A Rainha Ginga
Capítulo Terceiro
A INCRÍVEL MAS VERDADEIRA HISTÓRIA de Cipriano Gaivoto e de como este se transformou em Abdullah, o Mouro. Neste capítulo se lança também um olhar à extraordinária coleção de esposas da rainha Ginga e se dá notícia do seu casamento com o poderoso soba dos jagas.
1
NAQUELES PRIMEIROS DIAS DE FUGA, percorrendo os sertões numa deriva cega, sofrendo de fome e de sede, e sem o apoio de Domingos Vaz para me ajudar na compreensão do que se passava em redor, voltei-me para o português, de seu nome Cipriano, ou Abdullah, o Mouro, de que vos falei atrás.
Cipriano nasceu em Évora. Ainda jovem caiu em desgraça junto ao Tribunal do Santo Ofício, acusado de manter comércio infame com demónios súcubos, entre muitos outros pecados, heresias e blasfémias. Sujeito a tormentos, confessou todos os seus crimes, dos quais se mostrou muito arrependido, sendo enviado para as galés por cinco anos.
Teria morrido acorrentado aos remos, como tantos outros, comendo dois punhados de biscoitos negros uma vez por dia, e apanhando açoites no lombo mais do que comendo, todo o seu mundo reduzido a quatro palmos de banco. Felizmente (para ele) deu-se o caso de a galé em que servia ter sido aprisionada por piratas mouros ao largo de Lanzarote.
Escravo dos mouros, foi tratado com mais humanidade, ainda a bordo, do que fora como penitente nas galés dos cristãos. Os mouros davam aos prisioneiros a comida de que eles mesmos se serviam, arroz e trigo cozido, azeitonas, queijo, além de passas, que é alimento muito bom para quem viaja no mar.
Foi vendido em Argel a um fabricante de lentes, ocupando-se no polimento destas. Vivendo entre a mouraria não lhe custou fazer-se turco, isto é, renegar a fé em Cristo, que, de resto, tanto mal lhe fizera, convertendo-se à de Maomé. Ao vê-lo muçulmano, o seu senhor libertou-o, prática que me dizem ser comum entre alguns nobres mouros, aos quais repugna escravizar homens de idêntica fé. O português mudou o nome para Abdullah, casou com uma etíope, chamada Aícha, que lhe deu cinco filhos, e pouco a pouco foi-se esquecendo de Évora e de toda a vida passada. Era já inteiramente mouro, e começara a enriquecer, quando tomou a decisão de abandonar a família e partir para Zanzibar, vendendo armas e comprando escravos. Este ofício o trouxe por trabalhosos caminhos até Angola, tornando-se figura importante no Reino do Dongo, primeiro, em razão das muitas armas de fogo que vendia, além de panos finos, vindos da China, espelhos e outros produtos; segundo, como hábil conselheiro e informador.
Cipriano era muito prático em várias línguas africanas, em particular o quicongo e o quimbundo. Em árabe, assegurou-me, discorria com tanta fluência quanto em português.
Como nunca o visse de joelhos, orando, à maneira dos mouros, perguntei-lhe se havia também arrenegado a Alá. Olhou-me num grande espanto. Depois riu-se. Ali naqueles matos, tão longe de Roma quanto de Meca, podia dizer-me sem receio o que pensava de Deus, o Deus dos cristãos, o Deus dos mouros, o Deus dos judeus, que era, afinal, o mesmo único e irado Deus. E o que pensava ele?
Ainda hoje, tão distante desse tempo, e tão próximo agora do pensamento de Cipriano, me custa a crer no que então me disse. Na altura olhei-o aterrorizado. Estava habituado às blasfémias jocosas dos marinheiros, dos soldados e dos rústicos em geral. Contudo, nunca ouvira nada assim. O português era um bruto inteligente — que são, tantas vezes, os brutos mais brutos. Contudo, era capaz também de palavras sonhadoras, como um jovem poeta apaixonado. Adivinhou a confusão que me ia na alma, o tormento de me achar tão dividido entre a fé em Cristo e um amor contra Deus e contra a lei, por um lado, e, por outro, entre a bandeira de Portugal e a causa justa, porém inimiga, da rainha Ginga. Tratou de aprofundar essa minha confusão, enredando-me em argumentos que, sendo por vezes escabrosos, tinham a perfeição certeira das coisas mais simples. Anos mais tarde encontrei alguns desses argumentos nos trabalhos de grandes gnósticos e heresiarcas e surpreendi-me com o facto de já não me surpreenderem.
Cipriano defendia, como Valentino de Alexandria e outros panteístas, que tudo o que existe é Deus, incluindo cada homem e cada pedra, e que esse Deus que somos todos não é nem bom nem mau, ou é tudo isso sem distinção e alheadamente. Deus, disse-me Cipriano, é o que somos dormindo.
— Todas as coisas têm o seu Deus — acrescentou. — Estamos cercados por Eles.
Fiquei durante muito tempo pensando naquilo. Imaginando cada homem, cada ser, segregando o seu próprio deus a partir de algum órgão escondido sob a pele da alma: o grave Deus das corujas. O hábil Deus das cobras. O Deus generoso dos quintais. O Deus traiçoeiro das adagas. O Deus zebrado das zebras. O Deus tagarela dos corvos e dos advogados. O humilde Deus dos pardais. O Deus insalubre dos pântanos. O Deus cabisbaixo dos canalhas. O pálido Deus das osgas. O rápido Deus das tormentas. O líquido Deus dos peixes. O áspero Deus dos sertões. O cálido Deus das praias. O ressequido Deus dos catos. O esquivo Deus dos jaguares. O Deus perfumado dos jasmins.
Durante aqueles dias de angústia e de cerco, desgarrado entre uma natureza feroz e gente cuja língua e costumes me eram estranhos, tive muito tempo para pensar em Deus. E quanto mais pensava, mais a dúvida me atormentava.
Fui perdendo a fé ao mesmo tempo que me via apartado do meu amor. Ao segundo dia de fuga, depois de termos saltado aqueles profundíssimos despenhadeiros, suspensos em cipós, perguntei a Cipriano o que acontecera às mulheres e às crianças. O português, um dos poucos que viajava a cavalo, indo e vindo entre a cabeça da tropa e a sua retaguarda, dando instruções e trocando notícias, disse-me que toda aquela gente, ou quase toda, fora capturada pela guerra preta. Entre os cativos contavam-se as duas irmãs da Ginga, a doce Mocambo e a valente Quifungi. Vendo a minha aflição aproximou-se da liteira onde eu seguia e acrescentou que também Muxima caíra nas mãos dos nossos perseguidores. Ela e as duas esposas mais velhas de Domingos Vaz, e os filhos delas. Quis saber o que iria acontecer-lhes. Cipriano pareceu condoer-se de mim. Disse-me que seriam levados para Luanda e repartidos pelos senhores de escravos. Mocambo, Quifungi e outras senhoras de sangue real receberiam, com toda a certeza, um tratamento ajustado à sua elevada posição. O governador iria querer mantê-las de boa saúde, como exemplo da benevolência dos portugueses, e porque poderiam ser-lhe úteis para negociar a paz com a rainha Ginga. Era impossível saber o que aconteceria a Muxima. Seria, talvez, vendida como escrava para o Brasil.
Aquela terrível notícia acirrou a minha crise de fé. Recusava-me a cultuar um Deus que eu sentia, senão como obreiro, ao menos como cúmplice de tantas e tão cruéis perversidades. Em pensamento escutava a suave reprovação dos meus velhos mestres. Voltava a sentir o perfume do incenso e da cera derretida. Deus dera ao homem o livre-arbítrio, ouvia-os repetir. O mal não era uma criação Dele. O Senhor Deus, na sua infinita generosidade, criou um ser livre, capaz de escolher, de forma consciente, os seus próprios caminhos. O homem pode optar entre o bem, que é uma emanação de Deus, ou o mal, que é a ausência do bem. Sim, eu conhecia todas aquelas teses. Lera e relera
A Cidade de Deus, de Santo Agostinho de Hipona, o africano, nascido naquelas mesmas terras de mouros e berberes nas quais Cipriano fora escravo. Começava a intuir, contudo, que para salvar Deus, para o inocentar enquanto criador do mal, Santo Agostinho condenava a humanidade. Na opinião dele as crianças herdaram o pecado de nosso pai Adão. Aquelas que não forem batizadas hão de arder para sempre nas chamas do Inferno.
2
NO AR SEM BRILHO ESTALAVA O CHAMADO dos grilos. Por sobre nós debruçava-se essa estação turva, de madrugadas frias, a que em Angola se chama cacimbo. Eu acordava e levantava-me, e ia fazer o que fazem os vivos, comer, beber, tratar do corpo, como se ainda estivesse a dormir. Os portugueses haviam desistido de nos perseguir. O quilombo reorganizava-se. Sentia-se em toda a gente o desânimo pesado da derrota, um sentimento escuro, uma amargura que parecia contaminar as árvores, as pedras, a triste paisagem.
Tudo o que mancha se desmancha, disse-me Cipriano, assim os velhos e a sua pele cansada, ou os pesados canhões de ferro ardendo em ferrugem. Mostrou-me o rosto e as mãos, cheios de pintas escuras, ao mesmo tempo que se queixava da perna direita, que mal conseguia mover.
Uma turba apática girava em redor. Muitos haviam perdido as mulheres e os filhos. Não creio que amassem a rainha. Seguiam-na por medo e por desventura, que é como em geral os pequenos seguem os grandes.
Ao terceiro mês após a fuga, a rainha mandou-me chamar. Achei-a mais magra, mas não desfalecida, muito pelo contrário. Parecia que haviam acendido uma fogueira dentro do seu parco peito. Era quase bela, assim, iluminada por uma justa ira. Mostrou-me uma carta que um mensageiro acabara de lhe entregar. Fora escrita pelo governador. Li-a, em voz pausada, assustado e envergonhado com o que ia lendo, e depois Cipriano traduziu-a para quimbundo. O governador exigia a rendição da Ginga. Deveria prestar vassalagem a Portugal, mostrando arrependimento. Deveria ainda prescindir de todos os direitos sobre Ambaca, cujo presídio ali se manteria, e comprometer-se a fornecer a cada ano uma certa quantidade de peças (escravos), cujo número já não recordo, senão que me pareceu absurdo. O penúltimo parágrafo citava o meu nome. O governador exigia que o padre Francisco José da Santa Cruz, notório traidor, herético e relapso, lhe fosse entregue para ser julgado pelos muitos crimes cometidos em Angola. Cumpridas todas estas exigências, os portugueses restituiriam as irmãs e mais família da Ginga, devolvendo-lhe além disso o título de rei do Dongo. Ela que não se preocupasse com as duas irmãs e respetivas mucamas pois as recebera em Luanda com todas as mercês, estando alojadas naquela grande casa do senhor Rodrigo de Araújo, onde a Ginga também ficara na visita a Luanda. O governador acrescentava que o título de rei do Dongo cabia agora a Ngola Hari, meio-irmão de Hari diá Quiluange, cuja eleição fora testemunhada e abençoada pelos padres jesuítas António Machado e Francisco Paccónio.
A rainha escutou num grave silêncio. Os macotas, ao lado dela, tremiam de pavor. Eu próprio tive de prender uma mão na outra para que ninguém se apercebesse da minha inquietação. A Ginga riu-se. Olhou para o céu, acima dos ramos do pau de mulemba sob o qual nos assentáramos.
— Mesmo a almofada mais linda, por dentro são só trapos sujos — murmurou em quimbundo.
Como os sobas velhos, como os sábios africanos em geral, a Ginga gostava de citar provérbios, parábolas e contos de criação popular, ainda que a mim muitos parecessem obscuros.
Redigi uma resposta sarcástica. A rainha não se tinha por vassala de ninguém, muito menos de um soberano remoto que ela nunca vira. Agradecia a cortesia com que o governador recebera as irmãs, ainda que para aliviar a fazenda real seria melhor devolvê-las a casa. Ela, Ginga, haveria também de tratar com cortesia semelhante os portugueses que fosse encontrando em seu reino, soldados, sacerdotes ou simples comerciantes.
3
O CASAMENTO ENTRE A RAINHA GINGA e o poderoso soba dos jagas, Caza Cangola, não surpreendeu ninguém. Ao casar-se, a Ginga selava uma aliança que lhe permitia fazer frente aos portugueses e seus aliados, ganhando o estatuto de tembanza, ou governadora, daquele jagado.
Caza era um homem alto, sólido, couraçado como uma abada, ou unicórnio, animal que hoje alguns doutos preferem chamar rinoceronte. O peito, pintado de vermelho e de branco, e largo e duro como um escudo, estava coberto de ásperas cicatrizes, sinais das muitas pelejas em que andara envolvido desde tenra idade. Vestia um saiote confecionado a partir de fibra de palmeira, tão fino quanto a mais fina seda, e trazia o cabelo longo, pelas costas, todo ele bordado com pequenas conchas e outros enfeites.
Ouvi contar sobre ele histórias, as mais extraordinárias, com as quais, em redor das fogueiras, os velhos assustavam os rapazes.
Dizem que, como todos os jagas, enterrava os filhos recém-nascidos ou dava-os de comer às feras.
Os jagas criam como se fossem seus os meninos sequestrados durante as conquistas e razias. A estes meninos, assim que ganham os dentes definitivos, os quimbandas arrancam os da frente, com um pau, e isto é verdade porque eu próprio assisti a tal.
Dizem que matam os próprios filhos para não criarem laços de sangue que os prendam a um lugar e, ao mesmo tempo, na intenção de romper com a tirania das linhagens.
Dizem que os jagas se alimentam dos cadáveres dos inimigos, tanto pelo prazer da carne, quanto por acreditarem que tal perversão lhes couraça o corpo nas batalhas. Também os jagas de coração fraco, que se acobardam na peleja, são mortos e comidos. Dizem que para dormir, o jaga Caza se enrolava em cobras, e com esse proceder era capaz de se introduzir nos sonhos dos desavindos, adivinhando as armadilhas que lhe preparavam e antecipando-se a elas.
Dizem que de noite se transformava num leão, às vezes em mais do que um ao mesmo tempo, e que, sob essa aparência múltipla, ágil e perigosa, corria os sertões, fazendo muita carnificina.
Dizem que comandava as nuvens nos céus, da mesma forma e com a mesma autoridade com que em terra dirigia os seus exércitos. Dispunha as nuvens como batalhões e as fazia ir dali para acolá, e lhes comunicava em que pedaço de terra deveriam largar as suas boas águas. Se acaso decorressem meses sem chover, o gentio se juntava e ia em peregrinação fazer oferendas ao Caza Cangola, implorando-lhe que ordenasse a descida das águas. O rei fazia isso ele próprio, ou delegava a magia em quimbandas adestrados para o efeito, aos quais chamam nganga-diá-nvula, ou sacerdotes da chuva.
Dizem que ele e os seus homens eram capazes de comunicar uns com os outros, em meio ao mais denso palhagal, imitando os cantos dos pássaros, de forma que as tropas contrárias só se apercebiam deles quando já os tinham em cima.
Dizem que herdara do pai uma buzina mágica, a qual, quando soprada nos campos de batalha, deixava os inimigos paralisados, incapazes de mover um braço, de bulir uma perna, e então ele mesmo os ia degolando, um a um, arrancando aquelas aterrorizadas cabeças como quem colhe abóboras. Dizem que nutria um grande fascínio por mulheres prenhas, com as quais se deitava, matando os maridos que se opusessem à sua fera vontade.
Muitos destes murmúrios eram falsos, como comprovei ao longo da minha estada entre os jagas. Suponho que o próprio Caza os ajudava a espalhar, pois nada favorece tanto um cabo de guerra quanto a lenda da sua crueldade.
Muitos anos após os eventos que agora estou narrando, li o testemunho de um inglês, de seu nome Andrew Battel, que viveu longos meses entre os jagas. Battel descreve-os como os maiores devoradores de carne humana do mundo.
Numa cidade cercada por paus de mbonde, ou imbondeiros, como alguns também lhes chamam, que são umas árvores espaçosas como casas, encontrou um grande ídolo, aos pés do qual os jagas depositavam as caveiras dos inimigos. A esse ídolo, a que chamavam quisango, sacrificavam crianças e bodes. Battel afirma ter assistido a terríveis festas, nas quais os jagas dançavam, bebiam um fresco álcool indígena, feito da seiva das palmeiras, ao qual chamam marufo, e comiam carne humana. Eu só os vi beber marufo, que consomem aos litros — secando os palmares por onde passam —, nunca os vi praticar sacrifícios humanos e muito menos devorar carne de gente.
O que levou a rainha a casar-se com Caza Cangola? Já o disse antes: convinha-lhe o poder e a audácia dos jagas. O que levou o belicoso soba a aceitá-la como esposa é mais difícil de compreender: talvez o amor.
Creio que o velho jaga se deixou encantar por aquela mulher que se batia de armas na mão, tão viril quanto o homem mais macho. Uma mulher que nunca se vergava; que não tinha amo nem Deus. Uma mulher que conhecia as artes da guerra, as suas armadilhas e danações, e que ao debater com os seus macotas pensava melhor do que o melhor estratego, pois, sabendo cogitar como um homem, possuía ainda a seu favor a subtil astúcia de Eva.
O forte jaga entregou-se a ela. Depositou-lhe aos pés nus um exército de muitos milhares de arqueiros, besteiros e mosqueteiros, além de um sem-número de gente de infantaria. Homens afeitos à violência, sem medo de coisa alguma, e capazes de caminhar debaixo do sol durante três dias, sem comer e quase sem beber.
Acenderam-se fogueiras nos arraiais. Veio gente de longe trazendo marimbas, chocalhos, pandeiros e violas da terra. Assaram-se bois e carne de caça. Correu muito vinho, legítimo vinho português, além de marufo.
Enquanto toda aquela gente festejava, eu afastei-me. A minha tristeza não se concertava com o espírito da maioria. Em determinada altura, naquela minha absorta e minúscula deriva pelos bairros mais sombrios do quilombo, fui atraído por uma soma de gritos e miados. Avancei, a medo, em direção a tal alarido. Ultrapassei a banza real e cheguei por fim ao cercado dos pavões. O ruído vinha dali. Os grandes pássaros gritavam uns com os outros em agudos e prolongados ais.
Dei com uma mulher, postada à ombreira do cercado, imóvel e alheia. Aproximei-me. A Lua brilhava na noite, como um redondo rasgão aberto numa tenda de couro, iluminada por dentro. Descia dela uma luz macia, esparsa, que mal deixava distinguir as formas. Só quando estava a poucos passos percebi o engano. A mulher era um homem. Julguei, na confusão do primeiro instante, haver tropeçado num nganga dia quimbanda, ou sacerdote do sacrifício. A singular personagem, porém, não trazia a longa e desarrumada gadelha que é apanágio daquela classe de bruxos. Pelo contrário, ostentava uma alta, habilidosa e perfumada cabeleira de mulher. No rosto, muito bem raspado, de traços perfeitos, havia um vago sorriso de troça. Cumprimentei-o em quimbundo, tentando esconder o susto de o encontrar ali: um homem vestido de mulher, guardando aves mágicas. O meu pobre quimbundo fê-lo abrir o sorriso um pouco mais. Nesse tempo eu ainda não falava com fluência a língua do país, tropeçando a cada palavra, mas já era capaz de manter uma pequena conversa. O homem disse chamar-se Samba N’Zila e ser uma das esposas do rei. Tive um outro momento de perturbação, que logo ele compreendeu, pois, voltando a sorrir, acrescentou:
— O rei, a Ginga.
Domingos Vaz havia-me dito que a rainha mantinha um serralho, à maneira dos sultões turcos, colecionando fidalgos da sua corte, aos quais obrigava a trajar como se fossem fêmeas. Na altura não lhe dei crédito. Samba N’Zi-la confirmou tudo o que o tandala me confidenciara. Perguntei-lhe o que sucederia às esposas da Ginga agora que ela se casara com o soba dos jagas. Mostrou-se um pouco inquieto. Não sabia. Nada deveria mudar. O rei continuaria a dispor das suas mulheres. O jaga teria de aceitar isso.
E ele — o jaga — teria de se vestir também como uma fêmea? Samba N’Zila riu-se com vontade. Não. Caza Cangola nunca aceitaria tal humilhação.
Então porque a aceitavam os fidalgos ambundos?
Olhou-me sombrio:
— Para comer o fígado da formiga é necessário saber esquartejar. — Estranhei a observação. Ficou em silêncio um largo momento, olhando a Lua. Quando pensei que não fosse dizer mais nada voltou a falar. — A ferida alheia se sente pelo mau cheiro, não pela dor.
4
Decorreram meses. Certa manhã Cipriano veio ver-me. Estivera ausente, em viagem, no Reino do Congo, ou para lá do Reino do Congo, comerciando com mouros. Trazia-me um presente. Livros. Entre estes um curioso volume. Tratado em Louvor das Mulheres, do físico português Cristóvão da Costa, o Africano. Eu conhecia do mesmo autor um outro livro, muito mais afamado, o Tratado das Drogas e Medicinas das índias Orientais. O mulato Cristóvão da Costa nasceu nas ilhas de Cabo Verde, em 1525, e correu o mundo, como homem livre e como escravo, tendo padecido inúmeros tormentos, ao mesmo tempo que exercia o seu ofício, com reconhecido valor, em Goa, em Malabar e em Cochim. Finalmente fixou-se em Burgos, tendo sido nomeado pelo senado da cidade para ocupar o cargo de médico dos pobres.
No seu Tratado em Louvor das Mulheres, Cristóvão da Costa exalta as filhas de Eva, lembrando as mais sábias e também as mais guerreiras, mulheres de armas que ao longo da história se bateram tão bem ou melhor que os homens mais valentes. Entre estas, cita as mulheres da Lacedemónia, que eram adestradas para a guerra, a partir dos sete anos de idade.
Cristóvão da Costa teria acrescentado ao seu livro, caso a tivesse conhecido, o nome de Dona Ana de Sousa.
Lendo aquele pequeno volume lembrei-me, a propósito das mulheres da Lacedemónia, de como eram cruéis e tão semelhantes aos dos jagas os usos e costumes daquele histórico povo. Os esparciatas, filhos de pai e mãe espartanos, e os únicos que possuíam direitos políticos na Lacedemónia, também educavam as crianças para a guerra. Os esparciatas espancavam os filhos para os fortalecerem. Os jagas também. Os esparciatas incentivavam os rapazes a roubar comida. Se fossem apanhados seriam castigados, não pelo roubo em si, mas por se terem deixado capturar. Também os jagas incentivam os filhos a roubar gado e outros bens. Os jagas oferecem sacrifícios humanos ao seu quisango. Os esparciatas cultuavam uma estátua em madeira da deusa Artémis, a qual cobriam com sangue humano. Nos tempos mais antigos sorteavam uma vítima. Mais tarde passaram a chicotear meninos no altar da deusa.
Os esparciatas organizavam a cada ano um jogo diabólico, cujo objetivo consistia em caçar e matar o maior número de escravos, os hilotas. Com isso pretendiam controlar as revoltas de escravos. Os jagas praticam horrores semelhantes com os povos das restantes nações que atravessam.
Entre os jagas não parece ser grande crime uma mulher trair o marido. As mulheres casadas podem receber outros homens em casa, consumando com eles relação carnal, desde que entreguem aos maridos os frutos das suas traições. As mulheres esparciatas eram livres de se deitarem com os homens que quisessem. Os filhos resultantes dessas uniões seriam também eles atribuídos ao marido.
As mulheres esparciatas concebiam o primeiro filho de um escravo adestrado para o coito. Tal escravo, muito bem tratado, empregue na ginástica exclusiva do amor, era degolado assim que completasse os trinta anos. Para além dessa idade a sua semente já não servia, o que é tanto mais absurdo sabendo-se que os filhos resultantes das relações com o escravo sofriam destino idêntico ao do progenitor. Após o primeiro filho as jovens mulheres ficavam disponíveis para casar e assegurar descendência. Os jagas, esses, nunca foram tão longe nos seus desvarios e iniquidades.
A páginas tantas da sua obra, Cristóvão da Costa discute a matéria de que são constituídas as mulheres. Então escreve: «Quanto mais matéria têm as formas menos têm de perfeição, e quanto mais apartadas da matéria, tanto mais perfeitas são.»
A frase devolveu-me Muxima ao pensamento. Vi-a ali, à minha frente, sentada na esteira, encarando-me com os seus grandes olhos negros. Muxima comprovava a observação do físico. Parecia-me feita mais de luz do que de matéria. A carne, tão firme, fora-lhe dada na porção justa para a tornar convincente. Um pouco menos de carne, um pouco mais de luz, e não seria deste mundo. Voltei a vê-la soltar o pano, as aves deslumbradas cercando-lhe a cintura, voltei a vê-la subir para a rede e juntar-se a mim.
Estava mergulhado neste devaneio quando vi chegar Cacusso, montado num nervoso alazão árabe. O animal fazia parte de um lote de quinze cavalos que Cipriano comprara durante a última viagem. Cacusso não montava bem, mas mantinha-se na sela, o que me impressionou muito, pois não fora criado entre cavalos. O jovem saltou do alazão e cumprimentou-me com alegria. Trazia-me notícias. Mandei-o entrar em minha casa. Contou-me que um escravo fugido de Luanda, e que chegara ao quilombo nessa mesma manhã, estivera com as irmãs de Ginga. Este escravo, de nome Pedro, servira durante vinte anos na grande casa de Rodrigo de Araújo, onde haviam sido agasalhadas Mocambo e Quifungi.
Disse que gostaria de o conhecer. Ao final da tarde Cacusso reapareceu, a trote, trazendo na garupa um velho frágil, porém desempenado, com uma longa e cerrada barba cor de cinza. Pedro falava português com a desenvoltura de um lente. Contou que as duas fidalgas gozavam de boa saúde. Passeavam-se pela cidade, alvoroçando as ruas com os guizos e os risos das suas mucamas. Eram com frequência convidadas a visitar os solares dos poderosos. O governador gostava de as mostrar aos visitantes estrangeiros, como os imperadores romanos faziam com os reis bárbaros que aprisionavam, embora não em gaiolas, ao modo rude daqueles, senão que muito bem sentadas em macios almofadões de seda.
Perguntei-lhe se sabia alguma coisa da família de Domingos Vaz. Sorriu, como se adivinhasse o meu interesse. As mulheres e filhos do tandala haviam sido vendidos a diferentes proprietários. A mais jovem ficara em Luanda, não como escrava, mas sob proteção de uma rica senhora, Dona Marcelina Teixeira de Mendonça, conhecida na língua da terra como Nga Mutúdi — a Viúva. Dona Marcelina possuía vários prédios e arimos, em Luanda e nas cercanias da cidade, dezenas de quitandeiras ao seu serviço, e negócios no Brasil e em Portugal. Cinco vezes viúva, sem filhos, exercitava a sua fortuna com mão de ferro, inteligência e muita parcimónia. Os poderosos temiam-na. Os escravos amavam-na, porque a todos tratava com aquela mesma brandura que Cristo reservava para os mais desvalidos.
Pedro fez uma pausa no seu relato. Mirou-me, curioso, os olhos reluzindo de troça:
— O senhor é o padre, não é? Os brancos estão irados consigo. Alguns querem queimá-lo e esses são os que mais o amam.
Atrás da minha casa cresciam altos pés de papaia. Mais atrás erguia-se uma pedra imensa. Eu gostava de me estender numa rede, olhando os pés de papaia, olhando a pedra e, acima da pedra, as nuvens correndo no céu. Além do azul não havia nada. Era o vazio infinito.
Hoje, ainda sinto uma vaga saudade de Deus sempre que me lembro daqueles pés de papaia. Saudade de um mundo amparado pela presença de um pai. Viver sem Deus é uma responsabilidade muito grande, mas, como qualquer responsabilidade, faz-nos crescer.
Perguntei a Pedro porque fugira. Na idade dele estaria mais confortável na casa do seu senhor. O velho riu-se. A liberdade, explicou-me; queria morrer em liberdade.
Em alemão liberdade diz-se freiheit. Vem de freihals — frei hals — que significa «pescoço livre». Liberdade é viver sem o peso de uma cadeia de ferro ao pescoço.
Deus fora, durante aqueles anos, a minha cadeia de ferro ao pescoço.
Todo o meu pensamento estava ocupado com Muxima. Revoltava-me sabê-la em Luanda contra vontade. Sossegava-me, contudo, a ideia de que estava sob proteção de uma senhora forte e caridosa. Não obstante, passava os dias concebendo tortuosas estratégias para entrar na cidade e resgatá-la. Adormecia e sonhava com outras estratégias.
Numa tarde de sol ganhei coragem e fui à procura de Cipriano. Encontrei-o ocupado a desenhar uns óculos para ver à distância. Aprendera entre os mouros a polir e a montar lentes, e era isso que mais gostava de fazer. Convidou-me a beber café. Hoje, no Brasil, já vai sendo moda beber café e há até quem o cultive. Naquela época, contudo, o café ainda não era conhecido nas Américas. Portanto, a primeira vez que provei café foi ali, naquela ocasião, no quilombo da Ginga. Uma escrava moura, de grande beleza, que Cipriano trouxera de Zanzibar, preparou-nos a bebida. Cipriano disse-me, distraído, que já esperava por mim há algum tempo. Sabia o que eu buscava. Entrar em Luanda parecia-lhe uma loucura. Pousou a xícara e ofereceu-me um largo sorriso:
— Estou velho — disse-me. — Nesta altura da minha vida já só a loucura me entusiasma. Ah! A loucura que o amor inflama. Pensei numa maneira de entrar em Luanda sem despertar grandes suspeitas. Tenho tudo pronto, meu amigo, iremos juntos.