A Rainha Ginga

José Eduardo Agualusa · Capítulo 2 de 12

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A Rainha Ginga

Capítulo Primeiro

 

Aqui se conta da chegada a Salvador do Congo do narrador desta história, o padre pernambucano Francisco José da Santa Cruz. Aconteceu isto nos idos de 1620. Mais se conta de como este padre veio a ser secretário da Ginga — depois Dona Ana de Sousa, rainha do Dongo e da Matamba —, e de como a acompanhou numa famosa e muito admirável visita a Luanda.

 

1

 

A PRIMEIRA VEZ QUE A VI, A GINGA OLHAVA O MAR. Vestia ricos panos e estava ornada de belas joias de ouro ao pescoço e de sonoras malungas de prata e de cobre nos braços e calcanhares. Era uma mulher pequena, escorrida de carnes e, no geral, sem muita existência, não fosse pelo aparato com que trajava e pela larga corte de mucamas e de homens de armas a abraçá-la.

Foi isto no Reino do Sonho, ou Soyo, talvez na mesma praia que lá pelos finais do século XV viu entrar Diogo Cão e os doze frades franciscanos que com ele seguiam, ao encontro do Mani-Soyo — o Senhor do Sonho. A mesma praia em que o Mani-Soyo se lavou com a água do batismo, sendo seguido por muitos outros fidalgos da sua corte. Assim, cumpriu Nosso Senhor Jesus Cristo a sua entrada nesta Etiópia ocidental, desenganando o pai das trevas. Ao menos, na época, eu assim o cria.

Na manhã em que pela primeira vez vi a Ginga, fazia um mar liso e leve e tão cheio de luz que parecia que dentro dele um outro sol se levantava. Dizem os marinheiros que um mar assim está sob o domínio de Galena, uma das nereidas, ou sereias, cujo nome, em grego, tem por significado calmaria luminosa, a calmaria do mar inundado de sol.

Aquela luz, crescendo das águas, permanece na minha lembrança, tão viva quanto as primeiras palavras que troquei com a Ginga.

Indagou-me a Ginga, após as exaustivas frases e gestos de cortesia em que o gentio desta região é pródigo, bem mais do que na caprichosa corte europeia, se eu achava haver no mundo portas capazes de trancar os caminhos do mar. Antes que eu encontrasse resposta a tão esquiva questão, ela própria contestou, dizendo que não, que não lhe parecia possível aferrolhar as praias.

Nos dias antigos, acrescentou, os africanos olhavam para o mar e o que viam era o fim. O mar era uma parede, não uma estrada. Agora, os africanos olham para o mar e veem um trilho aberto aos portugueses, mas interdito para eles. No futuro — assegurou-me — aquele será um mar africano. O caminho a partir do qual os africanos inventarão o mundo.

Tudo isto me disse a Ginga, na língua dela, que na altura me soava não só estranha como impossível, pois era como crer que dois ribeiros pudessem comunicar um com o outro apenas com o natural rumor do seu correr. Um negro, quase meu conterrâneo, de nome Domingos Vaz, lhe servia de língua, ou tandala, que é o título que entre os ambundos leva quem desempenha tal ofício. Era este Domingos Vaz um sujeito de brando trato, muito dado a folguedos de todo o tipo, o que não lhe turvava o entendimento nem prejudicava o ofício. Quando soube ser eu natural de Pernambuco e que, como ele, vivera os primeiros anos num engenho, ainda mais doces se tornaram os seus modos, e logo ali me ofereceu a sua amizade.

A Ginga estranhou a minha aparência, pois não via em mim semelhanças nem com os portugueses vindos do reino, nem com dourados flamengos, ou mafulos, como em Angola são conhecidos, menos ainda com o gentio das diferentes nações do sertão. A minha mãe era índia — expliquei-lhe —, da nação Caeté. Dela herdei a espessa melena negra e muito lisa, que a despeito da avançada idade ainda hoje conservo, embora já não tão escura, além de uma irresistível vocação para a melancolia. Meu pai era mulato, filho de um comerciante da Póvoa do Varzim e de uma negra mina, mulher de muitos encantos e encantamentos, que acompanhou e iluminou toda a minha meninice. Sou a soma, por certo um tanto extravagante, de todos esses sangues inimigos.

A seguir, a Ginga quis saber se eu estava ali com o propósito de a servir como secretário e como conselheiro, conforme lhe havia sido prometido pelo governador português, Luís Mendes de Vasconcelos, ou antes para — com malícia — a converter à fé de Cristo, pois bem via pelas minhas vestes ser eu um padre. Ela pedira um secretário, não um sacerdote. Dizendo isto agitou as malungas, soltou uma gargalhada áspera, que a mim me pareceu que era o mafarrico quem assim se ria, e me disse que toda a sua fé se achava naqueles adereços, e num cofre, a que os ambundos chamam mosete, onde guardam os ossos dos antepassados.

Nessa mesma noite, já no acampamento onde pernoitámos, Domingos Vaz narrou, com preciosa soma de detalhes, algumas das cerimónias e superstições gentílicas a que assistira. Senti, escutando-o, que estava entrando em pleno Inferno e enchi-me de terror. Tantos anos decorridos, olhando sobre os meus débeis ombros para o alvoroço do passado, sei não serem tais práticas mais diabólicas do que tantas outras de que eu mesmo fui testemunha no seio da Igreja Católica. Violências, injustiças, infindáveis iniquidades, que a mim se me afiguram ainda mais torpes do que as cometidas pelos ímpios, pois se aqueles ignoram Deus, os cristãos erram em nome Dele.

Dias mais tarde, na ilha da Quindonga, no caudaloso rio Quanza, onde, após destruída a cidade de Cabaça, se instalara o rei do Dongo e os seus fidalgos mais poderosos, assisti a um extraordinário prodígio, que foi ter-se o céu carregado de uns pássaros muito negros, muito grandes, nunca antes vistos por ninguém ali, tão-pouco por mim em Pernambuco ou Salvador. Os pássaros corriam pelo céu como ensandecidos, gritando alto, numa língua que alguns afirmavam aparentada com a dos muxicongos, em todo o caso, língua de gente, no que não me fiei. Todo o dia e toda a noite gritaram os pássaros, não deixando ninguém dormir. Ao amanhecer, desapareceram, abandonando as suas negras penas presas às silvas ao redor da cidade, que por ali as há em grande quantidade, e muito densas e espinhosas.

Chamou-me a Ginga, e vi, ao entrar na sua banza, que estava ela acompanhada pelo rei, seu irmão, o belicoso Ngola Mbandi, bem como por uma dezena de conselheiros e poderosa fidalguia. A estas grandes conversações chama o gentio «fazer maca», o que significa trocar palavra, pois cada notável é convidado a produzir no decurso delas a sua opinião.

Ngola, cujo rosto rude e tenaz, de duras esquinas, muito impressionava, tinha os olhos vermelhos, raiados de sangue, talvez da muita diamba (cânhamo) que andara fumando. A rainha, que na altura ainda o não era, não obstante o porte, ostentava sobre os ombros uma capa vermelha de apurada oficina, e aquela capa parecia fazer refulgir seu rosto, como se um incêndio a consumisse. Ginga discutia em alta voz com o irmão, como se com ele partilhasse a mesma vigorosa condição de macho e de potentado. Já na altura não admitia ser tratada como fêmea. E era ali tão homem que, com efeito, ninguém a tomava por mulher.

Ao ver-me, chamou-me para o seu lado, o que irritou ainda mais o irmão. Novamente, os dois altercaram, e, embora não compreendesse uma palavra, intuí que pelejavam por minha causa. Domingos Vaz, de pé, ao lado da Ginga, aguardou que ambos serenassem, posto o que, a um gesto dela, começou a traduzir.

Ngola Mbandi, derrotado há pouco mais de dois anos, em combate contra as armas portuguesas, pretendia partir para uma nova guerra. No singular entendimento dele, os pássaros negros que víramos nessa noite, e no dia anterior, não representavam outra coisa senão um exército de antepassados, mortos no decurso de outras tantas contendas contra a bandeira portuguesa, exigindo vingança.

Ngola Mbandi recordou o desaire das tropas de seu pai, o rei Ngola Quiluange, a 25 de agosto de 1585, contra o exército do capitão André Ferreira Pereira. Eu conhecia o episódio. Ngola Quiluange entregara o comando dos seus guerreiros a um valente capitão chamado Ndala Quitunga. As duas massas de homens armados chocaram uma contra a outra junto ao rio, num vale afundado em espesso nevoeiro. Os portugueses, embora em menor número, contavam com a violenta surpresa dos seus canhões, além de um esquadrão de cavalaria. Por último, lançaram contra os guerreiros de Ndala Quitunga matilhas de cães de guerra, animais que os ambundos nunca haviam visto e que no seu terror tomaram por homens transformados em monstros. As tropas portuguesas degolaram nesse dia muitos milhares de guerreiros ambundos. Como testemunho da façanha, arrancaram os narizes aos cadáveres, levando para Luanda a infame carga.

Ngola Mbandi recordou depois a própria derrota, que atribuiu não só à magia dos portugueses mas, sobretudo, à dos jagas do soba Culaxingo, ou Cassange, com os quais os primeiros se haviam aliado. Culaxingo comandava uma tropa de guerreiros encantados, que se escondiam da vista, à vista de todos, ou se deixavam atravessar pelas flechas como se fossem feitos de água, sem sofrerem dano algum.

Quando me foi pedida a opinião concordei com a minha senhora no respeitante à temeridade do empreendimento, evitando, contudo, contestar as superstições de Ngola Mbandi, incluindo o presságio dos pássaros gritadores. Chamei a atenção para o poderio militar dos portugueses, insistindo que qualquer desavença seria mais bem corrigida através da palavra que por meio da força, pois na guerra todos saem sempre derrotados, a começar pela inteligência. O rei interrompeu-me, irado, insinuando que eu estaria ali, não ao serviço da Ginga, e dele próprio, antes como espião dos portugueses. A irmã tomou então a minha defesa, com grande fervor, argumentando que fora ela quem pedira ao governador português um secretário, alguém ilustrado na ciência de desenhar palavras. Voltando-se para mim disse-me que não temesse mal algum, pois sendo seu servo era também seu convidado. Que falasse, pois, segundo o meu livre pensamento, para isso me fizera vir. Outra vez insisti na importância de assinar com os portugueses um tratado de paz e concórdia. O senhor Dom Ngola Mbandi deveria apresentar as suas justas queixas, sobretudo no que respeitava à construção do Presídio de Ambaca em terras que sempre haviam sido suas, bem como quanto à captura de escravos e envio dos mesmos para o Brasil, posto que os comerciantes portugueses andavam tomando a cada ano milhares de cabeças e, com isso, despovoando o reino e subtraindo as famílias. Deveria ainda demandar indemnização do governador, caso o mesmo persistisse em manter o Presídio em Ambaca. Finalmente, aconselhava-o a solicitar o arrimo de Portugal em conflitos que, no futuro, o opusessem a reinos vizinhos.

Ngola Mbandi sossegou. Ordenou-me que escrevesse uma carta, dirigida ao governador Luís Mendes de Vasconcelos. Solicitava o rei que aquela poderosa autoridade recebesse em Luanda uma embaixada sua, à cabeça da qual iria a irmã mais velha, Ginga, que tinha por conselheira preciosa. Ali mesmo redigi a carta, tarefa que o rei e seus macotas acompanharam com silencioso assombro. Logo a selei com lacre de cera, sendo a mesma entregue a um mensageiro.

Regressei com o coração descompassado à casa que me fora entregue. Nessa noite, um sonho ruim me afligiu. Achava-me sozinho na selva confusa, e um exército de ferozes pássaros negros, cada qual do tamanho de um cavalo, descia do céu para me ofender. Despertei em prantos, às primeiras luzes da manhã, sentindo-me como uma criança perdida na cova do leão.

Domingos Vaz surgiu pouco depois. Vendo-me tão atormentado insistiu em acompanhar-me numa visita através do quilombo e suas cercanias. Enquanto cruzávamos o tumulto daqueles arraiais, foi-me ele contando da sua vida e das suas desditas e venturas. Nascera em Luanda, mas crescera num engenho de açúcar, na ilha de Itamaracá, que na língua tupi tem o significado de pedra que canta. Aos quinze anos o seu senhor o trouxe de novo para Angola, encantado com sua inteligência e boa catadura, para que lhe servisse em casa. Pouco depois já ele comandava a restante criadagem. O dito senhor, um homem pardo, natural de Luanda, de muita fortuna, com engenhos em Pernambuco e palácios na cidade de São Salvador da Bahia e em Lisboa, o vendeu depois à Ginga, como língua. Domingos Vaz aprendera em criança o quimbundo, o tupi e o português e, mais tarde, já em Luanda, o congo, o francês e o holandês, usando todos estes idiomas com admirável acerto e desenvoltura. Em gratificação dos seus serviços, a Ginga lhe concedera algumas léguas de boa terra, servida de abundosa água, e ali erguera ele a sua casa e plantara os seus arimos e lavouras. Em 1618, porém, após a derrota das forças de Ngola Mbandi, os portugueses assaltaram o Reino do Dongo, como quissondes, pilhando, incendiando e recolhendo escravaria. Domingos Vaz perdeu uma trintena de escravos, a casa e tudo o que cultivara.

Pode parecer coisa rara, esta de um escravo possuir também ele homens cativos, mas em Angola, como entre os mouros ou mesmo no Brasil, isso é algo muito comum.

Domingos Vaz conduziu-me à casa onde então morava, num extenso areal voltado para o rio, em cujas margens várias mulheres se ocupavam, pilando milho e salgando peixe. Três dessas mulheres tinha-as ele como esposas, uma das quais ainda muito moça, de olhar meigo e extraordinária formosura, chamada Muxima, palavra que em quimbundo significa coração. Domingos Vaz por certo reparou no meu olhar, preso nos delicados peitos da menina, pois me disse, sorrindo, que a podia tomar e deitar-me com ela, se tal fosse o meu desejo.

Recuei, com horror. Como podia propor-me tal abominação, sendo a moça sua esposa — ainda que apenas segundo os rituais gentílicos — e eu um servo de Deus?

Domingos Vaz voltou a sorrir. Retorquiu, brandamente, ser costume nos sertões de Angola oferecer uma das mulheres, de modo geral a mais nova, aos forasteiros, ou a alguém por quem se nutra particular afeto. Pois que visse o gesto dele como o de um amigo que me queria muito bem. Quanto à batina, sabia ele de muitos padres que se deitavam com mulheres, com elas procriando, e até, em muitos casos, criando e educando essa descendência como se fosse legítima.

— O Deus dos Cristãos está muito longe — acrescentou Domingos Vaz.

Ouvindo-o, estremeci.

 

2

 

O GRANDE RIO CONGO derrama-se no mar — nesse mar a que alguns ainda chamam oceano Etiópico — como uma imensidade noutra imensidade, um vasto turbilhão de sombras e desassossego. A muitas milhas da costa, ainda não se avistando terra, já se dá por África graças ao verde cheiro que as brisas carregam e à surda turvação das águas.

Uma chalupa trouxe-nos do navio à praia. Estávamos a menos de uma milha da costa quando um marinheiro chamou a minha atenção para uma alimária extravagante, grande como um boi, com um focinho de cachorro e barbatanas semelhantes às das focas. Disse-me o marinheiro que no rio Amazonas também se acham muitas destas improváveis criaturas, e que ali lhes dão o nome de peixe-boi ou manati. Mais me disse que as fêmeas amamentam as crias ao peito, como mulheres verídicas, enquanto cantam, e que o seu cantar é tão belo e tão triste que com frequência endoidece quem o andar escutando. Destes animais, a que alguns também chamam peixe-mulher, se gerou talvez o mito das sereias, com o qual os marinheiros gostam de assombrar o vulgo, sendo de lamentar que muitos autores estimáveis ainda hoje defendam tão grande insensatez. Deus, havendo um Deus, não sopraria vida a contradição tão grosseira, pois me parece tarefa impossível harmonizar a perfeição da mulher, e sua pele tão lisa e perfumada, com a bruteza de um peixe.

À minha frente, enquanto escrevo estas linhas, tenho o relato de Frei João dos Santos, Etiópia Oriental e Vária História de Coisas Notáveis do Oriente, no qual este descreve — com muitos equívocos grosseiros — o que julgo ser um manati:

«A quinze léguas de Sofala estão as ilhas das Boccicas ao longo da costa para a parte sul, no mar das quais há muito peixe-mulher, que os naturais das mesmas ilhas pescam e tomam com linhas grossas e grandes anzóis com cadeias de ferro feitas somente para isso, e da sua carne fazem tassalhos, curados ao fumo, que parecem tassalhos de porco. Este peixe tem muita semelhança com os homens e mulheres da barriga até ao pescoço, onde têm todas as feições e partes que têm as mulheres e homens. A fêmea cria os seus filhos a seus peitos que têm propriamente como uma mulher. Da barriga para baixo, têm rabo muito grosso e comprido, com barbatanas, como cação.»

O dito manati aproximou-se da chalupa, mostrando intensa curiosidade. Logo um dos remadores, natural da região, sugeriu que lhe déssemos caça, pois sua carne tem fama de saborosa. Estes manatis são mansos, incapazes de se defenderem. A curiosidade os perde. Apiedei-me dele, rogando aos marinheiros para que o deixassem ir. Não me escutaram. Foram buscar arpões e o furaram e sangraram, puxando-o depois para bordo. A tudo assisti, com o coração cheio de mágoa.

Saltei da chalupa, pisando pela primeira vez o chão de África, no caso o do Reino do Congo, com a batina manchada do sangue ingénuo do animal, e não achei nisso um bom presságio. O futuro deu-me razão.

Eu completara há pouco vinte e um anos. Era moço ainda imberbe, sossegado e curioso como aquele manati a cuja tortura e assassinato assistira. Aos nove anos, o meu pai arrancou-me aos braços carinhosos de minha avó preta, levando-me para estudar no Colégio Real de Olinda. Aos quinze, ingressei como noviço na Companhia de Jesus. Abandonei Pernambuco num navio negreiro, o Boa Esperança, com destino a São Salvador, a africana, antes chamada Ambasse, cabeça do Reino do Congo, para me juntar aos irmãos jesuítas numa escola que há poucos anos estes haviam fundado. Conhecia do mundo apenas o que lera nos livros e, de súbito, achava-me ali, naquela África remota, cercado pela cobiça e pela infinita crueldade dos homens.

Cheguei num momento de insídia e inquietação, estava o reino dividido, umas fações contra os portugueses e outras a favor; umas contra a Igreja e contra os padres, que acusavam de destruir as tradições indígenas, o que era certo, e outras defendendo a rápida cristianização de todo o reino. Também os irmãos jesuítas se não entendiam. Logo descobri que à maior parte destes religiosos apenas interessava o número de peças que podiam resgatar e enviar para o Brasil, encontrando-se ali mais na condição de comerciantes da pobre humanidade do que na de pastores de almas. Poucos agiam com verdadeira misericórdia e caridade para com aquele infeliz gentio que, afinal, nos cabia instruir e converter.

Neste ambiente, oito ou nove meses após a minha chegada, tomei conhecimento de que o governador. Luís Mendes de Vasconcelos, procurava um homem instruído em letras para servir como secretário à senhora Dona Ginga, irmã do rei do Dongo. Por um feliz acaso, estava ela de visita ao Reino do Sonho, num grande segredo, em conversações com fidalgos daquele reino e do vizinho Congo. Fui falar com o bispo, que me escutou atentamente e depressa me deu o seu acordo, talvez porque a minha presença em São Salvador do Congo não fosse do agrado de muitos, tantas perguntas eu fazia e com tamanha candura. Ao ir ter com a Ginga estava na verdade fugindo da Igreja — mas nessa altura ainda o não sabia, ou sabia, mas não ousava enfrentar as minhas mais íntimas dúvidas.

Outra coisa não fiz o resto da minha vida, que vai já tão longa e desordenada, senão fugir da Igreja.

 

3

 

«Vamos a Luanda», disse-me Domingos Vaz. Era grande a sua alegria quando me disse isto. Lembro-me que chovia. A água descia sobre a ilha como se um outro rio estivesse caindo do céu, ainda mais ancho do que aquele que nos cercava. Volta e meia um bruto clarão rompia as nuvens, parecendo que a água atiçava as chamas, ao invés de apagá-las, ao contrário do que nos ensina a comum experiência. Em Luanda, continuou Domingos Vaz, verás o que nunca viste, igrejas e fortificações, casas nobres e palácios, e, dentro deles, rendilhados móveis em madeiras preciosas, trazidos de Goa, alfaias de prata e ouro, leitos de ébano marchetados de marfim e de tartaruga e cobertos com lençóis flamengos, entremeados e guarnecidos de finíssimas rendas de Flandres. E as mulheres? Mulheres de pele cor de pérola e de cabelos lisos como os teus — dizia — fazendo menção, no que o não deixei, de segurar os meus.

— E livros? — perguntei. — Viste livros?

Anuiu, um tanto surpreso com a minha pergunta. Sim, vira livros, livros religiosos e cartas de viajantes, e até alguns romances de cavalaria, como esse famoso Amadis de Gaula, ou o cómico D. Quixote de La Mancha, o qual tanta pilhéria fazia dos que o antecederam.

Um amigo do seu primeiro senhor possuía tais livros, tendo o costume de os ler para os convidados, durante os longos saraus luandenses. Ele, Domingos Vaz, muitas vezes assistira aos referidos saraus enquanto orientava a criadagem. Quis saber o nome desse homem ilustre, e ilustrado, e se o poderia visitar em Luanda. Chamava-se Bernardo de Menezes, informou-me Domingos Vaz, porém falecera havia alguns anos, vítima de febres, deixando a um filho varão a biblioteca e restante fortuna.

Nesse mesmo dia, a meio da tarde, veio ter comigo um oficial da corte da Ginga, de seu nome Cacusso, prevenindo-me, por gestos, pois na época eu ainda pouco compreendia da língua ambunda, que quando o céu limpasse encetaríamos a marcha para Luanda. A chuva parecia querer sufocar o sol. A água flutuava, com os seus peixes atordoados e o musgo e as algas, por entre as silvas e restante arvoredo, e invadia tudo, inclusive os sonhos.

O céu não serenou nesse dia nem no seguinte. Levou um mês, ou mais. Por fim, secou, mas não o chão. Ouvi falar de homens engolidos pela lama, os quais nunca mais foram vistos.

Tivemos de aguardar mais duas semanas. Cruzámos o rio em compridas canoas feitas de bimba. Formou-se, na margem direita, uma longa quibuca, nome que nos sertões de Angola se dá às caravanas, quer mercantis, levando escravos, borracha ou marfim, quer como a nossa, transportando sobretudo fidalgos e outros notáveis. À frente seguiam caçadores, agitando guizos e cantando e batendo em tambores, para afugentar as feras e alertar o gentio. A meio ia a Ginga, numa rica maxila, ou palanquim, com dossel de sedas, bordadas a oiro, e assento forrado de púrpura que até a Salomão faria inveja. Ia ela, pois, carregada por quatro colossais escravos, e seguida por suas mucamas, as quais agitavam leques e a aspergiam com água perfumada. Eu e Domingos Vaz seguíamos atrás, também nós em confortáveis maxilas, com muita escravaria à retaguarda, acarretando aos ombros comidas e água e utensilagem diversa. Umas três dezenas de batucadores, caçadores e homens armados de mosquetes fechavam a fila, toda aquela gente marchando com muito boa disposição, que é uma alegria para o espírito ver como cantam e dançam os africanos.

Numa das noites em que acampámos, perguntou-me Domingos Vaz se eu acreditava no Diabo. Mandáramos acender umas palhas, e sobre aquele fogo o jovem Cacusso assava uns peixes com nome idêntico ao seu — ou seria ele que o teria idêntico ao dos peixes.

Os cacussos são muito apreciados pelos gentios, que os pescam nos rios, e os salgam e secam, e assim os conservam por muito tempo sem que percam o sabor. Comíamos pois os ditos cacussos, com farinha de mandioca, enquanto víamos dançarem as chamas. O fogo lembrou a Domingos Vaz o Inferno e, por isso, me perguntou:

— Padre, o Diabo existe em todo o mundo?

A pergunta apanhou-me de surpresa. Respondi-lhe que sim, por certo, a existência e universalidade do Diabo é doutrina da Igreja, e os teólogos concordam haver verdade nisso. O Diabo é o inimigo, e apresenta-se de muitas formas, algumas vezes colérico e outras com modos suaves, doce como um cordeiro.

Enquanto eu discursava, ia Domingos Vaz traduzindo as minhas palavras, para completo entendimento do jovem Cacusso e de dois outros moços bem-apessoados que o acompanhavam. Estes olhavam-me com grandes olhos arregalados de espanto.

— Estão pasmados — explicou Domingos Vaz —, porque nos sertões de África não há tal malefício. Antes da chegada de Diogo Cão não existia em África a figura do demo. Os portugueses trouxeram o cão nas caravelas. Melhor seria que o levassem de volta.

Diante da minha perturbação, explicou-se: os gentios cultuam os antepassados; acreditam, à maneira dos antigos povos pagãos, que os mortos podem manifestar-se aos vivos sob a forma de animais, ou de plantas, ou até de impulsos da natureza, como o vento soprando entre os canaviais, a chuva caindo, um relâmpago abrindo o céu.

Destacam-se, entre os gentios, homens que se reputam como magos, a que se chama quimbandas e pelos quais se mostra sentida veneração. Os quimbandas afirmam-se capazes de escutar e decifrar as vozes dos espíritos. Assim, O soba Ngola Mbandi, um quimbanda afamado, pois é frequente os reis, que tudo podem, serem também magos, viu revoarem nos céus os seus avós e escutou as suas queixas, enquanto eu apenas vi uma chusma de grandes pássaros negros enervando o azul vibrante.

Acreditam nisto. Acreditam ainda em certas divindades que se ocultam sob as águas dos rios e dos lagos, às quais chamam quiandas, e que alguma semelhança me parecem ter com as fabulosas sereias de que falei atrás. Não temem, contudo, nenhum ente que encarne o mal.

— Por isso afirmei — disse Domingos Vaz, concluindo a sua pequena heresia — que o Diabo nunca terá caminhado por estes sertões.

Melhor armadilha não existe, contestei, já com certo enfado, do que fazer-se o Diabo de invisível ou inexistente. Se o inimigo se aproxima com clamor, fácil se torna combatê-lo. O inimigo perigoso é o que se acerca em silêncio, na cegueira da noite, sem que possamos dar por ele. Existem nas florestas do Brasil umas diminutas rãs douradas, belas como joias, cuja pele produz violentíssima peçonha. Os índios, ilustrados na ciência da selva, raspam as suas setas em tal peçonha, e com isso as tornam duplamente mortais. Uma onça, ou qualquer outro animal que, inocente, lamba as folhas por onde passou umas destas rãs, logo morre. Os pobres animais não viram a rã. Talvez não saibam sequer que a rã existe. Contudo, mata-os a peçonha dela.

Assim como as ditas rãs se manifestam pela peçonha, assim o Diabo se dá a ver aos homens através do mal.

O meu sermão não pareceu convencê-los. Cacusso quis saber se eu tinha comigo um pouco desse veneno das rãs brasileiras. Também os outros dois mostraram mais curiosidade acerca da peçonha do que do Diabo.

Eu, pelo contrário, fiquei pensando no Diabo durante o resto da jornada.

 

4

 

Luanda não me impressionou tanto quanto esperava, talvez porque contagiado pelo entusiasmo de Domingos Vaz eu esperasse demais. Esperar demais é a raiz de toda a desilusão. Aqueles que pouco esperam, esses são os mais felizes.

O casario branco espalha-se pelas praias, galga os morros. Do lado de lá alongava-se uma estreita língua de areia, com cerca de duas léguas de comprido, brilhando ao sol. É uma vista harmoniosa, que apazigua e eleva o espírito.

A grande massa dos habitantes da cidade são negros, escravos ou serventes, que nas casas os há aos magotes, e ocupam as ruas todas, comerciando, transportando tralhas, ou, o mais das vezes, dormindo e conversando. Há também grande número de quitandeiras, mulheres trajando belos panos coloridos, que se ocupam na venda de peixe seco, farinha de mandioca, feijão, milho e mezinhas para todo o tipo de maleitas, incluindo as do espírito. Vi ainda numerosos ciganos. Famílias inteiras, degredadas do reino, viviam também em Luanda, comerciando, intrujando os pobres de espírito e operando os seus prodígios enganadores. Os brancos que ali habitam, portugueses do reino e do Brasil, e um ou outro flamengo, francês ou alemão, são sujeitos de feições caídas, descoloridas e amargas, envenenados que estão pelas febres, pela cobiça e pela vil intriga.

Luanda tinha então novo governador, João Correia de Sousa, mais jovem, e sobretudo mais jovem de espírito do que o seu antecessor. Luís Mendes de Vasconcelos.

Fomos recebidos às portas da cidade, na Maianga, por uma estrondosa salva de tiros de falconetes, disparados da fortaleza, ao mesmo tempo que víamos descer ao nosso encontro uma coluna de cavaleiros ricamente engalanados. Conduziram-nos estes cavaleiros ao Paço, onde nos aguardavam o bispo, muita gente nobre, altos magistrados, funcionários e ricos comerciantes, mas não o governador, que assim preferiu resguardar-se para melhor realçar o seu poder. A Ginga e as suas fidalgas e mucamas foram depois alojadas num palacete, junto à praia, propriedade do senhor Rodrigo de Araújo, um dos homens mais poderosos da cidade. Eu fiquei num convento dos irmãos franciscanos, os quais me receberam com carinho e muitas perguntas.

Durante sete dias a Ginga passeou-se pela cidade. À sua volta juntava-se sempre uma turba de curiosos, o que a princípio a divertia, mas que acabou por agastá-la.

Mais indisposta ficou após um infeliz desentendimento. O governador teve a ideia, a seu ver generosa, de mandar comprar esplêndidos lotes de veludos e sedas e musselinas, entregando-os ao melhor alfaiate de Luanda para que deles cortasse anáguas, saias e corpetes com que vestir a embaixadora do rei do Dongo. O alfaiate e os seus escravos trabalharam noite e dia, sem descanso, a semana inteira, de forma a cumprir tão importante encomenda. Quando, na data aprazada, lhe foram entregar os trajes, a Ginga teve um ataque de fúria. Já antes eu a vira entregar-se a demonstrações de ira, mas nunca com tal ímpeto. Rasgou com as mãos e com os dentes os finos tecidos, enquanto gritava que dissessem ao governador não ter ela falta do que vestir. Dizei-lhe, insistia, que irei trajada segundo as minhas próprias leis, inteligência e entendimento.

Assim, nesse mesmo dia, por volta das seis da tarde, surgiu no Palácio do Governador vestida, como era seu hábito, com uma bela capa escarlate sobre os ombros magros e um finíssimo pano de musselina, com flores pintadas, elegantemente preso à cintura por uma cinta de camurça, cravejada esta de diamantes e outras pedras raras. O governador recebeu-a sentado num cadeirão alto, quase um trono, tendo ao seu lado as autoridades militares. Para a Ginga reservara uma almofada, debruada a ouro, sobre uma sedosa alcatifa. Não o fizera por malícia ou má-fé, antes para agradar à embaixadora, pois os seus conselheiros lhe haviam assegurado que os potentados gentios não apreciam cadeiras, preferindo sentar-se no chão raso. A Ginga não o entendeu assim. Deu ordens a uma das suas escravas, uma jovem mulher de graciosa figura, chamada Henda, para que se ajoelhasse na alcatifa e, para grande assombro de todos os presentes, sentou-se sobre o dorso da infeliz.

Aquele extraordinário gesto marcou o tom do encontro, ou da maca, no dizer dos ambundos. Ainda que o governador João Correia de Sousa falasse a partir de cima, era como se o fizesse a partir de baixo, tal a soberba e a clareza de ideias da Ginga. Quando o governador lhe apresentou as condições para um tratado de paz, entre elas que o rei Ngola Mbandi deveria reconhecer-se vassalo do soberano português, pagando o devido tributo anual, logo a Ginga o contestou, lembrando que semelhante encargo só poderia impor-se a quem tivesse sido conquistado pelas armas, o que não era o caso. O rei do Dongo vinha, através dela, e de coração puro, oferecer a sua amizade ao rei dos portugueses e dos espanhóis. Contudo, se o governador preferia a guerra, soubesse que o rei, seu irmão, estava preparado para ela e, pois que combatia pela sua liberdade, e a dos seus filhos, tendo atrás dele, sustentando-o, o sopro poderoso de todos os ancestrais, mais ferozmente combateria.

Ouvindo-a discursar com tanto brilho e tanta justiça, várias vezes me achei em pensamento ao lado dela e do rei Ngola Mbandi.

Concordou o governador João Correia de Sousa em abandonar o Presídio de Ambaca, transferindo-o para a região do Luynha, bem como em forçar os comerciantes portugueses a restituírem a maior parte das peças roubadas nos últimos anos ao rei do Dongo e seus fidalgos. Acordado ficou também que Portugal e o Reino do Dongo se apoiariam mutuamente, caso fossem atacados por nações inimigas.

No final do encontro, ergueu-se o governador, no intuito de acompanhar a embaixadora à saída. Estranhou que esta não chamasse a escrava, a mesma que lhe servira de escabelo, a qual se mantivera imóvel, sempre de joelhos, sobre a alcatifa. A Ginga riu-se. Deixaria a escrava — retorquiu. Não tinha por hábito usar do mesmo assento mais do que uma vez. Esta escrava, que como escrevi antes se chamava Henda, veio a ter um curiosíssimo destino. A seu tempo o narrarei. Durante dias não se falou de outro assunto, em Luanda, senão da rara sagacidade da embaixadora do rei do Dongo. Fui chamado a uma assembleia, à qual compareceram os conselheiros do governador, bem como alguns dos mais poderosos comerciantes da cidade. Reconheci entre eles o senhor Silvestre Bettencourt, um homem crudelíssimo, em cujo engenho, em Pernambuco, passei os primeiros anos da minha infância. Um grande inimigo do meu pai. Fiquei aterrado, com receio de que me reconhecesse, mas tal não aconteceu.

Receberam-me todos com muita simpatia e curiosidade, querendo conhecer a minha opinião sobre a Ginga e o seu irmão, e pormenores da minha vida na ilha da Quindonga. À medida que a noite avançava, e o vinho ia correndo, foram-se mostrando mais inquietos e inamistosos. Ali conheci o senhor Rodrigo de Araújo, anfitrião da Ginga, que era um dos que mais surpresa manifestava pela inteligência da embaixadora. É coisa sobrenatural, disse-me, a fluência com que ela fala. No juízo dele, a inteligência, quando manifesta numa mulher, e para mais numa mulher de cor preta, de tão inaudita, deveria ser considerada inspiração do maligno e, portanto, matéria da competência do Santo Ofício. Outro dos comerciantes presentes, Diogo de Menezes, filho do erudito Bernardo de Menezes, de que tanto me havia falado Domingos Vaz, mostrou-se muitíssimo encolerizado com a ordem do governador para que devolvessem à Ginga os escravos roubados. Como podia ser aquilo, questionou-me, se tais peças já haviam sido despachadas para o Brasil e vendidas por bom preço aos proprietários dos engenhos?

Todos se mostraram interessados em saber com quantos homens armados poderia contar Ngola Mbandi, caso lhes declarasse guerra, e quantos de entre eles possuíam e sabiam manejar mosquetes. Lamentei não os poder ajudar, primeiro por só há escassos meses me ter instalado na corte da Ginga, depois por não falar a língua do país e, finalmente, por não ser ilustrado na arte da guerra.

A minha resposta irritou a assembleia. Diogo de Menezes aconselhou-me a abrir os olhos, pois, com batina ou sem batina, continuava sujeito ao rei de Espanha e de Portugal. Nas palavras de Diogo de Menezes, o governador não me enviara ao Dongo para servir aos negros, e sim para o servir a ele e à coroa.

Regressei com o coração aflito ao convento dos irmãos franciscanos, onde, como escrevi acima, me encontrava agasalhado. Dormi muito mal. Ao amanhecer, Domingos Vaz veio ver-me. A Ginga queria receber as águas do batismo. Não estranhei. Àquela altura já nada vindo da Ginga me podia espantar. Não pude impedir-me de sentir alguma mágoa por não se ter ela aconselhado comigo. Domingos

Vaz adivinhou a minha amargura. Disse-me, sorrindo, que me não amofinasse, pois a decisão da Ginga não era de natureza espiritual e sim política. Ao converter-se reforçava a aliança com os portugueses e, ao mesmo tempo, tomava para si uma parte da magia dos cristãos. Desagradou-me o último argumento. Muito me repugnava, retorqui com aspereza, ouvi-lo colocar o nome de Cristo Nosso Senhor ao lado de tal vocábulo. A feitiçaria é obra do demo. Ao receber a sagrada água do batismo, a Ginga teria de renunciar aos seus ídolos e badulaques e imundícies infernais. Domingos Vaz, assustado com o meu tom de voz, implorou o meu perdão. Era — disse, baixando os olhos — um homem ignorante, incapaz de debater comigo. Ainda assim lhe parecia a ele haver grande magia na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, como o ter caminhado sobre as águas, ter devolvido a vista a um cego, ou transformado a água em vinho, sendo este o prodígio que mais apreciava. Sorri, sem energia para argumentar com ele, tão sincero o achei naquelas palavras.

O batismo da Ginga ocorreu na Sé Catedral, com o concurso de muita fidalguia e gente poderosa. Nem nessa altura vi as tais mulheres de tez da cor das pérolas e de cabeleiras muito polidas e negras, que Domingos Vaz afirmara habitarem a cidade. As mulheres portuguesas mostravam tão mau semblante quanto os homens, senão pior, que de tanto fugirem do sol, por temerem a sua fúria, traziam a pele macilenta e sem brilho algum. Vi, sim, muitas senhoras pardas, donairosas e de fino trajar, mas não as achei mais encantadoras e dignas de atenção do que as fidalgas do Reino do Dongo.

Uma multidão de curiosos concentrou-se no exterior, para testemunhar a conversão e participar dos festejos. O próprio governador, João Correia de Sousa, foi o padrinho, razão por que a Ginga tomou o nome de Ana de Sousa. Teve como madrinha Dona Jerónima Mendes, mais conhecida na língua da terra por Dona Ngombe diá Quanza, esposa do capitão-mor de cavalos e senhora de dilatada fortuna.

Regressámos ao Dongo duas semanas mais tarde, com os escravos carregando aos ombros os inúmeros presentes que o governador, e outros notáveis, haviam oferecido à Ginga, à qual, a partir deste ponto da minha narração, poderei, com legitimidade, mas não muita, chamar também Dona Ana de Sousa.

Numa das noites em que acampámos chamou-me Dona Ana de Sousa à sua presença. Encontrei-a sentada num enorme cadeirão de palha, com muita elegância e uma frescura que desmentia os quarenta anos de vida, bem vividos, que já levava. Cinco tocadores de marimba entretinham-na e às fidalgas que a acompanhavam, batendo com muita harmonia nos seus instrumentos, que era como se de dentro daquelas cabaças e madeiras jorrassem rios e cantos de aves. Também eu me sentei escutando-os.

Depois que os músicos se foram, perguntou-me a Ginga, sorrindo, se me agradara o batizado. Respondi-lhe, sem esconder os meus sentimentos, que a decisão dela me causara natural surpresa. Nas conversas anteriores, sobre questões de fé, achara-a sempre pouco apegada às coisas de Deus, do verdadeiro e autêntico Deus, muito presa aos antigos ídolos e grandemente desconfiada da Igreja. Voltou a sorrir. Ofereceu-me assento numa almofada, a seus pés. Senta-te, ordenou, vou contar-te uma história que o meu pai me contou a mim, depois de a ter escutado ao pai dele. Aqui, neste chão de África, nós gostamos de contar histórias.

Havia uma moça em idade de casar, vou chamá-la Mocambo, como a minha irmã mais nova e tão linda quanto ela. Mocambo tinha muitos pretendentes. Nenhum lhe agradava. Um dia surgiu diante dela o Senhor Elefante. Sou forte, disse-lhe, sou o mais forte desta nação. Não há ninguém mais poderoso do que eu. Mocambo olhou para o Senhor Elefante e viu uma fortaleza, um potentado, uma imensidade. Seduzida, disse-lhe que sim, que estava disposta a casar com ele, e começou logo a preparar o noivado. Nessa tarde apareceu-lhe o Senhor Sapo, fazendo grandes salamaleques e cortesias, e oferecendo-se também para seu marido. Mocambo, divertida com tal pretendente, que lhe parecia meio tolo, um pobre diabo sem nome nem fortuna, lá explicou que não podia ser, pois estava noiva do Senhor Elefante. Riu-se o Sapo — o Senhor Elefante? Pois não sabia a Mocambo que o Elefante era um escravo seu? Muito se admirou a moça. Não acreditava naquilo, parecia-lhe impossível que o Senhor Elefante, cujo simples caminhar sacudia a terra, estivesse sujeito a figura tão acanhada e tão verde quanto aquele Sapo. Ao anoitecer, quando o Senhor Elefante apareceu para cumprimentar a noiva, esta contou-lhe o que lhe dissera o Senhor Sapo. Mostrou-se o Senhor Elefante muito irado ao ouvir a vil aleivosia, saindo, aos gritos, à caça do rival. Encontrou-o já de manhã a nadar numa lagoa e logo o intimou, em altos brados, a sair dali e repetir o que dissera à Mocambo. Veio o Senhor Sapo muito sereno, assegurando ao Elefante que não, que jamais afirmara tal absurdo e dispondo-se a acompanhá-lo para esclarecer a questão na presença da moça. Foram os dois por aqueles matos acima. Ao fim de algum tempo, queixou-se o Senhor Sapo que não conseguia acompanhar o Senhor Elefante e que seria mais rápido se este o transportasse no dorso. O Senhor Elefante, irritado com a marcha lenta do batráquio, deixou que este se instalasse no seu dorso, e assim prosseguiram viagem. A meio do caminho, o Senhor Sapo arrancou um raminho de uma silva, com que se pôs a fustigar o Senhor Elefante, dizendo-lhe que agia assim para afastar as moscas. O que a Mocambo viu foi o Senhor Sapo montado no seu escravo, o grande Elefante, e açoitando-o para o apressar. Muito poderoso devia ser o Sapo para ter escravo tão forte, pensou. E assim, graças a este ardil, Mocambo casou com o Senhor Sapo.

Riu-se muito a Ginga ao contar-me a fábula. Riram-se as suas fidalgas e mucamas. Riu-se Domingos Vaz enquanto a traduzia. Eu não me ri. Achei-a ingénua e disparatada, como um conto para divertir infantes. Contudo, fiquei a pensar nela e no que a Ginga me teria querido dizer ao contá-la.