A nova razão do mundo
9 A fábrica do sujeito neoliberal
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“modelo de adaptação e condução da mudança” da empresa num contexto de concorrência mundial, em que a mudança é obrigatória. Dirigidas aos
administradores, essas técnicas visam a ajudá-los a conduzir os outros,
fortalecendo seu “potencial”, a “confiança em si mesmos”, a “autoestima”.
A PNL promete aos dirigentes de empresa “aumentar seu carisma e
estimular seu leadership”. Acima de tudo, permite compreender como
funcionam “as pessoas que cercam o manager e, com esse conhecimento,
orientar a energia na direção do objetivo comum”; “A PNL, por sua eficácia
em termos de comunicação, dará ferramentas eficazes ao manager para que
ele possa motivar sua equipe com o intuito de satisfazer o cliente”.
Estabelecer objetivos claros, compreen der a relação humana e “ativar os
mecanismos da motivação”, melhorar a comunicação interpessoal dentro da
empresa, “pedra angular do sucesso” (“uma comunicação ruim na empresa
dispersa as energias”), “gerir bem o feedback” para “esclarecer uma pessoa
sobre o que ela faz e para que essa pessoa melhore o que ela faz”, essas são
algumas das contribuições da PNL para uma gestão eficaz[45].
A “gestão da alma” e a gestão da empresa
Todos esses exercícios práticos de transformação de si mesmo tendem a
jogar o peso da complexidade e da competição exclusivamente sobre o
indivíduo. Os “gerentes da alma”, segundo expressão lacaniana retomada
por Valérie Brunel, introduzem uma nova forma de governo que consiste
em guiar os sujeitos fazendo-os assumir plenamente a expectativa de certo
comportamento e certa subjetividade no trabalho [46]. Se todo indivíduo deve
desenvolver suas qualidades pessoais para reagir rápido, inovar, criar, “gerir
a complexidade numa economia globalizada”, como dizem as expressões
estereotipadas em voga, é porque todo indivíduo é idealmente um gerente
com o qual se deve contar para resolver os problemas. O domínio de si
mesmo e das relações comunicacionais aparece como contrapartida de uma
situação global que ninguém consegue mais controlar. Se não há mais
domínio global dos processos econômicos e tecnológicos, o comportamento
dos indivíduos não é mais programável, não é mais inteiramente descritível
e prescritível. O domínio de si mesmo coloca-se como uma espécie de compensação ao domínio impossível do mundo. O indivíduo é o melhor,
senão o único “integrador” da complexidade e o melhor ator da incerteza.
Se, portanto, trata-se de “trabalho de si mesmo”, “realização de si
mesmo”, “responsabilidade por si mesmo”, isso não significa reclusão do
sujeito, que toma a si mesmo por um objeto sem nenhuma relação com
qualquer instância ou ordem que lhe sejam externas. Para falarmos como
Foucault, o “cuidado de si” – se é que existe um “cuidado de si” –, nesse
caso, não é um fim em si mesmo, porque o si não é objeto e fim desse
cuidado [47] – não se trabalha a si mesmo com a finalidade única de produzir
certa relação consigo mesmo, isto é, unicamente para si.
Pierre Hadot ressaltou, aliás, que, ao contrário do que podia dar a
entender a interpretação foucaultiana, a “cultura de si” da época helenística
(séculos I e II) remetia a certa ordem do mundo, a uma razão universal
imanente do cosmo, de modo que o movimento de interiorização era ao
mesmo tempo autossuperação e universalização[48]. De certa forma, as
“asceses do desempenho” não escapam a essa lógica. Obviamente, essa
ordem não é mais a ordem da “Natureza” estoica ou a ordem desejada pelo
Criador à qual a “ascese intramundana” da ética protestante se atrelava. No
entanto, essa “ascética” encontra sua justificação última numa ordem
econômica que ultrapassa o indivíduo, uma vez que é expressamente
concebida para conformar a conduta do indivíduo à “ordem cosmológica”
da competição mundial que o envolve. É claro que o indivíduo trabalha a si
mesmo para se tornar mais produtivo; contudo, ele trabalha para se tornar
mais produtivo a fim de tornar a empresa – que é a entidade de referência –
mais produtiva. Mais do que isso: os exercícios que supostamente
melhoram a conduta do sujeito visam a transformá-lo num “microcosmo”
em perfeita harmonia com o mundo da empresa e, para além dele, com o
“macrocosmo” do mercado mundial.
No fim das contas, trata-se de fazer com que a norma geral de eficácia
que se aplica à empresa seja substituída, no nível individual, por um uso da
subjetividade destinado a melhorar o desempenho do indivíduo – seu bem-
estar e sua gratificação profissional são dados apenas como consequência
dessa melhoria. Portanto, as qualidades que devem ser desenvolvidas pelo
sujeito remetem a um universo social em que a “apresentação de si mesmo” é um desafio estratégico para a empresa. Se o indivíduo deve ser “aberto”,
“síncrono”, “positivo”, “empático”, “cooperativo”, não é para a felicidade
dele, mas sobretudo e em primeiro lugar para obter do “colaborador” o
desempenho que se espera dele.
Pode parecer que há algo de perverso na manipulação de temas que são
ao mesmo tempo morais e psicológicos. Porque é exatamente como
instrumento eficaz que o sujeito interessa e que se quer impor a ele certa
conduta “correta” em relação aos outros. A despeito das aparências – que,
aliás, participam plenamente da gestão das subjetividades –, não se trata de
aplicar conhecimentos psicológicos ou problemáticas éticas ao mundo da
empresa; ao contrário, trata-se de construir, com o auxílio da psicologia e da
ética, técnicas de governo de si que são parte interessada do governo da
empresa.
Esse é o fundamento da teoria de Will Schutz, psicólogo norte-
americano e autor de uma teoria intitulada Orientações Fundamentais das
Relações Interpessoais (Firo, em inglês). Em Human Element: Self-Esteem,
Productivity and the Bottom Line, ele escreve: “Eu escolho minha vida –
meus comportamentos, pensamentos, sentimentos, sensações, recordações,
fraquezas, doenças, corpo, tudo – ou, então, escolho não saber que tenho
escolha. Sou autônomo quando escolho a totalidade da minha vida” [49]. Em
outras palavras, quando não se pode mudar o mundo, resta inventar-se a si
mesmo. Nem a empresa nem o mundo podem ser mudados, eles são dados
intangíveis. Tudo é questão de interpretação e reação do sujeito. Schutz
escreve ainda: “O estresse não resulta dos ‘estressores’, mas da maneira
como interpreto e reajo a suas injunções” [50]. Técnica do si mesmo e técnica
da escolha misturam-se completamente. A partir do momento que o sujeito
é plenamente consciente e mestre de suas escolhas, ele é também
plenamente responsável por aquilo que lhe acontece: a “irresponsabilidade”
de um mundo que se tornou ingovernável em virtude de seu próprio caráter
global tem como correlato a infinita responsabilidade do indivíduo por seu
próprio destino, por sua capacidade de ser bem-sucedido e feliz. Não se
atravancar com as coisas do passado, cultivar previsões positivas, ter
relações eficazes com o outro: a gestão neoliberal de si mesmo consiste em
fabricar para si mesmo um eu produtivo, que exige sempre mais de si mesmo e cuja autoestima cresce, paradoxalmente, com a insatisfação que se
sente por desempenhos passados. Os problemas econômicos são vistos
como problemas organizacionais, e estes se resumem, por sua vez, a
problemas psíquicos relacionados a um domínio insuficiente de si e da
relação com os outros. A fonte da eficácia está no indivíduo: ela não pode
mais vir de uma autoridade externa. É necessário fazer um trabalho
intrapsíquico para procurar a motivação profunda. O chefe não pode mais
impor: ele deve vigiar, fortalecer, apoiar a motivação. Dessa forma, a
coerção econômica e financeira transforma-se em autocoerção e
autoculpabilização, já que somos os únicos responsáveis por aquilo que nos
acontece.
Sem dúvida, a nova norma de si é a da realização pessoal: temos de nos
conhecer e nos amar para sermos bem-sucedidos. Daí a ênfase na palavra
mágica: “autoestima”, chave de todo sucesso. Contudo, essas afirmações
paradoxais sobre a injunção de sermos nós mesmos e nos amarmos como
somos estão inseridas num discurso que coloca o desejo legítimo como uma
ordem. O management é um discurso ferrenho que usa palavras de veludo.
Sua eficácia deve-se à racionalização lexical, metodológica, relacional, na
qual o sujeito é intimado a entrar. Com esses métodos que afirmam
“desenvolver a pessoa”, temos de lidar com procedimentos essencialmente
gerenciais e produtos plenamente comerciais, como ressalta Valérie Brunel.
Seus procedimentos técnicos, seus esquemas de apresentação, sua divisão
do trabalho entre técnicos e práticos, seus códigos padronizados e
transferíveis, seus “modos de usar”, seus argumentos de venda, seus
métodos de persuasão são diferentes aspectos de uma “tecnologia” humana
pensada como tal e vendida como produto de marca de consumo em grande
escala. Produtos intelectuais sofisticados para dar a entender que se trata de
produtos de alto valor agregado, que fazem jus ao preço que têm, são
também ferramentas de uso simples e resultados rápidos.
Aliás, essa gestão de si é objeto de um comércio intenso, que mobiliza
grandes máquinas oligopolistas e pequenos artesãos em busca de um lugar
no mercado do “desenvolvimento pessoal”. Essa expansão comercial não é
motivo para espanto. Não devemos nos esquecer de que essas técnicas de
gestão de si visam a uma “transformação” de toda a pessoa, em todos os domínios de sua vida. E isso por pelo menos duas razões complementares.
Todos os domínios da vida individual tornam-se potencialmente “recursos”
indiretos para a empresa, já que são uma oportunidade para o indivíduo
melhorar seu desempenho pessoal; todos os domínios da existência são da
competência da gestão de si. Portanto, toda a subjetividade, e não apenas o
“homem no trabalho”, é convocada para esse modo de gestão, mais ainda
na medida em que a empresa seleciona e avalia de acordo com critérios
cada vez mais “pessoais”, físicos, estéticos, relacionais e comportamentais.
Risco: uma dimensão de existência e um estilo
de vida imposto
O novo sujeito é visto como proprietário de “capital humano”, capital
que ele precisa acumular por escolhas esclarecidas, amadurecidas por um
cálculo responsável de custos e benefícios. Os resultados obtidos na vida
são fruto de uma série de decisões e esforços que dependem apenas do
indivíduo e não implicam nenhuma compensação em caso de fracasso,
exceto as previstas nos contratos de seguro privado facultativo. A
distribuição dos recursos econômicos e das posições sociais é vista
exclusivamente como consequência de percursos, bem-sucedidos ou não, de
realização pessoal. Em todas as esferas de sua existência, o sujeito
empresarial é exposto a riscos vitais, dos quais ele não pode se esquivar, e a
gestão desses riscos está ligada a decisões estritamente privadas. Ser
empresa de si mesmo pressupõe viver inteiramente em risco. Aubrey
estabelece uma correlação estreita entre ambos: “O risco faz parte da noção
de empresa de si mesmo”; “a empresa de si mesmo é reatividade e
criatividade num universo em que não se sabe como será o dia de
amanhã”[51].
Essa dimensão não é nova. Há muito tempo a lógica de mercado foi
associada ao perigo das vendas fracas, das perdas, da falência. A
problemática do risco é inseparável dos “riscos do mercado”, dos quais
desde a Idade Média era necessário saber se proteger por meio de técnicas
de garantia. A novidade reside na universalização de um estilo de existência econômica que era reservado aos empreendedores. No alvorecer do século
XVIII, o financista e fisiocrata Richard Cantillon estabeleceu como
princípio “antropológico” a necessidade de distinguir os “homens de renda
certa” dos “homens de renda incerta”, isto é, os “empreendedores”:
Por todas essas induções e uma infinidade de outras que se poderia fazer sobre uma
matéria que tem como objeto todos os habitantes de um Estado, pode-se estabelecer
que, exceto o príncipe e os proprietários de terra, todos os habitantes de um Estado são
dependentes; que estes podem dividir-se em duas classes, a saber, empreendedores e
empregados; e que os empreendedores têm renda incerta, e todos os outros têm renda
certa, enquanto gozarem dela, embora suas funções e suas posições sejam muito
desproporcionais. O general que tem uma remuneração, o cortesão que tem uma
pensão e o criado que tem um salário entram todos nessa última categoria. Todos os
outros são empreendedores, quer por se estabelecerem com um fundo para tocar sua
empresa, quer por serem empreendedores de seu próprio trabalho sem nenhum fundo,
e por se poder considerar que vivem na incerteza; mesmo os patifes e os ladrões são
empreendedores dessa classe.[52]
Hoje, todos os indivíduos deveriam ter “renda incerta”, inclusive
“patifes e ladrões”. Esse é o teor das estratégias políticas ativamente
encorajadas pelo patronato. Aliás, a oposição entre dois tipos de homens, os
“riscófilos”, dominantes corajosos, e os “riscófobos”, dominados
temerosos, foi consagrada por dois teóricos ligados ao patronato francês:
François Ewald e Denis Kessler [53]. Esses autores afirmavam que toda
“refundação social” pressupunha a transformação do maior número de
indivíduos em “riscófilos”. Alguns anos mais tarde, Laurence Parisot, líder
do patronato francês, diria de maneira mais direta: “A vida, a saúde e o
amor são precários, por que o trabalho escaparia dessa lei?”[54]. Devemos
entender por essa declaração que as leis positivas deveriam curvar-se a essa
nova “lei natural” da precariedade. Esse discurso dá ao risco uma dimensão
ontológica, gêmea do desejo que move cada um de nós. Obedecer ao
próprio desejo é correr riscos [55].
No entanto, se desse ponto de vista “viver na incerteza” aparece como
um estado natural, as coisas aparecem com uma feição muito diferente
quando são situadas no terreno das práticas efetivas. Quando se fala em
“sociedades de risco”, é preciso esclarecer do que se trata. O Estado social tratou sob a forma de seguro social obrigatório alguns riscos profissionais
ligados à condição de assalariado. Hoje, a produção e a gestão dos riscos
obedecem a uma lógica muito diferente. Trata-se, na realidade, de uma
criação social e política de riscos individualizados que podem ser geridos
não pelo Estado social, mas por empresas – cada vez mais poderosas e
numerosas – que propõem serviços estritamente individuais de “gestão de
riscos”. O “risco” tornou-se um setor comercial, na medida em que se trata
de produzir indivíduos que poderão contar cada vez menos com formas de
ajuda mútua de seus meios de pertencimento e com os mecanismos públicos
de solidariedade. Do mesmo modo e ao mesmo tempo que se produz o
sujeito de risco, produz-se o sujeito da assistência privada. A maneira como
os governos reduzem a cobertura socializada dos gastos com doenças ou
aposentadoria, transferindo sua gestão para empresas de seguro privado,
fundos comuns e associações mutualistas intimados a funcionar segundo
uma lógica individualizada, permite estabelecer que se trata de uma
verdadeira estratégia.
Aliás, a nosso ver, é isso que deve ser retido dos trabalhos de Ulrich
Beck e da Sociedade de risco. Para ele, o capitalismo avançado destrói a
dimensão coletiva da existência: destrói não só as estruturas tradicionais
que o precederam, sobretudo a família, mas também as estruturas que
ajudou a criar, como as classes sociais. Assistimos a uma individualização
radical que faz com que todas as formas de crise social sejam percebidas
como crises individuais, todas as desigualdades sejam atribuídas a uma
responsa bilidade individual. A maquinaria instaurada “transforma as causas
externas em responsabilidades individuais e os problemas ligados ao
sistema em fracassos pessoais” [56]. O que Beck chama de “agentes de sua
própria subsistência mediada pelo mercado” são os indivíduos “liberados”
da tradição e das estruturas coletivas, liberados dos estatutos que lhes
atribuíam um lugar. Hoje, esses seres “livres” devem “autorreferenciar-se”,
isto é, dar-se referências sociais e adquirir um valor social à custa de uma
mobilidade social e geográfica sem limite determinado. Apesar de essa
individualização pelo mercado não ser novidade, Beck mostra que ela se
radicalizou. O “Estado de bem-estar” teve um papel ambíguo nisso,
contribuindo para a substituição das estruturas comunitárias por “guichês” de auxílio social. Seus dispositivos tiveram um papel importante na
constituição de “riscos sociais” cuja cobertura, logicamente, era
“socializada”. No entanto, seus modos de financiamento, assim como seus
princípios de distribuição, registravam factualmente que esses “riscos
sociais” estavam ligados ao funcionamento da economia e da sociedade,
tanto em suas causas (o desemprego) como em seus possíveis efeitos (o
estado de saúde da mão de obra).
A nova norma em matéria de risco é a da “individualização do destino”.
A extensão do “risco” coincide com uma mudança em sua natureza. Esse
risco é cada vez menos “risco social”, assumido por determinada política do
Estado social, e cada vez mais “risco ligado à existência”. Em virtude do
pressuposto da responsabilidade ilimitada do indivíduo, da qual se falou
antes, o sujeito é considerado responsável tanto por esse risco como pela
escolha de sua cobertura. Encontramos aqui a ideia de que o indivíduo deve
mostrar-se “ativo”, ser “gestor” de seus riscos; assim, consequentemente
convém que suscite e alimente uma atitude ativa em questão de emprego,
saúde e educação. Para certos teóricos do novo rumo, como Ewald, essa
sociedade do risco individual pressupõe uma “sociedade de informação” – o
papel dos poderes públicos e das empresas deveria consistir em fornecer
informações confiáveis sobre o mercado de trabalho, o sistema educacional,
os direitos dos doentes etc.[57].
Isso significa ver uma complementaridade ideológica entre a norma de
mercado baseada na “livre escolha” do sujeito racional e a “transparência”
do funcionamento social, condição necessária para uma escolha ótima. Mas
significa, sobretudo, instaurar um mecanismo que identifica o
compartilhamento da informação e o compartilhamento do risco: a partir do
momento que se supõe que o indivíduo tem condições de acessar as
informações necessárias para sua escolha, deve-se supor que ele se torna
plenamente responsável pelos riscos envolvidos. Em outras palavras, a
implantação de um dispositivo informacional de tipo comercial ou legal
permite uma transferência do risco para o doente que “escolhe”
determinado tratamento ou operação, para o estudante ou o
“desempregado” que “escolhem” certo curso de formação, o futuro
aposentado que “escolhe” uma modalidade de poupança, o turista que aceita as condições do percurso etc. Compreende-se, então, como a instauração de
indicadores e “rankings” faz parte da ampliação do modo de subjetivação
neoliberal: qualquer decisão, seja médica, escolar, seja profissional,
pertence de pleno direito ao indivíduo. O que, devemos lembrar, tem certa
ressonância no indivíduo, na medida em que ele aspira controlar o curso de
sua vida, suas uniões, sua reprodução e sua morte. Mas essa ética
“individualista” é tratada como uma oportunidade de jogar todos os custos
nas costas do sujeito, por mecanismos de transferência do risco que não têm
nada de “natural”. No fundo, a estratégia consiste em partir da aspiração à
decisão pessoal na questão da escolha de vida e reinterpretar o conjunto dos
riscos como escolhas de vida. Aubrey formulou bem esse desvio: “O risco
tornou-se um microrrisco personalizado: a partir do momento que tenho um
trabalho, esse trabalho tem riscos; a partir do momento que tenho saúde,
essa saúde tem riscos; a partir do momento que tenho relações conjugais,
esse casamento tem riscos”[58].
“Accountability”
A novidade do governo empresarial reside no caráter geral, transversal e
sistemático do modo de direção baseado na responsabilidade individual e
no autocontrole. A responsabilidade não é considerada uma faculdade
adquirida de uma vez por todas, mas vista como resultado de uma
interiorização de coerções. O indivíduo deve governar-se a partir de dentro
por uma racionalização técnica de sua relação consigo mesmo. Ser
“empreendedor de si mesmo” significa conseguir ser o instrumento ótimo
de seu próprio sucesso social e profissional. Mas contar apenas com a
tecnologia do “training” e do “coaching” não é suficiente. A instauração de
técnicas de auditoria, vigilância e avaliação visa a aumentar essa exigência
de controle de si mesmo e bom desempenho individual. Embora os coachs
de subjetividades eficazes visem a fazer de cada indivíduo um “especialista
de si mesmo” [59], o essencial, como bem notou Éric Pezet, é fabricar o
homem accountable [responsável]. As técnicas de produção do eu produtivo estão intimamente ligadas a esse modo de controle como
momentos preparatórios ou sequências reparadoras.
Se seguirmos os diferentes sentidos do termo inglês em uso, significa
que o indivíduo deve ser responsável por si mesmo, responder por seus atos
diante dos outros e ser inteiramente calculável. Como diz Pezet: “a
‘responsabilização’ dos indivíduos não os torna apenas responsáveis: eles
devem responder por seu comportamento a partir de escalas de medida
dadas pelos serviços de gestão de recursos humanos e pelos
administradores”[60]. A “avaliação” tornou-se o primeiro meio de orientar a
conduta pelo estímulo ao “bom desempenho” individual. Ela pode ser
definida como uma relação de poder exercida por superiores hierárquicos
encarregados da expertise dos resultados, uma relação cujo efeito é uma
subjetivação contábil dos avaliados. Uma vez que o sujeito aceita ser
julgado com base nessas avaliações e sofrer as consequências, ele se torna
constantemente avaliável, isto é, um sujeito que sabe que depende de um
avaliador e das ferramentas empregadas por ele, sobretudo porque ele
mesmo foi educado para reconhecer de antemão a competência do avaliador
e a validade das ferramentas.
O sujeito neoliberal, portanto, não é o sujeito benthamiano. Este último,
como sabemos, é governável pelo cálculo, porque é calculista. Ora, não se
trata mais, como no utilitarismo clássico, de dispor de um quadro legal e de
um conjunto de medidas de “legislação indireta” conhecidos de todos para
que o indivíduo calcule melhor; trata-se de empregar instrumentos muito
mais próximos do indivíduo (superior imediato), mais constantes
(resultados contínuos da atividade) e mais objetiváveis (medidas
quantitativas levantadas por registro informatizado).
O sujeito neoliberal não é mais exatamente aquele homem situável nos
sistemas administrativos de classificação, distribuível em categorias de
acordo com critérios qualitativos, repartível nas células das tabelas
exaustivas da burocracia industrial pública e privada. O antigo “homem da
organização” era guiado pelo cálculo que fazia de seus interesses de acordo
com um plano de carreira relativamente previsível, em função de seu status,
de seus diplomas e de seu lugar numa grade de qualificações. O antigo
sistema de julgamento burocrático baseava-se na probabilidade estatística de um elo entre a posição do indivíduo na classificação e sua eficácia
pessoal. Tudo isso muda quando se deixa de querer prejulgar a eficácia do
sujeito por títulos, diplomas, status, experiência acumulada, ou seja, a
posição que ele ocupa numa classificação, porque passa-se a confiar na
avaliação mais fina e regular de suas competências postas efetivamente em
prática a todo instante. O sujeito não vale mais pelas qualidades estatutárias
que lhe foram reconhecidas durante sua trajetória escolar e profissional,
mas pelo valor de uso diretamente mensurável de sua força de trabalho.
Vemos, então, que o modelo humano da empresa de si mesmo é requerido
nesse modo de poder que deseja impor um regime de sanção homólogo ao
do mercado.
O ideal – que constitui como que o modelo dessa atividade de
avaliação, inclusive nos setores mais distantes da prática financeira, como
saúde mental, educação, serviços de cuidado à pessoa e justiça – consistiria
em poder avaliar os ganhos produzidos por cada equipe ou indivíduo
considerados responsáveis pelo valor acionário produzido pela atividade
que realizam [61]. A transposição da auditoria a que estão sujeitos os
“centros de resultados” da empresa ao conjunto das atividades econômicas,
sociais, culturais e políticas envolve uma verdadeira lógica de subjetivação
financeira dos assalariados. Todo produto torna-se um “objeto financeiro”,
e o próprio sujeito é instituí do como um criador de valor acionário,
responsável perante os acionistas [62].
Tudo indica que a principal mudança introduzida pela avaliação é de
ordem subjetiva. Enquanto as novas tecnologias orientadas para a produção
da “empresa de si mesmo” pareciam responder a uma aspiração dos
assalariados a mais autonomia no trabalho, a tecnologia avaliativa aumenta
a dependência em relação à “cadeia administrativa”. Obrigado a realizar
“seu” objetivo, o sujeito da avaliação é igualmente constrangido a impor ao
outro (subordinado, cliente, paciente ou aluno) as prioridades da empresa. É
o atendente dos Correios que tem de aumentar as vendas de determinado
“produto”, exatamente do mesmo modo que qualquer consultor financeiro
bancário, mas é também o médico que deve ora prescrever “ações”
rentáveis, ora liberar leitos o mais rápido possível. Uma das consequências
mais seguras é, sem dúvida, que as “transações” ganham cada vez mais espaço em detrimento das “relações”, a instrumentalização do outro ganha
importância em detrimento de todos os outros modos possíveis de relação
com o outro. Contudo, mais fundamentalmente, essa mudança se deve à
forma como os sujeitos são intimados a participar ativamente de um
dispositivo muito diferente do dispositivo característico da era industrial. A
técnica de si mesmo é uma técnica de bom desempenho num campo
concorrencial. Ela não visa apenas à adaptação e à integração, ela visa à
intensificação do desempenho.
O novo dispositivo “desempenho/gozo”
Não compreenderíamos a extensão do desdobramento da racionalidade
neoliberal, ou as formas de resistência encontradas por ela, se a víssemos
como imposição de uma força mecânica sobre uma sociedade e indivíduos
da qual eles seriam pontos de aplicação externos. O poder dessa
racionalidade, como vimos, deve-se à instauração de situações que forçam
os sujeitos a funcionar de acordo com os termos do jogo imposto a eles.
Mas o que é funcionar como uma empresa num contexto de situação de
concorrência? Em que medida isso nos leva a um “novo sujeito”?
Abordaremos aqui apenas alguns dos elementos que compõem o dispositivo
de desempenho/gozo e mostram diretamente sua novidade em relação ao
dispositivo industrial de eficácia.
O novo sujeito é o homem da competição e do desempenho. O
empreen dedor de si é um ser feito para “ganhar”, ser “bem-sucedido”. O
esporte de competição, mais ainda que as figuras idealizadas dos dirigentes
de empresa, continua a ser o grande teatro social que revela os deuses, os
semideuses e os heróis modernos[63]. Embora date do início do século XX e
tenha se mostrado perfeitamente compatível tanto com o fascismo e o
comunismo soviético como com o fordismo, o culto ao esporte sofreu uma
mudança importante quando se introduziu a partir de dentro nas práticas
mais diversas, não só por empréstimo de determinado léxico, mas também,
de forma ainda mais decisiva, pela lógica do desempenho, que altera seu
significado subjetivo. Isso é verdadeiro para o mundo profissional, mas é verdadeiro também para muitos outros campos, como, por exemplo, a
sexualidade. As práticas sexuais, no imenso discurso “psicológico” que hoje
as analisa, estimula e enche de conselhos de todos os tipos, tornam-se
exercícios pelos quais cada um de nós é levado a confrontar-se com a
norma do desempenho socialmente exigido: número e duração das relações,
qualidade e intensidade dos orgasmos, variedade e atributos dos parceiros,
número e tipos de posições, estimulação e conservação da libido em todas
as idades tornam-se objeto de pesquisas detalhadas e recomendações
precisas. Como mostrou Alain Ehrenberg, o esporte tornou-se, sobretudo a
partir dos anos 1980, um “princípio de ação para todos os lados”, e a
competição, um modelo de relação social [64]. O “coaching” é a marca e ao
mesmo tempo o meio dessa analogia constante entre esporte, sexualidade e
trabalho[65]. Foi esse modelo, talvez mais do que o discurso econômico
sobre a competitividade, que permitiu “naturalizar” esse dever de bom
desempenho e difundiu nas massas certa normatividade centrada na
concorrência generalizada. No dispositivo em questão, a empresa se
identifica com os campeões, os quais patrocina e dos quais explora a
imagem, e o mundo do esporte, como bem sabemos, torna-se um
laboratório do business sem constrangimentos. Os esportistas são
encarnações perfeitas do empreendedor de si, que não hesitam um instante
sequer em se vender a quem pagar mais, sem muitas considerações a
respeito da lealdade e da fidelidade. Mais ainda, o cuidado com o corpo, o
aprimoramento de si mesmo, a procura de sensações fortes, o fascínio pelo
“extremo”, a preferência pelo lazer ativo e a superação idealizada dos
“limites” indicam que o modelo esportivo não se reduz ao espetáculo
recreativo de “poderosos” devorando uns aos outros. Alguns jogos
televisivos, os chamados “reality TV”, também ilustram essa “luta pela
vida”, em que apenas os mais espertos e, com frequência, os mais cínicos
conseguem “sobreviver” (Survivor, e sua versão francesa Koh Lanta),
reativando num contexto muito diferente o mito de Robinson Crusoé e a
“sobrevivência dos mais aptos” em situações de perigo extraordinárias.
Esse tipo de “robinsonada” contemporânea radicaliza a nova norma social,
mas mostra à perfeição um imaginário em que desempenho e gozo são
indissociáveis.
O sujeito neoliberal é produzido pelo dispositivo “desempenho/gozo”.
Inúmeros trabalhos enfatizam o caráter paradoxal da situação subjetiva. Os
sociólogos multiplicam os “oximoros” para tentar dizer do que se trata:
“autonomia controlada”, “comprometimento coagido”[66]. No entanto, todas
essas expressões pressupõem um sujeito exterior e anterior à relação‐
específica de poder que o constitui precisamente como sujeito governado.
Quando poder e liberdade subjetiva não são mais contrapostos, quando se
estabelece que a arte de governar não consiste em transformar um sujeito
em puro objeto passivo, mas conduzir um sujeito a fazer o que aceita querer
fazer, a questão se apresenta sob uma nova luz. O novo sujeito não é mais
apenas o do circuito produção/poupança/consumo, típico de um período
consumado do capitalismo. O antigo modelo industrial associava – não sem
tensão – o ascetismo puritano do trabalho, a satisfação do consumo e a
esperança de um gozo tranquilo dos bens acumulados. Os sacrifícios aceitos
no trabalho (a “desutilidade”) eram comparados com os bens que poderiam
ser adquiridos graças à renda (a “utilidade”). Como lembramos antes,
Daniel Bell mostrou a tensão cada vez mais forte entre essa tendência
ascética e esse hedonismo do consumo, uma tensão que, segundo ele,
chegou ao ápice nos anos 1960. Ele entreviu, sem ter ainda condições de
observar, a resolução dessa tensão num dispositivo que ia identificar o
desempenho ao gozo e cujo princípio é o do “excesso” e da
“autossuperação”. Não se trata mais de fazer o que se sabe fazer e consumir
o que é necessário, numa espécie de equilíbrio entre desutilidade e
utilidade. Exige-se do novo sujeito que produza “sempre mais” e goze
“sempre mais” e, desse modo, conecte-se diretamente com um “mais-de-
gozar” que se tornou sistêmico [67]. A própria vida, em todos os seus
aspectos, torna-se objeto dos dispositivos de desempenho e gozo.
Esse é o duplo sentido de um discurso gerencial que faz do bom
desempenho um dever e de um discurso publicitário que faz do gozo um
imperativo. Ressaltar apenas a tensão entre ambos seria esquecer tudo o que
estabelece certa equivalência entre o dever do bom desempenho e o dever
do gozo, seria subestimar o imperativo do “sempre mais” que visa a
intensificar a eficácia de cada sujeito em todos os domínios: escolar e
profissional, mas também relacional, sexual etc. “We are the champions” [Nós somos os campeões] – esse é o hino do novo sujeito empresarial. Da
letra da música, que a sua maneira anuncia o novo curso subjetivo, devemos
guardar sobretudo esta advertência: “No time for losers” [Não há tempo
para perdedores]. A novidade é justamente que o loser é o homem comum,
aquele que perde por essência.
De fato, a norma social do sujeito mudou. Não é mais o equilíbrio, a
média, mas o desempenho máximo que se torna o alvo da “reestruturação”
que cada indivíduo deve realizar em si mesmo. Não se pede mais do sujeito
que seja simplesmente “conformado”, que vista sem reclamar a
indumentária ordinária dos agentes da produção econômica e da reprodução
social. Não só o conformismo não é mais suficiente, como se torna suspeito,
na medida em que se ordena ao sujeito que “se transcenda”, que “leve os
limites além”, como dizem os gerentes e os treinadores. A máquina
econômica, mais do que nunca, não pode funcionar em equilíbrio e, menos
ainda, com perda. Ela tem de mirar um “além”, um “mais”, que Marx
identificou como “mais-valor”. Até então, essa exigência própria do regime
de acumulação do capital não havia desdobrado todos os seus efeitos. Isso
aconteceu quando o comprometimento subjetivo foi tal que a procura desse
“além de si mesmo” tornou-se a condição de funcionamento tanto dos
sujeitos como das empresas. Daí o interesse da identificação do sujeito
como empresa de si mesmo e capital humano: a extração de um “mais-de-
gozar”, tirado de si mesmo, do prazer de viver, do simples fato de viver, é
que faz funcionar o novo sujeito e o novo sistema de concorrência. Em
última análise, subjetivação “contábil” e subjetivação “financeira” definem
uma subjetivação pelo excesso de si em si ou, ainda, pela superação
indefinida de si. Consequentemente, aparece uma figura inédita da
subjetivação. Não uma “trans-subjetivação”, o que implicaria mirar um
além de si mesmo que consagraria um rompimento consigo mesmo e uma
renúncia de si mesmo. Tampouco uma “autossubjetivação” pela qual se
procuraria alcançar uma relação ética consigo mesmo, independentemente
de qualquer outra finalidade, de tipo político ou econômico [68]. De certa
forma, trata-se de uma “ultrassubjetivação” [69], cujo objetivo não é um
estado último e estável de “posse de si”, mas um além de si sempre repelido
e, além do mais, constitucionalmente ordenado, em seu próprio regime, segundo a lógica da empresa e, para além, segundo o “cosmo” do mercado
mundial.
Da eficácia ao desempenho
Qual é a diferença em relação ao homem econômico clássico? A alma
continuou a depender do corpo, esse fundamento material de sensações,
ideias, esperanças e motivações. Se pareceu por um momento que Foucault
restringia o campo da disciplina ao adestramento e à gestão dos corpos, é
porque os traços corporais eram os primeiros na classificação e na
distribuição dos indivíduos, assim como em seu modo de gestão. A divisão
do trabalho, que repartia os corpos e distribuía os gestos, de certo modo era
o paradigma da gestão dos sujeitos. Todo o utilitarismo clássico era
comandado por essa prevalência, até na ideia de que, pelas palavras, podia-
se chegar aos móbiles das motivações. O próprio princípio de utilidade
repousava na ideia de que tudo que dizia respeito à força corporal e,
portanto, psíquica deveria servir ao máximo, sem nenhum resto. O corpo
como dado principal deveria tornar-se integralmente útil por intermédio das
disciplinas clássicas. “As disciplinas funcionam como técnicas que
fabricam indivíduos úteis”, sublinha Foucault[70].
As coisas mudaram desde então. Esse “quadro natural do corpo
humano” impunha limites ao gozo e ao desempenho que hoje são
inaceitáveis. O corpo é produto de uma escolha, de um estilo, de uma
modelagem. Cada indivíduo é responsável por seu corpo, reinventado e
transformado à própria vontade. Esse é o novo discurso do gozo e do
desempenho que obriga o indivíduo a dar-se um corpo tal que ele possa ir
sempre além de suas capacidades atuais de produção e prazer. Esse é o
mesmo discurso que iguala cada um de nós diante das novas obrigações:
nenhuma deficiência de nascença ou de ambiente pode ser obstáculo
intransponível ao comprometimento pessoal com o dispositivo geral. Por
isso, essa virada somente foi possível a partir do momento em que a função
“psi”, apoiada pelo discurso “psi”, foi identificada como o motor da
conduta e o objeto-alvo de uma transformação possível por técnicas “psi”. Não que o sujeito neoliberal seja produto direto dessa construção, mas o
discurso sobre o sujeito aproximou os enunciados psicológicos e os
enunciados econômicos até quase fundi-los. Esse sujeito é, na realidade, um
efeito compósito, como era o indivíduo do liberalismo clássico. Vimos que
este último era produto combinado de considerações múltiplas, de
diferentes ordens (a anatomia e a fisiologia combinaram-se com a economia
política e a ciência moral para lhe dar um fundamento intelectual sólido).
Da mesma maneira, é pela combinação da concepção psicológica do ser
humano, da nova norma econômica da concorrência, da representação do
indivíduo como “capital humano”, da coesão da organização pela
“comunicação”, do vínculo social como “rede”, que se construiu pouco a
pouco essa figura da “empresa de si”.
Nikolas Rose mostrou em seus trabalhos, muito inspirado nas pesquisas
de Foucault, que o discurso “psi”, com seu poder de expertise e sua legiti‐
midade científica, contribuiu largamente para a definição do indivíduo
governável moderno [71]. O discurso “psi”, entendido como “tecnologia
intelectual”, permitiu que os indivíduos fossem conduzidos a partir de um
saber relativo a sua constituição interna. Fazendo isso, formou indivíduos
que aprenderam a conceber-se como seres psicológicos, a julgar-se e
modificar-se por um trabalho em si mesmos, ao mesmo tempo que deu às
instituições e aos governantes meios de dirigir a conduta desses indivíduos.
Concebendo o sujeito como lugar de paixões, desejos e interesses, mas
também de normas e julgamentos morais, pôde-se compreender como as
forças psicológicas são móbiles de conduta, e como agir tecnicamente no
campo psíquico por meio de sistemas adaptados de estímulo, incentivo,
recompensa, punição. Todo um conjunto de técnicas de diagnóstico e
“ortopedia psíquica”, no campo educacional, profissional e familiar, foi
integrado ao grande dispositivo de eficácia das sociedades industriais. A
ideia diretriz era a da adaptação mútua dos móbiles psicológicos e das
coerções sociais e econômicas, o que nos ensinou a ver a “personalidade” e
o “fator humano” como um recurso econômico pelo qual se deve “zelar”.
A psicologização das relações sociais e a humanização do trabalho
caminharam durante muito tempo de mãos dadas, com as melhores das
intenções. Ergonomistas, sociólogos e psicossociólogos quiseram dar uma resposta à aspiração dos trabalhadores a viver melhor no trabalho e até
mesmo a encontrar prazer nele. Ao mesmo tempo, a dimensão subjetiva
tornou-se tanto uma realidade em si como um instrumento objetivo de
sucesso da empresa. A “motivação” no trabalho apareceu, então, como o
princípio de uma nova maneira de conduzir os homens no trabalho, mas
também os alunos nas escolas, os doentes nos hospitais e os soldados no
campo de batalha. A subjetividade, feita de emoções e desejos, paixões e
sentimentos, crenças e atitudes, foi vista como a chave do bom desempenho
das empresas. Departamentos de recursos humanos, empresas de seleção e
recrutamento e especialistas em formação puseram em ação um trabalho
específico de conciliação entre a subjetividade desejante e os objetivos da
empresa. Esse “humanismo” empresarial foi apoiado de fora por todos os
reformistas bem-intencionados, que acreditavam que um trabalhador seguro
e realizado era um trabalhador mais motivado, logo, mais eficaz. Daí a
ênfase na harmonia do grupo, no “sentimento de pertencimento” e na
“comunicação”, com suas virtudes terapêuticas e seu alcance persuasivo.
Como observa Rose, “a democracia caminhava de mãos dadas com a
produtividade industrial e a satisfação humana” [72]. Inúmeras
considerações, no cruzamento da psicossociologia com o engajamento
sindical e político, chegaram a ver nos efeitos do “estilo democrático da
liderança” sobre a “subjetividade coletiva” argumentos científicos a favor
do socialismo autogestor.
O discurso “psi”, quando cruzou com o discurso econômico, teve outros
efeitos sobre a cultura cotidiana, dando uma forma científica à ideologia da
escolha. Numa “sociedade aberta”, todo indivíduo tem o direito de viver
como bem entende, escolher o que quiser, seguir as modas que preferir. A
livre escolha não foi recebida inicialmente como uma ideologia econômica
de “direita”, mas como uma norma de conduta de “esquerda”, segundo a
qual ninguém pode opor-se à realização de seus desejos. Enunciados
econômicos e enunciados do tipo “psi” juntaram-se para dar ao novo sujeito
a forma do arbítrio supremo entre “produtos” e estilos diferentes no grande
mercado dos códigos e dos valores. Foi ainda essa conjunção que deu
origem a essas técnicas de si que visam ao desempenho individual por meio
de uma racionalização gerencial do desejo. Mas foi outra modalidade dessa conjunção que permitiu o desenvolvimento do dispositivo de
desempenho/gozo, uma modalidade que consiste não em perguntar em que
medida o indivíduo e a empresa, cada qual com suas exigências próprias,
podem adaptar-se um ao outro, mas como o sujeito psicológico e o sujeito
da produção podem identificar-se. Para falar em termos freudianos, a
questão não é mais fazer com que os indivíduos passem do princípio do
prazer ao princípio da realidade – objetivo terapêutico dos partidários de
uma psicanálise “adaptativa” que promete um acréscimo de “felicidade”
para os mais bem adaptados[73]; a questão agora é fazer os indivíduos
passarem do princípio do prazer ao além do princípio do prazer. A
identificação entre os dois sujeitos distancia-se do horizonte homeostático
do equilíbrio para operar na lógica da intensificação e da ilimitação. Sem
dúvida, alguns dirão que a ilusão do gozo, da adaptação do sujeito e do
objeto, sob a forma da “realização” e do “domínio de si mesmo”, foi
mantida.
Mas o essencial não reside nisso. Desse ponto de vista, embora Rose
tenha razão em propor que as técnicas “psi” e a governamentalidade própria
das democracias liberais se copertençam, ele não percebe que o ideal de
domínio de si mesmo não caracteriza mais a subjetividade propriamente
neoliberal[74]. A liberdade tornou-se uma obrigação de desempenho. O
normal não é mais o domínio e a regulação das pulsões, mas sua
estimulação intensiva como principal fonte de energia. É em torno da norma
da competição entre empresas de si mesmo que a fusão do discurso “psi”
com o discurso econômico se opera, que as aspirações individuais e os
objetivos de excelência da empresa se identificam, que, em suma, o
“microcosmo” e o “macrocosmo” se harmonizam.
Evidentemente, a gestão não é a única a assegurar essa conjunção. O
marketing é empuxo-ao-gozo [pousse-à-jouir] incessante e onipresente,
ainda mais eficaz na medida em que promete, pela simples posse dos signos
e dos objetos do “sucesso”, o impossível gozo último. Uma imensa
literatura de revistas, uma enxurrada de programas de televisão, um teatro
político e mediático non stop e um imenso discurso publicitário e
propagandista exibem incessantemente o “sucesso” como valor supremo,
sejam quais forem os meios para consegui-lo. Esse “sucesso” como espetáculo vale por si mesmo. O que ele atesta é apenas uma vontade de ser
bem-sucedido, apesar dos fracassos inevitáveis, e um contentamento por tê-
lo conseguido, ao menos por um breve momento da vida. Essa é a própria
imagem em que se resume o dispositivo de desempenho/gozo. Desse
ângulo, autoridades políticas de um tipo novo, como Silvio Berlusconi ou
Nicolas Sarkozy, simbolizam o novo curso subjetivo[75].
Diagnósticos clínicos do neossujeito
Tal sujeito encontra sua verdade no veredito do sucesso, submete-se a
um “jogo da verdade” em que prova seu ser e seu valor. O desempenho é,
muito precisamente, a verdade tal como o poder gerencial a define. Esse
dispositivo de conjunto produz efeitos patológicos aos quais ninguém
escapa completamente. Através da abundante literatura clínica
contemporânea, podemos distinguir alguns sintomas. Eles têm um ponto em
comum: podem se referir ao definhamento dos quadros institucionais e das
estruturas simbólicas nos quais os sujeitos encontravam seu lugar e sua
identidade. Esse definhamento é uma consequência direta da substituição
manifesta e geral da instituição pela empresa ou, mais exatamente, da
mutação da instituição em empresa. Hoje é a empresa que tende a ser a
principal instituição distribuidora de regras, categorias e proibições
legítimas; é também como empresa que qualquer instituição tem
legitimidade para estabelecer regras e identidades sociais; enfim, é à
maneira da empresa, segundo a lógica da eficácia e da competição, que toda
instituição participa da normatividade.
O paradoxo em torno do qual gira o diagnóstico clínico é que as
instituições que distribuem os lugares, determinam as identidades,
estabilizam as relações e impõem os limites são cada vez mais regidas por
um princípio de superação contínua dos limites, um princípio que a
neogestão tem o encargo de pôr em prática. O “mundo sem limites” não
está ligado a um retorno à “natureza”: ele tem o efeito de um regime
institucional particular que vê todo limite como potencialmente já superado.
Longe do modelo de um poder central que comandaria remotamente os sujeitos, o dispositivo de desempenho/gozo distribui-se em mecanismos
diversificados de controle, avaliação e incentivo e participa de todas as
engrenagens da produção, de todos os modos de consumo, de todas as
formas de relações sociais.
Nós nos propomos estabelecer aqui um quadro de conjunto dos
diagnósticos feitos pela clínica médica ainda em desenvolvimento.
Sofrimento no trabalho e autonomia
contrariada
Os efeitos da gestão por meio de objetivos e projetos foram objeto de
numerosas análises sociológicas e psicológicas, algumas das quais com
ampla repercussão [76]. Hoje, o “estresse” e o “assédio” no trabalho são
reconhecidos, em relação ao aumento dos casos de suicídio no local de