A Rainha Ginga

José Eduardo Agualusa · Capítulo 6 de 12

Páginas do PDF

A Rainha Ginga

Capítulo Quinto

 

 

Regressamos, neste capítulo, à infância de Francisco José da Santa Cruz, em Pernambuco. Aqui se apresenta Silvestre Bettencourt, senhor de engenho e homem crudelíssimo, o qual irá dar corpo a algumas das mais terríveis violências desta história.

PARA MANTER OS ESCRAVOS no seu devido lugar, ou seja, trabalhando, trabalhando, trabalhando, é necessário nunca lhes faltar com os três pês — pau, pão e pano. Escutei isto, muitas vezes, a senhores de engenho, feitores e até mesmo damas finas. Pela minha experiência, posso comprovar que aquilo que nunca falta é o primeiro pê, o pau, a pancada. A comida e a roupa faltam muitas vezes.

O meu pai trabalhou durante cinco anos no Engenho Mazanga, propriedade de um açoriano chamado Silvestre Bettencourt. Lembro-me dele nessa época. Um homem com um belo rosto de anjo — olhos verdes, longa cabeleira loira — e um coração crudelíssimo.

Assisti em três ocasiões aos castigos que o dito Silvestre infligia aos seus escravos. Eu era uma criança de pouca idade, medrosa, delicada, que não devia ter sido sujeita a tão atrozes espetáculos. Testemunhei depois disso muitas outras brutalidades, mas quando penso no mal, em todas as suas múltiplas e desvairadas formas, as primeiras imagens que me ocorrem são aquelas.

Havia na casa grande um mulato de muito boa índole, Caetano, que tinha por ofício tratar do guarda-roupa do senhor, calçá-lo e vesti-lo. Este mulato ganhara justa fama de rabequista, a todos entretendo com a sua arte. Uma manhã em que Silvestre Bettencourt saíra para cavalgar, Caetano pegou na rabeca, que era tudo o que conseguira comprar em trinta anos de servidão, e veio para o terreiro mostrar-me alguns fandangos que ele mesmo criara. Estávamos ali entretidos, sem prejudicar ninguém, quando vimos chegar o senhor Silvestre. Regressara mais cedo do passeio, por o cavalo ter começado a mancar, e vinha muitíssimo indisposto. Saltou da sela e correu de encontro ao infeliz Caetano, gritando insultos e desferindo-lhe socos e pontapés. Arrancou-lhe a rabeca das mãos, que o escravo tentava proteger com o próprio corpo, como se de um filho se tratasse, atirou-a ao chão e pisou-a, até dela não restarem senão cacos sem serventia.

Ordenou depois que colocassem o mulato numa cama-de-vento, com os braços e as pernas amarrados por fortes cordas, presas a argolas de ferro, e tendo-o todo esticado fez com que o flagelassem por dois açoitadores, desde as onze da manhã até às cinco da tarde. De tempos a tempos, quando os açoitadores se fatigavam, eram substituídos por uma outra dupla. Caetano, não suportando o castigo, desmaiava repetidas vezes, sendo logo despertado pelo próprio amo, o qual lhe derramava sobre as vistas uma mistura de sumo de limão com aquela pimenta muito agressiva a que, em Angola, se chama jindungo cahombo.

Os cães de caça de Silvestre vinham lamber, com grande deleite, o sangue que escorria da cama-de-vento. Suponho que estivessem habituados a banquetearem-se com a agonia dos escravos.

Depois de lhe arrancarem toda a pele das nádegas e alguns grossos nacos de carne, retiraram o escravo da cama-de-vento, arrastando-o pelas pernas, como se fosse um boneco de trapos. Amarraram-no então, meio morto, ao pelourinho. Foi deixado ali, sem comer nem beber, durante a noite toda e mais o dia seguinte, e ainda uma outra noite, até que as feridas criaram vermes, uma profusão de bichos das moscas, que fervilhavam entre o sangue escuro, pálidos e insones, como se estivessem devorando um cadáver já em avançado estado de corrupção. Era difícil pousar os olhos naquele horror sem desfalecer.

Caetano salvou-se graças à minha avó negra, a velha Clemência, a qual o tomou aos seus cuidados, usando nele toda a sua paciente arte de ervanária e mandingueira.

Depois de curado, Caetano voltou a servir Silvestre Bettencourt na casa grande, mas nunca mais recuperou a alegria. Nunca mais voltou a cantar nem a tocar rabeca.

Silvestre abusava de todas as suas escravas, praticando contra elas as mais ignóbeis e imaginosas ofensas. Muitas vezes entrava de noite pela sanzala e, apanhando alguma infeliz a dormir, erguia-lhe a saia e lhe metia uma luz acesa pelas partes baixas, queimando-a barbaramente.

Conta-se (mas isto não testemunhei) que o dito Silvestre criou uma onça, a qual, já grande, deixava padecer de fomes para depois lhe enviar uma escrava, Francisca do Carmo, com alguma carne, indo ele assistir ao espetáculo. A esperança do desalmado era de que a onça, impaciente, atacasse e devorasse a escrava, como acontecia nos circos romanos, no tempo em que se lançavam os cristãos aos tigres. Fosse porque Deus, condoído, interpusesse a sua mão entre a escrava e a onça, no que não creio, fosse porque a fera simpatizasse com a escrava, o certo é que jamais lhe fez dano algum. O que mais me magoou foi assistir ao tormento de um menino de apenas quatro anos de idade, chamado Arquelau, ao qual Silvestre havia instruído para que tomasse conta de uma figueira, enxotando os pássaros. Achando um dos figos bicado pelos pardais. Silvestre encheu-se de fúria, caindo sobre a frágil criatura com um chicote de cavalos. A minha avó negra. Clemência, que estava a pilar milho na sanzala, ocorreu à gritaria desesperada de Arquelau, já o infeliz tinha as costas inteiramente em carne viva. Arrancou o chicote das mãos de Silvestre, ao mesmo tempo que abrigava o menino sob as suas saias. Tirou então de entre os fartos seios uma famosa faca com que sempre andava e apontou-a ao pescoço de Silvestre:

— Pode matar-me, meu senhor! — gritou-lhe. — Ou pode ser que o mate eu primeiro.

Silvestre ainda deu dois passos na direção dela, erguendo a mão, mas logo recuou. Clemência era preta forra, viúva de um patrício seu e mãe de um homem muito respeitado na região. Ela própria inspirava respeito e temor, não só pela valentia — e pela faca! — mas também pelas artes de feiticeira que trouxera de África.

Ao saber do sucedido o primeiro impulso do meu pai foi agarrar numa machadinha de lâmina curva, bem afiada, e correr a degolar o facínora. Já no caminho pensou melhor. Ao assassinar Silvestre iria arruinar a própria vida, além da minha e a da minha avó, e não salvaria a de Arquelau. Acresce que a morte lhe parecia fraco castigo para um homem tão mau. Veio-lhe então uma ideia tremenda — denunciaria Silvestre Bettencourt ao Tribunal do Santo Ofício, acusando-o de o haver incitado a praticar com ele o pecado nefando da sodomia.

Para agravar a acusação, para a tornar mais sólida e verosímil, foi nessa mesma tarde falar com Caetano. O mulato, que parecia ter perdido toda a vontade de viver desde a terrível surra, escutou-o com atenção. Sugeriu que falassem com mais duas escravas, Benedita, a mãe do pequeno Arquelau, e a infeliz Francisca do Carmo, as quais nutriam pelo amo uma grande e natural aversão. As duas escravas, embora muito assustadas, aceitaram participar na intriga.

Um amigo do meu pai, meirinho, escreveu a acusação. O meu pai ditou o seu testemunho: certa tarde, estando a trabalhar na oficina, vira entrar Silvestre Bettencourt. O português aproximara-se dele com muitos rodeios e falinhas mansas, dizendo que gostaria de o ter na sua cama, que lhe faria muitos mimos e o recompensaria, pois desde há anos o amava em segredo. O meu pai tentou afastá-lo, ao que o outro reagiu com violência e impropérios.

Caetano contou que o amo o forçara a deitar-se com ele na cama, em muitas ocasiões, umas vezes de noite, outras à tarde, servindo-se dele pela parte traseira. As duas escravas alongaram-se por episódios semelhantes — todos falsos (ou talvez não).

Silvestre Bettencourt foi preso uma semana depois. Confrontado com as acusações começou por negá-las, mostrando grande fúria e indignação. Levado à casa de tormentos, amarrado à infame roda, rompeu num choro convulso, como uma mulher. Os inquisidores não tiveram de se esforçar muito, bastando esticar-lhe os membros até que estalassem, para o ouvir confessar. Sim, praticara o terrível pecado da sodomia, não apenas com os escravos referidos, mas com muitos outros.

Para o Santo Ofício não há crime mais abominável do que aquilo a que os seus padres chamam a sodomia perfeita, a qual acontece quando o homem penetra outro no vaso traseiro, vertendo nele o seu sémen.

Silvestre escapou da fogueira, mas foi condenado a degredo perpétuo em Angola — além de ter visto confiscados todos os seus bens. Encontrei-o em Luanda, aquando da minha primeira visita. Não me reconheceu e, é claro, eu também não me dei a conhecer.

Embora já não conseguisse ocultar as marcas da idade. Silvestre tinha ainda aquele idêntico ar de querubim, muito loiro, muito lânguido, com que se sentava no seu cadeirão de palha, à sombra de um largo guarda-sol colorido, enquanto via açoitarem os escravos. Pareceu-me próspero e influente. Perguntei por ele aos irmãos franciscanos que me haviam dado agasalho. Mostraram-se, primeiro, um tanto arredios. Por fim, um deles, o velho Ambrósio, que simpatizava comigo, disse-me que Silvestre fora degredado para Angola acusado do pior dos pecados.

— Tem fama de mulherigo, e creio que o seja, basta atentar nas suas falas, que parece que unta as palavras com mel, e nos gestos amaneirados. Enfim, é fanchono! — Soprou com sarcasmo: — E dos piores. Um fanchono contumaz. Podíamos denunciá-lo de novo ao Santo Ofício, mas desta vez já não haveria pior lugar para o degredar. Angola é o último dos degredos. Iria arder na fogueira, o que seria uma pena porque, tirando o maldito vício que, de resto, apenas exerce nos escravos, o homem é esforçado. Chegou aqui pobre e depressa enriqueceu. Ajudou a enriquecer muita gente.

Quis saber se ele maltratava os escravos. Ambrósio estranhou a pergunta:

— Não mais do que os outros comerciantes — assegurou. — A alguns trata até demasiado bem. A esses de quem gosta. Tem um escravo que veste com tal luxo que nesta cidade nem há dama que se vista assim. É tão perfumado que qualquer cego pode segui-lo a cidade inteira só pelo cheiro.

O Engenho Mazanga foi entregue aos jesuítas. O meu pai comprou o pequeno Arquelau, e a mãe deste, Benedita, uma mulata um tanto aluada, natural de Salvador, e passou-lhes logo depois carta de alforria. Ficaram livres, mas continuaram a viver connosco. Arquelau é para mim um irmão mais novo. O meu único irmão. A minha mãe faleceu ao dar-me à luz. Tinha quinze anos. O meu pai não voltou a casar.

Muitas vezes me recordo de Silvestre e do seu destino. O meu pai mentiu, caluniou, e com tal calúnia condenou um homem ao degredo. Essa mentira, contudo, salvou muitos outros homens e mulheres de uma vida de martírio e sustos. Não o condeno. Não creio que mereça condenação alguma.

Há mentiras que resgatam e há verdades que escravizam.