Adolpho Lutz: hanseníase

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 37 de 41

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Adolpho Lutz: hanseníase

Combate à lepra. Regras indispensáveis de profilaxia anticulicidiana, sugeridas ao Serviço Sanitário do Estado de São Paulo

Combate à lepra. Regras

indispensáveis de profilaxia

anticulicidiana, sugeridas ao Serviço

Sanitário do Estado de São Paulo*

 

por Adolpho Lutz

Considerando que os métodos de isolamento sem profilaxia anticulicidiana empregados há milênios (quatro mil anos na China), ainda não resultaram na extinção da morféia, surgindo cerca de 200 mil casos novos por ano no mundo; considerando que hoje se contam às dezenas as doenças veiculadas pelos sugadores de sangue, elemento comum de transmissão, e que a extinção dos transmissores de tais doenças é o único método radical e eficaz de combatê-las, adoto a profilaxia anticulicidiana como método não subsidiário, mas principal.

A seu favor militam os seguintes fatos, pessoalmente observados por mim:

Há países em que a lepra é endêmica e outros em que os pacientes não propagam o seu mal (por exemplo, os doentes existentes nos hospitais de Londres, Paris, Viena etc.).

Muitos leprosos foram contaminados sem que tenham tido contato direto com casos anteriores ou mesmo sem terem conhecido, ou sequer visto, um só morfético, encontrando-se, geralmente, as lesões iniciais no rosto e nas mãos, isto é, nas partes do corpo geralmente não cobertas. Do estudo desses fatos concluo, logicamente, que a transmissão da lepra exige um transmissor vivo, alado, sugador de sangue, não ubiqüitário, ausente nos países onde não há propagação.

Lugares há, como tive o ensejo de verificar pessoalmente nas Ilhas Havaí, em que a lepra entrou concomitantemente com o mosquito, alastrando-se pari passu com ele, o qual encontrou hábitat propício nas culturas de taro (inhame) e de arroz.

É preciso não esquecer que o microrganismo da lepra (quejá em 1886 denominei Coccothrix leprae, nome com prioridade incontestável sobre aquele em uso) tem uma forma filtrável, talvez a mais, ou mesmo a única, infectante, e que, em geral, os organismos causadores das doenças veiculadas por sugadores de sangue (veja-se a febre amarela) exigem um período de incubação no corpo do hospedeiro intermediário (mosquito).

Assim sendo, advogo as seguintes regras de profilaxia anticulicidiana:

1) Todos os dípteros sugadores de sangue da fauna local

devem ser cuidadosamente estudados em todos os focos de

lepra.

2) Todos os leprosos, quer se encontrem em suas próprias

residências, quer em hospitais ou leprosários, devem ser

rigorosamente protegidos contra as picadas de mosquitos.

Todas as aberturas dos seus aposentos devem ser revestidas

com tela de arame irremovível por eles.

3) É indispensável que os doentes em estado febril e os casos

em desenvolvimento rápido sejam isolados em enfermarias

especiais, revestidas de tela de arame, isto é, impenetráveis

aos mosquitos.

4) O pessoal técnico de todo estabelecimento que admitir

leprosos deverá compreender um médico, ou entomologista

treinado, responsável pela supressão dos mosquitos

domésticos encontrados no prédio, em suas dependências bem

como nos arredores. Essa supressão aplicar-se-á a todas as

fases da evolução do mosquito e lucrará em ser extensiva a

todos os parasitas hematófagos. Após determinação exata das

espécies encontradas, deverão elas constar de um registro

permanente destinado a consulta e publicação.

5) Todo leproso admitido no estabelecimento deverá ser

minuciosamente interrogado quanto às condições referentes a

mosquitos no lugar onde provavelmente contraiu a doença, e as

informações prestadas deverão ser verificadas

escrupulosamente.

6) Nenhuma habitação humana será permitida à distância de

um leprosário atingível pelo vôo do mosquito. Caso já existam

habitações e seja de todo impossível abandoná-las, serão

incluídas na profilaxia anticulicidiana.

7) Todos os dados colhidos (informações dos doentes, espécies

observadas etc.), as observações feitas e os resultados obtidos

serão publicados periodicamente.

Dado o longo período de incubação, a lepra não desaparecerá dramática e repentinamente, como se deu com a febre amarela, mas, se houver perseverança, acabará desaparecendo também.

É cruel e inútil cerrar as portas do leprosário sobre os morféticos, isolando-os do convívio humano, enquanto se deixam asjanelas abertas para que os transmissores da doença possam ir e vir livremente, veiculando a doença do doente ao são.

 

* Texto inédito datilografado (3p.), datado de março de 1939. BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 254, maço 4. Nessa mesma pasta, encontra-se correspondência entre Bertha Lutz e Paula Souza a respeito desta contribuição de Lutz.