A Rainha Ginga

José Eduardo Agualusa · Capítulo 5 de 12

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A Rainha Ginga

Capítulo Quarto

 

 

Mais uma METAMORFOSE: O narrador desta história, Francisco José da Santa Cruz, transforma-se em Melchior, o Cigano, juntando-se a uma arriscadíssima e imprevista aventura.

 

1

 

NAQUELA ÉPOCA LUANDA estava cheia de ciganos, ou egípcios, como lhes chamam os ingleses. É uma gente alegre, trocista, sem raízes em parte alguma. A paixão deles pela errância assusta a sociedade, do mesmo modo que a todos assusta a deriva dos jagas. Diz-se que foram condenados a viver assim, sem um chão ao qual possam chamar seu, por terem recusado agasalho a José, a Maria e ao Divino Infante quando estes peregrinavam pelo Egito.

A Igreja sempre os condenou, acusando-os de mandriões, embusteiros, supersticiosos, dados à cartomancia e à magia. Também são acusados de terem parte com o Diabo e de se banquetearem com carne humana. Nalguns países da Europa Central, os poderosos fizeram deles escravos e tratam-nos como no Brasil tratamos nós os negros. Noutros caçam-nos como animais, cortam-lhes as orelhas, usam das fêmeas a seu bel-prazer.

Os ciganos portugueses e espanhóis têm sido degredados aos magotes para as Áfricas e as Américas. No Brasil alguns vêm acumulando certa fortuna, alcançando notoriedade e até mesmo o respeito geral através do comércio de escravos. Os que estão em Angola só pensam em cruzar o Atlântico e enriquecer.

Cipriano fizera amizade com uma família destes ciganos, os quais, a partir de Luanda, se aventuravam nas suas carroças até às cercanias do Reino do Congo, para norte, e da Quissama, para sul. O chefe da família dava pelo nome de Lobo, alcunha que lhe assentava bem em razão da melena áspera, das patilhas espessas e dos olhos atentos e ferozes, que pareciam brilhar na escuridão. A minha pátria é onde estão os meus pés, disse-me um dia, um dos primeiros dias que passei com eles, quando lhe perguntei se se sentia mais português ou espanhol, e também por isso — no espírito com que se movia — o achei semelhante a um lobo. Creio, porém, que ganhara tal alcunha por andar sempre acompanhado de uma bengala com um castão em prata, esculpido na forma de uma cabeça de lobo, em que os olhos eram dois belos rubis — como se o animal deitasse por eles chispas de lume.

A ideia de Cipriano era simples. Entraríamos em Luanda mascarados de ciganos. Teríamos depois de conseguir chegar à fala com Muxima, o que não deveria ser difícil, e antes que alguém desse pelo logro raptaríamos a jovem e fugiríamos com ela, de regresso ao quilombo. O Mouro tinha os seus próprios motivos para visitar a cidade, mas isso eu só vim a descobrir mais tarde — demasiado tarde.

Comuniquei à Ginga que pretendia acompanhar Cipriano numa viagem rápida ao Reino do Congo. A rainha não se opôs. Andava muito ocupada guerreando o soba Ngola Hari e outros potentados que se haviam entretanto aliado aos portugueses, ao mesmo tempo que fortalecia o quilombo, transformando-o na cabeça do reino. A nós não convinha publicitar empresa tão arriscada e tão falha de um propósito racional. Partimos em segredo, protegidos por uma dúzia de escravos e homens de confiança do Mouro. Ao fim de um mês de marcha, através de caminhos muito ruins, alcançámos a chamada Praia do Bispo, onde nos aguardava o cigano Lobo e a sua família.

Era de noite. A Lua flutuava sobre o mar. Os ciganos haviam acendido uma larga fogueira na areia da praia e dançavam junto às chamas, acompanhados pela impetuosa melodia de duas rabecas. Pararam a música assim que nos viram chegar. Os homens vieram ao nosso encontro, segurando mosquetes, enquanto as mulheres corriam a refugiar-se na maior das cinco carroças. Cipriano saltou da rede onde seguia — rindo às gargalhadas com o susto dos ciganos. Estes, reconhecendo-o, abriram os braços, soltando exclamações de alegria numa língua que me pareceu uma fresca paródia do espanhol. Pouco depois já ceávamos com eles umas perdizes assadas, as quais, com a fome que levava, me souberam como um mimo dos céus.

Lobo não estranhou o nosso pedido. Não fez perguntas. Deu instruções às mulheres, naquela geringonça festiva com que falam uns com os outros, para que escolhessem roupas que nos servissem. Não pude deixar de reparar numa das filhas. Trazia o cabelo apartado em duas fortes tranças negras, meio encoberto, com muita graça, por um lenço florido, colares de rubro coral ao pescoço e uma porção de outros prendendo à cintura um pano no mesmo tom. Sentou-se diante de mim, agitando o ar morno da noite com um grande leque. Olhava-me sem medo, sem pudor, como se eu não fosse um homem mas um espetáculo.

— A Sula gostaria de lhe ler a mão — disse Lobo.

Hesitei, um instante, e era ainda o padre que persistia em mim — o devoto! — quem assim hesitava. Hoje posso rir desse tempo. Posso rir do terror que me incutiram no Colégio Real de Olinda, sobre o poder do Diabo, os seus mil rostos, armadilhas e tentações. O Demónio, diziam-nos os padres, opera através das quiromantes. Sopra-lhes aos ouvidos as respostas que entende mais acertadas para melhor roubar as almas de quem a elas se sujeita. Estendi a mão esquerda, um pouco trémula, e Sula prendeu-a com firmeza entre as suas. Percorreu com o indicador direito o tumulto das dobras. Observou, muito séria, a linha da vida:

— Veja, está quebrada, vossa senhoria sofrerá uma maleita grave, ou então um acidente, um acidente terrível, que o deixará à beira da morte. Pode significar também uma grande mudança de vida. A linha da cabeça é bem vincada, mostra um homem determinado. Depois cai na direção do pulso. Um homem determinado, porém sonhador. Curiosa combinação. A linha do coração, ah a linha do coração, segura, comprida, veja como culmina junto ao indicador, sinal de paixões fortes. Vossa senhoria terá uma vida longa, muito, mesmo muito longa, guiada pelo amor de uma mulher.

Retirei a mão, assustado. Lobo riu-se. Disse-me que não tomasse a filha a sério. Ele próprio não permitia que ninguém lhe lesse o destino:

— Prefiro a cegueira dos rios — disse. — As águas que fluem sem saber em que praia irão desaguar.

Vestimos a roupa que as mulheres nos trouxeram. Elas mesmas nos entrançaram o cabelo e nos colocaram os lenços, as pulseiras de prata, os muitos adereços com que os ciganos gostam de se enfeitar. Quando terminaram, levaram-me até um enorme espelho veneziano, que veneravam como a uma joia, e era de facto uma joia, pelo valor e pela moldura de prata, toda trabalhada. A imagem no espelho mostrou-me um cigano jovem, bem-apessoado, que o meu próprio pai não teria reconhecido. As mulheres riam-se, divertidas com a transformação. Sula era a mais animada de todas.

Cipriano estava até mais convincente disfarçado de cigano do que com as habituais vestes de mouro. Diz o povo que o hábito não faz o monge. É falso. O monge resulta do hábito e do efeito que este provoca nos outros. Um monge é aquele a quem os outros tratam como tal. Continuei a ser padre, mesmo depois de ter perdido a fé, enquanto as pessoas acreditavam nisso — e porque as pessoas acreditavam nisso. Vestido de cigano, já os ciganos me tratavam como a um deles.

— Como o vamos chamar? — perguntou Sula. E logo ela própria me batizou: — Melchior, tem cara de Melchior. Vamos chamar-lhe Melchior Boa-Noite, porque tem cara de Melchior e a noite está bonita.

Bastaram-me três dias na pele de Melchior Boa-Noite para que começasse a sonhar com viagens. Após uma semana entre os ciganos, na véspera de entrarmos em Luanda, já eu falava um pouco de calon, que é o nome que eles mesmos dão ao idioma, ou geringonça, de que usam. Já dizia, referindo-me aos não ciganos — os gachós.

Entrei em Luanda conduzindo uma das carroças. Passei diante do convento dos irmãos franciscanos, onde ficara alojado aquando da minha primeira visita. Um dos frades, um ancião simpático, chamado Ambrósio, tomava sol na sacada. Acenei-lhe com a mão direita. Olhou-me, surpreso pelo gesto, mas sem dar mostras de me reconhecer. Fez o sinal da cruz e reentrou no convento. Nessa noite acampámos num largo areal, ou musseque, como se diz em Angola, atrás da fortaleza. Alguns homens aproximaram-se, a coberto das sombras da noite, para que as ciganas lhes lessem a sina. Observei-os, sentado na penumbra, com as costas apoiadas a uma das carroças. Uns eram soldados, outros, com certeza, pequenos comerciantes, a maioria gente sem eira nem beira. Vinham à procura de conselho, ou de consolo, ou de ambas as coisas. Entregavam-se às mãos das ciganas, ou melhor, entregavam as suas mãos às ciganas, com uma fé absoluta. Nunca eu vira um cristão exibir tanta devoção na santa missa, nem sequer ao tomar a sagrada hóstia, quanto a que mostravam aqueles labregos no logro das ciganas. Cipriano, sentado ao meu lado, leu-me o pensamento. O erro da Igreja foi ter inventado o Demónio, disse, e assim que o disse me lembrei do meu amigo Domingos Vaz — o que seria dele? — o qual acreditava em impiedades semelhantes. Cipriano sorriu quando lhe contei isto. Comentou que Domingos tendia a repetir o que ele lhe dizia, mesmo compreendendo muito pouco do que ele lhe dizia. Domingos, concluiu, era o seu profeta.

Na opinião de Cipriano, a Igreja só conseguirá triunfar quando, ao invés de aterrorizar os homens com a feiura de Satanás, for capaz de os atrair com o fulgor dos anjos. Fui padre, respondi-lhe, e nunca vi nem anjos nem demónios. Cipriano fixou em mim os pequenos olhos trocistas. Contou que o pai trabalhara em jovem na construção do Mosteiro de Santa Maria de Belém:

— O meu pai esculpia demónios — explicou. — O Mosteiro de Santa Maria de Belém, como tantos outros lugares de culto e devoção, está cravado de demónios.

Ficou em silêncio um longo momento, não sei se a pensar no pai se a pensar nos demónios.

— Passarás a vida inteira a fugir desse Deus — vaticinou por fim.

Encolhi os ombros. Deus não me assustava. O Diabo não me assustava. Só temia os homens.

Cipriano riu-se. Disse-me que às primeiras luzes enviaria um dos seus escravos a casa de Dona Marcelina. O homem iria disfarçado de vendedor de hidromel. Mal conseguisse chegar à fala com Muxima dar-lhe-ia as indicações necessárias para que fosse ter connosco ao acampamento. Teríamos de ser rápidos e discretos, abandonando a cidade nessa mesma noite.

Prendi a minha rede às traves de duas das carroças, estendi-me nela, na diagonal, mas não consegui adormecer. Uma fogueira ardia no centro do acampamento. Fagulhas soltavam-se e ascendiam, bailando na escuridão, somando-se às altas estrelas. A fogueira apagou-se. A noite engoliu toda a luz. Sempre de olhos abertos, mas tão cego como se os tivesse cerrados, escutei à minha direita um leve roçar de panos. Uma mão pousou no meu peito nu. Uma voz feminina soprou ao meu ouvido:

— Essa mulher que queres resgatar, melhor farias se a esquecesses.

Uns lábios macios deslizaram pelo meu pescoço, pelos meus ombros, pelo meu peito assustado.

Vi a manhã acender a terra. Ou talvez fosse a terra, de tão vermelha, que estivesse acendendo a manhã. Lembro-me que saltei da rede e recolhi alguma dessa areia. Guardei-a num frasco. Tenho-a comigo enquanto escrevo. Mergulho os dedos nela como num lume vago. Cheiro-a. A presença desta areia ajuda-me a escrever.

Procurei por Sula, mas não a achei. Tão-pouco achei Lobo ou Cipriano. Ninguém me soube dizer onde estavam. Passei a manhã inteira esforçando-me por controlar a angústia. Já O Sol ia alto quando Cipriano entrou no acampamento. Avançou para mim em largas passadas. Pôs-me a mão no ombro, como se me amparasse; — Muxima não quer voltar — disse-me. Olhei-o sem entender. — Ela não quer voltar — repetiu o velho. — Sente-se feliz em Luanda. Dona Marcelina fez dela dama de companhia. Ensinou-lhe a falar português e está agora a ensiná-la a ler. Tenta compreender, amigo, a moça tem mais vida aqui, mais vida e mais mundo, do que teria no mato.

Chamou o escravo que enviara a casa de Dona Marcelina. Era um jovem de semblante severo, a quem chamavam Macota, não porque gozasse de tal dignidade, que nem anos de vida tinha para isso, mas sim por causa do seu muito discernimento e dignidade. Macota confirmou o que Cipriano já me dissera. Não vira Muxima. Encontrara, contudo uma moça, sua parente, que lhe levara o recado e regressara instantes depois com a resposta.

— Quero falar com ela — murmurei.

— Parece-me justo — concedeu o português. — Não me parece é muito fácil.

Sugeriu duas ou três estratégias. Por fim, optámos pela mais simples. Ao final da tarde juntei-me a dois homens e cinco mulheres numa das carroças, e fomos descendo a Calçada dos Enforcados até alcançarmos um sólido e belo palacete, entre palmeiras, a pouca distância da praia. Cruzámos depois um portão largo, redondo, que dava acesso a um pátio interior. No centro do pátio erguia-se um pequeno pelourinho. Saltámos da carroça carregados de sedas, linhos, feltros, musselines, os luxuosos cetins que tanto sucesso faziam, e ainda fazem, nas mais ricas nações europeias, e em poucos minutos nos achámos cercados por dezenas de matronas, mucamas e escravas. O jovem Macota, que vinha comigo, não tardou a topar com a prima, correndo esta a alertar Muxima. Minutos depois vi que uma velha me chamava com a mão, num gesto discreto. Afastei-me da turba e segui-a. Conduziu-me através de uma série de corredores até um pequeno quarto — e então vi-a. Muxima estava sentada junto a uma janela, segurando com ambas as mãos o ventre dilatado. Aproximei-me em silêncio e caí de joelhos aos pés dela.

— Sempre vieste — disse-me em português, acariciando-me o cabelo. — Tenho dito ao teu filho que virias.

Fiquei ali, naquela posição, um longo momento, incapaz de erguer os olhos.

— Vem comigo — pedi-lhe.

Ela não respondeu. Chorava.

— Vossa senhoria tem de ir — disse a velha que me trouxera. Ergui-me a custo e segui-a.

No acampamento ia um pé de vento. Erguiam-se as tendas. Arrumavam-se os utensílios de cozinha. Lobo comandava as operações. Cipriano veio ter comigo, também ele parecendo muito agitado.

— Bons olhos te vejam — disse-me. — Não conseguimos resgatar a tua amiga, mas em compensação levamos connosco duas princesas.

Olhei-o espantado — duas princesas?

Apontou para uma das carroças. Distingui o rosto furtivo de Mocambo, meio oculto atrás de uma pilha de tecidos, e no mesmo instante compreendi tudo. Aproximei-me para as cumprimentar. Mocambo distinguia-se pelo porte altivo, a graça com que se movia e uma doçura que a todos conquistava. Quifungi era o oposto dela, de feições rudes e natureza antipática. Possuía, porém, a mesma grande coragem e a comum lucidez da rainha. Mocambo mostrava-se assustada, ansiosa por sair de Luanda. Quifungi, ao contrário, estava muito calma — mas não queria ir.

— Devo ficar, posso ser mais útil a minha irmã permanecendo em Luanda.

Cipriano recusava-se a escutá-la. Recebera severas instruções da Ginga para trazer consigo as duas irmãs, e tencionava fazê-lo.

Quifungi buscou o meu auxílio. Ao longo daqueles meses em Luanda aprendera português. Aprendera a ler e a escrever. Vira e escutara muita coisa. Compreendera, por exemplo, que as diferentes nações europeias, tais como as diferentes nações africanas, se encontram divididas por rancores antigos, guerreando-se o tempo todo umas às outras. Compreendera que os portugueses ao se tornarem vassalos do Reino de Espanha haviam tomado de empréstimo os inimigos dos espanhóis, e que destes inimigos os mais poderosos eram os flamengos, ou mafulos.

— Para vencer os portugueses é preciso que nos tornemos amigos dos seus inimigos — disse-me.

Tentei explicar-lhe que os mafulos, embora se afirmem cristãos, ofendem Cristo, ao ofenderem o seu representante, o papa. Logo desisti. Eu próprio já não acreditava no papa, nem na Igreja, nem sequer em Jesus Cristo. Concordei com ela. Quifungi achava que poderia ser os olhos e os ouvidos da Ginga no coração do inimigo. Entregou-me um maço de cartas. Poderia continuar a escrever, enviando as suas observações para a irmã através de escravos em fuga. Disse-lhe que achava tal proposta muitíssimo arriscada. Quifungi manteve-se inflexível. Não iria.

Disse a Cipriano que não nos restava alternativa senão respeitar a decisão da princesa. O Mouro aceitou, muito nervoso. Quifungi regressou ao palacete de Rodrigo de Araújo, entre as suas mucamas, uma das quais vestida com os trajes de Mocambo, adornada com as suas joias e reais adereços, para que — vendo-as passar — as pessoas acreditassem estarem ali as duas irmãs da Ginga.

Mais tarde tive tempo para discutir com Cipriano todos os pormenores daquela louca aventura. Deixáramos Luanda e cruzávamos a escuridão a toda a pressa, guiados pelo instinto do velho Caxombo. O Mouro conduzia a segunda carroça. Eu ia ao lado dele.

— Há meses que andava congeminando planos para resgatar as irmãs da rainha — disse-me. — Quando tu surgiste achei que se ia libertar duas, poderia trazer mais uma.

Quis saber porque não me dissera nada. Cipriano não me respondeu. As mulas haviam travado de repente, assustadas com algo — talvez uma fera. Ele acalmou-as. Quando retomámos o caminho começou a contar-me episódios da sua infância, em Évora.

— Vês este brinco de topázio amarelo?

Eu não conseguia ver nada. Cipriano seguia ao meu lado direito e a única coisa que distinguia dele, à luz indecisa das tochas, era o vulto possante. Contudo, já antes reparara no brinco, preso à orelha direita, de forma que respondi que sim, que via o brinco. Cipriano continuou:

— Este brinco pertencia a um escravo de meu pai, de nome Eurico, Eurico Congo, pois nasceu no Reino do Congo. Eurico cuidou de mim quando eu era menino. Aprendi a falar, falando português e a língua do Congo. Quando aqui cheguei muita gente estranhou ao ouvir-me discorrer em quicongo, tão bem ou até melhor do que muitos filhos do país.

Repeti a pergunta: porque não me dissera que pretendia também resgatar as irmãs da Ginga?

— Porque não havia necessidade — retorquiu, num tom um tanto brusco. — Urdi tudo isto com a rainha. A minha intenção foi sempre libertar as princesas. Quis-te comigo porque achei que teria proveito na tua presença, pelo muito que me agrada ouvir-te, pelos teus bons conselhos. Além disso, caso alguma coisa corra mal posso sempre tentar trocar-te pela senhora dona Mocambo.

Não contive uma gargalhada, entre incrédulo e horrorizado:

— Porque haveriam os portugueses de aceitar troca tão desigual?

Disse-me que não menosprezasse o meu valor, pois os portugueses me tinham em alto desapreço. O homem que odeia, quando o ódio é muito, está disposto a pagar caro para poder ter à sua mercê a razão de tanto rancor. Os portugueses gostariam de me haver à mão, castigando-me de forma cruel, a mais cruel possível, para que servisse a todos como exemplo do que aguarda um traidor.

— Também tu és um traidor — retorqui numa cólera súbita. — Tão traidor quanto eu, ou mais traidor ainda. pois serves não só à Ginga, mas também a sarracenos, abjuraste a Nosso Senhor Jesus Cristo e até mouro te tornaste.

— Sem dúvida — concordou Cipriano. — Traidor sou, várias vezes e em vários graus. Eles, porém, não sabem disso. Cipriano Gaivoto não existe. Morreu há muitos anos num ataque de piratas.

Calámo-nos os dois. O silêncio parecia acrescentar anda mais noite à matéria esquiva com que se tece a noite. Por fim, tanto para atenuar a escuridão quanto para buscar uma resposta, perguntei a Cipriano se confiava no velho Caxombo. Como é que alguém era capaz de se orientar no meio de tamanho negrume? O Mouro sorriu, os dentes refulgindo à luz vermelha das tochas;

— Eu mesmo já lhe fiz essa pergunta — respondeu. — O velho tem olhos de coruja. Vê no escuro. Além disso orienta-se pelas estrelas e pelos pequenos ruídos do mato.

Atrevi-me então a perguntar o que aconteceria quando os portugueses dessem pela falta de Mocambo. Cipriano não me pareceu preocupado:

— Podemos contar com dez, talvez doze horas de avanço — disse. — Os primeiros virão a cavalo. A cavalo, a bom galope, alcançam-nos ao anoitecer.

Encarei-o assustado:

— Como faremos para escapar?

— Verás! — rugiu. — Escaparemos...

Ao amanhecer detivemo-nos junto a uma curva do rio. Havia ali uma pequena praia, com seixos redondos, água calma e quase transparente. As mulas, exaustas, refrescaram-se e repousaram. Aproveitei para caminhar um pouco.

Aves de diversos formatos, cores e cantos espalhavam-se pelo abundante verde em redor. Veio-me à memória «A Conferência dos Pássaros», do sábio persa, perfumista e homem santo Farid U-Din Attar. Nos seus versos, Farid conta a lenda de um grupo de aves que empreende uma arriscada viagem para encontrar Simorgh, o Rei dos Pássaros. A maioria das aves desiste ou morre ao longo do trajeto. As mais persistentes atravessarão sete vales: o Vale da Busca, o Vale do Amor, o Vale do Entendimento, o Vale da Independência e do Alheamento, o Vale da Unidade Pura, o Vale do Assombro e o Vale da Pobreza e do Nada. Apenas trinta alcançarão a morada de Simorgh. Só então descobrem que o rei que procuravam são elas próprias.

Simorgh diz-lhes — sem que linguagem alguma seja necessária — que é chegado o momento da dissolução no absoluto: «Regressem os átomos perdidos ao centro de tudo / e sejam — vós! — o espelho eterno em que se miram. / Aquele puro esplendor que voga na larga escuridão / deve voltar agora a ser parte do Sol.»

Deus, como diria Cipriano, somos nós mesmos.

Pensava nos versos de Farid quando um ser de uma beleza indescritível me prendeu a atenção. Estremeci, porque tal ser era uma poupa — e a poupa é quem, no poema de Farid, conduz as restantes aves. Era como se aquela poupa tivesse acabado de voar dos versos do poeta persa.

Chamei Cipriano e mostrei-lhe o deslumbrante milagre: a poupa, que nome lhe dão neste país? O Mouro encolheu os ombros, distraído:

— É uma andua — disse. — Há tantas por aí.

Perturbou-me a indiferença do falso mouro. Contudo, já o sabia, o que para uns é um diamante, para outros não passa de uma pedra um pouco mais luminosa e um pouco mais tenaz.

Retomámos a marcha. Se durante a noite a escuridão não me permitia ver nada, agora era o excesso de luz que me cegava. O sol queimava-me a pele. Felizmente tínhamos recolhido água do rio, com fartura, de forma que volta e meia lançava sobre o rosto uma caneca dela e assim me refrescava. A determinada altura metemos por um caminho aberto entre o capim, deixando o rio para trás. O trilho corria em meio a um vale, com grandes pedras de ambos os lados. Ouvi gritos e vi surgir no alto das pedras os terríveis guerreiros do soba Caza, armados de arcos e flechas e agudas lanças e com o tronco e o rosto pintados de branco e vermelho, como fazem sempre que vão para as grandes batalhas.

Cipriano soltou uma ampla gargalhada:

— Perguntaste-me como escaparíamos. Já vês, contamos com forte ajuda. Os nossos perseguidores, esses, vão ter uma má surpresa. Daqui não passam.

O resto do percurso decorreu sem acontecimentos dignos de registo. Entrámos no quilombo à frente de uma enorme procissão de gente cantando e dançando. A Ginga recebeu-nos na sua banza, ao lado do jaga Caza Cangola, festejando-nos com cordial afeição e contentamento. Não pareceu muito surpreendida nem agastada ao saber que Quifungi decidira permanecer em Luanda. Pediu-me que lhe lesse as cartas, as quais estavam escritas num português mesclado de quimbundo, sendo às vezes muito difíceis de decifrar. Escutou-me com atenção, só me interrompendo, aqui e ali, para refletir comigo sobre algum ponto mais obscuro. Nas cartas, Quifungi saltava de um assunto para o outro, como um gafanhoto no capim, ora dando conta do poderio militar dos portugueses e apontando as suas fraquezas, ora confessando dúvidas quanto à doutrina católica, ora troçando de certos hábitos íntimos das mulheres portuguesas.

Cipriano foi agraciado com vinte peças, além de cinco grandes presas de elefante, o que naquela época, como ainda hoje, representava uma pequena fortuna. Lobo recebeu uma dezena de grossas manilhas de prata. Já antes eu vira alguma desta prata, na mesma forma de manilhas, mas nunca soube a sua origem, afirmando alguns que vinha de Cambambe, ali onde o rio se liberta dos estreitos desfiladeiros que durante várias milhas o constrangem, e as suas águas, enfim, se espraiam e sossegam. Sempre duvidei de que houvesse prata em Cambambe, e hoje ainda mais duvido, pois nunca ali, nem em nenhum outro ponto de Angola, se encontraram minas desse precioso metal. Recordo, contudo, uma querela entre dois padres jesuítas, aquando da minha primeira visita a Luanda, afirmando um ter avistado um monte, em Cambambe, cuja encosta era inteiramente coberta de fina prata. Era tanta a prata, e resplendecia ao sol com tal vigor — insistia o jesuíta —, que um homem podia cegar só de para ela voltar os olhos. Ao outro padre aborreciam tantas certezas, pois também ele estivera em Cambambe e não vira nem prata nem oiro nem pedras preciosas, tão-somente água, uma imensa abundância de água pura e boa, e era esta água — dizia — o maior tesouro do país.

A mim, ofereceu-me a rainha cinco escravas e quatro dentes de elefante. Agradeci os dentes de elefante mas recusei as escravas, alegando que apenas me limitara a acompanhar Cipriano. A rainha riu-se em gargalhadas minúsculas, um pouco desagradáveis. Sim, retorquiu, sabia o que me levara a Luanda, toda a gente sabia, e lamentava que não nos tivesse sido possível resgatar Muxima. Disse-me que talvez fosse possível comprar a escrava e a cria, assim que esta nascesse, pois Muxima não tinha para os portugueses nenhum outro valor. Vieram-me as lágrimas aos olhos, ouvindo-a falar assim de Muxima e do nosso filho. Saí da banza apressado, para que não me vissem chorar como uma mulher.