A nova razão do mundo
8 O governo empresarial
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“regulador” é aquele que mantém com empresas, associações ou agências
públicas que possuam certa autonomia de gestão relações contratuais para a
realização de determinados objetivos[27].
O conservadorismo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos mudou de
face e quis aparecer como uma “revolução” ou um “rompimento” com o
passado em nome dos valores da modernidade. A nova direita fez questão
de se apresentar como uma força anticonservadora e “antissistema”,
detentora do monopólio da mudança e da reforma, aproveitando-se
sistematicamente do descontentamento das frações populares por meio de
um populismo antielite e antiestado, em geral com matizes xenofóbicos.
Uma das constantes da retórica da nova direita consistiu em mobilizar a
opinião pública contra os “desperdícios”, os “abusos” e os “privilégios” de
todos os parasitas que povoam a burocracia e vivem à custa da população
honesta e trabalhadora. O gerencialismo tornou-se, assim, a “face aceitável
do pensamento da nova direita sobre o Estado”, como observa Christopher
Pollitt. Apresentando essa reforma como uma operação cirúrgica,
ideologicamente neutra, benéfica a todos, a nova direita recebeu apoio
muito além do campo conservador e impregnou-se largamente nas
representações da esquerda moderna, que, exagerando a “modernidade” da
qual desejava ser a legítima encarnação, quis mostrar que o neoliberalismo
de esquerda não era menos “audacioso” que o de direita. O aspecto
“técnico” e “tático” da nova gestão pública permitiu ocultar o fato de que o
essencial era introduzir as disciplinas e as categorias do setor privado,
intensificar o controle político em todo o setor público, reduzir tanto quanto
possível o orçamento, suprimir o maior número possível de agentes
públicos, reduzir a autonomia profissional de algumas profissões (médicos,
professores, psicólogos etc.) e enfraquecer os sindicatos do setor público –
em resumo, fazer na prática a reestruturação neoliberal do Estado [28].
A hipótese do ator egoísta e racional
A reestruturação da ação pública repousa sobre o postulado de que os
funcionários públicos, assim como os usuários dos serviços públicos, são
agentes econômicos que respondem apenas à lógica do interesse pessoal.
Aumentar a eficácia da ação pública consistirá em fazer valer as imposições
e os incentivos que orientarão a maneira como os indivíduos vão se conduzir, fazendo com que as decisões que serão conduzidos a tomar
aliviem os custos e maximizem os resultados. A corrente do Public Choice,
já mencionada, teve um papel pioneiro nesse tipo de metodologia quando
aventou a hipótese de que nada provaria a priori que as escolhas dos
eleitores e as decisões dos funcionários públicos resultariam em medidas
ótimas para a população. Por sua vez, um grande número de trabalhos
produzidos por economistas da Escola de Chicago procurou mostrar que os
programas sociais e as regulamentações estavam longe de alcançar os
resultados esperados por seus promotores, em especial em razão de efeitos
perversos ou custos ocultos que não haviam sido levados em consideração
em suas decisões.
Essas pesquisas iam ao encontro dos primeiros passos da avaliação
quantitativa das decisões públicas dados por Bentham em Teoria das penas
e das recompensas. Assim como as análises benthamianas, elas repousavam
sobre a ideia de que todos os agentes envolvidos (beneficiários, pagantes,
funcionários públicos) perseguiam interesses específicos e adotavam uma
conduta racional para satisfazê-los, como qualquer empresa ou consumidor
em ação no mercado [29]. Além disso, fundamentando sua análise na lógica
do cálculo individual, essas mesmas pesquisas pretendiam mostrar que
alguns “conseguem mais por seu dinheiro” do que outros. Assim, uma
literatura abundante, visando a deslegitimar o Estado de bem-estar e as
políticas redistributivas, dedicou-se a mostrar que esses dispositivos
tendiam a ter efeitos contrários à igualdade que se desejava obter.
De modo geral, a aplicação do cálculo de custo-benefício tende a
mostrar que o “consumidor” paga sempre mais caro por um bem público do
que por um bem privado e que também paga mais caro por um bem privado
cuja produção é regulamentada do que por um bem privado cuja produção
não é regulamentada. Para além dessa vontade demonstrativa, porém, esse
tipo de análise da “produção política” é importante pelo tipo de concepção
do Estado que supõe. Este último diz respeito à análise econômica comum
somente na medida em que é concebido a priori como um agente tal qual
outro qualquer dentro do sistema econômico, um agente que busca seus
próprios objetivos e deve responder à demanda com uma oferta, cuja
produção é comparável à dos outros agentes econômicos privados.
Essa interpretação neoclássica da ação pública apareceu como
relativamente nova na história oficial da teoria econômica. Ela considera o
Estado não mais como uma entidade “exógena” à ordem do mercado, que
deve respeitar limites externos, mas como uma entidade inteiramente
integrada no espaço das trocas, no sistema de interdependência dos agentes
econômicos.
Partir da hipótese de que todo agente público é um ser que fará seu
interesse particular passar à frente do interesse geral não é uma coisa nova.
Dissemos antes que o primeiro na história da teoria política a fazer disso um
princípio de análise e reforma foi Bentham. Hoje, se não voltarmos a essa
fonte essencial, não compreenderemos as relações entre a promoção do
mercado, de um lado, e os princípios da “nova gestão”, de outro. Bentham
tenta racionalizar a ação pública para aumentar sua eficácia, utilizando
mecanismos de controle e incentivo estritos e refinados, cujo objetivo é
orientar o comportamento dos indivíduos num sentido favorável ao
interesse geral, ou ao menos diminuir a divergência entre o interesse de
cada agente e o que é coletivamente esperado dele em termos de serviços
úteis.
Entendendo que o Estado deve intervir na economia e na sociedade
diretamente pela legislação e indiretamente para gerir e vigiar a população,
a fim de orientar os interesses e as ações na direção mais adequada para
assegurar “a maior felicidade para o maior número de pessoas”, Bentham
tentou refletir, durante toda a sua longa carreira de tecnólogo e pensador,
acerca dos dispositivos coercitivos e incitativos que possibilitam forçar os
agentes públicos a unir interesse particular e interesse coletivo, segundo o
“princípio de junção do interesse e do dever” [30]. A originalidade de
Bentham – que faz dele um dos precursores ignorados do que desde então
foi denominado a “nova gestão pública” – deve-se ao fato de que ele não se
contenta em apelar para o mercado a fim de lutar contra os desperdícios
burocráticos. Ele deseja descobrir meios substitutos de controle dos agentes
públicos que tenham a mesma eficácia do mercado sobre os indivíduos que
participam dele. O objetivo é eliminar todos os abusos, as incompetências,
as vexações, as delongas, as opressões e as fraudes que os administrados
sofrem nas mãos de políticos e funcionários públicos espontaneamente corrompidos por seu “sinister interest”, contrário ao interesse do maior
número de indivíduos. Em muitos de seus textos, sobretudo em Código
constitucional, escrito nos anos 1820, Bentham pinta um vasto quadro de
um aparelho burocrático inteiramente ordenado pelo princípio de controle
da conformidade das ações dos funcionários públicos com o interesse do
público [31].
Por esse conjunto de dispositivos, a intervenção pública corresponderá
ao objetivo governamental de “maior felicidade para o maior número de
pessoas”. Com relação à organização do Estado, esse objetivo se
especificará por meio da aplicação de dois princípios subordinados: o
princípio de maximização da aptidão dos agentes públicos e o princípio de
minimização do gasto público (Official aptitude maximized, expense
minimized). O princípio de utilidade permite pensar ao mesmo tempo a
eficácia das ações privadas espontâneas sobre o mercado e a necessidade de
controle rígido das atividades dos que são capazes de fazer seu interesse
privado passar à frente do interesse coletivo. De fato, a primazia do
interesse pessoal conduz a dois caminhos que não são tão contraditórios
como poderiam parecer: de um lado, dar a maior liberdade possível aos
agentes que perseguem seu próprio objetivo no mercado; de outro, exercer
controles estritos sobre todos os que deveriam trabalhar para o interesse
coletivo, mas, quando não são suficientemente vigiados, infalivelmente são
tentados a trabalhar para sua própria satisfação. A confiança que se tem em
uns – relativa, é claro – é acompanhada de uma desconfiança absoluta em
relação a outros. Portanto, o mesmo princípio, o do interesse, leva à
descoberta de dispositivos normativos que produzirão na esfera pública
resultados tão desejáveis quanto o mercado na esfera privada [32]. Para agir
contra os abusos de poder, que são doenças estruturais de qualquer relação
política, Bentham propõe como solução universal a transparência, que
impede os funcionários públicos e os representantes eleitos de trabalhar
para o próprio benefício ou de desperdiçar o dinheiro público. Bentham é
um dos que instituíram como regra de ouro o controle dos agentes públicos
pelo público. Invertendo o dispositivo panóptico, em que um pequeno
número de inspetores podia vigiar um grande número de indivíduos, ele
descreve disposições arquitetônicas em seu Código constitucional que permitem que o público, instalado em galerias em volta dos espaços onde se
realiza o trabalho administrativo, observe por trás de espelhos falsos a
intensidade do trabalho dos funcionários. Como na prisão panóptica, basta
que o agente público acredite estar continuamente sob vigilância para que o
dispositivo produza o efeito desejado. Por meio dessa vigilância, a
esperança de ganhos obtidos com comportamentos criminosos é
contrabalançada na mente do agente sob observação pela grande
probabilidade de punição. “O bom governo depende da arquitetura mais do
que se imaginava até o presente”, escreve Bentham[33]. Todo o edifício
burocrático benthamiano é concebido como um sistema de controle pelo
qual tudo deve ser ordenado: a definição precisa dos postos, das funções e
das competências requeridas, o estabelecimento de normas nas relações
entre os funcionários públicos e o público, a manutenção rigorosa e
exaustiva dos livros contábeis, a publicação regular de relatórios de
atividade, o regime permanente de inspeção dos serviços e, acima de tudo, o
controle da opinião pública sobre a ação dos agentes do Estado.
Mas a vigilância não é tudo. Também é preciso saber empregar os
incentivos positivos que estimulam o cumprimento do dever. Em Teoria das
penas e das recompensas, Bentham imputava à igualdade dos salários a
moleza e a ociosidade que imperavam nas repartições públicas. Para
assegurar a união do interesse com o dever, é preciso transformar o salário
numa recompensa proporcional à assiduidade e à forma como o serviço é
prestado, o que é particularmente recomendado no caso da remuneração do
responsável pelo serviço. Nos hospitais ou nas casas correcionais, nos
locais de trabalho, no Exército e na Marinha, o responsável será punido ou
recompensado conforme o número de feridos, doentes ou mortos, de modo
que os interesses dele estejam de acordo com os que lhe foram confiados.
As análises de Bentham antecipam as do Public Choice na medida em
que partem do mesmo postulado do agente calculador que sempre se guia
pelo interesse pessoal. No entanto, como veremos adiante, há uma grande
diferença em relação às análises do Public Choice no que se refere ao papel
que se atribui aos mecanismos da democracia. Em todo caso, não
compreenderíamos as relações entre as duas posições se não as situássemos
naquilo que constitui propriamente a governamentalidade fundamentada sobre os interesses, se não víssemos que as práticas de mensuração e
incentivo que visam a guiar as condutas são parte integrante da forma de
governar os homens nas sociedades de mercado. A mensuração dos efeitos
– o que hoje é chamado de avaliação – não é alheia à prática governamental
moderna. Ela não é um acréscimo tardio; ao contrário, ela a caracteriza
desde o início, como indica a atenção que a tecnologia do utilitarismo
benthamiano lhe dedica. Certamente foi preciso tempo para que essa
dimensão da avaliação da eficácia adquirisse toda a amplitude que hoje se
reconhece nela e que aparece como o modo “evidente” de regulação da
atividade pública. Desse ângulo, a prática neoliberal é um poderoso
elemento revelador das lentas mutações que afetaram os modos de governo
desde o século XVIII.
O Public Choice e a nova gestão pública
O consenso em torno de uma reforma de inspiração neoliberal da ação
pública deriva da crença no fim da “era da burocracia” [34]. Em outras
palavras, a reestruturação da ação governamental a que assistimos em graus
e ritmos diferentes conforme o país não deve ser interpretada segundo seus
critérios (os três “ee”: eficácia, economia, eficiência), mas segundo a lógica
antropológica da qual ela participa e cujos principais teóricos foram os
economistas do Public Choice, em particular James Buchanan e Gordon
Tullock.
A Escola do Public Choice, cuja sede histórica é a Universidade de
Virgínia, em Charlottesville, produziu uma análise do governo que focaliza
não a natureza dos bens que ele produz, mas a forma como ele os produz.
Aplicando a teoria econômica às instituições coletivas, a Escola do Public
Choice considera que, se supomos em todos os domínios a unidade do
funcionamento humano, não há razão para não realizarmos uma
homogeneização a um só tempo teórica e prática do funcionamento do
Estado e do mercado. O funcionário público é um homem igual aos outros,
um indivíduo calculador, racional e egoísta, que procura maximizar seu
interesse pessoal em detrimento do interesse geral. Apenas os interesses privados têm realidade e significado para os agentes públicos, apesar de
seus protestos virtuosos. O Estado não maximiza o interesse geral, os
agentes públicos é que buscam na maior parte do tempo seus interesses
particulares à custa de um desperdício social considerável [35]:
Enquanto homens comuns, semelhantes a todos os outros, os burocratas tomarão a
maioria de suas decisões (porém nem todas) em função do que lhes favoreça
pessoalmente, não considerando o benefício que terá com isso a sociedade como um
todo. Podem ocasionalmente sacrificar seu bem-estar por um interesse mais geral,
como faz às vezes qualquer mortal, mas devemos esperar que essa atitude seja
excepcional.[36]
O burocrata tenta aumentar os créditos de seu serviço, o número de seus
subordinados ou subir no escalão [37]. Definindo grosseiramente uma
repartição pública como uma organização que não visa ao lucro e cujos
agentes não tiram seu sustento da venda de um produto, William Niskanen
afirma que a função de utilidade do burocrata está ligada ao aumento do
orçamento de sua repartição. Se a empresa privada procura maximizar o
lucro, a repartição pública procura maximizar o orçamento [38]. Tullock diz a
mesma coisa:
Via de regra, o burocrata verá crescerem suas chances de promoção, seu poder, sua
influência, o respeito público e até mesmo melhorarem as condições materiais de seu
escritório, quando sua administração aumenta. [...]
Se a burocracia como um todo se expande, quase todo burocrata que faça parte dela
ganhará alguma coisa com isso, mais ainda se a subdivisão em que trabalha se
expande.[39]
A essa tendência automática ao crescimento da oferta corresponde uma
tendência à expansão da demanda. Como o Estado social suscita múltiplas
demandas de intervenção, a burocracia parasitária incha. Cria-se uma
espécie de grande aliança entre os funcionários públicos e os membros das
classes médias, que são os que mais aproveitam os serviços públicos,
acarretando uma inflação do pessoal e do gasto público. Os que se
beneficiam disso organizam-se em grupos de pressão internos (os burocratas) ou externos (os lobbies), em detrimento dos contribuintes
atomizados. Esse fenômeno é reforçado pelo comportamento dos
parlamentares, que tentam “comprar” os votos decisivos das frações
mobilizadas do eleitorado e tirar proveito do apoio de um funcionalismo
cada vez mais numeroso. Quanto mais burocratas há entre os eleitores, mais
há eleitores favoráveis aos impostos e às despesas públicas. O resultado é
que a burocracia tende a “superproduzir” serviços em relação às
necessidades reais da população. Aproveitando-se de recursos abundantes
que não são devolvidos à coletividade, a administração pública os gasta
custe o que custar para justificar sua existência e seu crescimento. Como
dizia Jean-Jacques Rosa, “o mercado político é um lugar onde se trocam
votos por promessas de intervenções públicas” [40]. Essa crítica da
burocracia deduz do postulado do egoísmo racional dos agentes o conjunto
dos efeitos negativos a que conduz a ausência de concorrência na produção
de serviços públicos [41].
Niskanen propõe como principal alavanca da mudança estrutural a
competição entre repartições na oferta de serviços semelhantes para quebrar
o monopólio público e aumentar a eficiência da produção [42]. Também
sugere modificações nos incentivos ao trabalho, como a introdução de um
sistema de lucro pessoal baseado no pagamento aos chefes de departamento
de uma parte da diferença entre o orçamento alocado e os custos efetivos
ou, ainda, um sistema de promoções cuja rapidez seria proporcional à
redução do orçamento gasto. Os objetivos normativos do Public Choice são
explícitos:
Em geral, as exigências que pesam sobre o comportamento de um indivíduo no
mercado são mais “eficazes” do que as que os empregados do Estado enfrentam, de
modo que os indivíduos no mercado, procurando a satisfação do próprio bem-estar,
servem bem melhor ao bem-estar de seus concidadãos do que os homens que
trabalham para o governo. Na verdade, um dos objetivos da “novidade econômica” é
elevar o coeficiente de “eficácia” do governo por meio de reformas a fim de aproximá-
lo do coeficiente do mercado.[43]
Ainda que esse coeficiente nunca seja atingido, já que, “mesmo numa
situação de concorrência, na prática as administrações públicas nunca se mostram tão eficazes quanto as sociedades privadas numa indústria
competitiva”, é possível esperar uma melhora da situação por diferentes
alavancas [44]. A primeira, evidentemente, é fazer serviços públicos e
privados concorrerem entre si, dando a sociedades privadas contratadas a
possibilidade de contribuir para o fornecimento de serviços que até então
eram fornecidos exclusivamente pela administração pública. Mas isso
também pode ser feito pela concorrência entre os próprios serviços
burocráticos. Como explica Tullock, basta dividir a administração pública
“em setores pequenos, com orçamentos separados”, e comparar os
desempenhos [45].
Como se vê, a análise dos economistas da Escola de Virgínia concorda
em muitos pontos com o diagnóstico e as soluções de Bentham. Em ambos
os casos, trata-se de criar incentivos positivos ou negativos, similares aos do
mercado, para guiar o interesse do funcionário. Contudo, há uma grande
diferença quanto à concepção da democracia: no Bentham radical dos anos
1820, é pelo controle estrito dos eleitores sobre os representantes e os
funcionários públicos que se poderá pôr em prática o “princípio de junção
do interesse e do dever”; o Public Choice, recuperando as críticas de Hayek,
é um movimento hostil à democracia representativa, que é vista como o
principal fator de crescimento da burocracia. Num regime democrático, os
cidadãos não podem exercer um controle real sobre os burocratas e tentam
aliar-se a eles quando conseguem se organizar. De sua parte, os
parlamentares incentivam a superprodução burocrática para serem reeleitos.
E os pobres, que não pagam impostos, usam e abusam de um poder eleitoral
maior do que os ricos, menos numerosos, para fazer estes últimos arcarem
com a maior parte do peso dos impostos. É nesse sentido que James
Buchanan, em Les limites de la liberté (1975), título sintomático, defende a
supressão do Estado de bem-estar e sua substituição por um novo contrato
social em que os ricos pagariam uma compensação financeira aos pobres
em troca da supressão dos auxílios recebidos. Buchanan milita mais
amplamente por uma “revolução constitucional” que obrigaria os governos
a respeitar limites de endividamento, déficit e nível de impostos [46]: “A
democracia pode se tornar seu próprio Leviatã se não lhe forem impostos
limites constitucionais e se não se fizer com que estes sejam
respeitados” [47]. O objetivo dessa revolução seria “reconstruir os
fundamentos da própria ordem constitucional”, uma medida radical
indispensável diante dos impasses do pragmatismo tradicional dos norte-
americanos.
Tocamos aqui no cerne dos novos modos de governo da racionalidade
neoliberal, e um de seus grandes princípios pode ser resumido pela frase
benthamiana: “The more strictly we are watched, the better we behave”
[“Quanto mais estritamente somos vigiados, melhor nos comportamos”] [48].
O postulado da conduta inerentemente interesseira dos agentes públicos
leva à reforma dos meios de controlá-los e guiá-los. Essa vigilância, que
tomou o aspecto concreto e difuso de uma avaliação contábil de todos os
atos dos agentes públicos e dos usuários, é o princípio implícito da reforma
do setor público que é apresentada como a única possível. Essa reforma é
inspirada em práticas de gestão privada baseada na eficiência [49]. Se é
preciso privatizar tanto quanto possível, também é necessário interromper
as lógicas que levaram ao aumento da burocracia e dos gastos públicos, isto
é, as alianças de interesses entre grupos de pressão internos, lobbies
externos e representantes eleitos. A empresa deve substituir a burocracia em
tudo que for possível e, quando não o for, o burocrata deve conduzir-se o
máximo possível como um empreendedor.
Vimos antes que, segundo os economistas do Public Choice, apenas os
interesses privados possuem realidade e significado para os indivíduos
maximizadores. A suposição de que todo agente público é calculista e
oportunista encontra-se no princípio dos dispositivos de controle
instaurados. Os modelos de referência da nova governança pública,
procedentes da economia empresarial, trouxeram novamente à baila a
questão da oposição e da conciliação entre os interesses do mandante e do
executante. O modelo do principal-agent, surgido nos anos 1970, é
empregado na literatura econômica para refletir sobre as relações entre
níveis hierárquicos. Esse modelo se fundamenta em escolhas racionais: o
principal é aquele que tem a autoridade, e o agente é aquele que se
encarrega da execução. O problema é como assegurar, por dispositivos de
vigilância e incentivo, que os mandatários (o agente) ajam de forma
congruente com os interesses dos mandantes (o principal), sabendo que os indivíduos tentam maximizar sua utilidade e visam a tirar proveito do fato
de que os contratos não especificam o conteúdo das tarefas que devem ser
cumpridas (postulado da incompletude dos contratos). Esse modelo,
utilizado inicialmente para análise das relações entre acionista e gerente,
tornou-se o guia de leitura das relações entre o “centro de decisão” político
e os órgãos de execução, que têm autonomia de gestão e estão sujeitos a
avaliação. Hoje é a forma mais comum de pensar as relações entre níveis
hierárquicos: presume-se que avaliações cada vez mais sofisticadas
resolvem o “problema da agência”, isto é, o comportamento oportunista do
executante que dispõe de uma informação que o decididor não tem.
Essa nova economia política serviu de “senso comum” a um vasto
movimento de reorganização das administrações públicas, ao qual
Christopher Hood deu o nome genérico de “nova gestão pública” (new
public management) em 1991. Essa “nova gestão pública” visa a mudar o
Estado e, para isso, inspira-se sistematicamente em lógicas de concorrência
e métodos de governo empregados nas empresas privadas [50]. Sua intenção
é “reinventar o governo” diante do que parece ser um fracasso das
esperanças nos grandes programas dos anos 1950 e 1960, e isso num
contexto político em que os governos desejam poder limitar os custos e, ao
mesmo tempo, aumentar a satisfação dos usuários, vistos como clientes.
Esse “paradigma global” da reinvenção do governo apresentou várias
faces, conforme o país, o governo ou o intérprete, os quais ressaltam ora a
importação do modelo da empresa, ora a necessária participação
democrática da população nas decisões – isso quando não misturam as duas
coisas. Mas a principal tendência nos países desenvolvidos consistiu em
impor um novo modo de racionalização às administrações públicas que
obedece às lógicas empresariais. Concorrência, downsizing, outsourcing
[terceirização], auditoria, regulação por agências especializadas,
individualização das remunerações, flexibilização do pessoal,
descentralização dos centros de lucro, indicadores de desempenho e
benchmarking são todos instrumentos que administradores zelosos e
decididores políticos em busca de legitimidade importam e difundem no
setor público em nome da adaptação do Estado à “realidade do mercado e
da globalização”.
A nova gestão pública consiste em fazer com que os agentes públicos
não ajam mais por simples conformidade com as regras burocráticas, mas
procurem maximizar os resultados e respeitar as expectativas dos clientes.
Isso pressupõe que as unidades administrativas sejam responsáveis por sua
produção específica e possuam certa autonomia na realização de seu
projeto[51]. As técnicas de gestão baseiam-se no tripé objetivos-avaliação-
sanção. Cada entidade (unidade de produção, coletivo ou indivíduo) passa a
ser “autônoma” e “responsável” (no sentido de accountability). No âmbito
de suas missões, recebe metas que deve atingir. A realização dessas metas é
avaliada regularmente, e a unidade é sancionada positiva ou negativamente
de acordo com seu desempenho. A eficácia deve aumentar em razão da
pressão constante e objetivada que pesará sobre os agentes públicos, em
todos os níveis, de tal modo que acabem artificialmente na mesma situação
do assalariado do setor privado, que está sujeito às exigências dos clientes e
às de seus superiores.
Um dos aspectos importantes dessa nova gestão, além da ênfase no
“desempenho”, é a importação do “critério de qualidade” utilizado pelas
empresas privadas que desejam subordinar sua atividade à satisfação do
consumidor.
A concorrência no centro da ação pública
“Concorrência” é a palavra-chave dessa nova gestão pública. Nesse
sentido, esta última traduz o dogma friedmaniano:
O maior perigo para o consumidor é o monopólio, seja privado, seja governamental. A
proteção mais eficaz do consumidor é a livre concorrência interna e o livre-câmbio em
todo o mundo. O que protege o consumidor da exploração de um comerciante é a
existência de outro comerciante, de quem ele pode comprar e cujo único desejo é
vender. A possibilidade de escolha entre várias fontes de abastecimento defende o
consumidor de forma muito mais eficaz do que todos os Ralph Nader do mundo.[52]
Se a ação pública deve ser uma “política de concorrência”, o Estado
deve ser um ator concorrendo com outros atores, em particular no plano mundial. Trata-se de executar simultaneamente duas operações que
aparecem como homogêneas em virtude da unicidade das categorias em
jogo: de um lado, construir mercados que sejam o mais concorrenciais
possível no âmbito mercantil; de outro, fazer a lógica de concorrência
intervir no próprio âmbito da ação pública. Assim, a concorrência está no
princípio da liberalização das indústrias de redes, como telecomunicações,
eletricidade, gás, ferrovias ou correios – uma liberalização que não se
confunde com a privatização nem com a desregulamentação e mostra novas
formas de intervenção pública pela criação de mercados, ou quasi-
mercados, em setores que são considerados monopolistas ou respondem a
critérios estranhos às considerações de custo. Para retomarmos o título da
obra de Israel Kirzner, concorrência e espírito de empresa são as duas
palavras-chave da prática governamental neoliberal[53].
Uma das primeiras medidas importantes do governo Thatcher foi a
implantação do Compulsory Competitive Tendering (CCT), um sistema que
tornava obrigatórias a chamada de ofertas para qualquer fornecimento de
serviços locais e a escolha da oferta mais competitiva, de acordo com os
critérios do “value for money”, o que significava fazer as empresas privadas
e os governos locais concorrerem entre si [54].
Supostamente, essa institucionalização da competição favorece uma
melhor realização das finalidades dos serviços públicos, dando maior
satisfação aos clientes (que podem escolher livremente o prestador) e
reduzindo custos. O que pressupõe que a forma da prestação do serviço,
pública ou privada, não afeta o conteúdo e o efeito do serviço. Fortalecendo
a eficácia dos serviços públicos, supostamente a política da escolha lhes dá
uma nova legitimidade. Essa ideia é central na retórica da esquerda
moderna, como sublinha Tony Blair:
A escolha é um princípio importante de nosso programa. É preciso haver muito mais
escolha, não apenas entre prestadores de serviços públicos, mas dentro de cada
serviço. Onde é possível, a escolha melhora a qualidade do serviço prestado aos mais
pobres e auxilia na luta contra as desigualdades, ao mesmo tempo que fortalece o
apreço das classes médias pelo serviço coletivo. No campo da educação, isso significa
escolha entre várias escolas, de modo que os pais possam optar com mais frequência
por um estabelecimento que corresponda plenamente às necessidades dos filhos. [55]
A realidade é um pouco diferente: essa “livre escolha” é muito desigual,
porque as famílias não possuem a mesma capacidade de exercê-la com as
mesmas vantagens, como mostraram numerosos estudos no campo
escolar[56].
A concorrência deve ser também o princípio da “gestão dos recursos
humanos”. A constituição de mercados internos de bens e serviços é
acompanhada da criação de concorrência entre os próprios agentes, dentro
do setor público. A nova gestão pública provoca uma mutação profunda dos
antigos sistemas de classificação e remuneração, em proveito de avaliações
baseadas no desempenho individual e nos incentivos financeiros
personalizados. Desse modo, os gerentes à frente do serviço serão avaliados
ex-post, não mais ex-ante, conforme o cumprimento das metas com as quais
se comprometeram. Como eles próprios avaliam seus subordinados,
administrações e serviços públicos se parecem cada vez mais com longas
cadeias de vigilância e controle de desempenho individual [57].
Essa “gestão do desempenho” faz parte de uma espécie de
“desfuncionalização” do serviço público. Alguns de seus aspectos são:
flexibilização ou supressão das regras de direito público às quais os
funcionários devem sujeitar-se; substituição dos concursos por contratos de
direito privado; mobilidade entre serviços e entre os setores público e
privado; e demissão de funcionários considerados incompetentes [58].
Embora esteja em questão a dimensão estatutária tradicional do emprego
público, estamos longe de uma “desburocratização”, como veremos adiante.
Um novo modelo de condução dos agentes públicos tende a instaurar-
se: o governo empresarial. Ele repousa sobre os princípios da “gestão do
desempenho” e emprega ferramentas importadas do setor privado
(indicadores de resultados e gestão de motivações mediante um sistema de
incentivos que permitem um “governo a distância” dos comportamentos).
Esse governo supõe um controle estrito do trabalho dos agentes públicos
por meio de avaliações sistemáticas e a subordinação destes à demanda de
“cidadãos-clientes” convidados a exercer sua capacidade de escolha diante
de uma oferta diversificada, de acordo com o princípio do “controle pela
demanda”. Essa estratégia tem uma natureza financeira e normativa.
Permite fazer com que o usuário contribua diretamente com o custo do serviço, na medida em que o “responsabiliza” financeiramente – o que
corresponde à busca de uma diminuição da pressão fiscal – e é uma maneira
de mudar o comportamento do “consumidor” de serviços públicos,
convidado a regular sua demanda. O livro que melhor reúne o conjunto de
características dessa nova prática governamental é o best-seller de David
Osborne e Ted Gaebler, Reinventando o governo, publicado em 1992 [59].
Para esses dois autores, nenhum governo é fixo na história. Do mesmo
modo que as formas de ação pública foram reinventadas pelo New Deal,
devemos inventar um governo adaptado ao “novo mundo” da “era da
informação”, da globalização e da “crise fiscal”[60]. A produção de serviços
públicos deve obedecer à mesma regra que orientou a reorganização das
empresas: redução de tamanho, foco num “ofício”, aumento da qualidade,
descentralização da autoridade, horizontalização da linha hierárquica[61].
Trata-se menos de alterar o volume de despesas, para mais ou para menos,
do que de reinventar as políticas e os organismos públicos. Segundo eles,
estamos vivendo um período em que devemos abandonar o modelo
burocrático weberiano e passar a um modelo pós-weberiano. O termo pelo
qual pretendem resumir sua proposta é “governo empresarial”[62].
A intenção dos autores não é propor um novo modelo saído de sua
imaginação, mas explicar o que está em andamento nos Estados Unidos. A
reinvenção do governo empresarial é um processo que, segundo eles,
começou quando os eleitores californianos votaram a famosa “Proposta
13”, em 6 de junho de 1978, diminuindo para a metade o imposto local
sobre a propriedade. Essa “revolta fiscal” se estendeu a todos os estados
norte-americanos, até que Reagan a transformou no eixo principal de sua
política. Nos anos 1980, constatando a diminuição de recursos, prefeitos e
governadores foram obrigados a desenvolver novas formas de organização
e estimular as “parcerias público-privadas”. Foram essas novas práticas que
permitiram a invenção, em nível local, dos “governos empresariais”.
Os governos empresariais obedecem a dez princípios analisados em
detalhe pelos autores. A maioria desses governos promove a concorrência
entre fornecedores de serviços; tira poder da burocracia para dá-lo aos
cidadãos; mede o desempenho de suas agências focando não os recursos,
mas os resultados; é guiada pela busca de seus objetivos, não pelo respeito de regras e regulações; considera que os usuários são consumidores e
oferece a eles possibilidades de escolha entre escolas, programas de
formação, tipos de habitação; previne os problemas antes que surjam, em
vez de conformar-se em oferecer posteriormente o serviço; emprega sua
energia a fim de evitar gastos, em vez de procurar fundos; descentraliza a
autoridade, favorecendo a administração participativa; prefere os
mecanismos do mercado aos mecanismos burocráticos; e concentram-se
não só no fornecimento de serviços públicos, mas na mobilização de todos
os setores – público, privado e associativo – para resolver os problemas da
comunidade[63].
Segundo Osborne e Gaebler, não devemos confundir esse governo
empresarial, resumido em seus diversos aspectos, com o free market dos
conservadores: “Estruturar o mercado para realizar um objetivo público é,
na verdade, o contrário de deixar ao ‘livre mercado’ a tarefa de regular as
coisas; trata-se de uma forma de intervenção no mercado”[64]. De todo
modo, acrescentam, não existe livre mercado se o entendemos como um
mercado isento de qualquer intervenção governamental. Todos os mercados
legais são estruturados por regras estabelecidas pelos governos, com
exceção dos mercados negros, que são controlados pela força e regidos pela
violência [65]. Segundo eles, essa governança empresarial que utiliza
alavancas públicas para orientar as decisões privadas no sentido dos
objetivos coletivos permite a definição de uma “terceira via” entre o free
market dos conservadores e os programas burocráticos do big government
dos “liberais” (no sentido norte-americano do termo).
O tema do governo empresarial não caiu no vazio. Foi no governo Bill
Clinton que se lançou a National Performance Review, inspirada no livro de
Osborne e Graeber. Após o relatório redigido em 1993 por Al Gore, em que
ele estabelecia como programa “a criação de um governo que funcione
melhor e custe menos”[66], o governo Clinton organizou uma vasta operação
de propaganda e criou “equipes” e “laboratórios” para reinventar o
governo[67]. Segundo Al Gore, a National Performance Review possibilitou
o corte de 351 mil pessoas do funcionalismo público. Uma iniciativa
semelhante no Canadá, em 1994, gerou um corte de 45 mil funcionários
públicos. Esse procedimento de auditoria geral, fortemente encorajado pelas instituições de expertise internacionais, como a OCDE, espalhou-se por
todo o mundo com nomes diferentes, mas seguindo a mesma lógica.
Uma política de esquerda?
Essa “reinvenção do governo” se apresenta com frequência como uma
reinvenção da política de esquerda. Na verdade, isso é apenas o exemplo
mais flagrante da dominação da nova razão neoliberal. A reforma dos
instrumentos de intervenção pública tornou-se, no fim dos anos 1990, a
base do acordo entre Bill Clinton, Tony Blair e outros dirigentes da
esquerda europeia. O teórico da terceira via, Anthony Giddens, descreve
nos seguintes termos as novas orientações da “reforma do Estado”:
A maioria dos Estados ainda tem muito que aprender com as melhores técnicas de
gestão empresarial. Eles deveriam buscar, em especial, controles de resultados,
auditorias, implantar estruturas de decisão mais flexíveis ou garantir uma maior
participação dos empregados.[68]
Contudo, aquilo que se apresentava como uma “renovação” da esquerda
tendia a obliterar o fato de que a mutação empresarial da ação pública era
apenas o aprofundamento de uma política iniciada pelos governos
neoliberais dos anos 1980. Os conservadores britânicos foram os pioneiros
nessa estrada. Em 1980, uma série de dispositivos foi implantada para
possibilitar a aplicação sistemática no setor público do princípio de
eficiência, tão prezado pelos consultores das empresas de auditoria que
orientavam o governo[69]: Efficiency Unit, Scrutinity Programme, Financial
Management Initiative e National Audit Office.
Em 1988, um relatório ao primeiro-ministro britânico deu início à
operação ambiciosa e sistemática dos next steps [próximos passos][70]. A
administração pública era vista como um conjunto de “unidades de
produção” ou “agências” com autonomia, que perseguia seus próprios
objetivos e respondia a indicadores de desempenho. Várias opções foram
apresentadas para melhorar a produtividade do serviço público:
privatização, subcontratação no setor privado ou autonomização das
agências [71]. Nesse último caso, tratava-se de fragmentar um serviço
público unificado e normatizado em entidades descentralizadas e
responsáveis perante o ministro em questão. Desse modo, a função pública
britânica é progressivamente dividida em cerca de 110 agências autônomas,
reunindo quase 80% dos agentes públicos. Cada agência é dirigida por um
responsável selecionado por sua competência administrativa e remunerado
de acordo com seu desempenho. Livre para gerir, ele pode subcontratar
serviços no setor privado, caso julgue essa solução mais eficiente.
A Grã-Bretanha de Tony Blair segue as orientações do thatcherismo. A
Private Finance Initiative, também denominada Public-Private Partnership
(PPP), permite às empresas do setor privado financiar e gerir os serviços
públicos ligados a saúde, educação e segurança. O contrato dá ao setor
privado o direito de explorar um serviço durante longos períodos (vinte ou
trinta anos), em troca do financiamento e da manutenção da infraestrutura.
Mas as empresas privadas não fornecem necessariamente um serviço de
qualidade equivalente e o Estado é obrigado a participar dos custos,
subvencionando as empresas privadas[72].
O Canadá também implantou um programa de reestruturação do setor
público a partir de 1988 (Public Service 2000), assim como a Austrália, a
Nova Zelândia, a Dinamarca e a Suécia. Na França, Michel Rocard quis
impulsionar esse tipo de orientação em 1991 (a “renovação do serviço
público”). Em 1992, mandou publicar a “Carta dos Serviços Públicos”,
introduzindo a lógica gerencial pela criação de “centros de
responsabilidade” nos serviços descentralizados do Estado, os quais
deveriam estabelecer “projetos de serviço” com seus respectivos
ministérios. As duas categorias-chave dessa “renovação”, isto é, a
“responsabilização” e a “avaliação”, não eram muito originais [73]. Esse
primeiro enxerto da nova gestão pública não tomou a dimensão que teve em
outros países, sem dúvida porque a relutância em ver o setor público como
um produtor de serviços fornecidos a um cliente permaneceu cultural e
politicamente forte na França.
A reforma administrativa, tema havia muito tempo defendido pelas
elites modernizadoras à frente do Estado francês [74], foi relançada em fins
dos anos 1990 e no início dos anos 2000, com a elaboração e a votação da Lei orgânica relativa às finanças (Lolf), em agosto de 2001. Essa lei
pretendia introduzir uma obrigação de bom desempenho na gestão
financeira do Estado. O financiamento orçamentário não poderia mais
depender da natureza do gasto, mas dos resultados dos “programas”, dos
quais se exigia que explicitassem objetivos precisos que seriam submetidos
a avaliação. Como podemos ver, também não há nada muito original nessa
nova prática que visa a “trocar uma lógica de meios por uma lógica de
resultados”.
Uma segunda fase, chamada fase de aceleração, foi desencadeada em
julho de 2007, pouco após a eleição de Nicolas Sarkozy, com o nome de
Revisão Geral das Políticas Públicas (o que lembra de certo modo a
National Performance Review, de Al Gore). Chegando a um balanço
bastante mitigado das primeiras medidas de “modernização”, o governo
tenciona operar um verdadeiro “rompimento”. Também nesse caso, a
prática não é nova, em comparação com o que ocorreu em outros países, já
que se trata de realizar uma auditoria sistemática de todas as políticas
públicas e as despesas sociais para “diminuir o gasto público, melhorando
ao mesmo tempo a eficácia e a qualidade do serviço prestado pela