A Rainha Ginga

José Eduardo Agualusa · Capítulo 3 de 12

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A Rainha Ginga

Capítulo Segundo

 

Neste capítulo se revela a lenta urdidura de uma guerra. Aqui se mostra também que a morte nunca anda muito longe do amor. Entretanto, desata-se a tempestade, consuma-se uma traição e prepara-se uma heresia.

 

1

 

Dona Ana de Sousa teve um único filho, chamado Quizua Quiazele, que significa Dia Claro. Era este seu filho quem, segundo as leis da Terra, deveria suceder a Ngola Mbandi. Os ambundos não depositam confiança nas mulheres, no que revelam grande sabedoria, preferindo guiar-se pelo dito segundo o qual os filhos das minhas filhas meus netos são, os filhos dos meus filhos serão ou não. A Quizua estava destinada a coroa, por ser, com toda a certeza, de sangue real, o mesmo não se podendo afirmar da descendência de Ngola Mbandi, no caso um único filho homem, ainda menino, de nome Hoji.

Recordo-me do jovem Quizua. Moço confiante, um tanto teatral e enfatuado, como a senhora sua mãe, porém, também como ela, combativo e empreendedor.

Ainda não cruzáramos o rio para alcançar essa formosa ilha da Quindonga, onde Ngola Mbandi estabelecera o seu quilombo, quando vimos avançar na nossa direção um arrastado cortejo de mulheres, chorando e lamentando-se em sombrios uivos, que só de as ouvir se comovia o coração do soldado mais empedernido. Aquela corrente escura avançou ao nosso encontro, como eu vira acontecer à minha chegada a África com as águas do grande rio Congo cercando o Boa Esperança.

A desolação das carpideiras comunicou-se a toda a quibuca, e só então compreendi que nos traziam a notícia da morte de Quizua Quiazele. Fora devorado por um desses gigantescos lagartos a que alguns eruditos chamam crocodilos, nome que vem do grego, com o significado de larva das pedras. Os mesmos lagartos se assemelham àqueles que no Brasil os índios denominam jacarés, significando esta palavra «aqueles que olham de lado». Os lagartos africanos são maiores e mais ferozes — mas também eles nos olham de lado, ou de caxexe, como se diz em Luanda.

Dias mais tarde começou a correr uma outra versão, segundo a qual Quizua Quiazele teria sido afogado nas confusas águas do rio por escravos ao serviço do seu tio, Ngola Mbandi. Domingos Vaz dava muito crédito a esta versão. Segundo ele, o rei Ngola Mbandi receava que a Ginga o tentasse matar, substituindo-o no trono pelo sobrinho, e reinando através dele. Não me pareceu, na época, que a Ginga desse crédito a tais intrigas. Chorou o filho, como é suposto uma mãe fazer, e depois a vida regressou ao normal.

Foram dias felizes para mim: a bonança antes da tempestade. Pedi a Domingos Vaz que me ensinasse quimbundo. As línguas de Angola sempre me soaram redondas e harmoniosas, muito mais do que as do velho mundo, mesmo se tantos sábios as têm por bárbaras. Como escreveu o cético francês Montaigne, «cada qual chama de barbárie aquilo que não é o seu costume». O mesmo Montaigne acrescenta: «antes deveríamos chamar selvagens aqueles que com a nossa arte alteramos e desviamos da ordem comum».

Confrontado com o quimbundo, até o nosso português, que eu amo tanto, me parece por vezes áspero e ríspido, mais próprio às rudes lides da guerra do que feito para cantar, ou afeito aos subtis jogos do amor.

Domingos Vaz veio a ser um bom professor. Muxima, a mais jovem das suas esposas, mostrava-se também ela muito interessada nessas aulas, participando de todas com uma ingénua e espontânea alegria. Enquanto eu ia anotando em meus livros as palavras do quimbundo — que mais belas me pareciam formadas pelos lábios dela — ia Muxima cultivando o nosso idioma.

Algumas vezes a acompanhei a pescar com grandes cestos de palha, tarefa que entre os ambundos é praticada sobretudo pelas mulheres. Muxima e as amigas riam muito por me verem entrar na água junto com elas e, se bem que nunca me tivessem impedido, recusaram-se ao princípio a entregar-me os cestos. A minha teimosia prevaleceu sobre a resistência delas, de forma que, decorridas algumas semanas, já eu me entregava àquela faina sem maior injúria além da troça dos homens.

Antes de entrar no rio cantava com as mulheres para apaziguar as quiandas, cantávamos juntos: «Escutem, águas, senhoras das águas, pedimos permissão para entrar, deixem que entremos pois vimos em paz. Afastai os crocodilos, afastai os cavalos-marinhos. Deixai que entremos nas águas que dormem. Dai-nos os peixes, os peixes alegres e velozes, como raios de prata. Dai-nos os peixes, senhoras das águas, dai-nos o fulgor e a presteza dos peixes.»

O batismo de Ginga inspirou outros fidalgos e fidalgas da sua corte. Muitos vinham ter comigo, desejosos de acederem aos mistérios da fé. Todas as manhãs eu ascendia do rio com novos cristãos — e, se tivesse muita sorte, com novos cristãos e peixe fresco.

Um dia, procurou-me um dos macotas de Ngola Mbandi. Também o rei ansiava pelas águas do batismo. Não queria, contudo, que fosse eu a batizá-lo, por me achar demasiado moço e sem notabilidade. Suspeito que o facto de me encontrar ao serviço de Dona Ana de Sousa não ajudava ao seu juízo. Mandou-me escrever ao governador, solicitando o envio de um sacerdote de respeito e prestígio (um macota) para o batizar. Assim fiz. Semanas mais tarde vimos chegar uma pequena quibuca. Um homem alto saltou de uma das maxilas. Reconheci-o. Era o padre Dionísio Faria Barreto, filho da terra, cultivado e de coração generoso, que eu sabia andar trabalhando numa gramática da língua ambunda. Recebi-o com alegria, instalando-o em minha casa, a qual, não sendo espaçosa nem permitindo luxos, me parecia mais rica do que as da maioria das gentes dali. Mandei preparar os peixes que eu mesmo pescara nessa manhã. Servi-lhe um rico licor da Madeira, oferta dos irmãos franciscanos, aquando da minha visita a Luanda acompanhando a senhora Ginga. Esperámos que viesse um emissário do rei. Quem surgiu, já o Sol ia abandonando o céu, foi Domingos Vaz, muito nervoso, dizendo que seria melhor o padre Dionísio passar o rio numa canoa e desaparecer. Olhámo-lo, ambos, assombrados.

Pois o que se passava?

O tandala confundiu-se. Cada vez mais nervoso, ia misturando explicações em português e em quimbundo. Ao rei desgostara muito que lhe tivessem enviado um padre preto. Argumentava Ngola Mbandi que à sua irmã, a Ginga, a batizara um padre branco, e não um qualquer, senão um dos maiores, tomando como um insulto que lhe enviassem a ele o filho de uma das suas escravas. O padre Dionísio ergueu-se em sincera aflição. O governador enviara-o como sinal de respeito e pela muita conta em que tinha o rei, visto ser ele, Dionísio Faria Barreto, ilustrado na língua do país e ter numerosa família na região. Protestou ainda contra a injuriosa afirmação de Ngola Mbandi, pois os seus pais, embora humildes, nunca haviam sido escravos. Domingos Vaz insistiu novamente com o padre, para que fugisse com os seus servos, de canoa, mesmo correndo o risco de enfrentar os cavalos-marinhos, ou cavalos do rio, que é o nome que se lhes dá em grego (hipopótamos), os quais àquela hora procuram as margens e são muito zelosos com as suas crias, pelo que frequentemente atacam quem quer que se cruze com eles. São estes animais tão perigosos ou mais do que os leões, pois, ao contrário dos primeiros, por coisa pouca se abespinham, podendo, com uma única dentada, rachar um homem ao meio.

Estávamos neste debate, discutindo tanto o mau humor dos hipopótamos quanto o de Ngola Mbandi, quando surgiu um grupo de homens armados de azagaias e machadinhas, intimando o padre a que os acompanhasse. Fui com ele, esforçando-me por o tranquilizar. Levaram-nos para um extenso terreiro, no centro do qual se erguia uma árvore muito alta e muito frondosa e verde, à qual chamam mulemba. O rei e os seus macotas esperavam-nos junto à mesma. Escravos afadigavam-se em animar com palhas e troncos uma alta fogueira, cuja trémula luz se confundia com a do crepúsculo, essa hora entre lobo e cão, quando a vista ainda distingue as formas, mas não as cores. Assim que chegámos, logo uma dúzia de brutos saltaram sobre o infeliz padre, arrancando-lhe a batina, e deixando-o exposto aos olhos de todos na mesma condição em que a senhora sua mãe o lançara ao mundo. Ao mesmo tempo davam-lhe fortes pancadas na cabeça e no corpo todo, de tal sorte que talvez o tivessem matado se eu não me houvesse interposto. Gritei ao rei para que detivesse a fúria dos seus vassalos. A cor da pele não diminuía o padre Dionísio no seio da Igreja, antes o agigantava, atendesse ele ao caso de São Benedito, preto, filho de pais mouros, porém siciliano de nascimento. São Benedito goza de enorme prestígio na Igreja, e até em Luanda o povo o cultua, através de uma delicada imagem que pode ser visitada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. No Brasil é, e creio que continuará sendo durante os séculos vindouros, um dos santos mais venerados pelo povo. Além de São Benedito há também o brilhante exemplo de Santa Efigénia, de cor muito preta.

filha do rei etíope Egippus. Acrescentei que poderia escrever nova carta ao governador, desfazendo o engano, e rogando que enviasse um padre mais categorizado para o batizar, talvez o próprio bispo.

O rei não me escutou. O padre Dionísio Faria Barreto foi preso com correntes de ferro, ou libambos, como se faz aos escravos, e açoitado ali mesmo, com a mais cruel severidade.

Domingos Vaz arrastou-me do terreiro, quase me carregando, tão atarantado eu me encontrava que mal podia caminhar pelas próprias pernas. Levou-me para sua casa, temeroso de que a cólera do rei caísse também sobre a minha cabeça.

— Agora é a guerra — disse-me Domingos Vaz.

A fúria de Ngola Mbandi não se devia apenas ao desaforo que, no entender dele, representava o envio de um padre negro. Vingava-se no infeliz padre pelo facto de os portugueses não darem mostras de quererem cumprir nada do que fora acordado em Luanda, como seja a devolução das muitas centenas de escravos roubados nos últimos anos pelos soldados e comerciantes e o abandono do Presídio de Ambaca.

Domingos Vaz achava que eu devia tentar a fuga. A mim parecia-me uma insensatez e uma cobardia. Cobardia porque me cumpria continuar ali, na minha função de secretário e de conselheiro da Ginga, e também como pastor de almas, pois contava agora com um pequeno rebanho, e não me achava no direito de defraudar a confiança daquelas pessoas, em especial as mais humildes, que eram também as mais sinceras na sua fé. Insensatez, porque como poderia eu fugir daquela ilha da Quindonga, e depois através de todo o dilatado sertão, desconhecendo os caminhos e os costumes e tão à mercê das feras e dos homens.

Domingos Vaz colocou então alguns dos seus vassalos ao meu dispor, entre os quais um velho pisteiro chamado Caxombo, que tinha fama de conhecer todos os desvãos daqueles matos, além e aquém Dongo e Matamba, e de ser capaz de desenredar trilhos, mesmo através da mais espessa escuridão da noite. Teimei em ficar. Na manhã seguinte, muito cedo, fui despertado por um oficial da Ginga, aquele mesmo Cacusso de que falei atrás, trazendo-me a proteção da sua senhora. Disse-me Cacusso que Ngola Mbandi enviara um grupo de jagas para me prender, e que estes homens ferozes, adestrados para a guerra desde meninos, não me encontrando em casa, lhe haviam largado fogo. A notícia entristeceu-me muito porque, com as poucas roupas e outros pertences sem grande valor que deixara em casa, estavam também os meus preciosos livros. Cacusso aconselhou-me a permanecer escondido, sem fazer alarde, até que Dona Ana de Sousa encontrasse melhor solução.

 

2

 

Fiquei sete dias fechado num pequeno quarto. Durante esse tempo Domingos Vaz quase não me veio ver. Andava numa grande aflição, indagando de uns e de outros sobre os preparativos para a guerra, discutindo estratégias, e, mais do que tudo isso, imaginando um plano para se salvar a ele e à família em caso do triunfo das forças portuguesas.

Muxima cuidava de mim. Vinha de manhã com as suas delicadas mãos de ninfa oferecer-me água fresca e frutas maduras, bananas, anonas, mamões, romãs e algumas outras, próprias da terra, que as não há no Brasil, como uma espécie de laranja a que chamam maboque, de casca muito dura, mas carne tenra e agradável. A estes maboques, depois de bem secos, costumam os gentios encher de missangas, transformando-os em guizos. Muxima mostrou-me um desses guizos e cantou para mim, usando dele, canções alegres e canções tristes, algumas tão tristes que me fizeram chorar. Conversávamos mais por gestos do que por palavras, conquanto eu já pronunciasse algumas em quimbundo, e ela outras num belo português cadenciado. Ao meio do dia Muxima trazia-me o habitual cacusso assado com farinha de mandioca, demorando-se comigo mais algum tempo, rindo, enchendo de uma luz de âmbar a penumbra do quarto.

Uma noite sonhei com ela. Vi-a, no meu sonho, debruçar-se sobre mim, mas não era uma pessoa, e sim uma flor, ou melhor, era uma pessoa e uma flor, e o perfume dela dilatava o ar e aliviava o peso dos corpos. Num momento eu estava deitado numa esteira e no momento seguinte flutuava através da imensidade. Recordei-me do que me contava a minha avó índia sobre a arte de voar dos pajés — ou «santidades», como também lhes chamam. Não achei nisso artimanha do Demónio, pois no que sonhava não havia lugar para o mal, e sim a memória de um saber muito antigo que o meu sangue preservava. Acordei alagado em suor e tremendo muito, e subitamente tudo era lúcido e claro como uma tarde de sol. O meu destino estava ligado ao de Muxima, para sempre, para além de existir tempo e o veneno do tempo, e não havia pecado nisso, pois não havia pecado. Já não era mais um servo do Senhor Jesus, era um homem livre.

Quando abri os olhos, vi os olhos de Domingos Vaz enfrentando os meus. Vi depois, atrás dele, o rosto assustado de Muxima. O tandala disse-me que eu fora acometido por grandes febres e passara três dias e três noites a delirar.

— Vou morrer? — perguntei.

Não, assegurou-me. Não morreria. Ele mesmo me tratara com ervas que uma sua avó lhe ensinara a usar. Ficaria bom. Essa era a primeira das boas-novas. A segunda talvez me alegrasse tanto quanto aquela: a desavença com Ngola Mbandi fora resolvida. Soergui-me, de um ímpeto, mas logo voltei a cair, exausto, sobre a esteira.

O que acontecera?

Ngola Mbandi morrera. Como sempre havia várias versões. Para os antigos gregos, a verdade, atheneia, é aquilo que está exposto. Segundo eles existe apenas uma verdade. A natureza exuberante dos ambundos explica, talvez, que os mesmos não se contentem com uma única verdade. Assim, segundo alguns, Ngola Mbandi morrera das mesmas febres comuns, tão frequentes no país, que me haviam prostrado a mim. Segundo outros morrera de desgosto por se sentir desrespeitado e humilhado pelos portugueses. Asseguravam terceiros, entre os quais Domingos Vaz, que o rei fora envenenado pela irmã, a qual vingara assim a morte do infeliz Quizua Quiazele.

Ginga conseguira convencer os macotas a aceitarem-na como rainha, ainda que com a forte oposição de muitos deles, os quais preferiam ver no lugar dela um filho, ainda muito pequeno, de Ngola Mbandi. Este menino, de seu nome Hoji, entregara-o o pai aos cuidados do poderoso jaga Caza Cangola, seu aliado, temeroso de que a irmã pudesse atentar contra a sua vida e a dos seus.

A Ginga, agora rainha Ginga, ou melhor rei Ginga, porque assim exigia ser tratada, queria ver-me. Muxima ajudou-me a levantar, a lavar-me e a vestir-me. Quatro escravos carregaram-nos depois a mim e a Domingos Vaz, cada qual em sua cadeira, até à banza da rainha. Pelo caminho passámos por aquele mesmo terreiro onde o padre Dionísio Barreto fora tão violentamente açoitado, mas já não o encontrámos. Muito me surpreendi ao ver no lugar dele um homem branco, acompanhado por outros quatro, esses negros, todos eles nus, presos uns aos outros pelos tornozelos com cadeias de ferro e expostos assim à troça da populaça. O português ao ver-me logo se lançou em altas queixas, dizendo chamar-se Estêvão de Seixas Tigre e ser capitão de infantaria. Condoí-me dele. Não me deixou Domingos Vaz apear-me e abraçá-lo, antes pelo contrário, deu ordens aos escravos para que apressassem o passo. Explicou-me, enquanto abríamos caminho através da turba, ter o referido Tigre sido capturado numa peleja que houvera com guerreiros do soba Hari diá Quiluange, senhor das altíssimas e possantes pedras de Pungo Andongo que, à época, ainda não tinham esse nome e sim Maupungo. O soba Hari diá Quiluange pedira ajuda aos portugueses, os quais haviam enviado, do Presídio de Ambaca, aquele mesmo capitão Tigre, soldado experiente, com muitas provas de bravura nas guerras de Itália, mas que se mostrou ali ou demasiado confiante ou demasiado ingénuo, deixando-se apanhar à mão, não como o ágil e perigoso animal de que usufruía o patrónimo, mas como um mero gatinho indefeso.

Festejava-se por todo o quilombo a coroação da rainha. Ou do rei, segundo os termos da própria Ginga. Vi batuqueiros e marimbeiros e muito gentio sangando, ou seja, dando enormes saltos, simulando uma peleja — e também isto é uma forma de dança. Postados à entrada da banza da Ginga encontrámos um conjunto de hábeis tocadores de quissange, que são instrumentos de tinir com os polegares, belos e harmoniosos como aves amestradas. No interior, parecendo flutuar num mar de sedas, estava a rainha Ginga, sentada sobre muitas travesseiras, e rodeada pelo afago carinhoso das suas molecas e fidalgas. Alegrou-se ao ver-me, dando-me logo assento junto dela e mandando que me servissem um licor brando e fresco, ao qual chamam quissângua. Quis saber como eu me sentia. Confessei-me cansado e confuso, pois me parecia que o mundo correra — como corre um rio — enquanto eu dormia. Riu-se a Ginga. Retorquiu-me que o mundo nunca se detém e é por isso que um rei não pode dormir. Mandar-me-ia um dos seus quimbandas, com ervas propícias e outras mezinhas, para que eu recuperasse depressa. Agradeci muito a preocupação dela. Já me sentia melhor. O seu vassalo. Domingos Vaz, que ali estava, desempenhando o ofício de tandala, tratara muito bem de mim. A rainha-rei não insistiu. Passou para os assuntos de Estado. O irmão, Ngola Mbandi, criara um conflito com os portugueses que ela gostaria de resolver sem mais delongas. Mandou-me escrever uma carta, pedindo a retirada de todas as tropas do Presídio de Ambaca e a devolução dos escravos roubados. Assim que isso fosse feito libertaria o capitão Tigre e os restantes soldados. Disse-lhe que, estando ela nos primeiros momentos do seu reinado, o qual seria com certeza longo e próspero, mostraria grande generosidade se libertasse, sem condições, o capitão Tigre e o padre Dionísio Barreto e os deixasse ir. Respondeu-me que ambos eram agora seus escravos, que haviam sido os portugueses a provocar o conflito e que cabia ao governador corrigir a soma de graves erros cometidos pela sua gente. Roguei, quase em lágrimas, que desse agasalho e sustento ao capitão e aos seus homens, bem como ao padre Dionísio Barreto, e nisso ela concordou. Mais me disse que mandara construir uma outra casa para mim, no local onde a primeira ardera, e que mandaria mais escravos para me servir, pois embora eu fosse ainda muito moço, o meu espírito era o de um ancião, um macota ou diculundundo, como dizem os ambundos, e me tinha por isso em grande consideração. Redigi a carta com as condições da Ginga, selei-a e entreguei-a. Já no regresso. Domingos Vaz quiá saber se eu acreditava que os portugueses abandonariam o Presídio de Ambaca e devolveriam os escravos. Disse-lhe que deveria continuar a preparar-se para a guerra.

 

3

Nas semanas seguintes a ilha da Quindonga recebeu uma torrente de escravos fugidos de Luanda. Chegavam animados com a notícia de que a Ginga se fizera rei e se opunha ao envio de mais escravos para o Brasil. Davam notícia de que a cidade se preparava para a guerra. Os generais da rainha transmitiram instruções para fortificar o quilombo. Foram construídos muros de pedra e barro, e fossas ao longo daqueles, cobertas estas com rijos arbustos, que por ali os há em abundância, a que chamam bissapas, e cujos espinhos ferem como lâminas. Os ferreiros, ofício de grande respeito entre os ambundos, trabalhavam dia e noite para produzir setas para as flechas e azagaias. As mulheres pescavam e salgavam o peixe. Havia tantos bagres e cacussos a secar ao sol, suspensos dos ramos das árvores e arbustos, que o ar custava a engolir. Aquele cheiro infiltrava-se nos sonhos, de tal forma que muitos despertavam aos gritos, crentes de que haviam sido transformados em peixes e alguém os salgara, e que os andavam secando para depois os comerem com farinha de mandioca.

Vieram de Luanda dois padres, Jerónimo Vogado e Francisco Paccónio, com uma carta do governador, em que este instava a rainha a entregar todos os escravos fugidos, além dos portugueses que, entretanto, havia capturado. Vogado e Paccónio eram sacerdotes de muito respeito. O primeiro, quase um santo, o segundo autor de um catecismo em quimbundo com o título Gentio de Angola suficientemente Instruído.

A Ginga exigiu a minha presença na maca. Os padres não conseguiram esconder a surpresa ao ver-me ali, muito bem sentado, junto com os restantes fidalgos e macotas. Apresentaram os seus argumentos sem convicção, assustados, creio, com a desrazão daquilo mesmo que propunham. A rainha escutou-os num silêncio inquieto. Quando terminaram, levantou-se. Mandou que dissessem ao governador não ver ela sentido algum em devolver escravos que na realidade já lhe pertenciam, como lhe pertenciam os outros enviados para o Brasil. Quanto aos portugueses, entretanto capturados, eles poderiam apenas levar o padre Dionísio Barreto. O capitão Tigre, e os restantes, ela os via como escravos de guerra, seus ijico (no singular, quijico), ou caxicos, como alguns também já dizem, aportuguesando o quimbundo. Se os quisessem teriam de comprá-los.

No final do encontro o padre Jerónimo Vogado veio ter comigo. Eu já o conhecia, da muita glória de que gozava.

Era um jesuíta de idade respeitável — passara os cinquenta —, porém seco e direito. As suas muitas virtudes e uma firme reputação de pio e até milagreiro o faziam respeitado no país, quer entre os poderosos de Luanda, quer entre o povo mais humilde. Conta-se que certa manhã mandou tirar farinha de uma caixa, para a dar de esmola a uma mãe muito necessitada, e lhe disseram que já não havia nenhuma. Uma vez mais insistiu o jesuíta, e então se viu que a caixa estava de novo cheia de farinha.

O padre Jerónimo estranhou a minha intimidade com a Ginga. Aconselhou-me a acompanhá-los no regresso a Luanda. Isto, acrescentou, lançando-me um olhar desconfiado, se eu fosse ainda um homem livre. Assegurei-lhe que sim, que me sentia senhor das minhas ações. Preferia permanecer na Quindonga, no meu ofício de secretário, e também para assistir a todos os que nos últimos meses haviam tomado as santas águas do batismo. Jerónimo Vogado deve ter sentido a sombra da incerteza velando as minhas palavras porque voltou a enterrar nos meus os seus duros olhos de santo. Espetou um dedo áspero no meu peito e citou um dito ambundo: por muito tempo que um tronco permaneça no rio nunca se transformará num crocodilo.

Vi-o partir, a ele e à sua embaixada, com o sentimento de que estava assistindo à minha própria despedida.

Uma tarde chegaram sentinelas aos gritos e pouco depois surgiram dezenas de lanchas, canoas, balsas e jangadas, avançando sobre as águas escuras do Quanza, com altas flâmulas e auriflamas, como chamas queimando os ares, e as agudas lanças e os rudes urros de guerra. Na correria houve homens e mulheres que não conseguiram entrar no quilombo. A uma moça com o filho pequeno às costas, vi eu ser trespassada por uma zagaia, ainda as embarcações não haviam tocado em terra. Momentos depois eram os portugueses que fugiam, perseguidos pelas setas dos nossos jagas.

Interrompo por breves instantes a fúria da guerra para melhor dar conta da natureza destes jagas, que muitos julgam ser designação de um povo, o que não é verdade, visto que os há falando línguas diversas e nascidos em diferentes reinos. Jagas são homens inclinados só para a guerra. Bravos, sim, como eram bravos os hunos e o seu rei Átila, o Flagelo de Deus, e como eles de igual forma brutos e cruéis, desprezando a vida, pois só o que os anima é pelejar. Ginga compreendeu que para guerrear os portugueses precisaria de ter ao seu lado o rei dos jagas, o poderoso Caza Cangola, e tão bem conduziu as negociações com este que o mesmo lhe enviou uns milhares de arqueiros para a ilha antes do assalto dos portugueses. Mandou-lhe também o filho pequeno de Ngola Mbandi, o que foi uma ruim lembrança. Dizem — destas coisas não há certezas — que mal o teve diante dos olhos a Ginga o matou, ou fez matar, arrancando-lhe o coração. O certo é que nunca mais ninguém o viu. Calaram-se os fidalgos e macotas que ainda defendiam a substituição da rainha pelo pequeno Hoji. A partir desse dia a Ginga reinou, sem contestação por parte dos seus, até ao derradeiro suspiro.

Lembro-me muito bem dessa primeira noite de cerco. No quilombo o povo dançava e festejava, como se a morte não estivesse mesmo ali ao lado, pronta a filar-nos pelo pescoço. Um dos escravos que havia fugido de Luanda, de seu nome Mateus do Rosário, chegou-se ao muro e, em altos brados, quis saber se entre a tropa havia algum senhor de nome Lourenço. Logo se aproximou um Lourenço, surpreso por ver que o chamavam do lado do inimigo. Então Mateus gritou-lhe — «A esposa de vossa mercê, a senhora Dona Vicência, folgando de o saber tão longe, está agora divertindo-se com um escravo, como em tempos se divertiu comigo.»

Estes dislates e desaforos eram saudados por todos com larga soma de gargalhadas, até mesmo do lado dos sitiadores. Não parecia uma guerra, antes uma ópera-bufa.

Assim que a primeira luz se acendeu no horizonte, vimos o capitão-mor e tandala do reino, António Dias Musungo, avançar à frente dos seus homens através do areal. Este capitão, negro, natural do país, era já nesse tempo um dos homens mais ricos de Luanda, senhor de muitos escravos, com um filho sacerdote e duas filhas casadas com comerciantes de muita autoridade e posição.

Dos nossos muros irrompeu sobre os atacantes uma grossa chuva de flechas, além de muitos tiros de espingardas e mosquetes, e logo ali tombaram mortos alguns deles. Não o capitão-mor, que sacudia as flechas presas no grosso gibão de pano que lhe servia de armadura, como se fossem inoportunos mosquitos. Por vezes basta um arranhão de uma dessas setas para prostrar um homem, pois os jagas as envenenam com uma peçonha de sua invenção. Acreditam alguns que o único remédio contra tal peçonha é o menstruo das mulheres, razão por que muitos soldados, tanto negros quanto brancos, trazem consigo caixinhas com um pouco desse sangue reduzido a pó e o colocam sobre as feridas mal são atingidos. Tenho para mim que aquilo que os cura, nos casos em que resistem aos ferimentos, não é o sangue das mulheres e sim a sua própria fé em tão árduo prodígio.

A coragem, que é quase tão contagiosa quanto a cobardia, atraiu outros homens até junto do capitão-mor, e todos juntos começaram a derrubar um dos muros. Deteve-os a pronta intervenção de um português que se pusera do lado da Ginga, de nome Cipriano, ou Abdullah, por alcunha o Mouro, o qual avançou com uma escolta da sua guarda, todos fazendo muitos tiros de espingarda, com o que derrubaram cinco negros que lutavam ao lado do capitão-mor, forçando o mesmo a recuar.

Quão imprevisto e surpreendente é o destino! Ali estavam milhares de soldados pretos combatendo em nome de um remoto rei espanhol, enquanto do lado dos africanos se destacava aquele homem de Évora, e alguns outros como ele, brancos ou quase brancos, que haviam buscado fortuna em terras da Ginga, trocando espingardas e munições, além de tecidos, missangas, espelhos e outros objetos vilíssimos, que não servem senão para efeminar os espíritos, por escravos e marfim.

Vendo que não conseguiam romper os muros, a não ser à custa de muita mortandade, as tropas do capitão-mor António Dias Musungo recuaram para a margem do rio, dispostos a vencerem-nos pelo cansaço e pela fome.

No quilombo havia já muitos feridos, dos quais me ocupei, ao lado dos quimbandas e ervanários da rainha.

Entre estes quimbandas chamaram-me a atenção uns que se vestem e se comportam como mulheres, aos quais dão os ambundos o nome de nganga dia quimbanda, ou sacerdote do sacrifício. Trazem estes quimbandas cabelo comprido, muito enredado e descomposto, e a cara sempre bem raspada, que parecem capões. Deitam-se com homens, fazendo com eles o que na natureza fazem as fêmeas com os machos, e com tudo isto são muito respeitados e venerados por toda a gente. Um destes quimbandas, de nome Hongolo, simpatizou comigo, mostrando-me algumas ervas com as quais sarava as feridas, mesmo as que já cheiravam mal. Uma noite repartiu comigo uma bebida amarga. Lembro-me que, embriagado por essa poção, conversei com ele enquanto as estrelas bailavam com a Lua. Conversámos muito, ainda que a essa altura eu mal compreendesse as línguas de Angola, e ele nada falasse de português. Hongolo foi aprisionado pouco depois e só o voltei a ver, muitos anos mais tarde, num arimo a poucas milhas de Luanda.

Recebíamos a ajuda das mulheres, entre as quais Muxima, sempre atenta e caridosa. Cuidando dos feridos, uma ou outra ocasião os dedos dela tocavam os meus, e então esquecia-me da bruteza dos homens e da angústia daqueles dias e era como se o mundo se estivesse formando de novo, sem erro nem pecado algum.

Uma semana mais tarde reparámos que do outro lado, às margens do rio, um grupo de soldados fugia em altos gritos de um homem magro e esgalgado, o qual se despira, talvez para se refrescar nas águas lamacentas. Formou-se um grande alarido. Vimos chegar o capitão-mor. Aproximou-se do soldado com muito bons modos, sempre tranquilo, como era o seu jeito. Porém, logo se afastou, de um salto, sem conseguir ocultar o horror.

Só uma coisa podia assustar um homem tão bravo — as bexigas! Em Pernambuco eu vira muita gente desfigurada pela doença. Homens cegos, com a pele do rosto rota e roída, como se tivessem saltado das chamas do Inferno para a vida e guardassem ainda na carne a memória dessas chamas.

O soldado com bexigas ficou isolado, à sombra de um pequeno arbusto. Atiravam-lhe de longe pedaços de comida. Ao segundo dia recebeu a companhia de mais sete. Ao terceiro já eram quinze. Mesmo de onde estávamos conseguíamos ver como a pele deles se alteava e por fim se abria em pústulas enormes.

Quando o primeiro morreu, veio um soldado com a pele picada de bexigas, porém seca, um desses que, anos antes, sofrera o tormento da doença e se salvara e por isso se achava resistente a ela. O soldado aproximou-se do grupo segurando uma machete. Com gestos rápidos e precisos, como um açougueiro, despedaçou o corpo do defunto. Guardou depois esses pedaços num pano grosso e afastou-se. Uma dezena de outros soldados haviam entretanto arrastado, desde os bosques, uma espécie de catapulta que estava agora à vista de todos.

Cipriano, o Mouro, compreendeu antes de mim o que eles pretendiam. Galgou o muro disparando a sua espingarda, mesmo se com isso se expunha inteiro. Os seus homens seguiram-no. Fosse por nervosismo, fosse por natural inépcia, todos os tiros erraram os alvos. Os soldados carregaram a catapulta com os pedaços do falecido e arremessaram-nos contra nós. Cipriano voltou para dentro, gritando a todos que se afastassem e abrigassem. Não serviu de muito. Já a carne caía sobre o quilombo, um dos braços a pouca distância de mim, mas sem me atingir, e o resto espalhando-se em redor, aquele sangue envenenado chovendo sobre as nossas cabeças.

Pedi a Domingos Vaz que me conduzisse à presença da Ginga. Encontrei-a vestida à maneira de um homem, como rei que se arvorava ser, tão macho quanto os demais, ou mesmo mais, e armada de arco e flechas. Rodeavam-na os seus quilambas, que é como chamam aos capitães de guerra e também aos magos capazes de compreender a linguagem secreta das sereias. Muitas vezes os dois se confundem.

Contei ao rei o que acabara de ocorrer. Disse-lhe que era necessário apartar aqueles que tivessem sido atingidos pelos humores emanados da carne doente. Ela — o rei — gritou algumas ordens em quimbundo, que não compreendi, e logo uma série de jagas saíram apressados. Instantes mais tarde, para meu grande horror, uma dezena de mulheres e de crianças eram lançadas pelo muro, para o lado do inimigo. Ficaram ali, junto à larga fossa, enredando-se nas silvas, cortando-se nos espinhos, chorando e lamentando-se.

Fui queixar-me a Domingos Vaz. O meu amigo não quis escutar-me. É a guerra, justificou. Mostrou-me dois homens cavando um buraco sob a atenta vigilância de cinco jagas. Também eles tinham sido atingidos pelos pedaços de carne. Sendo homens não os lançavam ao inimigo, antes os forçavam a cavar a própria sepultura.

Recolhi-me a casa, atordoado por tanta maldade. Estendi-me numa rede, num esforço para aquietar e ordenar o espírito. Pensei no senhor meu pai e no que ele diria se me soubesse em tantos trabalhos e perigos. O meu pai chamava-se José, como o carpinteiro, e como aquele começara a vida trabalhando com madeira, com tanta arte e tão boa sorte que em pouco tempo ganhou o suficiente para montar loja própria. Teve muito gosto em ver-me feito padre, mas sempre se opôs a que eu fosse para África. Dizia, e com razão, que no Brasil também havia ignorância, e que mais valia continuar por ali, junto aos meus, salvando almas e ensinando os índios a ler, do que me exilar num fim de mundo tão distante de Deus.

Estava pois nesta inquietação quando senti alguém entrando em casa. Erguendo o olhar vi Muxima avançar para mim. Sorrindo, soltou o pano que trazia preso ao busto, deixando-o cair. Era um pano chinês, em seda, com belos pássaros estampados, tão vivos, num tal luxo de cores, que me pareceu escutar o rumor das suas pequenas asas enquanto desciam e se aninhavam junto aos pés dela. Muxima tinha um corpo liso, pequenos e orgulhosos seios, assentos rijos e redondos nos quais se encaixavam com infinita graça as suas altas pernas. Subiu para a rede e estendeu-se ao meu lado. Abraçou-me, eu abracei-a, e então soube porque o destino — e reparem que escrevo o destino, não escrevo Deus — me lançara para África.

 

4

 

NOS DIAS QUE SE SEGUIRAM O HORROR AUMENTOU. Cada soldado que morria era rapidamente esquartejado e os seus pedaços arremetidos na nossa direção. Pela nossa parte não era possível continuar a enterrar homens e a lançar para o outro lado do muro os infelizes tocados pela doença. A cada dia surgia alguém com febre. Os empestados escondiam-se onde podiam para não serem mortos. Começou a alastrar uma ameaça de revolta. Os escravos fugidos preferiam regressar a Luanda, preferiam ser vendidos para o Brasil, a morrerem na ilha de forma tão atroz.

A rainha mandou-me chamar. Achei-a muito inquieta. Queria conhecer a minha opinião sobre a melhor estratégia. Um dos seus quilambas imaginara um plano de fuga durante a noite. Havia na ilha pisteiros muito bons, entre os quais aquele afamado velho, de seu nome Caxongo, que Domingos Vaz me recomendara, os quais conheciam caminhos secretos por onde a rainha e mais alguns poderiam fugir. As mulheres, os velhos e os meninos ficariam para trás, juntamente com alguns jagas mais audazes, criando assim a ilusão de que ninguém abandonara o quilombo.

Outro quilamba defendia uma surtida rápida, também durante a noite, para destruir a catapulta.

Pedi algum tempo para refletir. Por fim sugeri que se acatassem ambas as sugestões. Eu escreveria uma carta ao capitão-mor, em nome da Ginga, em que esta se mostraria arrependida e disposta a negociar a rendição do seu reino. Ao ler tal carta, supondo que acreditasse nela, António Dias Musungo enfraqueceria a guarda. Nessa mesma noite os jagas saltariam os muros e atacariam a catapulta. Enquanto isso a rainha fugiria com a sua gente. Quando os portugueses dessem conta seria demasiado tarde.

A minha proposta foi recebida com grande alvoroço. Um dos macotas de mais idade, que todos os outros tratavam com genuína cortesia, fazendo-lhe muitas mesuras e salamaleques, apontou aos gritos na minha direção. Embora só me fosse possível compreender uma ou outra palavra, uma frase aqui, a seguinte acolá, intuí que desconfiava de mim por ser eu padre e branco — ainda que branco eu não fosse, e padre estivesse deixando de ser, mas isso não o sabiam eles. Nos sertões de Angola, como acontece nos do Brasil, qualquer homem que fale português, tenha recebido as águas do batismo e possua fortuna ou merecimento, pode ser tomado como branco. Conheci muitos brancos de pele preta.

Domingos Vaz traduziu o que dissera o velho. Receava ele que eu escrevesse uma carta a António Dias Musungo não para o ludibriar, mas para lhe dar a conhecer os planos da Ginga. Ninguém ali sabia desenhar letras. Eu poderia escrever o que quisesse. Era um forte argumento. Não soube o que retorquir. Fez-se um grande silêncio. Podia escutar a dúvida abrindo caminho pelo pensamento dos restantes macotas e quilambas, como uma térmita roendo a madeira.

Por fim a rainha ergueu a magra mão num firme gesto. Ela acreditava em mim, disse. Confiara em mim desde o primeiro dia. Continuaria a confiar. Correu ao longo da assembleia um murmúrio esquivo. Contudo, ninguém se atreveu a contestar a vontade da Ginga.

Sentei-me a uma mesa e escrevi a carta. Selei-a e entreguei-a a um pombo, que é como em quimbundo se chamam aos mensageiros, escravos ou homens livres, que alguns já vão apelidando pombeiros, o qual correu a levá-la ao outro lado. Entardecia quando escutámos um largo repique de sinos, seguido do alegre estrondo de muitos ngomas e atabaques. O capitão-mor e a sua gente festejavam a nossa rendição. A folia atravessou a noite. Debruçados sobre os muros, já sem receio de que uma bala nos arrancasse uma orelha, podíamos ver os soldados a dançarem e a beberem ao redor das muitas fogueiras espalhadas pela praia.

Não julgara tão fácil ludibriar um homem experiente como aquele capitão-mor, habituado tanto aos logros da guerra quanto aos da intriga política. Sentia-me tomado por uma terrível angústia. Custava-me mentir. Custava-me ainda mais assumir o papel do traidor. Eu traíra os meus, conquanto nunca os tivesse sentido como meus, senão que com eles partilhava a língua e a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo.

A vida é um labirinto de escolhas, dizia-me o meu pai quando eu era menino. Deus deu ao homem o livre-arbítrio. O homem escolhe ir para o Inferno ou para o Paraíso.

Eu fizera uma escolha. O Paraíso deixara de ser para mim algo abstrato e remoto. O Inferno também. O Paraíso era ela e o ar que ela respirava, e o Inferno a ausência dela. A toda a volta só havia demónios.

 

5

 

Esperamos que as fogueiras se apagassem. Vimos a Lua desaparecer atrás de umas nuvens densas. Os soldados jaziam de borco na areia, uns bêbados, outros doentes. Só dois empacaceiros ainda se mantinham de pé, vigiando a catapulta. Os jagas, sete ou oito, saltaram o muro e caíram sobre os desgraçados, matando-os a golpes de machadinha e degolando-os. Destruíram a arma e lançaram fogo aos destroços. Regressaram para a segurança dos nossos muros sem um único ferido.

Por essa altura já a rainha, guardada por muitos guerreiros e pelos fidalgos mais poderosos do reino, se havia esgueirado até ao rio, através da noite, furtando-se ao cerco. Deixei-me ficar para trás, cuidando dos feridos, e assim pude assistir ao ataque à catapulta e ao brutal despertar dos portugueses. Não demorou para que uma chuva de flechas caísse sobre nós. Escutei os gritos do lado de lá:

— Traidor! Traidor!

As flechas não me atingiram. Os gritos, sim.

Muxima adivinhou o meu estado. Pousou a pequena mão no meu peito. Guardei-a entre as minhas. Estávamos assim, como que imóveis na larga torrente do tempo, quando nos interrompeu Domingos Vaz. Tínhamos de partir. A rainha aguardava por nós na margem do rio. Disse-lhe que não, que ficaria ali, zelando pelos feridos e pelos doentes, cuidando das mulheres e das crianças, tanto mais que era apenas um padre, não um combatente, e só iria atrasar a marcha dos fugitivos. Não me deu ouvidos. Dois jagas empurraram-me. Outros dois afastaram Muxima. Perdi-a na confusão de gente que se movia, uns fugindo das flechas e azagaias que cruzavam o ar, outros lançando-se para diante, a defender os muros. Quando dei por mim corria na escuridão, atrás dos jagas, como se estivesse saltando para a boca voraz da própria noite. Sentia o cheiro quente da pólvora e dos corpos suados, escutava o troar dos tiros, o ruído dos ferros se chocando, os gemidos dos feridos, os gritos dos quilambas esforçando-se por reorganizar os seus esquadrões, mas tudo aquilo chegava até aos meus sentidos como se eu fosse um outro ou o fantasma entorpecido e ofegante de mim. Recordo uma canoa no rio, a escura vertigem das águas. Depois, do outro lado, uma massa de gente respirando o mesmo ar de algas. Em algum momento desfaleci.

Despertei, estendido numa tipoia, com os raios do sol bailando sobre o meu rosto. Vi que nos achávamos em um alto palhagal. Eram aquelas palhas — ou capins, como lhes chamam os índios do meu país — tão crescidas e tão viçosas que os homens, mesmo os mais taludos, desapareciam dentro delas. Eu via o verde das palhas ondulando como um mar, via as bandeiras e as divisas flutuando, rubras e amarelas, sobre a palha verde, mas não distinguia os homens que as levavam.

Por instantes ocorreu-me que me transportavam anjos rumo ao Paraíso. Não me sentia morto, é certo, apenas cansado e confuso, mas como saber o que sente um morto? Talvez aquele mesmo cansaço e desorientação que eu sentia.

Então paramos e eu vi abrir-se adiante um profundíssimo despenhadeiro. Os escravos que me transportavam pousaram a liteira. Domingos Vaz surgiu ao meu lado, abrindo caminho através do capim. Quis saber se havia repousado. Percebi estar ele em muito pior estado do que eu. Ardia de febre e suava muito.

— Onde estão todos? — perguntei. — Onde está a rainha?

Domingos Vaz mostrou-me, alguns pés abaixo, um grupo de homens amarrando às árvores uma espécie de cipós, como aqueles que se encontram nas matas do Brasil, fortes o suficiente para suportarem o peso de um boi. No caso não levavam bois, mas gente de guerra e as suas armas. Distingui, muito ao fundo, um formigueiro humano. Pelas flâmulas que erguiam — grandes leques feitos de penas de pavão — compreendi que a Ginga já descera. As penas de pavão são usadas como insígnia real nas batalhas, festas e ajuntamentos. Centenas de pavões são criados em cercados, próximos aos paços da rainha, apenas para tal fim.

Pavões são minquisi (plural de n’quisi, encantamento) reais. Aos pavões também chamam os ambundos n’gila n’quisi, pássaros-magos, ou pássaros do encantamento.

Perguntei a Domingos Vaz o que acontecera com a sua família e restantes mulheres e crianças. Sossegou-me, assegurando que vinham atrás. Encarou-me com gravidade:

— Estou doente — disse. — Estou com bexigas. Se os outros percebem matam-me. Morrerei de qualquer forma. Vou deixar-me cair dessas árvores. Não irão procurar por mim. Não há tempo para isso. Tentei dissuadi-lo. Muita gente sobrevive às bexigas. Domingos argumentou, com razão, que mal lhe surgissem no rosto os primeiros sinais da infame maleita logo o degolariam. Nem o importante estatuto de língua lhe valeria de muito. Preferia deixar-se cair. Talvez sobrevivesse à queda, e depois às bexigas. Talvez sobrevivesse à fome e às feras. Fez-me prometer que cuidaria dos seus três filhos pequenos e também de Muxima, a mulher mais jovem, pois bem percebera que eu lhe tinha grande afeto. Quis abraçá-lo. Não me deixou. Vi como o amarravam a um daqueles cipós. Vi-o cair, a meio da jornada, desaparecendo, sem um grito, entre o verde cerrado da floresta.