A Rainha Ginga

José Eduardo Agualusa · Capítulo 7 de 12

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A Rainha Ginga

Capítulo Sexto

 

A VIDA NA CORTE DA RAINHA GINGA. A tomada de Pernambuco pelos flamengos. Neste capítulo surge ainda, pela primeira vez, a curiosa figura do pirata Ali Murato.

 

1

 

Após o nosso triunfal regresso ao quilombo, vivi ali cinco prolongados anos de uma quase completa placitude. Os estrangeiros eram, de forma geral, bem tratados por toda a população, fidalgos, povo ou escravaria. De resto, os escravos recebiam no Reino do Dongo um tratamento muito mais compassivo do que aquele que lhes era reservado em Luanda ou no Brasil. Entre os africanos vigora uma lei segundo a qual só perde a liberdade quem cometeu crime que mereça a morte, sendo a pena comutada em escravidão. Além destes, somente os prisioneiros de guerra, cuja vida está por direito nas mãos dos vencedores, podem ser escravizados. Por nascimento, apenas os filhos das escravas são escravos; não os filhos dos escravos. É a regra do partus sequitur ventrem.

Os portugueses não respeitam nenhuma destas leis, enviando para o Brasil não somente os escravos ou caxicos mas também os homens livres (murinda). Este desrespeito foi sempre uma das queixas da rainha contra os portugueses.

No dia a dia, os escravos levavam uma vida semelhante à dos homens livres, caçando com eles, comendo ao lado deles, divertindo-se nos mesmos batuques e folguedos.

Quase todos os meses chegavam gentios fugidos de Luanda e era através deles que íamos recebendo notícias do que ali se passava — bem como do resto do mundo. Foi assim que tomei conhecimento do nascimento do meu filho, ao qual Muxima deu o nome de Cristóvão. Soube também que ela havia tomado as águas do batismo e que passara a chamar-se Inês de Mendonça.

Quis de novo voltar a Luanda para resgatar Muxima e o nosso filho. Cipriano opôs-se. Os portugueses estavam agora muito mais atentos. Não poderíamos voltar a utilizar o disfarce de ciganos — e de que outra forma entraríamos em Luanda sem levantar suspeitas. Melhor seria aguardar alguns anos, até que o menino ganhasse corpo, e depois ajudar Muxima a abandonar a cidade.

Lobo e os seus ciganos partiram para o Reino do Congo, onde esperavam, a troco da boa prata que haviam ganhado, conseguir embarcar para o Brasil. Fiquei triste por os ver partir, mas também um tanto aliviado, pois Sula ganhara o hábito de me visitar à noite, em minha casa, e eu vivia ansioso, com medo de que o velho patriarca nos descobrisse.

Não queria que ela viesse. Contudo, assim que a via erguer-se e partir, adiantando-se à vaga luz da manhã, já eu ansiava por tê-la de novo de encontro a mim. Sula era ágil e esquiva, uma sombra quente que me visitava em sonhos, como um súcubo. Acordava, ou julgava acordar, e via-a debruçada sobre mim, as afiadas unhas enterradas no meu peito, sem pudor nem indulgência, apossando-se do meu corpo como se eu lhe estivesse destinado desde o princípio do mundo. Na última visita que me fez assegurou-me, muito séria, que nos voltaríamos a ver.

Por fim, também Cipriano se foi embora, em mais uma das suas viagens, desta vez de regresso a Zanzibar, onde o aguardavam a esposa e os filhos, e eu fiquei sem ninguém que se achasse disposto a escutar os meus projetos de resgate.

Havia guerras, sim, mas longe dali, como um rumor distante — cães latindo para além do nevoeiro. O que eu sabia delas era por ver chegar os jagas arrastando gente presa, às vezes soldados brancos, ainda mais brancos pelo pavor de se julgarem levados não a caminho do cativeiro, mas da caldeira onde os iriam assar. Os poucos com quem falei estavam convictos de que os jagas devoravam os inimigos, e que nutriam particular apreço pela carne dos europeus, tida como mais macia e perfumada. A verdade, contudo, é que durante os cinco anos que ali habitei nunca assisti a nenhum de tais festins.

Os brancos permaneciam no quilombo, à espera que os resgatassem, e se a alguns os vi cativos, ligados dois a dois pelo pescoço com ferrugentos libambos de ferro, outros andavam soltos, morando em casas que eles mesmos construíam, caçando e pescando como os habitantes do lugar.

Todos manifestavam por mim um formidável desprezo, cuspindo no chão quando me aproximava, e alguns recusavam-se a falar comigo, por me considerarem traidor à raça e à bandeira. O único destes prisioneiros que se aproximou de mim, e do qual me tornei amigo, foi um capitão de cavalos, de seu nome Mariano Mendes Cardoso, cristão-novo, natural do Rio de Janeiro, um homem ainda moço, imberbe, com uma pálida e macia pele de menina, com quem a Ginga simpatizou, a ponto de o juntar às mulheres do seu harém.

Costumava visitá-lo na banza da Ginga. Lembro-me dele, vestido de mulher, à europeia, sapatos, anágua, saia, espartilho, corpete e gola, suando em bica, mesmo à sombra, enquanto duas escravas sacudiam o ar com enormes leques feitos de folhas de palmeira. Vestido de mulher, penteado como uma mulher, Mariano parecia realmente mais fêmea do que macho e eu tinha de fazer um enorme esforço para não o tratar como tal, pois sabia quanto o magoava sujeitar-se a tão extravagante situação.

Apesar de tudo, Mariano não recriminava a rainha. O destino parecia-lhe afortunado, por comparação ao dos restantes cativos. Disse-me que a Ginga mostrara sempre grande cortesia para com ele e que só o importunava que teimasse em vesti-lo de mulher, para o que mandara até comprar-lhe roupas europeias, as mais dispendiosas e coloridas, mostrando-o nesses trajes a toda a gente.

Decorreram três anos. Um dia veio ter comigo um escravo recém-chegado de Luanda. Messias (era o seu nome) caíra de amores por uma outra cativa, Maria Parda, decidindo escapar com ela. Ali estavam ambos, agora, no quilombo da Ginga.

Messias servira Dona Marcelina como cozinheiro durante quinze anos. Era um homem torto de um olho, mas muito direito de corpo e de carácter. Disse-me que, informada dos seus planos de fuga, a senhora Inês de Mendonça lhe rogara que me entregasse uma carta. Entregou-me a carta, que li trémulo de espanto e emoção. Nela, pela sua própria letra, por vezes um tanto infantil, um tanto hesitante, Muxima dava-me conta da boa saúde do nosso filho. Fazia grandes louvores a Dona Marcelina, à qual chamava de benfeitora, afirmando sentir-se feliz em Luanda. Pesava-lhe muito a minha ausência, porém, pensando no futuro do menino, não via sentido em deixar a cidade para se entranhar com ele pelo mato.

Pareceu-me um forte argumento. Interroguei Messias. Confirmou o que Inês dizia. Dona Marcelina afeiçoara-se a ela, tratando-a como a uma filha.

— Dizem que a senhora Inês se comporta como se fosse mesmo filha dela — murmurou.

Estranhei a observação:

— O que estás insinuando? — quase gritei.

Messias baixou a voz e dobrou a cabeça, aflito e envergonhado. Comentava-se que a senhora Dona Inês já lidava com a casa e com os serviçais, inclusive os mais antigos, não como convidada, mas com ásperos modos de patroa. Muitos escravos se revoltavam com o que lhes parecia um enorme atrevimento. Muxima, murmuravam eles, chegara a Luanda como cativa, sem nada de seu além de uma cria de padre na barriga, e em poucos meses se pusera mais alta do que todos, gritando ordens e castigando quem as não cumprisse.

A conversa com o cozinheiro perturbou-me muito. A mulher que ele me descrevia não se assemelhava àquela que eu conhecera, ou que julgara conhecer. Muito mais tarde, enquanto envelhecia, compreendi que o amor exige uma espécie de cegueira. Amamos não quem os nossos olhos enxergam, mas quem o nosso coração demanda. O ser amado é, quase sempre, uma invenção indulgente de quem ama.

 

2

 

CIPRIANO RETORNOU CANSADO, mancando da perna direita, com o cabelo totalmente embranquecido. Achei-o, porém, mais vivo do que quando partira. Surgiu no quilombo à frente de uma enorme e faustosa quibuca. Ao ver-me soltou um grito de júbilo e antes mesmo de me abraçar, antes mesmo de me saudar, atirou para o ar ardente da tarde a incrível novidade:

— Os flamengos tomaram Pernambuco!

Nessa noite, na banza da Ginga, discutimos as notícias que trazia. Uma esquadra flamenga, composta por sessenta e seis navios, transportando um total de sete mil homens, partira da ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em dezembro de 1629, em direção ao Brasil. A esquadra pertencia à Companhia das Índias Ocidentais e era comandada pelo almirante Hendrick Loncq, um homem que fizera carreira combatendo aqueles mesmos piratas mouros, ou piratas barbarescos, como também são conhecidos, que haviam raptado Cipriano. Fora, aliás, através de um desses piratas, de quem se tornara amigo, que Cipriano recebera a notícia da tomada de Pernambuco.

Os flamengos haviam conquistado Salvador, em 1624, prendendo o governador-geral, Diogo de Mendonça Furtado, e enviando-o para os Países Baixos. Contudo, no ano seguinte, a Espanha enviou uma poderosa armada, composta por cinquenta e dois navios, sob o comando do marquês de Villanueva de Valduesa, Dom Fradique de Toledo Osório, que derrotou e expulsou os invasores.

A operação que levara à tomada de Pernambuco parecia muitíssimo mais sólida.

A rainha mostrou-se animada com a notícia. Chegara o momento de estabelecer uma aliança com os flamengos. Cipriano sugeriu que a Ginga enviasse um embaixador a Pernambuco. Ele chegara às costas de Angola, desde Zanzibar, não por terra, como fizera noutras ocasiões, e sim contornando África, do índico ao Atlântico, num navio corsário. O navio esperava por ele na mesma baía onde o desembarcara, disposto a transportar até Pernambuco um representante da Ginga.

O comandante do navio era o famoso Ali Murato. Não estranhei ao saber que Cipriano criara laços de afeto com tão extraordinário personagem. O português parecia ter copiado, ao menos em parte, o destino do outro. Ali era natural de Antuérpia, na Holanda do Sul, tendo sido batizado com o nome de Jan Hals. Capturado por piratas mouros, não só mudou de religião como se juntou a eles nos saques, correndo os vários mares, desde Ceuta a Fort Royale, desde a Islândia a Baltimore. Navegou durante muitos anos às ordens de Sulayman Reis que, como Ali, era flamengo. Sulayman morreu numa batalha contra navios de guerra franceses e ingleses, a poucas léguas de Cartagena, ao ser atingido pela pesada bala de uma bombarda, a qual lhe cortou ambas as pernas, arrancando-lhe do corpo todo o impetuoso sangue.

Cipriano devia ter previsto a reação da rainha às boas-novas que trazia. Parecia ter respostas a todas as nossas questões. Perguntei-lhe o que Ali Murato pediria em troca para transportar até Pernambuco uma embaixada da Ginga. Cipriano sorriu, trocista:

— Ele quer o que querem todos, ou prata ou peças. Além disso Ali está cansado do corso. Gostaria de se reconciliar com os seus compatriotas e envelhecer em paz na sua cidade natal.

Discutiu-se depois quem deveria ir. A rainha sugeriu um seu sobrinho, o filho mais velho de Quifungi, Ingo, um moço experiente nas artes da guerra, mas também um eficaz negociador, sensato e inteligente, quase tão bom diplomata quanto a tia. Ingo não falava português, mas era capaz de se comunicar em latim com grande desenvoltura, língua que aprendera com um capuchinho italiano.

— Irá Ingo! — determinou a rainha. — O senhor padre acompanhá-lo-á, como língua, secretário e conselheiro.

 

3

 

Duas semanas mais tarde já íamos, eu, Cipriano e Ingo, juntamente com muitos soldados e escravaria, em direção à costa, por trilhos pouco explorados, de forma a evitarmos ser surpreendidos pelos portugueses ou guerreiros de sobas inimigos. Seguíamos em luxuosas liteiras, carregadas, cada qual, por dois escravos. Dormíamos nas mesmas cadeiras onde viajávamos, com bastante conforto, pois eram resguardadas de todos os lados por uma gaze muito fina, a qual impedia a entrada de mosquitos.

Em algumas regiões de Angola, sobretudo junto aos rios e lagos, o principal inimigo não são as grandes feras, mas os seres mais minúsculos. De resto, entre os mosquitos, os mais agressivos, de mais ardente picada, são os menores, uns minúsculos seres alados a que os ambundos chamam miruins ou miringuins.

Vi homens, sobretudo europeus, com a pele de tal forma assanhada, após uma noite ao relento, que se diria terem sido escovados com um ralador. É minha fé que a picada destes mosquitos traz algum tipo de peçonha. As pessoas assaltadas por febres são quase sempre aquelas que sofreram as picadas, em particular durante a estação chuvosa, que é quando os mosquitos se manifestam com mais abundância e de forma mais tenaz.

Era em abril ou maio. Já não chovia, mas os crepúsculos ainda carregavam ávidas nuvens de mosquitos. Na segunda noite da nossa jornada, acampámos junto àquela dobra do rio onde eu vira pela primeira vez uma andua. Ceámos, conversámos um pouco, e depois fui-me deitar. Dei-me então conta de um largo rasgão na rede que cobria a liteira, através do qual entravam os mosquitos. Tentei ignorá-los, mas sem sucesso. Fechava os olhos e logo um deles me pousava nos lábios, no nariz, numa orelha, atormentando-me com a sua picada.

Não consegui adormecer. Por fim, ergui-me. Atravessei o acampamento, pisando com os pés descalços a cinza ainda quente das fogueiras. Os escravos dormiam encostados uns aos outros. Ninguém os vigiava. Não era necessário. A maioria viera de regiões muito distantes. Não se atreveriam a fugir.

Avancei com cuidado para não despertar ninguém. Pretendia apenas refrescar o rosto, escalavrado pelos mosquitos, e ia fazê-lo quando escutei o canto de um pássaro — um som harmonioso, que emanava da floresta escura como se viesse da garganta de Deus. Julguei que fosse uma andua — na verdade eu queria que fosse uma andua — e por isso dei mais alguns passos ao longo das margens do rio, e depois outros tantos, em busca dela.

Tinha-me distanciado uns dois mil pés do acampamento quando um restolhar, à minha direita, me atraiu a atenção. Aterrorizado, vi precipitar-se contra mim a massa imensa de um cavalo-marinho. Lembrei-me do que me dissera Domingos Vaz. Girei os olhos e lá estava ela, a cria do monstro, chapinhando nas águas. Colocara-me, sem intenção, entre a pequena e a mãe. Larguei a correr, aos gritos, na direção do acampamento. Tropecei e caí, afundando a cabeça na lama. Julguei que fosse o fim. Vi-me a mim próprio, como se os meus olhos flutuassem soltos no ar, estendido de borco, enquanto a fera, alcançando-me, me abria o peito com uma única dentada.

Isso não aconteceu. Alguma coisa saltou ao meu lado, mas não era o animal. Ajoelhei-me. Ingo atravessara-se no caminho do bicho, agitando uma comprida lança. Falava com a fêmea de cavalo-marinho como se esta fosse uma velha conhecida. Compreendi o que dizia:

— Afasta-te, mãezinha, o teu filho está no rio, está a salvo. Vai, vai, ninguém te ofenderá.

A gigantesca criatura encarou-o um breve momento, resfolegou, deu costas e entrou na água.

Ingo ajudou-me a levantar:

— Não passeies à noite pela floresta — disse-me num tom de censura, que o largo sorriso desmentia. — Só as feras, os mortos e os homens-leões passeiam à noite pela floresta. Não creio que tu sejas um homem-leão.

4

 

Ali Murato fora governador de Salé-a-Nova, uma república de piratas, no Norte de África, que reunia muitos milhares de mouriscos e judeus expulsos de Castela, os quais falavam castelhano melhor do que árabe, isso quando falavam árabe. Os mouriscos e os judeus de língua castelhana misturavam-se na cidade com aventureiros, bucaneiros e renegados vindos dos quatro cantos do mundo.

Consta que os mouros tratam melhor os cristãos que chegam às suas terras, como cativos ou homens livres, do que os cristãos tratam os mouros. Um cristão que se converta em mouro é logo aceite por eles e tratado como um igual. Nunca ouvi falar em «mouros velhos» e «mouros novos».

João Carvalho Mascarenhas, na sua Memorável Relação da Perda da Nau Conceição, publicada em 1627, conta um episódio que não mais esqueci. Cito-o de memória, visto não ter comigo o dito livro. Uma ocasião chegou a Argel um navio francês. O capitão, de nome Pierre, tendo matado um dos seus marinheiros à facada, decidiu fazer-se janízaro, atendendo a que um soldado de paga, mais a mais mouro, não pode nunca ser condenado pela morte de um cristão. E se bem o pensou melhor agiu.

Os mouros acolheram-no numa grande festa — já não Pierre, mas Mustafá — com trombetas e manjares e muitas outras cortesias. Sendo o tal Pierre, ou Mustafá, senhor de vários navios, além de jovem e bem-apessoado, não demorou a receber propostas de casamento. Aceitou, por fim, a mão de uma menina turca, de grande formosura, a qual tinha três irmãos, um dos quais cabo de esquadra. Não ficou muito tempo em Argel. Logo convenceu os cunhados a ajudarem-no a aparelhar uma nau para o corso, prometendo repartir com eles o produto do saque. Na mesma nau levou, além dos cunhados, vários renegados franceses, todos, como ele, com pouca inclinação para a mouritude. Mal se apanhou no mar largo, Mustafá voltou a ser Pierre, mudou de rumo e, aportando a Espanha, tratou de vender os cunhados. Os pobres choravam, lembrando que lhe haviam entregado a irmã, a mais bela das turcas, de mimosos olhos, doce sorriso, rogando que os deixasse ir, senão a todos ao menos ao caçula, que não merecia sorte tão ingrata. Retorquiu-lhes Pierre, sorrindo, ser aquilo usança entre os cristãos, e que muito tolo seria ele se deixasse escapar tão boa mercadoria.

Ali Murato comandava agora um veleiro de três mastros — um filibote, ou fluyt, na língua dos flamengos — chamado Windhond. Os filibotes possuem mastros mais altos do que os galeões, pelo que são mais velozes, mas não tanto quanto as caravelas. Daí que o nome do navio, galgo, em português, me tivesse parecido um pouco exagerado.

A República de Salé estava bem representada no Windhond. A maioria dos marinheiros era mourisca, mas havia também judeus de diversas proveniências, além de flamengos, turcos, húngaros, etíopes, um preto jau (de java) e até um chinês.

Ainda em terra descobri entre os marinheiros um judeu português, Rafael Salem, que me confessou, sem pejo, ter-se juntado aos piratas de Ali na esperança de conseguir tirar a El-Rei Dom Filipe, o Quarto, o Terceiro de Portugal, um pouco do muito que El-Rei lhe roubara a ele e à família. Não tive como o contestar. Mesmo quando acreditava em Jesus com toda a minha alma, mesmo quando não me atrevia a contestar o comportamento dos príncipes da Igreja, não entendia a perseguição aos judeus. Nosso Senhor Jesus Cristo era judeu. Maria, a sua mãe, era judia. Odiar os judeus, todos os judeus, é odiar esse mesmo Jesus que veio para nos salvar. Menos entendia que andassem expulsando gente que tanta falta fazia a Portugal, como falta fizera a Espanha, físicos, diplomatas, astrónomos, músicos, calígrafos, alguns dos quais viriam a contribuir para a grandeza dos Países Baixos e de muitas outras nações.

Um grupo de piratas aguardava por nós na praia. Haviam construído três pequenas choupanas quase em cima do mar, e ali dormiam, passando os dias a caçar e a negociar com o gentio da região, com tanta naturalidade como se tivessem nascido ali. Trocavam mercadorias diversas por escravos. Vinte e quatro facas, uma espingarda ou seis espelhos grandes por um homem feito. Seis bacias de estanho por uma mulher prenhe. Duas cornetas por uma menina.

Os negreiros ganham neste comércio mais de cem por cento. Pouco lhes custam os quimbembeques com que pagam os escravos, e a viagem, correndo bem, também não é muito dispendiosa. Uma vez no Brasil vendem cada homem adulto por dezoito mil reis.

Rafael estava na praia. Ao ver-nos, avançou à frente do grupo, rindo, batendo alegremente num ngoma, ou tambor, enquanto dois dos seus companheiros erguiam e agitavam compridas folhas de palmeira, como se fossem estandartes.

Rafael era assim mesmo: tinha um pouco de bufão e outro tanto de Aquiles. Espigado, gentil-homem, de espessa barba ruiva, por onde passasse logo fazia bons amigos — e melhores inimigos. O pai praticara muitos anos como ourives em Coimbra, seguindo uma antiga tradição da família. Acusado de se haver judaizado acabou, após grandes tormentos, por ser condenado à morte pelo Tribunal do Santo Ofício, e relaxado ao braço secular para que este cumprisse a sentença. Contudo, não morreu na fogueira, pois antes disso conseguiu escapar com a família para o Norte de África, sendo executado apenas em estátua. Esta experiência de ser queimado em efígie também eu a sofri, como mais adiante narrarei. Muitas vezes, em sonhos, vejo-me a mim mesmo, ou à figurinha de papelão que colocaram em meu lugar, preso dentro de uma gaiola. Vejo um homem ateando as chamas e ouço o riso bárbaro da turba, os aplausos nervosos. Acordo numa grande angústia, com vergonha de mim — com vergonha dos homens.

Uma vez em África, Rafael e a família retomaram os nomes e os costumes judeus.

Ali Murato ficara no navio. Sentia-se mais seguro no mar. Enjoava em terra. Não o vi no dia em que cheguei, nem no seguinte. Só me levaram ao navio no terceiro dia, para negociar a viagem.

O chefe dos piratas recebeu-me nos seus aposentos. Tive a feliz surpresa de encontrar, pousados numa larga mesa, diversos mapas e livros de navegação. O famoso pirata não correspondia ao que eu imaginara. As mãos vagas e finas, de baronesa velha, moviam-se sozinhas, como se pertencessem a um outro corpo. Os olhos nervosos, muito azuis, mal se demoravam nos meus. Só a voz era forte e sólida. A voz de um homem que se treinara no mando. Tratou-me como se já me conhecesse. Suponho que Cipriano lhe terá falado de mim. Cumprimentou-me em espanhol, com bons modos, querendo saber como fora a viagem. Riu quando lhe contei o episódio do hipopótamo. Só depois de muitas voltinhas e prelúdios se fez ao assunto. Levar-nos-ia a Pernambuco. Tratando-se, porém, de viagem perigosa exigia ser bem pago. Pretendia render-se, reconhecendo os muitos erros e dando informações que ajudassem a Companhia das índias Ocidentais a proteger-se dos piratas. Isto na condição de que todos os seus homens fossem indultados e o deixassem a ele retornar à pátria e rever a família.

Infelizmente, poderíamos topar no percurso com alguma esquadra portuguesa, e, se tal desgraça viesse a suceder.

O Windhond não conseguiria nem fazer-lhes frente nem escapar. Sosseguei-o. A rainha Ginga saberia recompensar a sua boa atitude. Discutimos então o número de peças que poderia levar para o Brasil: trinta. De resto o barco era pequeno e, entretanto, os piratas já tinham comprado sete peças ao gentio da região. No Brasil aquelas trinta e sete peças renderiam muito bom dinheiro.

No regresso a Angola, caso aceitasse trazer de volta o sobrinho da rainha e a resposta dos flamengos, Ali Murato seria pago com ouro e prata. O pirata concordou com tudo.

Assim, dez dias depois, embarcámos os escravos, água e alimentos frescos. Despedi-me de Cipriano, na praia, muito comovido. O português abraçou-me, desejando-me boa viagem. Colocou nas minhas mãos uns óculos de ver ao longe, que ele mesmo fabricara, dizendo, trocista, que era para, do outro lado do mar, eu conseguir ver o que se passava em Angola. Ainda hoje tenho esses óculos.

Foi uma viagem difícil. Ali Murato mandou que construíssem uma espécie de cabana, no tombadilho, para mim e para Ingo, e era ali que dormíamos. Se esticávamos as pernas abria-se a porta. Os piratas repousavam ao ar livre, no convés, junto com os escravos. Comiam juntos, fumavam juntos, riam e folgavam uns com os outros.

Galinhas, perus e porcos passeavam-se também por ali, em grande alarido, confusão e imundície. Ao fim de quinze dias já tínhamos comido tudo o que, sendo vivo, não fosse gente — o tombadilho continuou imundo, mas pelo menos cessou a gritaria das aves.

Os escravos dançavam de noite, para divertimento de toda a gente, dando grandes saltos e fazendo acrobacias.

Nas últimas noites já não dançavam. Havia apenas biscoitos para comer. A água escasseava. Rezávamos para que o vento nos empurrasse para terra. Então, numa manhã asmática, vimos uma gaivota romper a bruma e pousar, grasnando, no cesto da gávea.