estímulo
ao enriquecimento e ao investimento. Na realidade, de forma muito mais
dissimulada, o objetivo da diminuição da pressão fiscal, assim como a
recusa de aumentar as cotizações sociais, foram meios – mais ou menos
eficazes, conforme a situação das relações de força – de impor reduções do
gasto público e dos programas sociais em nome do equilíbrio e da limitação
da dívida do Estado. O melhor exemplo dessa estratégia fiscal é, sem
dúvida, o de Ronald Reagan, que em 1985 aprovou uma lei que exigia a
redução automática dos gastos públicos até o restabelecimento do equilíbrio
orçamentário em 1995 (Balanced Budget and Deficit Reduction Act), logo
depois de ter criado um déficit considerável. Conseguindo que se
esquecesse que a diminuição dos descontos obrigatórios de uns acarretava
necessariamente uma contrapartida para os outros, os governos neoliberais
instrumentalizaram os “buracos” criados nos orçamentos para demonstrar o
custo “exorbitante” e “intolerável” da proteção social e dos serviços
públicos. Por um encadeamento mais ou menos intencional, o racionamento
que se impôs aos programas sociais e aos serviços públicos, degradando o
atendimento, gerou frequentemente o descontentamento dos usuários e a
adesão ao menos parcial destes às críticas de ineficácia que se dirigiam
contra aqueles [57].
Essa dupla restrição monetária e orçamentária foi utilizada como uma
disciplina social e política “macroeconômica” que supostamente dissuadia –
pela inflexibilidade das regras estabelecidas – qualquer política que
procurasse priorizar o emprego, quisesse atender às reivindicações salariais
ou visasse à retomada da economia por intermédio do gasto público. É
como se, por essas regras, o Estado se impusesse interdições definitivas
com respeito ao uso de certas alavancas de ação sobre o nível de atividade,
mas ao mesmo tempo, constrangendo os agentes a interiorizá-las, desse a si
próprio os meios de agir permanentemente sobre eles através de uma
“corrente invisível” (para empregarmos a expressão de Bentham) que os obrigava a comportar-se como indivíduos em competição uns com os
outros.
Se era difícil convencer as populações de que deviam aceitar uma
cobertura social menor sobre doenças e velhice, na medida em que se trata
de “riscos universais”, era mais fácil culpar os desempregados e pôr em
funcionamento um princípio de divisão entre os trabalhadores bons e sérios,
que eram bem-sucedidos, e todos aqueles que fracassavam por sua própria
culpa, que não conseguiam “dar a volta por cima” e, além do mais, viviam
nas costas da coletividade. O thatcherismo explorou largamente o script da
culpa individual, desenvolvendo a ideia de que a sociedade não deveria
nunca mais ser considerada responsável pela sorte dos indivíduos.
Um dos principais argumentos das políticas neoliberais consistiu em
denunciar a excessiva rigidez do mercado de trabalho. A ideia-diretriz,
nesse caso, é a da contradição que existiria entre a proteção da qual
desfrutaria a mão de obra e a eficiência econômica. Essa ideia não é nova.
Jacques Rueff, já nos anos 1920, criticava o dole [58] britânico como a
principal causa do desemprego do lado de lá do canal da Mancha. O que é
novidade é a concepção disciplinar de encargo dos desempregados. De fato,
não se trata de suprimir pura e simplesmente toda assistência aos
desempregados, mas de fazer com que essa ajuda leve a uma maior
docilidade por parte dos trabalhadores privados de emprego. Trata-se de
fazer do mercado de emprego um mercado muito mais conforme com o
modelo de pura concorrência, não simplesmente por preocupação
dogmática, mas para disciplinar melhor a mão de obra, ordenando-a pelos
imperativos de recuperação da rentabilidade. Trata-se de recuperar, sob uma
nova forma, uma política que visa a penalizar o trabalhador sem emprego
para que, de alguma maneira, ele seja levado a encontrar o mais rápido
possível um novo trabalho porque não pode arranjar-se muito tempo com o
auxílio que recebe. Lembramos que, em outras épocas, a reforma da
assistência social na Inglaterra perseguiu objetivos semelhantes. A Lei dos
Pobres de 1834, promulgada por instigação de Nassau Senior e Edwin
Chadwick, seguindo o espírito da economia clássica e do princípio de
utilidade, traduziu-se na imposição de um regime de trabalho quase penitenciário aos residentes das workhouses, algo verdadeiramente
repugnante para os que zelavam por sua liberdade e sua dignidade.
Esse é o espírito das políticas de “welfare to work” (“passar da ajuda
social para o trabalho”), que também são construídas sobre o postulado da
escolha racional. No terreno da política de emprego, a disciplina neoliberal
consistiu em “responsabilizar” os desempregados utilizando a arma da
punição contra aqueles que não aceitavam dobrar-se às regras do mercado.
O desemprego traduzia uma preferência do agente econômico pelo ócio
quando este é subvencionado pela coletividade, portanto, o ócio seria
“voluntário”. Querer reduzi-lo por meio de políticas de reflação é inútil, e
até nefasto, segundo a doutrina da taxa de desemprego natural. A
indenização dos desempregados equivale a criar “armadilhas de
desemprego”. A primeira tarefa prática foi atacar tudo que pudesse
contribuir para que essa suposta rigidez fosse a causa do desemprego. A
segunda visava a construir um sistema de “volta ao emprego” muito mais
restritivo para os assalariados sem emprego.
Os sindicatos e a legislação trabalhista foram os primeiros alvos dos
governos que adotaram o neoliberalismo. A dessindicalização na maioria
dos países capitalistas desenvolvidos teve causas objetivas, sem dúvida,
como a desindustrialização e a deslocalização de fábricas em regiões e
países com baixos salários, sem tradição de lutas sociais ou submetidos a
um regime despótico. Mas foi resultado também de uma vontade política de
enfraquecimento da força sindical que, nos Estados Unidos e na Grã-
Bretanha em especial, traduziu-se por uma série de medidas e dispositivos
legislativos que limitaram o poder de intervenção e mobilização dos
sindicatos[59]. Consequentemente, a legislação social mudou de forma
muito mais favorável aos empregadores: revisão dos salários para baixo,
supressão da indexação da remuneração pelo custo de vida, maior
precarização dos empregos[60]. A orientação geral dessas políticas reside no
desmantelamento dos sistemas que protegiam os assalariados contra as
variações cíclicas da atividade econômica e sua substituição por novas
normas de flexibilidade, o que permite que os empregadores ajustem de
forma ótima suas necessidades de mão de obra ao nível de atividade, ao
mesmo tempo que reduz ao máximo o custo da força de trabalho.
Essas políticas visam também a “ativar” o mercado de trabalho
modificando o comportamento dos desempregados. O “buscador de
emprego” deve tornar-se ator de sua empregabilidade, um ser self-
entreprising, que se encarrega de si mesmo. Os direitos à proteção social
são cada vez mais subordinados aos dispositivos de estímulo e punição que
obedecem a uma interpretação econômica do comportamento dos
indivíduos[61].
Essas medidas de “responsabilização” dos “buscadores de emprego”
não são exclusividade dos governos conservadores. Elas encontraram
alguns de seus melhores defensores na esquerda europeia, como tende a
comprovar a “corajosa” Agenda 2010 do chanceler alemão Gerhard
Schröder, que condiciona rigorosamente a ajuda que o Estado concede aos
que procuram emprego à docilidade destes em aceitar o emprego que lhes é
proposto, assim como ao nível de renda e aos bens da família:
Todo beneficiário do dinheiro dos contribuintes deve estar disposto a limitar tanto
quanto possível o encargo que ele representa para a coletividade, o que significa que
todas as rendas e os bens próprios devem ser os primeiros a ser utilizados para prover
suas necessidades elementares. [62]
Como vemos, essa política disciplinar põe radicalmente em questão os
princípios de solidariedade às eventuais vítimas dos riscos econômicos.
Disciplina (2): a obrigação de escolher
Não há um único domínio em que a concorrência não seja enaltecida
como meio de aumentar a satisfação do cliente, graças ao estímulo que dá
aos produtores. A “liberdade de escolha” é um tema fundamental das novas
normas de conduta dos sujeitos. Parece que é impossível conceber um
sujeito que não seja ativo, calculista, à espreita das melhores oportunidades.
Esquecendo todos os limites de seus benefícios, mostrados pela teoria
econômica há pelo menos um século (diferenciação dos produtos,
monopólio natural etc.), a nova doxa reconhece apenas a pressão que o
consumidor é capaz de exercer sobre o fornecedor de bens e serviços. Em resumo, trata-se de construir novas exigências que ponham os indivíduos
em situações em que são obrigados a escolher entre ofertas alternativas e
incitados a maximizar seus próprios interesses.
A “liberdade de escolher”, que para Friedman resume todas as
qualidades que se tem o direito de esperar do capitalismo concorrencial, é
uma das principais missões do Estado. É tarefa sua não apenas reforçar a
concorrência nos mercados existentes, mas também criar concorrência onde
ela ainda não existe. Isso porque o capitalismo é o único sistema capaz de
proteger a liberdade individual em todos os domínios, em particular no
político. Trata-se, portanto, de introduzir dispositivos de mercado e
estímulos mercantis, ou quase mercantis, para conseguir que os indivíduos
se tornem ativos, empreendedores, “protagonistas de suas escolhas”,
“arrojados”.
Sem dúvida, deveríamos lembrar aqui que certo ethos da escolha
supostamente livre encontra-se no centro das mensagens publicitárias e das
estratégias de marketing, e essa disposição adquirida aos poucos foi
facilitada pelos desenvolvimentos tecnológicos que ampliaram a gama de
produtos e canais de difusão da mass media. O consumidor deve tornar-se
previdente. Como vimos anteriormente, ele deve munir-se individualmente
de todas as garantias (cobertura de seguros privados, casa própria,
conservação de sua empregabilidade). Deve escolher racionalmente, em
todos os domínios, os melhores produtos e, cada vez mais, os melhores
prestadores de serviços (o modo de entrega de seu correio, o fornecedor de
sua eletricidade etc.). E, como cada empresa amplia a gama dos produtos
que fornece, o sujeito deve “escolher” de forma cada vez mais sutil a oferta
comercial mais vantajosa (por exemplo, a hora e a data da viagem de avião
ou trem, o produto de seguro ou poupança etc.). Essa “privatização” da vida
social não se limita ao consumo privado e ao lazer de massa. O espaço
público é construído cada vez mais pelo modelo do “global shopping
center”, segundo a expressão empregada por Drucker para designar o
universo em que vivemos hoje.
Um dos casos exemplares da construção de situação de mercado pela
qual os neoliberais se mobilizaram muito no terreno político é o da
educação. Também nesse domínio, Friedman foi pioneiro. Diante da degradação do setor público educacional nos Estados Unidos, ele propôs
nos anos 1950 a implantação de um sistema de concorrência entre os
estabelecimentos escolares baseado no “cheque-educação”[63]. O sistema
consiste em deixar de financiar diretamente as escolas e dar a cada família
um “cheque” representando o custo médio da escolaridade; a família é livre
para utilizá-lo na escola de sua escolha e ainda acrescentar a quantia que
quiser, de acordo com suas prioridades em matéria de escolarização. Mais
uma vez, o raciocínio baseia-se no comportamento supostamente racional
do consumidor, que deve poder arbitrar entre várias possibilidades e
escolher a melhor oportunidade. Na realidade, o sistema de “cheques-
educação” tem dois objetivos associados: pretende transformar as famílias
em “consumidoras de escola” e visa a introduzir a concorrência entre os
estabelecimentos escolares, o que elevará o nível dos mais medíocres. Esse
sistema combina um financiamento público, considerado legítimo para a
“educação primária” por seus efeitos positivos em toda a sociedade, e uma
administração de tipo empresarial do estabelecimento escolar, posto em
situação de competição com os outros. Essa orientação a favor de um
“mercado escolar” dominou as políticas de reforma escolar no mundo a
partir dos anos 1990, em graus diferentes conforme o país. Isso não deixou
de ter consequências para a fragmentação dos sistemas educacionais e a
diferenciação dos locais e dos modos de escolaridade, de acordo com as
classes sociais.
Disciplina (3): a gestão neoliberal da empresa
A disciplina neoliberal não se limita a essa maneira “negativa” de
orientar as condutas por regras imutáveis no plano “macroeconômico” que
os agentes racionais devem incorporar em seu próprio cálculo. Também não
se reduz à instauração de situações de concorrência que obrigam o
indivíduo a escolher muito além da esfera do consumo de bens e serviços
comerciais. A extensão e a intensificação das lógicas de mercado tiveram
efeitos muito patentes na organização do trabalho e nas formas de emprego
da força de trabalho. O que a lógica do poder financeiro fez foi apenas acentuar o disciplinamento dos assalariados submetidos a uma exigência de
resultados cada vez maior [64]. A busca obsessiva de mais-valor na bolsa
implicou não apenas a garantia aos proprietários do capital de um
crescimento contínuo de seus rendimentos, à custa dos assalariados – o que
ocasionou uma maior divergência entre a evolução dos salários e a evolução
dos ganhos de produtividade e, como dissemos, uma acentuação ainda mais
marcada das desigualdades na distribuição de renda[65] –, como também e,
sobretudo, traduziu-se pela imposição de normas de rentabilidade mais
elevadas em todas as economias, em todos os setores e em todos os escalões
da empresa. Assim, cada vez mais assalariados foram submetidos a
sistemas de estímulo e punição que visavam a atingir ou a superar os
objetivos de criação de valor acionário, objetivos que eram eles próprios
definidos por métodos de ajuste a partir das normas internacionais de
rentabilidade. Assim, toda uma disciplina do valor acionário tomou forma
em técnicas contábeis e avaliativas de gestão da mão de obra cujo princípio
consiste em fazer de cada assalariado uma espécie de “centro de lucro”
individual. É que o princípio da gestão neoliberal – que certos autores
chamam de “autonomia controlada”, “coerção flexível”, “autocontrole” –
visa a “interiorizar” as coerções da rentabilidade financeira na própria
empresa e, ao mesmo tempo, fazer os assalariados interiorizarem as novas
normas de eficiência produtiva e desempenho individual.
Fazer com que os indivíduos ajam no sentido desejado supõe que se
criem as condições particulares que os obrigam a trabalhar e se comportar
como agentes racionais. A alavanca do desemprego e da precariedade foi,
sem dúvida, um meio poderoso de disciplina, em particular em matéria de
taxas de sindicalização e reivindicação salarial. Mas essa alavanca
“negativa”, cujo motor é o medo, sem dúvida estava longe de ser suficiente
para a reorganização das empresas. Outros instrumentos de gestão foram
necessários para reforçar a pressão da hierarquia sobre os assalariados e
aumentar seu comprometimento. Assim, a gestão das empresas privadas
desenvolveu práticas de gestão de mão de obra cujo princípio é a
individualização de objetivos e recompensas com base em avaliações
quantitativas repetidas. Essa orientação, com frequência identificada com o
questionamento do modelo burocrático tal como seu tipo ideal foi esboçado por Max Weber, também consistiu em inverter o sentido da obediência. Em
vez de obedecer aos procedimentos formais e às ordens hierárquicas vindas
de cima, os assalariados foram levados a curvar-se às exigências de prazo e
qualidade impostas pelo “cliente”, alçado a fonte exclusiva de restrições
inelutáveis. Em todo caso, a individualização do desempenho e das
gratificações permitiu que a concorrência entre os assalariados fosse dada
como um tipo normal de relação dentro da empresa. É como se o mundo do
trabalho tivesse “interiorizado” a lógica da competição exacerbada que
existe ou deveria existir entre as empresas, assim como a lógica
concorrencial para captar e manter o capital dos acionistas que leva à
“criação de valor” em benefício deles. Isso pôs sob pressão mais direta dos
mercados um número maior de assalariados, não apenas executivos, mas
também operários e funcionários de escritório. Isso não resultou numa
diminuição dos controles hierárquicos, mas na modificação progressiva
desses controles no contexto de uma “nova gestão” que pôde apoiar-se em
modos de organização, novas tecnologias de contabilidade, registro,
comunicação etc. [66].
Essa “nova gestão” tomou formas muito diversas, como o
desenvolvimento da contratualização das relações sociais, a
descentralização das negociações entre assalariados e patronato no plano da
empresa, a concorrência das unidades da empresa entre si ou com unidades
externas, a normalização pela imposição generalizada de padrões de
qualidade e o crescimento da avaliação individualizada dos resultados [67].
As fronteiras entre o dentro e o fora da empresa tornaram-se mais vagas
com o desenvolvimento da subcontratação, da autonomização das entidades
dentro da empresa, do recurso ao emprego temporário, das estruturas de
projetos, do trabalho dividido em “missões” e do apelo a consultores
externos.
Essas novas formas de organização do trabalho e da gestão permitem
definir um novo modelo de empresa que Thomas Coutrot chama de
“empresa neoliberal”[68]. A maior autonomia das equipes ou indivíduos, a
polivalência, a mobilidade entre “grupos de projeto” e unidades
descentralizadas traduzem-se por um enfraquecimento e uma instabilidade
dos coletivos de trabalho. As novas formas de disciplina da empresa neoliberal são exercidas a uma maior distância, de maneira indireta, antes
ou depois da ação produtiva. O controle é feito por registro de resultados,
por rastreabilidade dos diferentes momentos da produção, por uma
vigilância mais difusa dos comportamentos, das maneiras de ser, dos modos
de relacionamento com os outros, em especial em todos os locais de
produção de serviços que tenham contato com a clientela e em todas as
organizações em que a operação do trabalho pressupõe cooperação e troca
de informações. Essa gestão mais “personalizada” e mais difusa joga com a
concorrência entre assalariados e entre segmentos da empresa para
constrangê-los, mediante uma comparação de métodos e resultados
(benchmarking)[69], a alinhar-se aos desempenhos máximos e às “melhores
práticas” num processo sem fim. A concorrência torna-se, assim, um modo
de interiorização das exigências de rentabilidade do capital que permite o
afrouxamento das linhas hierárquicas e dos controles permanentes
realizados pelo pessoal intermediário, introduzindo uma pressão disciplinar
ilimitada.
A terceirização de certas atividades e a descentralização em unidades
mais autônomas aumentam a necessidade de avaliação para coordenar as
atividades. A avaliação torna-se a chave da nova organização, o que acaba
por cristalizar tensões de todos os tipos, ainda que seja a que diz respeito à
contradição entre a injunção à criatividade e à tomada de riscos e o
julgamento social que surja como lembrete das relações efetivas de poder
dentro da empresa.
Esse novo modo de organização da empresa teve consequências
importantes para o trabalho e o emprego. Traduziu-se em intensificação do
trabalho, diminuição dos prazos e individualização dos salários. Esse último
método, vinculando remuneração a desempenho e competência, ampliou o
poder da hierarquia e reduziu todas as formas coletivas de solidariedade.
Mas é coextensivo a uma nova prática de governo dos assalariados baseada
no “autocontrole”, que é pretensamente muito mais eficaz do que a coerção
externa. Essa “filosofia da gestão” foi formulada por Peter Drucker. Ele
explica que, na nova economia do saber, não se trata mais de gerir
estruturas, mas, sim, de “guiar” pessoas que têm saberes para que produzam
o máximo possível. Gestão por metas, avaliação de desempenhos e autocontrole dos resultados são os métodos empregados por essa gestão dos
indivíduos:
A principal vantagem da gestão por metas é que ela permite aos executivos medir seu
próprio desempenho. O autocontrole reforça a motivação, o desejo de fazer melhor, de
não se encostar. [...] Embora não seja indispensável para dar unidade de rumo e
esforço à equipe dirigente, a gestão por metas é indispensável para permitir o
autocontrole.[70]
Esse autocontrole também é econômico, porque permite a redução da
pirâmide hierárquica, e mais eficaz, na medida em que o trabalho não
depende mais de uma necessidade externa, mas de uma coerção interna:
Ele substitui o controle feito de fora pelo controle feito de dentro, muito mais estrito,
exigente e eficaz. Leva o executivo a agir não porque alguém lhe disse o que era
preciso fazer, ou o obrigou a fazê-lo, mas porque as necessidades objetivas de sua
tarefa assim o exigem. Esse homem agirá não porque outro quis desse modo, mas
porque ele próprio decidiu que deveria fazê-lo – em outras palavras, ele agirá como
um homem livre. [71]
Essa “filosofia da liberdade”, que tem aplicação universal, “assegura o
desempenho, transformando necessidades objetivas em objetivos pessoais.
Essa é a própria definição da liberdade – a liberdade no quadro da lei”[72].
Assim, o gestor tenta captar as energias individuais, não de acordo com uma
lógica “artista” ou “hedonista”, mas segundo um regime de autodisciplina
que manipula as instâncias psíquicas de desejo e culpa. Trata-se de
mobilizar a aspiração à “realização pessoal” a serviço da empresa,
transferindo exclusivamente para o indivíduo, contudo, a responsabilidade
pelo cumprimento dos objetivos. O que, evidentemente, tem um alto custo
psíquico para os indivíduos[73].
Esse autogoverno não é obtido espontaneamente por simples efeito de
um discurso sedutor de gestão que manipula a aspiração de cada indivíduo à
autonomia. Esse controle da subjetividade somente é operado de maneira
eficaz dentro de um contexto de mercado de trabalho flexível, em que a
ameaça de desemprego está no horizonte de todo assalariado. Ele também é resultado de técnicas de gestão que tentaram objetivar as exigências de
mercado e de rentabilidade financeira na forma de indicadores numéricos
de metas e resultados e, mediante a individualização dos desempenhos
medidos e discutidos em entrevistas pessoais, fazer com que os assalariados
interiorizem a necessidade vital para eles de melhorar continuamente sua
“empregabilidade”. O cúmulo do autocontrole, que também mostra o
mecanismo perverso que transforma cada um em “instrumento de si
mesmo”, ocorre quando o assalariado é convidado a definir não somente as
metas que ele deve atingir, mas também os critérios pelos quais ele quer ser
julgado.
Racionalidade (1): a prática dos especialistas e
dos administradores
Não se trata mais, como no “welfarismo”, de redistribuir bens de acordo
com certo regime de direitos universais à vida, isto é, à saúde, à educação, à
integração social e à participação política, mas de apelar à capacidade de
cálculo dos sujeitos para fazer escolhas e alcançar resultados estabelecidos
como condições de acesso a certo bem-estar. O que pressupõe que os
sujeitos, para “ser responsáveis”, disponham dos elementos desse cálculo,
dos indicadores comparativos, da tradução contábil de suas ações, ou ainda,
mais radicalmente, da monetarização de suas “escolhas”: deve-se
“responsabilizar” os doentes, os estudantes e suas famílias, os
universitários, os que estão à procura de emprego, fazendo-os arcar com
uma parte crescente do “custo” que eles representam, exatamente do mesmo
modo como se deve “responsabilizar” os assalariados individualizando as
recompensas e as punições ligadas a seus resultados.
Esse trabalho político e ético de responsabilização está associado a
numerosas formas de “privatização” da conduta, já que a vida se apresenta
somente como resultado de escolhas individuais. O obeso, o delinquente ou
o mau aluno são responsáveis por sua sorte. A doença, o desemprego, a
pobreza, o fracasso escolar e a exclusão são vistos como consequência de
cálculos errados. A problemática da saúde, da educação, do emprego e da velhice confluem numa visão contábil do capital que cada indivíduo
acumularia e geraria ao longo da vida. As dificuldades da existência, a
desgraça, a doença e a miséria são fracassos dessa gestão, por falta de
previsão, prudência, seguro contra riscos [74]. Daí o trabalho “pedagógico”
que se deve fazer para que cada indivíduo se considere detentor de um
“capital humano” que ele deve fazer frutificar, daí a instauração de
dispositivos que são destinados a “ativar” os indivíduos, obrigando-os a
cuidar de si mesmos, educar-se, encontrar um emprego.
É importante, sob esse aspecto, não confundir a ideologia triunfante da
nova direita e a racionalidade governamental que a sustenta. A grande
ofensiva ideológica contra a intervenção do Estado não precedeu apenas as
reorientações práticas, ela as acompanhou. E o mais importante na virada
neoliberal não foi tanto a “retirada do Estado”, mas a modificação de suas
modalidades de intervenção em nome da “racionalização” e da
“modernização” das empresas e da administração pública. Desse ponto de
vista, talvez não tenham sido tanto os intelectuais midiáticos e os jornalistas
convertidos que tiveram o papel mais importante, mas os especialistas e os
administradores públicos dóceis, que, nos diferentes campos em que
deveriam intervir, instauraram os novos dispositivos e modos de gestão
próprios do neoliberalismo, apresentando-os como técnicas políticas novas,
guiadas unicamente pela busca de resultados benéficos para todos. Esses