Adolpho Lutz: Primeiros trabalhos: Alemanha, Suíça e Brasil (1878-1883)

Adolpho Lutz: formação e primeiros trabalhos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Em 1877, a Universidade de Berna promoveu um concurso de monografias sobre temas relacionados a história natural. Adolpho Lutz dedicou a primavera e o verão daquele ano a coleta intensiva de material sobre a fauna Cladocera dos lagos e cursos d’água da

região,42 produzindo um trabalho que foi premiado pela Faculdade de Filosofia e publicado nos Anais da Sociedade de Ciências Naturais de Berna.

O interesse por aqueles microcrustáceos aumentara consideravelmente na segunda metade do século, após a descoberta da relevante função que desempenhavam na cadeia alimentar da fauna de água doce e do mar. Franz Leydig, professor da Universidade de Tübingen, na Alemanha, já havia enfatizado a importância desses invertebrados em trabalho sobre Naturgeschichte der Daphniden (Crustacea, Cladocera) [História natural dos dafnídeos]:

Não são todos que se interessam em estudar os organismos

sem segundas intenções. O interesse pelos animais é, em

geral, determinado por sua utilidade ao ser humano ... ou ... por

lhe serem prejudiciais. Aos amigos da natureza que pensam

desse modo, o autor tem o grande prazer de informar, com o

intuito de apresentar um motivo para que seja dada mais

atenção a estas pequenas e discretas existências, que os

cladóceros e os ciclopóides constituem o principal alimento dos

mais apreciados peixes nos lagos das montanhas da Baviera e

no lago Bodensee [lago Constança], ao sul da Alemanha ...

Estes são, no que diz respeito à quantidade de indivíduos, os

seres mais populosos das águas examinadas. Portanto há que

se admitir que os pequenos ostracodes são muito úteis ao ser

humano, ainda que indiretamente, pelo fato de alimentarem

esse grande número de peixes. (1860, p.2)

O estudo desse grupo foi fortemente estimulado pela nova técnica de coleta desenvolvida por Johannes Müller, professor da Universidade de Berlim, considerado o “pai da fisiologia e da biologia teórica na Alemanha”. Durante uma excursão com seus

alunos à ilha de Helgoland, no Mar do Norte,43 utilizou pela primeira vez uma finíssima rede para coletar organismos microscópicos que se encontravam em suspensão na água. A difusão da ‘rede de plâncton’ viabilizaria o aumento exponencial dos estudos sobre esses seres microscópicos. Entre os primeiros a analisar sua importância na cadeia alimentar estão o sueco Wilhem Lilljeborg (1816-1908), professor de zoologia em Uppsala (a Universidade de

Carl Linnaeus) e o norueguês Georg Ossian Sars (1837-1927): 44

Ilha de Helgoland, no Mar do Norte, onde foram iniciadas as

primeiras coletas da fauna marinha por Johannes Müller e outros

médicos-biólogos alemães. www.helgolandmarathon.de/

 

Excursão biológica para Helgoland em 1865. Participantes, da

esquerda para a direita: A. Dohm. R. Greff, E. Haeckel, sentados:

Salverda e P. Marchi.

Foto em www.awi-bremerhaven.de/BAH/history.html.

ao jogarem finas redes sobre as águas do Báltico, encontraram

toda uma fauna e flora, principalmente microscópica, de uma

bem ajustada sociedade de organismos, que incluía formas de

plantas sintetizadoras e os animais que as consumiam; e entre

estes animais todos os grupos sociais de herbívoros e

carnívoros, parasitas e decompositores. (Welch, 1935, p.4)

Não obstante os cladóceros fossem conhecidos desde o século XVII, somente em 1786 veio a lume a primeira classificação dos animais microscópicos que incluía esses microcrustáceos, da autoria de Otto Fredrich Müller (1730-1784), outro naturalista

dinamarquês. 45

O primeiro estudo sobre os cladóceros da Suíça data de 1820: Histoire des Monocles qui se trouvent aux environs de Genève, de Louis Jurine. Segundo Leydig (1860, p.3), esse livro publicado após a morte do autor, com figuras desenhadas por sua filha, examinava algumas relações fisiológicas mas tinha um caráter essencialmente descritivo. O pesquisador dinamarquês Peter Eramus Müller, que em 1867 divulgara relevante estudo sobre os cladóceros de seu país, publicou em 1870 uma nota sobre os que encontrou nos grandes lagos suíços. Outro antecessor de Lutz foi François-Alphonse Forel, professor da Universidade de Lausanne, que desde

1869 vinha estudando a fauna de profundidade do lago Leman.46

Genebra, vendo-se o lago do mesmo nome e, ao fundo, os cumes

 

nevados do Mont Blanc. Desenho de Dh. Weber com base em foto

de M. Garcin (Reclus, 1878, p.89, fig.12).

Nas pesquisas sobre esses microcrustáceos, Lutz pôs em prática toda a experiência adquirida durante os anos em que atuou como naturalista amador, encaixando-se perfeitamente no perfil idealizado por Leydig (1860, p.5): “Gostaria de ter a felicidade de conseguir incentivar os jovens pesquisadores ... a darem informações sobre os dafnídeos de sua pátria. O fato de um gênero tão notável como o Bythotrephes (do lago Bodensee) ... ter passado despercebido até então evidencia a grande probabilidade de novas formas ainda serem descobertas”.

Em suas coletas diurnas e noturnas, o jovem médico brasileiro usou todas as técnicas conhecidas para recolher tanto os animais de fundo como os pelágicos, encontrando nos diferentes habitats pesquisados 42 espécies pertencentes a 19 gêneros. Uma não se encaixou nas descrições existentes na bibliografia por ele consultada, motivo pelo qual Lutz a descreveu como espécie nova da família dos linceídeos, denominando-a Alona verrucosa.

Seu estudo não se limitou a sistemática dos cladóceros. Lutz observou também hábitos de vida, reprodução, habitat, disseminação, predadores, parasitas e simbiontes desses microcrustáceos. A inclinação darwinista de Lutz e sua adesão ao conceito de seleção natural ficam claramente evidenciadas quando

aborda a dispersão e adaptação daqueles animais. 47 Ao analisar a ocorrência ou ausência de alguns grupos nos ambientes pesquisados, comenta:

Influência maior parece ser exercida pela eliminação provocada

por espécies mais bem adaptadas da mesma família ou de

família estranha. Assim, no brejo turfoso de Bleienbach, em

meio a uma série de valas povoadas por cladóceros, existe uma

única que não os contém, mas que, em contrapartida, abriga

enorme quantidade de uma espécie minúscula de ostracode.

(Lutz, 1879, p.18)

Lutz chegou a conclusão parecida com a de Leydig: a falta de levantamentos sistemáticos da fauna acarretava falsas interpretações quanto a representatividade dos animais da Suíça.

O trabalho do jovem naturalista brasileiro foi apresentado a Sociedade de Ciências Naturais de Berna (Naturforschende Gesellschaft in Bern), instituição com quase um século de história. Em 1786, Jakob Samuel Wyttenbach (1749-1830), Samuel Emanuel Studer (1757-1834) e outros naturalistas fundaram a Sociedade Privada de Amigos das Ciências de Berna (Privatgesellschaft

Naturforschender Freunde in Berri) 48 . Em 1815, ela mudou de nome e em 1843 deu início à publicação de seu periódico, o Mittheilungen der Naturforschenden Gesellschaft in Bern. Segundo os estatutos de 1873, a Sociedade tinha por objetivo “a promoção e difusão das ciências naturais e matemáticas” e era composta por membros efetivos e correspondentes, podendo se candidatar a efetivo “todo amigo das ciências naturais que more no cantão de Berna”. Freqüentada por sua elite profissional – médicos, farmacêuticos, engenheiros, profissionais liberais e, principalmente, o corpo docente da Universidade –, a sociedade reunia-se a cada quatro sábados, nas “conferências gerais”, em que eram discutidas questões de interesse dos membros, e apresentadas palestras sobre os progressos de cada ciência. Os membros elegiam anualmente um secretário e um chefe, que convocava sessões específicas quando havia material para isso. Todos os trabalhos

apresentados eram veiculados nos 49 Anais da Sociedade.

Desenho de Cladocera da espécie Sida crystallina onde são

evidenciadas as suas estruturas internas (Leydig, 1860, prancha VI,

desenho do próprio autor).

Na sessão de 8 de março de 1878, presidida por T. Rothen, um dos diretores da telefonia de Berna, e secretariada pelo professor de fisiologia da Universidade, Gabriel Valentin, Teophil Studer, professor de zoologia de Adolpho Lutz, leu para os 22 membros presentes o trabalho de seu aluno, que fora premiado pela Faculdade de Filosofia. Publicado nos Anais da Sociedade no ano seguinte (Lutz, 1879, p.38-54), foi citado pelo Zoological Record para 1879 (p.3, 40-1), que destacou a descrição da nova espécie – Alona verrucosa -e a distribuição geográfica de Alona lineata e Chydories sphaericus (Mill) “no passo de São Giacomo, a uma altura de 2.400 metros”. Curiosamente, a espécie descrita por Lutz foi ignorada pelos especialistas do grupo, e em 1901, apenas 22 anos após a publicação de seu trabalho, o nome Alona verrucosa foi utilizado por Georg Ossian Sars para designar nova espécie de

Cladocera da América do Sul.50 Pela Lei da Homonímia, consignada no artigo 57 do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, o pesquisador norueguês não poderia ter utilizado o mesmo nome usado por Lutz, uma vez que o homônimo mais recente deve ser

rejeitado e substituído. 51

Adolpho Lutz deu continuidade ao estudo dos cladóceros assim que chegou a Leipzig, uma vez que a fauna da região nunca fora submetida a estudo sistemático (Lutz, 1878, p.36). Seu segundo trabalho foi apresentado à Sociedade de Ciências Naturais de Leipzig e publicado também em seus Anais. À época, lecionava na Universidade daquela cidade um dos grandes nomes da zoologia

experimental, Karl Georg Friedrich Rudolf Leuckart (1822-1898).52 Formado em medicina pela Universidade de Gõttingen, em 1847, foi discípulo de Rudolph Wagner (1805-1864), em cujo Handwörterbuch der physiologie (Manual de fisiologia) colaborou. Leuckart trabalhou no Instituto Fisiológico da Universidade de Gõttingen e a partir de 1850 começou a lecionar zoologia e zootomia comparada na Universidade de Giessen, tornando-se o titular da cadeira cinco anos depois. Em 1870, aos 48 anos de idade, migrou para a Universidade de Leipzig, para reger a cadeira de zoologia e zootomia, e lá criou um bem equipado Instituto de Zoologia. Sua reputação atraiu estudantes e colaboradores do mundo todo, e não foram poucos os que se tornaram renomados especialistas em zoologia aplicada. A medicina humana e a veterinária beneficiaram-se muito com as pesquisas de Leuckart. Ele desvendou o modo de transmissão das triquinas do porco para os seres humanos e toda a biologia desses vermes intestinais, e fez o mesmo em relação às tênias. A agricultura deve a ele a elucidação da complicada evolução e transmissão da distomíase nos rebanhos de ovelha. Leuckart realizou trabalhos igualmente importantes sobre outros parasitas helmínticos de seres humanos e animais e sobre piolhos de gado, moscas vivíparas e abelhas. Descobriu a existência dos micrópilos em ovos de insetos e demonstrou a necessidade do contato direto entre o conteúdo do ovo e o esperma para a fecundação e o desenvolvimento embrional. Die menschlichen Parasiten und die von ihnen hervorgerufenen Krankheiten (Os parasitas do ser humano e as doenças causadas por eles), livro publicado entre 1863 e 1876, foi por muitas décadas obra de referência fundamental para médicos e zoólogos. A segunda edição (1879), que contou com a colaboração de seu aluno Gustav Brandes, incluía já os parasitas de animais (Petzsch 1973 p 63-4)

Folha de rosto do The Zoological Record for 1879 editado por E. C.

Rye (1881, p.41), destacando-se o registro de Alona verrucosa,

espécie nova descrita por Adolpho Lutz.

Karl Georg Friedrich Rudolf Leuckart (1822-1898). Desenho

reproduzido em Petzch (1973, p.63).

Em outros volumes da Obra Completa de Adolpho Lutz o leitor terá a exata noção da importância extraordinária que Leuckart teve para os trabalhos sobre helmintos e demais vermes do zoólogo brasileiro. Por ora, queremos ressaltar seu papel no estudo de Lutz sobre cladóceros.

Assim como Johannes Müller (1801-1858), logo depois de formado Leuckart fez sua primeira expedição para o Mar do Norte e utilizou a técnica de coleta de animais marinhos com rede de malha muito fina. O estudo do material assim obtido levou-o a reformular a antiga classificação de Cuvier para os Radiata, que dividiu em dois novos grupos: os Coelenterata (pólipos, medusas e corais) e os Echinodermata (pepinos-do-mar, estrelas-do-mar e ouriços-do-mar). Leuckart tinha interesse sobretudo pelos invertebrados e sua biologia, e, como um sistemata muito perspicaz, procurou estabelecer clara diferenciação entre os invertebrados, até então agrupados de forma muito confusa nos sistemas do reino animal.

O trabalho de Adolpho Lutz sobre os cladóceros de Leipzig mereceu todo o apoio de Leuckart, tanto que foi ele que o apresentou a Sociedade de Ciências Naturais daquela cidade, assegurando sua publicação (Lutz, 1878, p.36-41). Lutz fazia as coletas nas horas vagas e dedicou a essa tarefa parte dos meses de outubro e novembro de 1877, assim como o verão de 1878. O tempo exíguo só lhe permitiu realizar pequena amostragem nos locais visitados, e por isso considerou seu trabalho incompleto. Mesmo assim, conseguiu coletar 35 espécies pertencentes a 16 gêneros, sendo designada por ele uma nova variedade de Daphnia hyalina. Lutz descreveu, ainda, pela primeira vez, o macho da espécie Alona

acanthocercoides 53 Fischer.

Os conceitos darwinistas foram usados desta feita para analisar a

formação de efípios e machos 54 em espécies partenogenéticas, assim como a relação destes com os fatores externos. Para Lutz, tal propriedade parecia ter sido adquirida por algumas espécies mediante a seleção natural; “em compensação, julgo duvidoso que o aparecimento de machos e de efípios possa ser provocado, concretamente, por dessecamento ou queda da temperatura” (Lutz, 1878, p.41).

Leipzig. Gandelstation (estação de gôndolas), 1905. Este foi um dos

locais onde Lutz provavelmente coletou cladóceros (Sohl, 1989,

p.53).

Fascinado pelos pequenos crustáceos, Lutz levou consigo a coleção de cladóceros ao deixar Leipzig com a intenção de continuar suas pesquisas em Estrasburgo. Ao chegar lá, em dezembro de 1878, um colega da Universidade de Leipzig escreveu-lhe para falar de novas técnicas de coloração que talvez o ajudassem:

Aproveito, feliz, a oportunidade de poder enviar-lhe uma

informação que li há pouco. Suponho, naturalmente, que a

pesquisa dos cladóceros etc. ainda ocupe suas horas ociosas.

Passo-lhe uma notícia que diz respeito à coloração desses

indivíduos. Você conhece a resistência que esses animais

opõem a todos os métodos de tingimento. Creio já lhe ter dito,

da última vez, que um zoólogo daqui descobriu um método de

maceração, fato que julga necessário manter ainda em

segredo, já que é, ao mesmo tempo, um homem de negócios.

Contudo, nesse entretempo, o Dr. Paul Mayer realizou

pesquisas na Itália, no Instituto Zoológico de Nápoles, com o

objetivo de obter resultados coloridos satisfatórios aplicando

tinturas adequadas às membranas de quitina ilesas. Nada

conseguiu com uma solução alcoolizada de carmim, mas sim

com uma tintura de cochonilha que ainda pode ser aproveitada

para outros fins: a cochonilha pulverizada deve ser deixada em

contato com álcool a 70% em 1 gr. 8-10 cc, durante vários dias,

filtrando-se a solução vermelho-escura assim obtida. Os objetos

a serem tingidos têm de estar isentos de ácidos; melhor ainda é

[deixá-los] previamente, durante algum tempo, em álcool a

70%. Conforme a intensidade e a natureza do objeto, o

tingimento leva de alguns minutos (infusórios, pelágicos, larvas

etc.) a alguns dias (crustáceos superiores, jovens cefalópodos,

órgãos de vertebrados etc.). A extração da tintura fixada nos

tecidos é novamente realizada com álcool a 70%; deve-se

continuar com cuidado por muito tempo, mesmo por dias a fio,

até que o álcool não absorva mais nada.

Obtém-se uma coloração de núcleo bem precisa e quase

sempre intensa. Eu tive a oportunidade de ver preparados muito

lindos! É notável que o tingimento tenha a cor da hematoxilina.

A tintura da cochonilha não se altera de modo algum, nem

tampouco a solução alcoolizada de hematoxilina [de

Kleinenberg], a qual, no entanto, não tem boa aplicação neste

caso. Além disso, sua preparação e aplicação são mais

simples, e a durabilidade, segundo as informações de Mayer, se

equipara à do carmim.

Não é preciso recear a coloração excessiva, mas caso isso

aconteça, poderá ser novamente retirada por lavagem com

álcool ácido (uma gota de HCl em cerca de 10 cm de álcool a

70%). Conserva-se melhor em resinas; a tintura, informa Mayer,

provavelmente não será tão resistente à glicerina, contudo

ainda falta a experiência.

Espero que você consiga aplicar esta tintura com maior rapidez

ainda. Não tenho cladóceros para poder conferir; você

encontrará as cochonilhas em qualquer ervanário maior; aliás,

não sei se as feras que levou daqui, em álcool, ainda se

deixarão tingir, mas, de qualquer modo, poderá tentar.55

Ao retornar a Berna, Lutz matriculou-se novamente na Universidade, cursou a clínica médica com Ludwig Lichtheim e, em seguida, prestou os exames finais, recebendo a habilitação para exercer a medicina em 19 de julho de 1879. Escolheu a clínica médica como área de predileção, e para preparar sua tese de doutoramento procurou um lugar no Hospital Cantonal de Berna. Não encontrou vaga e optou, então, pelo de St. Gallen, cidade situada na região nordeste da Suíça, próxima do lago Constança (Bodensee). Em 27 de agosto de 1879, o conselho administrativo do hospital aceitou Lutz como médico assistente pelo período de um ano. Nesse meio tempo, enquanto aguardava aquela colocação, continuou a estudar os cladóceros e chegou a anunciar uma visita ao pesquisador François-Alphonse Forel, que residia em Morges. Este escreveu a Lutz em 29 de julho de 1879:

Meu caro Senhor,

Quando estive rapidamente em Berna nos últimos dias,

esperava ter o prazer de visitá-lo, mas fui impedido pelo

pouquíssimo tempo livre que nossas sessões demasiado

carregadas nos deixaram.

Queria ter-lhe explicado meu pesar por não estar em casa

atualmente e não poder, assim, recebê-lo, agora que o Senhor

está livre. Estou com a família toda passando uns dias no

campo, onde vivem meus pais, e estes têm a casa tão cheia de

visitas que não me atrevo a pedir-lhes mais um lugar. Se o

senhor ainda estiver livre neste outono quando voltarmos à

cidade, minha mulher e eu ficaremos muito felizes se pudermos

lhe oferecer hospitalidade, e, para mim, será um grande prazer

lhe fornecer tudo o que puder, apesar de esse assunto não ser

seu tema favorito em nosso lago Leman.

Espero um dia ter o prazer de encontrá-lo em St. Gallen, na

reunião dos Naturalistas Suíços. Nessa expectativa, asseguro-

lhe, meu caro Senhor, meus sentimentos de afetuoso

devotamenteo.56

Lutz filiou-se à Sociedade de Ciências Naturais de St. Gallen, sendo acolhido na sessão de 1° de outubro de 1879. Segundo o relatório de atividades da Sociedade para o ano de 1880-1881, assinado por seu presidente, Dr. B. Wartmann, havia muitas dificuldades para manter elevado o nível das publicações, fato que atribuía à fragmentação cada vez maior daqueles círculos de amantes da natureza. Wartmann tinha a esperança de reverter esse quadro obtendo a maior participação de jovens cultos nos debates científicos da sociedade (St. Gallische N. Gesellschaft, 1882, p.1-2). A participação de Adolpho Lutz foi, na realidade, efêmera. Com as novas atribuições como médico e tendo ainda de desenvolver sua tese, os estudos relacionados à história natural ficaram, por ora, em segundo plano.

Inaugurado em maio de 1873, o Hospital Cantonal de St. Gallen era o resultado de discussões que vinham ocorrendo desde 1845 (Fritschi, 1997, p.100). Em 1858, os drs. Steinlin e Wegelin publicaram trabalho “Sobre a fundação, construção e organização de um Hospital Cantonal em St. Gallen”, com base nas visitas que tinham feito aos hospitais de Viena, Berlim, Munique, Frankfurt am Main e Zurique. Esse trabalho subsidiou a elaboração das plantas em 1868-1869. Aprovadas nesse último ano pelos dirigentes do cantão, começou imediatamente a construção do hospital. O regulamento que entrou em vigor em sua inauguração especificava as atribuições dos quatro médicos responsáveis pelo hospital – na época em que Lutz trabalhou lá, eram os drs. Wegelin, Züblin, Hilty e Bänziger. Cabia-lhes a direção do departamento cirúrgico, de dois departamentos para doentes internados, do serviço oftalmológico e do tratamento ambulatorial. Além de supervisionarem o trabalho dos enfermeiros, deviam inspecionar instrumentos, bandagens e aparelhos e ainda a limpeza, a ventilação, o aquecimento e a claridade nos quartos dos doentes. Para que conseguissem se desincumbir de tantos afazeres, aqueles quatro doutores contariam com o auxílio de um assistente cirúrgico e um assistente médico, para os quais o hospital seria um local de formação onde pudessem continuar seus estudos práticos.

 

Hospital de St. Gallen (Fritschi, 1997, p.128).

Contratado apenas seis anos após a inauguração do hospital, Adolpho Lutz tinha várias responsabilidades, como ele próprio relembraria em 1936 (p.853):

O hospital era novo e bem instalado. Todo o serviço da Seção

de Medicina ficava a cargo do assistente-interno, que, além

disso, assistia diariamente as operações cirúrgicas e dava uma

hora de consulta policlínica, devendo também preparar as

receitas mais simples e fazer as autópsias. Havia um pavilhão

separado para as doenças infecciosas ... Todos os pacientes

eram visitados três vezes por dia. Nas janelas desse pavilhão

havia grades para impedir os acidentes com os doentes

delirantes, precaução esta que infelizmente é muitas vezes

descurada aqui e em outros lugares.

Durante os nove meses que passou lá, 57 Adolpho Lutz desenvolveu sua tese e publicou no periódico fundado por Edwin Klebs, o Correspondenz – Blatt für Schweizer Aertze, um estudo clínico sobre um caso de bronquite fibrinosa aguda (Lutz, 1880, p.488-91). A doença, hoje conhecida também como pseudomembranosa, crupal ou plástica ou, ainda, doença de Championnière, havia sido descrita pelo médico francês Just-Marie-Marcellin Lucas-Champonnière (1843-1913): caracteriza-se por inflamação intensa da mucosa que reveste toda a árvore bronquial, com tosse violenta e paroxismos de dispnéia, na qual se expectoram cilindros ou moldes bronquiais (Stedman, 1979, p.192; Cardenal, 1960). Ainda que seu trabalho não fosse tão relevante academicamente, Lutz considerou importante descrever a doença em razão da raridade de sua ocorrência na região – era o primeiro caso de que se tinha registro no Hospital – e da evolução favorável pois, na época, a doença era ainda considerada de “natureza enigmática” (Lutz, 1880,

p.488). 58 A paciente tratada por Lutz era uma mulher jovem, de 22 anos, média de idade freqüente entre as pessoas que procuravam o Hospital, segundo o relatório referente a 1876. Lê-se aí ainda que as pacientes do sexo feminino eram trabalhadoras acometidas em geral por tifo ou “catarro gástrico” (inflamação do estômago) (Fritschi, 1997, p.215). A paciente de Lutz fora internada na primavera de 1879 com difteria e escarlatina, e voltara meses depois (28.1.1880) com diagnóstico de crupe laríngea dado pelo médico que a visitara em casa. Ao examiná-la no hospital, Lutz hesitou entre o diagnóstico de “bronquite crupal ou o de uma doença

diftérica primária das vias aéreas”.59 A doença evoluiu rapidamente e quatro dias depois a paciente estava completamente restabelecida.

No trabalho que publicou a respeito desse caso, Lutz descreveu, em detalhes os sintomas apresentados e o resultado das análises do material expectorado durante todas as fases, principalmente os coágulos fibrinosos e os fragmentos brônquicos contidos no vômito. O médico brasileiro recomendava aos pares que o liam o uso de preparados a base de quebracho para os casos de dispnéia, e isso era sinal de que aqueles resultados iriam servir para a elaboração de sua tese.

Incentivado por Ludwig Lichtheim, seu professor de clínica médica em Berna, Lutz decidira testar as propriedades terapêuticas da substância extraída da casca de uma árvore originária da América

do Sul denominada “quebracho colorado”. 60 A planta ficara mais conhecida entre os médicos europeus graças a iniciativa de um alemão residente na Argentina, F. Schikendanz, que em 1878 enviara cascas de árvores e outros produtos da região para Franz Penzoldt (1849-1927), professor e chefe da clínica médica da Universidade de Erlangen. Em meio ao material, encontrava-se a cortiça de uma árvore de nome “quebracho”, com a observação de que era utilizada pelos nativos como remédio para febre, em

Tucumán e nos países vizinhos à Argentina.61

A planta já era conhecida pelos botânicos por obra do naturalista Hermann Burmeister, que realizara viagem científica pelo interior da Argentina (18581860), enviando amostras de “quebracho” ao

botânico Dierdich von Schlechtendal, em Halle.62 Por esse nome eram designadas árvores com madeira extremamente dura na região percorrida por Burmeister; na verdade, ocorriam duas árvores distintas denominadas pelos nativos de “quebracho-colorado” e “quebracho-blanco”, diferenciáveis pelo formato da folha e pela cor da madeira. Para Burmeister, uma era mera variedade da outra, mas Schlechtendal classificou a espécie com madeira branca de Aspidosperma quebracho-blanco, e a de casca vermelha, como Aspidosperma quebracho-colorado. Para o botânico de Halle, as duas pertenciam à mesma família e ao mesmo gênero, o que acabou provocando confusão quanto às propriedades químicas e terapêuticas de cada planta.

A dúvida foi esclarecida por August Heinrich Rudolf Grisebach (1814-1879), ao estudar material coletado por outro botânico alemão, Paul Günther Lorentz (1835-1881), em Córdoba,

Argentina.63 Em trabalho publicado em 1874 (p.67), Grisebach distinguiu as duas espécies de quebracho, incluindo o colorado na família Terebinthacea (Anacardiaceae), no gênero Loxopterygium, espécie lorentzii. Em 1879, publicou outro trabalho sobre a flora da Argentina, e colocou a espécie L. lorentzii em novo gênero: Quebrachia. Com o passar dos anos, a espécie sofreria várias revisões taxonômicas, sendo denominada hoje Schinopsis

quebracho-colorado 64 (Schlechtendal) Barkley et Meyer.

 

Um exemplar de quebracho, fotografado em Mato Grosso, Brasil

(Lorenzi, v.2, 2002).

O trabalho que Lutz se propós a desenvolver consistia em verificar a ação terapêutica do quebracho-colorado, principalmente no tratamento de dispnéias. Quanto à classificação, Lutz seguiu Grisebach (1879), denominando a espécie a ser estudada de Quebrachia lorentzii (sinónimo de Loxopterygium lorentzii). Em razão da dificuldade em obter o extrato específico da árvore, passou a usar o ‘Extractum ligni Quebracho aquosum siccum” de Büdingen, em Frankfurt, que, segundo lhe informaram, provinha realmente da espécie lorentzii. O produto era fornecido pelo farmacêutico Stein,

vice-presidente da Sociedade de História Natural de St. Gallen.65 Em sua tese, Lutz mostrou-se entusiasmado com os bons resultados obtidos com o preparado, e o recomendou aos colegas, ressaltando seu pequeno volume, sua solubilidade e a possibilidade

de ser utilizado em pílulas ou clister. 66

As observações foram realizadas em pacientes dos hospitais de St. Gallen e de Berna, e tardaram a começar por falta de casos apropriados ao estudo das propriedades terapêuticas do quebracho. Como bom cientista, Lutz começou as experiências com pessoas saudáveis, verificando os efeitos do produto também em si próprio. Ao ingerir pequena quantidade do extrato em pó (5g), sentiu “leve sensação de calor contínuo na cabeça, mas não tão forte como a que fora provocada pela inalação de uma gota de éter amilonitroso. A respiração era fácil; depois de esforços, talvez mais do que de costume. Não se verificou efeito notável relativo a pressão e

temperatura”. 67

O efeito da substância foi bem diferente em pacientes com dispnéia. Lutz pôde observar neles, claramente, a diminuição gradual da freqüência respiratória. Após administrar o medicamento a cerca de 28 doentes com histórico de pneumonia, enfisema, bronquites, tuberculose, moléstias pleurais, tísicas, moléstias febris e anomalias cardíacas, todos devidamente monitorados quanto as freqüências de respiração e pulso e as curvas de temperatura, Lutz chegou a conclusão idêntica a que Penzoldt expendera para o quebracho-branco: o quebracho-colorado também poderia ser usado com sucesso nos mais variados tipos de dispnéia, supondo o médico brasileiro que o princípio ativo de ambos fosse o mesmo ou bastante similar.

Os resultados de Lutz não prevaleceram na terapêutica. Sabe-se hoje que a ação do quebracho-colorado é bem menos eficaz do que se pensava, ao contrário do quebracho-blanco que ainda é usado em virtude de suas propriedades antiespasmódicas, antiasmáticas,

tônicas, adstringentes e febrífugas. 68 O quebracho-colorado tem valor comercial mas em decorrência de sua utilidade na indústria e na construção civil, graças à dureza de sua madeira, a seu poder calórico e ao fato de ser uma das mais ricas fontes de tanino

conhecidas. 69

Em sua tese de doutorado, Lutz agradece o apoio de dois médicos de St. Gallen – Adolf Fehr e Hilty – e dois professores de Berna: Balthasar Luchsinger (1849-1886), do Instituto de Farmácia, titular da medicina veterinária de 18781884, e Lichtheim, seu orientador. O diploma de Doutor em Medicina Summa cum laude foi expedido pela Universidade de Berna em 28 de julho de 1880.

 

Viena. O Graben (a trincheira). Desenho de H. Clerget segundo foto

de M. Czihak (Reclus, 1878, p.205).

Com 25 anos, há dezesseis longe da família, Lutz decidiu que já era hora de voltar para o Brasil. Mas antes visitou alguns centros europeus para aperfeiçoar seus conhecimentos. No segundo semestre de 1880, passou três meses em Viena, um dos maiores centros mundiais em medicina clínica e dermatológica, e lá fez vários cursos rápidos. Em seguida, passou mais três meses na capital da Grã-Bretanha, onde teve a oportunidade de assistir a preleções e atos cirúrgicos de Joseph Lister no hospital do King’s College, na Universidade de Londres. Esteve, ainda, em Paris, em julho de 1881: a temporada aí foi de apenas um mês durante o qual, dizem os biógrafos, Lutz conheceu Pasteur. O jovem doutor recém-formado regressou então a Berna, refez as malas e partiu para o

Brasil.70

 

Um médico germânico no império escravocrata

de D. Pedro II

Na capital do império brasileiro, onde desembarcou em 1881, Lutz instalou-se na casa dos pais, no Catete, onde funcionava também a escola suíço-brasileira mantida pela mãe e pelas irmãs. Uma de suas primeiras providências foi validar o diploma na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (Albuquerque, 1950, p.10-1; Lutz, Lutziana). Em artigo publicado em abril de 1882, em Correspondenz-Blatt für Schweizer Aerzte, Adolpho Lutz descreveu esse trâmite e retratou a medicina no império brasileiro.

Estava em curso a reforma do ensino nas faculdades de Salvador e do Rio de Janeiro, que reuniam cerca de mil alunos, dois terços dos quais na capital do país. Os novos auditórios, as salas de preparação e os laboratórios que vinham sendo inaugurados, o ensino prático e as disciplinas recém-introduzidas representavam enorme progresso em relação à realidade anterior. Ainda assim, um olhar mais atento revelava diversas carências: a instrução básica era insuficiente, e o desempenho das escolas brasileiras estava longe de rivalizar com as faculdades de língua alemã, francesa ou inglesa. Contudo, para Lutz, o principal obstáculo residia no caráter do brasileiro: “A pontualidade, solidez e sinceridade científica lhe são estranhas, e ele se sente completamente satisfeito em manter as aparências. As antipatias e simpatias pessoais freqüentemente tomam o lugar da lei e do direito. O protecionismo e nepotismo são quase um cancro que não se pode exterminar”.

Santa Casa da Misericórdia, na praia de Santa Luzia, quando o mar

batia quase às suas portas. Aí transcorriam grande parte das

atividades práticas e teóricas da Faculdade de Medicina do Rio de

Janeiro, e aí Adolpho Lutz prestou os exam para validar seu diploma

de médico (Ferrez, 1895, p.138).

Outro problema era a conexão unilateral com a França, e a recusa a influências vindas de outros países, em particular os germânicos. Para exercer a profissão no país, os estrangeiros precisavam submeter-se a um exame numa das faculdades brasileiras. Quem não tivesse diploma, mas pudesse comprovar sua idoneidade, poderia exercer a profissão depois de prestar os exames correspondentes a todos os cursos da faculdade. Os que desejassem exercer apenas a prática cirúrgica, sem direito ao título de doutor, tinham de passar em, pelo menos, duas séries de exames, e defender uma tese. Professores estrangeiros de instituições reconhecidas e editores de obras médicas importantes eram isentos dos exames e das taxas. “Trata-se de uma legislação muito flexível”, observou Lutz, “que abre as portas ao favorecimento pessoal”. Os examinadores aplicavam a prova em português e muitas vezes em francês, pois os membros da elite local, “quase sem exceção, falam esse idioma fluentemente. Os médicos, em especial, dependem dos livros didáticos franceses para estudar”. Alemão ou inglês estavam fora de cogitação, ainda que houvesse “entre os médicos mais jovens alguns que falam alemão, as vezes surpreendentemente bem, o que ressalta o talento lingüístico dos brasileiros”.

Para o estrangeiro era difícil aprender corretamente o idioma nativo,

pois existem grandes oscilações entre a expressão verbal e a

ortografia, sujeitas ao arbítrio, e só se consegue aprender uma

linguagem refinada com os mais cultos. Devido a isso,

corremos o risco novamente de não nos fazermos entender por

pessoas sem formação, como serviçais, negros etc. Deixo a

fantasia de meus colegas traçarem o quadro da dificuldade em

se espremer tão rudimentar anamnese de um escravo negro,

que nem sua idade sabe. Quando ... depois de 15 minutos de

exame do doente, tivermos de escrever um laudo, com toda

certeza não precisaremos de uma injeção de pilocarpina para

suar, mesmo que o termômetro não esteja marcando os 30°C.

Segundo Adolpho Lutz, havia largo campo de ação no Brasil para os médicos europeus. O conhecimento da língua e da medicina francesas, por serem muito valorizadas, facilitava o sucesso. Advertia, porém, que:

logro e propaganda iludem aqui de uma forma inimaginável nos

países de língua alemã. O código de ética é tão pouco aplicado

que todas as polêmicas são divulgadas nos jornais, e muitos

colegas não se envergonham de acusar outros, ou de

despachar este ou aquele paciente para o inferno antes do

tempo ... pacientes mais pobres freqüentemente pagam os

honorários sob a forma de um agradecimento público ou

matéria de propaganda ... É fato conhecido que muitos médicos

recebem comissão dos farmacêuticos pelas receitas que

prescrevem ... Os médicos brasileiros seguem, na maioria das

vezes, o princípio do imposto progressivo e, no interior, o

descaramento muitas vezes não conhece limites.

Apesar das vantagens oferecidas pelas cidades maiores, Lutz advertia que a vida era três vezes mais cara do que na Suíça e, no caso do Rio de Janeiro, ao inconveniente do calor somava-se o risco da febre amarela. Nas cidades do interior, os estrangeiros enfrentavam privações, mas a formosura da natureza oferecia alguma compensação para isso, e quem se dedicava a uma prática bem conceituada conseguia fazer fortuna, como na Europa. A renda variava de acordo com a região, sendo escasso o dinheiro em algumas, e abundante em outras, como em determinadas áreas cafeeiras ou em algumas colônias alemãs no sul do país.

Temos algumas evidências de que a exploração dos negros e a mentalidade escravocrata constituíam outro componente repulsivo do caráter dos brasileiros para aquele jovem médico que, segundo conta sua filha, herdara os valores liberais pelos quais o avô se batera. Lutz era um homem orgulhoso da cultura alemã, valorizava a hierarquia pela competência e pelo saber, e era a tal ponto metódico, rigoroso, nos assuntos profissionais e nas condutas cotidianas, que o “precisamente” seria o cacoete de linguagem rememorado por todos os que conviveram com ele. No artigo citado anteriormente, sobre a medicina brasileira, alude a dificuldade de expressão do escravo quando interrogado pelo médico, mas não revela sua opinião sobre a escravidão. Em Lutziana, Bertha lembrou um fato narrado pelo pai:

quando prestava exames na Santa Casa da Misericórdia para

validar seu diploma, havia, entre os candidatos, um de raça

negra pura. Com grande espanto, Lutz ouviu de um dos

examinadores: “estamos fazendo todo o possível para reprová-

lo, mas ele está bem preparado demais”. Ao que o dr. Lutz, com

a simplicidade que lhe era peculiar, respondeu: “Mas se está

tão bem preparado, para que reprová-lo?”.

Arthur Neiva (1941, p.ii), que trabalhou vários anos com Lutz em Manguinhos, no mesmo laboratório, refere-se ao choque que ele sentiu ao vir trabalhar num país onde existia o cativeiro, e corrobora a opinião de que “seu espírito profundamente liberal” era avesso ao “preconceito de raças, sobretudo no que diz respeito as pessoas de cor que, tendo merecimento, eram tratadas com extraordinária consideração”.

Lutz ficou oito meses no Rio de Janeiro, enquanto esperava o exame de suficiência. Na tradução de sua tese para o português, acrescentou algumas informações que julgava importantes para o conhecimento dos médicos brasileiros, ao mesmo tempo que omitiu detalhes que seriam de pouca relevância para eles. Por exigência da Faculdade, acrescentou ainda seis aforismos de Hipócrates.

 

Engenho de Mandioca. Óleo sobre tela do pintor espanhol Modesto

Brocos y Gómez (Santiago de Compostela, 1852 – Rio de Janeiro,

1936) exposto em 1892 na primeira mostra realizada pelo artista no Rio de Janeiro. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Imagem

reproduzida de Wright (1907, p.175).

O tema de sua tese fez que se aproximasse mais da botânica, e no Rio de Janeiro Lutz fez amizade com Wilhelm Schwacke, botânico alemão que imigrara para o Brasil em 1873, e que fora contratado em março do ano seguinte como naturalista viajante do Museu

Imperial. 71 Em 1881, ele e Ladislau Netto, diretor do Museu, partiram para a região Amazónica com o objetivo de coletar material botânico e etnográfico. Do Pará, em 12 de fevereiro de 1882, Schwacke escreveu a Lutz uma carta extremamente amistosa:

Caro Lutz!

Lamentei muito não o ter visto mais antes de deixar o Rio ...

Fiquei esperando por você e o Lantz, mas infelizmente vocês

não foram a bordo. Voltei hoje pela manhã de minha primeira

viagem mais longa ao Marajó. Fizemos escavações em Parorial

[sic], pequena e esquecida ilha no grande lago de Arary, no

centro de Marajó, e trouxemos à luz do dia algumas urnas com

esqueletos humanos ainda relativamente bem conservados ...

Quanto à vegetação, realmente é impossível expressar por

meio de palavras o que se vê e a sensação que se tem. A

natureza aqui é única, e esta opulência e abundância de

palmeiras, espécies de bambu, só é possível numa zona em

que haja, como aqui junto ao Equador, uma temperatura regular

... assim como às margens de todo o rio Amazonas, as

palmeiras são as plantas mais extraordinárias: Mauritia

flexuosa,, Euterpe oleraceae, Bactris maraja formam bosques

que sobressaem de forma esplêndida na floresta. Você

certamente pode imaginar como foi arrebatador ter estado

nessas florestas e campos por um tempo. Apesar da inundação

das florestas e campos, coletei ... até algumas plantas cuja

família não conheço ... A planta jovem é bem vermelha, não

tem folhas e cresce como parasita junto a raízes de árvores que

raramente são cobertas com um humo negro. É a Helosis

guyanensis Rich. Ficaria tão feliz se você estivesse aqui

comigo!

Desejo-lhe tudo de bom e saúdo-o da melhor maneira, assim

como peço que apresente minhas melhores saudações tanto à

sua família quanto ao Lantz, e esteja convencido de minha

sincera amizade e devoção.

De seu afeiçoado

W. Schwacke 72

No primeiro semestre de 1882, Adolpho Lutz tentou se estabelecer em Petrópolis, como clínico, mas acabou optando por Limeira, para onde acabara de se mudar a irmã, Helena, recém-casada com o comerciante alemão Gottfried Wilhelm Luce.

De junho de 1882 a março de 1885, Adolpho Lutz residiria naquele importante centro cafeeiro, canavieiro e cerealífero da província de São Paulo, então com cerca de 14 mil habitantes e uma expressiva colónia suíço-alemã.

Tinham cessado já as experiências de parceria que levaram às sublevações de imigrantes suíços forçados a conviver com a escravidão e, em certa medida, a se sujeitar a ela nas fazendas de café, sublevações tão bem descritas pelo mestre-escola Thomas Davatz em Memórias de um colono no Brasil. A substituição do trabalho escravo pelo assalariado do imigrante europeu recomeçara em outras bases. Segundo Pestana (1915, p.8), Gustav, o pai de Adolpho Lutz, fora correspondente de vários suíços que trabalhavam na fazenda de Ibicaba, do Senador Vergueiro, uma das mais importantes da região. Ela abrigava também imigrantes alemães e bom número de norte-americanos, vindos da Louisiana após a guerra de Secessão. Estes instalaram-se numa vila próxima

à estação ferroviária de Santa Bárbara.73 Quando Lutz (1936, p.855) ia visitá-los, tinha de pernoitar na vila. Com freqüência, visitava as fazendas da região, nas quais “o pagamento era feito periodicamente” (Lutz, Lutziana), e às vezes, o doente era um escravo:

A primeira vez mostrou-se indignado por estar ... deitado no

chão, com o que o patrão ficou muito espantado. Depois disso,

adquiriu técnica diversa. Diria: “Pois não, se o seu escravo é de

valor, posso examiná-lo, mas o senhor terá que colocá-lo numa

cama, pór um cobertor para que eu possa auscultá-lo e ter a

cabeça um pouco mais alta. Depois, já que é um escravo de

valor, é preciso tratá-lo bem”.

 

Americana. Melões prontos para serem embarcados na cidade

fundada por norte-americanos em São Paulo (Wright, 1907, p.244).

Segundo Bertha, aos poucos o pai foi impondo suas idéias e ampliando a clínica. Conquistou reputação de exímio diagnosticador e passou a ser chamado a lugares distantes, que requeriam longas jornadas a cavalo, e com freqüência pessoas de cidades vizinhas vinham consultá-lo.

Como atendia doentes não só de Limeira mas de outras cidades ao longo da Estrada de Ferro Paulista, logo adquiriu uma visão abrangente das doenças que ocorriam na região. Em fins de 1882, enviou pequena nota para aquele periódico suíço que vinha publicando seus trabalhos desde 1880. Narrou as primeiras impressões do interior de São Paulo e relacionou os temas que poderia desenvolver em futuros artigos, com base em suas observações clínicas, enfatizando as contribuições que poderia dar a geografia médica. A diversidade de tipos étnicos que tinha sob seus cuidados proporcionava-lhe fecundas “observações a respeito da influência do clima e da raça humana sobre as diversas doenças; em meu serviço atendo negros, brasileiros, imigrantes alemães, portugueses e italianos, que, por conseqüência, proporcionam material comparativo muito interessante” (Lutz, 1883, p. 30). Os estudos que pretendia enviar aos colegas europeus iam ao encontro das discussões que travavam a propósito das raças que encaravam quase como diferentes ‘espécies’ humanas, capazes de se adaptarem ou ‘aclimatarem’ de modo diverso aos ambientes naturais dos trópicos e das zonas temperadas (Radl, 1988; Harrison, 1999).

Na nota publicada em 1882, Lutz criticava os métodos de cura criados pelo autodidata alemão Carl Baunscheidt (1809-1873), a partir de princípios da mecânica e da acupuntura, muito difundidos

em Limeira e seus arredores.74

 

Conclusão

A carreira de Adolpho Lutz (1855-1940) como médico e cientista compreende, grosso modo, três períodos. De 1881 a 1892, foi, sobretudo, um clínico, mas publicou numerosos trabalhos originais baseados nos casos que tratava ou no estudo da biologia de espécies que, de alguma forma, se relacionavam com os humanos e suas patologias. Esses trabalhos eram realizados nas horas vagas, a custa de grande disciplina. Como veremos em outros livros da Obra Completa de Adolpho Lutz, o período caracteriza-se por muitos deslocamentos. Ele percorreu diversas regiões do Brasil, Europa, Estados Unidos e Oceânia, e diversos territórios cognitivos – clínica médica, helmintologia, bacteriologia, terapêutica, veterinária, dermatologia, protozoologia, malacologia, micologia, entomologia –, deixando marcas significativas de sua presença nos estudos sobre parasitoses de animais silvestres e domésticos, lepra, ancilostomíase, febre amarela, tuberculose, doenças de pele e do intestino, entre outras.

De 1893 a 1908, colocar-se-ia à frente do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo, destacando-se como o quadro mais experiente e bem preparado de um grupo ainda restrito de médicos que foram, no Rio de Janeiro e em São Paulo, a vanguarda dos processos de instituição das medicinas pastoriana e “tropical” e de sua instrumentalização em proveito da saúde pública.

Embora partilhassem largo chão comum do ponto de vista cognitivo e institucional, essas medicinas possuíam dinâmicas e objetos próprios, e envolviam metodologias de pesquisa e tradições disciplinares em parte diferenciadas. Esquematicamente, a pastoriana estava voltada, sobretudo, para a investigação dos agentes microbianos de doenças, dos meios biológicos de convertê-los em soros e vacinas e dos meios químicos para a cura e/ou prevenção dessas doenças. A medicina dita “tropical” tinha em mira o estudo dos seres que hospedavam vermes e micróbios, e que serviam de vetores a propagação das doenças causadas por esses organismos em coletividades humanas e populações animais.

Além das estafantes rotinas laboratoriais, e de suas atividades como “homem público”, nesse segundo período Adolpho Lutz desenvolveria pesquisas importantes, para a ciência e a vida social e política, nos domínios da bacteriologia, epidemiologia e zoologia médica, especialmente entomologia e parasitologia.

Em 1908, já com mais de cinqüenta anos, Adolpho Lutz ingressaria no Instituto Oswaldo Cruz – IOC, abandonando o instituto paulista, que naufragaria algum tempo depois. Em Manguinhos começa o terceiro período de sua vida profissional, em que realiza a aspiração de se dedicar por inteiro à pesquisa -e não necessariamente de aplicação médica –, o que faz até falecer, no Rio de Janeiro, em 6 de outubro de 1940, poucas semanas antes de completar 85 anos. Graças à sua longevidade, essa fase, iniciada tardiamente, foi mais

longa do que as duas outras reunidas.75

Nas páginas que se seguem, o leitor conhecerá os primeiros trabalhos publicados por Adolpho Lutz. São os primeiros passos da extraordinária jornada que faria pelo conhecimento da vida e do homem, e que se acha documentada, por inteiro, nos livros subseqüentes da Obra Completa pelos editores que subscrevem esta apresentação e lhes desejam uma proveitosa leitura.

 

Notas

1 Os dados biográficos constam na Enciclopédia Delta Larousse (1975), nos volumes 2, 9 e 14, em Lutziana, de Bertha Lutz e sobretudo em Lauterburg (1862, p.269-84).

2 Giuseppe Mazzini (1805-1872) liderou um grupo revolucionário na Itália cujo programa era a expulsão dos governos estrangeiros, a abolição dos regimes absolutistas e a transformação da península numa república federativa. Esse programa serviu de inspiração a grupos similares que lutaram pela Jovem Polônia, Jovem Suíça, Jovem Alemanha etc.

Continuar: parte 3 de 3