Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens
Viagem pelo rio São Francisco e por alguns dos seus afluentes entre Pirapora e Juazeiro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Mais tarde paramos e tomamos lenha num porto chamado Boa Vista das Esteiras, ao pé dum pequeno morro, lembrando na sua forma um cone vulcânico. Seguindo mais para baixo, encontramos outra duna, mais encostada ao rio e tendo talvez uns 120 metros de altura. Galgamo-la em subida muito fatigante, feita em grande parte na areia solta. Em cima descortinamos uma boa vista para o outro lado do rio. Do nosso lado, havia uma sucessão de outras dunas, mais ou menos paralelas e quase totalmente cobertas de vegetação interessante, crescendo sobre a areia pura. Entre as flores notei uma Angelonia, escrofulariácea de flor muito bonita.
Fig.81 – Quartz, Pilão Arcado. Image originally published in Plate 12.
Pedra de quartzo, Pilão Arcado. Cópia fotográfica que corresponde
à imagem originalmente publicada em Estampa 12 (BR. MN. Fundo
Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).
De volta para o navio, seguimos para a foz do rio Verde, aonde chegamos às 3h35. É um estuário bastante largo. A água, que pela maior parte pertencia ao São Francisco, não tinha cor distintiva. Subi pelo rio, que tem, dos dois lados, uma zona de mato bastante bonito. A água é perfeitamente calma; nem por isso deixamos de apanhar, na canoa e em terra, uns dez exemplares de pium, mostrando outra vez como esta espécie, aproveitando provavelmente os ventos e o ar úmido do rio, consegue afastar-se enormemente dos seus criadouros de águas encachoeiradas. Encontramos também um mosquito-pólvora. Voltamos e embarcamos ao cair do sol. O vapor seguiu para Pilão Arcado, lugar pouco distante, à margem esquerda. Durante esta viagem, experimentamos, pela segunda e terceira vez, a sensação produzida pelo contato do casco do navio com o fundo de areia. Chegamos com noite escura à praia de Pilão Arcado, onde passamos a noite. Houve logo um vento bastante forte; em conseqüência deste, poucos insetos apareceram na luz, não obstante a temperatura elevada de 26°. Pouco antes das 10 horas chegou o vapor “Matta Machado,” de Juazeiro. O vento, nessa hora, tinha parado, mas durante a noite voltou com muita força.
18 de junho – Hoje cedo a temperatura era de 20° e o tempo bom, havendo um pouco de vento. Notamos uma corrente bastante forte no rio. O pequeno lugar, cujo nome singular ninguém sabe explicar, está bem colocado, sendo o terreno em parte arenoso, em parte coberto de pedregulho. Há umas 200 a 300 casas, umas boas, outras muito primitivas. Atrás da cidade encontramos um campo pedregoso com uma flora escassa, em grande parte xerofítica, notando-se o xiquexique, um Cereus com flores brancas. Vimos lá um bloco de quartzo quase puro, do tamanho duma pequena casa, com uma escada que dá acesso a plataforma em cima, onde há um cruzeiro e donde se tem uma vista boa sobre as duas margens do rio. Perto da cidade há algumas pedras no rio que formam uma espécie de recife pequeno.
Prosseguimos a nossa viagem às 11h14. O rio continuava sempre muito largo, com margens pouco elevadas e bancos de areia dos dois lados. Num deles havia um grande banco de garças brancas. A bordo apareceu um borrachudo de outra espécie. Viam-se a distância alguns morros ou serras pouco extensas. Depois de uma hora de viagem, encontramos serras com grandes tabuleiros, dos dois lados do rio, ficando mais perto a do lado direito. Esta, que já aparecia numa fotografia tirada da pedra do Pilão Arcado, foi fotografada. Do lado direito, em direção da serra, via-se cair chuva em bastante extensão, mas passamos ao lado dela. Um banco de areia, em que o vento levantou uma nuvem de areia fina, mostrava a formação das dunas. O rio aqui faz uma viravolta, contornando a serra que aparece do lado esquerdo. Às 3 horas, chegamos a um braço de rio que passa perto dum lugar chamado Tabuleiro Alto e recebe um afluente do mesmo nome. Não podendo o vapor passar por esse canal, fiz o trajeto em canoa. Apenas entramos no afluente, que estava completamente obstruído por paus caídos; também não demorei na aldeia, formada por pequeno número de casas péssimas. Às 6 horas, chegamos, pela parte inferior do canal, a um porto, onde o vapor nos esperava. Tínhamos passado diante da Serra do Tabuleiro Alto. Colecionei um grande número de piuns, que abundavam no canal, e atirei em terra num iguana de mais de metro e meio de comprimento, sendo mais da metade representada pela cauda. Tiramos umas fotografias e seguimos depois para um lugar pouco distante, chamado Mato Grosso, onde tomamos lenha e passamos a noite. Na luz apareceram poucos insetos, entre estes o pium e alguns mosquitos, Cellia e Mansonia. Havia um pouco de vento e a lua era nova. Ainda depois das 9 horas, o termômetro marcava 24°.
19 de junho – Saímos às 5h30, com temperatura pouco acima de 24°. Ultimamente não se nota mais a formação de orvalho abundante. Estamos agora na altura de Maceió e os dias são mais compridos e as noites mais quentes. Seguimos rio abaixo, tendo à direita uma série de serras. Às 8 horas estivemos em frente de Remanso, mas descemos mais um pouco, a fim de entrar no canal que conduz ao porto, aonde chegamos logo depois. Fomos visitados a bordo por várias pessoas, entre estas o médico do lugar, Dr. Vital, que nos deu muitas informações. Depois saltamos e fomos à igreja, onde encontramos um ponto com boa vista e tiramos algumas fotografias.
À tarde procuraram-se barbeiros na cidade, encontrando-se apenas alguns exemplares da espécie pequena, aqui chamada Porocotó, em duas casas. Compramos também uma tarrafa, e saí com dois marinheiros para experimentá-la. Apanhamos um grande exemplar
de pacamão, 19 peixe do fundo, cor de couro, sem escamas e com olhos muito pequenos. Apanhamos também algumas pirambebas, ou piranhas brancas, muito pequenas, escapando outras, que cortaram com os seus dentes agudos algumas malhas da rede. Vimos muitos talha-mares pretos (Rhynchops nigra L., var. cinerascens Spix), algumas gaivotas, trinta-réis (Sterna) e maçaricos. Na areia seca encontrei dois caburés. Obtivemos também um filhote de talha-mar.
Fig.82 – Sand dunes, São Francisco River, south of Remanso.
Image originally published in Plate 14.
Dunas de areia no rio São Francisco, abaixo de Remanso. Imagem
originalmente publicada em Estampa 14.
Fig.83 – Mountain range, right margin of the São Francisco River,
south of Remanso. Image originally published in Plate 14.
Serra na margem direita do rio São Francisco, abaixo de Remanso.
Imagem originalmente publicada em Estampa 14.
Tivemos também informações sobre a existência do mal-de-cadeiras, aqui chamado torce, que é uma tripanose dos cavalos.
Outra moléstia afim, na 20 durina também parece ocorrer aqui. Tratou-se dos meios para examinar alguns desses animais doentes que, geralmente, se achavam em lugares bastante distantes.
20 de junho – Fui cedo ver a feira que estava na praia, um pouco mais acima. Havia, além dos peixes mais conhecidos, algumas corvinas e dois exemplares de pacamão. Na véspera vimos pela primeira vez uma pirá. Depois fomos a uma casa onde havia uma Sittace spixii, espécie bastante rara. Não quis a proprietária vender a ave, que era muito mansa, mas, finalmente, deixou-se tentar pelo dinheiro oferecido.
À tarde chegaram um cavalo e um burro sofrendo de torce. Com sangue, que nos preparados não mostrava tripanossomos, inocularam-se alguns animais de experiência.
À noite ventou muito, e às 10 horas o termômetro marcava ainda 24°.
21 de junho – Hoje cedo a temperatura era de 20° e o vento era fraco. Na feira quase não havia peixe. Tratamos, em terra, de vários assuntos, examinando também alguns doentes. Um pouco antes das 3 horas seguimos no vapor para uma fazenda, do outro lado do rio e seis léguas mais abaixo, a fim de ver animais doentes de torce. Dos dois lados do rio, havia serras mais ou menos distantes. O rio hoje parecia muito turvo, porque a água, agitada pelo vento, carregava areia dos bancos superficiais que aqui abundam. Uma légua acima da fazenda, passamos o pitoresco Morro do Tombador, tendo a forma duma pirâmide. Está tão perto do rio que, com o binóculo, distinguem-se perfeitamente as hastes frutíferas do Encholirium snectabile, bromeliácea que já encontramos na serra de Morpará.
Fig.84 – Stone mountain with Eremanthus north of Catella. Photo
taken on June 25, 1912.
Morro de pedra com Eremanthus acima de Catella. Foto batida em
25 de junho de 1912 (COC, DAD, SI, série atividades científicas,
subsérie expedições, maço FOC).
Fig.85 – Landscape with carnauba palm trees. Boqueirãozinho,
Bahia. Photo taken in May 1912 and not published in the 1915
report.
Paisagem com carnaúbas ao fundo. Boqueirãozinho, Bahia. Foto
batida em maio de 1912, não utilizada no relato publicado em 1915
(COC, DAD, SI, série Atividades Científicas, subsérie Expedições,
IOC (AC-E) 1-31).
Logo depois chegamos à fazenda Catella, cujo dono, coronel Januário, nos acompanhava, assim como o médico do Remanso. Num cavalo, amarrado perto da casa, apanhei vários exemplares de pium, mas não apareceram nem mosquitos, nem tabanídeos. Não tendo ainda chegado os cavalos doentes, fui à noite com dois marinheiros lançar a tarrafa nos bancos de areia do lado esquerdo. Em trinta lances, apanhou-se apenas um curimbatá grande e duas corvinas (Pachyurus squamipinnis Agass.) menores. Por causa da largura das malhas não se podiam apanhar peixes pequenos.
22 de junho – De manhã cedo fomos em canoa para o outro lado do rio, onde tomamos um banho. Apanhei algumas cascas de Anodonta e exemplares vivos duma Melania, gênero de moluscos aquáticos, comum nos rios brasileiros. Atirei, sem resultado, em algumas gaivotas que voavam numa coroa.
De volta, fomos com um cavalo mais manso para uma capoeira, distante dois quilômetros e situada perto duma lagoa. Apanhamos três mutucas, iguais às observadas no Breijão, e piuns em grande número.
Não encontramos os cavalos na fazenda e, depois de esperar muito, voltamos a Remanso, não conseguindo evitar algumas colisões com o fundo do rio. A cidade está situada em terreno perfeitamente plano, num braço do rio, e tem algumas centenas de casas, em grande parte contíguas e formando ruas pouco largas.
23 de junho – Na feira, menos concorrida que a da Barra, nada havia de interessante. Aproveitei a parada do navio para arranjar várias coisas. Depois despedimo-nos do Dr. Vital Rego, que se tinha mostrado sempre muito obsequioso, e de várias outras pessoas do lugar, e voltamos para Catella. Nesta zona os ventos são freqüentes e deixam sinais evidentes da sua ação na areia das coroas. Na véspera, à tarde, o vento era forte, mas acalmou durante a noite; com um pouco de vento em proa, assim mesmo, o calor parecia menor do que realmente era. A temperatura ontem, às 10 horas da noite, era de 24°, hoje cedo 19°; às 11 horas tinha subido outra vez a 26°. Chegamos à fazenda às 12h50, e demoramo-nos até 4h55. Durante esse tempo, examinaram-se dois animais com peste de cadeiras e autopsiou-se um deles, retirando-se fragmentos de órgãos para exame microscópico. O exame do sangue não tinha mostrado tripanossomos, mas o diagnóstico foi confirmado pelo fato de que todos os animais inoculados adoeceram com tripanossomos no sangue.
Fig.86 – Horse with trypanosomiasis. Photo taken on June 22, 1912
and not published in the 1915 report.
Cavalo com mal-de-cadeiras. Foto batida em 22 de junho de 1912,
não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série
atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).
Fig.87 – Mare with trypanosomiasis in Catella, near Remanso. Photo
taken on June 23, 1912 and not published in the 1915 report.
Égua com mal-de-cadeiras em Catella, perto de Remanso. Foto de
23 de junho de 1912, não utilizada no relato publicado em 1915
(COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições,
maço FOC).
Fig.88 – ‘Traíras’ (Hoplias malabaricus) on the margins of the São
Francisco River. Photo not published in the 1915 report.
Traíras, às margens do rio São Francisco. Foto não utilizada no
relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35,
pasta 244, maço 5).
Durante a autópsia, que foi feita perto do rio, apareceu grande número de piuns. Voltando em canoa examinei muitos galhos retirados do rio, sem encontrar vestígios de criação de borrachudos.
A continuação da viagem foi bastante pitoresca, havendo dos dois lados serras e, no rio, muitas ilhas e coroas. Estando a noite fechada, paramos na margem direita, num lugar chamado Traíras, ao pé de dois morros onde abundam os mocós. Os marinheiros festejaram São João com uma fogueira na margem do rio.
24 de junho – Levantamos cedo para fazer uma caçada. Subi logo ao ponto mais alto, sem ver mocós, mas achei plantas muito interessantes, e a vista do alto era esplêndida. As camadas de pedra aqui eram verticais e havia muitos veios de quartzo. Entre as plantas notei uma Acanthacea aromática com flores vermelhas e uma composta de folhas quase brancas, o Eremanthus matii. Nos últimos dias notamos várias vezes manchas claras na vegetação dos morros, que eram produzidas por aglomerações dessa planta. Havia aqui também muitos cactos e a cansanção, loasácea, cheia de espinhos urticantes, que facilmente atravessam as meias e mesmo a roupa. Encontrei também muitas cascas dum molusco terrestre, que não tínhamos observado antes.
Os companheiros, que foram por outros caminhos, caçaram uma curicaca (Geronticus albicollis) e alguns mocós. Estes se parecem com a preá; são porém um tanto maiores e mais altos nas pernas, que têm a planta dos pés e as unhas muito pretas: a parte posterior do corpo é ferruginosa.
Depois de uma hora continuamos a viagem que interrompemos uma vez, para tomar lenha. À 1h30 viram-se, do lado esquerdo, umas dunas cobertas de vegetação e, do lado direito, uma serra comprida com tabuleiro extenso. Adiante, numa distância de duas léguas, aparecia a igreja de Centocé, quando, depois de roçar algumas vezes no fundo, encalhamos, pela primeira vez, de tal forma que a máquina não conseguiu nos tirar do lugar. Os marinheiros tiveram de cair n’água, procurando livrar o vapor por meio de alavancas. Não dando isso resultado, deitou-se uma âncora pesada a certa distância, enrolando depois a cadeia para assim puxar o navio. A primeira experiência, feita do lado esquerdo, falhou. Aproveitei a demora para embarcar na canoa e saltar num banco de areia, onde se viam muitos talha-mares e gaivotas pousados ou voando. Chegados lá, encontramos alguns ninhos ou, antes, grupos de três a quatro ovos, colocados na areia em pequenas covas, alguns já com os pintos para sair. Tinham a cor de areia com riscos pretos, sendo de dois tamanhos. Havia também um ovo de tamanho maior e com fundo quase branco. Vimos também uns maracanãs azuis, e atirei no meio do bando voando, mas não tive felicidade de obter um desses pássaros raros. Durante esse tempo conseguiram livrar o navio pelo ferro deitado do outro lado. Continuamos a viagem, roçando no fundo de vez em quando, até que encalhamos de novo. Repetiu-se a manobra da âncora, porém sem resultado, mas afinal, pouco antes das 5 horas, o vapor livrou-se por meio das alavancas. Depois de outros vinte minutos de viagem com algumas ameaças de encalhe, apareceu a igreja de Centocé à direita, por trás dum carnaubal. Pouco depois chegamos ao porto, onde havia uma fileira de casas, pela maior parte muito ordinária, onde pelas informações existe a Triatoma sordida. Depois do jantar, aproveitei o luar bonito para ir, em companhia do comandante, a pé até a vila, distante dois quilômetros. Por muita areia e passando umas pequenas lagoas chegamos lá. Soubemos que atualmente não havia casos de torce, mas que já tinha vitimado muitos cavalos. O mofo (durina) também parece existir nesta zona. Há bastante impaludismo. Depois de várias conversas voltamos outra vez para bordo, um tanto cansados pelo andar na areia.
25 de junho – Partimos às 5h40. O rio era agora largo e muito calmo, mostrando do lado esquerdo algumas pedras acima da água. Do lado direito, viram-se muitas carnaubeiras; na frente, tabuleiros duma serra elevada. Encontramos o vapor “Carinhanha,” que seguia para o rio Corrente. Encostamos para esperá-lo, mas encalhamos outra vez, só saindo depois de muito trabalho. À direita via-se a Serra do Frade, com um pilar de pedra alto e completamente destacado, lembrando o Dedo de Deus na Serra dos Órgãos; a margem direita era completamente plana, mas avistavam-se agora algumas dunas bastante distantes do rio e quase cobertas de vegetação. Às 10 horas chegamos à vila Casa Nova, onde só demoramos para passar alguns telegramas. Entre as casas do porto e as da vila há uma lagoa ou braço do rio atualmente seco; o caminho passa por um aterrado, interrompido por uma ponte, que permite o escoamento da água. Depois de outro desencalhe seguimos pelo rio, que se tornou encapelado com o vento forte, enquanto o vapor principiava a jogar. Desprendeu-se a canoa que rebocávamos, e foi preciso apanhá-la de novo, o que causou trabalho e demora. O tempo estava coberto, parecendo ameaçar chuva; a temperatura ao meio-dia era de 25°, mas, por causa do vento forte, parecia muito menos.
Fig.89 – Dam in Casa Nova, Bahia. Image originally published in
Plate 7.
Casa Nova, dique. Bahia. Imagem originalmente publicada em
Estampa 7.
Fig.90 – Frade Mountains, São Francisco River. Image originally
published in Plate 13.
Serra do Frade no rio São Francisco. Cópia fotográfica que
corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 14
(BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).
Depois das 2 horas chegamos a Sant'Anna, pequeno lugar, situado na margem esquerda, sobre terreno arenoso no alto e formado na margem do rio por pedregulho, com muitas cascas vazias de melancia. Pude contar umas cinqüenta casas, quase todas de barro. Aqui, como em alguns outros lugares em que passamos, existe uma pequena indústria de rendas, pouco rendosa. Aqui experimentamos, pela primeira, as célebres uvas de Juazeiro. Têm as bagas alongadas e carnosas, ficando roxas quando maduras, parecidas às que entre nós, erroneamente, se chamam moscatel. Eram de aspecto bonito e de gosto bom, quando não estavam ainda verdes.
Algum tempo depois conseguiu-se livrar o vapor, que encalhara no porto, e partir. Começou agora uma parte do rio onde havia muitas pedras e cachoeiras; apenas um canal estreito, na maior parte artificial, fica livre para a navegação. Acostamos abaixo deste e voltei em canoa com dois marinheiros e um empregado. Conseguimos alcançar algumas pedras no meio das corredeiras muito fortes. Havia aqui muitas podostemáceas de duas espécies, e nestas encontrei os casulos de pium em número bastante grande e sem mistura com outra espécie. Enquanto os marinheiros apanhavam alguns pacus com a nossa tarrafa, colhi bastante material. Era o primeiro criadouro maior de pium que encontrei nesta zona; apenas no rio das Ôndias, que era muito distante, tinha
encontrado alguns casulos. Parece curial 21 que deste criadouro os piuns adultos se espalhem sobre um terreno muito extenso onde são encontrados, embora lá faltem completamente as condições necessárias para o desenvolvimento das larvas.
De volta trabalhei até tarde para aproveitar o material colecionado.
26 de junho – Seguimos às 5h40. A paisagem aqui é muito pitoresca. Do lado esquerdo ergue-se a Serra da Cachoeira, com rochedos de cor muito clara; do lado direito há uma ilha. A navegação continua a ser difícil. No rio há muitas pedras, e em vários pontos só se pode aproveitar um canal muito estreito; também se anda só com meia força. Depois de entrar no grande rio, encontram-se ainda muitas ilhotas e recifes. Num ponto aparece no meio do rio uma pedra alta, decorada com bromeliáceas, que é uma imitação perfeita, em escala reduzida, de muitos morros que temos visto ultimamente.
Pouco abaixo dessa ilha desaparecem as pedras, e o rio, largo e calmo, corre por uma planície coberta de árvores. As margens são em parte cultivadas, principalmente à direita. Há capim, milho, feijão, mandioca, batata-doce etc., tudo plantado em terrenos que eram inundados. Passamos pelo lugar chamado Pau de História, que faz parte da margem esquerda, estado de Pernambuco. Por um momento chuviscou, mas não caiu água bastante para molhar o convés. Às 7h30 tomamos lenha num lugar chamado Lagoa, onde havia uma roça bem tratada e umas parreiras doentes. Creio que se tratava de brown rot. Abaixo deste lugar recomeçam os obstáculos à navegação, formados por numerosas pedras no rio.
Às 9 horas, avistou-se a cidade de Petrolina, na margem esquerda e, pouco depois Juazeiro, do lado direito. Depois de dar uma volta para apreciar a vista das duas cidades, paramos em frente à estação do Juazeiro às 9h20. Saltamos depois do almoço, visitando o correio, o telégrafo, o engenheiro das obras contra a seca, a casa do comandante e um colega, procurando e obtendo várias informações. A cidade é grande e dá uma impressão boa, que podia ser melhor ainda, se as ruas fossem calçadas e as casas mais altas. Sofreu bastante com a grande inundação de 1906, e os prejuízos ainda não foram todos reparados. O edifício mais bonito é a estação da estrada de ferro, que é muito superior a qualquer dos que vimos durante a viagem.
O tempo, todo o dia, foi chuvoso e, com o vento contínuo, tornou-se pouco agradável. Depois de tantos dias de tempo bom, tivemos, realmente, uma recepção bastante fria. Os habitantes, todavia, foram mais amáveis que o tempo. Na casa do comandante experimentamos as uvas célebres, que eram da qualidade já descrita, porém mais maduras e muito boas. Ofereceram-nos também mangas excelentes. Passamos a noite a bordo.
Fig.91 – Juazeiro seen from the Fogo Island. Photo not published in
the 1915 report.
Cidade de Juazeiro vista da Ilha do Fogo. Foto não utilizada no
relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades
científicas, subsérie expedições, maço FOC).
Fig.92 – Juazeiro Station. São Francisco Railroad. Photo originally
published in Plate 17.
Estação de Juazeiro. Estrada de Ferro S. Francisco. Cópia
fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em
Estampa 17 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244,
maço 5).
Fig.93 – São Francisco River seen from Fogo Island, Juazeiro,
Bahia. Image originally published in Plate 6.
Rio São Francisco, visto da llha do Fogo, Juazeiro, Bahia. Imagem
originalmente publicada em Estampa 6.
Fig.94 – Fogo Island, between Juazeiro and Petrolina. Image
originally published in Plate 12.
Ilha do Fogo, entre Juazeiro e Petrolina. Cópia fotográfica que
corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 12
(COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições,
maço FOC).
27 de junho – O tempo hoje foi um pouco melhor, mas ainda bastante triste. Já na véspera principiou-se a tratar da mudança, hoje continuou-se o trabalho. Ocupou-se a maior parte do dia em preparação de correspondência, que devia seguir no dia seguinte pelo trem misto. Destes há dois por semana, alternando com dois rápidos. Estes gastam dois dias e aqueles três para chegar à capital, mas andam só de dia. Às 6h40 fomos à estação esperar o rápido que devia trazer várias pessoas mais ou menos conhecidas, mas nem todos chegaram.
28 de junho – Fui cedo para o campo de experiência, hoje Horto Florestal, onde encontrei o Sr. Alberto Loefgren e vi as culturas. À tarde, examinamos as plantas que tinha colecionado durante a viagem, procurando determinar ao menos as famílias, e li alguns livros encontrados no Horto Florestal.
29 de junho – Saímos cedo para fazer com o Sr. Loefgren uma excursão à Serra da Primavera ou de Ribeirão do Sal, distante umas duas léguas. É um morro formado em grande parte de rochedos íngremes, de granito ou de gnaisse, com cerca de 200 metros de altura, parecendo-se muito com aquele que galgamos em Traíras. A vista abraça uma grande planície de aspecto queimado e triste, relevado pelas numerosas serras que aparecem no horizonte. O caminho passava por um grande terreno coberto por canudos (Ipomea fistulosa) e depois por um campo muito árido com arbustos que, em grande parte, estavam sem folhas. Com poucas exceções, a flora era composta de espécies que já tínhamos encontrado ultimamente.
30 de junho – De manhã visitei a pitoresca llha de Fogo, situada quase no meio entre as duas cidades, passando numa barca a vela, das que chamam aqui paquete. Encontramos na ilha uma vegetação muito característica e galgamos, com algum custo, a rocha que suporta, num poste de ferro, o fio telegráfico que atravessa o rio. Gozamos duma vista boa das duas cidades, do rio e das terras longínquas; quanto às riquezas mineralógicas, que se deviam encontrar nesta ilha, talvez os nossos predecessores as tivessem levado, ou o tempo não foi suficiente para achá-las. Esta ilha mais tarde será aproveitada, quando houver necessidade de ligar as duas cidades por uma ponte.
De volta da ilha almoçamos na casa do Sr. Gaget, um dos engenheiros da comissão das obras contra as secas. Vimos lá um tatu-bola novo, muito manso, que acudia quando se chamava e alimentava-se com leite. Depois atravessamos o rio em companhia do Sr. Gaget e subimos na torre da igreja, para ter a vista de Petrolina. A cidade é formada por três ruas de bom aspecto, mas, apesar de ser domingo, parecia morta. A margem do rio está, em parte, coberta com pedregulho, e em parte consiste em pedra. Dentro do rio vêem-se algumas pedras enegrecidas um tanto distantes; atualmente estavam expostas, mas, nas enchentes, devem ficar debaixo d’água. De volta ao hotel, fomos esperar o trem em que vinha o engenheiro residente da estrada de ferro e o Sr. Zehntner, diretor do Horto Florestal, que pouco antes percorrera a região de Xiquexique em estudos sobre a maniçoba.
Parte do diário de viagem de Lutz que deu origem ao relatório
publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Os comentários
manuscritos em 3 e 4.7.1912 correspondem aos fatos relacionados aos dias 2 e 3 no trabalho publicado (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz,
caixa 35, pasta 244, maço 5).
30 de junho22 – Hoje ofereceram-nos para comprar dois exemplares vivos de tatu-bola, que parece comum nesta zona. Tem apenas três cintas e o rabo curto, e, quando se enrola, forma uma bola fechada do tamanho dum pequeno coco-da-baía (com a casca exterior). No mesmo dia apareceu no hotel um mandi de 65 centímetros de comprimento que foi fotografado, por ser muito maior que qualquer exemplar encontrado na viagem. Passei a manhã no hotel e a tarde no Horto Florestal.
1° de julho – A patologia da região não oferecendo assunto para estudos, resolvemos não demorar mais no lugar. Empregamos o dia de hoje em preparativos de viagem e despedidas das pessoas do lugar. Tínhamos uns trinta volumes para levar.
2 de julho – Tomamos o rápido que parte às 6 horas, e chegamos a Vila Nova (Estação de Bomfim) ao meio-dia, com 30 minutos de atraso. A viagem foi agradável e não sofremos do calor, nem de pó. Passa-se em primeiro lugar por um vasto campo, coberto de caatinga, tendo já perdido a maior parte das folhas. Depois aparecem serras áridas, cheias de pedras que, pela maior parte, parecem cristalinas. Aqui predominam cactos de várias formas, prevalecendo os Cereus. Aproximando de Vila Nova a vegetação torna-se viçosa.
Os morros da direita, que formam o princípio da Serra de Jacobina, apresentam-se cheios de verdura, formando um verdadeiro oásis no deserto. Fomos recebidos na estação pelo Sr. Manoel A. Lisboa, engenheiro da terceira seção da Inspetoria das Obras contra as Secas, com quem almoçamos. Depois acompanhei-o numa excursão a cavalo, até um lugar na serra, onde se projeta a represa dum pequeno rio. Encontrei aqui material interessante de borrachudos e uma espécie de mosquito-pólvora. A flora também apresentava muitas espécies, ainda não encontradas.
3 de julho – De manhã cedo chuviscou. Mais tarde fizemos uma excursão para a serra, mas só chegamos até a represa dum córrego, captado pela Companhia da Estrada de Ferro, onde colhi um pouco de material. De lá tivemos de voltar, às pressas, por causa de nova pancada de chuva, e chegamos ao hotel bastante molhados. Mais tarde, tendo o tempo melhorado fizemos outra excursão, encontrando o córrego da véspera em alguns pontos mais para baixo.
Num lugar chamado Cachoeirinha, achei um pouco de material de borrachudos. Depois de termos chegado à estação de Cariacá, voltamos à cidade, já noite fechada.
4 de julho – De manhã choveu outra vez. Ficamos no hotel ocupados com vários trabalhos. Nos animais inoculados com peste de cadeiras verificou-se a existência de tripanossomos no sangue. Aqui e no Juazeiro encontramos um número assaz grande de Stegomyia, tanto no hotel, como em casas particulares, de modo que estes lugares, ligados por estrada de ferro, correm o risco da importação da febre amarela.
Fig.95 – Vila Nova and the Jacobina Mountains, Bahia. Photo
originally published in Plate 16.
Vila Nova e serra de Jacobina, na Bahia. Cópia fotográfica que
corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 16
(COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições,
maço FOC).
Fig.96 – Vila Nova, Bahia. Photo originally published in Plate 16.
Cidade de Vila Nova, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 16 (COC, DAD, SI,
série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).
Fig.97 – Street market in Vila Nova, Bahia. Photo originally
published in Plate 18
Feira de Vila Nova, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à
imagem originalmente publicada em Estampa 18 (COC, DAD, SI,
série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).
5 de julho – Hoje choveu bastante; todavia fizemos à tarde outra excursão para a serra, apanhando uns borrachudos nos cavalos.
6 de julho – O tempo continuou chuvoso; fizemos os nossos preparativos para continuar a viagem.
7 de julho – Partimos às 6 horas. Perto de Itiúba, passamos por umas serras de pedra cristalina, onde havia muitas cactáceas. Paramos em Queimados, conhecido pela guerra de Canudos, e atravessamos depois o rio diamantífero Itapicuru, que tinha ainda alguma água. Passamos a noite em Santa Luzia, lugar sem interesse, como a planície em que está situado. Estava chovendo e a noite era completamente escura.
8 de julho – Partimos às 5 horas da manhã e chegamos a Alagoinhas à 1 hora. A cidade é bastante grande e a região não mostra mais vestígio da seca. Conversamos com os médicos do lugar. Nesta zona reaparece o barbeiro, embora com menor freqüência. Quanto à tripanose, não pode ser freqüente; suspeitamos, todavia, da existência de casos isolados. Fiz um passeio e colhi material de borrachudos em dois lugares, encontrando casulos duma espécie ainda não descrita, mas já colecionada por mim em São Felix (estado da Bahia) em 1912.
9 de julho – Fizemos uma excursão até Mata de São João, onde o barbeiro já tinha sido encontrado por colegas da Bahia. Na viagem fomos detidos por um desarranjo da máquina. Conversamos com o médico e o farmacêutico do lugar, mas as casas que este indicou como infestadas de barbeiros eram afastadas demais para podermos ir até lá. Deixamos, todavia, uma encomenda de exemplares. Tendo recebido telegrama, anunciando um bom vapor para o dia 13 ou 14, resolvemos abandonar excursões ulteriores e seguir logo para a capital.
10 de julho – Deixamos Alagoinhas às 5h25 e chegamos à Bahia [Salvador] pouco antes de 11 horas, tendo ainda uma viagem bastante comprida até o nosso hotel, onde encontramos o Dr. Pires do Rio, engenheiro e chefe da terceira seção da Comissão. Aproveitei a tarde para fazer algumas compras necessárias.
11 de julho – Ficamos na cidade, onde vimos vários casos clínicos interessantes e o museu particular do Sr. Adolpho Diniz.
No dia 14 tomamos o vapor “Itapura,” que tocou em Vitória no dia 16. No dia 17, um pouco depois das 3 horas, estávamos de volta ao Rio de Janeiro.
Fig.98 – City Council, Alagoinhas. First seen is the canalized river.
Photo originally published in Plate 17.
Câmara Municipal da cidade de Alagoinhas; em primeiro plano vê-
se o rio canalizado. Cópia fotográfica que corresponde à imagem
originalmente publicada em Estampa 17 (COC, DAD, SI, série
atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).
Fig.99 – Alagoinhas railroad station, Bahia, July 1912. Photo not
published in the 1915 report.
Estação ferroviária de Alagoinhas, Bahia, julho de 1912. Foto não
utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série
Atividades Científicas, subsérie Expedições, AC-E 1-57).
Fig.100 – View of Salvador Harbour, Bahia. Photo not published in
the 1915 report.
Vista do porto de Salvador, Bahia. Foto não utilizada no relato
publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas,
subsérie expedições, maço FOC).
Fig.101 – Vitória Island Port, Espírito Santo. Photo not published in
the 1915 report.
Porto da ilha de Vitória, Espírito Santo. Foto não utilizada no relato
publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas,
subsérie expedições, maço FOC).
Lista dos dípteros sugadores de sangue
(l. significa larvas, p. pupas, im. imagos, M. e B. estados de Minas e Bahia. As procedências entre parênteses foram observadas em outras ocasiões ou referem-se a exemplares recebidos)
Simulium
1 – amazonicum Goeldi (= minusculum Lutz) (Lassance M. im.), rio das Ôndias e rio Grande perto de Barreiras M. im, no Rio São Francisco abaixo de Barra, principalmente perto de Tabuleiro Alto e em Catella abaixo de Remanso B. im.; cachoeira de Sant'Anna acima de Jazeiro B. l. p.
2 – brevibranchium n. sp. (São Felix B. l. p.), Alagoinhas B. l. p.
3 – diversifurcatum Lutz Alagoinhas B. p.
4 – incrustatum Lutz Cachoeira de Jatobá M., Ribeirão e Rio das Ôndias (Barreiras) B., Vila Nova B. l., p., im.
5 – orbitale Lutz (Cachoeira de Pirapora M. p.), c. de Jatobá M. p., im.
6 – paraguayense Schrottky (?) (Lassance M.), Rio das Ôndias B. p., im.
7 – pruinosum Lutz (Lassance), Cach. do Brejinho M. p., im.
8 – rubrithorax Lutz (Lassance), Serra de Guacuí M. L., p.
9 – spinibranchium Lutz Brejinho, Pirapora M. p.
10 – subviride Lutz (Lassance), Brejinho, Pirapora M. p., Rio das Ôndias, Barreiras, Vila Nova B. p.
Ceratopogoninae
Culicoides
1 – debilipalpis Lutz Campos de Januária M., im. ♀
2 – guttatus Coq. Boqueirão e Santa Luzia no rio Grande e rio São Francisco B. im. ♀ ♀
3 – paraensis Goeldi Paulista (Urubu) B., im. ♀ ♀. Rio Grande B. im. ♀
Cotocripus 4 – stylifer Lutz (Lassance) Vila Nova B. im. ♀ ♀
5 – pusillus Lutz Paulista (Urubu) B. im. ♀
Psychodidae
Durante a viagem no São Francisco foram apanhados dois Phlebotomus na luz de bordo, escapando um terceiro exemplar no rio Grande. O dr. Chagas observou um exemplar em Pirapora. Os exemplares examinados eram:
Phlebotomus intermedius Lutz
Fica assinalada a existência desta espécie nas margens do São Francisco, parecendo todavia rara e pouco conhecida.
Tabaninae
Diachlorus
1 – bimaculatus Wied. Buriti das Mulatas M.
2 – immaculatus
Chrysops
3 – laetus F. (Lassance), Buriti, Pirapora M.
4 – molestus Wied. Guacuhy M.
Erephopsis
5 – pubescens Lutz Serra de Guacuí M.
6 – pygmaea n. sp. Januária M.
7 – 23 scionoides n. sp. (Xiririca B.)
8 – xanthopogon Macq. (Lassance), Guacuí M., Barreiras. B.
Selasoma
9 – tibiale F. Pirapora M., (Xiririque B.)
Cryptotylus
10 – unicolor Wied. Januária M.
Tabanus
11 – miles Wied. Januária M.
Neotabanus
12 – comitans Wied. (Lassance), Buriti M.; Castela, abaixo de Remanso B.
13 – ochrophilus Lutz Buriti M., Urubu B.
14 – Triangulum Wied. Castela, abaixo de Remanso.
As mutucas apanhadas eram todas fêmeas; de larvas só se encontrou uma indeterminada, numa lagoa perto de Juazeiro. A estação e o modo de viajar não favoreciam o estudo deste grupo. Assim mesmo apareceram duas espécies novas que serão descritas oportunamente.
Notas sobre os mosquitos culicídeos
A fauna observada durante a nossa viagem é muito mais pobre que a da zona que cerca a Capital Federal, em primeiro lugar pela falta das numerosas espécies criadas exclusivamente em bromeliáceas ou bambus.
Quanto às espécies palustres e as que não entram nas categorias mencionadas, também eram pouco numerosas, em parte pela estação, e pelas limitações impostas por nosso modo de viajar; parece, todavia, que faltam muitas espécies, bastante freqüentes em outros lugares. O terreno inundado é certamente muito vasto, mas o número das lagoas permanentes é relativamente pequeno e em muitas delas, em conseqüência da insolação ativa e prolongada, a água chega a temperaturas que grande parte das larvas aquáticas não pode suportar. Mais prejudicial ainda deve ser a prolongada estação seca para as imagos, que, na maioria, só podem viver num ar um pouco úmido.
Pescamos várias vezes em lagoas cuja vegetação indicava que nunca secavam. As espécies encontradas eram pouco numerosas e idênticas às observadas em certos trechos dos rios onde a água estagnava, sendo a vegetação igual à das lagoas. Curou-se também de apanhar mosquitos na margem das lagoas, de dia e à noite, ou passando redes na vegetação em redor. Prestou-se também muita atenção às espécies que chegavam a bordo, seja de dia seja à noite, atraídas pela luz. Ficando o navio encostado quase todas as noites, deveríamos ter feito colheitas abundantes, como aconteceu com outros insetos, se a pobreza da fauna de culicídeos não fosse uma realidade.
As larvas, encontradas em lagoas ou rios, pertenciam aos gêneros Cellia, Mansonia, Culex, Melanoconion, Uranotaenia e Aedes, como se verificou, seja pela morfologia, seja por criação da imago adulta. As larvas de Aedes squmipennis, que não eram conhecidas ainda, se distinguem facilmente, por ter, de cada lado, um grande saco de ar na base da antena. As de Uranotaenia parecem-se com anofelinas, mas têm um tubo respiratório curto e ficam um pouco dependuradas, quando estão na tona d’água. Têm quatro cerdas grossas, colocadas no clípeo em dois pares, que bem os caracterizam. As larvas de Mansonia, que descobri, há já muitos anos, junto com as de Taeniorhynchus, só podem viver em água com vegetação na superfície. Ambas têm o tubo respiratório atrofiado e as antenas com as suas cerdas muito desenvolvidas, sendo as primeiras larvas de cor parda, as segundas de cor vermelha. Não se podem manter na superfície da água sem vegetação, mas esta pode ser substituída por fios de algodão, obtendo-se assim o desenvolvimento completo.
Encontramos a Cellia argyrotarsis em toda a viagem, sendo o navio, às vezes, invadido por ela nos portos. Pode ser considerada a única responsável pela malária da região. Em Xiquexique observamos o transporte pelo vento em condições especialmente favoráveis. A Cellia albimana foi encontrada em algumas lagoas, mas é comparativamente muito rara. A Mansonia titillans apareceu algumas vezes a bordo, como também algumas Uranotaenia e muitas Aedeomyia. Das primeiras apanhamos muitos machos, caçando com a luz, à noite, na margem de uma lagoa. De dia podem ser encontradas passando uma rede de vegetação em torno das lagoas. Observou-se freqüentemente a U. pulcherrima e raramente a geometrica. Estes mosquitos raras vezes atacam o homem, mas verificamos que não lhes faltam as mandíbulas, ao contrário do que se dá com Culex cingulatus e Aedeomyia squamipennis, como tivemos ocasião de verificar durante a viagem. O primeiro destes foi obtido de larvas de uma lagoa em Buriti M.
Apanhou-se um Melanoconion aparentemente novo. A bordo abundavam Culex fatigans e Stegomyia fasciata que se criavam na água do porão do navio.
Hemípteros sugadores de sangue
Além de percevejos comuns que correspondiam ao Cimex lectularius, observaram-se três espécies de Triatoma (Conorhinus):
1 – Triatoma maegista Burm. Ocorre nas margens do São Francisco, em Minas e em Mata de São João, perto de Alagoinhas.
2 – Triatoma maculata Erichs. llha do Cachorro M.
3 – Triatoma infestans Klug. Comum em quase toda a região. 4 – Triatoma rubrofasciata Degeer. Obtivemos um exemplar na cidade da Bahia [Salvador].
Lista dos moluscos terrestres e de água doce
colecionados na viagem
Determinações feitas pelo Dr. H. Von Ihering, diretor do Museu de São Paulo
1 – Glabaris moricandi. Rio Grande.
2 – Diplodon rotundus Spix. Baixo São Francisco.
3 – Ampullaria lineata Wagner. Comum nas lagoas do São Francisco.
4 – Hemisinus spica Ih. Baixo São Francisco. Comum em Vila Nova.
5 – Bulimula pachys Pilsbry. Traíra B. Muitas cascas vazias na serra.
6 – Streptocheilus oblongus. Morrinho. Muitas cascas vazias.
7 – Odontostomus spec. Januária. Muitas cascas na margem de uma lagoa.
8 – Stenogyra spec. Um exemplar do mesmo lugar.
Peixes do Rio São Francisco
1 – Lophiosilurus alexandri, Steind. Pacamão
2 – Pimelodus clarias, (L.) Mandi
3 – Doras marmoratus, Lutk. Caborje
4 – Serrassalmo brandti, Lutk. Piranha branca 5 – Pygocentrus piraya, (Cuv.) Piranha amarela
6 – Tetragonopterus rivularis, Lutk. Piaba
7 – Tetragonopterus chalceus, Agass.
8 – Salminus brevidens, (Cuv.) Dourado
9 – Brycon lundii, Lutk. Matrinxã
10 – Chalcinus angulatus, Spix.
11 – Myleus micans (Rhtt.), Lutk. Pacu
12 – Leporinus taeniatus, Lutk. Piau
13 – Pachyurus squamipinnis, Agass. Corvina
14 – Sternopygus carapo (L.) Sarapó
15 – Curimatus gilberti Ansy & Sand. Curimbatá
List of molluscs collected by Adolpho Lutz and identified by Hermann
von Ihering, director of the Museu Paulista, in a document hand-
written by the latter.
Relação dos moluscos coletados por Adolpho Lutz e identificados
por Hermann von Ihering, diretor do Museu Paulista, em documento
manuscrito por este (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta
244, maço 5).
Fishes collected by Adolpho Lutz and classified by Alipio de Miranda
Ribeiro, a zoologist at the Museu Nacional (Rio de Janeiro).
Peixes coletados por Adolpho Lutz e classificados por Alipio de
Miranda Ribeiro, zoólogo do Museu Nacional (Rio de Janeiro) (BR.
MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).
Nota sobre as esponjas-d’água-doce observadas
em afluentes do rio São Francisco
No rio Carinhanha e depois no rio Grande encontramos em junho e julho esponjas-d’água-doce. Todas estavam completamente secas, sem vida, e aderentes a raízes e galhos de arbustos, sempre mais de um metro acima da água do rio que ainda não tinha caído ao nível mais baixo. Em tempo das águas deviam estar submergidas, a pouca profundidade, durante um tempo não excedendo cinco meses e em correnteza moderada. Apresentam-se em forma de corpos de forma esférica ou oval, podendo o diâmetro maior chegar a 15-20 centímetros para um diâmetro menor de 12 centímetros no máximo. A cor é enegrecida, quando não estão cobertas de uma crosta de barro branco-amarelada. A consistência é rija, mas, em conseqüência da sua grande porosidade que lembra as casas de cupim, o peso é fraco. O esqueleto alveolar é formado por trabéculas, cuja espessura maior não excede poucos milímetros e geralmente mal chega a um milímetro: terminam em pontas curtas, ramificadas com chifres de veado, cuja distância recíproca raras vezes alcança ou excede um milímetro. Incluem um número enorme de gêmulas arredondadas, de diâmetro pouco excedendo um milímetro; só faltam entre as pontas periféricas. Em distâncias maiores a superfície é interrompida pelos oscula, aberturas de canais de 1 a 2 centímetros de diâmetro. Colocada na água, a esponja deixa sair uma parte das gêmulas que bóiam na superfície da água. Todavia, a maioria se mantém no interior da esponja, onde devem dar origem à nova geração de protozoários, o que explica o grande tamanho de certos exemplares que não podiam ser formados durante um período de imersão de apenas quatro ou cinco meses. Infelizmente, as nossas tentativas de obter uma nova proliferação pela imersão das esponjas deram um resultado absolutamente negativo.
Fig.102 – Freshwater sponges in Muquém, Carinhanha River. Image
originally published in Plate 9.
Esponjas d’água-doce de Muquém, rio Carinhanha. Cópia
fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em
Estampa 9 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244,
maço 5).
Pelo microscópio vê-se que o esqueleto é formado de agulhas de sílica não ramificadas, cilíndricas e terminadas nos dois lados por ponta subcônica, com extremidades um tanto arredondadas. Geralmente são um pouco curvadas. Nas gêmulas o seu comprimento é de 0,07-0,08 e a grossura de 0,005 mm; têm as duas pontas afiadas e são cobertas de espinhos finos.
Pelos caracteres vê-se que se trata de uma espécie do gênero Spongilla, ainda não descrita. Há outra espécie de esponjas-d’água-doce no sistema fluvial do Amazonas, que não pertence ao mesmo gênero. Para a nossa espécie o nome Spongilla franciscana parece indicado, pelo fato de que até hoje só é conhecida do sistema fluvial do rio São Francisco.
Jararaca de Santa Maria no rio Corrente, Estado
da Bahia
Descrição feita pelo Dr. Alípio Miranda Ribeiro
Lachesis lutzi
Cabeça relativamente pequena, curta, o focinho igualmente curto quase igualando a ½ da parte posterior da cabeça e ligeiramente arrebitado. Escamas da cabeça e do corpo fortemente carenadas, as da parte superior do alto do focinho maiores que as da posterior da cabeça; as carenas estendem-se por toda a extensão da escama. Há 5 séries entre as supra-oculares, 23 no corpo; 180 ventrais, 40 subcaudais (que são em duas filas). A rostral é heptagonal; a loreal é separada da labial, as supra-oculares são grandes; duas séries de escamas entre os olhos e as labiais, nasal bipartida; as três escamas que ficam mesmo no meio do diâmetro que separa as supra-oculares são igualmente maiores que as circunvizinhas. Labiais superiores 8. Coloração pardo-terrosa como a cascavel (Crotalus terrificus), com um ziguezague baio claro, indefinido, na parte superior; esse ziguezague, às vezes, forma losangos dessa cor, às vezes se interrompe para deixar máculas isoladas; na face abdominal as escamas são difusamente manchadas de escuro, com a orla clara. O focinho é escuro e não há nódoa nenhuma pós-ocular, antes esta região é mais clara. As escamas labiais têm o centro claro, o que é mais acentuado no lábio inferior; também as escamas do corpo têm a carena percorrida por uma estria clara, o que empresta ao desenho um aspecto muito particular.
Corpo 60 centímetros, cauda 75 milímetros.
É das jararacas brasileiras a que mais se assemelha à cascavel. Das jararacas propriamente ditas, a sua próxima vizinha é Lachesis picta, da qual é muito provavelmente uma variedade e se diferencia, apenas, pela ausência das manchas denegridas do corpo e da cabeça, que constituíram o motivo do nome daquela espécie peruana.
NOTA ADICIONAL DE LUTZ. Depois de comparar descrição, figuras e um exemplar de L. picta existente no Museu Nacional, não me parece que se possa filiar a esta espécie a nossa Lachesis de Santa Maria, cujo desenho é completamente diverso. É muito variegado, mas assaz indeciso, não formando figuras bem definidas, porque as cores são misturadas na maior parte das escamas e nos escudos. Também a cabeça difere bastante na forma, e, a julgar pelas indicações de Boulenger, o tamanho parece maior. Finalmente, também a procedência não é em favor da identidade.
The scientific names used by Adolpho Lutz in the travel report
published in 1915 were updated in the 1950s by João Moogen de Oliveira, a zoologist at the Museu Nacional, probably as a request
from Bertha Lutz, who was then preparing the new edition of her
father's report.
Nomes científicos usados por Adolpho Lutz no relatório de viagem publicado em 1915 foram atualizados por João Moogen de Oliveira,
zoólogo do Museu Nacional, nos anos 1950, provavelmente, a
pedido de Bertha Lutz, que preparava, então, a reedição do relatório
do pai (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).
* A relato da expedição de Adolpho Lutz e Astrogildo Machado ao vale do rio São Francisco, entre abril e junho de 1912, foi publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz em 1915 (t.7, n.1, p.5-50, 18 pranchas), somente em português, com o título “Viagem pelo rio S. Francisco e por alguns dos seus afluentes entre Pirapora e Joazeiro. Estudos feitos a requisição da Inspetoria das Obras Contra a Secca, direção do dr. Arrojado Lisboa”. Mantivemos italicizados os termos ou expressões assim destacados no original [N.E.]
1 Para designar a Doença de Chagas, Lutz cunhou a palavra ‘coriotripanose’, que une coris (do grego, significando percevejo) e ‘trypanose’, termo que o cientista preferia a tripanossomíase. ‘Tireoidite parasitária’, expressão sugerida por Miguel Pereira, foi, por algum tempo, o nome de maior aceitação no Instituto Oswaldo Cruz para designar a doença descoberta por Carlos Chagas. Conotava a localização do parasito na tireóide do homem, fundamentando a suposição de que o papo ou bócio fosse uma de suas mais notáveis manifestações clínicas. A ampla disseminação geográfica da doença, postulada já em 1909 por Oswaldo Cruz, deu origem a outra expressão usada para designar a Doença de Chagas: ‘tripanossomose americana’. [N.E.]
2 O mesmo que arenito. [N.E.]
3 Lutz usa a grafia menos comum ‘quica d’água’. [N.E.]
4 Lutz grafa soffré; substituímos pelo termo dicionarizado em português. [N.E.]
5 Espécies dos gêneros Nothura, Rhynchotus e Penelope. [N.A.]
6 Lutz usa ‘reptílios’. [N.E.]
7 O autor grafa ‘martinho pescador’. [N.E.]
8 O autor grafa ‘colubrina’. [N.E.]
9 Dicionarizado assim ou como matrinxão. O autor havia grafado ‘matrichem’. [N.E.]
10 No original, não há registro para o dia 24, mas constam duas entradas para o dia 31 de maio. É provável que o texto esteja defasado em virtude de erro tipográfico. [N.E.]
11 Lutz grafa ‘Barreiros’. [N.E.]
12 Ver nota 10. [N.E.]
13 Termo não dicionarizado; Lutz refere-se certamente a grandes jatobás, usando, talvez, forma local que designa a árvore pelo nome do fruto. [N.E.]
14 No original, não consta a entrada referente ao dia 5 de junho, que, provavelmente, começa aqui. [N.E.]
15 Original não acentuado. [N.E.]
16 No original, ‘podostemonaceas’. [N.E.]
17 Lutz refere-se provavelmente ao São Francisco, porque está no rio Grande. [N.E.]
18 O autor grafa Chique-Chique. [N.E.]
19 No original, ‘pocomão’. [N.E.]
20 No original, ‘dourine’. [N.E.]
21 O mesmo que conveniente, apropriado. [N.E.]
22 No original, constam duas entradas para 30 de junho. [N.E.]
23 No original, ‘Xiririque’. [N.E.]