A Rainha Ginga

José Eduardo Agualusa · Capítulo 9 de 12

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A Rainha Ginga

Capítulo Oitavo

 

Neste capítulo acompanhamos Francisco José da Santa Cruz no seu regresso a Angola. Dá-se conta de como o narrador foi julgado e morto em Lisboa, num auto de fé, e relata-se ainda a tomada de Luanda e um dramático e emotivo reencontro.

O CONDE JOÃO MAURICIO DE NASSAU estava certo ao prever que iríamos simpatizar com Cornélio Jol. Quando alcançámos a costa de Angola, após dez semanas de uma jornada tormentosa, já tínhamos com ele a intimidade dos amigos de infância. Cornélio confirmou ser, como afirmara o conde de Nassau, um homem inteligente e corajoso e um bom comandante. Revelou-se, além disso, um interessante conversador e um apaixonado jogador de xadrez.

Graças ao férreo mando de Jol, o Enkhuizen primava pelo asseio e pela boa ordem. O almirante ofereceu-nos, a mim e a Ingo, uma ampla e desafogada cabina, em nada semelhante à triste choupana em que fôramos forçados a dormir no navio de Ali Murato.

No dia do embarque estranhei um volumoso baú que Ingo fizera instalar nos nossos aposentos.

— O que levas aí? Não me digas que é a bela Anna...

Disse isto soltando uma sincera gargalhada. Ingo não se riu. Empalideci. Falhou-me a voz:

— É Anna?!

Aquiesceu com um vago gesto. Olhei-o perplexo:

— Enlouqueceste?! Porque não me disseste antes?

— Porque não permitirias que eu a trouxesse.

— É verdade, amigo, não permitiria. Pensaste na desgraça que será se a descobrem?...

— Teremos cuidado para que isso não aconteça.

— Mesmo que seja possível levá-la em segredo até Luanda e depois desembarcá-la em segredo, o que farás quando chegares?

— Não permanecerei muito tempo na cidade. Junto alguns escravos e sigo ao encontro da rainha, posto que é esse o meu dever. Anna virá comigo, estará segura no quilombo.

Ouvindo-o falar, tão sério, tão seguro de si, tão determinado, aquilo que ao princípio se me afigurava uma imensa insensatez começou a parecer-me algo não só coerente — mas inevitável. A convicção é, por certo, a mais proveitosa das virtudes. Um homem sábio, porém destituído de fé, falhará sempre. Um homem de fé, pelo contrário, está destinado a triunfar por mais que lhe falte o engenho e a fortuna — ou mesmo o juízo.

Ingo abriu o baú. Lá estava Anna, ainda mais loura, ainda mais pálida, afundada entre brandas almofadas de cetim. Pôs-se muito rubra ao ver-me. Nos dias seguintes, partilhando com ela o ar escasso, acabei, se não por compreender, ao menos por aceitar a loucura de Ingo. Anna tinha um riso claro e puro, que nos distraía dos erros do mundo. Não temia pensar, ainda que o seu pensamento fosse contra as ideias comuns, a religião na qual fora educada e todas as regras da sua própria nação.

Ingo evitava abandonar a cabina, alegando uma indisposição tenaz, própria de quem nunca gostara do mar. Eu levava-lhe comida e bebida, que ele repartia com a flamenga.

O asseio e ordem que Jol impunha a todos na sua esquadra explica o escasso número de soldados e marinheiros que adoeceram durante a travessia. Não tivemos uma única morte. Isto não obstante um terrível tufão que sobre nós caiu, a meio da jornada, partindo-nos o mastaréu da gávea. Sete outros galeões ficaram também muito maltratados, dos quinze que nos acompanhavam.

A esquadra transportava novecentos marinheiros e cerca de três mil soldados — estes sob o comando de um jovem escocês, James Henderson, filho de um famoso coronel Henderson, morto na Holanda, anos antes, em combate contra os espanhóis.

Entre os soldados distinguia-se um terço de duzentos e oitenta arqueiros e mosqueteiros índios, da nação tapuia, capitaneados por um certo Simão Janduí, que estudara nos Países Baixos, discorria alegremente em holandês, gostava de beber (talvez um pouco além da conta) e defendia com enorme paixão as heresias próprias dos calvinistas e luteranos. Simão Janduí era um homem alto, encorpado, com a pele mais clara do que o comum dos índios, embora natural entre os da sua nação. Os tapuias gozam da fama de ferozes e muitíssimo possantes, sendo voz corrente que com uma só pancada de porrete são capazes de arrancar a cabeça de um homem. Nunca vi tal horror, e espero nunca ver, mas tenho para mim que a cabeça de um homem, quando atingida pela fúria de um porrete, mais facilmente estala e se desfaz do que abandona Intacta o respetivo pescoço.

Simão Janduí representava para os flamengos o que Filipe Camarão era para os portugueses. Ao contrário de Filipe Camarão, porém, que desfrutou a glória de morrer na sequência de ferimentos sofridos em batalhas, Simão Janduí padeceu um injusto e crudelíssimo fim.

Vimos aproximar-se a costa de África. Corremos ao longo da mesma, primeiro para sul e depois para norte, durante uma semana inteira, tentando descobrir uma qualquer referência que nos servisse de orientação. Escrevo «nos servisse de orientação», e é de mim e de Ingo que estou falando, pois éramos os únicos de entre os quase quatro mil homens daquela esquadra que conheciam a região.

Jol exasperou-se:

— Vossas senhorias largaram destas costas para o Brasil, passearam-se por elas, e não as reconhecem?!

O pirata tinha razões para se mostrar enfadado. Havíamos demorado muito a fazer a travessia e as provisões começavam a esgotar-se — incluindo a água.

Estávamos naquela aflição quando recebemos a notícia de que um dos nossos galeões apresara um navio mercante, o Jesus Maria José, que se dirigia a Luanda transportando cento e sessenta pipas de vinho. O capitão do navio era um espanhol chamado Alonso de la Mata, improvável mistura entre Dom Quixote e Sancho Pança. Explico-me — fisicamente era o próprio Dom Quixote, alto, magro e anguloso, mas no espírito prático e simples depressa mostrou ser um verdadeiro Sancho Pança. Empalideceu quando, levado à presença do almirante Jol, pousou os olhos na infame perna de pau. Recuperado do susto dobrou-se em cortesias, dizendo que com agrado nos oferecia todo o vinho que trouxera, além de muita carne seca e outras provisões, pois bem via que estávamos necessitados dela. Auxiliar-nos-ia no que fosse necessário, assim o deixássemos regressar a Lisboa com o navio intacto e toda a marinharia.

Jol mostrou-se magnânimo — sem deixar de ser pirata. Ficou-lhe com o vinho, mas prometeu poupar-lhe a vida e a de todos os seus marujos. Queria apenas que nos conduzisse a Luanda.

Alonso cumpriu o prometido. Uma bela tarde lá vimos surgir a ponta da ilha e, do outro lado, na formosa baía, o casario branco, as igrejas, mosteiros e fortalezas, alongando-se pelas praias. Lançámos ferro, aguardando que se juntasse a nós a restante esquadra, o que poderia demorar alguns dias, tão espalhados os navios estavam uns dos outros. Posso imaginar o susto dos portugueses vendo aproximar-se a pesada sombra do Enkhuizen, com as suas mil e duzentas toneladas e as quarenta e seis bocas negras dos seus canhões. Seguindo o Enkhuizen, para que não houvesse dúvidas sobre as intenções que nos moviam, avançavam o Orange, com as suas setecentas toneladas e vinte e oito peças, o Huys Nassau, com trezentas toneladas e vinte e quatro peças, e o Utrecht, com quatrocentas e dez toneladas e vinte peças.

Logo escutámos as buzinas de guerra e vimos os soldados portugueses, com os seus aterrorizados estandartes, marchando em direção ao Forte do Penedo.

A essa altura estávamos nós sentados na coberta, saboreando o bom vinho que o Jesus Maria José carregava. Alonso de la Mata apontou com um dedo ossudo para um ponto da praia, distante meio caminho entre o Forte do Penedo e o de Cassondama:

— Veja aquela praia, excelência — disse para Jol. — Está fora do alcance dos canhões do Forte do Penedo. Está também fora do alcance dos canhões do Forte de Cassondama. É ali que deve desembarcar as suas tropas.

Pareceu-me uma excelente ideia. Os portugueses esperavam, com certeza, que nos aventurássemos pela baía, atacando diretamente o Forte do Penedo. Poderíamos conquistar o forte, ao fim de algumas horas de combate, mas sofrendo a perda de muitas vidas. A proposta do espanhol era, sem dúvida, a mais sensata.

Enquanto palestrávamos, soubemos que um outro navio português, o São Pedro, fora capturado pelas nossas forças, algumas milhas a norte. No dia seguinte recebemos a visita do proprietário, um rico homem de Luanda, conhecido por todos pela alcunha de Faísca. Ao contrário de Alonso de la Mata, o tal Faísca não se intimidou nem um pouco ao dar de caras com o Pé-de-Pau. Engrossou a voz — que já a tinha, de natural, bem grossa e timbrada — e exigiu que o deixassem aportar a Luanda, argumentando não estar Portugal em guerra com a Holanda.

— Ao tomar o meu navio vossa mercê comete um ilegítimo ato de guerra, na medida em que Portugal assinou no mês de junho um tratado de paz com os Estados Gerais dos Países Baixos. Não sendo um ato de guerra, então é um ato de pirataria. Portanto, ou vossa mercê é um oficial sedicioso ou, pior, um pirata. Em qualquer dos casos terei de o tratar como trato um qualquer bandido...

Temi que Jol o mandasse degolar ali mesmo. Cheguei a erguer-me, disposto a impedir uma tragédia. O pirata, contudo, soltou uma redonda gargalhada, bateu três vezes no estrado com o madeiro que lhe servia de perna, gesto que nele era sinal de muito boa disposição, e ofereceu uma cadeira ao Faísca:

— Sente-se, senhor, sente-se. Saiba que não estou ao serviço dos Países Baixos. Estou, sim, ao serviço da Companhia das índias Ocidentais. Respeito os valentes. Diga-me o que posso fazer por si.

Sentou-se o Faísca — ainda chispando lume pelos olhos — e disse que transportava no seu navio algumas senhoras de Luanda, as quais iam juntar-se aos maridos, e lhe parecia uma grave descortesia não permitir que desembarcassem sãs e salvas e com todos os seus pertences. Jol concordou. Deu logo ordens para que preparassem um batel e levassem as senhoras para terra, antes que começassem os tiros.

Faísca preparava-se para embarcar no batel quando me viu. Até essa altura não tinha dado por mim. Olhou-me surpreso. Aproximou-se abanando a cabeça, com um sorriso de troça:

— Estou reconhecendo vossa mercê. Saiba que assisti em Lisboa ao seu julgamento e condenação. Vi-o arder, dentro de uma gaiola. Ah, e com que alegria o vi arder. — Riu-se ao perceber o meu terror. — Sim, sim, vi-o arder. Não era vossa mercê, está visto, era uma figurinha de papelão figurando vossa mercê. Mas saiba que nós festejámos, vendo arder tal figurinha, como se vossa mercê estivesse realmente ali, ardendo e contorcendo-se e chorando enquanto as chamas o consumiam.

Voltou costas, sem esperar pela minha resposta, e desceu para o batel, onde já o aguardavam todas as senhoras, escravos e uma dúzia de remadores flamengos.

Fiquei no convés, lívido, com as pernas trémulas, vendo afastar-se o barco. O grupo teve tão pouca sorte que, a poucas braças da praia, caiu sobre a embarcação uma terrível onda e a virou e desfez em pedaços. Testemunhei — espreitando pelos óculos que Cipriano me oferecera à despedida — a bravura com que Faísca se lançava às águas e salvava as senhoras, colocando-as a todas em terra, se bem que muito molhadas e descompostas. Também os remadores se salvaram.

Na manhã seguinte vimos aproximar-se de nós um outro batel, trazendo a bordo os remadores flamengos que haviam naufragado, além de meia dúzia de notáveis cidadãos de Luanda, entre os quais distingui a figura lânguida e loura (embora já não tão loura) de Silvestre Bettencourt.

O antigo senhor de engenho subiu a bordo à frente dos restantes cavalheiros. Ao ver-me teve um involuntário movimento de aversão. Julguei, como na minha primeira visita a Luanda, que reconhecera em mim a testemunha antiga dos seus crimes. Teria ficado feliz por isso. Mas não, creio que reconheceu apenas o padre traidor. Logo recuperou o sorriso. Cumprimentou-me com delicadeza. Cumprimentou Jol, Henderson e os oficiais que o rodeavam. Explicou que a comitiva falava em nome do governador de Luanda e de todos os honestos cidadãos do país. Vinham agradecer a cortesia do almirante Jol, por haver permitido o desembarque das senhoras. Vinham também avaliar as intenções do almirante, dado o desassossego que tantas peças voltadas contra a cidade estavam provocando entre os seus moradores. Lembrou, como já antes fizera o Faísca, que aquela terra, bem como todo o reino, estava sujeita a El-Rei Dom João, o Quarto, e que o mesmo rei assinara um tratado de paz com os Países Baixos.

Jol não lhe respondeu logo. Mandou servir o vinho português que roubara a Alonso de la Mata. Brindou à derrota e ao desfalecimento de Espanha. Bebemos todos. Brindou à morte de Filipe, o Quarto — que fora o Terceiro de Portugal. Bebemos todos. Brindou à saúde de El-Rei Dom João, o Quarto. Bebemos todos. Brindou a um futuro próspero para Luanda e os seus habitantes. Bebemos todos. Brindou ao bem-estar dos presentes. Bebemos todos. Brindou à alegria. Bebemos todos. Brindou ao vinho e ao amor. Bebemos todos. Finalmente, quando já alguns de entre nós começavam a mostrar notória dificuldade em manter o prumo, Jol — sem que lhe tremesse a voz, nem de vergonha, nem em razão do álcool — reafirmou desconhecer qualquer contrato de paz firmado entre os Países Baixos e Portugal. Ainda que assim fosse não poderia saber, com absoluta certeza, se o governador, que até há pouco apoiara, de todo o coração, Filipe, o Quarto, o Terceiro de Portugal, apoiava agora, com aquele mesmo coração de traidor, o legítimo rei de Portugal. Finalmente, não estava ao serviço de nenhuma nação e sim de uma companhia, e essa companhia contratara-o para conquistar Luanda. Iria conquistar Luanda.

Foram-se os visitantes muito trôpegos e assustados. Momentos depois escutámos os aflitos sinos das igrejas tocando a rebate. Durante todo o dia acompanhei com os meus óculos de ver ao longe as longas filas de moradores abandonando a cidade. Vi os escravos transportando as suas senhoras em rica liteiras. Vi-os carregando às costas enormes baús, espelhos, camas e cadeiras.

Jol pediu-me os óculos:

— Estão a fugir com a minha prata e o meu ouro — lamentou-se. — Estão a usar os meus escravos para roubarem o meu ouro.

Queria desembarcar os homens disponíveis e iniciar a peleja, tomar os fortes, conquistar a cidade. Henderson e os restantes oficiais dissuadiram-no. Para assegurar o bom êxito da operação parecia-lhes imperioso aguardar que toda a esquadra lançasse ferro diante da cidade.

Na manhã seguinte, muito cedo, começaram os flamengos a desembarcar naquele ponto da praia que nos mostrara Alonso de la Mata. Imagine-se a surpresa dos portugueses, que nunca haviam previsto tal, disparando contra os nossos soldados os seus impotentes canhões. O mais difícil foi galgar as barrocas, pois, conquanto se desenhasse através delas um estreito caminho, logo este se encheu de gente armada, alguns a cavalo, e todos fazendo grossa fuzilaria.

Henderson subiu à frente do primeiro grupo de flamengos. O desembarque de Simão Janduí e dos seus arqueiros e mosqueteiros, logo depois, abalou muito os portugueses, em particular a tropa preta do valoroso capitão-mor e tandala do reino, António Dias Musungo, os quais nunca antes haviam visto tal gente. Os tapuias disparavam as suas flechas e fuzis sem abrandarem a corrida, morro acima, em aterradora gritaria. Detinham-se, breves segundos, apenas para degolar os feridos.

Três a quatro horas após cair a noite já as nossas tropas se haviam apossado de todos os fortes e fortalezas. Ficámos a saber, interrogando um oficial ferido, que escapara de ser degolado pelos índios de Simão Janduí, que o governador Pedro César de Menezes, ao qual os ambundos chamavam Camongoa, fugira com as suas últimas forças pelo caminho do Convento de São José.

A notícia deixou-me dividido: por um lado sentia-me exultante, pois fora um triunfo rápido, com escassos mortos e feridos de ambas as partes; por outro, não podia deixar de me sentir vexado, enquanto ouvia Jol e os restantes oficiais troçarem da facilidade com que os portugueses haviam retirado:

— Os portugueses fugiram tão depressa que não nos deram sequer a possibilidade de mostrar a nossa bravura. Com cobardes assim ninguém consegue ser herói.

Jol só permitiu que eu desembarcasse, juntamente com Ingo (e o seu precioso baú), três dias após a vitória. Já não se escutavam tiros. Muitos escravos que haviam combatido ao lado dos portugueses abandonavam-nos no mato, largando as cargas, e voltavam para a cidade a oferecer-nos os seus serviços. Contratámos seis destes homens, os mais robustos, para transportar o baú de Ingo e o resto dos nossos pertences.

Tirando os escravos, a maioria dos quais deambulava sem rumo ou dormia estirada sobre a areia vermelha, a cidade estava quase deserta. Atravessámos as ruas-fantasmas como quem cruza um sonho. Lembro-me de ter entrado, meio pasmo, no antigo palacete do defunto Bernardo de Menezes, um dos homens mais ricos da cidade, antigo senhor do meu amigo Domingos Vaz. Lá estava a biblioteca de que o tandala tanto me falara, com todos os seus livros, centenas deles, alinhados nas estantes. Havia uma larga mesa, cortada e trabalhada em madeira de jacarandá. Encontrei, pousada sobre ela, como se tivesse sido abandonado há instantes, um livro aberto. Era a Bíblia Sagrada. Li:

«Porventura mudará o etíope a sua pele? Ou o leopardo as suas manchas? Assim vós podereis fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal.»

Tirei das estantes, sem refletir, uma braçada de volumes e prossegui o meu caminho com eles. Ingo olhou-me espantado:

— O que fazes tu? Roubas?!

Detive-me, num sobressalto, sem saber o que retorquir. Com aquele meu gesto não pensara em roubar — mas em salvar. Dei meia-volta, na intenção de devolver os livros às estantes onde os encontrara. À frente do palacete de Bernardo de Menezes erguia-se um outro casarão que me surpreendera, ao passarmos por ele a primeira vez, porque era o único que não mostrava as portas escancaradas. Agora, sim, tinha-as abertas. Uma mulher de pé, à entrada, apoiava-se a um rapaz muito alto, muito esguio, muito calado, como um anjo num lamaçal. Olhavam ambos para mim — e o rapaz tinha os meus olhos.

— Muxima? — perguntei.

— Francisco?

Muxima, aliás Dona Inês de Mendonça, empurrou o rapaz na minha direção:

— É o teu pai — disse-lhe. — Cumprimenta-o.