Adolpho Lutz: hanseníase
Combate à lepra. Regras indispensáveis de profilaxia anticulicidiana, sugeridas ao Serviço Sanitário do Estado de São Paulo
Combate à lepra. Regras
indispensáveis de profilaxia
anticulicidiana, sugeridas ao Serviço
Sanitário do Estado de São Paulo*
por Adolpho Lutz
Considerando que os métodos de isolamento sem profilaxia anticulicidiana empregados há milênios (quatro mil anos na China), ainda não resultaram na extinção da morféia, surgindo cerca de 200 mil casos novos por ano no mundo; considerando que hoje se contam às dezenas as doenças veiculadas pelos sugadores de sangue, elemento comum de transmissão, e que a extinção dos transmissores de tais doenças é o único método radical e eficaz de combatê-las, adoto a profilaxia anticulicidiana como método não subsidiário, mas principal.
A seu favor militam os seguintes fatos, pessoalmente observados por mim:
Há países em que a lepra é endêmica e outros em que os pacientes não propagam o seu mal (por exemplo, os doentes existentes nos hospitais de Londres, Paris, Viena etc.).
Muitos leprosos foram contaminados sem que tenham tido contato direto com casos anteriores ou mesmo sem terem conhecido, ou sequer visto, um só morfético, encontrando-se, geralmente, as lesões iniciais no rosto e nas mãos, isto é, nas partes do corpo geralmente não cobertas. Do estudo desses fatos concluo, logicamente, que a transmissão da lepra exige um transmissor vivo, alado, sugador de sangue, não ubiqüitário, ausente nos países onde não há propagação.
Lugares há, como tive o ensejo de verificar pessoalmente nas Ilhas Havaí, em que a lepra entrou concomitantemente com o mosquito, alastrando-se pari passu com ele, o qual encontrou hábitat propício nas culturas de taro (inhame) e de arroz.
É preciso não esquecer que o microrganismo da lepra (quejá em 1886 denominei Coccothrix leprae, nome com prioridade incontestável sobre aquele em uso) tem uma forma filtrável, talvez a mais, ou mesmo a única, infectante, e que, em geral, os organismos causadores das doenças veiculadas por sugadores de sangue (veja-se a febre amarela) exigem um período de incubação no corpo do hospedeiro intermediário (mosquito).
Assim sendo, advogo as seguintes regras de profilaxia anticulicidiana:
1) Todos os dípteros sugadores de sangue da fauna local
devem ser cuidadosamente estudados em todos os focos de
lepra.
2) Todos os leprosos, quer se encontrem em suas próprias
residências, quer em hospitais ou leprosários, devem ser
rigorosamente protegidos contra as picadas de mosquitos.
Todas as aberturas dos seus aposentos devem ser revestidas
com tela de arame irremovível por eles.
3) É indispensável que os doentes em estado febril e os casos
em desenvolvimento rápido sejam isolados em enfermarias
especiais, revestidas de tela de arame, isto é, impenetráveis
aos mosquitos.
4) O pessoal técnico de todo estabelecimento que admitir
leprosos deverá compreender um médico, ou entomologista
treinado, responsável pela supressão dos mosquitos
domésticos encontrados no prédio, em suas dependências bem
como nos arredores. Essa supressão aplicar-se-á a todas as
fases da evolução do mosquito e lucrará em ser extensiva a
todos os parasitas hematófagos. Após determinação exata das
espécies encontradas, deverão elas constar de um registro
permanente destinado a consulta e publicação.
5) Todo leproso admitido no estabelecimento deverá ser
minuciosamente interrogado quanto às condições referentes a
mosquitos no lugar onde provavelmente contraiu a doença, e as
informações prestadas deverão ser verificadas
escrupulosamente.
6) Nenhuma habitação humana será permitida à distância de
um leprosário atingível pelo vôo do mosquito. Caso já existam
habitações e seja de todo impossível abandoná-las, serão
incluídas na profilaxia anticulicidiana.
7) Todos os dados colhidos (informações dos doentes, espécies
observadas etc.), as observações feitas e os resultados obtidos
serão publicados periodicamente.
Dado o longo período de incubação, a lepra não desaparecerá dramática e repentinamente, como se deu com a febre amarela, mas, se houver perseverança, acabará desaparecendo também.
É cruel e inútil cerrar as portas do leprosário sobre os morféticos, isolando-os do convívio humano, enquanto se deixam asjanelas abertas para que os transmissores da doença possam ir e vir livremente, veiculando a doença do doente ao são.
* Texto inédito datilografado (3p.), datado de março de 1939. BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 254, maço 4. Nessa mesma pasta, encontra-se correspondência entre Bertha Lutz e Paula Souza a respeito desta contribuição de Lutz.