A Rainha Ginga

José Eduardo Agualusa · Capítulo 12 de 12

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A Rainha Ginga

Epílogo

 

Dona Ana de Sousa, a rainha Ginga, morreu a 17 de dezembro de 1663, aos oitenta anos, em paz com os portugueses e com a Igreja Católica Romana.

Não voltei a ver Cipriano, o Mouro. Chegou-me, contudo, uma carta dele, entregue por um jovem de muito boa aparência. Este jovem, o qual se apresentou como sendo um dos seus muitos netos, disse-me que o avô regressara a Argel, para o seio da família, sendo figura muito respeitada e admirada em toda a cidade. Na carta, Cipriano lamentava não ter chegado a tempo de participar na batalha das Sengas de Cavanga, com as armas que fora comprar e que poderiam (embora eu não creia em tal) ter mudado o curso da História. Tratava-me por irmão e afirmava estar sempre comigo:

«Assim como as águas de um rio não desaparecem depois que passam por nós, apenas se movem para um outro lugar, assim também os dias não se esgotam nunca — apenas vão para um outro lugar. Continuo a conversar contigo nas horas eternas em que conversámos, e essas são as horas boas da minha vida.»

O jovem entregou-me uns óculos para ver ao perto, que o próprio Cipriano fabricara e que são os mesmos que estou usando agora, enquanto concluo este testemunho.

Cristóvão casou com uma judia portuguesa chamada Sara. Tiveram quatro filhos, um menino e três meninas. O menino. Domingos, ou Ingo, é hoje mestre impressor. Trabalha na tenda de livros que fundámos em Amesterdão, eu e Cristóvão, no mesmo ano em que aqui chegámos. Não enriquecemos — nisso o meu filho não acertou —, mas temos composto livros belíssimos.

Lisboa, 2 de abril de 2014

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José Eduardo Agualusa

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