Adolpho Lutz: hanseníase

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 15 de 41

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Adolpho Lutz: hanseníase

Manuscritos inéditos: esboço de um tratado sobre lepra (1891-92)

Manuscritos inéditos: esboço de um

tratado sobre lepra (1891-92)

 

Nota introdutória

Apresentamos a seguir os originais inéditos, incompletos, sem título, de um tratado que Adolpho Lutz pretendeu escrever sobre a lepra durante sua estada no Havaí e, em seguida, na Califórnia. No Fundo Adolpho Lutz (caixa 21, pasta 254) encontram-se diversos maços de documentos concernentes a esse tratado inconcluso, em estágios variados de amadurecimento e lapidação. Um maço de 24 folhas manuscritas, em alemão, traz o esboço do “Programa” do trabalho

que Lutz cogitava realizar (Figuras 1 e 2), seu desdobramento, um índice, e as primeiras reflexões a respeito dos capítulos antevistos. A escrita apressada cobre muitas folhas em branco do receituário

que Lutz usava em Honolulu (Figura 3), ou o verso da carta que distribuiu aos médicos de São Francisco, em 25 de julho de 1892, anunciando que se estabelecia naquela cidade como especialista em doenças cutâneas e venéreas. Desse conjunto publicamos o índice com o título de “Fragmento 1”. Outro maço de documentos reúne um punhado desconexo de páginas traduzidas para o inglês

pela enfermeira Amy Fowler (Figura 4), com quem Lutz se casou antes de deixar Honolulu. Seus filhos Bertha e Gualter Adolpho Lutz, ao organizar esses materiais posteriormente, chegaram a cogitar na possibilidade de que tal versão embrionária do tratado sobre lepra houvesse sido escrita como conferência.

Em outro maço estão agrupadas, de forma nem sempre concatenável, diversas folhas manuscritas, em alemão (uma, apenas, em inglês), com anotações incipientes sobre vários temas listados no “Fragmento 1”. Na parte concernente à anatomia

patológica da lepra (Figura 5), Lutz manuscreve rápidos comentários acerca das manchas, das glândulas linfáticas, das lesões observadas em ossos e no pulmão etc.; as folhas que tratam do bacilo contêm anotações sobre sua classificação, pigmentação, cultivo e inoculação em animais de experiência; outra parte dos manuscritos é dedicada ao diagnóstico e transcurso da doença, com observações comparativas da lepra com a tuberculose, a sífilis e a micose fúngica, tendo em mira o diganóstico diferencial. Entre esses papéis encontram-se, também, as primeiras anotações de Lutz a respeito do exagerado pavor manifestado por seus pacientes em relação à doença de Hansen, que dariam origem ao artigo Leprofobia, reproduzido adiante neste volume.

Os manuscritos do tratado inconcluso sobre a lepra incluem dois textos datilografados, mais amadurecidos e de maior formalização, que intitulamos “Fragmento 2" e “Fragmento 3”. Ambos desenvolvem itens do programajá mencionado, mas estão inacabados e apresentam certa sobreposição de idéias no tocante a alguns itens. O primeiro texto contém subtítulos dados pelo próprio Lutz que correspondem precisamente aos cinco primeiros itens do índice. No “Fragmento 3,” sem títulos, Lutz retoma a história e geografia da lepra, e prossegue: primeiro, trata de sua etiologia e anatomia patológica, detalhando as técnicas de cultivo do bacilo; passa em silêncio o problema da transmissão para deter-se na clínica da lepra; analisa, então, a localização dos bacilos no corpo dos doentes, distinguindo as “afecções lepróticas da pele e das mucosas visíveis,” a “lepra do sistema nervoso e do aparelho locomotor” e a das “glândulas linfática e lepra visceral”. Apresenta, também, algumas observações quanto à evolução dos sintomas nas “raças" humanas, tal como eram qualificadas pelos autores da época. Por último, Lutz relata as tentativas, em geral frustradas, de transmissão experimental da lepra, e manifesta a firme convicção de que um análogo da doença humana não ocorria espontaneamente nos animais.

Os maços que compõem os manuscritos inéditos do tratado inacabado sobre lepra incluem duas outras peças interessantes que publicamos como “Fragmento 4" e “Fragmento 5”. Em duas folhas manuscritas em alemão, que parecem ser o rascunho de um prefácio, Lutz anuncia a intenção de apresentar, nas páginas que se seguiriam, um quadro “o mais completo possível” do quejá se conseguira fazer e do que se esperava poder fazer no tocante à terapêutica da doença, externando opinião otimista em relação ao futuro, em frontal desacordo com a opinião dominante entre os autores recenseados no último fragmento. Tudo indica que os textos aí caprichosamente copiados em inglês, com caligrafia que parece ser de Amy Fowler, provêm de relatos de médicos e sanitaristas

consultados pelo governo do Havaí,1 relatos majoritaria-mente pessimistas que, na opinião de Lutz, resumiam os princípios então vigentes no tratamento da lepra.

Fig. 1

Fig. 2

Fig. 3

 

Fig. 4

Fig. 5

1 Os trechos transcritos adiante, no Fragmento 5, provêm de Hawaiian Department of Foreign Affairs. Leprosy in Foreign Countries. Summary of Reports Furnished by Foreign Governments to His Haawaiian Majestys Authorities, as to the Prevalence of Leprosy in India and Other Countries, and the Measures Adopted for the Social and Medical Treatment of Persons Afflicted with the Disease. Honolulu, H. I., Daily Bulletin Steam Printing Office, 1886, 247p.