Adolpho Lutz: hanseníase

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 3 de 41 · parte 1/4

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Adolpho Lutz: hanseníase

Apresentação Histórica/Historical Introduction

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Apresentação Histórica/Historical

Introduction

Jó aceita com resignação seus padecimentos. Acima dele, um

monstro alado, que personifica a lepra, açoita as costas do pobre

lázaro. À sua frente, uma mulher o exorta a resignar-se. Gravura

sobre madeira de Hans Wechtelin, Feldbuch der Wundtartznei do

cirurgião de Estrasburgo, Gersdorf, 1517. Reproduzido de

Jeanselme (1934, p.49).

Job accepts his suffering with resignation. Over him, a winged

monster – the personification of leprosy – whips the poor leper's

back. In front of him, a woman exorciser demands his acceptance of

his fate. Wood carving by Hans Wechtelin, Feldbuch der

Wundtartznei by Gersdorf, a Strasburg surgeon, 1517. Reproduced

from Jeanselme (1934, p.49).

 

Adolpho Lutz e as controvérsias

sobre a lepra

 

Jaime Benchimol; Magali Romero Sá

Um dos capítulos mais interessantes da obra científica de Adolpho

Lutz é aquele referente à lepra,1 de que se tornou uma das maiores autoridades no Brasil, e que investigaria até o fim de sua vida. Morreu convencido de que era transmitida por mosquitos. À época em que se interessou pela doença, ela estava exposta a grandes turbulências teóricas e práticas, envolvendo concepções conflitantes sobre sua etiologia, seu modo de transmissão e sua profilaxia.

Entre os estudiosos da lepra, de ontem e de hoje, há consenso quanto ao fato de que suas características distintivas foram estabelecidas, em bases científicas, por dois médicos noruegueses, Daniel Cornelius Danielssen (1815-1894) e Carl Wilhelm Boeck (1808-1875), em 1848. Embora não descartassem a relação com condições desregradas e anti-higiênicas de vida, e com o meio ambiente insalubre, propugnada pelo paradigma neo-hipocrático para muitas outras doenças, Danielssen e Boeck sustentaram que a

lepra era uma doença essencialmente hereditária. 2 Tal crença disseminou-se, atenuando, ao menos entre os médicos, o antigo pavor que inspirava. Supondo-se, agora, que não fosse contagiosa, arrefeceu a preocupação com o rígido isolamento ou segregação dos leprosos. Essa voga anticontagionista, extensiva à peste, cólera, febre amarela e outras doenças (Ackerknecht, 1948), foi de curta duração: já no final da década de 1870 começou a refluir.

A lepra foi uma das primeiras doenças infecciosas a ser reestruturada à luz da microbiologia, e novamente por um norueguês, Gerhard Armauer Hansen (18411912), médico do hospital dos lázaros em Bergen. Nas células provenientes de tubérculos cutâneos observou pequenos corpúsculos em forma de bastonete que denominou Bacillus leprae, suspeitando que fossem a causa específica da doença em razão de sua presença constante nas lesões examinadas. Em 1874, relatou à Sociedade Médica de

Cristiânia sua descoberta, logo confirmada por Edwin Klebs.3 Com material fornecido por Hansen, Albert Neisser produziu descrição mais consistente do bacilo em 1879, graças ao emprego pioneiro de processos de coloração que se tornavam de importância capital para a observação desse e de outros microrganismos.

Daniel Cornelius Danielssen (1815-1894).

Como mostrou Obregón (1996, p.173-4), começaram a se contrapor, então, dois conjuntos antagônicos de concepções e ‘evidências’ sobre o modo de transmissão da lepra, fundamentando estratégias divergentes para lidar com ela. Os médicos e leigos envolvidos nessa controvérsia tomariam como ‘tipos ideais’ os modelos profiláticos adotados em duas regiões do globo: o ‘democrático', instituído na Noruega, num período de ascensão do nacionalismo e de grande interesse dos médicos pelo estudo do território, da população e de seu perfil epidemiológico; e o modelo segregacionista e colonialista, implementado no Havaí por administradores metropolitanos que nutriam repugnância pela lepra e forte preconceito contra os doentes nativos ou de origem asiática.

Carl Wilhelm Boeck (1808-1875).

Médicos recém-convertidos à bacteriologia em diversos países ou colônias tentaram, sem sucesso, replicar o bacilo de Hansen, in vitro e in anima vili, de maneira a atender àquelas exigências postuladas por Koch no começo da década de 1880: isolamento do microrganismo em culturas puras, inoculação em animais de experiência e produção de uma doença cujos sintomas e lesões fossem senão idênticas, equiparáveis às da doença ‘típica’ no homem. Tais dificuldades tornavam difícil provar, inequivocamente, a conexão do bacilo com a lepra. Apesar disso, o Primeiro Congresso Internacional de Lepra, realizado em Berlim, em outubro de 1897, consagrou essa etiologia específica e a tese de que a única maneira de evitar a propagação da doença seria por meio de notificação obrigatória, vigilância e isolamento compulsório dos leprosos. Com base, principalmente, em observações epidemiológicas apresentadas por médicos atuantes na Índia, nas Guianas e em outras possessões coloniais, o Congresso aprovou resoluções que afirmavam a soberania do contágio em detrimento da herança da lepra, não obstante esta teoria contasse ainda com numerosos adeptos, destacando-se entre eles Rudolf Virchow, Hans von Hebra e o médico turco Demétrius Zambaco Pacha (Obregón, 2000, p.271; 1996, p.165-6).

 

Gerhard Armauer Hansen (1841-1912).

A “construção” da lepra como doença microbiana deu alento a um movimento mundial pela criação de leprosários para segregar suas

vítimas. Como existiam dificuldades para se obter uma vacina, 4 a doença foi considerada crônica e incurável, reforçando a crença na inevitabilidade da segregação dos portadores de seu microrganismo.

O Segundo Congresso Internacional, celebrado em Bergen, Noruega, em 1909, sob a presidência de Hansen, ratificou as decisões de Berlim. O Primeiro Congresso Americano sobre Lepra, realizado no Rio de Janeiro, em 1922, sob a presidência de Carlos Chagas, manteve essa tendência, abrindo, no entanto, espaço para uma terceira corrente, aquela liderada no Brasil por Adolpho Lutz, segundo a qual a lepra era transmitida por mosquitos, de maneira análoga à febre amarela e à malária. Lutz foi um dos organizadores do evento que reuniu representantes de 13 países, e cujas conclusões enfatizaram a necessidade de se estimular as investigações científicas sobre a doença e a criação de cátedras especiais nas faculdades de medicina.

 

Os estudos sobre lepra nas décadas de 1860 a

1880

À época em que Adolpho Lutz se interessou pela lepra, um dos principais centros de tratamento e estudo no país era o Hospital dos Lázaros, vinculado à Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, no Rio de Janeiro (Smith, 2003). Os relatórios do dr. João Pereira Lopes, médico do hospital no período que antecede o ingresso de Lutz nesse campo de investigação, permitem-nos avaliar qual era o estado-da-arte que ele ajudaria a transformar.

No relatório referente ao ano de 1869,5 Lopes discutia várias hipóteses relativas à etiologia da lepra, dando ênfase à sifilítica, à alimentar e à climática, sem abrir mão da tendência eclética ou multicausal prevalecente entre os médicos que lidavam com a doença comumente chamada, também, de elefantíase-dos-gregos ou morféia. Um aspecto essencial do problema era a idiossincrasia de certos indivíduos, isto é, um estado particular do organismo, imprecisamente qualificado, que determinava sua propensão a desenvolver a doença. Havia quem acreditasse que certas profissões, como as de ferreiro e mineiro, contribuíssem para tal predisposição. Supunha-se que o clima exercesse influência considerável sobre o aparecimento da lepra. Muitos privilegiavam o papel da alimentação, sem deixar de endossar, necessariamente, a crença, amplamente disseminada, de que era uma doença da mesma natureza da sífilis, provocada por um ‘vírus’ – entenda-se ‘veneno’ – que atuava sobre o sangue, desorganizando a ‘crase’ desse humor. Teoria correlata dizia que a sífilis nada mais era que uma lepra degenerada.

Lopes era um anticontagionista, e esta parece ter sido a posição dominante entre os médicos de seu tempo, sendo compartilhada até mesmo por muitos leigos. Pelo menos é o que sugere o relatório de 1869: o Hospital dos Lázaros era “constantemente visitado por pessoas de todas as classes e hierarquias, nacionais e estrangeiras, sobretudo por médicos … atraídos pela curiosidade ou novidade da cura, proclamada pelas folhas diárias”. Muitas famílias iam, sem medo, ao belo prédio edificado em São Cristóvão, perto da residência da família imperial, a passeio ou para assistir a cerimônias religiosas. Escreve Lopes:

Longe já vão esses tempos em que a caridade cristã fugia

espavorida … graças aos progressos da ciência, que tão

claramente nos tem demonstrado que a idéia de contágio,

outrora tão sustentada … tem de todo desaparecido em vista

das numerosas observações de abalizados práticos na África,

América do Norte, Noruega, no Brasil e finalmente na França,

por Alibert e Biett. (apud Souza Araújo, 1946, p.469)

Apesar desse otimismo, que autorizava relativa inclusão dos doentes no meio social de que tinham sido afastados por tão longo tempo, a terapêutica da lepra caracterizava-se pela “obscuridade das trevas, o caos imenso” (Ibidem, p.463-4). Havia muito tempo e, a julgar pelos relatórios dos sucessores de Lopes, por muito tempo ainda o Hospital dos Lázaros seria palco de incessantes experimentações. E o curioso é que, nas décadas de 1870, leigos e especialistas parecem ter tido influência quase equivalente nos remédios experimentados, que podiam ser, em medida igualmente comparável, preparados nas boticas locais, quimioterápicos produzidos em laboratórios europeus e substâncias da flora e fauna nativa ou estrangeira.

Hospital dos Lázaros.

O Hospital dos Lázaros fora palco de célebre experiência com o veneno da cobra cascavel (Crotalus horridus L.), que resultara na morte do doente cobaia (Ferreira, 1996). Lopes já testara diversas plantas oferecidas por médicos e leigos: raízes de mochocho, coroa-de-frade (Melocactus bahiensis), os leites de pinhão (Jatropha curcas), da figueira-brava (Ficus sp) e da mandioca amarga

(Manihot utilissima). 6 O suco desta, de propriedades “irritantes e corrosivas,” tinha fama entre os sertanejos de ser eficaz na cura da elefantíase. Outro vegetal preconizado por eles “como de uma eficácia espantosa, era o inhame, ingerido como alimento ou usado em banhos.

Quatro experiências estavam em curso no Hospital dos Lázaros ao findar o ano de 1868. Uma consistia em “banhos mornos de trapoeraba [Tradescantia sp] e mamono branco [Carica sp]; um cozimento de cevada e japecanga, soro de leite,” untando-se os tubérculos com “caramujos grandes, que serão guardados no capim ou hortaliça”. A dieta era composta de vegetais como “caruru miúdo, chicória, acelga, serralha e finalmente inhame branco; é permitido ao doente comer alguns ovos, tomar café de cevada e comer mesmo algumas laranjas bem maduras. O doente deverá tomar de vez em quando alguns purgantes de maririço [Trimezia sp]” (Lopes, 1869, p.34, apud Souza Araújo, 1956, p.461).

A assimilação da lepra à sífilis levou a experiências com o Hydrocotilo asiático [Hydr. asiatica], produto com o qual os doutores Paupeau, Boileau e Hunter teriam obtido excelentes resultados no tratamento também das escrófulas, podendo servir, ainda, para os reumatismos crônicos que tanto afligiam os doentes do Hospital dos Lázaros.

Quase nenhum resultado fora obtido com as preparações de arsênico, preconizadas para lepra e sífilis por “médicos hindus e os de Bengala, e bem assim pelos ingleses e anglo-americanos”. Em 1869, Lopes experimentou ainda o bromo e seus compostos, combinados com banhos de “águas hepáticas sulfurosas,” preparadas por um farmacêutico do Rio de Janeiro para os que sofriam de “reumatismo articular, paralisias, úlceras sifilíticas inveteradas, e finalmente sarnas, que epidemicamente reinam neste hospital duas a três vezes por ano” (apud Souza Araújo, 1946, v.1, p.461).

A contratação do dr. José Jeronymo de Azevedo Lima para dirigir o Hospital dos Lázaros em 1879 coincide com uma reviravolta tanto no plano do discurso como no das práticas curativa e preventiva. O médico começava seu primeiro relatório (Lima, 5.ago.1880) procurando restaurar a crença na contagiosidade da lepra. Apesar de ter sido soberana no passado, tornara-se a tal ponto “fora de causa,” desde os estudos de Danielssen e Boeck, von Hebra, Virchow e outros, que colocar em dúvida o que tinham escrito aqueles autores significava, para Azevedo Lima, “aventurar-se a uma acusação de incompetência” (apud Souza Araújo, 1946, v.1, p.484).

Ainda eram escassas as autoridades que podia invocar em defesa do contágio. Respaldava-se nos estudos recentes de Hansen, mas admitia que não eram coisa “certa e demonstrada”. As teorias etiológicas concorrentes explicavam melhor os numerosos exemplos de imunidade observados “nas mais estreitas relações de intimidade”. Os estudos sobre a morfologia e cultura do Bacillus leprae estavam incompletos. Sua presença no sangue não fora ainda demonstrada, “mas nem por isso a doutrina clássica da moléstia deixa de receber … um profundo abalo, que sem dúvida será fértil em deduções práticas e quiçá virá colocá-la no quadro das afecções virulentas” (Ibidem, p.485).

Na falta de meios para combatê-la eficazmente, não havia outra saída senão “um empirismo mais ou menos racional,” e Azevedo Lima não deixou de experimentar grande número de medicamentos de efeitos e propriedades diferentes. A base de seu tratamento consistia em “levantar ou sustentar as forças orgânicas por meio de modificadores da nutrição, alimentação de boa qualidade … exercício regular da função da pele etc.” (apud Souza Araújo, 1946, v.1, p.485-8). A desinfecção das enfermarias tornou-se rotina, e entre os remédios passou a figurar o ácido fênico, famoso antisséptico usado interna e externamente contra muitos outros micróbios que vinham sendo incriminados como agentes de doenças pelos seguidores de Pasteur e Koch. Azevedo Lima começou a tratar os leprosos com o óleo de chalmugra sobre o qual falaremos adiante.

Em meados de 1886, Azevedo Lima relatou ao provedor da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária as tentativas infrutíferas de transmissão experimental da lepra ao homem e a animais, e fez um balanço dos resultados obtidos com o tratamento proposto em 1885 por Paul Gerson Unna, uma das maiores

autoridades mundiais em dermatologia.7 Supondo que o bacilo da lepra fosse ávido de oxigênio, e que seria possível destruí-lo por meio de substâncias igualmente ávidas de oxigênio, propusera o emprego, intus et extra, de agentes de redução como o pirogalol, o ictiol, a crisarobina e a resorcina (apud Souza Araújo, 1946, v.1, p.488).

Naquele mesmo ano, Adolpho Lutz divulgava seu primeiro trabalho sobre o micróbio da lepra (1886) em Monatshefte für Praktische Dermatologie (1887), atual Dermatologische Wochenschrift, revista editada por Unna, von Hebra e Lassar. Constituía a mais importante caixa de ressonância internacional das experiências clínicas e laboratoriais concernentes às doenças de pele – e, como mostraremos no próximo livro da Obra Completa de Adolpho Lutz, eram os dermatologistas que estavam na vanguarda das pesquisas bacteriológicas, histológicas e anatomopatológicas sobre a lepra. Lutz iniciou os estudos sobre esta e outras doenças que se manifestavam por lesões na pele ao estabelecer-se como clínico em Limeira, no interior de São Paulo, em 1880. No final de 1888, estimaria ter tratado 200 a 250 leprosos, “dos quais 50 seguiria por longo tempo” (Corrêa, 1992, p.146). Avaliou, então, que existiam de cinco a dez mil doentes no Brasil, a maioria em São Paulo, que considerava um dos estados mais afetados.

Em março de 1885, Lutz deixou Limeira para trabalhar, por cerca de um ano, na clínica fundada por Unna em Hamburgo, e sob sua orientação enveredou pelo terreno da bacteriologia, ocupando-se da morfologia de germes relacionados a várias doenças dermatológicas, especialmente o da lepra.

Os microbiologistas esforçavam-se por obter culturas puras do bacilo de Hansen. Lutz tentou fazê-lo em Hamburgo, mas não teve sucesso. Tampouco conseguiu transplantá-lo do homem para animais, de maneira a induzir nestes uma doença “típica”. O estudo da estrutura do microrganismo foi facilitado por um processo de coloração desenvolvido por Lutz e Unna. Empregando esse processo e variações daquele descoberto por Ehrlich, o médico brasileiro conseguia diferenciar o agente da lepra de outros microrganismos, com exceção do bacilo da tuberculose, descoberto por Koch em 1882: “É um fato muito interessante este de duas moléstias que tanto se assemelham pelo lado anatômico … também serem produzidas por parasitas que apenas diferem. Não podem ser discriminadas com certeza nem pela forma nem pelas reações de coloração” (Lutz, 1887, apud Souza Araújo, 1946, p.492).

Tubérculo leproso. Sobre o fundo constituido por fibroblastos,

células redondas, células epiteliais e células leprosas destacam-se

numerosos aglomerados de bacilos acidorresistentes, curtos e

freqüentemente granulosos (Jeanselme, 1934, prancha 6, figura 2).

No trabalho publicado em 1886, Lutz procurou demonstrar que os “esquizomicetos” da lepra não pertenciam à categoria dos “bacilos legítimos, formados por uma ou mais células cilíndricas,” pois seu componente elementar era uma pequena célula redonda, semelhante a um coco, dotada de membrana que ia se tornando espessa e colóide. Essas células sempre se desdobravam na mesma direção, em séries lineares cujo desenho assemelhava-se a colares de pérolas ou a bastonetes, aumentando cada vez mais o envoltório gelatinoso à medida que ganhava novas camadas. O aglomerado gelatinoso podia fundir-se com os vizinhos para formar uma massa comum. Análise comparativa desse microrganismo com o da tuberculose levou Adolpho Lutz a contestar o gênero Bacillus em que eram classificados, e a propor que o de Hansen passasse a ser chamado de Coccothrix leprae (Coccothrix provém do grego kokkos, que significa grão, semente, e thrix, cabelo, sugerindo um rosário de cocos). Sua proposta seria suplantada pela de Karl B. Lehmann e R. O. Neumann que, dez anos depois (1896), incluiriam

os agentes da lepra e tuberculose no gênero 8 Mycobacterium.

A dificuldade de cultivar o microrganismo da lepra e de replicá-lo em animais tornava indispensável o contato com doentes para que fossem continuamente renovadas as matérias orgânicas utilizadas nos estudos microscópicos sobre a sua morfologia e biologia, e sobre o modo como se distribuía nos órgãos e membros lesionados. Esta segunda linha de investigação, na superfície e no interior dos corpos doentes e dos cadáveres, requeria um hospital, e certamente foi isso que levou Lutz a procurar o dos Lázaros, no Rio de Janeiro,

em 1887.9

Naquele mesmo ano, mudou-se de Limeira para a capital paulista, retomou a clínica e continuou a publicar, na Alemanha principalmente, numerosos artigos relacionados não apenas à

dermatologia mas também à helmintologia. 10 Foi então que saiu em O Brazil-Medico, na Gazeta Médica da Bahia (1887-1889) e, em seguida, em livro (1888) a versão em português do trabalho sobre a ancilostomíase publicado em Leipzig (1885), que tornou Adolpho Lutz mais conhecido entre seus pares no Brasil. Em 1889, ele publicou, em Jena, no prestigioso Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde, os primeiros estudos sobre protozoários – os mixosporídios encontrados na vesícula biliar de batráquios, ordem de animais a que retornaria no fim da vida.

A viagem para o Havaí

O próximo capítulo na movimentada carreira médico-científica de Adolpho Lutz transcorreria no Havaí. Em carta datada de 13 de

outubro de 1886, 11 Paul Gerson Unna informou-o da chegada a Hamburgo do patologista e bacteriologista Edward Arning, que trabalhara com vítimas da lepra naquele arquipélago, de novembro de 1883 a julho de 1886.

Filho de um mercador alemão estabelecido na Inglaterra, Arning nasceu em Manchester, em 9 de junho de 1855. Aos doze anos de idade, ingressou no Gymnasium Johanneum, em Hamburgo, doutorando-se em medicina na Universidade de Estrasburgo em 1879. Iniciou a carreira como ginecologista, em Berlim, e logo se interessou por dermatologia e venereologia, tornando-se membro do Instituto Dermatológico de Breslau em 1881. Dois anos depois, foi contratado pelo Conselho de Saúde do reino do Havaí para investigar a lepra naquele arquipélago. O Instituto Humboldt, da Real Academia Prussiana de Ciência, incumbiu-o de coletar material lá para suas coleções etnográficas. Arning chegou a Honolulu em 8 de novembro e instalou seu laboratório no hospital de Kakaako. Com o objetivo de provar a contagiosidade da lepra, a partir de setembro de 1884, durante quatro semanas consecutivas, inoculou bacilos de Hansen em Keanu, um prisioneiro indígena sentenciado à morte, mas somente 25 meses depois este desenvolveu a lepra nodular, tendo sido afetados também os nervos e as glândulas linfáticas próximos ao local da inoculação. Apesar das controvérsias suscitadas pela suspeita de que Keanu tivesse familiares leprosos e pelo longo intervalo de tempo entre a inoculação do bacilo de Hansen e a manifestação da doença, aquela experiência teria valor paradigmático para os contagionistas em todos os debates públicos

travados nas décadas subseqüentes.12 Ainda assim, em fins de 1885, Arning relatou os resultados decepcionantes das tentativas que fizera de cultivar o bacilo em meios artificiais e de localizá-lo no ar, na água e nos alimentos. Ele foi demitido em meados de 1887, por divergências com Walter M. Gibson, ministro das Relações Exteriores e presidente do Conselho de Saúde do reino do Havaí. O bacteriologista inglês retornou a Hamburgo, onde deu prosseguimento às suas atividades como dermatologista, tornando-se até mesmo professor da disciplina na Universidade daquela movimentada cidade portuária.

Como mostrou Obregón (2002, p.143-7), outros investigadores tentariam estudar a lepra no Havaí, mas as relações com as autoridades sanitárias tornar-se-iam invariavelmente tensas em virtude das “muitas inconveniências, obstáculos e pequenas tiranias” praticadas contra eles.

Na carta a Lutz, aqui referida, Unna contou o que lhe dissera o cônsul Weber, representante dos interesses alemães naquele arquipélago: seu Conselho de Saúde não pretendia mais apoiar “experiências científicas infrutíferas com a lepra,” mas tinha grande interesse em patrocinar “experiências práticas visando a cura” da doença. Unna julgava possível obter uma viagem ao Havaí para testar seu método terapêutico, e queria saber se o médico brasileiro teria interesse em fazer essa viagem.

Situado no meio do oceano Pacífico, na Polinésia, o arquipélago do Havaí abrange oito ilhas principais: Niihau, Kauai, Oahu (onde se localiza a capital, Honolulu), Molokai, Lanai, Kahoolawe, Maui e a maior das ilhas, Havaí. Em 1778, o navegador James Cook batizou-o com o nome de ilhas Sandwich. Missionários presbiterianos norte-americanos lá se instalaram em 1820, e sete anos depois chegaram os padres de Picpus (Pères et Religieuses des Sacrés-coeurs), congregação fundada na França, em 1800, e dedicada ao apostolado missionário. Houve grande disputa entre ingleses, franceses, norte-americanos e seus pontas-de-lança religiosos pelo domínio do arquipélago, disputa que prosseguiu mesmo depois de sua independência em 1842-1843. Em 1872, um tratado colocou a monarquia nativa sob a dependência econômica dos Estados Unidos e, em 1887, Pearl Harbor tornou-se base militar norte-americana. Em 30 de julho de 1889, dois meses antes de Adolpho Lutz chegar ao Havaí, uma insurreição liderada por Robert Wilcox tentou derrubar o Partido da Reforma para devolver as terras apropriadas pelos estrangeiros aos havaianos e ao rei Kalakaua. A monarquia seria derrubada em 1893 por obra do mesmo grupo que, em 1898, obteria a anexação das ilhas aos Estados Unidos, dos quais se tornariam o qüinquagésimo estado em 1959.

Entre 1835 e 1848, foram publicadas as primeiras observações clínicas sobre a lepra no Havaí pelos drs. Arthur Mouritz e William Hillebrand. Este atribuiu a disseminação do mal que os nativos chamavam de Mai-Paké (doença chinesa) ao aumento do fluxo de imigrantes dessa nacionalidade motivado pela descoberta das

minas de ouro na Califórnia. 13

Em agosto de 1850, Honolulu foi elevada à categoria de cidade; quatro meses depois, o rei Kamehameha III criou o Conselho de Saúde (Board of Health) composto de sete membros, todos de origem anglo-saxã. Em relatório de abril de 1863, Hillebrand chamou a atenção do Conselho para a alarmante freqüência de casos novos de lepra. O príncipe Lot, que ascendeu ao trono no ano seguinte com o título de Kamehameha V, incumbiu os drs. Edward Hoffmann e Hillebrand de recensear os doentes que havia no arquipélago e de propor as medidas de profilaxia que convinha adotar. Aconselhado a isolar os doentes, o rei nomeou uma comissão para redigir uma lei que foi votada pela Assembléia Legislativa e aprovada por decreto real em 3 de janeiro de 1865. Ela dava poderes ao Conselho de Saúde para isolar todos os leprosos infectantes, e determinava que os agentes policiais e judiciários, quando solicitados pelo Conselho, apreendessem qualquer suspeito e o conduzisse à repartição sanitária para ser examinado e, se fosse o caso, imediatamente confinado. A lei autorizava o Conselho a fundar um hospital onde fossem tratados os leprosos incipientes, que seriam libertados caso se curassem, ou definitivamente confinados se fossem considerados incuráveis ou capazes de transmitir a doença. A lei ainda dava às autoridades sanitárias o poder de exigir trabalho dos doentes e até mesmo a seqüestração de seus bens para cobrir as despesas de isolamento.

Palácio Iolani em Honolulu (Whitney, 1890).

A rainha Liliuokalani em 1893 (Hoefer, 1985. p. 50).

Mapa da ilha de Molokai. Observa-se que o leprosário ficava na

península situada na face oposta à localização atual (Hoefer, 1985.

p. 220).

Em junho de 1865, portanto sem perda de tempo, o Conselho de Saúde, presidido por Godfrey Rhodes, decidiu fundar dois estabelecimentos, um em Honolulu, para confinamento dos casos leves, e outro em Molokai, para os incuráveis. Em 13 de novembro, foram inaugurados em Kalihikai, arrabalde de Honolulu, o Kalihi Hospital e a Detention Station, sob a direção do dr. Hoffman. Naquele ano ainda, foram internados no estabelecimento 141 leprosos, e em 6 de janeiro de 1866 desembarcou a leva inaugural de doentes em Molokai, a primeira colônia leprosa insular do mundo, que serviria de modelo, três décadas depois, ao movimento internacional em favor da reclusão em instituições congêneres das vítimas do mal de Hansen (Gussow, 1989, p.208, 253-4).

De relevo montanhoso, a ilha de Molokai está situada a sudeste de Oahu e a nordeste da Maui. A parte reservada ao leprosário era uma península com cerca de 150 mil metros quadrados que se projetava sobre o mar, na costa norte, a mais exposta aos ventos. No centro dela, erguia-se o vulcão extinto Kauhako. O único lado da península que não dava para o oceano era bloqueado por íngreme cordilheira que formava a espinha dorsal da ilha, elevando-se a cerca de 1.200 metros de altitude: “Esta muralha ou ‘pali’ é intransponível, exceto por uma trilha que conduz ao alto das montanhas onde está situado o rancho do sr. R. W. Meyer, um alemão que é agente do Conselho de Saúde na ilha de Molokai, e

superintendente interino do leprosário”. 14 O estabelecimento compreendia três aglomerações populacionais: Kalaupapa, Makanalua e Kalawao. De 1870 a 1900, 4.739 doentes foram confinados em Molokai. O máximo de internações – 1.213 doentes – ocorreu em 1890, justamente o ano em que Adolpho Lutz iniciou suas atividades de leprologista no Havaí.

Em 1875, o hospital de Kalihi foi fechado porque sua manutenção era cara, o isolamento, imperfeito, e a terapêutica, improfícua. Os leprosos e os suspeitos de serem portadores da doença passaram a ser detidos nas repartições de polícia e daí removidos diretamente para Molokai. É possível que as resistências suscitadas por essa política desumana tenham contribuído para a abertura de outro hospital, em 12 de dezembro de 1881, agora no bairro Kakaabo, próximo à chamada Cabeça de Diamante (Diamond Head), em Honolulu. Em 1884, uma emenda ao código penal autorizou o Serviço Sanitário a criar hospitais similares em cada ilha do arquipélago. Tudo indica que a descentralização desses ‘vestíbulos’ de Molokai não ocorreu, e em 1889, a cerca de duas milhas de Honolulu, foi reconstruído o hospital de Kalihi, no qual Lutz iria trabalhar, sendo transferidos para lá os doentes que se achavam em Kakaabo (Souza Araújo, 1929, p.80-2, 95-6; Obregón, 2002, p.139-40).

O presidente do Conselho de Saúde do Reino do Havaí, dr. N. B. Emerson, formalizou o convite ao médico brasileiro em 22 de março de 1888 (Corrêa, 1992, p.146). Ao longo daquele ano, negociaram as bases do contrato, por correspondência. Lutz pediu ajuda de custos de dois mil dólares para financiar estudos preparatórios em Hamburgo; salário mensal de 300 dólares e direito de exercer a clínica particular, tudo consignado num contrato com garantias

legais. 15 A exigência de que residisse na ilha de Molokai causou prolongada controvérsia epistolar, pois Lutz pretendia clinicar em Honolulu e não aceitava experimentar em larga escala o tratamento de Unna. Em abril de 1889, o presidente do Conselho ainda argumentou que a reabertura do hospital de Kalihi causaria muita insatisfação entre os doentes, tanto aqueles confinados em Molokai como os que teriam de ser enviados àquela ilha. Adolpho Lutz manteve-se inflexível, e o Conselho finalmente concordou com sua viagem, esperando que mudasse de idéia ao chegar lá (Law, s.d., p.3).

Em julho de 1889, Lutz viajou para a Europa para preparar, com a ajuda de Unna, tudo o que iria necessitar no Havaí. Ambos participaram do Primeiro Congresso Mundial de Dermatologia,

realizado em Paris, de 5 a 10 de agosto daquele ano. 16 O discípulo de Unna chegou a Honolulu em 15 de novembro, precisamente quando era deposta a monarquia brasileira. Em janeiro de 1890, foi nomeado Government Physician for the Study and Treatment of Leprosy -estudo e tratamento realizados na Receiving Station de Kalihi, futura sede da U. S. Leprosy Investigation Station, ficando o tratamento mais amplo, no leprosário, a cargo do médico que lá

residia, dr. S. B. Swift, sob a supervisão de Lutz.17

Dois meses depois, ele contaria com o reforço de uma enfermeira inglesa com quem se casaria no ano seguinte.

 

A sucessora do padre Damien, mártir de Molokai Rose Gertrude era o nome que Amy Marie Gertrude Fowler havia adotado ao se tornar irmã leiga da Ordem Terceira de São Domingos (Corrêa, 1992, p.148-9). Nascida em 14 de julho de 1869 numa pequena aldeia vizinha a Bath, antiga cidade de origem romana, Amy tinha, então, 25 anos, duas irmãs e um irmão. Com acentuado pendor para o misticismo, convertera-se à religião católica, decisão insólita para filha de um pastor anglicano, ainda por cima muito estimado em sua aldeia. Bertha Lutz (Lutziana) atribui a conversão à influência de uma irmã, “muito esclarecida,” que vivia em Londres, dava recitais de poesia, quisera ser atriz mas tivera sua pretensão malograda porque uma moça de família, naquele tempo, não seguia tal carreira. Para externar sua rebeldia, tornara-se também católica. Amy foi residir com ela. Queria estudar alguma coisa e ter uma profissão. Como outras patrícias, sentia-se magnetizada pelo exemplo de Florence Nightingale (1820-1910), que se ocupara dos feridos na Guerra da Criméia (1855-1856), organizando hospitais de emergência e melhorando as condições higiênicas através de inovações que depois seriam adotadas em todos os países e pela Cruz Vermelha. Amy fez um curso de enfermagem em Londres, depois passou uma temporada em Paris: morou num convento, estudou microbiologia no Instituto Pasteur e trabalhou no escritório de um amigo da família.

Ao regressar a Londres,

a inglesinha que … andava à procura da vocação leu num

jornal inglês … que o médico encarregado do serviço do

hospital de leprosos em Honolulu se queixara à legislatura

daquele reino que não havia enfermagem suficiente para os

leprosos … Num ímpeto de admiração, e como êmula de

Florence Nightingale, [Amy] escreveu à Sociedade Britânica de

Assistência aos Lázaros e ofereceu-se para ir a Honolulu, como

enfermeira voluntária. (Lutz, Lutziana)

Padre Damien, em foto tirada algumas semanas antes de sua morte

 

em 1889 (Hoefer, 1985, p.138).

Na carta de 18 de junho de 1889 ao superintendente do Leprosário de Molokai declarava-se disposta a

fazer qualquer sacrifício para, de alguma maneira, auxiliar

essas pobres criaturas. Foi inclusive com a esperança de ver

realizado este desejo, há longo tempo acalentado, que me

submeti a treinamento num hospital e numa workhouse na

Inglaterra, e nos últimos dezoito meses estive estudando e

fazendo cursos na França, especialmente sobre as descobertas

do senhor Pasteur e sobre a microbiologia… Em meu

treinamento hospitalar aprendi a fazer ataduras e curativos, fui

adestrada nos trabalhos baixos e nas lidas usuais do dia-a-dia,

e estou disposta a cumprir as tarefas mais humildes. Peço-lhes

que tenham a bondade de enviar-me uma resposta o mais cedo

possível pois, caso não permitam que eu me estabeleça na ilha,

pretendo entregar-me a um estabelecimento para leprosos na

Índia. (apud Corrêa, 1992, p.149, e Law, s.d., p.1)

Essa carta foi escrita dois meses depois da morte de Joseph de Veuster, o padre Damien, membro da congregação belga de Picpus, que viajara para a Oceânia em 1863, para cuidar dos leprosos, vindo a falecer em conseqüência da doença em Molokai, em 15 de

abril de 1889. 18 Além de acender em Amy o desejo de emular o martírio do padre belga, esse fato teve enorme repercussão internacional, e tornou Molokai uma lenda sinistra modelada pela propaganda dos contagionistas a respeito do perigo que a lepra representava, e pelo temor que a opinião pública européia passou a ter da invasão de suas capitais por aquela doença incurável, degeneradora, que florescia em regiões e entre raças consideradas malditas.

O Conselho de Saúde do Havaí ofereceu a Amy uma posição em Kalawao, como assistente do dr. Swift, e prometeu-lhe casa, cavalo, comida e criada, e ainda 20$ por mês e 300$ para as despesas de

viagem.19 Em carta datada de 19 de dezembro de 1889, ela informou que chegaria a Honolulu em fevereiro do ano seguinte. Sua viagem deu-se sob a égide da Sociedade de Assistência aos Lázaros, cujo patrono era o príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VII. A rainha Vitória abriu, então, uma lista de subscrições e donativos para serem levados pela abnegada enfermeira.

Depois de tudo resolvido, ela embarcou para os Estados

Unidos, já com muitas malas de presentes para os leprosos,

inclusive lençóis bordados com VR — Vitória Regina … fez uma

viagem triunfal de Nova York até São Francisco, em trem

especial com vários carros, todos cheios de presentes …

pianos, conservas e tudo o mais que se possa imaginar.20

Em 27 de fevereiro de 1890, os jornais de São Francisco, na Califórnia, relataram a chegada da jovem heroína e seu embarque para o Havaí. O diário da irmã Leopoldina Burns, citado por Law (s.d., p.2), constitui um bom testemunho das expectativas que sua viagem vinha suscitando naquele arquipélago:

a trombeta soou sobre o vasto Atlântico; uma dama inglesa

maravilhosa que foi atraída pela obra de nosso santo padre

Damien … depois de ter sido aplaudida e estimulada pela

família real, e a presteza divina do príncipe de Gales, acha-se

agora a caminho do Havaí para passar o resto de seus dias

trabalhando … em Molokai. O som da trombeta varou o

Atlântico e foi ouvido pelas pessoas abastadas da cidade de

Nova York, e elas lhe deram as boas-vindas. Caixas repletas de

objetos de valor foram enviadas da Inglaterra e de Nova York,

algumas das quais o Conselho de Saúde despachou para

nossa madre, para que as distribuísse entre suas crianças … A

senhorita Fowler recebeu em doação dois esplêndidos pianos

novos para seu uso, um deles com seu nome gravado em

lindos caracteres: irmã Rose Gertrude. Um dia, enquanto

cortava pano para fazer calças para os meninos, o doutor Swift

arremeteu porta adentro. Estava sempre com pressa. Os

nativos o chamavam Makani, que significa vento.

"Oh, irmã, hoje recebi uma carta maravilhosa de Amy Fowler.

Eu lhe digo, irmã, uma mulher que escreve uma carta assim

será capaz de fazer maravilhas.”

Vapor em que provavelmente viajou de São Francisco para o Havaí

a irmã Rose Gertrude, ou Amy Marie Gertrude Fowler, que logo se

tornaria a senhora Adolpho Lutz (Whitney, 1890, folheto encartado).

Entre os documentos que Law compilou a respeito dessa personagem figura a carta que o irmão Joseph Dutton remeteu, antes de sua chegada, ao padre Hudson, na Universidade Notre Dame. Dutton lamentava a sorte da pobre moça inglesa, movida, sem dúvida, por sentimentos sinceros, mas inconsciente da realidade que a aguardava:

As coisas que ela se propõe a fazer, conforme revelam suas

entrevistas, não são as coisas para as quais o governo quer

enfermeiras. O remédio que ela quer usar já teve seus dias

aqui, anos atrás. Tampouco é provável que seja autorizada a

distribuir, à sua vontade, os medicamentos do governo e, no

momento, nenhum remédio para a lepra está em uso aqui.

Deram uma trégua às pessoas no tocante aos incômodos e

sofrimentos da experimentação. Por mais úteis que sejam para

a ciência e as gerações vindouras, são um desconforto para os

doentes nos quais se praticam as experiências. (Law, s.d., p.2) Dutton, que conhecia bem o modo de vida em Molokai, descrevia para o padre Hudson cenas destinadas a evocar o cenário de barbárie e primitivismo que aguardava a dama inglesa. O hábito, por exemplo, de os doentes catarem piolhos na cabeça uns dos outros; ou a predileção que tinham por carne de cachorro ou, ainda, as moscas que zuniam aos milhares por toda parte: “O senhor acha que a senhorita Fowler vai gostar daqui?’ (apud Law, s.d., p.3).

Em opúsculo datado de 18 de março de 1889—na realidade, é 1890, um mês após sua chegada — a irmã Rose Gertrude apresentou aos milhares de olhos que acompanhavam sua saga as impressões da primeira visita a Molokai, em companhia de J. H. Kimball e George C. Potter, presidente e secretário do Conselho de

Saúde, 21 do dr. Bradley, médico do navio de guerra Mohican, e de um repórter que viajara com ela de São Francisco ao Havaí, e que fora autorizado a juntar-se ao grupo. Deste fazia parte um personagem ao qual Amy não dá muita atenção ainda, o jovem dr. Lutz, “aluno do dr. Unna, de Hamburgo”. A finalidade da visita, que durou três dias, era a elaboração de um relatório oficial para a legislatura do reino do Havaí.

Vista parcial de Kalawao, a aldeia em que viveu padre Damien, na

península onde se localizava o Leprosário de Molokai. Ao fundo, o

imponente Pali, que a separava do resto da ilha. Foto batida nos anos 1920 por 11th Photo Section Air Service U.S.A (Souza Araújo,

1929, fig. 36).

Leprosário de Molokai. Vista parcial de Kalaupapa na década de

1920. Foto batida por 11th Photo Section Air Service U.S.A (Souza

Araújo, 1929, fig. 37).

Comunicação de Kalaupapa com Kalawao, vendo-se, à direita, os

contrafortes do Pali. Foto batida nos anos 1920 pelo 11th Photo

Section Air Service U.S.A (Souza Araújo, 1929, fig. 38).

Saíram numa quarta-feira tempestuosa, às dez horas da manhã, e chegaram a Kalaupapa por volta das seis horas da tarde. A aldeia ficava ao pé do majestoso Pali, com despenhadeiros altíssimos cobertos de vegetação esmeralda, samambaias, convolvuláceas, bananeiras, mamoneiros e árvores que davam a noz kukui. Vinha chovendo muito nas últimas semanas, e os visitantes contaram quatorze quedas d'água escorrendo pela rocha íngreme do Pali.

O mau tempo impediu que o vapor se aproximasse da costa, e enquanto navegavam rumo a ela, em pequena embarcação de transbordo, moradores acorriam de toda parte ao ancoradouro supondo que eram amigos e parentes que vinham visitá-los. Quando Amy e seus acompanhantes puseram os pés em terra firme, ecoaram saudações – “aloha,” “aloha,” “aloha nui” (amor, amor, muito amor) – em meio às notas musicais executadas pela banda que foi reunida às pressas para dar as boas-vindas às autoridades. Escreve a irmã Rose Gertrude:

Entre aqueles que tinham sido atraídos ao ancoradouro havia

alguns com semblantes desfigurados, mãos ou pés enfaixados,

mas todos tinham fisionomias perspicazes e alegres apesar da

chuva torrencial e do desapontamento por não encontrarem

nenhum de seus parentes no barco. (1889 [?], p.5)

Kalaupapa era uma pequena povoação com três igrejas -, uma católica, outra calvinista e a terceira, mórmon – e um punhado de choupanas de paredes brancas com pequenos jardins onde cresciam bananeiras, pés de batata-doce e taioba e muitas flores.

Passaram a noite na casa do superintendente, sr. Evans, e na manhã seguinte saíram cedo para visitar o orfanato onde estavam internadas 95 mulheres de todas as idades, sob os cuidados de seis irmãs da ordem franciscana de Syracuse. Amy ficou encantada com a residência delas:

imaginem o mais lindo chalezinho com uma treliça ornada de

vegetação e varanda, de aspecto limpo e caseiro, mobiliado

com gosto quase parisiense, ainda que simples … defronte

estende-se um gramado homogêneo e verdejante onde as

meninas jogam croqué, cercado por adoráveis canteiros de

flores como as que adoramos cultivar em nossas estufas, na

velha pátria. (p.5)

Eram de madeira as construções que abrigavam banheiros, cozinha, salas de aula e dormitórios. A aparência destes era comparável à dos melhores hospitais ingleses, mas aí

tivemos pela primeira vez le coeur serré. Havia meninas de

todas as idades e tamanhos, algumas com o rosto devastado

pelas feridas, outras com rugas profundas que lhes dão a

aparência de velhas de noventa ou cem anos; outras, ainda,

com mãos e pés sem dedos; apesar do aspecto imaculado dos

quartos e mobílias, e do asseio das hóspedes, a pessoa

involuntariamente agradece a Deus por embotar os sentidos

daqueles que são forçados não apenas a suportar com elas a

matéria em deterioração, como a viver em contato constante e

íntimo com companheiras de sofrimento em estágios mais ou

menos avançados da doença. (p.6)

Uma carruagem transportou os visitantes a outra parte da península, a Kalawao, aldeia em que vivera e morrera padre Damien. Ao descrever a visita a um jovem e refinado inglês que agonizava, Rose Gertrude usa outra vez um recurso que é freqüente em seu relato: o contraste entre as cenas interiores de decadência e sofrimento humanos e os encantos da natureza circundante; em volta daquele leito de morte, a fragrância de jasmim, a luz do sol e uma brisa suave e deliciosa. A cena que presenciou dentro daquela casa levou a enfermeira inglesa a registrar a falta que fazia uma enfermaria para os doentes graves e agonizantes:

estas pobres criaturas, que ingressam no vale das sombras,

são rodeadas por amigos descuidados e desatenciosos que,

embora não tenham culpa disso, são compelidos a prosseguir

as ocupações barulhentas da vida cotidiana na câmara de

morte, e a alma que treme a um passo da eternidade, ao invés

de ser confortada pelas mensagens amorosas de boas-vindas

de um Salvador infinitamente misericordioso, é perturbada e

molestada pelas ásperas dissonâncias da tagarelice comum e

de pilhérias sem sentido. (p.11-2)

Ali mesmo, ao pé daquela página, a irmã Rose Gertrude pediu contribuições para a boa obra, recomendando que fossem enviadas ao reverendo H. Chapman, em Londres (177, Camden Grove, North Peckham), ou para sua conta a cargo dos banqueiros Bishop & Co., em Honolulu.

Visitaram depois a igrejinha em que padre Damien celebrava missa; seu sucessor, padre Conrardy, levou-os ao Boy's Home onde viviam 105 internos: “Aqui nossos olhos depararam com as mesmas devastações da doença que nos haviam causado impressão tão dolorosa na Casa das Meninas”. Apesar disso, surpreende-se ao ver que muitos internos corriam e brincavam alegremente, “mas quando pensamos nos saudáveis meninos ingleses a correr, pular, cavalgar e gozar a vida, construindo grandes castelos no ar para o futuro, como podemos evitar o desejo de encher as vidas arruinadas destas pobres crianças leprosas com radiantes surpresas, brinquedos, gravuras, doces e livros”. Além de distribuir os confeitos que trouxera da Inglaterra, Rose Gertrude decidiu que ficaria ali o piano doado pelos senhores Broadwood & Sons “para entreter e alegrar estes meninos órfãos que realmente sentem intenso amor pela música” (p.10).

Foram então visitar leprosos em suas próprias moradias. Alguns eram de famílias importantes e possuíam casas bonitas, até luxuosas. Os pobres recebiam do governo pequenos chalés, “também limpos e confortáveis, mas em muitos casos as pessoas são muito indolentes para se dar ao trabalho de mantê-los, por dentro, com o apuro que poderiam ter”. Entraram na casa em que vivera padre Damien e onde ainda se viam os seus livros; o irmão que os ciceroneava deslocou um dos caibros do telhado para mostrar onde o santo homem escondia dinheiro (p.11, 13).

Ao regressarem a Kalaupapa, contornaram a cratera extinta do vulcão, cujas encostas eram recobertas por luxuriante vegetação. Aquele extenso vale, protegido dos ventos pelo Pali, parecia ser muito fértil. Amy encantou-se com as paisagens que avistou pelo caminho: as delicadas samambaias; os altos e graciosos fetos arborescentes; os jardins cultivados pelos nativos, com bananas, inhame, mamona, figos e laranjas, as crianças a brincar de esconde-esconde ou pique no meio da relva alta. Viram muita gente montada a cavalo, e a enfermeira inglesa foi informada de que existiam pelo menos 800 animais para os mais de 1.200 doentes que viviam no leprosário; assim, a despeito do confinamento, “os incapacitados de andar podem desfrutar deste exercício dos mais agradáveis graças à bondade do governo” (p.14-5).

Naquela quinta-feira e durante todo o dia seguinte, o dr. Swift, médico residente em Molokai, e Adolpho Lutz estiveram examinando pacientes, e Amy reparou especialmente em Keanu, o sentenciado que trocara a pena capital pela inoculação da lepra, que finalmente se desenvolvera e que logo o aniquilaria. A atividade dos dois médicos estava direcionada especialmente para as crianças nascidas de pais leprosos, tendo em mira a transferência para Honolulu e outras ilhas das que não apresentassem sinais da doença. No consultório do dr. Swift aglomeravam-se, também, os kokuas, homens e mulheres saudáveis que obtinham autorização do Conselho de Saúde para cuidar dos doentes em Molokai.

Com freqüência é um pai cujos filhos são leprosos, ou uma

mulher que deseja acompanhar o marido. Os kokuas ficam

muito ansiosos para serem considerados leprosos, de modo

que não possam ser mandados de volta para Honolulu, e que

tenham direito a obter rações de alimentos e roupas. (p.13-4,

16)

Na manhã de sexta-feira, em Kalaupapa, o grupo visitou a pequena igreja e a escola para crianças leprosas que viviam com os pais, ambos a cargo do padre Wendolen, um sujeito extrovertido que conversava com os moradores em sua própria língua: “aqui, pela primeira vez, uma pequena menina leprosa a quem dirigimos a palavra voltou a cabeça como se tivesse vergonha de ser vista”. As crianças regidas pelo professor nativo cantaram para os visitantes e pareceram a Amy “vivazes e alegres” (p.15).

Na manhã de sábado deixaram o leprosário. Como nenhum vapor atracaria em Kalaupapa aquele dia, escalaram a cavalo o Pali por uma trilha sinuosa, aberta havia pouco pelos nativos. Lá no alto, passaram defronte à residência do sr. Meyer, o superintendente do leprosário, “uma casa adorável com caramanchão revestido de rosas, flores de maracujá e lírios” (p.17). A descida para a costa custou mais duas horas de cavalgada; às dez da manhã, uma pequena embarcação os transportou ao S. S. Likelike, que os levou de volta a Honolulu.

O Conselho de Saúde tinha o controle não apenas de Molokai mas de outros hospitais no reino do Havaí, inclusive a Receiving Station de Kalihi e a Kapiolani Home. Esse estabelecimento, batizado com o nome da rainha, ficava em Kakaako, perto de Honolulu. Inaugurado em 5 de novembro de 1885, destinava-se a filhas de pais leprosos. Tinha capacidade para 50 internas, mas a lotação ainda não ultrapassara 35 meninas, que ficavam sob os cuidados das irmãs franciscanas (p.22).

Toda pessoa suspeita de ser portadora da doença — explica a irmã Rose Gertrude — era examinada primeiro pelo médico de seu distrito. Se julgasse que podia estar infectada, enviava-a a Kalihi onde era cuidadosamente examinada pelo dr. Lutz. Por fim, comparecia perante um Conselho de Examinadores (Board of Examiners) para o exame e a decisão final quanto a seu destino (p.18-9).

A estação receptora de Kalihi ocupava um terreno de cerca de oito acres rodeado por uma cerca dupla de madeira com oito pés de altura. Estava dividida em duas partes, uma para os leprosos que recebiam o tratamento especial ministrado pelo médico brasileiro, a outra para os suspeitos de serem portadores da doença; eram mantidos ali e tratados até que se manifestassem sinais inequívocos da lepra – e neste caso, o destino era Molokai -, ou até que ficassem curados, e então readquiriam a liberdade. Nenhuma comunicação era permitida entre os leprosos e os ‘suspeitos', para evitar o contágio destes. Um cozinheiro chinês, que não tinha a doença, preparava a comida para os dois lados de Kalihi. Bem no meio, estava sendo erguida uma construção de madeira para servir de capela e escola. Seria dividida no centro até a altura da tribuna, destinando-se um lado aos leprosos, o outro aos suspeitos. O segundo piano doado à irmã Rose Gertrude ficaria ali para acompanhar o coro das crianças e os hinos entoados durante os ofícios das matinas e vésperas (p.19-21).

Naquele começo de 1890, na parte infectada da estação de Kalihi, havia 45 pacientes alojados em chalés de madeira independentes; “são bem alimentados e tratados, pois estão sob os cuidados de um guardião nativo, o sr. Charles Kahelehili, que é dotado do tato, da retidão e atividade tão necessários a seu cargo de confiança”. As outras construções do hospital eram a cozinha, o dispensário, o consultório, a sala de exames e o estúdio fotográfico que Lutz mandara preparar. Amy Fowler refere-se ainda ao “belo chalé de madeira, rodeado por uma varanda” que o Conselho de Saúde construíra para a irmã que ia cuidar do estabelecimento.

Aquela ingênua inglesa, ainda imbuída do papel da missionária que remiria os padecimentos dos infelizes de Molokai e os pecados de todos quanto a tinham presenteado durante a viagem com donativos em dinheiro e espécie, via Kalihi como uma bonita e saudável estação próxima ao mar, rodeada por graciosas algarobeiras, prestes a transformar-se num “encantador jardim de Éden” assim que crescessem as árvores frutíferas, samambaias e flores que o

norte-americano John Hancock Kimball,22 presidente do Conselho, prometia plantar. Molokai também lhe parecera, para os que não se encontravam nos estágios avançados e dolorosos da doença, “uma arcádia de ociosidade sonhadora – uma terra em que se não ‘mana leite e mel', ao menos inhame e carne fresca para se ter de mão beijada” (p.19-20, 16).

A julgar pelas informações reunidas por Law (s.d., p.3), até chegar ao Havaí, a enfermeira inglesa não sabia que Molokai já era território das franciscanas, e teria ficado muito desapontada quando o Conselho de Saúde colocou sob seus cuidados a Kalihi Receiving Station. Ali, rapidamente seriam trituradas as suas fantasias, e a vida de Amy Fowler tomaria um rumo que certamente não estava nos planos da irmã Rose Gertrude.

Mapa da ilha de Oahu. Na litoral Sul, vê-se a península chamada

Diamond Head, próxima a Honolulu, onde ficava a Estação

Receptora ou Hospital de Kalihi (Whitney, 1890).

Vista parcial do Hospital de Kalihi, já como instituição norte-

americana. Foto obtida por Souza Araújo quando visitou o Havaí na

década de 1920 (1929, figura 19).

 

Hospital de Kalihi. Tipo de residência para dez hansenianos. Foto

obtida por Souza Araújo quando visitou o Havaí na década de 1920

(1929, figura 25).

Pavilhão central do Hospital de Kalihi. Foto obtida por Souza Araújo

quando visitou o Havaí na década de 1920 (1929, figura 23).

 

Hospital Kalihi. Abrigo para meninos segregados ao nascer para

evitar o suposto contágio. Foto obtida por Souza Araújo quando

Continuar: parte 2 de 4