A Rainha Ginga

José Eduardo Agualusa · Capítulo 8 de 12

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A Rainha Ginga

Capítulo Sétimo

 

Chegada ao Brasil. O triste desaparecimento da cidade de Olinda. Um longo e terrível sequestro. Uma audiência com João Maurício de Nassau.

 

1

 

Nasci em Olinda. Nunca encontrei em nenhum outro lugar do mundo um céu mais amplo e mais azul do que aquele que os meus olhos viram pela primeira vez, num quieto domingo de abril, quando José, o meu pai, me ergueu nos braços para me mostrar a cidade. A minha mãe morrera, no parto, cinco dias antes. Durante esses dias José recusara ver-me. Saía muito cedo para trabalhar. Terminado o trabalho ia para uma taberna beber sozinho. Por fim a minha avó Clemência perdeu a pachorra. Foi buscá-lo à taberna, arrastou-o para casa e colocou-lhe nos braços aquela pequena coisa em prantos — que era eu. José saiu para o sol da tarde e subiu comigo até ao Largo do Amparo, que na época ainda não se chamava assim, não tinha sequer a igreja, hoje famosa, mandada levantar pela Irmandade de Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos.

Quando fiz três anos mudámo-nos para o Engenho Ma-zanga. Regressámos a Olinda depois que o meu pai denunciou Silvestre Bettencourt ao Santo Ofício, e ali vivi o resto da minha infância. Conhecia as ladeiras todas da cidade, as pracinhas sonolentas e cada uma das palmeiras que as adornavam. Conhecia os quintais onde tantas vezes folguei, sozinho ou com meninos da mesma idade, e as árvores de fruto que neles cresciam e que nesses folguedos figuravam fantásticos castelos, palácios e mesmo navios. Fecho os olhos e volto a ver o casario branco cavalgando as encostas. O Paço do Governador, ao lado da Sé, vigiando tudo. Descia-se a Rua do Paço até à Rua Nova. Lembro o alvoroço dos Quatro Cantos, a Rua Direita, a da Carapina, a da Figueira — onde se erguia a alegre casa em que nasci.

Olinda não existia mais. Reconheci as ruas íngremes, mas no lugar das casas encontrei apenas cinzas e ruínas e gente suja e assustada remexendo entre o desordenado entulho. Dos magníficos quintais, afogados em verde até à garganta, apenas resistiam, muito chamuscadas, quatro ou cinco árvores de maior porte. O resto era uma tristeza imensa.

— Porque fizeram isto?!

Lancei a pergunta mil vezes, na primeira tarde em que me pude passear pelas ruas devastadas da cidade, o que só aconteceu meses após a nossa chegada.

Rafael, que me acompanhava, tentou consolar-me.

— A maldade é mais natural nos homens do que a bondade — disse-me. — Repara, irmão, que a bondade exige um grande esforço do espírito. Somos maus pela mesma razão que as pedras não caem para cima, quando as soltamos, perdendo-se no céu. Somos maus por indolência.

Rafael sabia do que falava. No ofício que escolhera, e que desempenhara durante cinco anos, a maldade era competência apreciada. Ele, bom por natureza, nunca fora grande pirata. Àquela altura já o conhecia como a um familiar. Tivera tempo para o conhecer. Passáramos os últimos meses juntos, primeiro numa pequena cela, na qual haviam colocado também Ingo e dois outros piratas, e depois numa casa vigiada por cinco guardas. Ali Murato fora mantido à parte e só o vi, durante o tempo em que estivemos detidos, numa única ocasião.

A viagem decorrera, como já escrevi, sem grandes sobressaltos. A cinco milhas da costa saíram-nos ao caminho duas possantes naus holandesas. Ali Murato mandou arrear o pavilhão verde e vermelho da República de Salé, e içar um branco, em sinal de rendição. Poucos minutos após entravam a bordo os brutos flamengos.

Os primeiros dias foram duros. Os flamengos trataram-nos a todos como piratas — e piratas mouros. Não me foi difícil, porém, comprovar a minha identidade. O meu pai e a minha avó haviam abandonado Olinda, mas um dos meus primos, um tabelião de nome Artur, a quem o meu pai ajudara em várias ocasiões, reconheceu-me. Trouxeram-no à minha cela. Encarou-me com espanto — com sincero nojo:

— É ele, o maldito apóstata, o herético. O traidor.

Mandaram um capitão falar connosco: Isaac Pinto da Fonseca, um judeu, filho de portugueses. Os pais haviam fugido para Amesterdão em 1596. Isaac nascera no ano seguinte. Sacudia a cabeça, assombrado, enquanto escutava a minha narrativa. Concordou comigo quanto à importância de Angola para a Companhia das índias Ocidentais. Há meses que os oficiais flamengos discutiam a eventual tomada de Luanda.

A maioria dos engenhos havia sido abandonada. Uns queimados pelos proprietários em fuga, outros pelos atacantes. Muitos escravos escaparam para os sertões, misturando-se com índios ou formando quilombos inexpugnáveis. Só com a retoma do tráfico seria possível restaurar os engenhos e tê-los de novo a produzir o precioso açúcar de que a Companhia das índias Ocidentais tanto precisava.

Isaac voltou-se para Ingo. Ouvira falar muito na rainha Ginga. Ouvira falar na sua bravura e sagacidade. Dizia-se que era tão hábil enquanto diplomata, manejando palavras e argumentos, quanto nos campos de batalha, com o arco e as flechas. A Companhia gostaria de a ter como aliada na guerra contra os portugueses. Ele só não estava certo de que nós a representássemos.

Semanas mais tarde levaram-nos para um palacete ainda a cheirar a novo, junto ao porto, a partir do qual se espraia hoje a bela e orgulhosa cidade do Recife. O governador aguardava-nos num dos salões do edifício, um espaço sem luxo nem fausto algum. Sentado junto dele, a uma mesa atulhada de mapas, estava Ali Murato. Ergueram-se ambos ao verem-nos chegar.

Não me recordo já do rosto do governador. Nem sequer do seu nome. Poucos se recordam. As pessoas lembram-se apenas daquele que lhe sucedeu, o grande flamengo que transformou o Recife numa cidade aprazível — Maurício, conde (e depois príncipe) de Nassau, e isso é justo.

Ali Murato parecia ter sido infetado pela inexistência do outro. Cumprimentou-nos sem força, apagado e vil. Corroborou, distraído, o nosso testemunho. O governador desculpou-se perante Ingo, embaixador da rainha Ginga, por nos ter mantido presos durante tanto tempo, ordenando a nossa libertação e dando instruções para que nos agasalhassem a ambos numa casa condigna, a expensas do governo. Escreveria aos diretores da Companhia das índias Ocidentais dando conta das intenções da rainha Ginga e de todas as vantagens que tinham os flamengos em se aliarem com ela. Insistiu ainda que não deveria eu comentar com ninguém sobre a intenção da visita. A quem perguntasse responderia que viera à procura do meu pai, e que Ingo era apenas um escravo fiel que eu trouxera de África. Traduzi tudo isto a Ingo, mesmo a parte que o referia como escravo, na certeza de que este se irritaria. Isso, porém, não aconteceu. O meu amigo riu-se:

— Poderia ter-me calhado pior amo — disse em latim, e nessa mesma língua agradeceu ao governador o bom acolhimento.

Na tarde seguinte pude, enfim, visitar Olinda. Galgámos as ruas tristes, eu mais triste do que elas, e pasmado por ver tanta desolação onde antes havia cor e vida e alegria. Tentava explicar a Rafael e a Ingo o que fora a minha infância. O príncipe ambundo mostrava-se ainda mais horrorizado do que eu. Em demoradas conversas, em Angola, muitas vezes lhe falara no esplendor da cidade onde nascera — exagerando um pouco, é claro, pois qual o homem que não exagera os méritos da sua cidade?

Ali, em pé, diante das ruínas escuras, esforçava-me por lhes dar a ver a alvura das casas, o luxo dos salões, o ouro e a prata das igrejas.

Subimos a custo pela Rua do Paço, parando aqui e ali para retomar o fôlego. Pretendia mostrar-lhes a vista, lá do alto. Ao chegar, deparámos com algumas dezenas de pessoas catando sobras por entre o caos de cinzas e pedras soltas a que ficara reduzido o antigo Palácio do Governador. Distingui entre os catadores alguns ciganos — o velho Lobo e a família.

Aproximei-me. Sula foi a primeira a ver-me. Caiu a meus pés, segurando-me as mãos e chorando e gritando o meu nome de cigano:

— Melchior Boa-Noite, bem sabia eu que nos voltaríamos a encontrar!

Nessa noite ceámos no acampamento deles. Lobo lamentou a destruição de Olinda. Muita gente abandonara Pernambuco. As tropas holandesas haviam saqueado a cidade antes de lhe atear fogo. Vira soldados carregando ricas baixelas de prata, joias, brocados de ouro, sedas, tonéis de bom vinho. Ao crepúsculo dera até com um magote deles carregando um dos sinos da sé.

A destruição dos engenhos, das lavras e quintais e a fuga dos escravos logo se fizeram sentir. Faltava o que comer.

Um porco custava os olhos da cara. Uma galinha era coisa rara. Ao invés dela as pessoas comiam urubus, bichos horrendos, que se alimentam de lixo e carne podre. Havia quem pagasse para degustar ratos, e não ratos gordos, porque nem gordos os havia, senão que bem feios e escanzelados.

Também para os ciganos a vida ficara mais difícil, embora aparecesse sempre gente interessada em conhecer o futuro. Apesar de todos os pesares, notava-se uma diferença enorme. Uma diferença para melhor:

— Não sentes? — insistiu Lobo. — Não sentes quando respiras?

— O quê?!

— O medo, meu amigo! Já não cheira a medo!

Dei-lhe razão. No tempo dos portugueses o medo infiltrava-se na roupa, colava-se à pele, a todas as horas, mesmo enquanto dormíamos. Era tão presente, tão inevitável, que nem nome lhe dávamos.

O Santo Ofício, em tudo achando erro, em tudo adivinhando a sombra do demo e o fedor a enxofre que o anuncia — do sangue infeto dos judeus, ciganos e negros às rezas e mezinhas dos mandingueiros —, aterroriza as sociedades e através desse terror as degrada e avilta.

Os infelizes que caem nas garras dos inquisidores são incitados a denunciar terceiros. Quanto mais heresias, ou pretensas heresias, denunciarem, mais possibilidades têm de escapar ao castigo. As mães delatam os filhos, os filhos voltam-se contra os pais, os irmãos uns contra os outros. e neste ciclo de ódio e de rancor se quebram os laços mais íntimos e se perdem primeiro as famílias e depois as nações.

Todos os meses chegavam navios. Traziam soldados, mas também marceneiros, tanoeiros, ourives, ferreiros e um grande número de aventureiros sem ofício definido.

— Estão chegando muitos judeus portugueses — comentou Lobo. — Os flamengos não perseguem ninguém. Toda a gente tem liberdade de culto. Tu, por exemplo, no tempo dos portugueses terias ido parar à fogueira por heresia. Agora podes passear-te sem problemas. Também nos deixam a nós, ciganos, fazer o que sempre fizemos, ler o futuro nas mãos, praticar os nossos mistérios. Não nos importunam e esperam que também ninguém os importune a eles.

A casa onde nos haviam agasalhado ficava junto ao rio, num lugar abençoado pela sombra de uma frondosa mangueira. Houve dias em que não comemos nada senão os saborosos frutos daquela boa árvore. A casa tinha três quartos amplos, salão e cozinha. Rafael, que, como os restantes piratas, fora deixado ao deus-dará, veio viver connosco.

Ali Murato partiu para a Holanda numa tarde chuvosa, a bordo de um bergantim da Companhia das índias Ocidentais. Soube que os flamengos o compensaram muito bem pelas peças que o Windhond trouxera, bem como pelo navio. O pirata pôde voltar ao seu país natal muito mais rico do que quando partira — e com muitas histórias para contar.

Os restantes marinheiros depressa encontraram trabalho nos navios mercantes e largaram também eles de Olinda, com exceção de Rafael, o qual continuou connosco. Alguns voltaram ao corso. Que eu saiba apenas um, Jau, o javanês, retornou à República de Salé.

 

2

 

SULA RETOMOU AS SUAS INVESTIDAS NOTURNAS, no que teve êxito, pois a minha carne fraca, o meu espírito confuso, pouca ou nenhuma resistência lhe opuseram. O meu coração, esse, continuava cativo de Muxima. Todas as manhãs lhe escrevia uma carta, a qual, todavia, não enviava, por não ter como o fazer. Guardava essas cartas numa caixa de madeira, entretendo-me a imaginar as respostas de Muxima a cada uma delas.

Durante o dia pensava em Muxima. Durante a noite dedicava-me a Sula, largamente e com apetite. Acontecia, por vezes, ao beijá-la, acreditar estar beijando a angolana. Isso, contudo, era raro. O mais das vezes não pensava em nada. A cigana soprava-me aos ouvidos encantamentos, brandos sortilégios, e assim eu me esquecia de tudo, gozando de sensações que nem sabia existirem.

Rafael repreendia-me. Não o perturbava a minha condição de servo do Senhor. Àquela altura já poucos se recordavam de que eu, em tempos, usara batina. O antigo pirata temia, isso sim, que o velho Lobo se encolerizasse ao saber dos meus amores ilícitos. Os ciganos são muito zelosos de coisas da honra. Ingo não dizia nada. O sobrinho da Ginga evitava, como bom diplomata, expor opiniões. De resto, não mostrava, nessa altura, grande entusiasmo pelas mulheres portuguesas e brasileiras. Menos ainda pelas flamengas. No parecer dele os brancos usam um excesso de roupas, suando muito sob o feroz calor a que se acham sujeitos, e com isso produzem ao mover-se um insuportável fedor.

Artur, o primo que se mostrara nauseado ao ver-me, chamando-me apóstata, herético e traidor, veio procurar-me. Ouvira dizer que o governador me tinha em alto apreço. Os flamengos nada faziam — murmurava o povo — sem me ouvir primeiro.

— Vendo-te a viver numa casa tão rica — dizia, passeando-se pela sala, espreitando os quartos, acariciando docemente os móveis —, vendo-te tão bem agasalhado e a expensas do governo, deduzo que sejam verídicos os murmúrios do povo.

Rogou-me então, de lágrimas nos olhos, que intercedesse por ele. Tinha sete filhos e precisava de um bom ofício. Pediu-me que o colocasse no Paço, em algum trabalho que lhe garantisse, sem excessivo esforço, uma renda generosa.

— Somos família — lembrou, à despedida. — Uma mão lava a outra e juntas lavam o rosto.

Apareceu depois disso em muitas outras ocasiões, sempre choroso, sempre dobrando-se em zelosas vénias e salamaleques. Continuei a dizer-lhe que não possuía qualquer influência junto do governador. Desapareceu durante semanas, para ressurgir, uma infausta tarde, dobrado e conspirativo. Trazia-me, sussurrou, um recado do senhor meu pai. O velho José estava muito doente, às portas da morte, mas não queria entregar a alma ao Criador sem antes se despedir de mim. Olhei-o perturbado. O meu pai?! Haviam-me dito que o meu pai se refugiara em Salvador com a minha avó. Nunca conseguiria chegar a Salvador, tantas milhas para sul, sem cair nas mãos dos portugueses.

Artur contestou. Não, o meu pai estava muito próximo, no Arraial do Bom Jesus, a uma légua do Recife. O general Matias de Albuquerque erguera uma fortificação naquela localidade, apoiado por muitos homens práticos na guerra, e dali partia para flagelar os flamengos. Eu que o acompanhasse — insistiu — pois o meu pai e a minha avó me esperavam num engenho abandonado, algures entre o Recife e o Arraial, em terra neutra.

Rafael, junto do qual procurei conselho, achou uma temeridade que eu me entranhasse pela noite à procura do meu pai, tanto mais que nas últimas semanas vinham-se multiplicando os ataques às tropas flamengas. Os holandeses andavam aterrorizados com um terço de soldados pretos, comandados por um tal Henrique Dias, que ganhara fama de bravo e insolente. Este Dias tinha como companheiro nas suas tropelias um índio de nação potiguar, chamado Filipe Camarão, sendo que os flamengos os temiam muitíssimo mais do que aos brancos, preferindo mesmo matar-se a cair nas mãos de tal gente. Na sua imaginação, que muitos relatos assombrosos insuflavam, índios e negros eram capazes das piores barbaridades, comendo os inimigos anda vivos — comendo-lhes não só a carne mas também a alma.

Muita gente sabia de cor uma carta que o dito Henrique Dias teria escrito ao governador, e que começava assim:

«Meus senhores holandeses: o meu camarada, o índio Filipe Camarão, não está aqui; mas eu respondo por ambos. Saibam Vossas Mercês que Pernambuco é Pátria dele e minha Pátria, e que já não podemos sofrer tanta ausência dela. Aqui haveremos de perder as vidas, ou haveremos de deitar a Vossas Mercês fora dela.»

As pessoas declamavam aquela lendária carta como se fosse um poema, em saraus e festas, o que irritava muito os flamengos.

Ingo não disse nada, senão que nos acompanharia, e que iria armado e preparado para tudo. Assim, fomos os três, eu, Ingo e Rafael, a cavalo, seguindo Artur. Mal tínhamos deixado a cidade para trás, e as suas defesas e sentinelas, quando um grupo de homens nos caiu em cima. Ingo e Rafael lutaram bravamente, mas os nossos inimigos eram em muito maior número e logo nos dominaram — deixando Ingo com o braço direito rasgado por uma adaga e Rafael sangrando muito de uma rachadura na cabeça.

O meu querido primo desapareceu durante a refrega, como se nunca tivesse existido. Não sei quanto recebeu para nos entregar. Arrastaram-nos, amarrados aos cavalos, durante a noite inteira. Várias vezes tropeçámos e caímos, indo de borco pela terra dura, de forma que ao amanhecer, quando finalmente os nossos captores se detiveram, nos achámos com as roupas em farrapos e o corpo todo escalavrado. Vimos então os rostos de quem nos arrastara. Eram cerca de vinte, todos jovens, negros e mulatos, vestidos de forma humilde, cada qual a seu modo, e não como soldados de uma tropa regular.

O que parecia ser o chefe saltou do cavalo. Tirou da cabeça um largo chapéu, de um vermelho extravagante, como o chapéu de uma dama, revelando uma calva muito bem tratada. Limpou o suor do rosto com um lenço da mesma cor do chapéu e só depois se postou, sorrindo, diante de nós;

— Um apóstata, um judeu e um preto mandingueiro — disse, num tom de zombaria. — Podemos levar-vos até Salvador e entregar-vos ao Santo Ofício. Os padres saberão como vos arrancar a verdade, castigando-vos pelas vossas traições e heresias. A fogueira é o que vos espera...

Olhei-o apavorado. Nunca antes me sentira preso de tanto medo, nem quando os portugueses tomaram de assalto a ilha da Quindonga, lançando sobre nós os corpos infetos dos bexigosos. O terror era tanto que me tolhia os movimentos e me travava a voz.

O homem percebeu o meu estado:

— Assustei-vos, padre? Não temais. A nós pouco importa se haveis ou não vendido a alma ao maldito. Isso é coisa vossa e do senhor diabo. O diabo para nós é loiro e vem da Holanda. Contai-nos o que sabeis sobre os flamengos, contai-nos algo que nos agrade e podeis partir em paz com os vossos amigos.

Compreendi que não nos iriam tratar melhor do que o Santo Ofício. Os inquisidores amarrar-nos-iam à roda ou à polé, esticando-nos os membros e quebrando-nos os ossos para que confessássemos algo que não podíamos confessar porque nos levaria à fogueira. Aqueles iriam querer quebrar-nos os ossos para que lhes disséssemos algo que não podíamos dizer — porque não sabíamos.

Levaram-nos para um engenho abandonado, conforme prometera o meu primo, mas no qual não nos esperava nem o meu pai nem a minha avó e sim um homem severo, muito bem trajado, muito bem-falante, que se apresentou como sendo Henrique Dias.

Ali estava, portanto, o tão afamado flagelo dos flamengos. Recebeu-nos no salão da antiga casa grande do engenho — um vasto espaço de paredes calcinadas, a cheirar a cinza e a podridão. Mandou que nos desamarrassem. Mostrou-nos três pequenos bancos, fazendo um gesto cortês, com a mão direita, para que nos sentássemos. Sentou-se à nossa frente num cadeirão de couro, de fina arte, que devia ter sido a única peça a escapar ao desastre. Anos mais tarde Henrique Dias teria a mão esquerda estraçalhada por um tiro de arcabuz. Ficou famosa a frase que então disse, de que preferia que lha cortassem logo, como veio a acontecer, mesmo correndo o risco de morrer na cirurgia, do que convalescer devagar, havendo tantas empresas às quais acudir. Ainda mais tarde haveria de receber o Hábito da Ordem de Cristo, tão ambicionado pelos senhores de engenho e fidalgos brasileiros, e interdito a judeus, negros, mulatos, ciganos e a todas as pessoas consideradas como possuindo sangue infeto. A atribuição desta condecoração a Henrique Dias, não obstante a cor da sua pele, mostra o poder e o respeito que o mesmo alcançou.

Àquela data, porém, era ainda um homem inteiro e simples, de muito boa figura. Ouvi dizer que antes de comandar aquele terço de homens pretos fora alveitar de cavalos, ou cirurgião-barbeiro, ou sangrador, ou mestre-carpinteiro, ou tudo isso junto. Não sei.

Henrique Dias desculpou-se pela brutalidade com que os seus homens nos haviam tratado. Pareceu-me sincero. Acrescentou depois, apressado, que esperava de nós uma colaboração total. Colocou-nos a seguir uma grande soma de questões relacionadas com o poder bélico dos flamengos, as suas intenções, divisões e armadilhas. Não conseguimos, já se vê, dar-lhe uma única resposta satisfatória. O capitão olhou-nos com uma espécie de mágoa perplexa e, sacudindo a cabeça, mandou que nos levassem e prendessem. O homem do chapéu vermelho conduziu-nos a um quarto, um pouco afastado, e ali nos deixou aos três, presos às paredes pelos calcanhares com grossas correntes de ferro.

O espaço devia ter servido de quarto de tormentos a muitos outros desgraçados, pois o soalho estava coberto de grandes manchas de sangue. Alguém se entretivera a riscar a fuligem das paredes com desenhos cruéis. Mostravam homens a serem açoitados, degolados, mutilados. Não havia palavras, apenas desenhos. Suponho que o artista não soubesse escrever.

Caía a noite. Havia mais de vinte e quatro horas que não bebíamos nem comíamos. Não sentia fome. Sede sim. Tinha a boca seca. A língua prendia-se aos dentes como um pedaço de couro, mal me permitindo formar duas palavras.

Na manhã seguinte veio uma velha trazer-nos um pouco de água numa caneca. Dividimos o líquido pelos três, e, se não chegou para nos matar a sede, serviu ao menos para recuperarmos o uso da fala. Talvez fosse isso o que pretendiam os nossos captores. Pouco depois apareceram dois homens, que nos soltaram das cadeias de ferro, e nos levaram de novo para o salão da casa grande. Sentado no cadeirão de couro aguardava-nos já não Henrique Dias, e sim o homem do chapéu vermelho. Ofereceu-nos um pouco de tapioca, num único prato. Dividimos essa escassa comida pelos três, como antes havíamos feito com a água.

O homem do chapéu vermelho, ao qual os outros chamavam Sabiá, porque passava o tempo em cantorias, repetiu as perguntas que Henrique Dias nos fizera, mas sem a gentileza do capitão. Impaciente, porque não lhe respondíamos senão com fracas evasivas, ordenou aos seus homens que me despissem e amarrassem ao pelourinho.

Rafael tentou dissuadi-lo. Disse-lhe que poderíamos retornar ao Recife, e, uma vez lá, recolher as informações que ele desejasse. Seríamos, de bom grado, espiões dos portugueses, posto que nós próprios provínhamos dessa grande nação de heróis e navegantes, filhos, netos, bisnetos de portugueses, e esse era o nosso maior orgulho. Sabiá riu-se em silêncio, coçando a magnífica calva. Por fim fez sinal aos seus homens para que me levassem.

Arrancaram-me a roupa — o que restava dela — e amarraram-me ao pelourinho. Dois escravos revezaram-se nos açoites, durante um tempo que a mim me pareceu infinito. Num primeiro instante doía-me mais a vergonha de me ver assim exposto, nu e amarrado, do que as pancadas. Logo esqueci a nudez. Sempre que o chicote me cortava a carne sentia o ar a fugir-me, a vida a fugir-me, e todo o meu cuidado era não perder o alento. Respirar, voltar a respirar, respirar de novo. Após a vigésima chicotada, contudo, só queria escapar à dor. Morrer já me parecia a melhor opção.

Não morri. Perdi os sentidos. Quando despertei estava outra vez na cela, acorrentado à parede, e os meus companheiros esforçavam-se por me limpar as feridas com um pouco de água e um pano sujo, que era tudo o que tinham.

Nos dias seguintes repetiram-se, com pequenas variantes, os interrogatórios e os açoites. Umas vezes apanhava eu, outras Rafael, outras Ingo. Houve ocasiões em que apanhámos os três. Decorreu assim uma semana completa. Todas as manhãs a mesma velha surgia trazendo um cântaro com água e uma pratada de tapioca, mingau ou farofa. Minutos depois vinha um homem buscar-nos, quase sempre o mesmo, um mulato baiano chamado Vasconcelos. Um dia veio a velha, mas não Vasconcelos. Sabiá e os seus homens pareciam ter desaparecido.

Nos dias seguintes a velha continuou a vir, em silêncio, trazendo a mesma comida. Trouxe também um barril onde era suposto soltarmos as nossas necessidades e que de três em três dias ela descarregava.

Fazíamos-lhe perguntas mas nunca nos respondia. Na opinião de Rafael era surda-muda. Ingo achava-a um pouco aluada.

Os meses foram passando. Sabíamos que o mundo continuava a existir, lá fora, porque ouvíamos o cantar dos pássaros e o vento sussurrando entre as ramadas. Vez por outra entrava um pardal no quarto. Uma tarde vimos uma serpente a devorar um rato.

Não fazíamos outra coisa o dia inteiro senão conversar. Ingo lembrou o caso de um dos quimbandas prediletos da rainha Ginga, Hongolo, o qual terá sido, em determinada ocasião, capturado pelas tropas do capitão António Dias Musungo. Diz-se que escapou do cativeiro transformando-se em cobra. Ingo dava crédito à lenda. Rafael também.

O antigo pirata conhecera em Argel um tal Tomé dos Anjos, natural de Braga, que possuía o poder de se transformar, não em cobra, mas numa pessoa diferente, com outra catadura, outros modos e outra voz — até mesmo com outro cheiro. Fechavam-no num quarto, deixavam-no ali alguns momentos e quando abriam a porta encontravam um desconhecido, vestindo as mesmas roupas de Tomé dos Anjos, porém muito admirado e atordoado de ali se encontrar.

Quis saber se ele mesmo, Rafael, assistira alguma vez a tal prodígio, e jurou-me que sim. Fechara o Tomé numa arca, e pouco depois tirara de dentro desta um turco, de nome Ibrahim, meio gago e cheirando a peixe, o qual lhe [ ] e finos calcanhares, de forma a poder escapar às duras cadeias de ferro. Ingo achava mais prático converter-se em cobra. Ambos se esforçaram, durante tardes infindas, por colocar em prática aqueles exercícios de transfiguração — mas sem sucesso.

Sugeri que tentássemos arrancar os ferros da parede, desgastando-a, abrindo-a com a pancada das próprias cadeias. Foi uma má ideia. A velha, escutando as batidas, veio lá de dentro com um grosso varapau e surrou-nos aos três até nos deixar como mortos.

Nunca mais tentámos nada. Esperávamos ver surgir, a cada manhã, algum dos homens de Henrique Dias. Tudo nos parecia preferível, incluindo os tormentos da Inquisição, a continuar ali. Uma manhã a velha não apareceu. Na outra também não. Chamámos por ela. Nada. Ao terceiro dia, loucos de sede, fracos de fome, decidimos voltar ao plano inicial, que nos valera a valente surra da velha, e pusemo-nos a romper a parede com as próprias cadeias. Levámos o dia inteiro nesse trabalho.

Caía a noite quando Ingo se conseguiu soltar. Arrastou-se para fora, extenuado. Regressou pouco depois com um cântaro de água fresca e uma machadinha. Logo nos achámos soltos. Num dos quartos encontrámos o cadáver da velha, enroscado num cobertor e cheirando muito mal. Num outro quarto, demos com vários sacos cheios de farinha de mandioca, farinha de milho e até carne seca, bem como com alguns paus de cana-de-açúcar. Descobrimos ainda, escondido num armário, um outro saco com âmbar.

O qual, segundo os cálculos de Rafael, deveria valer perto de cem mil reis. Guardámos o âmbar, como justa indemnização por aqueles inesgotáveis meses de sequestro e sofrimento.

Duas semanas mais tarde encetámos o regresso ao Recife, recompostos da fome, da sede e dos maus-tratos, embora ainda com muito mau ar e andrajosos como os mais andrajosos dos pedintes. Verdade seja dita que se estivéssemos vestidos com os nossos melhores trajes em pouco tempo estes se teriam convertido também eles em miseráveis farrapos, tal a fereza dos matos que crescem nos sertões de Pernambuco.

Ao fim de seis ou sete horas encontrámos um trilho de bois e seguimos por ele, mais ligeiros, mais despreocupados, palestrando e cantando e tão felizes que nem nos apercebemos do grupo de cavaleiros vigiando entre a mata. Três deles saltaram-nos pela frente enquanto outros dois nos fechavam o caminho. Dessa vez não senti medo. Ao contrário. No lugar do medo explodiu-me no peito uma revolta imensa. Atirei-me para diante, aos gritos, cego de fúria. Um dos cavaleiros, um jovem negro, apeou-se. Correu na minha direção. Julguei que fosse puxar da adaga para me degolar. Quando dei conta estava abraçado a mim, aos prantos, repetindo o meu nome. Era Arquelau, o menino que a minha avó salvara da fúria de Silvestre Bettencourt, e que o meu pai libertara e criara depois como se fosse seu filho. Não o via há muitos anos. O tempo transformara-o. Ainda o iluminava o mesmo sorriso franco. Os olhos, contudo, eram tristes e um pouco esquivos. Uma cicatriz rasgava-lhe a testa num desenho medonho. Rafael e Ingo olhavam para nós, hirtos de espanto.

— É o meu irmão! — gritei. — É Arquelau, o meu irmão!

Arquelau casara, tivera dois filhos. Trabalhava com o meu pai, como marceneiro e tanoeiro, e a vida corria-lhe bem. Foi então que os holandeses tomaram Olinda.

Fugiu à frente das tropas. Fugiram todos. Acompanhou a família — a mulher, os dois filhos, além do meu pai e da minha avó Clemência, já bem velhinha — até Salvador. Retornou depois a Pernambuco, incorporando-se no terço de Henrique Dias. Soubera que eu me encontrava cativo, e quisera logo pôr-se a caminho para me libertar. Contudo, fora ferido na cabeça por uma bala, numa investida dos flamengos, e ficara um longo tempo, nem sabia se meses ou se anos, como que vagando por um outro mundo, incapaz de recordar o próprio nome ou de pronunciar uma frase direita. Os companheiros, que o estimavam, mantiveram-no vivo, dando-lhe de beber e de comer, lavando-o, cuidando dele como se fosse um menino de pouca idade. Uma manhã despertou com uma forte dor de cabeça. Quando a dor serenou regressaram as memórias, umas chamando as outras, de forma que ao anoitecer era de novo um homem feito, com um passado, com um nome, com um destino a cumprir. Arquelau ofereceu-nos roupa nova. Acompanhou-nos quase até às portas da cidade. Vim o percurso inteiro muito inquieto. Se surgissem tropas portuguesas estaríamos em maus lençóis. Se surgissem tropas flamengas também.

Foi uma despedida difícil. Abraçamo-nos demoradamente. Não sabíamos quando nos tornaríamos a ver. Dei-lhe uma carta para que a entregasse ao velho José. Recomendei-lhe mil cuidados. Arquelau tranquilizou-me. Estava também ele cansado de guerras. Cumprira a sua parte. Agora tencionava regressar a Salvador, para junto da família.

Franqueámos a muralha que cerca a estreita península onde se ergue a povoação do Recife sem que ninguém nos incomodasse. À medida que nos íamos aproximando da região do porto — a que chamam Povo — mais nos admirávamos com o que íamos vendo. Era como se Olinda tivesse descido dos seus íngremes outeiros para se refazer ali. Fora em parte assim mesmo, pois muita gente aproveitara as pedras mortas da minha pobre cidade, arrastando-as até àquela praia, para erguer as paredes das suas novas casas. Os flamengos haviam levantado belos solares, largos palacetes, e mesmo um imenso jardim, no qual dois mil coqueiros bailavam uns com os outros ao sabor da brisa. Atravessámos os laranjais perfumados, como se percorrêssemos o Paraíso, esperando a qualquer momento ver baixar do azul profundo do céu dois ou três anjos armados de compridas espadas para dele nos expulsarem. Isso, felizmente, não aconteceu.

Ainda no jardim, vimos as duas torres do Palácio Friburgo, a residência do governador, competindo em eminência e elegância com os mais altos coqueiros. Dirigi-me a um dos guardas, postado junto à porta principal do palácio, anunciei o meu nome, e disse-lhe que gostaria de falar com sua excelência, o capitão Isaac Pinto da Fonseca, fidalgo que eu supunha ser próximo ao governador.

O capitão surgiu instantes depois. Veio até nós num grande alvoroço, saudando-nos em português:

— Bem-vindos! Ao fim de tanto tempo já todos vos julgávamos mortos e enterrados.

A surpresa de Isaac atraiu outros notáveis, alguns dos quais reconhecemos, por nos terem interrogado, após a nossa chegada a Pernambuco. Juntou-se ali uma pequena multidão, toda aquela gente querendo saber o que nos acontecera e como havíamos conseguido escapar.

Isaac tratou de nos pôr a par das novidades. Em primeiro lugar, Pernambuco contava com um novo governador: o conde Johann Moritz von Nassau, na nossa língua João Maurício de Nassau, um bravo homem de armas que combatera contra os espanhóis, tendo perdido metade da orelha direita, além de um bom chapéu, ao ser atingido por uma bala, no cerco e conquista de uma fortaleza, numa qualquer ilha do Reno.

João Maurício de Nassau era também um excelente diplomata e administrador. Nascido numa das famílias mais notáveis do seu país, sempre se mostrara generoso com artistas e poetas, que protegia e apoiava, tendo trazido muitos deles para o Brasil.

Isaac prometeu conseguir-nos uma audiência. Não poderíamos retornar à casa que nos haviam cedido antes, pois estava agora ocupada por três dos artistas que o governador trouxera consigo.

Ficámos alojados num armazém de açúcar, na Rua dos Judeus, próximo à sinagoga. Após o muito que havíamos penado, pareceu-nos aquilo um palácio. Na manhã seguinte vendemos por bom preço o âmbar que encontráramos no engenho. Comprei, com a parte que me cabia, alguma roupa e livros e ainda me sobrou muito. A mais grata surpresa daqueles dias foi encontrar tantos livros à venda, muitos dos quais proibidos pela Inquisição nos territórios sujeitos ao seu domínio, e que, por isso mesmo, ainda mais me interessavam.

O comerciante que me vendeu os livros confessou-me — sem mostrar nem medo nem pejo algum — ser um alumbrado, seguidor daquela famosa Beata de Piedrahita, que o Santo Ofício tanto perseguiu, acusando-a de propalar heresias e de se comportar como uma devassa, recebendo homens na sua cama e promovendo bizarros bailes místicos. Os alumbrados entendem que cada pessoa pode dialogar com Deus, sem a necessidade de haver uma Igreja e os seus sacerdotes, e que melhor o fazem não fazendo nada, nem rezas, nem jejuns, nem leituras pias, nem mortificações de espécie alguma.

 

3

 

UMA SEMANA MAIS TARDE, o capitão Isaac Pinto da Fonseca conduziu-nos ao Palácio de Friburgo para uma audiência com o governador.

A sala onde nos fizeram entrar não lembrava em nada aquela — num outro palácio — na qual fôramos recebidos pelo primeiro governador. Esta era luxuosamente mobilada. Impressionou-me algo que nunca vira antes: um enorme globo, de fabricação holandesa, com os contornos precisos da Europa e da África, e as principais rotas seguidas pelos navios da Companhia das índias Ocidentais. As paredes estavam cobertas por telas, de variadas dimensões, mostrando paisagens dos Países Baixos e também de Pernambuco. Reconheci numa delas o engenho abandonado onde durante tanto tempo estivéramos aprisionados. Mostrei-a, tremendo, aos meus companheiros. João Maurício de Nassau entrou na sala no momento em que observávamos a pintura.

Era um homem alto, com uma cabeleira cor de cobre, muito cheia, barba e bigode no mesmo tom, e uns lisos olhos azuis, que ao princípio me pareceram um pouco frios. Porém, assim que esgotámos as frases de cortesia, vi que se animavam e aqueciam. A tela que apreciávamos — explicou — fora pintada por um jovem artista chamado Franz Post. Conhecia aquela paisagem pois ele próprio estivera ali, meses antes, numa breve surtida para estudar as posições do inimigo. O governador e as suas tropas haviam passado ao lado do engenho. Se a curiosidade os tivesse levado até lá não teríamos sofrido tão longo inferno. O Inferno, de resto, não é tanto uma soma de tormentos, e sim a ilusão de que tais tormentos nunca cessam. O Inferno é eterno, ou não seria Inferno. Tenho para mim que a principal diferença entre o Inferno e o Paraíso é que no Inferno nos pesa o tempo, o tempo todo, enquanto no Paraíso não se sofre dele.

Por outro lado, aquele tempo carregado de tempo que passáramos acorrentados a uma parede havia-nos unido. Ingo e Rafael eram para mim como irmãos. Nada aproxima mais os homens do que a partilha de um grande infortúnio.

João Maurício de Nassau escutou-nos com interesse. Enfadou-se, ou fingiu enfadar-se, sorrindo, cofiando as agudas pontas do bigode, por termos deixado o Recife sem antes prevenirmos as autoridades. O seu antecessor no cargo ficara muito mortificado com o nosso desaparecimento. A Companhia também. Agora que regressáramos, com uma tão terrível narrativa para contar, mas sãos e salvos, poderíamos retomar o diálogo na parte em que o deixáramos. Lamentou não ter melhor espaço para nos agasalhar. Embora se estivesse construindo muito, e muito depressa, na Cidade Maurícia, como os flamengos chamavam ao Recife, não havia mês que não desembarcassem novos moradores, muitos deles artistas, arquitetos, gente nobre, e a ele, governador, cabia-lhe encontrar habitação para todos.

Disse-nos João Maurício que nos últimos meses trocara viva correspondência com os diretores da Companhia e que todos eles entendiam ter chegado a hora de tomar Luanda aos portugueses. Faltava conseguir juntar os meios para tal operação e encontrar a pessoa certa para a comandar.

Uma aliança com a rainha Ginga, o rei do Congo e o rei do Sonho parecia-lhe de grande importância. Ingo dirigiu-se a João Maurício de Nassau em latim, língua que, como escrevi anteriormente, dominava bem, lembrando que as relações entre os três soberanos não eram as melhores. Lembrou ainda que a rainha Ginga, aliada aos jagas, controlava todo o interior de Angola, desde Luanda até às pedras de Pungo Andongo, bem como as margens e as numerosas ilhas do grande rio Quanza.

Maurício de Nassau quis saber se a rainha Ginga tencionava facilitar o trânsito de escravos para o Brasil. Ingo explicou que a sua senhora não via com bons olhos que lhe tirassem os súbditos, que tanta falta lhe faziam nas lavras, para cuidar do gado e para combater. Os portugueses, com as suas razias, andavam despovoando os campos. A manter-se tal depredação em breve não restaria ninguém — ora o valor de um soberano mede-se não pela extensão do seu reino, mas pelo número dos seus vassalos. Contudo, devido às guerras com os povos vizinhos, que os portugueses também andavam fomentando, tinha ela muitos escravos de outras nações, os quais poderia comerciar com os flamengos.

O governador concordou. A ele não importava a nação original dos escravos, conquanto estes fossem fortes, saudáveis, capazes de suportar o duro trabalho nos engenhos.

No final do encontro insistiu em entregar vários presentes ao embaixador da rainha Ginga, entre os quais uma longa capa de veludo negro com galões de prata e um chapéu de castor com uma fita de ouro.

Ingo agradeceu muito os presentes. Mais tarde, já em casa, troçou deles. O que faria, em Angola, com uma longa capa de veludo negro?

Disse-lhe que poderia trocar a capa de veludo por um boi gordo, mas deveria manter o chapéu, o qual lhe acrescentava muita fidalguia. Certamente, iria atrair ainda mais a atenção das damas do Recife.

Durante a nossa ausência, a cidade ganhara alguma cor e alegria graças às muitas dezenas de mulheres flamengas que, entretanto, ali se haviam fixado. Como escrevi antes, Ingo zombava das senhoras europeias e do excesso de roupas que persistem em usar sob o pesado sol dos trópicos. Acerca das holandesas manifestava ainda pior parecer. Na sua opinião bebiam demais, comiam demais, falavam demais. Pior: davam largas e sólidas passadas de homem, a ponto de, ao vê-las caminhando, sentir saudades da feminilidade daqueles pobres homens aos quais a Ginga vestia como se fossem mulheres.

— Além disso — acrescentava, baixando a voz com diplomático resguardo — diz quem com elas privou que são mulheres muito frias. Consta que beijam e abraçam sem pudor nem paixão. Não há nelas mais calor do que num retrato.

Não consegui esconder o espanto quando o próprio Ingo me confidenciou o seu súbito interesse por uma dama de Bruges, esposa de um jovem capitão, o qual, por se achar muito ocupado na guerra, correndo os sertões de Pernambuco atrás dos homens de Henrique Dias, deixava a esposa, Anna, solta em casa, sofrendo de grande tédio e de falta de amor. Ingo conhecera a loira Anna numa festa no Palácio de Friburgo, poucas semanas após João Maurício de Nassau nos ter ali recebido.

Lembrava-me muito bem dessa festa, em razão de uma dança que então nos foi apresentada. Chamava-se, esta dança, a «gitana». Entraram a bailar oito moças, seis delas esplendidamente trajadas à maneira de ciganas — de ciganas ricas — com diademas de prata no toucado, blusas de fina tela mourisca, apertadas por cintos de veludo e rodadas saias de um vermelho muito vivo. Distinguiam-se ainda duas outras mulheres, estas mascaradas de mouras, com um excesso de oiro e prata, as quais rodavam, junto com as restantes, mas uma sustida em pé sobre os ombros da primeira. A que ia em cima lançava quatro ou cinco facas de uma mão para a outra, sem deixar cair nenhuma e sem nunca perder o ritmo nem a infinita graça.

Ao vê-la, senti que me fugia o fôlego — era Sula!

Sula sorriu-me. Quando terminou a dança, saltou para o chão, ligeira como uma onça, fez-me uma profunda vénia e perguntou-me, fingindo não me conhecer, se aceitaria bailar com ela a dança das facas. Respondi-lhe que sim, certo de estar entrando numa armadilha, mas não sabendo como escapar. A primeira moura, que era também uma cigana da tribo de Lobo, colocou-se então do lado oposto, atrás de mim, e começaram ambas a lançar as facas de uma para outra, de tal forma que passavam — as facas — muito rentes ao meu rosto e tronco. Sula dançava, algumas vezes de olhos fixos nos meus, algumas vezes com eles muito cerrados. Custava-me tanto enfrentar os olhos dela quanto a sua perigosa cegueira. Quando terminaram aquela dança, e em boa hora a terminaram, a sala estrondeou em aplausos. Eu sentei-me num canto, a tremer.

As seis moças vestidas como ciganas não eram ciganas, e sim flamengas. Três delas — contou-me Ingo — aproximaram-se dele depois que a dança terminou. Por essa altura já a maioria dos convidados se deixara arrebatar pelo álcool. Diz-se que os flamengos gostam tanto de beber que mesmo com a corda ao pescoço, no patíbulo, são capazes de brindar ao carrasco e de partilhar com ele o derradeiro copo, de forma que se vão deste mundo borrachos e cantando.

As moças pretendiam saber se Ingo era realmente, como lhes haviam dito, príncipe dos pretos e embaixador daquela famosa rainha de Angola, à qual chamavam Ginga, que tanto andava aterrorizando os portugueses. Uma das raparigas chamava-se Margarida, a outra Griet e a terceira Anna. Esta era a mais loira, a mais loquaz e a mais animada. Ingo ficou encantado com o jovial divertimento da sua conversação.

— E depois? — quis eu saber, embora receasse a resposta. — O que aconteceu?

— Eu estava errado — confessou Ingo. — Estava errado quanto à natureza das mulheres do Norte.

Ingo passeava agora as suas manhãs pela Rua da Cruz, espreitando, num sobrado de tábua de feitio flamengo, uma janela azul, através da qual, volta e meia, assomava a clara e delicada cabeça de Anna.

Tive pena do meu amigo, o qual se deixara prender, como eu, a um amor impossível. Rafael troçava de nós. O antigo pirata conseguira trabalho, como ajudante de um cirurgião-barbeiro, e não lhe faltava o que fazer. Todas as semanas chegavam ao Recife soldados feridos por uma bala, por uma espadeirada, ou com algum osso quebrado numa queda. Ele mostrava talento para o ofício, desde logo porque, ao contrário da maioria, não se agoniava com o sangue. Vira correr muito sangue na sua anterior ocupação.

Apesar da guerra, viviam-se no Recife tempos de folia. Os flamengos aproveitavam todas as festividades religiosas, as deles e as nossas, para beber e dançar. Rafael não perdia uma festa. Frequentava quer os salões mais opulentos, quer os batuques dos escravos, e em todos esses lugares fazia amigos e cativava mulheres.

Assim se passaram semanas, assim decorreram meses e depois anos. Despertávamos, a cada dia, na esperança de que João Maurício de Nassau nos chamasse de novo ao Palácio para nos dizer que havia um navio aparelhado e pronto a partir para a costa de Angola. Enquanto Rafael aperfeiçoava a sua nova arte de cirurgião-barbeiro, eu e Ingo aprendíamos a falar a língua dos flamengos. Alguém me disse, certa ocasião, não haver melhor escola de línguas que uma boa cama. Acredito que sim. Ingo depressa me ultrapassou. Aprendeu não somente os segredos da língua mas também a falá-la nos seus diferentes sotaques, para espanto e divertimento dos flamengos, que o festejavam como a um bizarro prodígio. Eu, confesso, jamais alcancei semelhante perfeição. Em contrapartida melhorei muito o calon, que é como se chama ao idioma dos ciganos, pois voltei a passar as noites enredado nas compridas pernas de Sula.

Olhando para trás, deste século novo, tão rápido, aonde cheguei há pouco, o que recordo melhor daquele meu Pernambuco holandês é o cheiro dela. Não o cheiro — os cheiros. Seria capaz de desenhar de memória o seu corpo longo, e em cada curva dele o perfume exato que o demarcava e definia e tornava real. O doce aroma a sândalo do seu cangote, que eu gostava de percorrer com a língua, e de chupar e morder, a demorada rota de especiarias que ia do artelho à virilha, a profunda embriaguez do umbigo.

Numa dessas tardes de dezembro, de dilatado calor, em que até o tempo parece ter adormecido, juntamente com os pássaros, os insetos e as árvores, escutei o simultâneo disparo de muitos mosquetes, logo seguido de crescente alarde e vozearia. Tudo, num repente, despertou. Eu estava estendido numa rede, no quintal, lendo Montaigne. Ergui-me de um salto. Cães latiam. Galinhas lançavam-se em frenética correria. As largas folhas da árvore-do-pão, à sombra da qual me encontrava, ganharam vida com o susto dos pássaros. Pensei que fossem os portugueses, os negros de Henrique Dias, os índios de Filipe Camarão, todos juntos, entrando na cidade.

Minutos depois Rafael surgiu aos gritos:

— Chegou um barco português ao porto, tão embandeirado que parece uma festa. O Duque de Bragança foi aclamado Rei de Portugal! Mataram Miguel de Vasconcelos!

Durante todo o dia e toda a noite os portugueses e mazombos festejaram a notícia, dançando, cantando, lançando foguetes. Os flamengos festejaram com eles, bebendo ainda mais, dançando ainda com mais alegria e com mais vigor.

Ingo veio ter comigo, banzado:

— Os portugueses expulsaram os espanhóis, é isso?

— Sim!

— Esses mesmos espanhóis que são inimigos dos mafulos?

— Sim...

— Então, agora, os mafulos vão fazer a paz com os portugueses?

— Creio que sim...

— Nesse caso, os mafulos devolvem o Recife aos portugueses?

Não me parece...

Fazem a paz com os portugueses e continuam em guerra?

— É o mais provável.

Ingo sacudiu a cabeça, gravemente:

— Compreendo...

— Compreendes?!

— Não, amigo, não compreendo nada!

— Eu também não.

Nas semanas seguintes a perplexidade de Ingo (e a minha) aumentou ainda mais. Fosse pelo desejo de agradar aos portugueses, fosse por muito amar a folgança, João Maurício de Nassau passou as semanas seguintes a preparar uma grande festa comemorativa da restauração de Portugal. A cerimónia culminou com uma admirável corrida de cavalos, opondo os mancebos portugueses e mazombos aos flamengos, a qual entusiasmou toda a gente. Aplainou-se um amplo terreno junto ao rio. Ergueram-se palanques e teatros de madeira. No dia aprazado, o governador hospedou todos os cavaleiros em sua casa, de ambas as nações em confronto, recebendo-os com faustosos manjares e a música harmoniosa de muitos instrumentos.

Lembro-me do rio apinhado de batéis e engalanadas barças. Lembro-me das varandas com estandartes coloridos e do sorriso das damas, lá em cima.

Os portugueses ganharam os prémios todos, uma bracelete de ouro, um colar com diamantes, outras joias de menor valor, além dos atrevidos acenos das damas holandesas, algumas das quais tiravam os anéis dos dedos para os oferecerem elas mesmas aos triunfadores.

Ingo foi quem mais apreciou aquela tarde de festa, e quem mais folgou, não nas ruas da cidade, para onde toda a população convergiu, mas naquele belo sobradinho de tábua, ao jeito flamengo, no qual morava a estouvada Anna. Brincou com ela a tarde inteira, e escrevo aqui brincar com o sentido que tinha na origem o verbo, o qual se acredita ter raiz no latim vinculum, laço, ou grilhão — pois a flamenga apreciava todos os jogos do amor, mas em especial aqueles envolvendo amarras e açoites.

Poucos dias depois, ainda a cidade se recuperava dos excessos, recebemos uma visita do capitão Isaac. O governador queria falar connosco. Fomos dar com ele muito bem-disposto, naquela mesma sala onde primeiro nos recebera. Rodeavam-no cinco dos seus mais altos oficiais. Todos se levantaram para nos cumprimentar, fazendo demoradas mesuras a Ingo, que o meu amigo retribuiu, sorrindo, sorrindo sempre, com aquela elegância e desprendimento que eram nele tão naturais.

João Maurício de Nassau não perdeu tempo. Disse-nos que, finalmente, a Companhia conseguira os meios necessários para tomar Luanda, Benguela e as ilhas de São Tomé e Príncipe.

— Será uma expedição dispendiosa, mas acreditamos poder recuperar em pouco tempo os muitos fundos que investimos.

Olhei-o, sem conseguir ocultar um rápido sorriso de troça. Segundo os meus cálculos — os quais Ingo conhecia —, a Companhia das Índias Ocidentais poderia arrecadar anualmente mais de seis milhões de florins com a venda para os engenhos pernambucanos dos escravos vindos de Angola. Luanda exportava cerca de quinze mil peças, todos os anos, dez mil delas para as minas de prata da América Espanhola. Caso conseguisse conquistar Luanda, a Companhia arruinaria ainda a produção de prata dos espanhóis, essa mesma prata que sustentava o imenso poderio de El Rei Dom Filipe, o Quarto — o Rei Planeta —, o maior inimigo dos flamengos.

Quis saber quem iria capitanear a armada. Os oficiais flamengos entreolharam-se num silêncio um pouco aflito. João Maurício de Nassau, porém, não hesitou:

— Vossas excelências ouviram falar no almirante Cornélio Jol?

Olhei-o, incrédulo:

— Aquele a quem os espanhóis chamam El Pirata} O mesmo a quem nós chamamos o Pé-de-Pau ?

O meu horror divertia-o. Lembrou-me que Cornélio Jol atacara e conquistara a ilha de Francisco de Noronha. Poucos anos mais tarde, em 1633, ele e um outro famoso pirata, Diego-o-Mulato, também chamado Lúcifer, haviam tomado Campeche, à frente de dez navios, ateando fogo ao Forte de São Benedito.

— Cornélio Jol, o Pé-de-Pau, aquele a quem nós chamamos Houtebeen, esse mesmo. O almirante Cornélio Jol é um bravo homem de guerra, inteligente, ainda que de origem humilde, pouco versado nas letras, e a quem o aparato e elegâncias da corte nunca seduziram. Os marujos amam-no. Os inimigos respeitam-no. Foi sempre cortês com os prisioneiros. Vossas excelências irão simpatizar com ele.

Para Ingo tanto lhe fazia que o conquistador de Luanda fosse um príncipe holandês ou um pirata sem eira nem beira, com um madeiro carunchoso no lugar da perna direita.

O importante era tomar a cidade, expulsar os portugueses e fortalecer o Reino do Dongo.

— Viajaremos com o almirante Jol? — perguntou.

João Maurício de Nassau não respondeu logo. Olhou-nos sonhador:

— Olinda, Holanda. Luanda, Holanda. Não vos parece, senhores, que há nesta similitude de nomes mais do que um acaso? Um secreto desígnio dos deuses?

Nenhum de nós lhe respondeu. Então Maurício de Nassau passou a tratar de questões práticas. Sim, regressaríamos a Angola na armada capitaneada por Cornélio Jol. Os navios juntar-se-iam no Recife, provenientes de vários mares, e partiriam dali para África. O ataque deveria apanhar os portugueses desprevenidos. Conviria, antes, avisar a rainha Ginga e os seus aliados jagas. Teríamos de pensar juntos na melhor estratégia.

4

 

OS ÚLTIMOS DOIS MESES QUE PASSÁMOS NO RECIFE, viveu-os Ingo em grande susto. Anna estava prenhe.

— O que fará o marido, o que farão os mafulos, quando ela parir uma cria mulata?

Tentei tranquilizá-lo. Talvez a criança não fosse dele e sim do legítimo esposo. Irritou-se o príncipe, certo de que a loira Anna trazia no ventre um filho seu, e não do marido, com quem há muito não dormia. Argumentei — sem energia — que, saindo escura, poder-se-ia atribuir o prodígio a ter nascido em terras tão quentes, queimadas o dia inteiro, doze meses ao ano, por um sol inclemente.

Ingo riu-se, sem esperança. Também no Brasil e em Angola nasciam brancos. Ele conhecia alguns brancos nascidos no Brasil e em África, os quais escureciam ao sol, podendo ficar bastante tostados. Mantinham, contudo, a cabeleira lisa. Um casal de portugueses podia até ter, sem surpresa. um filho mulato, tanta mouraria passara pela península, e durante tantos e demorados séculos, juntamente com escravos das muitas etiópias. Parecia-lhe mais raro, mais difícil de explicar, que isso acontecesse com um casal de flamengos. A força do sol não justifica a cor da cútis de um infante. Explica-se em razão de eflúvios misteriosos provenientes do chão que os homens pisam, ou do ar que respiram, ou desse invisível alento, ao qual alguns chamam alma, que todos recebemos dos nossos ancestrais.

Quando embarcámos, no último dia do mês de maio, Anna permanecia em casa, há longas semanas, resguardada dos olhares da vizinhança. Ingo fazia-lhe furtivas visitas, que terminavam, quase sempre, em copiosos beijos e lágrimas.

Anna ficou no Recife (ou eu acreditei nisso) ocupada com a sua angústia, à qual se somava o desgosto de ver partir não só o amante mas também o marido, Olivier van Aard, o qual seguiu para Angola no mesmo galeão que nós — o Enkhuizen. Olivier era um homem sombrio, ou talvez eu o achasse sombrio por conhecer a tragédia que o esperava. Não tinha o cabelo loiro, mas bastante escuro, quase negro, além de uma cuidada barba, muito longa e sedosa, na qual mostrava exagerado orgulho. Veio a revelar, já em Angola, como narrarei adiante, uma extraordinária coragem, generosidade e sangue-frio.