Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Adolpho Lutz · Capítulo 11 de 24 · parte 3/4

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Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Viagem pelo rio São Francisco e por alguns dos seus afluentes entre Pirapora e Juazeiro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Depois do almoço fizemos uma excursão no Paramirim, pequeno rio que, mais acima, se dilata em lagoa bastante vasta, situada na base duma serra pouco elevada, onde parece haver muitos mocós. A lagoa, já bastante reduzida pela seca, tinha, à margem direita, um pequeno mato duma árvore muito singular com folhas pequenas, conhecida no norte por mari e fornecendo uma semente comestível. Gosta evidentemente d’água, porque cresce em terreno periodicamente inundado, como está provado pela presença de algumas esponjas-d’água-doce nas suas raízes, que são compostas de madeira, em parte clara, em parte quase preta. Os troncos estavam em parte escondidos por cortinas, formadas por uma cucurbitácea espinhosa que já tinha secado.

Essa lagoa, uma vez por ano, é sede de pescarias, feitas pela gente de Paramirim, que se reúne para esse fim, cada um contribuindo com parte das redes grandes. Nessa ocasião pega-se grande quantidade de peixes; pelo que nos informaram, no ano passado tinham-se pegado doze mil surubins de todos os tamanhos, que foram salgados, desprezando-se os outros peixes. É isso um exemplo da riqueza em peixes, existente na zona do São Francisco e dos seus afluentes; podia ser explorada dum modo mais perfeito, porque o surubim é um peixe de primeira ordem, quando bem conservado. Nos outros anos, o número apanhado não foi muito menor.

Afirmaram-nos que na lagoa havia muitos patos e marrecas, porém em toda a excursão não os vimos. Atirei em alguns exemplares dum pequeno socó (Butorides virescens), que era muito abundante no rio, onde havia também duas qualidades de martim-pescador e alguns larídeos. Na lagoa não faltaram a jaçanã e o téu-téu, quase sempre presentes nas lagoas. No rio havia também alguns jacarés.

Examinaram-se aqui uns doentes que não ofereceram interesse especial. A moléstia mais comum parece o impaludismo. Obtivemos uma ninfa e várias larvas de Triatoma sordida. De produtos da terra vimos cera de carnaúba, cera da terra e maniçoba. Exportam também surubim seco e pedras de amolar. Havia lá também um couro de onça preta, infelizmente mal preparado. Em terra o calor era muito forte.

Deixamos Paramirim às 4h35, seguindo rio abaixo em demanda da Barra, situada a 12 léguas de distância. Continuamos a viagem durante a noite, aproveitando o luar, e alcançamos a cidade da Barra depois das nove.

Fig.57 – Morpará Mountains, ‘macambiras’ (Encholirium spectabile

Martius, Bromeliaceae). Image originally published in Plate 11.

Serra do Morpará, macambiras (Encholirium spectabile Martius,

Bromeliaceae). Cópia fotográfica que corresponde à imagem

originalmente publicada em Estampa 11 (BR. MN. Fundo Adolpho

Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.58 – Morpará viewed from the mountains. Lapa viewed from the

mountains. Photo originally published in Plate 15.

Morpará vista da Serra. Vista da Lapa tirada do morro. Cópia

fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em

Estampa 15 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie

expedições, maço FOC).

Fig.59 – Water supply process in Barra. Photo originally published in

Plate 18.

Processo de abastecimento d’água na cidade da Barra. Cópia

fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em

Estampa 18 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie

expedições, maço FOC).

Fig.60 – Grande and São Francisco rivers seen from Barra. Photo

not published in the 1915 report.

Rios Grande e São Francisco vistos da cidade de Barra. Foto não

utilizada no relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz,

caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.61 – Barra, Bahia. Photo originally published in Plate 16.

Cidade da Barra. Bahia. Imagem originalmente publicada em

Estampa 16.

23 de maio – Saltei cedo e fiz um passeio pela cidade, que dá melhor impressão que qualquer das que visitamos em nossa viagem. O número das casas é avaliado em 800. São geralmente caiadas e há vários sobrados. Do lado do rio há escadas feitas de tijolos, que, embora estejam um pouco estragadas pelas enchentes, permitem galgar facilmente as ribanceiras que são bastante altas.

Há alguns largos, onde a terra arenosa, seca e transformada em uma camada de pó de algumas polegadas de altura, lembra o deserto. As ruas também estão sem calçamento, mas há passeios dos dois lados. Entre as casas existem jardins, onde vimos coqueiros-da-baía, cajueiros e goiabeiras. Num deles vi um fumo muito alto com flores, lembrando as da Nicotiana glauca, mas com um risco radial vermelho em cada pétala, enquanto as flores eram parecidas com as da N. tabacum, posto que muito grandes. Pensei tratar-se de nova espécie que não consegui determinar, mas hoje estou bem certo de que era apenas uma forma híbrida, derivada das duas espécies mencionadas. Assim primeiro supôs o Sr. Zehntner, que achou um pé semelhante, posto que menor, no meio das espécies parentes. As sementes, que tinha levado, não germinaram.

 

Fig.62 – Grande River banks. Image originally published in Plate 8.

Margens do Rio Grande. Cópia fotográfica que corresponde à

imagem originalmente publicada em Estampa 8 (COC, DAD, SI,

série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.63 – View of the Grande River, gameleiras (Ficus adhatodifolia).

Image originally published in Plate 4.

Vista do Rio Grande, gameleiras. Cópia fotográfica que corresponde

à imagem originalmente publicada em Estampa 4 (COC, DAD, SI,

série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Nesta zona há também muitas carnaubeiras, cuja cera é um artigo de exportação. Pelo que nos disseram em Paramirim, pode-se obter uma arroba de cera, no valor de 14-16 mil réis, de três mil folhas, pelo trabalho de dois homens durante um dia. Além de servir para velas, a cera tem qualidades físicas especiais e é procurada para cilindros de fonógrafos; as folhas secas servem para cobrir casas, ou podem ser transformadas em esteiras e vassouras.

Há aqui na praia uma feira, onde todas as manhãs se encontram peixes, frutas e uma porção de outras coisas. Há muitas melancias, bastante boas, e entre elas uma variedade, quase ou completamente, branca. A fruta-de-conde também é abundante e de muito boa qualidade, sendo vendida por preço ínfimo, 500 réis um lote bastante pequeno. Quanto às melancias, eram vendidas a um ou dois tostões cada uma. Obtivemos também laranjas de qualidade boa, mas eram escassas.

A cidade está situada à margem esquerda do rio Grande, um pouco para dentro da sua barra principal, acima da qual há um ou dois braços, levando uma parte de sua água para a margem esquerda do São Francisco. A largura do rio Grande aqui é imponente: importa talvez em meio quilômetro, mas não parece muito fundo. Forma com os seus afluentes um sistema fluvial navegável em grande extensão, e abrindo comunicação com sertões distantes.

 

Fig.64 – Grande River. Image originally published in Plate 6.

Rio Grande. Cópia fotográfica que corresponde à imagem

originalmente publicada em Estampa 6 (COC, DAD, SI, série

atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.65 – Fishing in the Grande River. Photo originally published in

Plate 18.

Pescaria no rio Grande. Cópia fotográfica que corresponde à

imagem originalmente publicada em Estampa 18 (COC, DAD, SI,

série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.66 – Fishing in the Grande River. Photo not published in the

1915 report.

Pescaria no rio Grande. Foto não utilizada no relato publicado em

1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Resolvemos demorar alguns dias na Barra, para esperar um vapor de Pirapora, que devia trazer uma caixa com reagentes e álcool. O tempo seria aproveitado para vários trabalhos e excursões. Para hoje cedo tínhamos arranjado uma pescaria com rede grande, em companhia duma dezena de pescadores. Num lugar, considerado muito bom, a rede foi deitada três vezes, mas o resultado foi quase nulo, limitando-se a um surubim de 60 centímetros de comprimento. Apanhamos também uma pequena tartaruga do gênero Hydromedusa, que conservamos viva.

No mesmo dia comprou-se um tatu-galinha (Dasypus sexcinctus), no qual encontramos carrapatos interessantes (Amblyomma concolor Neumann). Recebemos também uma cobra não venenosa. Nesta excursão encontramos outra vez em bastante abundância as esponjas-d’água-doce; os maiores exemplares foram fotografados. A água do rio era um pouco esverdeada e menos barrenta que a do São Francisco. É também geralmente usada para bebida.

25 de maio 10 – De manhã cedo fomos à praia e vimos aqui umas piranhas azuis, ao lado das amarelas, com que se parecem tanto que à primeira vista só se distinguem pela coloração. Há também uma piranha branca, que é a mais diferente. Aqui não há preconceito contra a carne das piranhas, que é regular; o peixe tem muitas espinhas, mas, nos exemplares grandes (que só servem para comida), podem ser facilmente evitadas. Havia também surubim, dourado e curimbatá (Curimatus gilberti Quoy & Gaimard).

O surubim é sempre o melhor peixe, tanto pelo gosto como pela falta de espinhas dentro da carne. Os dourados abundam no rio, mas não são de tamanho muito grande e são pouco apreciados. Mostram grande habilidade em escapar às redes, pulando por cima destas quando vem o momento crítico. Os curimbatás parecem bastante abundantes, porque encontramos pescadores que tinham duas canoas cheias; mas esse peixe, que se alimenta com lodo e matérias vegetais, deve ter gosto de lama. O matrinxã (Brycon lundii Lutk.) também é desprezado por causa dos seus hábitos pouco limpos. Os outros peixes pouco aparecem no mercado.

Fig.67 – A large ‘dourado’ fish caught in the São Francisco River.

Image originally published in Plate 9.

Um grande dourado pescado no rio São Francisco. Imagem

originalmente publicada em Estampa 9.

 

Fig.68 – Espírito Santo Feast. Barra Church, Plate 17.

Festa do Espírito Santo. Igreja da Barra. Estampa 17 (COC, DAD,

SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

De manhã estivemos ocupados a bordo, porém à tarde fizemos em canoa um passeio sobre o rio. Encontramos as margens e as pequenas ilhas tão alagadas, que mal se achava um lugar para saltar. Observamos mais esponjas-d’água-doce, todas bastante acima do nível atual da água do rio. Encontramos também no canal que liga os dois rios, acima da barra principal. À noite chegou o

vapor “Juazeiro,” que descia o rio Grande, de volta de Barreiras.11 Aproveitamos para mandar algumas cartas via Pirapora. Sendo a véspera da festa do Espírito Santo, havia na cidade grande exibição de pirotecnia.

26 de maio – Às 5 horas da manhã uma grande explosão de fogos de artifício marcou o começo duma festa no rio, na qual tomaram parte duas barcas e várias canoas cheias de gente, vestida, ora de marinheiro, ora de costumes fantásticos.Depois, a festa continuou em terra com procissões, acompanhadas de freqüentes descargas que se repetiram periodicamente durante o dia.

Ofereceram, para comprar, vários pássaros aquáticos novos, marrecas, um carão e uma garça parda, já bastante grande. Pode-se concluir, disso, quantas aves interessantes se poderiam reunir aqui, com pouca despesa, durante um ano inteiro.

Neste porto observou-se também a invasão de Lassida, atraídas pela luz de acetileno; ao mesmo tempo faziam pouco caso das lanternas de querosene.

O modo diferente pelo qual cada espécie de luz impressiona diferentes insetos é muito interessante. A própria chama de acetileno tem um efeito muito fraco sobre a maior parte de insetos, quando comparado com as luzes elétricas de arco.

27 de maio – Por causa da festa de ontem, não houve peixe no mercado. Apareceram outras frutas e legumes, cuja existência não tínhamos notado ainda, como caju, goiabas, tomates, maxixes e quiabos. Provamos também o refresco feito com doce de buriti, que triunfou sobre todas as prevenções e foi declarado excelente. A cor e o gosto lembram um pouco o doce feito com damascos secos. Comprou-se também mel de abelhas, porém o que chamavam assim não era o que esperávamos, mas uma espécie de mel de pau. Durante uma visita à cidade vimos muitos pássaros mansos ou em gaiolas, como jacu, pomba de bando, saracura, pato-do-mato, marreca, garça, maguari, seriema e passarinhos miúdos. Numa loja vimos muitos couros, infelizmente todos em mau estado. Havia onça preta, ariranha e lontra, cutia-de-rabo e mocó, sucuri, jibóia e lagarto.

O tempo, hoje de manhã, parecia prometer chuva, e de fato viu-se chover em alguns pontos do horizonte, aparecendo também um fragmento de arco-íris, mas, finalmente, o tempo se firmou outra vez, sem que tivesse caído chuva no porto. À tarde fizemos um passeio, colhendo alguns objetos de história natural. À noite peguei na luz uma espécie interessante de Mantispa, que tem as asas hialinas, com estigma escuro nas anteriores. Dei-lhe um mosquito, que logo capturou, principiando a devorar o abdome que estava cheio de sangue, comendo depois o resto, menos a cabeça, e continuando com outro mosquito.

Fig.69 – Espírito Santo Feast in Grande River, near Barra, Bahia.

Image originally published in Plate 3.

Festa do Espírito Santo, no Rio Grande, perto da cidade da Barra, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente

publicada em Estampa 3 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35,

pasta 244, maço 5).

28 de maio – À tarde fizemos uma excursão em canoa, pescando entre as plantas aquáticas num braço do rio, onde quase não havia corrente. Encontramos aí larvas de mosquitos dos gêneros Cellia, Uranotaenia, Culex e Melanoconion. Do último gênero, apanhamos na luz um exemplar duma espécie que parece nova, em companhia de exemplares de Aedeomyia squamipennis e de um Culex interessante.

Durante a excursão apanharam-se uns filhotes de téu-téu e matou-se uma craúna (Geronticus cayennensis). O pássaro é bastante freqüente nesta região, passando às vezes sobre o rio em pequenos bandos. A carne é comestível.

Nas margens do rio, que rodeiam a cidade da Barra, há uma flora bastante interessante. Nos lugares mais elevados encontravam-se muitas flores de malváceas e esterculiáceas, na zona mais baixa e úmida há uma interessante flora de plantas palustres muito miúdas, como Alisma ellipticum e Mayaca vandellii.

29 de maio – De manhã o vapor não tinha aparecido ainda, e a feira esteve sem interesse. Empregamos o dia em vários trabalhos, principiando-se o exame das águas colhidas durante a viagem. Chuviscou um pouco, mas não chegou a molhar o convés. À tarde chegou o “Carinhanha” de Juazeiro, trazendo vários passageiros.

30 de maio – Às 8h25 avistou-se o navio “Prudente de Moraes,” que vinha de Pirapora. Tivemos muita correspondência, mas não recebemos o álcool esperado, nem outras coisas, pedidas por telegrama. Para a tarde tínhamos arranjado outra vez uma pescaria com rede grande, que foi lançada duas vezes, em lugar pouco fundo dum braço do rio Grande. Por causa da largura das malhas só foi possível apanhar peixes grandes. O resultado total de vários lances consistiu nuns vinte curimbatás e alguns dourados, que não conseguiram saltar em tempo. Os pescadores aqui costumam pescar com as redes grandes à noite, e acreditam que a pesca de dia dá geralmente resultados inferiores. Durante o dia foram mortas uma craúna, um talha-mar, uma narceja, uma garça, vários socós e um inhambu. Peguei um pequeno Simulium, que deve ter sido criado a muitas léguas de distância.

31 de maio 12 – Depois de acabadas as últimas compras na feira, as amarras foram soltas e principiou a viagem rio acima. Encontramos três jacarés, dos quais dois pertenciam à espécie grande. Dois estavam apenas dormindo, mas um deles estava morto. Depois duma parada para tomar lenha, que aproveitamos para saltar, chegamos, ao meio-dia, a uma serra bastante alta e muito distante, que da cidade se descobre no horizonte e que o rio atravessa por uma abertura bastante larga. Esta serra é geralmente coberta por vegetação, mas em alguns pontos aparecem pedras ou solo descoberto; não havia chapadas. Os morros da margem esquerda têm o nome de Serra dos Olhos-d’água. Depois de meia hora estávamos outra vez em terreno perfeitamente plano e bastante monótono. Os bancos do rio mostram uma zona de capoeira, na qual de vez em quando aparece um Cercus alto; atrás desta zona de capoeira há muitas lagoas. Onde a água é menos funda, aparecem pontederiáceas com espigas de flores grandes e quase brancas. A água do rio é turva e ligeiramente leitosa, mas com tom verde distinto. À tardezinha, viram-se no rio dois patos-do-mato, os primeiros que apareceram até hoje. Duas léguas antes do Boqueirão há, no meio do rio, uma pedra, que já aparecia por cima da água; dão-lhe o nome de Pedra de Bode. Encontramos também algumas casas dos dois lados do rio.

Fig.70 – Prudente de Morais Steamboat near Barra, Bahia. Photo

originally published in Plate 3.

Vapor Prudente de Morais, perto da Barra, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 3

(COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições,

maço FOC).

Fig.71 – Arm of the Grande River. Image originally published in Plate

5.

Braço do Rio Grande. Imagem originalmente publicada em Estampa

5.

Às 7h50 paramos no lugar chamado Boqueirão, para passar a noite. Aproveitamos do luar e fizemos ainda um passeio em terra visitando uma lagoa, onde havia muitos mosquitos do gênero Cellia.

31 de maio – Ao acordar, vimos, dos dois lados do rio, a serra do Boqueirão, que havíamos atravessado na véspera. Estávamos amarrados na margem esquerda do rio Preto, que parece formar a continuação direita do rio principal. A sua água esverdeada, escura, mas bastante transparente, destaca-se da água muito mais amarelada e barrenta do rio Grande, que o encontra em ângulo obtuso, fazendo uma curva logo acima. Na confluência, mas ainda por dentro do rio Preto, via-se uma pequena ilha, meio alagada. Dos dois lados há muitas carnaubeiras de aspecto característico e pitoresco; mais acima da confluência reaparece a vegetação normal que acompanha os rios. As serras são cobertas de vegetação arborescente, entre a qual aparecem muitas pedras.

 

Fig.72 – Carnauba grove at the confluence of rivers Grande and

Preto. Image originally published in Plate 13.

Carnaubal na confluência dos rios Grande e Preto. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 12

(COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições,

maço FOC).

1° de junho – Voltei hoje cedo à lagoa que visitei ontem. No tempo das águas deve ser muito extensa, mas agora está quase seca. Encontrei cinco craúnas, pousadas num lugar lodoso, onde pareciam catar bichinhos. Na água pesquei algumas larvas de Cellia. Mais tarde fomos até um lugar onde a serra se encosta no rio e as pedras, que lá existem, permitem fazer a ascensão. Encontramos nestes muitos cactos, tanto Cereus como Opuntia e Melocactus, e bromeliáceas, porém tudo sem flor. Embaixo das pedras havia sinais indubitáveis da existência de muitos mocós, mas não avistamos nenhum deles. Embora não tivéssemos tempo de atingir o lugar mais alto, gozamos duma vista muito boa. Rio acima, via-se grande número de lagoas e alguns carnaubais nos dois rios; o resto do terreno era completamente plano, em parte vargem, em parte mato. Rio abaixo aparecia a Serra dos Olhos-d’água. Na parte onde estávamos, e que representa o ponto mais estreito do desfiladeiro, a comissão das obras contra os efeitos das secas pretende fazer uma grande represa.

Às 10h45 largamos as amarras e subimos o rio Grande. Encontramos grande número de lagoas e, entre elas, vários sítios com pastos e roças, onde se viam homens e animais domésticos. Saltamos perto duma lagoa, colhendo plantas e algumas larvas de mosquitos. Durante o dia observamos vários pássaros aquáticos, como craúnas e curicacas (Geronticus albicollis), garças e martins-pescadores. Ao escurecer deitamos ferro no meio do rio. Esta posição favoreceu a pesca com a linha, que rendeu várias piranhas grandes.

2 de junho – Levantamos ferro às 5 horas. Rio acima, as margens conservaram o mesmo caráter. O rio é muito tortuoso, fazendo, às vezes, voltas enormes; a sua largura, algumas vezes, não excede 40 metros. Às 6 horas passamos uma lagoa onde havia muitas craúnas e mais tarde avistou-se um guariba, sentado numa árvore. Havia aqui muitas gameleiras enormes, das quais algumas já tinham perdido as folhas, ao lado de outras que ainda estavam completamente verdes. Continuando a viagem, encontraram-se

mais guaribas numa das grandes jatobeiras 13 que abundavam nas margens, e caçaram-se três deles. Vimos também uma capivara, e atirei em algumas gralhas-do-peito-branco. No mesmo lugar encontrei um Oncidium ceboleta em flores; era a primeira orquídea bonita, encontrada nesta viagem. As ribanceiras em alguns lugares eram a prumo e bastante elevadas, sendo aproveitadas pelos martins-pescadores para fazer os buracos fundos na extremidade dos quais colocam o seu ninho. Durante esta viagem encontramos muitos jacarés, sendo alguns bastante grandes.

O mato aqui é bastante limpo, mas infelizmente abunda em carrapatinhos e carrapatos, não faltando também o micuim.

Viam-se também algumas tartarugas, trepadas em paus que saíam do rio.

Às 4 horas paramos num lugar chamado Poço Redondo, que visitamos, sem encontrar nada de interessante. Apanhou-se mais um dos pequenos borrachudos, que também devia estar muito longe do seu criadouro. Embora a corrente aqui fosse um tanto mais forte, não havia lugares apropriados para larvas de borrachudos.

Depois da noite completamente fechada, deitamos ferro no meio do rio. Na luz de acetileno peguei alguns mosquitos-pólvora e muitas Aedeomyia, mosquitos inofensivos, cuja tromba não é organizada para picar, como verifiquei por exame microscópico. Apareceu também um pequeno Phlebotomus, provavelmente da espécie intermedius, mas não foi apanhado. Algumas piranhas grandes caíram vítimas da própria voracidade.

3 de junho – Às 5 horas, quando levantamos ferro, a temperatura tinha caído a 15° e o rio estava coberto dum nevoeiro fino. Com o ar saturado de água, tudo estava molhado de orvalho. Chegamos logo a um lugar chamado Campo Grande, formado por umas vinte casas, perto do rio e, como sempre, com algumas lagoas que continham larvas de anofelinos. Aqui conseguimos, afinal, comprar uma canoa regular por Rs. 50$000 [50 mil-réis]. Continuamos a viagem por uma zona onde havia roças e pastos com muito gado, mas falta de árvores altas. Chegamos a um lugar onde o rio se divide em dois braços, cercando uma ilha com duas léguas de comprimento e bastante larga. Subimos o braço que ficou à nossa direita, achando-o, às vezes, bastante estreito. Depois de termos passado a ilha, encontramos outra vez o rio bastante largo; continuamos a viagem, apenas interrompida por uma caçada de guaribas, cujo alimento exclusivo parece consistir em frutas de jatobá. Às 3 horas, tomamos lenha em São José, perto de uma pequena serra, que já por muito tempo aparecia, de vez em quando, nas curvas grandes do rio. Em cima dessa serra havia alguns rochedos pitorescos. Outra, que passamos mais adiante, era toda coberta de vegetação. Pouco tempo depois encontramos o primeiro biguá branco (Plotus anhiga), que não conseguiu escapar em tempo. A autópsia revelou a existência de várias filárias na periferia do cérebro.

Às 6 horas chegamos a Santa Luzia, onde paramos para tomar lenha e passar a noite. Levei, à noite, uma lanterna de acetileno à margem duma grande lagoa, que lá existia, para pegar mosquitos. Apareceu apenas uma Uranotaenia, em muitos exemplares, quase todos machos. Esse mosquito raras vezes pica o homem, tendo todavia a probóscide formada para picar, como verifiquei examinando algumas fêmeas ao microscópio. Apanhei também exemplares duma espécie de Culicoide (mosquito-pólvora), que aproveitei para preparados microscópicos.

4 de junho – Fizemos, na nova canoa, um passeio sobre a lagoa, colhendo muitas plantas aquáticas interessantes e algumas larvas de mosquitos. Havia entre estas a larva, ainda não descrita, da Aedeomyia squamipes. Caçaram-se também alguns pássaros aquáticos. Existem aqui as quatro espécies de martim-pescador.

Pouco antes das 10 horas continuamos a nossa viagem. Na distância aparecia uma serra, formando uma chapada muito regular, ora à nossa direita, ora à esquerda, conforme as curvas do rio. As margens deste conservam o mesmo aspecto, sucedendo-se mato, lagoas e roças. De vez em quando a ribanceira eleva-se quase a pique, reaparecendo então os buracos dos martins-pescadores. Hoje vimos o primeiro tucano e alguns jacus, mas todos fugiram em tempo. A água do rio está agora muito mais clara, de cor verde-garrafa, e os bancos são mais arenosos.

Tomando lenha, encontramos uma cobra-coral-falsa e outra que a gente de bordo declarava unanimamente venenosa, dando-lhe o nome de jararaca. Tratavase, todavia, duma espécie noturna não venenosa. O povo em geral tem tanto medo das cobras que não chega a examiná-las, e as conhece menos bem do que qualquer outro bicho do mato.

Durante o dia deixamos à nossa direita a barra do rio Branco, que entra no rio Grande pela margem esquerda. Às 6 horas chegamos finalmente a Barreiras, situada sobre uma ribanceira, bastante alta, da margem direita. Demos ainda um passeio pela cidade, que é bastante grande, tendo as casas em grande parte contíguas. De cada lado do rio há uma serra, o que explica por que, daqui para diante, a navegação se torna tão difícil que os vapores considerem este porto como ponto final. A serra da margem esquerda do rio é muito extensa e quase plana em cima: a Serra do Mimo, que está do lado da cidade, é mais irregular.

Fig.73 – Mimo Mountains, Barreira, Bahia. Photo originally published

in Plate 2.

Serra do Mimo, Barreira, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à

imagem originalmente publicada em Estampa 2 (BR. MN. Fundo

Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

5 de junho14 – De manhã cedo, a temperatura estava bastante fresca e havia orvalho. Sendo a temperatura da água muito superior à do ar, o rio estava coberto de vapores.

Com o sol a temperatura se levantou logo, ficando o tempo bom. Fizemos uma excursão rio acima, parte a pé e parte em canoa, sem ver nada de interessante, a não ser dois cachorros-do-mato, encontrados perto da cidade. Visitamos dois afluentes vindo das serras; o da margem direita, chamado Ribeirão, é atualmente insignificante, o do outro lado é largo e fundo. Dão-lhe o nome de rio

das Ô 15 ndias o que parece uma modificação local para ondas. Procurei criadores de borrachudos, mas não achei nenhum. A região parece muito infestada de carrapatinhos, dos quais encontramos dois cachos em folhas ao lado do caminho. É um inconveniente sério para todas as excursões que não podem ser feitas em caminhos largos.

Durante o dia o calor foi muito forte.

6 de junho – Fomos a cavalo para um ponto distante do rio das Ôndias, onde devia haver cachoeiras. Chegamos lá e encontramos o rio, bastante largo e pouco fundo, que passava com corrente forte sobre um leito de pedras, fazendo justiça ao nome que lhe deram.

Nas pedras não havia podostemáceas16 e tampouco larvas e casulos de borrachudos, mas estes foram encontrados em galhos e folhas meio submersas; em outros, acima da água, também achei grande quantidade de ovos de mutucas, de espécie incerta. Nos cavalos não apareceu nenhum sugador de sangue. Os casulos, que forneceram no dia seguinte algumas imagos, todas muito pequenas, eram de quatro qualidades, o pium (Simulium amazonicum Goeldi), S. incrustatum Lutz, subviride Lutz, e paraguayense Sshrottky (?).

Fig.74 – Ôndias River. Photo not published in the 1915 report.

 

Rio das Ôndias. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (BR.

MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

O caminho, que passava no pé da serra da margem esquerda, era bastante interessante. Na viagem encontrei um lugar onde abundava uma Schultesia, pequena gentianácea com grande flor terminal amarela. No rio não há quedas; apenas a muita distância, perto da nascente, deve existir um salto bastante alto. Graças ao cavalo excelente que me deram, não cansei absolutamente nesta excursão bastante comprida. O dia era muito quente. Depois da nossa volta o termômetro, pendurado no convés em lugar abrigado, marcava 33°.

7 de junho – De manhã fomos a pé até a chácara do coronel Pompilio, onde vimos alguns pés de fruta-de-conde muito carregados, que nunca produzem uma fruta madura por causa dum microlepidóptero cujas larvas vivem na polpa, que furam em todas as direções, atacando também as sementes. Consegui mais tarde obter a imago. O mesmo parasito parece existir também no araticum das praias do São Francisco. Havia também muitas laranjeiras com outra moléstia, que produz exsudações de resina nas raízes.

À tarde fiz uma excursão em outra direção. Nas duas excursões colhi várias plantas, entre elas a Thevetia neriifolia, que parecia ter sido plantada, como também a Melia azedarach. Depois fizemos várias preparações microscópicas do material de borrachudos e mosquitos.

8 de junho – Fizemos a cavalo uma excursão à Serra do Mimo, do mesmo lado do rio e perto de Barreiras. Conseguimos sair cedo e entramos logo na sombra de capoeiras e capoeirões onde, de vez em quando, aparecia uma barriguda enorme. Esta espécie de paineira tira o seu nome da intumescência fusiforme que mostra o tronco. Subimos por um caminho regular, havendo, porém, lugares com muita pedra, for mando espécies de escadas. Pouco a pouco, chega-se à altura da serra, que pode ter uns 300 metros de elevação. Encontram-se, em vários pontos, pilares de pedra muito pitorescos, formados por blocos sobrepostos, às vezes mais largos ou mais salientes em cima do que me baixo. Tiramos fotografias destas, como também do belo panorama que se descobre do alto onde havia campo fechado. Depois colheram-se várias plantas interessantes, percorrendo a serra em sentido longitudinal, encontrando logo vegetação mais campestre, com arbustos espaçados. Em vários pontos se viam vestígios de queimadas. Encontramos vários pés de mangabeira; um deles tinha três frutos de forma redonda, ainda verdes e cheios de leite. Parece-me que, tanto na mangabeira como na maniçoba, há mais de uma espécie, confundidas com o mesmo nome. Os troncos das mangabeiras estavam cheios de talhes, indicando que deles se costumava tirar o leite. De maniçoba, encontramos apenas um pé, ainda novo. Achamos mais uma palmeira rasteira, muito menor que a indaiá dos campos de São Paulo, e uma Vellosia (canela-de-ema); infelizmente não tinham nem flores, nem frutos. Isto não se deu com um bonito pé duma espécie de Parkia, vulgarmente chamada sabiá, com inflorescências esféricas pendentes e pedúnculos muito compridos, que dizem ser um alimento predileto do veado. A flora desta serra parece muita rica e interessante. Quanto à fauna, encontramos apenas alguns passarinhos, e ouviam-se os gritos característicos dum bando de seriemas. Os córregos que atravessamos, com uma só exceção, estavam secos, como também algumas grandes escavações sem saída, evidentemente devidas à infiltração da água de chuva, que se encontravam em cima da serra.

 

Fig.75 – Parmelia batesi, liquen of the family parmeliacea, important

sources of coloring matter. Photo not published in the 1915 report.

Parmelia batesi, líquen da família das parmeliáceas, fontes

importantes de matéria corante. Foto não utilizada no relato

publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta

244, maço 5).

Fig.76 – Parkia sphaerocephala ? Song-thrush. Image originally

published in Plate 8.

Parkia sphaerocephala ? – Sabiú. Cópia fotográfica que

corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 8

(COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições,

maço FOC).

Depois de descermos por caminho bastante íngreme, paramos primeiramente num grupo de casas na base da serra e continuamos depois a nossa viagem, até a fazenda de Nova Vista, onde encontramos o dono, coronel José Mariano, que tem um engenho de açúcar. Experimentamos a cana e os produtos desta. Passamos depois o Ribeirão, cuja água é aproveitada para força motriz; achei aqui ovos de mutucas e algumas larvas e casulos de borrachudos. A forma adulta não apareceu, mas informaram que em certas ocasiões incomodam bastante. Voltamos por um caminho agradável, à sombra duma capoeira, e passamos um pasto, onde havia três emas mansas no meio do gado. Depois de uma ausência de umas oito horas, voltamos ao navio, muito satisfeitos com a excursão interessante.

À noite ofereceram-nos uma gambá, da espécie Didelphis albiventris; arranjamos também uma codorna viva. Há aqui perdizes e codornas, mas ninguém quis caçar por medo dos carrapatinhos.

9 de junho – De manhã, trabalhei com o material de ontem. À tarde, fiz uma pequena excursão a cavalo e a pé, mas voltei logo por causa dos carrapatinhos. Obtive alguns exemplares de Erephopsis xanthopogon, mutuca crepuscular grande e bastante espalhada. À noite, apanhei alguns insetos na luz.

10 de junho – Soltamos as amarras às 6 horas, com uma temperatura de 16°, e seguimos em direção a Barra, parando pouco tempo depois na fazenda do Brejão, onde, pelas informações, devia haver muitas mutucas. Em duas excursões, feitas de manhã e à tarde, apanhamos, entre outros insetos, duas espécies de mutucas e um pequeno borrachudo, idêntico ao pium do Amazonas. O lugar era impróprio para criadouros, porque faltava água corrente, fora do rio. Em canoa examinei todos os lugares onde a correnteza era um pouco mais acentuada, mas com resultado completamente negativo. Caçamos alguns pássaros e colhemos algumas flores interessantes, como uma convolvulácea de flores amarelas. O areticum aqui parecia afetado pelo mesmo parasito que tínhamos observado na fruta-de-conde. Passamos a noite no porto do Brejão.

11 de junho – Seguimos, pouco depois das 6 horas, com uma temperatura de 16°, parando logo num lugar chamado Pinhões. Enquanto se tomava lenha, embarquei na canoa, seguindo rio abaixo até a foz do rio Grande. Subimos durante algum tempo esse rio, que era bastante largo, contra uma corrente bem forte, sem encontrar nenhum criadouro de borrachudos. No meio do rio tirou-se para exame uma amostra da água, cuja cor não diferia da do rio

Grande. 17 Voltamos para este, e esperamos o vapor que veio logo. Continuamos a viagem até Santa Luzia, onde, na nova canoa, visitamos a lagoa, colhendo plantas e algumas folhas de Nymphaea com ovos de insetos. Matou-se um socó-boi e um irerê, que caiu no meio das Eichhornia e não foi achado. Em terra visitamos uma casa onde havia três micos (Cebus sp.) completamente mansos.

Continuamos depois a nossa viagem e encontramos um guariba macho, que atravessava o rio a nado, desaparecendo do outro lado. Presenciamos assim um fato já observado por uns, mas contestado por outros. Chegados ao canal da ilha, a navegação nas voltas tornou-se difícil e nem sempre conseguimos evitar o contato com a vegetação que cobria as margens. Às 6 horas chegamos a Campo Largo, onde passamos uma noite mais quente que qualquer outra da última parte da viagem. Na luz de acetileno apareceram muitos hemípteros aquáticos, efeméridas e outros insetos, entre eles um Phlebotomus intermedius.

12 de junho – Saí cedo em canoa e fizemos umas três léguas rio abaixo, até chegar o vapor, que se tinha demorado no porto. Observei, entre outras flores, uma malvácea muito cheia de espinhos que crescia na margem do rio, quase dentro da água. As suas flores arroxeadas eram pouco menores que as do Hibiscus rosasinensis, o mimo-de-vênus dos nossos jardins. Tirei sementes, que infelizmente não nasceram, quando as plantei no Rio de Janeiro. Achei também outro Oncidium ceboleta em flor e matei um iguana, uma cobra grande e um urubu de cabeça vermelha. Quando este caiu na água, as moscas, que o parasitavam, principiaram logo a voar, sendo algumas apanhadas na canoa. Vimos de longe um bando de jacus que, neste rio, são bastante comuns, mas muito ariscos. Parece tratar-se da Penelope superciliaris. Às 11 horas embarcamos no vapor, que nos tinha alcançado. Continuando a viagem encontramos vários jacarés, umas capivaras e vários pássaros maiores, como socó-boi, garça grande, craúna e jacu, mas não paramos mais. Noite fechada, chegamos a Conceição, duas léguas acima do Boqueirão. A noite estava bastante quente, mas não apareceram muitos insetos na luz. De mosquitos havia apenas algumas Cellia argyrotarsis.

13 de junho – Às 6 horas seguimos com céu nublado e a temperatura pouco abaixo de 21°. Apareceram as serras do Boqueirão. Chegados lá, uns embarcaram na canoa, subindo o rio Preto e visitando algumas lagoas. Viram de longe alguns tucanos e curicacas e mataram uma saracuraçu (Aramides gigas) e algumas marrecas que caíram na água e ficaram perdidas. Os outros, que foram caçar na serra, trouxeram dois mocós. Depois de um banho no rio Preto, voltamos para o vapor, que soltou as amarras pouco depois das 11 horas. Ao saltar em Boqueirão, pegamos alguns mosquitos-pólvora, da espécie Culicoides guttatus, que já conhecíamos de São Paulo e do Rio. Mostravam muita disposição para picar. Na volta não foram mais observados.

Obtive hoje, das frutas-de-conde de Barreiras, duas imagos dum microlepidóptero bastante grande (Antaeotricha anonella SEPP). As lagartas novas são brancas e pontilhadas, com a cabeça escura; roem primeiramente as sementes, escapando por buracos grandes para a polpa, onde se tornam encarnadas. Dentro duma aglomeração de excrementos a larva fia o seu casulo e transforma-se em crisálida castanha. Nestes lugares encontra-se também uma invasão secundária de larvas de moscas; a fruta apodrece e mofa em extensão variável ou mumifica-se, secando completamente se houver muitas lagartas.

Durante o dia experimentou-se a caça. Os mocós foram apreciados, mas a saracura gigante tinha um gosto péssimo, devido, provavelmente, à sua alimentação. É para estranhar, visto que as saracuras pequenas têm boa carne. As craúnas, que experimentamos, geralmente eram boas, mas uma tinha o mesmo mau gosto que a grande saracura. Por outro lado o socó-boi, que não julguei comestível, foi geralmente apreciado.

Continuamos a nossa viagem, parando uma vez para tomar lenha, e, ao anoitecer, chegamos a Barra com céu muito escuro e bastante vento. Encontramos, afinal, um caixão com álcool e formalina, que devia ter vindo há tempos.

14 de junho – Hoje cedo estava chuviscando e via-se magnífico arco-íris duplo. A chuva deu para inundar o convés e vários objetos que deviam secar nele, mas cedeu logo ao sol. Depois das compras necessárias, que causaram muita demora, deixamos a Barra à 1h30, entrando logo no São Francisco que, com as suas águas turvas, corria entre margens pouco elevadas, cuja vegetação baixa contrastava com a do rio Grande. Passamos algumas ilhas e bancos de areia, parando depois de uma hora para tomar lenha, na qual se encontrou outra vez uma cobra-coral não venenosa. Às 5h30 tornamos a tomar lenha, num lugar chamado Mucamba de Vento, onde saltei e colhi algumas plantas. Ficando tarde, resolveuse passar a noite nesse porto. Procuramos barbeiros em diversas casas, porém sem resultado. Na luz de acetileno apareceu grande quantidade de pequenos estafilinídeos, parecidos aos que se costuma encontrar nas flores.

15 de junho – Seguimos às 6 horas. Chegados perto da barra do Icatu, passamos para a canoa, com a qual entramos neste pequeno afluente da margem esquerda. Havia pouca água e muita corrente, dificultando o progresso. Aqui pegamos um dourado regular que saltou na canoa. Chegamos a custo perto dum lugar chamado Comércio, ao pé duma série de montes de areia, sem dúvida de formação eólica. Creio que já antes tínhamos passado algumas dunas, mas foi só daqui para diante que estas se mostravam com caráter bem evidente. Voltamos para o vapor entre bancos de areia e saltando por duas vezes numa ilha grande, bastante cultivada. Nesta zona, as plantações se fazem de preferência nas ilhas e zonas marginais, logo que baixam as águas que as inundam nas enchentes; isso lembra o Nilo, que tem muito de comum com o São Francisco. Tendo descido mais um pouco entramos no canal que

liga 18 Xiquexique com o grande rio. Depois das 2 horas passamos em frente dessa cidade, para ver a grande lagoa em que termina o canal, e tirar algumas fotografias desta e das serras distantes. Nas enchentes há uma comunicação direta com o São Francisco, o que abrevia muito as viagens da Barra para Xiquexique; podia-se manter esta comunicação por meio de um canal, projeto muitas vezes discutido, mas nunca realizado. Voltamos e paramos na cidade e fomos procurar uma casa onde havia muitos barbeiros da pequena espécie, como nos tinha informado o Sr. Zehntner, do Juazeiro, que lá estivera. Procurando no lugar indicado (umas pilhas de telhas no quintal onde as galinhas costumavam dormir), encontramos muitas Triatoma sordida em todos os estados de evolução, junto com dois escorpiões. Enquanto passeávamos na cidade, houve um tiroteio que acabou com a morte dum homem, que a polícia quis prender, e com ferimento grave dum soldado. Este lugar, de muito tempo, é conhecido por desordens freqüentes. À noite estivemos com o Sr. Jacques Meyer, francês, residente nesta cidade, que nos deu muitas informações úteis e algumas fotografias interessantes. Tem uma fazenda, bastante distante, onde faz plantações de maniçoba.

 

Fig.77 – Xiquexique and the river at a low level, Bahia. Photo by Dr.

Jacques Meyer. Photo originally published in Plate 7.

Xiquexique com o rio baixo, Bahia. Foto do dr. Jacques Meyer.

Cópia fotográfica que corresponde aimagem originalmente

publicada em Estampa 7 (COC, DAD, SI, série Atividades

Científicas, subsérie Expedições, AC-E 142).

A letter by Leo Zehntner (page 1 of 2) to Adolpho Lutz sent on April

11, 1912 from Xiquexique, a town on the margins of the São

Francisco River (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5). Zehntner was born in Reigoldswil, Switzerland, on January

1st, 1864; he studied natural sciences in Basilea and Berna.

Zehntner became a doctor of philosophy in 1890 and worked as an

assistant to the entomologist Henri de Saussure in Geneve. In 1894,

he was hired as a naturalist by the Pasuruan research station in

Java, Indonesia, where he conducted studies on tropical crops and

described new species of crop parasites, mainly coccidea, aphids

and hymenoptera. In 1905, he was hired as director of the Instituto Agrícola da Bahia, an educational organization recently founded by

the Bahia government. Zehntner adapted the old Imperial Instituto

Bahiano de Agricultura, founded in November 1859 in São Bento das Lages, a village near Santo Amaro da Purificação, to its new

name and functions.

During the six years of Zehntner as director of the Instituto, other

foreign researchers were hired: Ph. von Schultzeburg, Paul Bigler,

Paul Huart Chevalier, Zolinger, and Charles Reginald Girdwood.

However, Zehntner's work was hampered by facilities problems, and

by the lack of financial resources and of support to reach the

standards he had in mind for the organization. In 1911, the State of

Bahia transferred the administration of the Instituto Agrícola to the

federal government, who created the Escola Média ou Teórico-

Prática de Agricultura by the decree n° 8.584 dated March 1st, 1911

in São Bento das Lages. The school was to be administered by

Henrique Devoto. Zehntner returned to Europe in 1920 and died in

Liefstal, Switzerland, on April 3, 1961.

Carta de Leo Zehntner a Adolpho Lutz, remetida de Xiquexique, às

margens do Rio São Francisco, em 11.4.1912 (BR. MN. Fundo

Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5, duas folhas

manuscritas). Nascido em Reigoldswil, Suíça, em 1.1.1864,

Zehntner estudou ciências naturais em Basiléia e Berna. Doutor em

filosofia em 1890, trabalhou como assistente do entomólogo Henri de Saussure em Genebra. Em 1894, foi admitido como naturalista

da estação de pesquisa Pasuruan em Java, na Indonésia, onde realizou estudos sobre culturas tropicais, descrevendo espécies

novas de parasitas agrícolas, principalmente coccídeos, afidídeos e

himenópteros. Em 1905, foi contratado para dirigir o Instituto

Agrícola da Bahia, estabelecimento de ensino recém-fundado pelo

governo baiano. Zehntner tratou de adaptar às novas funções o

antigo Imperial Instituto Bahiano de Agricultura, criado em novembro de 1859 em São Bento das Lages, povoado próximo a Santo Amaro

da Purificação e ligado à vila de São Francisco.

A direção de Zehntner, que durou seis anos, permitiu a atração de

outros pesquisadores estrangeiros: Ph von Schultzeburg, Paul

Bigler, Paul Huart Chevalier, Zolinger e Charles Reginald Girdwood. O trabalho de Zehntner foi, no entanto, dificultado por problemas de

infra-estrutura, pela falta de recursos financeiros e de apoio à

instituição científica nos padrões que tinha em mente. Em 1911, o

Estado da Bahia transferiu a administração do Instituto Agrícola ao

governo federal, que, pelo decreto n° 8.584, de 1.3.1911, criou,

ainda em São Bento das Lages, a Escola Média ou Teórico-Prática

de Agricultura, passando a nova instituição a ser dirigida por

Henrique Devoto. Zehntner retornaria à Europa em 1920. Viria a

falecer em Liefstal, Suíça, em 3.4.1961.

Caro senhor,

Um de meus amigos chamou minha atenção para sua publicação Memórias, tomo VII, fascículo I, contendo a descrição de sua viagem ao Rio São Francisco.

Faria o senhor a gentileza de enviar-me, se possível, dois exemplares de sua publicação, um para mim e o outro para meus amigos em Xiquexique.

Vejo que o senhor me chamou de “doutor,” título ao qual não tenho direito algum, e sem querer criticar seu relatório, não posso passar em silêncio aquela frase concernente à prisão de um homem que tinha sido intimado a comparecer diante do delegado de polícia como testemunha. Em lugar de ir lá, ele simplesmente matou o soldado que lhe apresentava a intimação.

Se eu tivesse imaginado que o senhor iria publicar suas notas, ter-lhe-ia pedido a permissão de lhe fornecer uma sobre Xiquexique, na qual eu certamente não teria mencionado que esta localidade é conhecida há muito tempo “por desordens freqüentes,” pois isso teria sido uma afirmação contrária à verdade. Conheço o lugar há dez anos, e de perto, há seis anos, durante os quais não havia sequer polícia. Se houve desordens em Xiquexique a partir do ano de 1912, quando o senhor passou por lá, isso se deve unicamente à polícia que o governo atual do Estado da Bahia enviou para lá para tiranizar a população, a fim de agradar a um dos amigos do mesmo governo que se intitula “chefe político de Xiquexique”!

Fig.78 – Street scene in Xiquexique, Bahia. Photo taken on June 15,

1912 and not published in the 1915 report.

Cena de rua em Xiquexique, Bahia. Foto batida em 15.6.1912. Não

utilizada no relato publicado em 1915. (COC, DAD, SI, série

Atividades Científicas, sub-série Expedições, AC-E 1-41).

Uma pequena retificação: a fotografia que o senhor publica foi batida em 1912 e não durante a grande inundação de 1906.

Para concluir estas curtas linhas, permito-me dizer-lhe que guardo recordação muito agradável das poucas horas que passamos juntos em Xiquexique há quase quatro anos atrás, e rogo-lhe que creia que estarei sempre à sua disposição se puder se lher útil no que quer que seja.

Queira aceitar, caro senhor, minhas distintas saudações

Jean Meyer

Aos cuidados de London & Brazilian Bank Ltd.

Bahia

P.S. O senhor Dr. Zehntner continua em Juazeiro onde passa bem e de onde me escreveu ainda ultimamente.

Letter sent by Jean Meyer to Adolpho Lutz from Bahia in December 18, 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5). In his report, Lutz mentions Jacques, a Frenchman, who lived in

Xiquexique and owned a maniçoba farm. Judging by this letter, his

name probably was Jean Jacques Meyer.

Carta de Jean Meyer a Adolpho Lutz, remetida da Bahia, em 18 de

dezembro de 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta

244, maço 5). Lutz, no relatório, refere-se a Jacques Meyer, francês,

residente em Xiquexique, dono de fazenda de maniçoba. Como

este, na carta, não corrige a grafia de seu nome talvez fosse Jean

Jacques Meyer.

16 de junho – Tivemos hoje ocasião de ver uma pequena coleção de carbonatos, espécie de diamante preto, sem brilho, mas muito duro, encontrado exclusivamente no estado da Bahia. Só serve para fins industriais, mas o valor comercial de exemplares menores é superior ao de diamantes do mesmo tamanho, regulando 25 mil réis o grão. A região onde são encontrados é ainda bastante distante, no meio das serras que se vêem no horizonte e que fornecem muita borracha de maniçoba, sendo esta geralmente mal tratada e muito impura.

A cidade, cujo nome é derivado duma espécie de Cereus, tem um bonito edifício que é a câmara municipal. Quanto ao resto, as casas são nem muito boas, nem muito ruins. Nota-se aqui uma iluminação pública, feita com lâmpadas de querosene. No porto aparece a pedra natural em grandes lajes, e a cidade está bastante elevada acima do rio, sem os brejos e lagoas de costume; deve a estas condições um estado sanitário melhor. Assim mesmo, na grande inundação de 1906, foi totalmente invadida pela água, como mostrava uma fotografia tirada pelo Sr. Jacques Meyer. Há também um médico residente no lugar, cujas informações indicavam a ausência de qualquer moléstia endêmica. Não houve alastrim aqui, talvez por ser a população vacinada. Na margem do rio Verde, que, por terra, fica distante umas 12 léguas, há febres com caráter muito maligno, consideradas as piores da região. Deixamos de ir lá, por causa da grande distância e de ter já passado o tempo delas. Falaram também de beribéri epidêmico no Tabuleiro Alto, mas chegando mais perto do lugar, que é rio abaixo, só obtivemos informações negativas a esse respeito.

O dia foi muito quente, subindo a temperatura a 33°; às 10 horas da noite, estava ainda em 24°. Houve muitos insetos perto da luz de acetileno. Mais tarde, soprou um vento bastante forte, que fez desaparecer as efeméridas e trouxe várias Cellia argyrotarsis evidentemente carregadas de lugares bastante distantes. O canal em frente da cidade é igual em largura ao São Francisco em muitos trechos, e, provavelmente, os mosquitos provinham do outro lado. No porto havia muitas piranhas pequenas. Com anzol foram pescadas de bordo umas vinte, todas de menos de um palmo de comprimento.

 

Fig.79 – Xiquexique flooded. Bahia. Photo by Dr. Jacques Meyer.

Image originally published in Plate 7.

Xiquexique inundada. Bahia. Foto do dr. Jacques Meyer. Imagem

originalmente publicada em Estampa 7.

Fig.80 – Verde River, Bahia. Image originally published in Plate 6.

Rio Verde, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à Estampa 6

(COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições,

maço FOC).

17 de junho – Partimos antes das 6 horas com uma temperatura pouco acima de 22°, vimos na margem direita muitas carnaubeiras, caracterizadas pela forma globular da coroa. Às 7 horas estávamos no São Francisco, onde se via, acompanhando a margem esquerda, uma série de morros, aparentemente formados unicamente por areia, ora exposta, ora coberta de vegetação. Têm o caráter de dunas antigas e a sua formação eólica é corroborada pelos ventos fortes e freqüentes que, ainda hoje, reinam nesta parte do rio, onde as embarcações costumam fazer uso de velas. Do lado direito do rio, aparece um tabuleiro muito extenso. Passamos logo num lugar onde um vapor da companhia foi a pique, depois de ter batido numa pedra. Há disso oito anos, e ainda se percebem as pontas de duas chaminés saindo da água.

Continuar: parte 4 de 4