A Rainha Ginga
Capítulo Décimo
Um brutal ataque. O quimbanda Hongolo, de que se falou num capítulo atrás, afamado adivinho e encantador de leões, regressa a este testemunho ainda com mais poder. Aqui se dão conta de importantes vitórias e derrotas e das súbitas reviravoltas do destino. O fim, ou quiçá não. O cético acha que se o final é feliz, talvez ainda não seja o final. O que tem fé sabe que não existe final — tudo são começos.
1
Nascemos, crescemos, fazemo-nos adultos e depois velhos. Não habitamos ao longo da vida um único corpo, e sim inúmeros, um diverso a cada instante. A essa corrente de corpos que uns aos outros se sucedem, e aos quais correspondem também diferentes pensamentos, diferentes maneiras de ser e de estar, poderíamos chamar universo — mas insistimos em chamar indivíduo. Grosso erro. Atente-se no meu caso, que fui em jovem padre e devoto e me acho hoje, à beira da morte, não só afastado de Cristo, mas de qualquer Deus, pois todas as religiões me parecem igualmente danosas, culpadas do muito ódio e das muitas guerras em que a humanidade se destrói. O que é que o jovem padre que desembarcou em África, pela primeira vez, há oitenta anos, diria ao velho, imensamente velho, que eu sou (ou estou) hoje — enquanto escrevo estas linhas? Creio que não se reconheceria em mim.
A mulher que eu conhecera na ilha da Quindonga, com o nome de Muxima, era leve como um pássaro e lisa como um peixe. Achei-a, nessa altura, livre de todo o mal. Não via atuar nela nem a serpente da inveja, nem o dragão da cobiça, tão-pouco o petulante pavão da vaidade. Era simples como a água — bela por ser tão simples.
Dona Inês de Mendonça, pelo contrário, impunha a sua presença. Ocupava todo o ar. O peso dos seus passos anunciava-a ao longe. Vestia com luxo e ostentação. Nunca saía sem o brilho de muita prata. Raramente gritava, mas punha tanta autoridade na voz que era como se o fizesse mesmo sussurrando. Embora fosse sempre doce comigo e com Cristóvão, enchendo-nos de mimos e gentilezas, mostrava-se muitas vezes rude com os escravos e a criadagem. Pouco a pouco foi-se aprofundando entre nós uma distância amarga, que a magoava mais a ela do que a mim. Muxima tentava agradar-me. Eu tentava não me desagradar com ela. Contudo, já a sua voz me arranhava os nervos, já o seu cheiro me nauseava. À noite ouvia-a chorar, estendida ao meu lado, e não conseguia reunir coragem para a abraçar.
Decorreram meses. Os portugueses, vendo que os flamengos não iam a picá-los, tão-pouco a rainha Ginga ou outros sobas, atreveram-se a abandonar as muralhas de Massangano. Vários regressaram às fazendas e arimos que possuíam entre o Bengo e o Golungo, chão muito verde e muito fértil, no qual toda a semente vinga. Enterrando naquela boa terra os cornos de uma vaca é certo e sabido que cinco dias depois nasce um bezerro. Enterrando uma lança e um escudo nasce um guerreiro.
O próprio governador fujão correu a instalar-se na Barra do Bengo, numa casa de pau a pique, com telhado de palha, porém ampla e muito aprazível. Alguns comerciantes flamengos começaram a ir até ali, para trocar tecidos, queijos e manteiga por joias, prata lavrada e um ou outro escravo. Rafael, que pouco ganhava no seu ofício de cirurgião-barbeiro, iniciou-se também nestas excursões. Regressava sempre muito satisfeito — e um pouco mais rico.
— Há por ali muito metal precioso — disse-me um dia, e eu vi luzir-lhe os adormecidos olhos de pirata. — Dizem que os portugueses desenterraram toda a prata da Igreja Matriz. Haviam-na escondido após a tomada da cidade, e têm-na agora no Bengo, à espera de a embarcarem para Portugal ou para o Brasil. Imaginas quanto poderá valer?
Eu não imaginava, nunca fui de calcular fortunas. A julgar pelo brilho nos olhos dele devia valer muito. Não me admirei quando, dias depois, um grupo de capitães a cavalo, com outros oficiais e muita infantaria atrás, saltaram sobre os portugueses. Os infelizes não tiveram nem tempo de carregar os mosquetes. Às trombetas de guerra dos holandeses sucederam para eles, numa mesma sinfonia, as trombetas dos anjos — supondo que existam anjos no céu e trombetas afeitas aos seus duros lábios.
O governador fujão surgiu meio nu, em alta gritaria, de dentro de uma das casas, e se um dos capitães — que com ele andara trocando queijos por pratas — o não tivesse reconhecido também teria morrido ali, como muitos outros portugueses, com a garganta cortada. Assim, trouxeram-no para Luanda, juntamente com a muita prata roubada, exibindo-o pelas ruas da cidade numa jaula de caniço. A turba, que é cruel e estúpida, correu a vê-lo, troçando dele, atirando-lhe amendoins e bananas, como se fosse um macaco.
Fui visitá-lo, alguns dias mais tarde, para saber se o poderia ajudar. Estava ele prisioneiro num pequeno quarto do seu antigo palácio, tendo por única companhia um pajem chamado Manuel Faia. Recebeu-me choroso, muito revoltado com a traição dos flamengos, aos quais chamava cães, e jurando vingança. Sorri. Como poderia ele vingar-se, estando preso ali, isolado de todos, com a sua gente dispersa pelos matos, à mercê das feras e das febres, já para não falar nos jagas, nos soldados da Ginga e em tantos outros inimigos?
Estava eu sentado num banco baixo e o governador à minha frente, no estreito catre em que dormia. Debruçou-se para mim, de forma que nem o jovem Manuel o conseguisse ouvir.
— Padre — disse sem maldade, não sabendo o quanto me incomodava que ainda me tratassem assim. — Padre, vossa mercê viveu no quilombo da Ginga. Vossa mercê conhece com certeza o grande poder de alguns quimbandas.
Falou-me num, a quem chamavam Hongolo, que teria sido aprisionado aquando da tomada da ilha da Quindonga e vivia desde então num grande terreiro, perto da Lagoa dos Elefantes, a escassas milhas da cidade. Eu lembrava-me de Hongolo. Era um sacerdote do sacrifício, desses que se fazem passar por mulheres, amando outros homens como se fossem fêmeas, e que gozam de grandíssimo prestígio entre os ambundos. Fora meu amigo. Havíamos conversado certa noite sob a fúria das estrelas, enquanto a guerra se movia à nossa volta.
Hongolo dominava a ciência de encantar leões e outras feras, fazendo com que estas atacassem os homens. O governador pensara no velho feiticeiro mal vira as naus holandesas aproximando-se da ilha. Sabia, vendo-as avançar, que não possuía meios para lhes fazer frente. Reunido com os notáveis da cidade sugerira que contratassem os serviços do mago, ou de outros como ele. Abandonariam Luanda e, mal os flamengos ali se instalassem, os quimbandas trariam os leões para que devorassem os invasores. O plano não foi adiante porque o bispo se lhe opôs, aos gritos, insinuando que o Diabo se instalara na garganta do governador e falava através dele.
— Estou a contar tais sucessos a vossa mercê porque sei que também teve os seus problemas com a Santa Madre Igreja — disse isto ao meu ouvido e depois suspirou, ganhando coragem. — Talvez vossa mercê possa passar um destes dias lá pela Lagoa dos Elefantes. Se encontrar esse Hongolo diga-lhe que traga os leões até Luanda, que os traga bem esfomeados para que engulam todos os flamengos, diga-lhe que se ele fizer isso os portugueses o recompensarão. Poderá pedir o que quiser.
Ouvi-o, incrédulo. Não soube o que retorquir. Ao sair do quarto, à porta do qual se erguiam, atentos e de lança na mão, dois índios de Simão Janduí, tropecei com a vasta sombra de Henda. A pitonisa trazia comida e bebida para o governador. Assegurou-me, num quimbundo ríspido, que os mafulos seriam em breve expulsos de Luanda. Encolhi os ombros:
— É possível. A roda do mundo não para nunca.
2
Fui procurar Hongolo, não para lhe transmitir o recado do governador, e sim pela vontade e curiosidade que tinha em o rever. Encontrei-o a confecionar um mufete. Não mostrou surpresa com a minha chegada. Sentei-me numa esteira, enquanto o mago assava os cacussos. Repartimos entre os dois a pasta de mandioca a que os ambundos chamam funge. Os portugueses trouxeram a mandioca para África e ela é hoje o pão de quase todos os seus naturais. Contudo, não a preparam como os índios. Inventaram novos modos e com isso a fizeram coisa tão sua que é como se sempre ali tivesse existido.
Hongolo ficou feliz por me ouvir falar em quimbundo. Alegrava-o a minha visita.
— Os padres não gostam de mim, porque vieste?
— Já não sou padre. A Igreja expulsou-me...
— Não te martirizes com isso. Os brancos têm boas obras, mas a Igreja não é uma delas. Porque é que os padres insistem em nos importunar com o seu Deus e o seu Diabo
— Eles acham que têm o dever de salvar os africanos...
O sol brilhava sobre a prata lisa da lagoa. Ficámos um tempo em silêncio, partilhando a perfeição da tarde. Finalmente Hongolo falou:
— Conheces a história do macaco e do peixe?
Eu não conhecia. Então o quimbanda pôs-se a contar: andava um macaco passeando pela floresta. Movia-se aos saltos pelas árvores, quando topou com uma lagoa como esta e olhando-a, entre o encanto e o susto, porque todos os macacos receiam a água, viu um peixe movendo-se em meio ao lodo espesso, junto à margem. «Que horror!», pensou o macaco, «aquele pequeno animal sem braços nem pernas caiu à água e está a afogar-se.» O macaco, que era um bom macaco, ficou numa grande angústia. Queria saltar e salvar o animalzinho, mas o terror impedia-o. Por fim, encheu-se de coragem, mergulhou, agarrou o peixe e atirou-o para a margem. Conseguiu içar-se para terra firme e ficou ali, alegre, vendo o peixe aos saltos. «Fiz uma boa ação», pensou o macaco, «vejam como está feliz!»
Ri-me. Rimo-nos os dois.
— O que eu mais receio — continuou o quimbanda depois que parámos de rir — é que os próprios peixes comecem a acreditar nos macacos.
3
Certa tarde recebemos a notícia de que três navios vindos do Brasil haviam ancorado na baía do Quicombo, trezentas milhas a sul de Luanda, num local muito aprazível. As naus desembarcaram ali três centenas de homens, entre os quais muitos soldados pretos de Henrique Dias.
O pombeiro que nos trouxe a notícia jurou ter visto o próprio Henrique Dias pisar terra à frente dos seus soldados. Tal certeza deixou os flamengos muito inquietos. Contudo, foi desmentida, apenas quatro meses depois, por um segundo pombeiro. Ficámos então a saber que as tropas enviadas do Brasil haviam sofrido um terrível desaire. Foram todos mortos pelos jagas, com exceção de quatro deles, os quais a Ginga aprisionara e fizera seus vassalos.
Soubemos também que os portugueses haviam sofrido uma pesada derrota em Ambaca, numa batalha na qual participara a própria Ginga. Sobreviveram apenas três homens brancos, entre os quais um padre, e quatro soldados pardos. Todos os outros foram mortos em combate ou degolados a seguir no campo de batalha.
Foi mais ou menos por esta altura que o governador fugiu, após embebedar os índios que o vigiavam. Muitos estranharam a fuga. Murmurava-se que fora combinada e preparada com os flamengos, por interessar a estes ter em Massangano alguém com quem pudessem negociar. Nunca acreditei em tal aleivosia. Ainda recordo bem a conversa com Pedro César de Menezes, ou Camongoa, e me parece muito autêntico o ódio que este mostrava pelos invasores. O que fiz, portanto, foi chamar mais empacaceiros para protegerem a nossa casa, receoso de que uma vez em liberdade o governador conseguisse contratar os serviços de Hongolo, ou de outros magos como ele, e os leões assaltassem a cidade.
O pombeiro que trouxe a notícia das sucessivas derrotas dos portugueses entregou-me, em privado, uma carta de Ingo. O meu amigo pedia-me que fosse ter com ele, acompanhando o pombeiro no seu trajeto de regresso. Dizia-me que estavam pensando em assaltar Massangano, com ou sem o apoio dos flamengos, e que me queria ao lado dele para negociar a rendição dos portugueses e evitar assim um banho de sangue. A carta fora escrita por um padre que a Ginga raptara — ou resgatara, não compreendi bem — e que lhe servia agora de secretário: Calisto Zelote dos Reis Magos.
Pareceu-me um bom pretexto para abandonar Luanda. Precisava respirar sem culpa. Ali sufocava, sentindo-me traidor a Muxima por não a amar como ela me amava a mim e não ser já capaz de lhe retribuir os afagos e as gentilezas.
Muxima ficou triste. Consolei-a assegurando que depressa estaria de regresso e com boas notícias. A saída dos portugueses de Angola ajudaria a levar a paz a todos os sertões. Ela poderia então alargar os seus negócios, prosperando e assegurando um futuro melhor para o nosso filho. Também Cristóvão se mostrou desolado. Queria vir comigo. Não permiti, dizendo-lhe que o deixava em Luanda a guardar a mãe e a casa da família.
Rafael insistiu em acompanhar-me. Por um lado morria de tédio, na cidade, sem ter com quem pelejar. Por outro, entusiasmava-o a possibilidade do saque.
— Crês que têm por lá ouro e prata? — perguntou-me.
Pieter Mortamer, que estava muito interessado em conhecer a real situação dos portugueses em Massangano, apoiou a minha decisão. A Companhia das índias Ocidentais gostaria de expulsar os portugueses de Angola antes que os grandes jogos da política os forçassem a um acordo de paz efetivo. Ordenou a Simão Janduí que me acompanhasse, à frente de cinquenta dos seus índios. Levámos ainda muita escravaria para transportar a bagagem, incluindo diversas mulheres com quem, entretanto, os índios se haviam amancebado. À bagagem, como seja a comida, os instrumentos de cozinha, a pólvora e outro material de guerra, chamam os ambundos quicumba. A alimentação das tropas tem sido desde sempre um desafio difícil para os exércitos em movimento nos sertões de Angola. Algumas das derrotas dos portugueses deveram-se à perda das quicumbas — deixadas para trás, atacadas e pilhadas.
A estação das chuvas terminara havia pouco. A luz refulgia nas lâminas perfumadas do capim. As grandes árvores estalavam, carregadas de frutos e de pássaros. Os índios mostraram-se muito curiosos ao darem com um imbondeiro, cujo enorme tronco se destacava ao longe, como a alta e larga proa de uma nau erguendo-se num mar muito verde. Um dos escravos, a quem chamavam Colombolo (galo), por estar sempre arrastando a asa às escravas mais bonitas, escalou o imbondeiro com uma vasilha e trouxe-a carregada de água.
Estas árvores são muito utilizadas como cisternas, pois podem armazenar entre o oco dos seus colossais troncos muitos galões de líquido. Rafael seguiu o exemplo do escravo e desapareceu entre a folhagem, no interior da árvore. Segui-o eu também, embora com grande esforço, pois nunca tive talento para aquele exercício — nem, verdade seja dita, para qualquer outro exercício físico. A minha especialidade foram sempre os exercícios espirituais.
Rafael despira a roupa e mergulhara. Encontrei-o a flutuar de costas numa água cor de cobre, que um fio de luz atravessava. Havia mais paz ali dentro — mais paz e mais formosura — do que em qualquer catedral. Veio-me naquele instante uma grande clareza de espírito, e eu vi estenderem-se diante de mim todos os mortos futuros das guerras de Angola.
— Isto não está certo! — murmurei.
Rafael despertou do seu sonho. Ergueu os olhos:
— O que não está certo?
— Isto de os homens se andarem matando uns aos outros por um punhado de prata, ou para melhor poderem escravizar e vender outros homens. Toda a ganância desmedida, a infinda roda de violências e atrocidades. A felicidade é tão simples, não vês?! Um pouco de água, outro tanto de luz. Diz-me se há ouro que pague um milagre como este...
Rafael alçou-se para os ramos secos com um vigor de menino. Voltou a vestir-se.
— Padre, padre...
— Não sou padre!
— Serás sempre padre. Um bom padre, que os há tão poucos. A ganância é que move o mundo. Sem essa ganância que tanto te aflige, o homem não seria mais do que estes pobres pássaros. — Disse isto apontando para duas pombas verdes que ali se entretinham, num ramo próximo, bicando-se com carinho. — A ganância arrancou o homem da selva e há de levar-nos às estrelas.
— Quando estivermos nas estrelas teremos saudades da selva.
— Acredito que sim — resignou-se o antigo pirata. — Entretanto vou recolhendo a prata que puder.
Ao fim de três dias de marcha cruzámos o Dande, com grandes trabalhos, pois a corrente era forte e o rio mal dava pé. Eu fui numa rede, carregado por quatro escravos, que a todo o momento escorregavam, de tal forma que cheguei à margem tão molhado quanto eles. Os brancos de Angola, tal como os do Brasil, acreditam que os banhos nos rios ou no mar são causa de graves males. Não posso confirmar tal ideia pois muitas vezes mergulhei nesses rios e nunca adoeci por o ter feito. Muito se molham os negros e acho-os a todos menos atreitos a moléstias do que os brancos, os quais por qualquer pequena frivolidade — uma aragem, um golpe de sol — depressa adoecem e morrem. Deixei que me levassem na rede, como a um peixe, não por receio de que o contacto com a água me deixasse indisposto, apenas por medo de ser arrastado por ela. Nado mal e sempre tive fraca figura. Se a corrente me levasse acabaria ferido, ou mesmo morto, atirado de encontro a alguma rocha.
Uma vez do outro lado escalámos um outeiro, inteiramente coberto por um palhagal muito alto, até que, por fim, exaustos, avistámos o quilombo da Ginga. Logo vimos chegar um pombeiro em rápida corrida, a informar-se de quem éramos e quais as nossas intenções. Entardecia quando Ingo veio ao nosso encontro. Surpreendi-me ao reconhecer, poucos passos atrás dele, a bela barba negra, tão brilhante que parecia ter sido encerada, de Olivier van Aard.
— É um grande guerreiro — disse-me nessa noite Ingo, quando consegui tempo para me sentar e conversar com ele, e lhe perguntei como resolvera as coisas com o flamengo. — Olivier portou-se como um leão, lá, na guerra contra Quitexi Candambi, e depois em Ambaca. É por isso que agora lhe chamam N’Zagi, o Trovão.
— Sim — insisti. — Mas o que quero saber é como reagiu ele ao saber que lhe roubaste a mulher.
— Nós temos as nossas leis. Fiz o que as nossas leis mandam e Olivier aceitou.
Entre os jagas, cujas leis a Ginga adotara, a tradição estipula que quem roubar a mulher de outro o indemnize. Ingo entregou a Olivier um certo número de escravos e bois, além de quatro grandes dentes de elefante, e com isso tudo ficou em paz.
Anna tivera mais um filho, uma menina, e estava de novo prenhe, quase a parir. No quilombo da Ginga, que, como já expliquei, adotara os usos e costumes dos jagas, as mulheres não podiam ficar com os filhos recém-nascidos. Contudo, a rainha permitia a algumas fidalgas que o fizessem, e incluíra Anna entre elas. Achei-a alegre e despreocupada, ainda que o ventre, de tão dilatado, lhe tolhesse os movimentos.
Perguntei por Cipriano. Ingo disse-me que o português partira, meses antes, com a promessa de trazer muitas armas de fogo. Já devia ter regressado. Acrescentou uma série de más notícias: haviam ancorado mais três navios portugueses em Quicombo, trazendo muita tropa e um novo governador. Esses reforços tinham conseguido chegar a Massangano. Agora, num ato que tanto podia ser considerado de grande bravura ou de puro desespero, uma coluna militar deixara o forte e avançava contra nós.
— Estamos preparados para os enfrentar?
— Não sei. Queríamos atacá-los em Massangano, com o apoio dos mafulos. Estávamos a reunir tropas, a firmar alianças com outros sobas. Agora vêm eles ao nosso encontro. São atrevidos, estes portugueses. Não contávamos com isso.
— Não seria melhor recuar?
— A Ginga não quer fugir. Entende que se recuarmos mostraremos fraqueza. Fizemos muitos inimigos nos últimos anos. Se nos mostrarmos frouxos hoje tê-los-emos amanhã, a todos eles, em cima de nós. Conheces a história do leão diante do qual os bichos da selva se dobravam, enquanto era forte e saudável? Um dia envelheceu, ficou fraco, e então esses mesmos bichos que antes vinham prestar-lhe vassalagem, arrojando-se na poeira do chão, apareciam agora para lhe arrancar à dentada um pedaço de carne.
Eu sabia que Ingo estava ao lado da rainha, não apenas por acreditar que aquele era o tempo dos fortes, mas também porque não queria deixar Anna para trás. Fui falar com a Ginga. Achei-a trajada como um dos seus capitães, com todas as divisas e aparato e as cores que os jagas usam quando vão combater. Ao seu lado achava-se um padre negro, um homem minúsculo, mas muito empertigado, que ela me apresentou como sendo o seu novo secretário, Calisto Zelote dos Reis Magos.
A Ginga quis saber a minha opinião. Disse-lhe que abominava toda a guerra, por me parecer um insulto à inteligência, e que, portanto, não lhe podia dar conselho algum. Apenas gostaria de saber o que tencionava ela fazer, caso vencesse os portugueses. Sossegaria, ou procuraria alargar ainda mais o seu já vasto reino?
Foi então que a Ginga pronunciou a frase, hoje famosa: «Quanto maior um rei, menor lhe parece o mundo.»
4
OS PORTUGUESES CHEGARAM AO CREPÚSCULO, três dias mais tarde. Vi com os meus óculos o capim alto ondulando como se uma grande cobra o atravessasse e depois, erguendo-se acima do capim, as bandeiras azuis, as bandeiras vermelhas, as bandeiras douradas, nas quais se demorava a última luz do dia. Acenderam-se fogueiras. O ressoar dos atabaques não deixou ninguém dormir. Aos ngomas dos nossos jagas respondiam, em cólera e em festa, pois creio que para eles nem há distinção entre uma coisa e outra, os ngomas dos jagas que se haviam aliado aos portugueses. Ingo ordenou-me que ficasse junto a Anna e às restantes mulheres, no alto de um outeiro, protegidos atrás de umas grandes pedras negras.
Amanheceu.
A rainha aguardava o assalto dos portugueses, a uns quinhentos metros de onde eu me escondia. Estava sentada à sombra de um vasto chapéu de sol — de um vermelho vivo — e trazia sobre os ombros a capa púrpura que os flamengos lhe haviam oferecido. Ali, naquele breve instante, enquanto o sol recuperava o fôlego, parecia imune a tudo, inclusive ao próprio tempo. Ingo estava em pé ao lado esquerdo dela. Ao lado direito erguia-se a bela figura de Ginga Amona, um homem ainda jovem, mas já de lendária bravura, responsável pelas principais vitórias da Ginga. Olivier e os seus flamengos, cerca de setenta, pois todos os outros haviam morrido entretanto, ou de feridas ou de febres, postavam-se um pouco atrás, em leque, com as espingardas prontas a disparar. Também Simão Janduí e os seus índios exibiam armas de fogo. Como creio já ter dito antes, mostravam tanta destreza a manejá-las quanto aos arcos e flechas, ou ainda aos poderosos porretes com que a todos aterrorizavam. Começavam por disparar os mosquetes. Passavam depois a lançar flechas. Por fim, puxavam dos porretes e lançavam-se em grande alarido num violento combate corpo a corpo.
Os portugueses espraiavam-se por um morro fronteiro ao nosso. O capim alto e o mato espesso não permitiam abarcar todas as companhias e batalhões do inimigo, com as tropas brancas, os empacaceiros, a guerra preta, os jagas do feroz Fungi Amusungo e ainda os muitos guerreiros do soba Dom Filipe, ao qual os portugueses haviam nomeado rei do Dongo.
Ginga Amona avançou à frente dos seus homens. Um jovem tambor marchava ao seu lado, erguendo bem alto, com assombrosa coragem, a bandeira do capitão-geral.
Vendo-o avançar assim, como se as balas e as setas não fossem senão abelhas zumbindo, ou rolas cegas voando sem acerto, todo o exército dos portugueses vacilou, arrastando consigo, como uma maré que recua, os escravos que transportavam a quicumba.
Vi Dom Filipe, sentado numa cadeira de espaldar alto, soprar uma comprida trombeta de corno com a qual comandava os seus guerreiros. Estes cruzaram o capinzal, rodeando o outeiro em que nos encontrávamos e, irrompendo atrás dos flamengos, lançaram sobre eles, com mortal mestria, uma cerrada chuva de flechas e azagaias.
Olivier, percebendo o perigo, tentou reposicionar os seus soldados, mas já muitos deles caíam, com os corpos crivados de setas. Àquela distância as espingardas revelavam-se mais um estorvo do que uma vantagem. Enquanto as limpavam e carregavam, já os arqueiros inimigos haviam lançado pelo menos cinco setas e outras tantas lanças.
Olivier deitou fora a espingarda e carregou, encosta abaixo, de espada na mão.
Uma bala derrubou o tambor que, ao lado de Ginga Amona, erguia a bandeira. Ferido no peito com o mesmo tiro que matara o rapaz, o capitão deteve-se, o rosto torcido de espanto e de mágoa. Logo se atirou de novo para diante, gritando, esforçando-se por devolver o ânimo aos seus guerreiros. Aquela única bala, porém, parecia ter invertido o curso dos combates. O nosso exército, que até esse instante se mostrara tão sólido, desfez-se num ápice, como uma nuvem de tempestade desmanchada por um súbito golpe de vento.
Uma seta atravessou o ombro esquerdo de Olivier. Ingo correu a ajudá-lo. Travou um dos guerreiros de Dom Filipe, cortando-lhe de um só golpe a mão que erguia o machado. Com nova espadeirada prostrou um segundo atacante. Estes, porém, chegavam aos magotes. Os dois homens combatiam apoiados nas costas um do outro, um protegendo o outro, de espada na mão. É a última imagem que guardo deles.
Os nossos fugiam, atropelando-se, tentando escapar pelas pontes que os portugueses haviam lançado sobre o rio. Uma das pontes cedeu ao peso de tanta gente. A água arrastou os corpos.
Ainda consegui ver a rainha, sendo levada na sua liteira dourada, em grande velocidade, quase como se voasse, pelos melhores corredores. Os portugueses avançaram sobre o outeiro. Adiante seguiam os jagas, capitaneados por Fungi Amusungo, degolando os feridos, entoando em uníssono os seus terríveis cantos de guerra. Atrás de mim, no oco formado pelas pedras, crescia o triste choro das mulheres e das crianças.
Nada me envergonha tanto quanto aquela segunda fuga. Bem sei, ter-me-iam cortado o pescoço. A minha morte não salvaria ninguém. Não melhoraria a existência de ninguém. Não obstante, de cada vez que me lembro da tarde em que fugi, puxado por Rafael, volto a sentir no rosto o feroz calor da vergonha.
Os portugueses pouparam a vida de Anna. Estranharam muito encontrar naquele fim de mundo uma flamenga prenha, que logo pariu, tendo dado à luz uma menina. Levados mais pela curiosidade do que pela bondade ou cortesia, arrastaram-na até Massangano e ali a exibiram ao novo governador e a todo o povo. «Vejam», diziam, «os nossos amigos da Companhia das índias Ocidentais queriam tanto agradar à Ginga que até fidalgas flamengas lhe mandavam, para animar a sua corte e ostentar diante dos restantes sobas grandeza e força.»
Anna aceitou receber o batismo cristão, aceitou batizar os filhos, e com isso a deixaram em paz. Veio a casar com um rico morador de Massangano, um homem honesto, já de avançada idade, que sempre a tratou bem. Sei disto tudo porque, há alguns anos, recebi na minha casa a visita de Francisco, o filho varão de Ingo e Anna. Era um homem alto e espadaúdo, como o pai, e com aquele mesmo encanto natural que o meu amigo possuía. Disse-me que a mãe lhe falara muito em mim. Ele vivia em Luanda. As irmãs continuavam em Massangano, casadas, e com filhos e netos.
Francisco fora a Portugal em negócios. Ocupava-se não só com a compra e venda de escravos, como quase todos os ricos senhores de Luanda, mas também no comércio de cera e marfim. Uma vez em Lisboa decidira que era a altura certa para conhecer o país da senhora sua mãe, falecida vinte anos antes, e embarcara para Amesterdão. Não lhe foi difícil dar comigo. Sou uma figura bastante conhecida na cidade.
Penso muito no ingrato dia em que Ingo morreu.
Lembro-me de ver o soba Caculo Ca Caenda, um dos principais aliados da rainha, homem largo como um boi, incapaz de suportar o próprio peso, sentado na sua cadeira, enquanto um qualquer alarve português, troçando dele, lhe arrancava da cabeça aquela curiosa espécie de chapéu de palha, ou barrete, que é apanágio dos fidalgos mais poderosos e respeitados entre os ambundos. Lembro-me de ver vários soldados brancos carregando nos braços as ricas sedas e fazendas que andavam saqueando da banza da rainha. Vi depois, junto ao rio, os numerosos corpos sem cabeça dos guerreiros de Ginga Amona. Vi um dos índios de Simão Janduí com o tronco todo espetado de flechas, de tal forma que se assemelhava ao próprio São Sebastião em pleno martírio. Como o santo, também aquele índio não parecia disposto a morrer das flechadas e continuava a combater, de porrete na mão, o rosto erguido contra o sol, desferindo grandes golpes a quem dele se aproximasse.
A nós — a mim e a Rafael —, valeu-nos a ajuda de um antigo escravo, aquele mesmo Messias, torto de um olho, enamorado de uma certa Maria Parda, de que vos falei atrás. Foi este homem, já de muita idade, mas ainda ágil, quem nos conduziu através do mato, por caminhos que nem os bichos talvez conhecessem, com tal arte e tal manha que conseguimos iludir todos os nossos perseguidores. Na manhã do terceiro dia após a batalha despertámos estendidos numa macia cama de musgo. Passeei os olhos em redor. Para além do pequeno bosque onde nos abrigáramos estendia-se uma imensa planície. Era possível adivinhar a presença de água pela coloração do capim, ainda verde nos vales ou nas margens dos ribeiros, mas já dourado no cimo dos morros.
Tive a certeza nesse momento de que os portugueses voltariam a Luanda. Dois dias mais tarde, de regresso a casa, disse a Muxima que deveríamos preparar-nos para a derrota dos flamengos.
— O que queres que façamos? — perguntou-me.
Disse-lhe que não nos restava senão fugir. Gostaria de regressar a Olinda, gostaria que ela e Cristóvão viessem comigo, mas também não acreditava que os flamengos se mantivessem por muito mais tempo em Pernambuco.
— Temos de ir para um lugar a salvo dos portugueses. — insisti. — Talvez Amesterdão, talvez Nova Amesterdão, na América do Norte.
— Não! Podes pedir-me tudo, mas não isso. Não sairei de Luanda.
— Senhora, se me encontram aqui matam-me...
— Conheço esta cidade, marido. Aqui se esquecem facilmente os crimes de todos aqueles quem têm dinheiro para comprar o esquecimento. Mais facilmente esquecerão quem, como tu, nunca maltratou ninguém.
— E a Igreja?
— Igreja?! Nesta cidade eu posso mais que o bispo!
Percebi que não conseguiria demovê-la. Pedi uma audiência a Pieter Mortamer, para lhe dar testemunho do que se passara e obter novidades, mas nunca me respondeu. Entretanto continuavam a chegar a Luanda sobreviventes da batalha. Um dos índios de Simão Janduí, chamado Eze-quiel, contou-me que o seu capitão sobrevivera, embora muito ferido, e fora levado para Massangano. Também Mocambo voltara a ser presa. Ezequiel jurou tê-la visto caminhando através de uma fila de soldados brancos, tão altiva e com tanta graça e autoridade que muitos dos brutos se iam ajoelhando à passagem dela.
Semanas depois recebemos a triste notícia da morte de Quifungi. Os portugueses intercetaram uma carta da princesa para a irmã, na qual Quifungi, como fizera tantas vezes, dava conta do estado de ânimo dos seus captores e dos planos bélicos que maquinavam. O governador, irritado, mandou colocá-la num batel, nua e amarrada pelos pés a uma pesada âncora. Lançaram o batel para o meio da corrente e afundaram-no a tiros de canhão. Este bruto espetáculo foi testemunhado por toda a população da cidade, além de muito gentio das redondezas.
Simão Janduí sofreu morte ainda mais terrível. Primeiro jogaram-no a um poço, preso por cadeias de ferro nos pés e nas mãos, e ali o deixaram durante dias, esperando que a fome o levasse a renegar a sua fé. Quando o tiraram de lá vinha muito magro, amarelo, com os pulsos e os calcanhares em carne viva. Perguntou-lhe um padre se após tantos dias de jejum e reflexão se achava preparado para abjurar de todas as heresias e abraçar a verdadeira Igreja de Jesus Cristo. O índio rodou o lume dos olhos pela multidão que ocorrera para o ver denunciar a Igreja Reformada Holandesa. Que não! — gritou de cabeça bem erguida. Um pobre homem tão indigno quanto ele, que tivera a alta mercê de conhecer a Deus, o único, o que se não ocultava atrás de ídolos, não poderia nunca renegá-Lo.
O governador ordenou que o prendessem muito bem preso à boca de um canhão. Não me surpreendeu saber que um dos moradores se oferecera para disparar a peça e que esse homem atroz dava pelo nome de Silvestre Bettencourt.
5
Uma tarde em que lia para Cristóvão alguns desconjuntados versos que eu próprio compusera, interrompeu-nos, muito inquieto, um daqueles empacaceiros que colocáramos de guarda à casa. Um velho — disse-me ele — insistia em ver-me. Não lhe parecia, porém, que eu tivesse algo em comum com tal personagem. Desci. Encontrei Hongolo, o mago, sentado à soleira da porta, cercado pelo grave silêncio dos restantes guardas e, contudo, alheado deles, afagando as longas e desarrumadas tranças. Ergueu-se, ao ver-me. Bateu levemente as palmas junto ao peito, em jeito de saudação:
— Os portugueses estão a chegar — disse-me. — Eu vi-os.
Não os vira na vera consistência das coisas, pois ainda seguiam nas suas naus, cavalgando as ondas. Vira-os em sonhos, naquela espécie de sonhos, quase reais, a que os quimbandas chamam xinguilamentos, e nos quais podem voar junto às grandes aves nos céus mais altos, ou correr com os leões através dos desmedidos sertões. Vira-os — aos portugueses — investir contra Luanda e tomar a cidade.
— O que vai ser de mim? — perguntei-lhe. — O que será de mim e do meu filho?
— Não sei — confessou Hongolo. — Isso terás de descobrir sozinho.
Dois ou três meses depois Rafael despertou-me, agitadíssimo, trazendo-me a notícia de que uma esquadra portuguesa assomara do lado de lá da ilha. Subi com ele o Morro de São Paulo, até à fortaleza, furando por entre uma ruidosa desorientação de tropas e curiosos. Vimos, pairando na fina névoa da manhã, onze sólidos galeões, dois deles trazendo pintadas em todas as velas uma larga Cruz de Cristo.
Já passava do meio-dia quando o maior dos galeões lançou um batel ao mar. O batel foi-se aproximando serenamente da Praia do Bispo. Dois soldados seguiam à popa, erguendo bem alto uma larga bandeira branca. Um oficial flamengo, vendo-nos entre a turba, correu a chamar-nos. Conduziu-nos depois ao interior da fortaleza. Cornélio Ouman palestrava com alguns oficiais. Pareceu-me muito nervoso. Os seus principais capitães estavam ausentes nos sertões, ao lado dos jagas da rainha Ginga, preparando uma ofensiva contra Massangano. Faltavam armas para proteger Luanda. Ao dar por nós calou-se, como que envergonhado.
Pediu que aguardássemos ali até chegarem os mensageiros que vinham no batel, pois precisava de um bom intérprete. Logo entraram os portugueses, em número de seis, os quais haviam subido da praia protegidos por uma escolta de cavaleiros flamengos. O que parecia ser o capitão avançou decidido na direção de Cornélio. Era um homem magro e baixo, porém de ombros direitos, muito senhor de si. Disse chamar-se Leão da Ponte. Falava em nome do almirante Salvador Correia de Sá e Benevides. Estavam ali para recuperar o que os flamengos haviam roubado a Portugal. Ao escutarem o nome do almirante, e antes mesmo que eu tivesse traduzido fosse o que fosse, os oficiais flamengos trocaram entre si rápidos comentários cheios de terror.
Salvador Correia de Sá e Benevides era o homem mais rico do Rio de Janeiro, cidade de que fora governador por duas vezes. Além dos muitos negócios que geria, das imensas propriedades no Brasil, em Espanha e no Peru, gozava da fama de militar corajoso e estratego competente. Estava habituado à brutalidade das guerras, pois desde os dez anos que começara a combater, primeiro contra os índios e depois contra os flamengos.
Cornélio Ouman pediu trinta dias para refletir e responder. O que ele queria, como logo compreendi, era ter tempo para chamar a Luanda os seus soldados, principais capitães, e os belicosos jagas da rainha Ginga. O português, que deve ter compreendido o mesmo, abanou a cabeça, negando. Sorriu mordaz:
— Tem três dias!
Dobrou-se numa rápida vénia, voltou costas e foi-se embora. O pequeno grupo desceu para a praia, protegido pelos mesmos cavaleiros que os haviam trazido, enquanto a multidão se apertava em redor deles. Uns insultavam-nos. Outros davam vivas a Portugal.
Os oficiais flamengos não conseguiam disfarçar o pânico. Conheciam bem a reputação do almirante, a sua lendária riqueza, o espírito feroz e tenaz com que se entregava a todas as batalhas. Se o próprio Salvador Correia de Sá e Benevides decidira chamar sobre si a responsabilidade de tão arriscada missão é porque trazia consigo um vastíssimo poder.
Nos dias seguintes fechei-me em casa a ler e a conversar com Muxima e Cristóvão. Sentia-me muito calmo. Abracei e consolei a minha mulher. Houve momentos em que a voltei a ver como ela fora (como, talvez, ela nunca tivesse deixado de ser) e a beijei de novo como então a beijava.
Mantive esse estranho sossego enquanto a artilharia ladrava lá fora. Volta e meia Rafael entrava, cada vez mais agitado, trazendo novas dos combates. Os portugueses estavam desembarcando a meia légua da cidade, muito perto da casa dele. Os portugueses haviam capturado o Fortim de Santo António e disparavam dele contra a fortaleza. Veio a noite e os canhões repousaram. Sentei-me na grande mesa da cozinha a conversar com Rafael e Cristóvão. Perguntei ao antigo pirata o que tencionava fazer.
— Vou ficar — disse-me. — Talvez aqui não se lembrem de que sou judeu.
— Talvez. Eles precisam de ti. Um cirurgião-barbeiro faz sempre falta num lugar como este.
— E tu, O que vais fazer?
Mostrei-lhe o pedaço de pão com queijo que estava comendo:
— Desejo apenas terminar de comer este pedaço pão. É um bom pão. Sabe-me bem.
Cristóvão ergueu-se da mesa e abraçou-me. Crescera muito nos últimos meses. Fizera-se um esplêndido homem, três palmos mais alto do que eu e rijo e pujante como um touro;
— Eu e o senhor meu pai vamos para Amesterdão — disse, muito sério. — Vamos abrir uma tenda de livros em Amesterdão. Vamos imprimir livros belíssimos, vamos vender livros e enriquecer.
Olhei-o, espantado e comovido. Cristóvão oferecia-me um futuro, um harmonioso destino, a mim, que não mostrava outra ambição senão a de estar ali comendo, bebendo e conversando — como se me despedisse da vida. Tantas vezes são, afinal, os filhos quem cria os pais.
Ao amanhecer voltámos a escutar a artilharia, os gritos, os tambores e as buzinas — a que se seguiu um vertiginoso silêncio. Rafael saiu em busca de notícias. Voltou, ao meio-dia, dizendo que os flamengos se haviam rendido. Ele próprio servira de intérprete. Os portugueses comprometiam-se a deixar partir livremente, com todos os seus bens, os que desejassem fazê-lo e a não molestar quem, pelo contrário, preferisse ficar. Se eu queria ir-me embora deveria preparar a minha bagagem. Teria de embarcar nessa mesma tarde.
Fui falar com Muxima. Encontrei-a no nosso quarto, abraçada a Cristóvão.
— Levas-me o nosso filho — disse-me. — Levas-me a vida.
Nessa tarde juntámo-nos, eu e Cristóvão, à longa fila de soldados e moradores, quase todos flamengos, que abandonavam Luanda. Levámos seis escravos, além dos quatro dentes de elefante que a Ginga me oferecera aquando do resgate de Mocambo. Descemos até àquela mesma praia por onde havíamos entrado, sete anos antes, na esperança de ocupar todo o país. Ao chegar à areia, os flamengos depositaram as armas. Só então me dei conta de que havia muitíssimo mais soldados entregando as armas (mil e duzentos) do que a recebê-las. Os portugueses não seriam nem quinhentos, a maioria feridos, exaustos e esfomeados. Soube depois, no galeão que nos transportou à Holanda, que Salvador Correia de Sá e Benevides perdeu no assalto à fortaleza 163 soldados. Os flamengos perderam apenas três.
O bravo almirante não tomou Luanda graças ao seu talento enquanto estratego. Tomou-a por acreditar que o faria e porque o muito esplendor de que gozava ofuscou o inimigo.