Adolpho Lutz: hanseníase

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 8 de 41

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Adolpho Lutz: hanseníase

Ueber die Beziehungen zwischen Stäbchen und Coccen

Comunicação Original

 

Sobre as relações entre bastonetes e

cocos *

 

Dr. Adolpho Lutz

Definindo-se, segundo de Bary, os bacilos como células ou aglomerados de células em forma de bastonetes (mais precisamente, cilindros alongados), os quais formam esporos endógenos, então eles parecem completamente diferentes dos micrococos em todos os aspectos essenciais, de modo que poder-se-ia duvidar de um parentesco mais próximo com estes. Uma série de estudos que tive recentemente oportunidade de fazer, primeiramente nos assim chamados bacilos da lepra e depois em alguns outros mixomicetos, mostrou-me, porém, que há muitas transições entre os micrococos e algumas formas até aqui designadas como bacilos. Com isso, fiquei cada vez mais convencido de que,justamente nestes organismos inferiores, quase não sejustifica apartar as formas clorofiladas das não clorofiladas e situá-las em ordens totalmente separadas; além disso, para a compreensão das formas menores (fungos), dificilmente podemos prescindir de observações feitas em formas maiores (algas). A propósito, relações estreitas entre essas formasjá foram salientadas sob outro aspecto.

Comecemos com os micrococos, que apresentam – assim como formas de algas semelhantes, porém maiores – em suas células redondas isoladas tão poucos aspectos característicos, que quase não podemos levar em conta seu tamanho e sua coloração, duas relações cujo valor freqüentemente é muito reduzido para a sistemática. Embora vejamos muito pouco num coco isolado (muitas vezes mal podemos reconhecer a sua natureza, como organismo independente), encontramos indicações muito importantes nas condições de crescimento e armazenamento de um grande número de indivíduos. A multiplicação pode ocorrer em uma, duas ou em todas as três dimensões do espaço. Entretanto, constataríamos muito pouco dessa diferença caso as células se separassem umas das outras logo após a divisão; mas, como elas permanecem muito freqüentemente aglomeradas, surgem daí os conhecidos arranjos (diplo, estrepto, estafilococos, zoogléia) que nos permitem tirar determinadas conclusões sobre o tipo de divisão ocorrida.

Como as células redondas individuais não se tocam nas aglomerações – nem se cogita de uma simples adesão -, estas devem estar unidas por um meio conglutinante. Este, de um lado, deve ser hialino, de outro lado, coloidal,já que habitualmente não o detectamos e também não o podemos corar. Ele deve se comportar fisicamente de modo semelhante às separações gelatinosas das croococáceas e de muitas algas filamentosas (em sentido amplo) ou aos pedículos mucosos de várias diatomáceas, mas, em todo caso, apresentam uma coesão não insignificante,já que os aglomerados parecem ser bastante firmes.

A questão agora é como esse invólucro mucoso ou gelatinoso (como o designamos em concordância com ocorrências idênticas) se originou. De qualquer forma, elejá deve ter existido antes de cada divisão,já que só assim se pode explicar a necessidade de se manterem unidas. Ele deve ter sido, portanto, uma secreção ou um componente da primeira célula.

Numerosas analogias nos ensinaram que tais mucosas podem se originar de uma tumefação das membranas celulares. E, há muito tempo, é do conhecimento dos botânicos que, freqüentemente, estas últimas podem desempenhar até mesmo um papel importante nos processos de reprodução das criptógamas inferiores. Além disso, sabemos que uma divisão celular sem a participação da membrana, supondo portanto um “encaixamento,” ocorre ali com freqüência. Não espero encontrar objeções se eu explicar a interdependência dos indivíduos isolados afirmando que os cocos se dividem por encaixamento e que se mantêm reunidos pelas membranas celulares velhas gelatinosamente intumescidas.

Pelo processo de tumefação poderá surgir, a partir de uma consistência rja (do tipo cartilaginoso, lenhoso ou coriáceo), não somente uma configuração totalmente macia, mas o resultado final poderá ser, pelo desaparecimento da coesão, uma dissolução completa. Para isso, é sempre necessária uma quantidade razoável de água, ao passo que, quando esta é suprimida, não raro ocorre um adensamento da consistência. Enquanto a capacidade de tumefação é bastante difundida, a intensidade e a rapidez do amolecimento gelatinoso sob condições normais são bem diferentes nas diversas formas.

Se partirmos, então, do coco individual, o qual se divide apenas em uma direção e cujas células-filhas permanecem revestidas pela membrana original não dividida, podem advir formas bem distintas, de acordo com o grau de tumefação.

De um invólucro espesso e pouco tumefato obteremos uma forma de biscoito; por uma tumefação mais forte, curtos bastonetes com cantos arredondados ou mesmo em formas ovais. Se a capacidade de tumefação for tal que o envoltório adquira o expoente de refração da água ou do líquido de exame e perca o das células inclusas, veremos um diplococo; se, no entanto, o envoltório e o conteúdo têm o mesmo índice de refração, então desaparecerá o último e o formato geral será determinado pelo envoltório. Também as preparações coloradas se comportam de modo diferente, segundo a aceitação relativa do corante pelo invólucro, quando novamente são significativos o teor de água e o grau de tumefação. Mas partes isoladas do envoltório podem também estar tumefatas em graus diversos; surgem, assim, configurações que são mais irregulares, e por isto difíceis de serem identificadas. De qualquer maneira, a diferença entre um diplococo e um bastonete curto com cantos arredondados, que se cora mais fortemente nos pólos, é apenas de grau.

Havendo uma série de cocos, então as proporções ficarão mais complicadas, surgindo envoltórios de várias camadas, pois a divisão sempre excetuará as membranas. Podemos, com isso, imaginar as formas sob as quais poderá aparecer a fileira de células: 1) bastonetes homogêneos ou filetes com extremidades arredondadas que, segundo as condições de coloração e tumefação, aparecem mais largos ou mais estreitos; 2) os mesmos bastonetes ou filetes apresentando constrições mais ou menos profundas e largas; 3) fileiras de células aparentemente sem ligação (forma de estreptococos). De acordo com a consistência da substância de ligação, poderá surgir um menor ou maior arqueamento e dobra, ou até um serpenteado do grupamento geral. Se o envoltório for muito volumoso e confluir com o daquelas fileiras de células vizinhas, então surgirão cópias reduzidas de nostocáceas, bolas mucosas com cordões celulares inclusos em forma de rosários.

Todas estas possibilidades apresentadas para duas ou mais células ocorrem e foram também observadas por mim. Enquanto algumas formas são identificáveis sem maiores dificuldades, necessita-se, para as outras, de métodos específicos de preparação. Assim, explica-se que alguns pesquisadores falem de formas que podem aparecer como cocos e bastonetes, outros, de bastonetes semelhantes a cocos ou vice-versa; ao passo que, em casos isolados, uns encontraram bacilos onde outros viram apenas micrococos. Quando, então, um bastonete se desdobra em pequenas células redondas, isto não é necessariamente um processo de morte, e a bolinha isolada poderá permanecer completamente viva,já que a integridade de seu envoltório pode ser desnecessária para sua manutenção.

O bacilo da tuberculose pertence, em primeira instância, àqueles bastonetes que se dissolvem em cocos utilizando-se preparação adequada. Vi as primeiras preparações que apresentavam bastonetes convertidos para a forma de estreptococos com o Prof. Schrón, em Nápoles. Mais tarde, Voltolini publicou um método através do qual se pode dissolver os bacilos da tuberculose em “cordões de pérolas”. Para essa finalidade ele aplica ácido nítrico fumegante às preparações de lamínula, antes de serem coradas. Como esse método não funcionou nos bacilos da lepra, presume ele que esta forma seja característica para os bacilos da tuberculose, considerando-a, porém, como um artefato, um produto de coagulação. Desde então, indiquei uma modificação do método de Gram, pelo qual se pode representar os bacilos individuais da lepra e da tuberculose como células isoladas – ou ligadas através de pontes estreitas, filiformes – dispostas em fileiras (A. Lutz, Zur Morphologie etc., Dermatologische Studien herausgegeb. v. P. G. Unna, I Heft. Hamburg, Leopold Voss).

O ácido somente é utilizado após a coloração. A propósito, Gramjá indicava que os bacilos da tuberculose, tratados segundo seu método, freqüentemente tinham aparência granulada ou semelhante à de estreptococos.

Não posso aqui me aprofundar na teoria da coagulação de Voltolini; ressalto, entretanto, resumidamente, que nem ácido acético, nem ácido de ósmio, nem álcool absoluto, nem calor elevado provocam tal coagulação, e que só se obtém esse efeito com ácido nítrico ou clorídrico não diluídos em água, puros ou misturados com álcool absoluto. Graus de acidez mais fracos produzem figuras irregulares, que são descritas como bastonetes com fendas, bacilos com indícios de esporos etc.; estes podem, em determinado sentido, valer como produtos artesanais, mas não as figuras altamente regulares obtidas segundo o meu método. Estes últimos, em parte, correspondem exatamente à fotografia de bacilos surgidos acidentalmente num antraz apresentada por Koch (Mitth. des Reichsgesundheitsamtes Bd. I, Figura 39) e à descrição que Klebs fornece de seus bacilos da malária. Os ácidos anidros citados parecem ter ação tão-somente gelatinizante sobre as membranas celulares; que eles não as destroem diretamente é facilmente observável em formas maiores – fungos e algas. A substância do invólucro tratada com ácido é, no entanto, algo diferente da simplesmente tumefata nas suas proporções de coloração.

Quando eu submetia os bacilos de outra espécie a um tratamento provisório com HCl ou +HNO e em seguida secava sobre uma 3 chama, a coloração seguinte apresentava a forma de estreptococo. Assim, decompus duas formas cultivadas de secreção uretral e prepucial de ulcus molle. Algumas formasjá apresentavam, na preparação não colorada e secada ao ar, indicações inequívocas de uma estrutura celular: um bacilo se apresentava nitidamente amarelado ao microscópio, ao passo que em caldo de cultura produzia uma cor amarelo-esverdeada fluorescente e um odor que lembrava o Melilotus officinalis (n.6, 18, 19, Eisenberg).

Em meu trabalho sobre o mixomiceto da lepra, sugeri para aqueles bastonetes que são dissolúveis em cadeias de cocos ou em fileiras de células acamadas em um filete o nome de Coccothrix, e incluí nesse gênero os fungos da lepra e da tuberculose, bem como o Bacillus malariae Klebs e Tommasi. Segundo as mais recentes comunicações de Matterstock sobre os bacilos da sífilis, não há dúvida de que estes são parentes bem próximos do fungo da lepra e pertencem ao seu gênero.

Além das células redondas comuns, ocorrem também nos fungos da lepra células ovais, maiores, de parede espessa, na extremidade dos bastonetes. Estas parecem descender de células comuns e representar uma forma de permanência. Como elas, às vezes, adquirem uma cor diferencial durante a dupla coloração, parecem ter sido, por vezes, vistas como “produtos de decomposição de núcleos celulares”.

Quadros idênticos foram descritos por Matterstock em casos de sífilis; acredito tê-los visto também em micróbios da tuberculose, mas não consegui resolver a questão por falta de material apropriado e irrefutável. Também neste caso se encaixa o material descrito como bacilo de baqueta.

Outros cocotricáceos possuem também “esporos” ovais no interior dos filamentos; mas como também, segundo nossa concepção, os esporos terminais têm origem “endógena,” esta diferença é insignificante.

Com isto encerro a minha curta comunicação sobre esse interessante objeto, sem me referir a todas as suposições que derivam dos resultados obtidos até agora. Para a confirmação do significado dos métodos citados para a compreensão dos mixomicetos em bastonetes, são necessários ainda numerosos exames individuais e, como eu não deverei ter, nos próximos tempos, oportunidade de dar continuidade a tais estudos, prefiro apresentar estas questões à consideração geral.

 

* Publicado originalmente como ‘Üeber die Beziehungen zwischen Stäbchen und Coccen', Fortschritte der Medicin unter Mitwirkung Hervorragender Fachmänner herausgegeben von dr. Carl Friedländer Privatdocent der Pathologischen Anatomie. Berlin, Verlag von Fischers medicinischer Bachhandlung, v.4, n.10, p.327-31, 1886.