A Rainha Ginga
Capítulo Nono
CUMPRINDO O PROMETIDO NO CAPÍTULO PRIMEIRO, narra-se neste o assombroso destino da escrava que serviu de assento à rainha Ginga. Mais se conta do imprevisto fim que teve o almirante Jol, por alcunha o Pé-de-Pau. Por fim, dá-se testemunho da segunda entrada em Luanda da rainha Ginga, episódio ignorado pela maioria dos historiadores.
1
Ainda se recordam da escrava que serviu de assento à Ginga? Eu já não me lembrava dela. Quando a voltei a ver, sentada, sozinha, no grande salão do Palácio do Governador, não a reconheci. Engordara muito. Vestia uma blusa branca, rendada, e uma saia de igual cor, larga como um pedestal. Trazia ao pescoço labirínticos colares de prata e nos pulsos trabalhosas pulseiras do mesmo metal. As mãos, pousadas no regaço, luziam com a opulência dos anéis. Coroava-lhe a cabeça um soberbo turbante, também ele muito alvo, imaculado. A mulher era enorme. Contudo, dir-se-ia flutuar na luz de âmbar daquele entardecer de agosto — luz essa ainda mais leve depois de depurada pelas cortinas de linho — como um delicado milagre.
— Parece uma rainha! — murmurou Rafael, que entrara comigo.
A mim, pareceu-me uma acusação. Encontrámo-la no dia seguinte à nossa chegada. Eu passara as últimas horas esforçando-me por recuperar os anos perdidos longe de Muxima e de Cristóvão. Com Muxima, que era já quase toda Inês — Inês de Mendonça! —, foi mais difícil do que com Cristóvão.
O rapaz acolheu-me como a terra seca acolhe a chuva. Tinha uma grande curiosidade. Quis saber o que eu fizera durante o tempo em que ele crescia, e como era o mundo para além de Luanda, e se havia sereias no mar. Contou-me, rindo, que os outros rapazes troçavam dele por ser filho de padre. Cantou para mim algumas modinhas populares em Luanda e eu cantei para ele outras de Pernambuco. Prometi que o levaria a conhecer a minha terra e ele dispôs-se a mostrar-me a cidade onde nascera.
Com Muxima, ora a sentia muito próxima, a mesma mulher simples e tímida por quem eu me apaixonara, ora a sentia bruscamente alheada. Era a Muxima da ilha da Quindonga enquanto conversávamos em quimbundo sobre o passado. Era Inês de Mendonça quando mudávamos para a língua portuguesa e ela me contava o que fizera, o muito que sofrera, para triunfar em Luanda.
Nga Mutúdi falecera anos antes, deixando-lhe a casa, a escravaria e todos os negócios. Não lhe fora fácil afirmar-se numa cidade na qual, para muitos, era ainda a estranha — a escrava. Tivera de se mostrar dura — tivera de se ver a si mesma como uma pessoa dura —, e isso, é claro, endurecera-a.
Muxima quis logo que entrássemos. Receber-nos-ia, a mim e aos meus amigos. Ingo e Rafael poderiam ficar o tempo que quisessem. Tivemos de explicar-lhe o que continha o enorme baú que o príncipe fazia transportar por quatro escravos, à nossa frente, com tamanho desvelo.
Muxima comoveu-se ao ouvir a história daquele amor errado. Tratou Anna com muita meiguice, como a uma irmã mais nova, lavando-lhe os pés, penteando-a, oferecendo-lhe os seus melhores panos e adereços.
Tendo deixado Anna aos cuidados de Muxima, corremos, eu e Ingo, ao palácio de Rodrigo de Araújo, para saber notícias de Quifungi. Encontrámos, estirada à porta, uma velha muito velha. Disse-nos que os portugueses haviam levado a princesa, mas que ela estava bem.
— Espero que sim — suspirou Ingo. — E minha mãe.
A velha ajoelhou-se aos pés dele.
— Meu senhor, meu senhor, não vos reconheci!
Ingo ajudou a mulher a levantar-se. Ela disse chamar-se locana e ter servido a princesa durante longos anos. Quifungi deixara-lhe uma carta, para que a fizesse chegar à rainha. Foi buscar a carta. Li-a para Ingo, esforçando-me para que não me tremesse a voz. A princesa dava conta, em rápidas palavras, do estado de ânimo dos portugueses. Não se entendiam entre eles. Uns pretendiam permanecer na cidade e combater. Outros, entre os quais alguns dos homens mais ricos, como Silvestre Bettencourt, preferiam chegar a um acordo financeiro com os invasores. Vencera, afinal, a parte que sustentava o abandono temporário de Luanda, esperando que logo viesse auxílio do Brasil. Quifungi aconselhava a Ginga a perseguir e a degolar os portugueses até ao último deles. Ingo discordava — preferia colocar os portugueses numa nau e enviá-los sãos e salvos de regresso à pátria.
Três dias mais tarde despedi-me de Ingo e de Anna. O príncipe partiu à procura da rainha Ginga, para lhe dar conta da tomada de Luanda e da aliança com os flamengos. Acompanharam-no vinte homens fortes, oito dos quais fidalgos ambundos que haviam combatido ao lado da rainha e sido aprisionados e escravizados pelos portugueses.
Nessa mesma tarde fui passear pela cidade na companhia do meu filho e de Rafael. Cristóvão parecia conhecer cada edifício, cada esquina, cada um dos antigos moradores, tão bem quanto eu conhecia a velha Olinda.
Levou-nos ao Palácio do Governador, porque Rafael, que tendo ganhado caridosos dedos de cirurgião não perdera ainda as afiadas unhas de pirata, queria verificar se não restara por lá alguma da muita e boa prata que afirmavam existir em Angola.
Todas as portas estavam abertas. Havia roupas e móveis espalhados por entre os canteiros de flores. Cruzámos o jardim, entrámos no edifício e demos com a mulher. Não se assustou ao ver-nos. Cristóvão sim. Recuou dois passos, como se os olhos dela o pudessem ferir. A imensa senhora sorriu:
— Não se assuste, menino. Não faço mal. — Demorou em mim os seus olhos de domingo. — Vossa mercê é o padre. O padre de que os portugueses não gostam.
Quis saber o que fazia ela ali. Ergueu-se com esforço e eu vi que estivera todo aquele tempo sentada numa bela cadeira com três pés;
— Tomava a luz — disse. — Hoje em dia já só me alimento de luz.
Desapareceu em lentas passadas nos corredores escuros. Foi Cristóvão quem nos esclareceu:
— Dona Henda habita no Palácio. Vive aqui desde sempre. Quero dizer, ainda eu não era nascido. Contou-me a senhora minha mãe que Henda chegou a Luanda na embaixada da Ginga. A Ginga sentou-se nela, por não lhe terem dado melhor assento, e depois abandonou-a.
O governador João Correia de Sousa, não sabendo que destino lhe dar, deixou-a ficar no palácio, servindo na cozinha. Pedro Sousa Coelho, o governador seguinte, já a encontrou trabalhando como camareira. Dom Frei Simão Mascarenhas deu com ela orientando a escravaria nos salões. Sucedeu-lhe Fernão de Sousa, que a nomeou chefe da cozinha. Dom Manuel Pereira Coutinho, Francisco Vasconcelos da Cunha e, por fim, o fujão Pedro César de Menezes foram-lhe atribuindo cada vez mais responsabilidades, não se sabe ao certo se em razão da sua competência, se em razão do muito medo que lhe tinham.
Dizia-se dela que sabia reconhecer, no sussurro da brisa soprando sobre os palmares, no cantar de um pássaro ou na fugaz sombra do mesmo, a remota voz dos ancestrais. Talvez fosse capaz, como os quilambas, de conversar com as sereias. Em todo o caso podia prever com exatidão o dia em que uma mulher iria parir, ainda que a mesma se não achasse prenhe, ou a noite em que uma brusca febre levaria um velho. Não aceitava consultas. Contudo, se lhe perguntavam pelo significado de um sonho cerrava os olhos, inclinava-se para trás e, após alguns instantes, dava o seu parecer. Uma parte da cidade procurava tais alvitres e guiava-se por eles, embora nem sempre fossem claros. A outra parte troçava da primeira em público. Em privado, todavia, também eles entregavam os seus sonhos ao juízo da escrava. Não estarei exagerando muito se disser que Henda governava a cidade.
2
Vivendo com Muxima, no casarão que pertencera a Nga Mutúdi, achei-me, sem me ter preparado para tal, um homem casado. Ninguém estranhou tanto quanto eu. A criadagem acomodou-se em poucos dias à nova situação. Logo perceberam que, conquanto tivesse passado a haver um homem na casa. Dona Inês continuava a orientar as questões domésticas e todos os negócios. Muitos ignoravam-me. Outros tratavam-me como a um pequeno estorvo.
Muxima, contudo, parecia feliz por me ter ao lado dela. Quando lhe perguntei porque não fugira, acompanhando os restantes moradores, disse-me que, dias antes de surgirem no mar as primeiras naus holandesas, sonhara com um temporal. No seu sonho ela vira a chuva derrubar um alto morro de formigas. Dos restos desse morro brotara uma árvore gigantesca e forte, talvez uma mangueira, talvez um pau de mulemba. Foi ter com Henda e contou-lhe o sonho.
A pitonisa cerrou as pálpebras, atirou a cabeça para trás e, finalmente, deu o seu parecer:
— Aquele que esperas está de volta — disse-lhe em quimbundo. — Prepara-te para o receber.
Assim, enquanto todos se organizavam para fugir, enchendo os baús com as pratas da casa. Dona Inês de Mendonça mandava polir as mesmas, encerar as tábuas dos soalhos, lavar as cortinas, limpar o pó aos móveis, arejar colchões e almofadas. Aos que a censuravam por não se lhes juntar na fuga, recordava, encolhendo os ombros, não estar ela em guerra com ninguém. Tanto lhe dava que mandassem em Luanda os portugueses ou os flamengos, contando que continuassem a comprar-lhe o marfim, os couros, a cera, os finos panos de ráfia, que trazia com esforço de tão longe, ou a fruta fresca, os doces, o hidromel, que as suas quitandeiras comerciavam pelas ruas. Não gostava de guerras, porque as guerras lhe prejudicavam o negócio, beneficiando apenas quem comprava e vendia escravos. Ela, como aliás a sua benfeitora. Dona Marcelina Teixeira de Mendonça, a Nga Mutúdi, sempre se recusara a comerciar gente, apesar de ser esse o mais lucrativo negócio do país.
Para mim, que, tirando alguns livros, nunca tivera nada de meu, aquela nova vida parecia-me um somatório de faustos e excentricidades. Um primeiro escravo despertava-me de manhã, um segundo vestia-me, um terceiro calçava-me, um quarto dava-me de comer e de beber. Se saía à rua, vinha logo um quinto negro, solícito, a proteger-me dos raios de sol com uma larga sombrinha colorida. Descobri que até para defecarem os ricos e poderosos de Luanda recorrem ao auxílio de escravos. Isso, porém, nunca admiti. Tal renúncia, creio, salvou-me a vida. Foi o caso de ter ido eu, ao crepúsculo, refugiar-me no canto mais afastado do quintal, além das cabanas dos escravos, para satisfazer as necessidades do corpo. Acocorei-me atrás de uns capins, e ali estava, reduzido ao mínimo rumor da existência, quando escutei, a escassos passos, uma assustadora conversação. Dois homens discutiam em quimbundo a melhor maneira de se introduzirem em minha casa e me matarem. Eram, conforme logo entendi, espiões do capitão António Dias Musungo, e andavam há dias a vigiar a casa. Se eu tivesse ido até ali com alarde e ostentação, à frente de três escravos, dois para transportarem uma bacia com água morna e perfumada, e o terceiro levando uma toalha, os soldados do capitão ter-me-iam saído ao caminho e furado o ventre à facada. Ou teriam fugido, e regressado na noite seguinte, para me degolarem enquanto dormia. Assim, mantive-me alapardado, no mais cerrado silêncio, até que se foram. Só então me ergui, correndo para casa em alta gritaria e com as calças na mão.
A partir dessa noite contratámos um grupo de empacaceiros para que nos vigiassem a casa. Eram homens ferozes que, quando não se alugavam para as guerras do cuata-cuata, nome que se dá em Angola às razias de escravos, andavam ocupados em caçar pacaças, crocodilos, leões, elefantes e cavalos-marinhos. Vestiam-se com as peles desses animais e cheiravam como eles, o que lhes era muito proveitoso durante as caçadas, pois as feras não os distinguiam pelo odor, ainda que avançassem para elas a favor do vento. Conseguiam dessa forma aproximar-se até uma distância muito curta e flechar de morte os animais.
O pivete que exalavam assustava os malfeitores tanto quanto a fama de homens cruéis e hábeis nas armas. Infelizmente, tal cheiro afastava também qualquer outro visitante, além de nos importunar a nós, dia e noite, que era como se vivêssemos cercados por leões.
Rafael instalou-se no palacete que pertencera a Bernardo de Menezes e que passara após a morte deste para o filho mais velho. Não permaneceu lá por muito tempo. Poucos meses depois chegaram da Holanda vários navios, trazendo um diretor da companhia para governar a cidade, Pieter Mortamer, além de muitos outros fidalgos e gente prática na guerra. Rafael foi expulso e o palacete entregue a um dos mais importantes agentes da Companhia das índias Ocidentais, Cornélio Ouman, que o pintou e embelezou, hasteando à porta a bandeira tricolor da empresa que representava. O meu amigo foi forçado a agasalhar-se numa pequena casa, junto à praia, na qual nenhum flamengo queria morar, quer por se achar em muito más condições, quer por se encontrar já um pouco distante da cidade.
Por essa altura chegou também um navio do Recife. Olivier van Aard ficou assim a saber do desaparecimento da esposa. Dizia-se que fora raptada por um francês muito rico, proprietário de vários navios, o qual a teria levado para Salvador. Olivier ficou prostrado com a notícia. Lembro-me de o ter visto algumas vezes caminhando pela cidade, descomposto, falando sozinho.
Após algumas escaramuças nas florestas e matos próximos, e uma frustrada tentativa de diálogo entre portugueses e flamengos, sobreveio um breve período de bonança. Alguns moradores retornaram à cidade, preferindo a paz com os novos senhores, a uma vida errante e árdua.
— A cada amanhecer, ao abrirmos os olhos, pensávamos que podia ser o último — disse-me uma bodegueira, mulher alta, de rijas carnes, que era por todos conhecida apenas pela alcunha de Lambona. — Não há futuro vivendo no mato, com medo das feras e dos jagas, com medo das febres e dos flamengos, com medo de tudo. Aqui estou bem. Agora só receio que cheguem de novo os portugueses e me cortem o pescoço. Enquanto não chegam vou vendendo o meu vinho e bailando e cantando para espantar o mal.
Rafael ia muito à bodega da Lambona. Acompanhei-o algumas vezes. Ali se juntavam flamengos, ingleses, franceses, portugueses, os diversos filhos e filhas do país, embriagando-se juntos, sem distinção nem de nações, nem de credos, nem de ideias e fazendo uns bailes escandalosos, muito acesos e descuidados.
Disse-me a Lambona que no tempo dos portugueses teria sido severamente castigada se organizasse tais bailes. Conhecera ela uma outra bodegueira a quem o governador português mandara cortar as orelhas e açoitar em praça pública, apenas porque se atrevera a juntar no seu estabelecimento negros e negras e porque estas bailassem à moda da terra, mostrando os peitos e as pernas.
Foi também naquele estabelecimento que vi Jol pela última vez, dançando com a Lambona. Rodopiava com tanta graça e tanta presteza que ninguém diria ter uma única perna, mas seis ou oito, à maneira de um aranhiço saltitante. Dias depois Jol partiu à conquista de São Tomé. Mais uma vez a sorte das armas foi-lhe favorável, embora com algum custo, pois logo nas primeiras trocas de tiros incendiou-se a nau Enkhuizen, morrendo muita gente pelo fogo. Finalmente foi possível desembarcar os soldados. Os portugueses resistiram alguns dias, fechados no maior dos fortes, até que os piratas o atacaram com balas de morteiro, provocando grande número de mortos e feridos. O governador rendeu-se, ele e mais oitenta soldados, brancos, negros e mulatos. Nos dias seguintes os portugueses abandonaram a ilha, de regresso à pátria.
Os holandeses não tiveram tempo para festejar. A ilha matou-os. Sim, a ilha — não os homens.
Foram morrendo, primeiro um, a seguir outro, depois muitos ao mesmo tempo. Jol via-os abraçados aos coqueiros, em animadas palestras com os cocos. Via-os estendidos no clarão das praias, tremendo de frio enquanto o sol lhes torrava a pele. Certa manhã o próprio pirata despertou com febre, com rápidos tremores, e também ele correu ao longo dos brancos areais, julgando que o perseguiam as almas de todos aqueles que matara ou que mandara matar — e talvez perseguissem. Os dois últimos piratas velaram o chefe. Enterraram-no ao meio-dia, ali, onde a linha do Equador divide o mundo. Repararam, com horror, que nenhum corpo projetava sombra. Buscaram por elas, pelas próprias sombras, atrás das pedras, atrás dos grossos troncos das árvores centenárias, escavaram a terra num desespero de viúvas, mas nunca as encontraram.
Muitos anos mais tarde um velho marinheiro ofereceu-me o diário de Jol. Disse-me que o comprara em São Tomé a um padre negro. A prosa do pirata é árida, desastrada e muitas vezes lhe falham a gramática e a ortografia. A última frase, porém, espanta pela lucidez: «Conquistei o Paraíso, mas mordeu-me a serpente.»
Uma tarde conversei sobre esta tragédia, e sobre outras idênticas, com João Maurício de Nassau. Disse-me então: — Talvez nos tenhamos enganado ao pensar que a natureza não seria mais madrasta para nós, os brancos, os ocidentais, do que para os portugueses e os levantinos. A verdade é que os portugueses sempre foram mais africanos do que europeus.
3
A SEGUNDA ENTRADA DA GINGA EM LUANDA, desta vez como cabeça coroada e guerreira temida, e não apenas enquanto embaixadora de um vago rei, não me surpreendeu — aguardava-a. Três dias antes recebera em casa a visita de um velho conhecido, Cacusso, o qual vinha acompanhado de outros cinco fidalgos e de muita escravaria. O tempo não o castigara. Tinha a pele do rosto lustrosa e esticada e só no cabelo se distinguiam alguns fios brancos. Pareceu-me até mais elegante, mais sólido, muito seguro no falar. Ingo encontrara a rainha e esta vinha a caminho para palestrar com os flamengos. Levei-o à presença de Pieter Mortamer, o qual lhe fez muitas honras, ordenando o envio de um grupo de cavaleiros ao encontro da quibuca real.
Encontrava-me em casa, conversando e rindo, na alegre companhia de Cristóvão e Rafael, quando escutámos, ao longe, o surdo bater dos tambores. Saímos para a rua.
À medida que subíamos, na direção do Convento de São José, ia-se-nos juntando gente, entre escravos e serviçais, soldados e marinheiros, brancos, negros e mulatos, portugueses e flamengos, sendo que estes últimos eram os que se mostravam mais excitados. Caía a noite. O ritmado estrondo dos ngomas e atabaques empurrava os corpos para a dança. Já os escravos saltavam, eufóricos, quando vi surgir a luz dos primeiros archotes e, logo depois, a grande liteira onde seguia a Ginga, em talha dourada, coberta por uma cortina de veludo verde que a protegia dos olhares curiosos.
As mulheres da Ginga seguiam atrás, dançando, já sem muito fôlego, para folgança da turba. Vi, escondido entre elas (eles), o meu amigo Samba N’Zila, trajando um pano de um azul vibrante, um alto turbante cobrindo-lhe a trabalhosa quindumba, colares de prata ao pescoço e guizos nos calcanhares. Baixou os olhos ao dar com os meus, não sei se numa saudação muda, se em razão da muita vergonha de se dar a ver como mulher numa festa pública.
A quibuca da Ginga seguiu a sua festiva marcha até ao Palácio do Governador, escoltada por uma dezena de cavaleiros flamengos, com os seus trajes de gala, enquanto estalavam foguetes, e os navios, ao largo, faziam soar os seus poderosos canhões. Acompanhei o cortejo, no meio da multidão, que a essa altura já dançava em conjunto com a gente da rainha. Vi dois fidalgos flamengos competindo, em desajeitados saltos, com as mulheres da Ginga.
Cristóvão, ao meu lado, ria como um louco. Puxou por mim, forçando-me a dançar, o que fiz com agrado, embora consciente do peso dos meus pés. Estávamos naquela folia quando vi um homem pular de uma das tipoias e avançar gritando na minha direção. Era Ingo. Abracei-o e seguimos juntos, trocando notícias, o resto do percurso.
Anna parira um menino, forte, saudável, ao qual haviam dado o nome de Francisco em minha homenagem. A jovem flamenga parecia adaptada à vida no quilombo. Aprendia a falar quimbundo enquanto ensinava as mucamas da rainha a cantar em flamengo.
Cipriano ainda vivia, e, embora muito velho, cada vez mais trôpego, insistia em frequentar os campos de batalha. Ajudara a derrotar a rainha da Matamba, Mulundo Acambolo, que era agora escrava da Ginga.
Ginga tornara-se, pois, rainha do Dongo e da Matamba.
— E Caza Cangola? — perguntei, estranhando não o ver na comitiva.
A rainha renegara-o. Aliara-se a um outro soba jaga, ainda mais poderoso do que Caza, e este afastara-se, desgostoso. Fora para muito longe, para Sul, lá onde a terra seca, perdendo o verde e o vigor, e os horizontes são tão largos que o mundo parece um prato.
Os portugueses, com o governador adiante, haviam fugido para Massangano, ali se mantendo entrincheirados. Estavam enfraquecidos, mas ainda podiam regressar em triunfo. Ingo era de opinião que se devia atacar o forte, aproveitando as armas dos flamengos, aprisionar os portugueses e expulsá-los para Portugal ou para o Brasil.
A Ginga desceu do seu palanquim trazendo na mão um cachimbo com um longuíssimo e elegante bucal. Pieter
Mortamer veio recebê-la à porta e levou-a para dentro. Despedi-me do meu filho e de Rafael e entrei na companhia de Ingo. Ao ver-nos, a rainha teve um gesto de vivo contentamento. Lancei-me aos seus pés, como é regra entre os ambundos diante de um soba ou de outro alto dignitário, com a diferença de que arrojam areia ou cinza sobre a própria cabeça, e eu não tinha ali nem areia nem cinza e ainda que tivesse não o faria. Nunca o fiz. A Ginga tocou com a mão esquerda no meu rosto, fazendo sinal para que me levantasse. Alegrava-se por me ver vivo e — assegurou sorrindo — ainda com o mesmo semblante de menino. Agradeci a caridosa mentira. Estranhou por não me ver de batina.
— Já não sou padre — retorqui.
Olhou-me chocada, ou, talvez estivesse apenas falseando o espanto:
— Não julguei que fosse possível deixar de ser padre. Julguei que os padres fossem padres em razão da sua natureza, assim como os quimbandas são quimbandas, porque não poderiam ser senão isso. Os peixes nadam nas águas, não voam nos céus.
Ia explicar-lhe que fora excomungado, e que o Santo Ofício me fizera queimar numa fogueira, em Lisboa, mas, felizmente, Ingo interrompeu-me. O governador aguardava que a rainha se sentasse para lhe fazer as honras. Instalada a rainha no seu vasto trono, Pieter Mortamer cumprimentou-a e eu fui traduzindo. A Companhia das índias Ocidentais, que ele representava, e os Estados Gerais dos Países Baixos recebiam em Luanda, com grande alegria, a rainha do Dongo e da Matamba. Mandou entregar à soberana os presentes que haviam trazido de Amesterdão. Quatro escravos vieram do interior do palácio, transportando uma liteira, ainda maior, ainda mais adornada, ainda mais refulgente do que aquela que a Ginga deixara à porta. Outros dois desenrolaram um longo manto tingido de púrpura. Expliquei à rainha o valor da oferta. A cor púrpura provém de uma mucosidade segregada por um género de moluscos comuns no Mediterrâneo. Nove mil moluscos produzem um grama de corante, menos do que o necessário para tingir um lenço. Um manto real, como aquele, exigia a recolha de três milhões de moluscos. Os tecidos, de lã ou seda, são mergulhados no muco dos moluscos e postos depois a secar ao sol. Então mudam de cor, primeiro para verde, depois para vermelho e finalmente para púrpura. A púrpura, ao contrário das restantes cores, mantém-se estável à luz, nunca desbota. A púrpura é eterna. Ao oferecer-lhe aquele manto os flamengos esperavam que a protegesse da corrupção do tempo e que o seu reinado durasse para sempre. A oferta comoveu a rainha. Ordenou aos seus escravos que depositassem aos pés do governador oito compridos dentes de elefante. Terminada a troca de presentes foi decidido deixar a maca — ou seja, as conversações — para o dia seguinte. Nessa noite a rainha dormiu no palácio, com todas as suas mulheres, que eram em número de quinze, além das mucamas e damas de companhia.
A maca decorreu num grande salão do antigo colégio dos jesuítas, onde Pieter Mortamer se instalara. Nos primeiros minutos senti alguma dificuldade em transpor para o flamengo o rápido quimbundo da rainha, primeiro porque há muito não falava as línguas de Angola, e depois porque a Ginga, de tão animada, não me deixava tempo para refletir. Ela parecia ter remoçado, não de corpo, pois estava igual, talvez um pouco mais seca, mas de espírito. Retorquia às dúvidas dos mafulos com tiradas vivas, precisas, deixando todos assombrados.
A rainha fincara quilombo nas Sengas de Cavanga, região de muita abundância de água, cercada por bosques sempre verdes e onde nunca escasseava a caça. Era voz corrente que se alguém adormecesse à noite estendido sobre a terra acordaria na manhã seguinte com a pele verde e o capim crescendo-lhe do peito. Ao mudar-se para ali, porém, a rainha entrara em conflito com o soba da região, Quitexi Candambi, que não aceitou reconhecê-la como sua senhora.
A Ginga gostaria que, em sinal de amizade, e como primeiro passo para uma autêntica confederação entre as duas nações, os flamengos enviassem soldados seus para combater o soba Quitexi Candambi.
Pieter Mortamer anuiu. Enviariam cem mosqueteiros, às ordens de um capitão experiente, Olivier van Aard, e se mais fossem necessários mais enviariam.
Ingo lançou-me um olhar aflito — que só eu percebi.
A rainha passou a tratar então do inimigo principal. Ela entendia, apoiada por todos os seus macotas, que chegara a hora de dar o golpe final ao que restava em Angola das forças portuguesas.
Mortamer não me pareceu tão seguro. Precisava de mais tempo para reunir tropas — argumentou. Essas tro-pas deveriam chegar em breve do Recife e da Holanda. Fiquei com a impressão de que hesitava, não tanto por lhe faltarem os meios, mas sobretudo por não saber se podia avançar contra os portugueses, os quais tinha por inimigos, ali, em África, mas que na Europa haviam voltado a ser aliados dos flamengos. Pode ser também que hesitasse por duvidar da lealdade de muitos dos seus soldados, que não eram flamengos de nação, e sim mercenários franceses e ingleses, muitos deles católicos. Soldados pagos, já se sabe, apenas são leais ao dinheiro, e aqueles, nos últimos meses, vinham protestando e ameaçando com motins porque a Companhia estava atrasada na entrega dos respetivos soldos.
A rainha partiu uma semana mais tarde, acompanhada dos cem soldados flamengos. Marchando à frente deles ia o infeliz Olivier van Aard.